| ciclo | 1º Ciclo |
| id | Gabriela-11 |
| pof | entrevista_Gabriela |
| keys | presidente a junta // festa // relação com a comunidade |
| nvivo | incidentes críticos |
| geo | Trancoso |
Agora, por exemplo, estava-me a lembrar de uma história: eu chegava todos os dias pelas 9h00, nessa altura estava sozinha com as quatro classes. Eram 17 alunos e eu tinha tal proximidade a um senhor que havia, velhinho, e ele todos os dias passava junto à escola para ir para a serra buscar lenha. Todos os dias ias buscar lenha à serra, mas tinha que passar pela escola, pelo caminho juntinho à escola. E um dia eu estava a entrar, abria a porta da escola e estava lá os miúdos e ele chegam ao pé de mim e diz “oh professora ande cá, ande cá!”. Eu fui lá ver o que é que ele queria e assim, a querer esconder dos miúdos, tirou do bolso das calças dele uma mão cheia de castanhas assadas e descascadas - para ver como são as coisas tão simples - “ande cá professora que tenho aqui castanhas assadas, é para si mas não diga nada!”. Ora veja bem, era a simpatia que o homem tinha por mim, que gostava que eu ficasse contente. Mas sempre tive boa relação com as pessoas. Assim, má relação… Ah! Lembro-me de uma vez que não gostei nada do presidente de junta. Portanto estava numa aldeia, estive lá quatro anos, e nós queríamos fazer uma festa de Natal. Pronto, e como sempre nós fazíamos um pedido à Junta de Freguesia para nos ajudar a organizar qualquer coisa para depois comprarmos prendinhas para os meninos. Qualquer coisa assim. E eu mandei-lhe um ofício, uma carta a dizer “senhor Presidente, agradecia que tivesse a amabilidade de nos dar qualquer coisa para as prendinhas dos meninos”. E ele mandou-me a dizer que não, que não tinha dinheiro para dar. Pronto e eu digo assim “Meu Deus do céu, eu nunca estive em nenhuma aldeia em que o presidente da Junta não colaborasse”, depois uma senhora que era vizinha dele - era avó de uma menina - e falou com ele. E ele disse “Não, não temos cá dinheiro nenhum para dar, não damos nada!”. E essa avó disse-me assim “oh professora, não deixamos de fazer a festa, não deixamos de fazer a festa. Não é pelo facto do presidente não querer dar nada que nós deixamos de fazer a festa. Por isso, se não podemos dar um carrinho maior, damos um carrinho mais pequeno”. Era assim uma senhora que colaborava bastante, mas ele também lhe disse a ela que não dava nada. Então eu disse “eu vou falar com ele!”. E então eu vinha para Trancoso, parei junto à casa dele, toquei à porta e disse “olhe, senhor presidente de junta, olhe que eu não peço para mim. Eu peço para os seus meninos, são os meninos da sua freguesia”. E ele assim, todo arrogante, “professora já disse, já mandei recado que não dou nada”. Mas assim muito mal humorado. E eu “pronto, não quer dar não dá! Mas lembre-se que não deixamos de fazer a festa por isso. E olhe, os meninos não são meus. Eu estou cá este ano, para o ano posso não estar, mas são seus. O senhor tem obrigação, são da sua freguesia, os meninos são seus e continuam a ser este ano e para o ano e para o ano. E eu tenho certeza que o presidente da junta não deve agir assim. Portanto, não é para mim que eu peço. Eu estou a pedir para a escola e para os meninos”. Mas talvez, daquilo que eu me recordo, tenha sido assim a coisa mais próxima de ser mal recebida. Portanto, também não foi bruto mas assim com duas ou três pedras na mão, assim com uma arrogância, “não dou nada, nem quero saber disso para nada”. Mas eu também tive a coragem de ir lá a casa e dizer “olhe, os meninos não são meus, são seus. São meus este ano mas para o ano podem não ser”. Talvez, os encarregados de educação não gostem muito desta atitude, porque se ele não podia dar 50 dava 20.