| ciclo | 3º Ciclo e Secundário |
| id | Maia-5 |
| pof | entrevista_Maia |
Eu costumo dizer isso às pessoas, não é uma relação de poder. Eles têm que perceber. Por exemplo, na avaliação deles, aquilo que eu lhes pergunto não é para meter na gaveta. E quando há bocado eu dizia a brincar, um miúdo…lembro-me perfeitamente dessa cena, ponderei aquele miúdo assim durante não sei quanto tempo, e decidi dar-lhe o 4 e não o 5. Eu depois percebi que era por razoes mais… [risos] eu achava que ele devia ter feito mais, mas ele já tinha feito muito, mas eu achava que ele podia ter feito mais. E o Português… “Hey, professora, trabalhei tanto, pá… Porque é que não tive o 5?”. “Não tiveste? Tu ainda não tiveste coisa nenhuma, estamos a conversar sobre as notas, não é? Faz favor…”. Ah, eu não faço aquela coisa por escrito, eu quero ouvi-los. E além do mais sou professora de Português, portanto disse: “Oh meu amor, convence-me, pá. Aprende lá, põe em prática aquilo que aprendemos sobre o discurso argumentativo e convence-me, pronto…”. Pronto, convenceu, convenceu-me e teve 5. A outra miúda dei um 20, assim, um 20. Eu até pus 20+. E os putos todos perguntaram: “Oh professora, gostou tanto desse trabalho da L.?”, ainda me lembro do nome dela. Ainda tenho esse trabalho… Era de Gondomar, aos anos que isto foi, aos anos que isto foi. E eu disse: “Oh L., sabes porquê?”, lembro-me perfeitamente, era as endeixas à Bárbara escrava, aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo, já não sei que viva de Camões, eu só disse: “Meus amores, comentem o que vos apetecer, não tem que ser um trabalho literário, digam o que vos aprouver sobre isto, o que vos vai na alma, não quero aqui grandes ensaios”. E aquela menina, sem nunca ter lido aquilo, nunca tinha lido, escreveu-me um texto, assim… Eu chorei, mas chorei mesmo na aula. Depois pedi-lhes desculpa, e eles disseram: “Não tem que pedir desculpa”, porque estavam mais 4 ou 5 a chorar ao fundo, portanto, uma coisa fantástica, eu disse-lhe: “Eu não era capaz de fazer isto com o tempo que tu tiveste, com tempo limitado, e sem conhecer antes”. Eu conheci antes, não é? Não era capaz. E os miúdos ouvirem isto também é importante. “Fizeste uma coisa que eu não sou capaz de fazer, e eu sou tua professora. E é uma coisa da minha área, ainda por cima”.