42.2 Eu tive medo

ciclo 3º Ciclo e Secundário
id Catarina-2
pof entrevista_Catarina
keys violência // agressão // autoridade
nvivo incidentes críticos

Temos que ser francos, só estudava em Portugal quem tinha dinheiro e quem tinha um estatuto que permitia pôr os filhos a estudar e não a render, a trabalhar, que era o que se fazia em todo o lado. E, portanto, a falta de civismo, a falta de educação - não no sentido de instrução, é falta de educação mesmo - a falta de valores, a maneira como os pais entram pela escola. Eu tive um pai no 12.º ano, repare bem, eu estava na aula com os miúdos e um dos meus rapazes, que me parecia que tinha alguns problemas, disse-me: “Professora, eu posso ir à casa de banho?” e eu disse-lhe: “Vai”. Eu deixava ir normalmente quando pediam. O rapaz tinha saído, de repente abre-se a porta e entra um homem completamente desatinado pela sala de aula dentro: “O não sei quantos?” - que era o miúdo que tinha saído - “O não sei quantos?”. Eu digo-lhe uma coisa:eu tive medo. Eu pensei que ele nos ia bater a todos. Mas tentei - olhe é o instinto de sobrevivência - tentei acalmar o homem e disse-lhe: “O senhor não pode estar aqui. Mas o que é que quer?”, eu até disse: “Ele não veio à aula”, que era para ele não ficar ali, se eu dissesse que ele tinha ido à casa de banho, ele ficava ali. Entretanto, toquei na campainha para ver se vinha um funcionário e ficou tudo em pânico dentro da sala, tudo em pânico, incluindo eu. Mas eu procurei acalmá-lo, disse que ele não tinha vindo à aula, os colegas também disseram: “Não veio, não veio!”. Ele ia desfazer o filho! Não sei qual era o motivo. Ele ia desfazer o filho. E nisto veio o funcionário. Eu não sei como ele entrou na escola, como ele entrou pelo corredor dentro, como ele deu com a sala. Ele não entrou ao acaso, ele deu com a sala. O rapaz - porque nem sequer havia telemóveis - e ele realmente pediu para sair pouco tempo antes do pai fazer aquela entrada, mas a sensação de que nós estamos sujeitos, tive aquela sensação, sabe, de que a gente está aqui sujeito a um arraial de porrada. Nesse mesmo ano, ou no ano a seguir, uma colega minha de Português e de Francês, que ainda está no ativo, estava na aula e entrou uma encarregada de educação, bateu-lhe forte e feio. Dentro da sala de aula! Ela depois levou-a para tribunal. Eu nem sei como é que aquilo ficou, mas bateu-lhe a soco e foram os alunos que pegaram na mulher. Quer dizer, isto era impensável, impensável. Nos primeiros anos em que dei aulas, era absolutamente impensável. E eu fui diretora de turma muitos anos, portanto, convivi com várias gerações de pais. Não foi só de alunos, mas de pais. E posso-lhe contar um episódio ainda dos anos 80, em que eu era diretora de uma turma de Desporto, e como era uma turma quase só masculina, tinha para aí duas ou três raparigas, e eu com eles, tinha um à vontade, cascava-lhes, pronto! [risos] De vez em quando, eram uns tabefes [risos]. Lembro-me de estar numa sala, e eu ia a passar - porque eu dava normalmente aulas no meio deles, eu dava aulas em pé - e vinha a passar por eles, era primavera, ou início da primavera, e eles parece que ficam meio desatinados - e estávamos a dar Sócrates, e oiço assim de trás: “Oh, professora, hoje entre a Primavera!”, imagine eu a falar de Sócrates assim pela coxia fora e, de repente, ele diz aquilo. Ai, passou-me uma coisa pela cabeça - aquilo era uma sala de desenho e tinha os estiradores - e eu virei-me para trás e PRAS [onomatopéia], e ele bateu com a cabeça no estirador. E eu: “Ai meu Deus! Que lhe abri a cabeça” e ele olhou para mim, virou-se para mim e disse “Caramba, a professora tem tem uma força nessa mão”. E eu disse “É do volei. Meninos isto é do volei. Desculpa, eu não queria que fosse com essa força. É do volei”. Se fosse hoje, podia ser suspensa, quase de certeza. E nada, aquilo passou-se e no ano a seguir, numa das reuniões, o pai veio falar sobre ele e eu perguntei: “Olhe, o seu filho nunca lhe disse que o ano passado levou um cachaço meu que foi com a cabeça ao estirador? Deve ter feito um galo na cabeça”. E ele disse: “Não! Ele não me conta isso, que ele sabia que se me contasse levava outro meu” [risos]. Isto que eram os pais tradicionais, porque no fundo isso é educar. Agora é precisamente o contrário. Não levou tabefe nenhum, a professora só não olhou para ele durante a aula e já está o pai lá a dizer: “A professora, tomou de ponta o meu filho”. Eu recebia queixas nos últimos tempos ridículas, absolutamente ridículas. É porque não olhou para mim, é porque não se dirigiu a mim. E eu uma vez até me irritei na sala do diretor, disse: “Olhe, eles precisam fundamentalmente de educação, educação e respeito por normas. Eles estão numa escola que tem um regulamento interno e eles têm que respeitar, senão o senhor põe-no num colégio. E mesmo aí vai ter que respeitar o que o colégio entende. Isto é o sistema de ensino público, aqui tem o regulamento interno - e nós tínhamos no regulamento interno - e o senhor, ao pô-lo aqui, sabe que tem que aceitar isso. O senhor e o seu filho, pronto!”. Mas era uma falta de noção de que todos os direitos implicam deveres. Todos! Todos os direitos implicam deveres. Mas eles só falam de direitos. É como se os filhinhos só tivessem direitos. E pode crer que não era de classes mais baixas. Muitas vezes, eram filhos professores também, e os pais iam lá fazer estas cenas, eles próprios professores. Mas eu reduzo muito isto a uma ignorância, mesmo a uma espécie de analfabetismo funcional. Porque uma coisa é pôr toda a população de um país a estudar, outra coisa é realmente ter a população de um país mais instruída. E eu não sei se temos. Sinceramente, não sei se temos. Hoje, nas comunicações, que são todas via internet, a gente vê discursos absolutamente pavorosos, não só pelo português em que são escritos - que de português já pouco tem - como pelo que lá é defendido, pelas opiniões que as pessoas dão. Opiniões, absolutamente, como é que eu hei de dizer? Que irrompem tipo vulcão. E as pessoas passam aquilo para a internet e os outros leem. Às vezes, dou-me trabalho de ler isso, porque eu fico triste. Sinceramente, fico triste. Acho que depois do 25 de Abril, o que a gente fez e que comemorou, o estado, digamos civilizacional em que estamos hoje não é melhor. As pessoas têm acesso à educação, há mais licenciados e mais não sei quê, mas há tanta ignorância. É tudo fruto da ignorância. Porque aquilo que nós chamamos educação, as normas de conduta social são aprendidas, têm que ser ensinadas. Se não forem ensinadas, a criança não as cumpre. Eu, se deixar o menino fazer tudo, o menino berra e fazem aquelas birras que a gente vê fazer. Os meninos nascem, crescem até à adolescência, até à idade adulta, não aceitando um não, não aceitando o sofrimento. Educar é sofrer de uma certa maneira. Nós temos que sofrer. Têm que nos dizer que não, têm que nos castigar quando é preciso. Educar é isto, é dizer não, não, não faz, não podes fazer. E se fizeres és castigado, mesmo que repitas, és castigado outra vez, porque senão a criança nasce numa espécie de mundo selvagem, nasce como um selvagem, cresce como um selvagem e vai sofrer imenso, porque a realidade não é assim. Ela vai levar com nãos, ela vai levar golpes e depois deprimem, suicidam-se. Isto é muito fruto de uma educação permissiva, em que os pais não querem ter chatices, os pais têm medo dos filhos. Hoje, eu vejo muitos pais com medo dos filhos, mas medo mesmo. E não pode ser assim, não pode ser assim! O pai é a autoridade, a mãe é a autoridade e ser autoritário, num certo sentido, é gostar deles. Não é não gostar deles, é gostar deles. É estar a prepará-los para uma vida que não é rosas, nem é o que eu quero fazer. Eles dizem, mesmo nas próprias aulas, às vezes chegam a dizer: “Ah, eu faço o que eu quero com o meu pai, eu faço o que eu quero da minha mãe”. Isto era impensável há umas décadas atrás. Ninguém fazia o que queria do pai e da mãe. Nem pensar, não é? Mas estas novas teorias e a Psicologia tem muita culpa no sentido em que se desculpabilizam uma série de comportamentos que são vistos… olhe, há um livro chamado ‘O Pequeno Tirano’ que é feito por um espanhol, em que ele conta casos, aliás, ele… julgo que ele veio cá a Portugal, depois fazer estudos com casos de crianças de cá. Aquilo está tudo invertido. E isto é visível. Eu notei isso. Por acaso notei isso. Acho que a permissividade vem aumentando e a gente pergunta: “Os miúdos são mais felizes?”. Não são! E eu vejo por aquilo que eles falam, inclusive até das próprias aulas, eles aceitam a autoridade desde que seja uma autoridade consentida. E eles aceitam. Eles preferem uma autoridade do que o caos, do que o laissez faire, laisser passer, do que um salve-se quem puder. Eles preferem isso. E quando a gente os interroga, e eu fiz inquérito sobre isso nas aulas, e eles queixam-se, depois, que: “Não estamos a aprender nada.