| ciclo | 2º Ciclo |
| id | Esmeralda-2 |
| pof | entrevista_Esmeralda |
| keys | Cidadania // apoio emocional // gangs juvenis |
| nvivo | incidentes críticos |
| geo | Lisboa |
Não sei se eu lhe disse, eu tenho uma criança que tem necessidades educativas especiais, sem dúvida, que no início do ano viu o pai ser morto no dia do aniversário. Esfaqueado. Vem nas notícias. E essa está a ser acompanhada, evidentemente, eu sei que ele não vai ter um rendimento que eu precise ter. Estar sempre a gerir a minha exigência com a minha compreensão e com a ternura, porque às vezes eu já não tenho vontade de lhe dar ternura, porque ele desafia permanentemente. Mas eu percebo que esse desafio é a carência da atenção. Portanto, onde é que ele está o tempo todo? Na escola. Porque se ele sair da escola, a família não controla, ele vai fazer disparates com os gangs, com os grupos. Eles partilham essas coisas, as coisas más que fazem. No outro dia dizia-me ele. “Eu já fiz coisas más.” Estávamos a falar, eu sou professora de Cidadania também. Pronto, era isso que eu ia dizer. Mas por acaso foi sobre o Natal, para preparar um… Eu gosto de preparar umas coisas em que eles fazem definições. Olha, estava com elas aqui a corrigir as definições. E então definições de coisas boas, não é? De dádiva, e depois eu explicava o que é que era para eles. Partilhar, amor, amizade, lealdade. Ao mesmo tempo ia explicando e ia pedindo que eles escolhessem três e me fizessem a definição. E ele pergunta-me “e coisas más?” E eu “não, K., não”. “Mas eu já fiz coisas más”. A noção do bem e do mal. Isso também é importante. E ele quis partilhar. “Eu matei com uma pedrada uma galinha.” Eu disse “mas o que é que a galinha te fez?” “Foram os outros mais velhos que me pediram: Tens que ter coragem para matar a galinha”.