| ciclo | 1º Ciclo |
| id | Roberta-6 |
| pof | entrevista_Roberta |
| keys | Visita de estudo // Família // Doenças // Comunidade // Educação inclusiva // Obstáculos // Oportunidades // Institucionalização |
| nvivo | Incidentes críticos // Obstáculos |
| geo | Lisboa |
Assim de repente, histórias engraçadas tenho imensas de certeza, mas de repente não me lembro de nenhuma para contar. Posso contar uma, que eu nunca me esqueci desse momento. Mas tenho muitas outras, de certeza, e não me lembro agora. Então eu estava a organizar uma visita de estudo com a minha turma de quarto ano, a meias com outra professora que também ia levar o quarto ano, ao Porto. Íamos três dias para o Porto, e correu muito bem. E eu queria levar a turma toda e havia um aluno cigano, cujos irmãos andavam também lá na escola e que, sempre que havia visitas de estudo, essa família não deixava os miúdos irem. E disseram-me logo “ah, o D. não vai!”. E eu disse “Ah, eu vou falar com o pai”. Mas o pai dava-se muito bem comigo, desde sempre, e fazia tudo o que eu pedia. Eu, quando o chamava, ele vinha logo. E se eu pedia para ele comprar ao miúdo um caderno, ele comprava. Pronto, era muito cumpridor e contava-me tudo o que se passava com os apoios que tinha. Ele incompatibilizou-se com várias pessoas lá na escola, essa incompatibilidade era associada às questões dos apoios que ele tinha, porque havia quem achasse mal que ele tivesse aqueles apoios todos. Eu nunca falei nisso. Ele foi-me sempre dizendo o que é que ganhava, o que é que não ganhava. E o que eu sei é que ganhei um amigo, que de vez em quando encontrava-o, eu vou à Feira do Relógio regularmente e encontrava-o. Uma vez fui a um concerto de Xutos e Pontapés e lá estava o meu aluno, com ele, a vender balões, porque o meu aluno também vendia e andava no metro também a pedir. Enfim. Um dia quando nós estávamos a organizar isto, eu pensei “como é que eu vou convencer o pai do D. a deixá-lo ir?”. Chamei o senhor, tive uma reunião com ele, expliquei-lhe como é que ia, para onde é que íamos, como é que íamos. E disse-lhe “ele vai comigo, vão mais pais e vai outra professora”. E entretanto expliquei-lhe os custos que aquilo ia ter e disse que não era preciso pagar a quantia que ia caber a cada um porque nós tinhamos juntado bastante dinheiro em vendas. Mas que era preciso, pelo menos, entrar com uma determinada quantia. E ele só me disse assim “está bem, quanto é que eu tenho de lhe dar?”. E sacou de um molho de notas “Quanto é que eu tenho de dar?”, e eu disse qual era o mínimo que nós tínhamos estipulado para os miúdos com dificuldades e ele deu-me logo. Se eu tivesse dito três vezes mais, ele tinha dado três vezes mais (risos). E depois a piada disto é que o aluno já estava no quarto ano e não sabia ler. Ele era do ensino especial e não sabia ler, coitado, estava a começar a aprender a ler no quarto ano. E o que é que aconteceu? Nós tínhamos que nos encontrar no Cais do Sodré muito cedo, às 07h30 da manhã. E eu fui daqui, fui de minha casa mais cedo. Cheguei lá às sete e já lá estava o D. com uma mala de cartão. Mesmo mala de cartão! E quando eu cheguei ao pé dele, disse “Então já chegaste há muito tempo?”, e ele “ui, há tanto tempo! Já estou farto de ler”, e eu “Trouxeste livros?”, “Já estou farto de ler”. Ele, que não sabia ler, levava o Tio Patinhas ou lá o que era para se entreter e disse-me “Já estou farto de ler”. A excitação da viagem foi tanta que ele foi para lá cedíssimo, sozinho, ele estava ali sozinho, com dez anos, numa estação de comboios. Foi connosco e foi espetacular. Para mim foi muito bom e para ele também. Depois tenho outras histórias muito bonitas. Tenho um um aluno - que ainda é o meu menino - que é um aluno que eu tive quando fui em 1994 para esta escola. Eu tive-o do primeiro ao quarto ano, e ele quando estava no primeiro ano perdeu a mãe, portanto, com seis anos, perdeu a mãe. Da mesma maneira como eu perdi a minha com um cancro nos pulmões, sendo que aquilo que eu passei com 30 anos - que foi ver a minha mãe sem conseguir respirar e com oxigénio em casa e a ver-se que ia morrer - ele passou com seis. E depois disso, depois da mãe morrer, eu protegi-o imenso! Ele estava com o pai, ficou com o pai e eram três irmãos. E o pai já bebia muito e começou a beber ainda mais depois da morte da mãe. Mas ele tratava bem dos filhos, só que eles viviam numa casa horrível, com umas condições horríveis, e eu um dia trouxe-o à minha casa para passar o fim de semana comigo, a ele e ao irmão. Eu era professora dele, mas trouxe-o a ele e ao irmão, que era de outra professora, para passarem o fim de semana aqui em casa com os meus filhos. Bem, primeiro, mal chegaram tive que lhes tirar quilos de piolhos, irem direto para a banheira, depois pronto, tivemos um fim de semana muito intenso, fomos ao cinema, fizemos coisas, passeamos, compramos roupa. E depois eu fui levá-los a casa, e eu era defensora de que aqueles miúdos tinham que estar com o pai, porque o pai era pai e apesar de não ter um comportamento exemplar, era pai, gostava muito deles e acabava por se calhar ser melhor do que eles serem retirados à família. Mas quando fui levá-los a casa - eles também tinham vindo para a minha casa todos mordidos porque havia pulgas na casa deles - quando eu fui levá-los a casa e vi a casa… E vi uma rapariga que lá estava que era uma companheira do pai, nessa altura, que era uma miúda com 15 anos, fiquei tão horrorizada, tão horrorizada! Com o mau cheiro, cheirava a xixi porque a irmã deles fazia xixi na cama com 12 anos e depois dormiam num beliche que se armava, nem sequer podiam ter o beliche aberto. O pai e a dita cuja também dormiam num sofá que também era fechado. Era tudo apertadíssimo, uma coisa horrível! Depois, nos dias seguintes, apareceram outra vez todos picados e pronto. E eu tinha sido consultada pelo assistente social que acompanhava e acabei por falar com a assistente social e dizer o que é que eu tinha visto e isso contribuiu para que eles fossem retirados ao pai. Para mim foi um bocadinho violento. De certa maneira percebi que fui eu que os retirei, não é? Se eu não tivesse atuado - não fui eu que retirei - mas eu dei azo a que eles fossem retirados. E senti muita responsabilidade nisso. Mas acho que correu tudo muito bem. Eles foram para a Casa Pia. Curiosamente estavam lá quando aconteceu o caso do Bibi, mas acho que não lhes aconteceu nada. Mas ele continua a ser meu amigo e encontramo-nos de vez em quando. Agora falamo-nos no Instagram, de vez em quando, e andamos a combinar… Ah, mas isto para dizer que ele queria ser cozinheiro e é cozinheiro! E o irmão é pasteleiro. Portanto acho que estão os dois com trabalho. Estão os dois bem, o irmão já tem uma mulher e uma filha. E ele já tem mulher há bastante tempo. Está tudo bem encaminhado. Estragou-se a relação com o pai, não sei bem porquê. Ele disse-me “não tenho estado com o meu pai e o meu pai é sempre a mesma coisa”. Mas acho que não fiz mal, porque acho que eles precisavam deste apoio. E tiveram sorte também, porque nem todos os sítios são bons.