(Prog. Ref.: AHD602 - DAT, 1973-07-03)
Maria Leonor - De acordo com o que combinámos na semana passada …
Gil Montalverne - …Devemos começar hoje a falar de um assunto importantíssimo para a compreensão da linguagem relativa às artes em geral e…
ML - …E à música, em particular. Por outras palavras, combinámos começar hoje a falar de estilo.
GM - Sim, de estilo, mas…
ML - Mas?
GM - Sabe, é que, estive a pensar nisso e concluí que, bom, que é indispensável falarmos também de maneira.
ML - De quê?
GM - De maneira. Algo de muito diferente de estilo.
ML - Está bem, não digo o contrário. Qual é a dúvida?
GM - A dúvida é só que, bom, que sinceramente, eu nem sei por onde deveremos começar, se pelo estilo, se pela maneira.
ML - E … não poderemos começar pelas duas coisas ao mesmo tempo?
GM - Talvez não seja má ideia. Não me tinha ocorrido a hipótese. Bom, de qualquer maneira, você talvez ignore que a palavra maneira foi já um termo técnico musical na idade média, pela altura, mais ou menos, em que D. Afonso Henriques conquistava Lisboa aos Mouros.
ML - Ignorava isso completamente.
GM - Um tempo remoto, portanto, em que se praticava música como esta:
GM - Devo dizer que, embora me esteja a referir ao período a que pertence isto que acabamos de ouvir, aquilo que …
ML - O período trovadoresco, não?
GM - Sim, sim, o período trovadoresco. Mas, como eu ia a dizer, vem ainda mais a propósito ouvir outro tipo de música, também praticada nesse tempo, música eclesiástica do…
ML - Também do tempo do nosso D. Afonso Henriques?!
GM - Não, não exactamente do tempo do D. Afonso Henriques, mas cultivada nas igrejas do tempo dele:
ML - Quer então dizer que, nesse tempo, há mais de 800 anos, já se empregava a palavra maneira como … como termo técnico musical, por assim dizer.
GM - Sim, em latim era então a palavra maneria ou maneries.
ML - E o que é que significava?
GM - Significava espécie, qualidade, e também uso e costume, maneira habitual de fazer, percebe?
ML - Esse termo teria sido mesmo usado em Portugal? Refiro-me ainda ao tempo do nosso D. Afonso Henriques.
GM - Pode ter a certeza que se usou, e em relação a música como esta:
ML - Porque é que você diz isso com tanta convicção?
GM - Porque é que tenho a certeza de que se falou de maneira como termo musical no princípio da nossa primeira dinastia? Pois é muito fácil explicar! É porque o termo aparece mormente em tratados sobre os tons eclesiásticos no âmbito da ordem de Cister.
ML - Ah, sim, estou a perceber.
ML - Não quer explicar-me melhor o que é que então se entendia por maneira como termo musical?
GM - Está claro que quero. Segundo esses tratados, o sistema diatónico compreendia quatro maneiras. Ora, como você sabe …
ML - Espere aí, não vá tão depressa, porque o que eu não sei é o que quer dizer a palavra diatónico!
GM - Desculpe. A palavra diatónico significa, em resumo, que se trata de … que se trata de música baseada nalguma escala que se move por tons. E só em poucos casos, geralmente dois, por meios-tons.
ML - Então, a escala hoje mais conhecida, a escala de dó maior, é diatónica?
GM - Claro que é. Ora repare. Do dó ao ré, um tom; do ré ao mi, um tom; do mi ao fá, meio-tom; do fá ao sol outra vez um tom; do sol ao lá também um tom; do lá ao si um tom; e finalmente, do si ao dó, meio-tom.
ML - Continue lá a sua explicação. Eu já sei que os tais teóricos musicais do século XII dedicados à ordem de Cister diziam que o sistema diatónico compreendia 4 maneiras.
GM - Ora bem, essas maneiras distinguiam-se pelas posições relativas de tons e meios-tons.
ML - Por exemplo?
GM - Por exemplo, a primeira maneira era aquela em que, a partir da nota final, a escala sobe por tom e meio-tom, e em que a chegada à mesma nota final se faz descendo por um tom.
ML - Bem, isso é um bocado técnico demais para mim.
GM - Talvez. O certo é que, naquele tempo, os entendidos sabiam distinguir as quatro maneiras dessa música.
ML - Isso que você tem estado a explicar não tem nada que ver com os chamados modos?
GM - Está claro que tem! E era através dessa noção de maneira, que os teóricos do tempo do nosso D. Afonso Henriques, na ordem de Cister, encontravam ligação com a teoria musical grega. Mas na idade média, a palavra maneira também significou outros modos.
ML - Outros modos?
GM - Sim, modos rítmicos, em vez de melódicos. Neste sentido, explicava-se então que a maneira era o conhecimento da longura e da brevidade dos sons.
ML - Isso tudo poderá ter muito interesse, mas o emprego musical moderno da palavra maneira não é esse, de tempos imemoriais, pois não?
GM - A acessão moderna provém, creio eu, do século XVI. Nessa altura, a palavra era usada como designação do modo pessoal, individual de cada artista, desde que não houvesse infracção dos princípios fundamentais. Ora, isto é que se torna importantíssimo para chegarmos ao estilo.
ML - Não entendi bem o que é que você acha importantíssimo.
GM - É essa condição de que a personalidade do artista quinhentista se afirme, sem infracção aos princípios fundamentais da sua arte.
ML - Não me quer dar exemplos do emprego da palavra maneira nesse período?
GM - Olhe, por exemplo, o Caccini, do fim do século XVI, ou princípio do XVII, já no alvor do barroco, preconiza uma nobile maniera di cantare. Por seu turno, Praetorius ensinou canto à hodierna maneira italiana.
ML - Isso que você tem estado agora a dizer, já são acessões mais parecidas com a actual, não?
GM - Hhm, seria melhor dizer “as actuais”, no plural. Mas, não nos apressemos, porque o assunto é importante e convém ficar bem sabido. A não ser que você já esteja demasiado cansada…
ML - Não, não! Este assunto interessa-me. Para ser sincera, nunca percebi completamente em arte, em música em especial, a diferença entre maneira e estilo.
GM - Olhe, no fim do século XVII, no tempo digamos dos nossos Afonso VI e Pedro II, a palavra maneira em música teve muito que ver com ornamentos: trilos, grupetos, apojecturas, que se empregaram muito nesse tempo.
ML - Por compositores como…
GM - Olhe, como por exemplo, o grande Couperin. Os franceses dessa época adoravam ornamentos na música mais ou menos palaciana:
ML - Nesse sentido distinguiam-se maneiras diferentes?
GM - Sim, consideravam-se maneiras diferentes os ornamentos escritos sobre o pentagrama e os que eram improvisados sem estarem escritos.
ML - Eu sugeri-lhe que começasse ao mesmo tempo com maneira e estilo mas pelos vistos você deu a prioridade à maneira. É à sua maneira?
GM - Não, não, não, não, não, eu não me esqueci do que você sugeriu e muito bem. Foi até por isso que chamei a sua especial atenção para, … para aquela condição quinhentista de a maneira individual não contrariar os princípios fundamentais da respectiva arte. Porque é aqui que topamos precisamente a noção de estilo.
ML - O que quer dizer então que o conceito de estilo tem mais que ver com os princípios fundamentais da arte?
GM - Sim, sim, sim, isso mesmo.
ML - Mas há vários estilos, enquanto que…
GM - Enquanto que também há vários princípios fundamentais da arte.
ML - Isso não é uma contradição? Se se trata de princípios fundamentais deviam ser sempre os mesmos!
GM - Eh, deviam, se pudessem ser, eh, se não dissessem respeito a homens, se não fossem móveis históricos. Cada momento histórico tem os seus princípios fundamentais e cada artista individual também, até certo ponto.
ML - Parece-me que estou a perceber. Mas, não quererá concretizar?
GM - Mas nada mais fácil. Olhe, pense no princípio fundamental da música do barroco final do tempo de Bach, segundo o qual as narrativas de uma oratória tinham de ser cantadas em recitativos com…certos caracteres e com determinado tipo de acompanhamento:
ML - Esse princípio fundamental da música do tempo de Bach determina, portanto, um estilo?!
GM - Sim. Contribui precisamente para que se defina o estilo barroco desse período. Mas havia outros princípios, por exemplo, o de harmonizar os corais Luteranos de maneira relativamente simples, acessível aos fiéis:
ML - Se bem estou a compreendê-lo, um desses princípios fundamentais que contribuem para definir o estilo de uma época pode ser virado do avesso, no período seguinte, por outro princípio fundamental?
GM - Foi, por exemplo, o que aconteceu em relação ao período de Bach e ao de Mozart. No tempo de Bach ainda se achava que os sons graves da música deviam ter um peso que se notasse bastante, para reforçar a dignidade do estilo:
ML - Mas, a pouco e pouco, no século XVIII, o gosto musical foi evoluindo para uma arte mais leve e elegante, não?
GM - …para uma música em que, precisamente, se pretendia que o ouvinte não desse demasiado pelo peso das notas graves:
GM - Esta maior leveza e mobilidade dos sons graves é um novo princípio fundamental, no tempo de Mozart, e contribuiu muito para a definição do chamado estilo galante.
ML - Não seria possível um paralelo com outras artes?
GM - Possibilíssimo, como diria o Fígaro das “Bodas”…
ML - Por exemplo, um princípio fundamental da pintura do Renascimento?
GM - Óptimo. O princípio de respeitar as leis da perspectiva.
ML - E um princípio fundamental da pintura do Barroco?
GM - O de iludir ou disfarçar as mesmas leis da perspectiva.
ML - Sim, não há dúvida de que é um paralelo. Ao peso dos sons graves, na música de Bach, corresponde o geometrismo das regras da perspectiva da pintura do Renascimento…
GM - E à ilusão das mesmas regras, corresponde…?
ML - …Corresponde, neste paralelo, a leveza, a elegância da música de Mozart mais característica do estilo galante.
GM - Para a semana continuamos.
ML - Não quer combinar já algum aspecto bem definido do problema do estilo e da maneira?
GM - Para de hoje a oito dias?! Eh! Bem, gostaria de relacionar o que acabei de lhe dizer com um ponto de vista de muito respeito.
ML - De quem?
GM - Do homem que escreveu o Fausto e se chamou…?
ML - … Göthe.