Antena 2
Memória – O arquivo da rádio televisão portuguesa
…continuamos hoje com a transmissão de alguns dos programas “O gosto pela Música” de autoria de João de Freitas Branco. O programa que vamos ouvir de seguida pertence a um ciclo que João de Freitas Branco dedicou a cantores célebres que passaram pelo teatro nacional de São Carlos. Foi gravado em 1973 e tem a locução de Maria Leonor e Gil Montalverne.
- Separador “O gosto pela Música” - um programa do Dr. João Freitas Branco.
ML – Uma pergunta que eu tenho andado pra lhe fazer o Famoso Tito Schipa nunca esteve em São Carlos, ou melhor, nunca cantou e representou lá ?
GM – Não representou mas tomou parte num concerto em que foi acompanhado pela orquestra sinfónica da emissora nacional, mas se não se importa deixe-me dizer-lhe outra coisa antes de voltarmos ao assunto Schipa.
ML – diga lá
GM - É que depois de nas nossas últimas conversas ter-mos falado tanto do Caruso e do Stracciari no São Carlos o que viria agora a propósito, cronologicamente, seria falar das sensacionais actuações do Titta Ruffo também no São Carlos mas como…
ML – Como você já me disse muitas coisas dessas actuações talvez pudéssemos passar a frente…
GM – Sim, mas não sem eu lhe dizer que além de existirem gravações do Caruso e do Titta Ruffo separadamente também gravações desses dois colossos em conjunto; gravações duplamente históricas por assim dizer.
ML – Posso fazer-lhe mais uma pergunta ou mais umas perguntas sobre o Tito Schipa ? sabe que, se não me engano, o Schipa foi o primeiro grande cantor que eu vi na vida directamente … não acha que ele era um grande cantor ?
GM - A melhor resposta a esse pergunta vai dar-lhe o próprio Schipa.
ML – Não há dúvida que a melhor resposta foi ésta pelo próprio Schipa mas mesmo assim eu gostava de saber a sua opinião sobre ele… conheceu-o ?
GM – Conheci, quer dizer, estive com ele duas ou três vezes, lembro-me de que uma delas no palco do Coliseu mesmo antes de ele ir para a cena do “Sonho da Mannon”, estava também o maestro Pedro de Freitas Branco que dirigia a récita: Uma das últimas coisa que o Schipa fez, antes de entrar em cena, foi recomendar ao maestro: “no sonho a orquestra pianíssimo o mais possível, preggo”
ML - Mas concretamente o que é que você pensa da arte do Schipa?
GM - Eu fui sempre um admirador incondicional dele,tanto como escola de canto, como no aspecto da inteligência musicoteatral. Não sei se sabe que, nos meios operáticos.
GM – Eu fui sempre um admirador incondicional dele como escola de canto como no aspecto da inteligência músico-teatral… não sei se sabe que nos meios operáticos internacionais, e com bastante injustiça, os tenores ma sua generalidade tem fama de nada terem de águias … percebe o que eu quero dizer?
ML – Não é difícil de perceber
GM – Na Alemanha, essa jucosa injustiça, chega ao ponto de se dizer que os graus do adjectivo estúpido são: estúpido mais estúpido, tenor…
ML – imagina!
GM – Ora bem, o maestro Pedro de Freitas Branco, conhecia muito bem Titto Schipa e com ele trabalhou muitas vezes, costumava apontá-lo como um exemplo que só por si bastaria a desfazer essa lenda da obtusidade de todos os tenores e com certeza que Pedro de Freitas Branco tinha razão … basta ouvir as interpretações do Schipa
ML - O que geralmente se apontava como principais virtudes do Schipa? A começar naturalmente era a beleza natural da voz.
GM - Engana-se.. pelo contrário o Schipa tinha reputação de ser tão inteligente que conseguia tornar, extraordinariamente atractiva uma voz cuja o timbre não era naturalmente bonito, além disso também não era uma voz forte, a escola de canto é que era perfeitíssima… desde a transparente emissão das vogais até o incrível domínio da respiração; os contrastes entre recitativos e areosos feitos pelo Schipa eram magistrais e a arte de frasear não lhes ficava atrás como uma elegância e sempre que preciso, com uma delicadeza insuperáveis.
ML – Como é que você faria uma comparação entre o Schipa e o Beniamino Gili?
GM – Bem, o Gili foi com certeza melhor dotado de voz pela natureza … nunca ouvi voz mais bonita, mais maviosa, uma voz d`ouro como o meu pai costumava dizer mas era também uma voz mais volumosa muito mais que a do Schipa, por outro lado, eu creio que o Schipa levava quanto a riqueza de meios estilísticos… os adversários do Gili acusavam-no de cantar sempre num estilo lacrimoso.
ML - Então devia ser um grande intérprete de “Una Furtiva Lácrima” do Elixir do Amor.
GM - E era mesmo como aliás o era também o Schipa como sabe.
ML - Não poderíamos ouvir agora uma gravação do Gili?
GM - Eu acho até que temos a obrigação disto
ML - O Gili cantou muitas vezes no São Carlos; não cantou?
GM – sim muitas vezes, espectáculos inesquecíveis os quais eu tive a sorte de assistir, aliás também me lembro de ter assistido no Coliseu a um Louen Green com o Gili.
ML - É espantoso que o mesmo tenor pudesse cantar o Elixir do Amor e o Louen Green.
GM - O repertório do Gilli era espantoso nesse aspecto e embora ele dissesse que só havia de cantar o Otelo quando tivesse a voz arruinada, a verdade é que ele gravou trechos do Otelo
ML - Esta gravação da entrada do Otelo pelo Beneamino Gilli interessa-nos especialmente, Não tem mais trechos do Otelo gravado pelo Gilli ?
GM Eu faço questão porque ouço o monólogo do terceiro acto também cantado por ele; Beniamino Gilli, apesar de tudo isto serem gravações antigas com reproduções defeituosas se percebe a qualidade da voz e os caracteres da interpretação.
ML Realmente apesar da gravação ser antiga percebe-se que o cantor era de primeiríssima ordem.
GM - Quem conheça só Beniamino Gili só pelas gravações não pode fazer uma ideia exacta do que ele era como cantor mas creio que mesmo assim, estas e outras gravações bastam a que se compreende que Gilli ganhou amplamente o direito de ser contado entre os maiores cantores de todos os tempos que é como quem diz…
ML – Que é como quem diz um dos maiores também que pisaram o palco do nosso teatro de São Carlos
Separador Final !