O GOSTO PELA MÚSICA
Um Programa do Dr. João de Freitas Branco
Memória, O arquivo da rádio difusão portuguesa.
Introdução – Continuamos hoje com a transmissão de alguns dos programas “O gosto pela música” da autoria de João de Freitas Branco. O programa que vamos ouvir de seguida pertence a um ciclo que João de Freitas Branco dedicou a cantores célebres que passaram pelo Teatro Nacional de São Carlos. Foi gravado em 1973, e tem a locução de Maria Leonor e Gil Montalverne.
Gil Montalverne – Continuando a falar-lhe de compositores célebres que pisaram o palco do São Carlos, eu vou agora…
Maria Leonor – Mencionar mais algum grande cantor português, outro da categoria dos irmãos Andrade ou do…
GM – Não, não, não, não… para já, em que eu estou a pensar, é na festejadíssima Adelina Patti.
ML – A célebre Patti? Aí está um nome que não caiu no esquecimento. Ainda hoje se fala bastante dela, não é?
GM – É verdade! Ainda. Quase tanto como se fala ainda de um caruso.
ML – Mas eu confesso que… a respeito da Patti pouco mais sei do que…Que foi uma cantora célebre, não se pode dizer que saiba muito, não acha?
Risos!
ML – Nem se quer sei se era soprano, meio-soprano ou contralto.
GM – Era, era Soprano! Soprano e Filha de Soprano, Caterina Barilli Chiesa Patti…
ML – Espero que o pai não fosse também soprano.
Risos!
GM – Não, não era soprano. Mas era cantor profissional. Era o tenor Salvatore Patti. Nascido em Catania, salvo erro, em 1800. A Patti nasceu durante uma tournée dos pais. Daí resultou ser madrilena, mas de nacionalidade italiana é claro!
ML – Em que ano nasceu a Patti?
GM – Em 1843. Era portanto da geração… digamos do Gabriel Fauré ou do nosso Eça de Queirós. A Patti começou a estudar nos Estados Unidos. Foi menina-prodígio.
ML – E onde foi que estreou como cantora de Ópera? Na América?
GM – Sim, sim! Mais precisamente em Nova York, aos 16 anos.
ML – Em que Ópera?
GM – Na Lucia di Lammermoor.
ML – Adelina Patti teve logo grande êxito no princípio da carreira?
GM – Logo! Tinha todos os requisitos de uma prima donna de ópera. Voz excepcional, também na extensão, o que nos faz desde logo pensar na Calas, em relação ao nosso tempo. Dotes de interpretação musical, muito comunicativa, envolvente e entre acariciante e dramatizante.
ML – Depois de Nova Iorque deve ter circulado logo por vários teatros de ópera do mundo, não?
GM – Pouco depois teve um enorme triunfo em Londres no Covent Garden, na La Sonnambula de Bellini.
GM – Está claro que um fenómeno operático, como era Adelina Patti, não podia deixar de adoçar o apetite de todos os melómanos.
ML – Depois de Nova Iorque e Londres, a Patti deve, portanto, ter feito grandes tournées e compreende-se que não tenha deixado de vir também ao nosso São Carlos. E em Itália, quando foi que ela se revelou?
GM – Foi em 1866 no Teatro Regio di Torino.
ML – Entretanto, naturalmente, o repertório da Patti foi-se alargando, não?
GM – Sim, sim, eu já lhe falo disso! O que eu ia agora contar-lhe é que, também a Patti teve uma curiosa história de casamentos, o que não é raro nas crónica das primma donnas.
ML – Também casou com um senhor de destaque!
GM – Risos! Primeiro foi com o Marquês de Caux, fidalgo da corte de Napoleão III. Divorciou-se dele e casou com um tenor conhecido como Nicolini. Ficou depois viúva e casou a terceira vez com o Barão Sueco Cederström.
ML – Crónica respeitável. E fez uma carreira artística longa?
GM – Sim! Mas na última parte da carreira, os concertos prevaleceram sobre as récitas de ópera, cada vez mais. Acabou por só colaborar em récitas de beneficência.
ML – Já não precisava de ganhar mais dinheiro!
GM – Tinha ganho imenso! Basta dizer que 1882, o cache da Patti atingiu a soma incrível de cinco mil dólares por cada representação, hum!?
ML – Cinco mil dólares por cada vez que pisava o palco?
GM – Sim, sim, sim! (risos) Mas voltando à sua pergunta, sobre o repertório da Patti! O repertório alargou-se realmente e abrangeu óperas como o “Barbeiro de Sevilha”, “Moisés”, “Don Pascoal”, “Elixir do Amor”, “Dom João”, “La Traviata”, “Fausto”.
ML – Eu acho que tenho muito a ganhar com o saber tudo isso que você me tem estado a dizer sobre a Patti, mas talvez pudéssemos, agora passar, para alguma das outras celebridades que vieram gorjear no nosso São Carlos.
GM – Parece-me que tem razão. Aliás, como de costume quando faz esse género de remoques (risos). Por isso concordo em que abandonemos a Patti a favor de Marcella Sembrich, que também veio ao São Carlos, creio que em 1885.
ML – De que nacionalidade era essa Marcella Sembrich? Alemã?
GM – Não. Era americana, mas de origem polaca. O nome verdadeiro da Marcella Sembrich era Prakseda Marcelina Kochańska.
ML – Talvez não seja preciso eu fixar, não?
GM - (risos) Também me parece. Lembrei-me agora do nome da Sembrich por dois motivos principais. O mais importante é que… eh… Olhe que sou o feliz possuidor de uma gravação dela!
ML – Uma gravação da própria Marcella Sembrich? Ai, isso é que tem imenso interesse.
ML – Qual foi o outro motivo pela qual você se lembrou da soprano Marcella Sembrich?
GM – Eu explico. É que além da vinda ao São Carlos, já perto de noventa anos, houve também pelo menos outra ligação da Sembrich com a cultura musical portuguesa.
ML – Também não sabia isso. Que ligação?
GM – Olha, através do Viana da Motta. Porque o nosso grande pianista colaborou várias vezes com a Marcella Sembrich.
ML – O quê, Viana da Motta ao piano e Maria Sembrich a cantar?
GM – Sim, sim! Aliás, suspeito de que Viana da Motta não tinha uma incondicional admiração pela Marcella Sembrich.
ML – Mas porquê que você diz isso? Em que é que se baseia?
GM – Baseio-me em… (risos)… Eu já lhe digo, vem aqui neste livro… ora… um momento… um momento… Sembrich… Sembrich… aqui está, aqui está! Quer ler esta nota?
ML – Deixe lá ver! “Viana da Motta também recebeu lições de latim”, de que encontramos este curioso vestígio nas páginas da revista Amphion de 30 Abril de 1898.
GM – Vá, vá, continua a ler que é realmente curioso.
ML – “Madame Sembrich revelou como sempre os seus dotes vocais e a ausência de temperamento e bom gosto”. Alguns pessimistas querem ter notado decadência na voz. Seria Finish Sembrich, como Sembrich menos voz dá zero! (risos).
GM – Continuamos para a semana?
ML – Com que outra celebridade?
GM – Hum! Que lhe parece Tetrazzini?
Programa seguinte
Maria Leonor – Se bem me lembro, você disse na semana passada que havia de ser com a… com a…
Gil Montalverne – A Tetrazzini.
ML – Ah sim, que havia de ser com a Tetrazzini. Que havíamos de continuar hoje a nossa conversa sobre cantores célebres que têm pisado o palco de São Carlos. Que voz tinha a Tetrazzini?
GM – A Tetrazzini tinha uma das vozes mais fenomenais de que reza a história dos cantores.
ML – Pois, mas que tipo de voz. Contralto? Meio-soprano? Soprano-lírico? Soprano ligeiro?
GM – A rigor, nada disso! Era soprano ligeiríssimo. Imagine que dava o dó sobreagudo, ou seja o dó acima do fá sobreagudo, que já é uma nota que poucos sopranos podem, em consciência, orgulhar-se.
ML – E naturalmente na Tetrazzini não era só ter essas notas, havia de ser também a arte de as cantar.
GM – Absolutamente, tinha uma técnica de coloratura assombrosa. O entusiasmo dos auditórios por toda a parte onde cantava subia ao rubro, quando a Tetrazzini fazia o staccatos a grande velocidade com uma afinação incrivelmente exacta.
ML – Quais foram as principais óperas do repertório da Tetrazzini?
GM – Óperas como a L’africaine, Les Huguenots, Dinorah, La Traviata, Hamlet, Os Puritanos, La Sonnambula, Luccina, Mignon, Rigoleto.
ML – Quando a Tetrazzini esteve em Lisboa como é que estava de forma? Quer dizer, foi no princípio, no auge, ou no fim da carreira?
GM – Olha, andava pelos 24 anos.
ML – 24 anos! Então a voz devia estar completamente fresca.
GM – Outro artista de nome, embora sem celebridade comparável à da Tetrazzini, entre os muitos que têm vindo ao São Carlos de Lisboa, foi o tenor napolitano Fernando de Lucia.
ML – Que géneros de ópera cantava?
GM – Óperas de características bastante diferentes.
ML – Como por exemplo?
GM – Olhe, por exemplo a Carmen, o Amigo Fritz.
GM – Um dos artistas que honraram os anais de São Carlos foi o barítono Maurel, Victor Maurel.
ML – Italiano?
GM – Não. Francês, natural de Marselha, onde nasceu em 1848. O nome escreve-se Maurel, mas lê-se Morell.
ML – Grande artista?
GM – Sim, grande também pela inteligência interpretativa. No princípio sentiu-se prejudicado pela comparação como o famoso Faure. Por isso, resolveu trocar a França pela Itália e foi realmente a Itália que o lançou na grande carreira, principalmente como intérprete verdiano.
ML – Mas concretamente, em que óperas de Verdi?
GM – Olha, em várias. Uma das que mais contribuíram para lhe ganhar o prestígio de esplêndido intérprete verdiano foi o Simão Bocanegra.
GM – É preciso acrescentar ainda qualquer coisa a respeito do barítono Victor Maurel.
ML – Ainda relativamente ao Verdi?
GM – Sim, é alguma coisa de muito importante, visto que, o mesmo, Victor Maurel foi o criador de nada menos do que os papéis de Iago do Otello e de Falstaff.
GM – Ainda queria falar-lhe de mais duas artistas, que não só actuaram no São Carlos, como têm vínculos mais fortes com Portugal, do que a maior parte dos outros de quem lhe tenho falado.
ML – Como é que se chamavam?
GM – Olhe, uma chamava-se Regina Pacini, e era natural de Lisboa.
ML – Natural de Lisboa?!
GM – Exactamente. Era filha do Pietro Pacini. Tinha só 16 ou 17 anos quando se estreou no São Carlos em 1888, cantando La Sonnambula. Olhe, leia aqui uma passagem que lhe diz respeito no livro de Fonseca Benevides sobre o Teatro de São Carlos. É aqui, olhe.
ML – “Era uma verdadeira dama ligeira, voz de soprano fogato delgada extensa e imensamente flexível. Agilidade muito grande e uma facilidade extraordinária em fioriture e piccados, imitando sem esforço as mais intricadas variações que ouvisse alguma celebridade nesse género. Juntava a estas qualidades uma afinação muito segura”. Fez uma boa carreira internacional, esta alfacinha, Regina Pacini?
GM – Muito boa. Muito boa. E não só em acepção operista. Cantou em Milão, Palermo, Londres, São Petersburgo, Varsóvia, Buenos Aires, Nápoles, Monte Carlo, foi uma carreira a sério.
ML – Porque foi que você disse que os êxitos da Pacini não foram só operistas?
GM – Porque além de prima donna veio a ser a primeira-dama da Argentina como mulher do Presidente da República.
ML – Imagino, não há dúvida de que a carreira de diva de ópera dá prós casamentos!
GM – A outra artista portuguesa de quem lhe queria falar ainda é Maria Júdice da Costa. Olhe, nessa mesma página 51, do segundo volume do livro do Fonseca Benevides, também há uma referência a Maria Júdice.
ML – Ah, está aqui. Diz assim “Maria Júdice da Costa, que se apresentou em um concerto no fim da época”. Isto refere-se a que ano?
GM – Hum! Continua a ser 1888, salvo erro.
ML – Eu continuo… “Era uma jovem rapariga, alta e magra, com belos olhos, simpática, com uma linda voz de meio-soprano, volumosa de meio-soprano, volumosa e pastosa e cantando com expressão”.
GM – Como intérprete de ópera, Maria Júdice da Costa estreou-se também no São Carlos em 1890. Cantou com a Tetrazzini, imagine!
ML – Devia estar cheia de nervos. Que ópera era?
GM – A Gioconda.
ML – A Maria Júdice da Costa também fez uma verdadeira carreira internacional?
GM – Também e não só na Europa, como na América. Em papéis de primeiro plano pertenceu a elencos em que estavam artistas como Caruso, Titarufo, Batistini.
ML – E que óperas fizeram parte do repertório de Maria Júdice da Costa além da Gioconda?
GM – Óperas como a Tosca, a Fedora e também cantou Wagner. A interpretação do papel Brünnhilde na Walquíria ficou com a reputação de ser uma das suas melhores.
ML – A Maria Júdice da Costa não deu lições de canto? Faz impressão pensar que às vezes os nossos melhores artistas não fizeram escola em Portugal!
GM – Maria Júdice da Costa ensinou canto a compatriotas mais novos, basta dar dois notáveis exemplos que…
ML – São os de?
GM – Os dos dois irmãos, Maria Amélia e Edgar Duarte de Almeida. Dois cantores excelentes como sabe, soprano e barítono.
ML – E naturalmente também Maria Amélia e Edgar Duarte de Almeida cantaram também no São Carlos.
GM – Claro que cantaram, mas foi muito mais tarde, não nos adiantemos.