Memória, O arquivo da rádio difusão portuguesa.
Introdução - Iniciamos hoje a transmissão de alguns dos programas “O Gosto pela Música” de autoria de Luís Freitas Branco. O programa que vamos ouvir de seguida pertence a um ciclo que João de Freitas Branco dedicou a cantores célebres que passaram pelo Teatro de São Carlos. Foi gravado em 1973 e tem locução de Maria Leonor e Gil Montalverne.
O Gosto pela Música - um programa do Dr. João Freitas Branco.
Maria Leonor (ML) - Vai continuar a dizer-me coisas sobre a história do Teatro de São Carlos (SC)?
Gil Montalverne (GM) - Eu vou,mas não consigo dar-lhe com certeza uma pálida ideia do que foram as constelações de artistas que pisaram o palco de São Carlos nos seus 180 anos de existência.
ML - Sim, deve ter sido tudo quanto houve de melhor quanto a cantores…
GM - Hmmm… Não foram só cantores e vozes célebres. Os anais do São Carlos incluem um numero enorme de dirigentes, de compositores, de instrumentistas, sei lá… de cenógrafos, de coreógrafos, de bailarinos,de actores. Sem falar de orquestras, de coros, de conjuntos de câmara, companhias inteiras.
ML - Isso seria um realmente nunca mais acabar mas como o SC é sobretudo um teatro de ópera, acho que podemos limitar-nos aos cantores. Você no outro dia já falou do famoso sopranista (castrato) Crescentini (Giralomo Crescentini).
GM - é verdade um sopranista realmente celebre. So mesmo no fim do sec XVIII é que no SC começaram a actuar cantoras. Olhe, uma das de grande categoria que vieram ao SC foi a Bocabadatti, mas espere aí. Está mais certo começar por outra, uns 20 anos mais velha que teve uma grande ligação ao SC e ao Maestro Marcos de Portugal.
ML - Uma grande diva?
GM - Hmmm hmmm… A Angelica Catalani era uma soprano italiana que veio a casar aqui em Lisboa com um oficial Francês adido à embaixada.
ML - Que repertório cantava a Catalani? Cimarosa (Domenico Cimarosa)?
GM - Sim… a Catalani também cantou Cimarosa. Outro autor que estava muito em voga era o Zingarelli (Niccolò Antonio Zingarelli). A Catalini cantou óperas, hoje completamente esquecidas, como “Carolina e Mexicow” (1798) e “O Rato das Sabinas (Il ratto delle Sabine (1799)) de Zingarelli.
ML - Faz uma certa impressão saber que cantores célebres de outros tempos cantavam óperas de autores apreciadíssimos de que hoje nem se fala.
GM - É verdade. É verdade.
ML - Isso dá que pensar… Não irá acontecer o mesmo em relação ao repertório do nosso tempo?
GM - Eu confesso que essa questão não me preocupa muito. Eu acho que hoje já há demasiada tendência para termos medo da prosperidade. Aliás, voltando À Angelica Catalani, não julgue que todo o repertório que ela cantou está hoje nos esquecimentos. Basta dizer que ela foi a Susana das primeiras “Bodas de Figaro” que se representaram em Londres.
mp3 (3m57s - 7m26s)… i’ll crop it later
ML - Qual era a outra cantora célebre de que você ia a falar com um nome esquisito que também cantou no SC depois da Catalani?
GM - Ora exactamente. Era a Bocabadati. É o nome de uma família de artistas. A cantora a que eu me refiro é a Luigi Bocabadati da geração do Berlioz, Schubert ou do nosso Almeida Garrett.
ML - Que repertório cantava essa cantora?
GM - Também cantou algumas óperas hoje completamente esquecidas como “Julieta e Romeu” do Vaccai (Nicola Vaccai) mas em todo caso o repertório da Luigi Bocabadati teve muitas mais óperas de autores que ficaram até hoje. Em especial Rossini, Donizetti e Bellini.
ML - Cantou, por exemplo, o Barbeiro de Sevilha?
GM - Sim… O Barbeiro foi uma das óperas de Rossini que a Bocabadatti cantou.
mp3 (8m17s - 13m29s)
ML - Os nomes de cantores que você me tem estado a revelar são de facto novidade para mim. E cantores, quero dizer, vozes masculinas também célebres que tenham vinco a SC nesses tempos afastados.
GM - Olha, também fazem uma lista muito grande. Um pouco ao acaso refiro o barítono Filippo Coletti, foi especialmente apreciado em óperas de Rossini, de Pacini (Giovanni Pacini), na “Caterina Cornaro” de Donizetti e em óperas do Verdi.
ML - Já do Verdi?
GM - Sim… Já do Verdi. O barítono Filippo Coletti é já da geração do Verdi, por sinal que foi ele o protagonista na primeira recita romana do Rigoletto.
mp3 (14m7s - 22m26s)
GM - Um outro barítono que ficou com o nome muito ligado ao de Verdi e, por sinal, também relativo ao Rigoletto, foi o Felice Varese.
ML - E que também esteve no nosso SC?
GM - Sim, também por lá passou. Este Varese criou diferentes papeis Verdianos. Participou inclusivamente na célebre e infelicíssima estreia absoluta da “La Traviata”.
mp3 (22m51s - 24m56s)
ML - Voçê tem falado muito sobre Sopranos e Barítonos que vieram ao SC, mas não me mencionou ainda um só Tenor. Tem alguma coisa contra os Tenores?
GM - (Risos) Não, não tenho nada contra os tenores. Vou já mencionar um celebérrimo chamado Tamberlik, Enrico Tamberlik.
ML - Também Italiano?
GM - Também. Nasceu em Roma em 1820, mas fez o melhor da carreira fora da Itália.
ML - Pelos vistos também em Portugal.
GM - Por toda a parte onde cantou acendeu grandes entusiasmos. Tinha um raro registo sobre-agudo.
ML - Que autores interpretava?
GM - Os habituais na época, nomeadamente Belinni e Verdi. Ele foi, por exemplo o Tenor da “Força do Destino” na estreia em São Petersburgo em 1862.
mp3 (25m38s - 28m44s)
GM - E aqui tem uma pequena amostra do que, quanto a vozes, passou desde logo no Teatro de SC ainda no sec. XVIII e depois pelo XIX dentro.
ML - Para uma pequena amostra não está nada maus, mas suponho que você se propõe a dar-me uma amostra bastante maior.
GM - Sim, senão você podia ficar com a ideia errada de que mesmo assim o nosso SC não teria um passado tão glorioso como de facto tem. O que é, é que temos de continuar para a semana.
mp3 (29m14s - 30m09s)
Ouviram “O Gosto pela Música”, um programa do Dr. João Freitas Branco. Locução de Maria Leonor e Gil Montalverne e realização de Lina Ruas.