7.3 Um início muito difícil

ciclo 1º Ciclo
id Gabriela-3
pof entrevista_Gabriela
keys colocação // dificuldades // início da profissão // relato de vivências // condições de trabalho
nvivo perceções sobre a profissão // Primeiros 5 anos de trabalho
geo Leiria, zona rural

Mas isto agora é pelo facto de me perguntar quando comecei a trabalhar, pronto, aquela altura para mim foi difícil, muito difícil, porque acabei o curso, tinha de concorrer, aqui na zona da Guarda não havia colocação para professores novos, estava tudo mais ou menos cheio e portanto eu concorri para Leiria porque era naquela altura o distrito que podia receber mais professores e então muita gente aqui da Guarda concorreu para Leiria e para outros distritos lá mais do centro. Então eu concorri para Leiria e fiquei colocada! Portanto o primeiro ano que trabalhei foi numa aldeia na Serra dos Candeeiros, portanto era perto, mas ao mesmo tempo era longe porque a gente não tinha transportes, não tínhamos carro, não tínhamos nada. A gente ficava isolada lá na aldeia. Mas esse dia que eu fui escolher a escola, portanto, não sei se era o diretor se era o delegado escolar que convocava para dizer que a gente ficava colocada no distrito, depois o distrito podia ser longe, podia ser dentro de uma cidade, portanto não sabíamos onde era. Mas nós ficávamos colocados no distrito, mas depois tínhamos de escolher a escola. Por exemplo, no dia em que eu fui, imagine por exemplo que havia 30 vagas naquele distrito, a gente ficou lá colocado e íamos escolher a escola, mas imagine que estavam dez pessoas à minha frente, ou 15 ou 20. Tínhamos uma lista escrita e ele chamava o número tanto e dizia “temos estas escolas. Venha escolher”. Pronto, aquela escola era riscada. Depois chamava o número tanto e por aí fora. Quando chegou ao meu número, já não havia muitas escolas, portanto, já não tinha muito por onde escolher. E havia uma escola perto de Alcobaça - perto, se calhar eram 15 ou 20 quilómetros - que era para duas professoras. Portanto era um horário duplo, de manhã e de tarde, e era para duas professoras. Estava eu e outra colega da minha turma que estávamos para escolher, e havia aquela escola que precisava de duas professoras e nós, naquela hora, estávamos “ai mas ficamos as duas? Nós somos capazes de dar continuidade, nós sabemos preencher toda a papelada que é preciso”, pois saímos do Magistério, teoria tínhamos muita! Mas não tínhamos prática nenhuma e nós dizíamos “pronto, vamos para uma escola onde haja um professor já mais antigo, ele é o diretor de escola, e nós vamos fazendo e vamo-nos adaptando”, mas tínhamos aquela possibilidade de ficar as duas juntas. E eu disse-lhe “Oh F. então como é? Ficamos ou não ficamos?”, “Ai meu Deus Gabriela, não sei, se calhar não damos conta do trabalho” (risos). E eu disse “ai meu Deus! Mas também é pena, podemos ficar tão longe”. Estava lá um irmão meu, que nós tínhamos ido no carro dele, e ele só disse “vós sois parvas, então se têm a possibilidade de ficar as duas e numa aldeia que não conhecem nada, ficai! E sois capazes, sois!”. Pronto, lá nos animou e portanto ficamos as duas na tal escola. Pronto, ficamos as duas, embora um bocado receosas, com medo que não fossemos capazes de saber lidar com tudo aquilo que nos esperava, porque teoria tínhamos muita, muita teoria porque no Magistério tínhamos tido muitos professores que nos ensinavam como é que se fazia isto e aquilo, mas parecia tudo descabido da realidade! O primeiro ano a gente sentiu dificuldades. Mas, nesse dia, escolhemos a escola em Leiria. Pronto, fomos ver onde ficava a escola, já nem sei como é que nós vimos, pelo mapa talvez. Chegámos à aldeia, uma aldeia rural, num descampado, pequenina, mas íamos com aquela animação de que íamos as duas. Andámos à procura de casa porque era longe, muito longe da Guarda, e ficámos até ao Natal! Portanto foi no dia 7 de outubro que fiquei colocada, portanto até ao Natal não viemos.