| ciclo | Pré_Escolar |
| id | Helia-3 |
| pof | entrevista_Helia |
| keys | autismo // dificuldades |
A menina que tive com autismo, ela era muito interessante, não é? E a auxiliar uma vez brincava, porque é assim, ela só se lhe encostasse o pão à boca é que ela comia, se lhe puséssemos as mãos a meio do caminho ela ficava parada. E o primo comia-lhe o pão todo, e então a auxiliar uma vez virou-se para mim e disse-me “Assim é pecado, professora”, “Não, se nós não virmos a faceta lúdica, damos em doidos”. Porque é assim, ela era um holocausto, porque ela já estava comigo quase há dois anos e eu não a conseguia pôr a comunicar comigo, não é? Se ela não comunicar comigo, eu não sei como vai ser, porque eu não consigo entrar. Ela não deixa, ela é como se estivesse dentro de uma redoma de vidro e eu não consigo passar para o lado de lá. Até que ela uma vez, vestida de carnaval, eu disse a um coleguinha dela “Olha, leva a A., vai para a frente do espelho para ela ver se está bonita”. E depois, enquanto vestia outro disse “olha traz a A. cá”, porque ela onde alguém a punha, lá ficava. E ela chegou ao pé de mim e eu disse-lhe “então a princesa, como é que estamos? Estás bonita? Olha para mim, estás bonita!”, e ela diz-me “estás bonita”. E eu naquele momento disse “temos menina, temos menina!”. Foi o clic, foi o despertar dela. E foi interessante porque a partir daí pronto, ela conhecia a utilidade, mas não conhecia o nome das coisas. Foi preciso parar mesmo muito para pensar como é que eles aprendem, como é que eles começam. E o certo é que ela começou a falar, está num 12.º ano profissional. Eu não sei o que é que fizeram os papéis dela, mas felizmente nunca ninguém acreditou muito no grau de autismo que ela tinha. Foi a sorte dela. Para mim ela é a minha medalha de ouro. Ela é o colmatar de todo o meu conhecimento!