ciclo 3º Ciclo e Secundário
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talvez a história mais gratificante que eu tenha seja de um aluno que apanhei no décimo ano, como professora e diretora de turma, que era meio brutamontes, mesmo na forma, assim, de falar, está a ver? Não sei muito bem. E fisicamente era também, assim, muito brutamontes. E pronto, então… logo nas primeiras aulas, a turma era enorme, uma sala cheia, pronto. E então, ele entrou numa forma, assim, pouco simpática. Sentou-se e fez lá um barulho esquisito, e eu chamei-o à atenção. E ele vira-se para mim e disse: ‘O que é que foi?’. Olha, meu Deus. Eu, com aquilo, o que é que foi? Eu passei-me, eu passei-me. Quer dizer, para mim foi um choque, pronto. E eu, entretanto, reagi e fui lá com toda a calma. E eu estava a falar e as lágrimas começaram a correr pelo rosto abaixo. Muitíssimo, mas mesmo muito chocada. E eu olho para a turma e a turma estava toda, toda assim, com a cabeça baixa, toda. E eu terminei de falar e um dos miúdos que era subdelegado, põe o dedo no ar e diz: ‘Oh, professora, eu em nome da turma quero pedir desculpa’. E a coisa passou. Mas eu chorei. Foi a primeira vez que me aconteceu. Só para lhe dizer que esse aluno, esse tal que me provocou dessa maneira, tinha uma história de vida horrível, mesmo horrível, desde problemas económicos, a violência doméstica e problemas de alcoolismo lá em casa, uma coisa impressionante. Ele descansava quando começavam as aulas, porque em todo feriado, fim de semana, férias, sempre a trabalhar, mas a trabalhar mesmo duro. Chegou ao 11.º ano e adorava História. Começou a gostar imenso de História; estudava História e fazia tudo. E quando chegou ao 11.º ano, final do 11.º ano, começou a ficar muito desatinado, muito desmotivado e mais isto, mais aquilo, trancos e barrancos… e por quê? Porque a paixão dele, qual era? Era seguir um curso de História, pronto. Desatinado, muito violento, mas era mesmo bruto ele. E eu ‘Mas o que é que se passa?’, e ele ‘Não vale a pena, não vale a pena, eu vou desistir, eu vou desistir, eu vou desistir’. E passaram as férias, regressa, estava no último ano, no 12.º ano, vinha pior. ‘Mas o que é que se passa?’, ‘Eu não vou, já não vou para universidade, não posso ir para universidade, vou para polícia’, ‘Vais para a polícia, sais daqui para a polícia? Mas vais para a polícia por quê?’; ‘Ah, professora, como é que acha que eu vou para a universidade?’. Parei e disse: ‘Olha, tem calma’. E depois comecei a pensar como é que eu podia ajudar aquele rapaz. E lembrei-me. Há uma fundação ali perto de Nelas, a Fundação Lapa do Lobo, não sei se conhece. Fui falar com a diretora e disse assim: ‘Olha, eu tenho este problema, aquele miúdo precisa de ajuda. Se eu fizer uma carta de recomendação, vocês ajudam?’, ‘Ah, claro. Então faça uma carta de recomendação’. Mas não lhe disse nada a ele. Com todos os dados deste, daquele e daquilo outro. E juntei, obviamente, a direção. Depois, eles deram seguimento e marcaram uma entrevista. Mas, eu, no dia da entrevista, eu não podia, tinha um exame marcado não sei onde, eu não podia mesmo. E eu fiquei assim: ‘Ai meu Deus, vocês têm que ir’. Pedi à direção para ir em meu nome à Lapa do Lobo. Aí eu já tinha falado com o rapaz e disse: ‘Tem calma, tem calma…’ e depois disse: ‘Vais fazer uma carta, olha, vais pôr na carta tudo aquilo que tu és, tudo o que tu queres, e todas as dificuldades que tu tens’; ‘Está bem, professora’. Depois, o que é que aconteceu? Recebeu uma bolsa da Fundação, foi bolseiro da Fundação Lapa do Lobo. Obviamente, uma das obrigações era pedir bolsa, também, no ensino superior. Foi para Coimbra, tirou o curso de Arqueologia, que é a paixão dele. Neste momento, é arqueólogo, está a trabalhar na Câmara de Nelas. Nunca deixou de ir à escola. Nunca deixou de ir à escola. Nunca deixou de ir à escola ver a professora. E eu olho para ele e digo: ‘Se este aluno, hoje era um bruto, hoje era um bruto’, eu digo-lhe ‘Olha, isto hoje, eras um brutamontes, já viste? Tu com esse perfil, com essa força que tu tens, com essa revolta toda que tu tinhas? Tu serias um horror de polícia. Devias ser um horror de polícia’. Olhe, mas não foi o único.