49.2 Joana-2

ciclo 3º Ciclo e Secundário
id Joana-2
pof entrevista_Joana

Foi preciso uma vez fazer uma substituição de um professor, “Eu vou, não há problema, eu vou.”. Eram miúdos de sétimo ou oitavo ano [de escolaridade], já não me lembro. Sabe o que é entrar numa sala e dizer: “Onde é que eu estou?”. Parecia um manicómio. Ainda hoje, me aflige, aperta-me o coração só de sentir. Eu já não sei o que é que senti quando lá entrei, mas pensei “Isto não está a acontecer. Isto é surreal.”. Imagine, todos aos berros. Um levantava-se, ia lá em baixo dar um safanão numa menina, a outra começava aos berros e vinha cá para cima. Isto quando a professora estava a entrar. Eu cheguei e não disse nada, evidentemente que, no meio daquela berraria, mais um berro era igual. Então, fui para a secretária muito calada e pus-me a olhar para eles todos. Estive uns cinco minutos ou mais, aqueles minutos pareceram uma eternidade, até que os consegui acalmar, mais ou menos. Olhe, era uma turma em que havia três alunas que estavam numa instituição, estão institucionalizadas, com problemas, enfim, psicológicos tremendos, de famílias desestruturadas, cada uma por si, resolviam tudo à pancada, aos berros, outros que gozavam com elas, era uma coisa impressionante. Acabei por conseguir que uma delas, aquela que me parecia mais violenta… era a A.. Mais tarde foi minha aluna. “Oh A., eu não conheço nada sobre ti.”. Começou assim a andar. “A professora não quer saber!.”Quero!” [retorqui]. Lá insisti, insisti, insisti, ela acabou por estar o resto da aula, terão passado 20 ou 30 minutos… imagine, a miúda das mais problemáticas daquela aula, ela levantou-se e acabou por contar uma história que, no fim, aquela malta estava toda a chorar. Eu só não chorei por vergonha. Realmente era verdade. Ela contou a história da vida dela e da família. Era uma história tremenda, tremenda.