46.1 Clorinda-1

ciclo 3º Ciclo e Secundário
id Clorinda-1
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Eu sou reservada, mas também gosto de falar. Achei muito interessante a forma como perguntou. Nós, na altura, recuando a 50, 60 anos, uma jovem sentia-se com muita maturidade. Eu, neste momento, tenho duas netas, uma com 16 e outra com dez [anos de idade] e costumo dizer, a nível do respeito. Eu com dez anos tinha valores na minha cabeça, os valores de vida. Aos 13 anos eu tinha uma personalidade já vincada. Uma mulher madura a entrar no ensino era mesmo isso, com a situação de carga com que eu estava pessoalmente. Vejamos o antigo regime, ao nível da profissão. Estou a lembrar-me agora de forma aleatória. Ao nível do tratamento dentro da escola, como estrutura… Como lhe disse, fui muito bem recebida, porque eu tinha sido boa aluna, havia conhecimento na secretaria - o diretor já não era o mesmo. Havia professores que fui lá encontrar, que tinham sido meus professores. A coisa foi muito fácil e foi muito prazerosa, porque nesse ano quem estava a gerir a entrada de professores eventuais era um senhor que estava ligado à secretaria e que me disse que com certeza que me concedia o acesso à escola, mas que não tinha Físico-Química para me dar. Não havia hipótese, talvez só no ano seguinte e eu teria que ir dar Electricidade, Orçamentos de Contas de Obras, Desenhos de Máquinas e tal. Eu disse: “Ok!”. Eu, no meu curso, tinha tido muita prática de desenho de máquinas, de eletricidade e tal. Assim foi. Fui bem acolhida, a nível daqueles com quem já tinha trabalhado, também [pelos] outros que eu não conhecia. Concretamente, desta área que eu fui lecionar, eram todos homens. Na altura, predominavam os homens nesse ensino. A escola tinha muitos cursos técnicos e, portanto, era tudo muito gerido por homens, eram raras as mulheres. Esses colegas foram de uma amabilidade extrema em tentar-me integrar, em dar materiais. Ajudaram-me com os painéis elétricos, a pôr aquilo tudo a funcionar, os dínamos, os motores. Tudo aquilo era um mundo que eu mesmo sendo do Instituto não tinha passado por ali. Com a receção, não tive problemas absolutamente nenhuns. A chefia da altura, o diretor assim chamado, era uma pessoa um pouco ríspida, embora fosse afável. Lembro-me de um caso, que aconteceu numa aula minha e que nos tempos de hoje acho que não aconteceria. Foi numa turma ao sábado - as aulas funcionavam naturalmente aos sábados, isto em 1971. Estava a leccionar num anfiteatro Físico-Química a tentar fazer uma aula de Ciências Físico-Naturais, a uma turma equivalente agora ao 8.º ano [de escolaridade]. Entretanto, as meninas tinham que levar todas bata para a escola e ao sábado, às vezes, não levavam. Houve uma aluna que apareceu sem bata e eu deixei entrar. Eu disse: “Não trouxeste a bata?”. Ela disse que não. Para mim não era importante a bata, ela estava muito bem a assistir à aula. Entretanto, cinco minutos antes de tocar, ela pediu-me se podia sair mais cedo. Perguntei se tinha mesmo de sair e ela disse que sim. Eu deixei sair a menina. Realmente, passado uns outros dois ou três minutos, aparece a menina e o diretor à porta. O diretor quase que me passou uma carta de despedimento. Tratou-me muito mal perante a turma toda. Eu nunca mais me esqueci. Não era um trato que se fizesse. Eu achei que isto traduzia um bocadinho a rispidez e o poder que alguns cargos podiam exercer dentro daquele regime.