| ciclo | 3º Ciclo e Secundário |
| id | César-1 |
| pof | entrevista_César |
| keys | avaliação // classificação |
| nvivo | incidentes críticos |
Sim, às vezes em campos opostos. Por exemplo, em relação a essa primeira turma. Eram três disciplinas, no 12.º ano. Era Matemática, que eu dava, Físico-química, que dava a minha antiga professora, e Biologia, que era dada pelo tal A. L., um professor de 57 anos. Ele era um poço de sabedoria, mas que ensinar não era a praia dele. O senhor fazia testes extremamente complicados. Havia bons alunos, eu cheguei a dar 18 e 19 [valores]. Nesse ano, era vice-presidente do Conselho Directivo e, do primeiro andar, olho cá para baixo e via-se a entrada da reprografia. A senhora tinha ido não sei onde. Quando olho, vejo os alunos a pegarem na prova de Biologia e a fotocopiarem-na à pressa. Eu calado. Eu calei-me. Não digo nada. Eles acabavam por ter alguma razão. Embora o senhor tivesse uma cultura enorme, sabia latim e tudo isso, ele não conseguia ensinar. Os textos eram extremamente complicados, até os colegas dele de grupo diziam: “Exitem perguntas aqui que até nós temos dúvidas de como se responde”. Eu tive pena dos alunos e não disse nada. Passado uns dias, ele aparece no gabinete do Conselho Diretivo e disse: “Não acha estranho a turma quase toda ter tido excelentes notas? Eu sei que o teste não era fácil!”. Eu disse-lhe “Você tem bons alunos!”. Ele concordou. Ainda lhe disse: “Tem muitas questões de resposta múltipla, você é meio distraído se calhar nem deu por ela.”. E ele disse: “Pois, se calhar, foi mesmo isso!”. Não foi a única vez, mas eu fechava os olhos. Eles sabiam que eu sabia. Eu fechava os olhos porque era prejudicá-los se não fosse assim. Depois há uma parte um bocadinho trágica. Uma colega, também curiosamente de Biologia cujo marido não tinha conseguido colocação. Na altura, havia aquelas disciplinas que não tinha um grupo disciplinar que era socorrismo, noções básicas de saúde, que, às vezes, até eram enfermeiros que davam, outras vezes eram médicos. No início do ano, tínhamos feito uma seleção e tinha sido um médico da Lourinhã que tinha assumido. Aquela colega, cujo marido não estava colocado, incompatibilizou-se comigo porque achava que o marido é que devia dar, tinha lá um curso de socorrismo da Cruz Vermelha. Eu disse: “Já está escolhido, não vou agora tirar o outro colega”. Gerou-se um clima um pouco tenso, entre mim e ela. Quer dizer, nunca nos deixámos de falar, claro, mas eu notei que ela, em linguagem rápida, não ia muito à bola comigo. Eles tinham um filho ou filha de 6 meses. Alugaram uma casa, pois eram de Lisboa. Houve um dia, de manhã, onde fui ao café - eu ia sempre beber um café - e ouvi gritos: “Uma explosão de gás!”. Tinha sido na casa daquela professora, que já não recordo o nome dela. De facto, quando cheguei ela já estava no centro de saúde muito queimada. O marido não tanto, mas também estava. Acabei que fui eu que ajudei. Eles foram para Lisboa e eu fui lá levar os papeis, conseguir a transferência dele para Lisboa. Entretanto, ela faleceu, passados quatro dias faleceu. Ele não. Ficou um bocado queimado, mas sobreviveu. Ainda fui várias vezes a Lisboa levar-lhe a papelada que era preciso assinar. Foi um dos episódios mais trágicos. Em relação aos alunos, olhe, aquele que foi padre era o melhor aluno em Matemática, Biologia e Física.