35.1 Em Carrazedo montenegro / concorríamos para todo o país

ciclo 2º Ciclo
id Sofia-1
pof entrevista_Sofia
tempoh 1984/85
keys Dificuldades para ir à escola
nvivo Percursos
geo Trás os Montes

Foi em 1984-85. Entretanto, estive em Carrazedo Montenegro, que eu nem sabia onde é que era. Nós na altura concorríamos para todo o país - isto se quisessemos ficar efetivos. Concorríamos a 100 escolas, depois a dez ou 20 distritos e depois a zonas, que era o país todo. Eu acabei por entrar no distrito de Vila Real, numa das primeiras escolas. Depois do distrito, era por ordem alfabética e eu entrei em Carrazedo. Acabei por entrar mais longe do que colegas que estavam atrás de mim, mas que puseram escolas em Alijó. Estive um ano em Carrazedo, onde já fui delegada. Pertenci pela primeira vez ao conselho pedagógico, fui diretora de turma, fui delegada de Português e de História - com uma colega que por coincidência também vivia em Matosinhos. A presidente do conselho directivo era de Carrazedo e era do terceiro ciclo, porque já tinha segundo e terceiro ciclo - essa já era do quadro. Nós fomos as primeiras a entrar no quadro, como efetivas. Nunca tinha havido ninguém, com habilitação própria, do quadro na escola de Carrazedo. Todos os outros colegas eram contratados, tanto a nível de segundo como do terceiro ciclo [do ensino básico]. Foi uma experiência muito interessante. Eu tinha uma turma [em que os alunos] saíam de casa às cinco horas - em Carrazedo neva o ano inteiro. Lembro-me de neve quase até aos joelhos. Nós íamos todos vestidos, era um sítio extremamente frio. Nós tínhamos alunos que vinham de aldeias, no meio da serra, que saíam às cinco horas de casa com aquelas candeias. Na altura, arranjaram uma carrinha do Ministério da Agricultura que os trazia num jipe até à estrada, onde depois apanhavam a camioneta para ir [para a escola]. Eles chegavam cedíssimo, por volta das sete da manhã. Havia um café em frente à escola, que era o café de um senhor que tinha vindo de Angola. Ele vivia por cima do café. Quando ele sentia que a camioneta estava a chegar, ele abria a porta do café para entrarem e estarem ali quentinhos - tinha uma salamandra. A escola abria, normalmente, às sete e meia. Havia miúdos que a primeira vez que tinham visto televisão foi quando fizeram a quarta classe. Isto em 1985. Só nessa altura é que começou a haver, nas aldeias daquela zona, eletrificação. Muitos eram filhos de pastores. Dormiam no meio dos animais para se aquecerem. Eu que achava os rebanhos uma coisa lindíssima, até me meter no meio deles [e perceber] que cheiram tão mal!!! E os miúdos refletiam também esse odor. A maioria deles tinha uma sede enorme de aprender e tudo era novidade. Eu lembro-me de ter ficado muito zangada com a presidente do conselho directivo, que era um bocado ríspida, pois um dia apanhou um aluno meu por uma orelha, porque o miúdo estava a escavar. Aliás, foi a primeira escola onde eu entrei, que já tinha um computador, o que era fantástico. Em Carrazedo havia uma casa de venda de computadores. O miúdo fez uma covinha lá num canteiro. Porquê? Porque o avô - era um miúdo de uma dessas aldeias - tinha-lhe dado uma nota em dinheiro, na altura em escudos, para aí 20 escudos, que hoje nem sequer é um euro. O miúdo, com medo de a perder, enrolou a nota num papel, fez uma covinha e guardou a nota. Eu depois até lhe perguntei: “Mas tu julgavas que aquilo ia crescer?” (risos). Ela levou-o à direção, queria castigá-lo porque ele tinha estragado o canteiro. Ele, coitadinho, bem queria explicar o que estava a fazer, mas ela nem o deixava falar. Eu, na altura, zanguei-me.

Aliás, zanguei-me com ela várias vezes pela forma como ela tratava os miúdos, principalmente o filho dela, que era meu aluno.