10.3 Um motor de aprendizagem

ciclo 1º Ciclo
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Uma experiência que para mim foi marcante, porque, pronto, como é que eu trabalho a iniciação à escrita e à leitura? É a partir dos enunciados deles. Portanto, é numa perspetiva discursiva, para que eles percebam que a escrita é uma representação da fala, a escrita não é uma coisa mecânica, a escrita não é cópia, não é reprodução. A escrita é a tradução do nosso pensamento. E da nossa fala. E portanto, eram textos orais, que eu escrevia, inicialmente era eu. E que eles depois, num momento diário, liam à turma. E depois, uma vez por semana, trabalhávamos um texto de cada menino, eles faziam descobertas, e depois trabalha-se a consciência fonológica, e por aí fora, até adquirirem o código alfabético. Aqueles dois meninos, irmãos, indianos, falavam um com o outro, não falavam nada português, eu não sabia se eles me entendiam, a P. era repetente, do primeiro ano, que ainda por cima não era legal, mas como, coitadinha, andou ali aos caídos, fizeram-na repetir o primeiro ano, então ficaram os dois na minha turma. O N. muito mais solto, era a primeira vez que estava na escola, e eu falava com eles e eles faziam que sim a tudo, e depois falavam um com o outro. E eu pensei: “mas como é que eu vou fazer?”. E então, a certa altura, queria era que eles tivessem um texto para ler aos colegas, naquele momento de leitura dos textos, e de apresentação dos textos. E então andei atrás deles, e dizia: “olha, vocês têm que…”, tinham um caderninho, A5, para escrever esses textos, “não querem fazer um texto? Olha, daqui a pouco é o trabalho do texto do N.”, porque era por ordem alfabética, e portanto, “brevemente será o texto do N., e tu não tens textos”, não percebia se eles me percebiam ou não. Mas eu insistia: “olha, não queres escrever um texto? Eu escrevo, vá, diz lá, olha, queres contar”, a mãe vinha todos os intervalos à escola, levar o lanche, e eu comecei a dizer: “olha, querem contar que a mãe vem cá?”, eles faziam que sim, “ok, então eu vou escrever «a minha mãe», está bem? Está aqui, «a minha mãe vem levar o lanche», é? Sim? Então eu vou escrever «vem levar o lanche», olha, está aqui «A minha mãe vem levar o lanche». Amanhã vais ler aos meninos, está bem?”. No dia a seguir mostrei-lhe o texto, e ajudei-o a ler, não é? E ele repetia “a-minha-mãe”… A partir daí começou “a minha mãe, a minha mãe”, começaram a surgir os textos, era tudo “A minha mãe”. Dito por mim, depois escrito por eles. E aquilo andou… e depois no trabalho de texto, eles são convidados a fazer descobertas, que são, no fundo, analogias. Este é um bocadinho do meu nome, este bocadinho lê-se como a palavra não sei quê, pronto, e depois pegamos nesses bocadinhos, fazemos listas de palavras, etc. O N. e a P. nunca tinham descobertas, não é? Eis senão quando um dia, o N., muito seguro de si, vai ao quadro e diz: “Ir. N.” Ai, eu fiquei tão contente! Fiquei tão contente que eu nem sabia o que havia de fazer. Eu sei que o N., de repente, não sei como, ele estava a ler tudo. Ou seja, para mim foi uma revelação, não é? Que é, a escrita é um motor da fala e da própria escrita, e neste caso, foi um motor de aprendizagem da língua portuguesa. Ou seja, ele começou a ler primeiro do que começou a falar. Claro que, de algum modo, ele já conhecia as palavras, mas não se atrevia, provavelmente, a dizê-las, ainda por cima porque tinha ali a muleta da irmã, não é? E podiam comunicar os dois, mas no fundo, a mediação da escrita, permitiu que ele passasse a comunicar em português.