| ciclo | 1º Ciclo |
| id | Abel-1 |
| pof | entrevista_Abel |
| keys | Alfabetização // Educação de adultos // Ler e escrever |
| nvivo | Políticas educativas: Educação de adultos // incidentes críticos |
Estive quatro anos na Educação de Adultos. Uma experiência giríssima, com pessoas com 70 anos de idade. Um dos senhores que foi meu aluno - essa eu tenho que lhe contar. Um dos senhores que foi meu aluno, era pai e sogro de dois colegas que estavam na escola onde eu tinha o curso. O senhor nem o nome dele sabia assinar; eu conhecia-o desde miúdo.
Ele chamava-me menino. Eu disse: “Então Sr. E., como é que é?”. Ele diz assim: “Eu sei o que é que quero. Quando conseguir fazer aquilo que eu quero, vou-me embora. Fique claro, eu não vou fazer exame. Eu quero uma coisa, mas não lhe vou dizer o que é”. Eu pensei: “Este homem vem para aqui aprender a assinar e a seguir vai-se embora”.
Eu explicava-lhe uma coisa e ele aprendia - ficava revoltado era com os mais novos que aprendiam mais devagar. Um dia chega-se ao pé de mim e diz-me assim: “Tenho aqui uma carta para o meu filho” - que é meu colega e que estava na América. “Tenho aqui uma carta para o meu filho, está proibido de corrigir os erros, só tem é que ler e ver se percebeu”. Eu li a carta. Era um português assim um bocado estranho, mas percebia-se o contexto da carta - isso passado quase um ano de andar lá.
Passado uns tempos chegou ao pé de mim e disse-me: “Venho aqui para lhe dar um abraço, que é o meu último dia de aulas”. Perguntei porquê. “Porque o meu filho escreveu uma carta e eu já o entendi. Ninguém mais, ninguém mais lê os segredos que eu tenho para o meu filho”.
O filho, cada vez que vem cá da América, faz o favor de vir à minha casa. Bate à porta e diz que me veio dar um abraço, dá o abraço e vai-se embora. Esta foi na Educação de Adultos.