Inquérito Musical Popular
Michel Giacometti
1975
Calendário das cerimónias e celebrações religiosas e índice sumário da
música vocal e instrumental nelas integrada
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24/25 de Dezembro (Natal):
Cantos ao Menino Jesus. Novenas do Menino. Loas. Canções de presépio.
Música vocal/instrumental intercalada nos Autos Pastoris.
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26 de Dezembro (Festa dos Rapazes):
Colóquios e Loas (especialmente em Trás-os-Montes).
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31 de Dezembro / 1 de Janeiro:
Cantos de Janeiras ou Janeiradas e de Ano-Bom (vocal/instrumental).
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5/6 de Janeiro (Reis ou Epifania):
Cantos de Reis (para pedir os reis). Reisadas ou Reiseiras com chacotas
ou desgarradas elogiosas ou insultuosas (vocal/instrumental). Orações
das almas (para as almas do Purgatório. Especialmente no Alentejo e
Algarve).
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2 de Fevereiro:
(Festa das Candeias ou da Purificação de Nossa Senhora)
Cantos à Senhora das Candeias (pouco correntes).
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25 de Março (Anunciação de Nossa Senhora)
Cantos à Senhora de Março. Cantos à Senhora da Encarnação. Terços do 25
de Março.
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Da Epifania até Quarta-Feira de Cinzas (Carnaval)
Cantigas e modas do Entrudo (vocal/instrumental).
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De Quarta-feira de Cinzas a Páscoa (Quaresma)
Encomendações das Almas (especialmente em Trás-os-Montes, Minho e
Beiras).
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Semana da Paixão e Semana Santa
Martírios do Senhor. Paixão do Serhor (Paixão Nova, Paixão Velha e
Paixão do Campo). Terço da Sexta Feira de Paixão. Senhora das Dores.
Pela rua da Amargura. As Três Marias. O Vos omnes (canto da Verónica ou
Padeirinha). Euh Domine. Misericórdia Senhor. Senhor do Calvário. Oração
do Calvário. As Divinas ou Santas Cruzes. Bendito. Aleluia. Alvíssaras.
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1º Domingo de Maio
Cantos da Santa Cruz ou da Divina Cruz e cantos do Maio-Moço.
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Quinta-Feira da Ascensão (40 dias depois da Páscoa)
Cantos alusivos (pouco correntes).
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Domingo de Pentecostes ou Domingo do Espírito Santo
Cantos alusivos. Folias do Espírito Santo (vocal/instrumental).
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13 de Junho (Stº António)
Cantos alusivos. Loas. Orações cantadas.
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24 de Junho (S. João)
Cantos dançados em volta dos mastros e fogueiras (vocal/instrumental).
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29 de Junho (S. Pedro)
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15 de Agosto (Assunção de Nossa Senhora)
Cantos alusivos (pouco correntes).
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1º de Novembro (Todos os Santos)
Cantos alusivos (pouco correntes).
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2 de Novembro (Fiéis Defuntos)
Cantos alusivos e especialmente Orações das Almas.
Lista exemplificativa de mais alguns espécimes de música vocal e
instrumental que ainda hoje exercem funções, nem sempre bem definidas,
na vida religiosa - doméstica ou colectiva.
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Padre Nosso e Avé Maria (cantados ou recitados com entoação em várias
circunstâncias da vida religiosa).
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Excelências da Virgem (frequentemente entoadas sob a forma de canção
infantil).
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Confissão de Nossa Senhora (romance religioso, entoado frequentemente
num estilo plangente),
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Juramento da alma (pouco corrente).
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Almas Santas ou Senhor Fora (na ocasião de ser levado o viático aos
enfermos).
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Bendito (das trovoadas).
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Cantos de romarias (especialmente na Beira Baixa e Minho).
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Toques de peditórios e de procissões (gaiteiros, tamborileiros e
pequenos grupos instrumentais).
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Toques de missa (outrora executados por gaiteiros e tamborileiros ao
começo, à Elevação, a Santos e à saída).
Mandamentos e gritos, pregões e chamamentos, lenga-lengas, melopeias e
cantos de qualquer modo relacionados com o trabalho
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Cantos de sementeira, de rega, de sacha (frequentemente polifónicos)
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Melopeias e lenga-lengas para puxar a água da rega por meio de noras,
rodas e outros engenhos.
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Cantos da lavra (modas da lavoura e tralhoadas no Baixo e Alto Alentejo,
e modas das vessadas, no Minho e Douro Litoral).
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Cantos da monda, da ceifa ou segada, da trilha e das malhas ou malhadas
(frequentemente polifónicos).
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Cantos das desfolhadas ou descamisadas do milho (frequentemente
polifónicos no Minho, Douro Litoral e Beira Baixa)
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Cantos para ripar, espadelar e maçar o linho milho (frequentemente
polifónicos no Minho, Douro Litoral e Beira Baixa)
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Mandamentos na cava do vinho (Bacelada). Cantos próprios da vindima
(frequentemente polifónicos Douro Litoral). Música instrumental
executada aquando do transporte da uva e no final da vindima (oferta do
ramo). Lenga-lengas e música instrumental para acompanhar o pisar da uva
no lagar. Lenga-lengas para a contagem do vinho (especialmente na
Estremadura e Ribatejo).
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Cantos da apanha ou varejo da azeitona. Música vocal e instrumental das
adiafas, no fim do trabalho (Alentejo).
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Cantilenas de pedreiros para puxar a pedra (especialmente no Minho,
Beira Alta e Trás-os-Montes)
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Cantos e ritmos de pescadores para levantar as redes, puxar os barcos,
remar, etc.
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Cantos, lenga-lengas e ritmos de lenhadores, ferreiros e sapateiros
(para bater o ferro e a sola), de moleiros, oleiros, carvoeiros,
corticeiros e cesteiros.
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Cantilenas para chamar ou levar o gado.
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Chamamentos e gritos dirigidos aos animais domésticos (para chamar,
mandar parar, avançar, virar à esquerda e à direita, etc).
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Chamamentos e gritos para afugentar os pássaros.
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Cantos dialogados de pastores para conversar à distância (especialmente
Minho e Trás-os-Montes)
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Cantos de almocreves (especialmente na Estremadura, Ribatejo e
Alentejo).
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Cantos de tosquiadores (do manageiro)
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Cantos de fiadeiras, tecedeiras e lavadeiras.
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Cantos de contrabandistas
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Melopeias dos capadores de porcos e amoladores (flauta de pã)
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Pregões dos vendedores, gritos e lenga-lengas dos pregoeiros
Índice exemplificativo de cantos exercendo funções lúdicas ou rituais,
ou ainda, de carácter social ou político
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Cantos de berço (de nanar ou acalentar)
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Jogos de rodas, rimas e adivinhas infantis.
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Cantos dos rapazes quando vão às sortes (vocal/instrumental).
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Cantos da Serração da Velha
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Cantos epitalâmicos (Despedida da noiva, Descante dos noivos, Serenata
aos esposados).
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Melopeias das carpideiras
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Cantos ao desafio (despiques e desgarradas).
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Fados (políticos / socialistas).
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Fados (obscenos / apimentados)
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Cantos militares e antimilitaristas
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Cantos e hinos políticos (liberais e miguelistas, republicanos,
anarquistas e anti-fascistas).
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Cantos de carácter anti-religioso e anti-clerical.
Trechos instrumentais e danças populares ou popularizadas que, com mais
frequência, participam nas festividades religiosas ou nas diversões e
entretenimentos colectivos
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Alvoradas, arruadas, rondas de noite e serenatas (por gaiteiros,
tamborileiros e pequenos conjuntos instrumentais - tradicionais ou não.
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Bailaricos, Verde-Gaios e Fandangos (especialmente na Estremadura,
Ribatejo e Alentejo).
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Saias (Alto Alentejo) e Corridinhos (Algarve)
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Viras, Chulas, Malhões e Farrapeiras (especialmente no Minho e Douro
Litoral)
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Danças dos Pauliteiros (nos Concelhos de Vimioso e Miranda do Douro).
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Polcas, Secoutishes (Sotiças), Mazurcas, Valsas, etc.
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Marchas militares e fúnebres
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Reportório dos Zés Pereiras e das Rusgas, Rusgatas e Tocatas (Minho e
Douro Litoral)
Alguns romances - também chamados quadras, histórias, ou fados -
entoados no trabalho ou nos serões
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Romance do Rei Rodrigo. D. João de Castela. D. Gaifeiros. Conde Carlos.
Conde da Alemanha.
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Donzela guerreira. Conde Niño. D. Duardos. A erva fadada. A filha do
Imperador de Roma. D. Brazindo. Bela Infanta. Helena. Bernal Francês. O
cordão de ouro. D. Filomena. Frei João.
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Vingador da sua honra. Nau Catrineta. D. Gato. Mouribanes. Santa Iria.
D. Ana. Delgadinha. D. Basílio. O cego. D. Aleixo. O marinheiro. O
cativo. Branca-Flor. O sapo e a sapa. Bem cantava a lavadeira. Devota da
ermida. Ermitão. Casei cúma donzelinha. Tecedeira. Senhora Aninhas.
Santa Catarina. Manhã de S. João. O lavrador. Bem madrugava a donzela.
El-Rei e a Virgem Maria. Rosa Branca. Deus te salve, ó Rosa. Madalena.
Entre canas e canais. A mulher malvada.
( Texto mimeografado, elaborado no âmbito do Plano "Trabalho e Cultura"
do Serviço Cívico Estudantil do Ministério da Educação (doc nº 3),
referente ao território de Portugal Continental. Digitalizado e revisto
por Domingos Morais em 1999.)
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