As músicas que hoje ouvimos (e mais raramente fazemos) neste final de milénio, parecem-nos talvez desligadas de muitas das nobres funções e actividades que nos primordios das comunidades humanas pontuavam a sobrevivência e a vida ritual. A divisão operada no quotidiano da população activa entre tempo de trabalho e de não-trabalho, a par com a emergência de uma rentabilidade a todo o custo, afastaram-nos de vez de actividades que decorriam ao ritmo das estações do ano e dos ciclos próprios da recolecção e caça, da agricultura, pecuária, pesca e artesanato. Uma feliz metáfora de Michel Giacometti no seu livro "Cancioneiro Popular Português" reclama a presença de músicas "Do berço à cova", como algo que nos singulariza no mundo das espécies. As músicas aparecem-nos actualmente, p. e., nos locais de trabalho ou nas grandes superfícies comerciais com funções previstas de aumentar a produtividade, estimular o consumo, induzir estados de euforia e de diminuição das capacidades de auto controlo.
Ao referir o que pensamos ter sido o papel das músicas nas comunidades humanas pré-industriais, como reguladoras dos ritmos próprios das funções a que estavam ligadas, como suporte de conhecimentos e valores e como linguagem e afirmação pessoal e grupal nas comunidades, reportamo-nos a uma reflexão que nos tem acompanhado ao longo dos últimos anos e que nos foi muito útil na introdução de conteúdos de expressão e educação estética nas reformas curriculares portuguesa e dos países africanos de língua oficial portuguesa.
As práticas artísticas ganharam espaço e foram reconhecidas nos seus contributos para o sucesso escolar e um melhor desenvolvimento global dos alunos. Os estudos sobre os efeitos da educação estética realizados nos Estados Unidos e em vários países europeus na década de 80 vieram confirmar os benefícios para as comunidades de um conjunto de práticas expressivas e artísticas que foram desenvolvidas quer pelo ensino formal, quer pela iniciativa comunitária. Nos países africanos que nos últimos anos acederam a dedicar parte do tempo escolar a este tipo de actividades os estudos realizados vieram confirmar ser a educação estética uma componente essencial na formação dos alunos, ao contrário do que pensavam alguns organismos internacionais que a consideravam um luxo apenas possível em "países ricos".
As situações novas em que homens e mulheres desenvolvem a sua actividade profissional teriam também muito a lucrar se algumas das formas próprias desenvolvidas pela espécie ao ligar a música (e a dança) ao trabalho não fossem esquecidas, sendo substituídas por subprodutos musicais, manipulatórios e entorpecentes da vontade e do prazer. O balanço necessário entre realização pessoal, bem estar e afirmação cultural contrapostos a produtividade e rentabilidade necessitam de ser repensados nas sociedades que defendendo teoricamente valores e direitos têm dificuldade em os tornar efectivos nos locais de trabalho modernos.
É-nos assim possível enumerar alguns temas, dificuldades e vantagens que permitem a quem for sensível e interessado intervir de forma a facilitar um melhor acesso ao gesto musical tal como o entendemos e que pensamos merecerá um amplo consenso. As definições operacionais que damos de músicae de gesto musical servem para situar o leitor no esboço de programa que indicamos.
Música: universo significativo de sonoridades e estruturas sonoras, reconhecido como tal por um determinado grupo humano, habitualmente ligadas a procedimentos e instrumentos próprios.
Gesto musical: mobilização e domínio do corpo enquanto gerador de música. A sua aquisição consegue-se pela observação, imitação, experimentação e reinvenção, permitindo o desenvolvimento de capacidades vocais e corporais, o domínio de instrumentos,o movimento e a dança.
Para cada um dos parágrafos anteriores seria útil um aprofundamento em que os interessados procurariam ver de que forma poderiam desenvolver futuras iniciativas no âmbito da sua esfera pessoal e profissional.
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