Pela primeira vez durante a greve dos maquinistas a decorrer há nove dias, a CP conseguiu ontem transportar de Souselas à Maia, no Porto, 1.150 toneladas de cimento, informou um porta-voz da empresa.
Até agora e ao longo da greve, marcada até às 24h00 de hoje, com a circulação ferroviária prevista para voltar à normalidade a partir das 00h00 de sábado, estiveram suspensos todos os comboios de mercadorias.
O conflito afectou também algumas carreiras dos comboios Alfa e Intercidades que foram suprimidas pela greve de duas horas que os maquinistas têm praticado no início de todas as partidas.
Afectados a 30 por cento foram ainda os comboios urbanos de passageiros, «poupados de grandes perturbações» pelos grevistas para preservar a população, segundo o presidente do Sindicato dos maquinistas (SMAQ), António Medeiros.
De acordo com o sindicalista, as divergências entre os trabalhadores e o conselho de gerência da empresa começaram no início de 1998 com a falta de cumprimento pela empresa dos acordos estabelecidos.
A Cimpor garantiu ontem que a greve dos maquinistas da CP «não chegou a provocar a ruptura dos stocks de cimento, porque a empresa está a disponibilizar um comboio por noite para abastecer o entreposto da Maia».
Segundo o director do departamento de Relações Externas da Cimpor (Indústria de Cimentos SA), Fernandes Lopes, estava prevista para quarta-feira a ruptura de stocks no entreposto da empresa na Maia, «o que não chegou a acontecer, porque entretanto a CP disponibilizou um comboio durante a noite, e ontem à noite foi disponibilizado mais um».
«Os maiores prejuízos (causados pela greve) verificaram-se no Entreposto da Maia, que abastece principalmente a região Norte, o qual vende cerca de um milhão de toneladas de cimento por ano», acrescentou.
Na opinião de Fernandes Lopes, «os prejuízos não foram maiores porque muitos camionistas foram desviados directamente para a fábrica de Souselas». Por isso, «no fundo, o prejuízo foi mais dos clientes da Cimpor do que da própria empresa», acrescentou.
A reposição dos stocks da Cimpor «deverá estar normalizada segunda-feira, uma vez que se prevê que a greve dos maquinistas da CP termine hoje», referiu.
Segundo José Matos, secretário-geral da Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção, «se o entreposto da Cimpor na Maia tivesse entrado em ruptura, a situação tornar-se-ia muito mais grave», em virtude de «ser um dos principais pontos de abastecimento para a região Norte».
«Em relação à Secil, não se previam problemas tão graves, porque os transportes de cimento feitos pela CP para esta empresa, sobretudo para a região Norte, não representam uma parte tão significativa como para a Cimpor», disse.
A greve dos maquinistas da CP não trouxe igualmente problemas graves para a maioria das empresas do sector da construção na região Norte, como por exemplo a Soares da Costa, que garantiu não ter «obras em risco de parar».
A construtora Soares da Costa SA não sofreu «efeitos imediatos causados pela greve da CP no que respeita ao abastecimento de cimento, uma vez que possui transportes próprios», referiu uma fonte da empresa.
Para minimizar os efeitos da quebra de abastecimento de cimento, a Soares da Costa tem utilizado os seus próprios transportes para se deslocar a Souselas, «o que traz um acréscimo de custos porque a distância é maior», salientou.
Apesar de as grandes construtoras não estarem a sofrer muitos prejuízos com a greve da CP, as empresas de menor dimensão têm sido mais afectadas, uma vez que, por falta de redes próprias de transportes, têm mais dificuldades em abastecer-se de cimento.
De acordo com uma fonte da CP, a empresa distribui 23 por cento dos cimentos em Portugal.