Direitos humanos e prática educativa Por Georgino Rocha

A importância dos direitos humanos não se descobre espontaneamente. A natureza possui, além de enormes espacidades, bastantes limitações. Em nós, há 'focos' e tendências de acentuado individualismo. À nossa volta, há forças sociais e correntes de opinião discriminatórias e elitistas. No ambiente cultural em que vivemos, manifesta_se um interesse teórico e publicitário por estes direitos, mas escasseia a sua prática efectiva.

Por isso, torna_se indispensável dar a conhecer e fazer apreciar o conjunto destes direitos, transmitir os valores que lhes dão sentido e importância, criar condiçõss para que sejam sempre respeitados e promovidos, aprofundar o seu significado nas novas situações emergentes, abrir_lhes horizontes condignos à realização plena de todas as dimensões da pessoa e do bem comum. Alcançar estes objectivos e satisfazer as correspondentes exigências faz parte da função educativa de toda a sociedade e das suas organizações, das confissões religiosas e da Igreja católica.

Educar é fazer desabrochar capacidades, reconhecer e assimilar valores, suscitar responsabilidades e adquirir competências. Toda a pessoa traz consigo um dote natural que, por esforço individual e por ajuda recebida, deve aprender a conhecer e a gerir. A acção educativa enraíza_se precisamente aqui e alarga_se a outros círculos da vida cada vez mais amplos e envolventes. A este processo, não é estranha a presença discreta e estimulante de Deus que, na perspectiva cristã, acompanha e revigora os esforços de progressiva humanização.

A prática educativa assenta em três pilares básicos: as pessoas, as pedagogias e os conteúdos

As pessoas são as protagonistas de todo o processo. Dotadas de uma originalidade própria, estão chamadas a desenvolver_se progressivamente mediante o esforço pessoal e a relação com as demais. Diferentes nas capacidades e funções, educadores e educandos influenciam-se mutuamente e estabebcem entre si uma relação de ajuda positiva. Todos acreditam que ninguém ensina nem liberta ninguém, mas que cada um deve dar o passo possível com o apoio dos outros.

As pedagogias estão ao serviço deste passo sempre crescente. Nelas, tudo se conjuga para que as pessoas envolvidas exercitem os direitos humanos em cada acção educativa e não apenas no final do processo de aprendizagem.

Por isso, são um "jeito" e uma arte, uma ciência e uma prática. Como tal, procuram salvaguardar em todos os momentos a liberdade dos intervenientes e desenvolver a sua capacidade critica nas suas mais diversas dimensões. Proporcionam o debate e o contraste, favorecem o encontro com os grandes defensores e testemunhas dos direitos humanos em ordem ao compromisso coerente.

A prática pedagógica está muito condicionada pelas atitudes dos intervenientes, designadamente dos professores_educadores. Algumas não podem faltar a qualquer o processo libertador. Enumeram_se apenas as que parecem mais importantes: conhecer e amar as pessoas envolvidas, ter uma visão global do caminho a seguir, gostar do que faz e saber fazê_lo bem, estar atento aos acontecimentos e valorizar cada esforço, confiar sem ser ingénuo nem ter preconceitos prévios, preferir o desenvolvimento das capacidades à eficácia das actividades, viver da esperança e alimentá-la com a força do sonho que tende a fazer_se realidade pascal.

O conteúdo refere_se claramente aos direitos fundamentais assumidos como expressão qualificada da dignidade humana e ideal comum a todas as pessoss e famílias, como referência jurídica da constituição política e da governação democrática dos povos, e como fonte inspiradora do nível ético da consciência colectiva da humanidade e das suas organizações.

Daí, a importância de a prática educativa estar sempre revestida e animada pelos seus valores.

"Correio do Vouga"- 03 Fevereiro 99 Educar é fazer desabrochar capacidades, reconhecer e assimilar valores, suscitar responsabilidades e adquirir competências.