Quatro anos depois da matrÃcula È marcado o exame da quarta classe. E a fama de ser o melhor aluno despertou a curiosidade, e não foram poucos os vizinhos que atiraram com a enxada ou sachola fora, e plantaram-se na sala escolar para assistir ao exame do melhor aluno da classe. Não falhou a uma pergunta e, na resposta, atÈ saÃa do programa. Quando lhe perguntaram em quantas partes se dividia o corpo humano, não se limitou ele a responder cabeÁa, tronco e membros. EsmiuÁou a cabeÁa, o tronco e os membros. Mas quando lhe foi perguntado como se distinguia o sexo, corou de vergonha e não quis responder. Mas com licenÁa do júri, rapou dos l·pis de cor e, autorizado a comeÁar pelo sexo das bolinhas, desata a desenhar e, num ·pice de tempo, apresenta um nu a fazer lembrar o DiscÛbolo, da antiga GrÈcia, mas mostrando ostensivamente o que o júri queria ver. E logo a seguir Las Meninas do cÈlebre pintor Espanhol Vel·squez, com aqueles bonitos cus à mostra! E perguntado de onde conhecia esses histÛricos modelos, declarou que foi num dos livros de pintura e escultura do Dr. Venâncio, um antigo professor de Liceu, que havia doado a sua grande biblioteca à Junta da freguesia. ¿ disciplina de HistÛria falou exaustivamente do Rei D. Afonso Henriques, mas declarou que, como Alexandre Herculano, tambÈm ele não acreditava no milagre de Ourique. E as pessoas que assistiam do lado de fora, de ouvido colado às janelas, batiam palmas. E, para espanto do júri, ao ser-lhe perguntado o que se passou em 1640, responde com convicÁão que melhor fora não se tivesse passado nada. Que afinal se Portugal estava dependente da Espanha, dependente passou a ficar da Inglaterra e de outras influÍncias. E que ter-se-iam evitado mais guerras peninsulares e, entre nÛs, essa monstruosidade guerra de sucessão aberta por morte de D. João VI. Mais disse que a guerra civil entre os Miguelistas absolutistas e os liberais constitucionalistas, foi uma vergonha. Praticaram-se as maiores arbitrariedades. Prisões à toa por razões ideolÛgicas. Pr·ticas monstruosas de tortura. Forca plantada na PraÁa pública. Uma verdadeira inquisiÁão polÃtica! E para quÍ essa guerra? Com o 5 de Outubro de 1910 nem absolutistas nem liberais. Acabaram-se os Reis de coroa e ceptro.
Os membros do júri, de boca aberta e sempre a tomarem notas, ficaram espantados com tanto saber. J· no fim perguntaram ao aluno, outra vez, onde tinha ele aprendido as guerras fratricidas do princÃpio do sÈculo XIX. Respondeu, prontamente: -- Nos livros do Dr. Venâncio. - Mas em que livro especificamente? E a resposta não se fez esperar: -- No PORTUGAL CONTEMPORÂNEO, de Oliveira Martins. Feito um elogio de que não havia memÛria, sai o Quinzito aos ombros com a maior classificaÁão que lhe podia ser atribuÃda: DISTINTO.
No dia seguinte o rapaz j· estava confrontado com os problemas da vida. Trabalha de noite e de dia com a preocupaÁão de ajudar em casa. O pai estava j· acamado e a mãe ia dando as voltas da casa à sobreposse.
ComeÁou por fazer de tudo. E como tinha boas mãos, passou a arranjar guarda-chuvas, louÁa partida, e percorria os lugares da freguesia com a roda grande de amolador, amolando facas e tesouras. E, mais tarde, armado em capador, capava porcos a sangue frio, nas feiras semanais!
E atÈ para o circo, tinha jeito que se fartava. Quando um dia passou pela terra o primeiro, foi ele a responder à chamada de volunt·rios, para colaborar num dos números. E comeÁa logo a dar nas vistas. SÛ ele valia meio espect·culo!
E num belo dia o circo È desmontado. E as carroÁas carregadas com os tarecos todos seguem viagem para outras bandas. E o Quinzito aceita o convite e passa a ser mais um saltimbanco de terra em terra a fazer o número de ilusionismo que aprendera num livro do Dr. Venâncio. E o circo passa a não ter cadeiras para tanta gente.
Quem se não lembra ainda hoje do número do ovo! Chamava dois volunt·rios e entregava um chapÈu a cada um. A seguir gritava: AtenÁão, muita atenÁão, respeit·vel público que o ovo pode partir-se. Fazia-se um silÍncio sepulcral na plateia. Então ele, de casaca e cartola, agitava a varinha m·gica. De repente com a vara apontada para o chapÈu da esquerda, dizia um, dois, dois, dois e, e, e trÍs. E, seguindo o ovo, invisÃvel no trajecto, com a varinha m·gica, gritava: -- Veja o simp·tico público o ovo a sair do chapÈu da esquerda e l· vai ele, l· vai, entrou e j· saiu do chapÈu da direita e j· est· novamente no chapÈu da esquerda! E confiante, pede ao colaborador que mostre ao simp·tico público o chapÈu. E o chapÈu da esquerda È mostrado. E na verdade o ovo j· l· estava dentro, outra vez e inteirinho! E na plateia ouve-se um profundo ah....de admiraÁão. NinguÈm queria acreditar como nuns breves segundos, o ovo sai de um chapÈu para o outro, e sem aquecer o lugar, volta de novo para o chapÈu donde tinha saÃdo!
Mas um dia j· em Braga, finda uma sÈrie de espect·culos, as carroÁas partem sem o Quinzito. E a trapezista, filha do empres·rio, È obrigada a partir tambÈm lavada em l·grimas. E atÈ a chorar ficava mais bonita. Usava cabelos compridos de um preto retinto. De tÍs escura e dois olhos da cor do cabelo que enfeitiÁavam; de estatura mÈdia a puxar para o alto. Colo farto e subido; anca levemente arqueada; perna de joelho disfarÁado, ligeiramente arredondada. ” quantas vezes o Quinzito se deleitou a segurar a corda enquanto ela subia para o trapÈzio e descia l· das alturas no fim do arriscado número que fazia sem rede. E, quantas vezes em Íxtase, no fim do espect·culo, a observava, derretido, quando ela se curvava perante o público, de rÈdea na mão a segurar a Rita, um belo exemplar de Ègua que, dobrando as patas da frente, tambÈm ela agradecia, ao simp·tico público a estrondosa ovaÁão!
Mas o rapaz sentia dentro de si uma estranha forÁa que o impelia para mais altos voos.
Vai te embora Nelita com teus pais. Um dia eu apareÁo para comprar um circo com feras, show de passarada, carros em vez de carroÁas, e com os melhores palhaÁos do mundo. Apertou-lhe o nariz carinhosamente e, de costas voltadas, cada um seguiu o seu destino.
E não foi f·cil. ComeÁou por puxar um carrinho de eixo à medida dos carris do elÈctrico que puxava cheio de caixotes e sacos de bacalhau, ou aÁúcar, ou arroz. Mais tarde È escolhido para preencher uma vaga de balcão. E pouco tempo depois passa para o escritÛrio. E no ano seguinte realiza o sonho, que desde a prim·ria acalentava, de frequentar um curso comercial nocturno. Torna-se no urso da turma e mantÈm-se como o melhor aluno atÈ ao final do curso. Dactilografava de olhos vendados. Nas provas de estenografia era sempre o primeiro a entregar o texto. Foi distinguido com o prÈmio do melhor aluno do curso.
E È a prÛpria Escola que indica o seu nome a um banco comercial. E no banco tem uma ascendÍncia r·pida por passar com distinÁão em todos os testes. Utilizava a sua magia na angariaÁão de clientes. Passa a ser disputado pela concorrÍncia. Vai mudando de banco e subindo v·rias vezes no ano, levando sempre consigo a lista dos seus numerosos clientes. De gerente passa a director de Zona. E um dia entra para a administraÁão, escolhido por mÈrito.
O administrador, Presidente do grupo, Comendador do Santo Sepulcro, Dr. Fernando Corte Real, sem descendÍncia, aposta na sua personalidade e d·-lhe todo o seu apoio. Como est· j· no limite da terceira idade, passa a delegar nele, de vez em quando, a PresidÍncia do grande grupo econÛmico. E o Quinzito, a quem nunca subiu a categoria à cabeÁa, procura merecer a confianÁa dada e humildemente passa a ser seu assessor, e motorista, e homem de recados da sua vida particular.
Mas um dia o coraÁão do Comendador p·ra sem avisar ninguÈm, nem mesmo a sua querida e dedicada esposa, a D. Maria de Lencastre Corte Real.
Depois das exÈquias, o Quinzito È convidado a gerir os interesses da viúva e passa mesmo a viver com ela debaixo do mesmo tecto. Acompanha-a ao cemitÈrio, ao jazigo de famÃlia, depositar flores do seu jardim de camÈlias, todas as semanas. E todos os dias a conduz pelo braÁo ao mausolÈu dos tambÈm seus entes queridos bichinhos, situado a um canto do jardim. Um periquito embalsamado, dentro de uma redoma de vidro de forma cilÃndrica a terminar em abÛbada, e o bichano tico carinhosamente sepultado numa urna de madeira castanha exÛtica, com o tampo raso em m·rmore rosa. E ali os dois, num banco de pedra e acento de madeira, ficavam por uns momentos, em profundo recolhimento. E o Quinzito de semblante triste, l· puxava de vez em quando, pelo lenÁo de mão e esfregava os olhos. TambÈm ele tão amigo de animais, sobretudo da Rita do Circo que ele ainda tanto adorava.
Um dia È chamado a casa um dos melhores advogados na ·rea de direito sucessÛrio. E a última vontade de D. Maria È instituir seu universal herdeiro o fiel amigo, companheiro de horas certas e incertas. Mas o advogado adverte que a parte de leão vai para o Estado, dado ser tratado, na classe de sucessÃveis, por estranho.
E D. Maria, Senhora culta e por dentro de todos os problemas que se prendem com a vida dos ricos, habituados a fugas ao fisco, pergunta se o casamento não resolveria o problema. Claro que sim diz o advogado. -- Passa a ser o cÙnjuge sobrevivo o herdeiro legitim·rio. -- E tu Quinzito aceitas-me como tua fiel esposa? - Sim, aceito, minha querida Senhora.
E o casamento tem lugar, logo a seguir, fora da terra, e de uma maneira quase clandestina.
Mas trinta dias depois aparece no Pal·cio dos Prazeres, o mÈdico da famÃlia para verificar o Ûbito de D. Maria de Lencastre Corte Real.
E, passada a missa de sÈtimo dia, surge aquele abraÁo h· tanto tempo esperado.
-- Letinha, vamos à Rússia comprar o maior circo do mundo, com o zoo melhor do mundo, o show de p·ssaros melhor do mundo, e os palhaÁos melhores do mundo.
Mas Û Quinzito, não vais comprar a melhor trapezista do mundo? Não, essa não est· à venda. - E o melhor ilusionista do mundo tambÈm não, não È verdade Quinzito? - Tu o disseste Letinha. - Ainda te lembras do número do ovo? - Se lembro.
E o novo Circo Corte Real corre o mundo com uma caravana do tamanho da lÈgua da PÛvoa, batendo todos os recordes de audiÍncias!
avelino.barroso@mail.telepac.pt