Crô nucas lusitanas 21-' Edi pão Apresentação de Fernando Morais ADOBO 0 PESADELO DO MINISTRO FERNANDO MORAIS Quinze anos atrás a cubana Haydée Santamaría decidiu convidar pela primeira vez um grupo de brasileiros para participar do júri do prêmio literário anual da Casa de las Amé ricas. 0 prêmio, assim como a Casa, já existia desde o começo dos anos 60. E era uma tentativa dos cubanos de integrar através da literatura uma América Latina desunida pela política e pelas desavenças ideológicas. Com a presença de brasileiros em um júri que iria ler poemas, romances e ensaios escritos em castelhano, os cubanos queriam provar que, se o Brasil passara séculos de costas para a América Latina, era a Cordilheira dos Andes, e não o idioma, o que nos separava de nossos vizinhos hispânicos. Aqui no Brasil ainda vivíamos sob o penúltimo general da ditadura militar, o que custou aos viajantes Antonio Callado, Chico Buarque, Ignácio de Loyola e eu — tediosos interrogatórios policiais quando pusemos de volta os pés em solo pátrio. Durante trinta dias, em Cuba, lemos caixas e caixas de manuscritos, festejamos o aniversário de Callado e bebemos o melhor rum e fumamos o melhor charuto do mundo. No final o prêmio maior seria atribuído a Eduardo Galeano, com o seu Dias y Noches de Amor y de Guerra. E foi na festa de anúncio do resultado que Chico Buarque decidiu defender, com admirável segurança (até hoje não sei se ele falava a sério ou se debochava), que o castelhano nada mais era que uma corruptela do português. ''Mais do que isso", insistia, "o castelhano é apenas um português mal falado, um português pronunciado erradamente." Apesar de acuado por um enxame de iracundos guatemaltecos, salvadorenhos, nicaragüenses, argentinos, peruanos, uruguaios, Chico sustentava sua teoria e dava exemplos concretos: — Incapazes de pronunciar o nosso ão, os hispanófonos inventaram o ón, e assim por diante. Tornem um texto em português e troquem todos os ão por ón, os f iniciais por h, substituam por ue alguns o precedidos de consoantes e vocês terão um texto em escorreito castelhano. Acalmados os ânimos, a tese não chegou a estragar a festa nem produziu qualquer incidente diplomático entre Cuba e o Brasil (até porque durante o regime militar Brasil e Cuba não tinham relações diplomáticas que pudessem ser afetadas). Mas foi esse episódio que me veio à cabeça ao final da leitura deste delicioso Schifaizfavoire concebido durante os dois anos de solidão de Mario Prata em Portugal. Se continua convencido de sua tese até hoje, Chico Buarque terá razão ao afirmar, depois de ler este dicionário, que a língua falada no Brasil talvez esteja mais próxima do castelhano que do português de Portugal. Ainda que esta conversa não sobreviva ao peteleco de um filólogo, não custa nada lembrar que se pode encontrar rastros da língua portuguesa nos mais remotos cantos do mundo. A passagem dos jesuítas portugueses pela Ásia, por exemplo, teria deixado suas marcas do outro lado do planeta. Daí, talvez, a explicação para o fato de que a fonética da palavra pão, em japonês, seja exatamente igual à do português (se você pedir um pão em qualquer bar do Japão, vai receber do garçon o mesmo alimento feito de farinha de trigo produzido nas padarias portuguesas, do Rio ou de São Paulo). Em Tóquio me garantiram que até o arigatô não é senão a corruptela de um obrigadô deixado lá pelos religiosos lusitanos. 0 próprio Prata suspeita, por exemplo, que o nome do molho curry vem do luso caril (e não o contrário, como pretendem os ingleses). A idéia de produzir este dicionário foi sugerida a Mario Prata pelo meu falecido compadre Caio Graco, quando o autor traduzia para a Editora Brasiliense 0 Testamento ao Sr, Napumoceno da Silva Araújo, romance do cabo-verdiano Germano Almeida. Se era necessário contratar um tradutor para publicar em português um livro escrito em português, concluiu Caio Graco, estávamos diante de duas línguas diferentes. E a maneira encontrada para decifrar, para os brasileiros, os mistérios do idioma falado em Portugal foi comportar-se como se esta fosse para nós — e agora nós sabemos que é — uma língua estrangeira. A grua e o singular talento de Mario Prata, entretanto, transformaram o que poderia ser apenas mais um aborrecido dicionário em um saboroso mergulho na alma portuguesa. E também uma reportagem literária a respeito da primeira grande revolução vivida pelo país nos últimos sete séculos: a triunfal entrada de Portugal no "Primeiro Mundo" pelas portas da unificação européia. Cada um dos seiscentos verbetes vem acompanhado da lembrança de algum episódio vivido pelo autor em dois anos de exílio voluntário em Cascais. Em todos eles, sem exceção, está impressa a marca registrada de um dos mais brilhantes e criativos autores da língua brasileira. Estou certo de que todos, como eu, lerão Schifaizfavorre de uma só sentada, como se faz com um bom romance. Mas nem tudo são flores. Imagino que este livro vai se transformar num desmancha-prazeres dos defensores entre eles ó nosso luminoso ministro da Cultura, Antonio Houaiss — do pretendido "Acordo Ortográfico" com o qual alguns intelectuais portugueses e brasileiros sonham há tempos. 0 polêmico acordo unificaria a (não seria as?) língua falada no Brasil e em Portugual, Goa, Macau, Timor e nos chamados Palop Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa: Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Com seu proverbial bom humor, o autor certamente dirá que será mais fácil unificar nossa língua com o castelhano, com o japonês ou com o inglês. Estou certo, também, de que Mario Prata não escreveu o livro com essa intenção, mas Schifarzfavoire vai se transformar, inevitavelmente, no pesadelo do ministro. Fernando Morais é jornalista e escritor. Foi secretário de Estado da Cultura e, atualmente, é secretário de Estado da Educação de São Paulo. Absolutamente Quando dizem Absolutamente!, eles só querem dizerÉ claro que sim! e nunca Absolutamente não! E uma expressão absolutamente positiva. Acento Um dia, no Brasil, o Jô Soares entrou num táxi e o motorista — português — foi logo o reconhecendo. OJô, brincalhão, perguntou como ele descobrira. E o motorista respondeu: pelo seu acento. E não estava se referindo ao bumbum do Jô, mas sim ao seu sotaque. Achamento Alguns deles referem-se, sem ironia, ao descobrimento do Brasil como achamento do Brasil. Creio que eles estão certos. Por outro lado, vários brasileiros foram para Portugal no final dos anos 80 para descobrir Portugal. Mas eles não querem ser descobertos. Aqorda É uma papa, quase uma sopa, de pão amassado com água e alho, que pode ser de camarão, mariscos etc. Uma delícia, uma tradição. 0 aspecto não é nada agradável, mas... Existe até um restaurante excelente chamado Papagorda, no Bairro Alto, em Lisboa. Actor Evidentemente que actor é mesmo ator, Só estou fazendo o registro para informar que o c e o p mudos não são pronunciados. Recepção, por exemplo, tem o mesmo som que recessão. Sempre que você chega em algum lugar e vão anunciá-lo, dizem no interfone: Fulano está aqui na recessão. E não há recessão em Portugal faz muito tempo. Mas, por falar em actor, os actores portugueses são, em sua grande maioria, excelentes. São mais para a linha inglesa e francesa, ao contrário dos atores brasileiros, um tanto americanizados. No entanto, ao fazerem televisão, ainda esbarram num certo amadorismo. Lembrei-me de uma história que se passou com um director de novelas brasileiro. Estava ele a dirigir a cena de uma novela portuguesa e pediu que um actor beijasse calorosamente uma actriz, mordesse, estivesse com tesão. Tentou-se várias vezes e não havia jeito de o actor beijar — com o furor necessário — a actriz. Finalmente o actor chamou o director num canto e disse: o senhor não conhece as actrizes portuguesas, senhor. Não posso beijá-la porque ela é casada! Aí o director argumentou que ali eles eram personagens, que não tinha nada a ver, coisa e tal, mas o actor português foi taxativo. De jeito nenhum. Afinal, jogo baralho com o marido dela todos os domingos! Adesivo Pode entrar na farmácia e pedir um adesivo que não se trata de nada para grudar no vidro traseiro do carro nem na vidraça do seu filho. É o nosso conhecido esparadrapo, Mas também pode ser o nome dado para aquele chato que não larga do pé da gente: Fulano é um adesivo! Adeus Em todas as situações de despedida, é sempre adeus que se diz. Não se usam o tchau, o até togo, o até já. Adeus é meio triste, meio melancólico, mas é assim que eles se despedem. E como se não fôssemos nos ver nunca mais. Eles são assim mesmo. Como diz o Miguel Esteves Cardoso, o melhor escritor português vivo, eles gostam de sofrer. Sempre gostaram. Eles acordam e pensam: qual vai ser o meu sofrimento de hoje? Basta olhar para a cara deles na rua e percebe-se que estão sofrendo. Ficam felizes quando sofrem. Um dia eu estava com o meu pai na praça Giraldo, em Évora, um dos lugares mais bonitos da Europa, e ele notou que todas as pessoas que estavam sentadas em volta da praça estavam tristes, cabeças baixas, pensativas. Perguntou para a garçonete o porquê de tanta tristeza. E ela, jovem, linda, com um sorriso nos lábios, melancolicamente respondeu: nós, os alentejanos, somos assim, tristes... Agrafador Não se assuste se alguém lhe pedir agrafos para colocar no agrafador, para agrafar alguma coisa. Parece que vai acontecer um crime, mas na verdade estarão lhe pedindo grampos para colocar no inofensivo grampeador, para grampear alguma folha de papel. Agua fresca Sempre que você pedir uma água, em restaurante ou bar, a primeira coisa que vão Ihe perguntar é: fresca? Ou seja: água gelada? Água lisa E a segunda pergunta é: lisa? Ou seja: água sem gás? Alcatifa Ao procurar apartamento para alugar no jornal, estará lá: sala to talmente alcatifada. Se você não tiver origem árabe, moura ou parecida, ficará sem entender o que é uma sala alcatifada. Totalmente alcatifada, pior ainda. Quer dizer, simplesmente, que a sala é acarpetada. Alcatifa, palavra de origem árabe, quer dizer carpete. Não tem uma música ou um poema brasileiro que fala em algo parecido com chão alcatifado de flores? Do árabe a/-qaTifâ, Alcatrão Extraído de um roteiro de televisão do escritor Reinaldo Moraes: "E eis que lá longe, onde o alcatrão molhado se funde ao horizonte cinzento..." Isso é porque a estrada estava alcatroada. Ou seja, era uma estrada com asfalto, onde veio essa nossa mania de levar vantagem, de dar golpinhos, de enganar o próximo, de tirar proveito das situações. Está certo que os brasileiros aperfeiçoaram a aldrabice... Alfacinha Não se trata de uma alface pequenininha, de pequeno porte, mas sim como é conhecido, carinhosamente, o nascido em Lisboa, o lisboeta. 0 alfacinha e a alfacinha. Ninguém conseguiu me explicar o porquê, mas todos concordam que a origem é mesmo a alface. Alfinete É o nosso broche. Leia o verbete broche que você vai entender tudo. Aldrabão Esta gorda e sonora palavra é muito dita por eles, o dia inteiro. Estão sempre se referindo a alguém que cometeu uma aldrabice com eles. Também de origem árabe. Aliás, todas as palavras que começam com al (artigo árabe) o são. Aldrabão, portanto, é vigarista, trapaceiro, mentiroso. Cometer uma aldrabice significa, em termos bem chulos, sacanear alguém. Depois de morar algum tempo em Portugal você começa a entender de Algures Significa em algum lugar. Mas não se diz em algures lugar, apenas algures. Deixei a minha caneta algures e não a acho. Portanto, algures não é um lugar. Ao contrário, é qualquer lugar. Almeida Nem mesmo os mais velhos sabem explicar por que geri (varredor de rua) chama-se almeida. No tempo do grande Eça já era assim. Vai ver, foi algum perso nagem dele mesmo. A origem é árabe, da palavra at'-maiaa, que significa guarda. Almofada Almofada significa almofada mesmo, mas é também o nosso repousante e noturno travesseiro, Pensando bem, a palavra almofada (olha os árabes de novo) é muito mais significativa que travesseiro. Por outro lado, travesseiro é aquela almofada grande que guarnece toda a cabeceira da cama, de lado a lado. Aluguer Aluguer, como o nome quase indica, é atuguel mesmo. Mas atenção, pois nem todos os aluguéis são alugueres. Assim, chegando ao aeroporto de Lisboa, pode pedir um carro de aluguer, que ninguém vai pensar que você tem sotaque do interior de São Paulo. Ancore Influência francesa no show biz. (encore). E como eles pedem bís para o artista no final do espetáculo. Altura Significa o mesmo que no Brasil: altura. Só está aqui relacionada porque é impressionante o problema que eles têm com a altura. Em todas as transmissões esportivas, eles sempre dizem a idade e a altura dos atletas. Não apenas em basquete e vôlei mas também em futebol, natação, handebol etc. Aliás, depois que Portugal entrou para a CEE, eles estão achando que estão com 1,80 metro. Entretanto, continuam com 1,60. Mas eles chegam lá. Segundo a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, a estatura média dos alentejanos aumentou 6,5 centímetros entre 1940 e 1983. Deu no Diario de Notícias. Anda cá! É sair na rua para ouvir mãe gritando com filho: Anda cá! É o mesmo que Vem cá! Você não pode imaginar como as mães batem nos filhos em Portugal. Na rua. Imagino dentro de casa. Será aí a origem de tanta tristeza, tanta melancolia, tanto sofrimento? Andar Evidentemente que andar também é andar. Mas... ao procurar apartamento para alugar, provavelmente não vai encontrar nada. Procure andares para alugar. Aluga-se andar com quatro assoalhados, no terceiro piso. Ou então aluguei em prédio com apenas dois andares por piso. Entendeu? Andar, portanto, é apartamento. Ninguém diz vou comprar um apartamento, mas sim vou comprar um andar, mesmo que nesse andar tenha quatro apartamentos. Anedota Todo mundo sabe que anedota é piada. Principalmente piada de português contada por brasileiro. Ou piada de alentejano (região que, como o nome indica, fica além do rio Tejo) contada pelo resto de Portugal. Só fago o registro da palavra anedota para realçar que significa piada. Mas, e isso é o que importa, piada não quer dizer anedota. E importante registrar que quem inventou a piada de português no Brasil foram os próprios portugueses. Verdade! Eles chegavam para os brasileiros e perguntavam: conheces aquela do alentejano? E contavam a piada mostrando um português alentejano burro. 0 brasileiro, ao passar a história para a frente, perguntava: conhece aquela do português?... Parece piada, mas é anedota. Ao pé de Se alguém marcar um encontro com você ao pé do Marquês de Pombal, isso não quer dizer que você vá se encontrar com ele no pé da estátua do marquês. Significa quase isto: ao taao de. Portanto, não se assuste se alguém disser que o talho fica ao pé da bicha. Aparcar É como no espanhol Você leva o seu carro para o parque (estacionamento) para estacionar. 0 difícil é encontrar um estacionamento em Portugal. :Apelido Um dia o Zefirelli, o diretor de cinema, estava em Portugal e foi visitar uma amiga numa elegante quinta (provavelmente numa sexta). Ao ser recebido pelo mordomo, se anunciou: Zefirelli. 0 mordomo procurou a patroa e disse o apelido dele: está aí o senhor José Firelli. Ela respondeu: não é senhor José Firelli, é senhor Zefirelli. E o mordomo retrucou: isso para a senhora que é íntima. Para mim, é senhor José Firelli. Zefirelli é o sobrenome. E, por falar nisso, há uma lei dizendo os nomes que podem ser dados às pessoas que nascem em Portugal. São pouquíssimos os nomes. por isso, todos são Manuel, Joaquim, Antônio, José, Luiz, Nuno, Vasco, Paulo, Fernando e mais uns dois ou três. E as mulheres são todas Maria. Maria alguma coisa, mas sempre Maria. Em dois anos mo rando em Portugal, conheci seis Antônio Reis (dois deles irmãos), quatro Fernando Gomes, três Francisco Manso e dezessete Maria João. Apertar É a ação de amarrar sapatos, tênis... Apitadela Se você estiver tentando uma conquista e a pessoa disser que vai lhe dar uma apitadela, considere-se um felizardo. Ela vai lhe dar um telefonema, vai procurá-lo. Coisa rara em Portugal, mas a esperança é a última que dorme... Apuramento Na Europa, além dos campeonatos nacionais de futebol, a Uefa, entidade máxima deste esporte, organiza três competições européias entre os times dos vários países, além dos campeonatos de selecções. E o apuramento é o que todos os times desejam: a classificação para a fase seguinte, atrás dos ecus. A palavra também passeia pela maravilhosa cozinha portuguesa. Apurar uma comida significa caprichar ao cozinhar. Ardina Esta quem descobrir deveria ganhar um prêmio. Não consegui, até hoje, descobrir por que ardina é jornaleiro, Arrancar Além de tirar, tem também o significado de começar, de iniciar, finalmente, alguma coisa. É muito comum alguém se referir a um filme português dizendo que ele demorou para arrancar. Arranjar É uma palavra muito usada na cozinha, A cozinheira nativa arranja como ninguém os peixes, os frutos do mar. Um peixe bem arranj ado é outra coisa. Arranj ar significa limPar, PreParar. Mas é também o que as mães dizem para as crianças de manhã: vão se arranjar! Ou seja, lavar o rosto, escovar os dentes etc, Arrecadação Não é, como parece à primeira vista, a renda de um jogo de futebol. Arrecadação é, mais ou menos, a despensa da casa. 0 lugar de coisas que não se utilizam. É outra palavra que também sempre aparece nos anúncios de andares para renda. As arrecadações dos andares nunca ficam no mesmo andar, mas sim nas garagens. E uma espécie de porão, Arrefecer — Se a comida não for servida imediatamente, vai arrefecer. — 0 dia arrefeceu muito rápido. — Os ânimos foram logo arrefecidos. Arrefecer é mais usado que esfriar. Ascensor Claro que é o nosso elevador! Os prédios em Portugal geralmente são baixos e não havia muitos elevadores no país. Agora, com o progresso trazido pela entrada na Comunidade Européia, estão fazendo grandes prédios, grandes shoppings, todos com modernos elevadores. Só que alguém precisa explicar aos portugueses que para se entrar no elevador é preciso esperar que os que estão dentro saiam antes... Cada vez que um elevador abre as portas em Portugal, surge uma discussão. 0 mesmo acontece para se entrar nos metrôs, trens, barcas etc. E o progresso... Aselha Eles sempre me surpreendem. Existe melhor palavra para designar uma pessoa desajeitada? É aquela pessoa que não consegue fazer nada direito. Também há, daí decorrente, aselhice. Atacador Se eu lhe disser que eles, ao se vestirem, apertam o atacador, o que você vai pensar? Também não é o atacante do seu time. Mas, se você imaginar o correspondente em brasileiro, perceberá que nenhuma das duas palavras faz muito sentido. Imagine você que atacador é caChzrgo, cordão de sapatos. Atempadamente Etimológica e logicamente não paira nenhuma dúvida. Mas nunca vi alguém que dissesse esta palavra. Os locutores da televisão, no entanto, a usam a todo momento, no momento oportuno. Atendedor automático É como alguns chamam a nossa secretária eletrônica, 0 que é muito mais lúcido. Afinal, nada mais absurdo que um brasileiro dizer que colocou a secretária eletrônica em cima do criado-mudo. Há um poema do luso-brasileiro sérgio Antunes que diz: "Neste mundo moderno, absurdo/ A secretária eletrônica fugiu com o meu criado-mudo". Que língua a nossa, diria Millôr Fernandes. Os mais sofisticados chamam a secretária eletrônica de reponaeur, francesamente. Aterrar Se você estiver agora num avião e for daquelas pessoas que morrem de medo, não se preocupe: daqui a pouco, o avião vai aterri mar. A descolagem não foi legal> E atenção: não se assuste na hora de o avião aterrar se ouvir aplausos. Autarca Como no Brasil, e com razão, os autarcas estão sempre reclamando dos salários. Esta é fácil: a palavra deve ter sua origem em autarquia. Autarca é funcionário da câmara local. Em outras palavras, o funcionário das prefeituras. A Câmara local é a prefeitura. Autocarro Não, não é um carro que anda sozinho, ao contrário. Geralmente anda cheio de portugueses. E um ônibus. descarga, E é aqui que começa uma verdadeira guerra entre você e a máquina, enquanto os seus detritos, lá dentro, parecem rir da sua dificuldade. Muita atenção com os autoclismos. Nunca vi tanta variedade de descargas como em Portugal. E cada uma você tem que carregar no autoclismo de um jeito. Numa, puxar. Noutra, apertar. Numa terceira, virar para a direita. Virar para a esquerda. Puxar um pouquinho e depois apertar. Apertar e depois puxar. Virar um pouco para a direita e um pouco para a esquerda para então puxar com força. Existem mil variações... E uma luta, Convém estudar bastante a máquina antes de carregar nela. As vezes convém nem usar e ficar apertado até encontrar um autoclismo mais conhecido, mais lógico. Vai por mim. Autogolo Autogolo quer dizer gol contra. Autoclismo Imagine que você está num banheiro de um restaurante e o cartaz lhe diz, à entrada: por favor, não esqueça de carregar no autoclismo da retrete! Pode ser traumatizante. Preocupe-se: o que ele quer dizer é para você dar Avançado Em futebol, atacante. Matéria-prima geralmente comprada no Brasil a baixo custo e depois vendida para a Europa com altos lucros. Avariado Esta é uma palavra muito impor tante para se conhecer. Se você telefonar para a oficina e disser que o televisor está quebrado, por exemplo, eles vão achar que o aparelho caiu no chão e se partiu. Quebrar tem o sentido de partir ao meio. Se você disser que a geladeira quebrou, eles passarão dias imaginando como é que pôde acontecer uma calamidade desta. como é que uma geladeira, daquele tamanho, pode se partir ao meio? Nada quebra, tudo fica avariado. Aviar Uma expressão usada pelos jovens. Vou te aviar é, mais ou menos, o mesmo que dizer: vou te pegar e vou te bater. Já estou aviado pode significar também já fumei o bastante (maconha), já bebi o bastante ou já fodi o bastante. Badagaio, vai me dar um É alguma coisa parecida com vou ter um trogo!!! Badalhoco Gíria jovem: Porco, sujo, Bagaço Cachaça, bagaceira, vem dos resíduos da uva. É muito comum em Portugal você tomar um bagaço depois das refeições. 0 uísque também é usado como digestivo. Sem gelo, em copo de conhaque. Baixa Pode ser que seja na parte mais baixa da cidade, mas não necessariamente. 0 que significa mesmo é o centro comercial da ciaaile, Toda cidade tem a sua baixa e quase sempre fica na parte mais baixa. Como dizem os ingleses: a'ou< n tom n, Bancada Simplesmente a nossa arcluibancaaa. Pensando bem, por que chamamos a isso de arquibancada? ¹o soa solene demais, não? Bandolete Nada mais francês para a nossa italianizada tiara. Mas um bandolete com brilhantes verdadeiros também pode ser chamado de tiara. Banheiro l Jamais, em momento algum, diga que quer ir a um banheiro. Dizer isso significa que você quer ir ao encontro do salva-vidas, aquele que fica na praia de camiseta branca com uma cruz vermelha no peito. E, se for mulher, a salva-vidas atende pelo sugestivo nome de banheira. Balneário Se você estiver ouvindo um jogo de futebol e o locutor disser que o juiz, após o jogo, dirigiu-se correndo para o balneário, não fique pensando que foi tudo tão bem que ele foi comemorar com a turma a boa atuação em Sintra, por exemplo. ¹o, nada disso: ele apenas fugiu para o vestiário. Bardamerdices Acho que esta não precisa de tradução. Ela não soa como quem estivesse dizendo merdinhas? Baril Gíria bem jovem. Baril quer dizer legal, ao caralho. Batido Se você entrar numa pastelaria, não passe batido. Tome um milk-shake, Batota Gíria bem antiga. Batota quer dizer trapaça. Mas trapaça apenas no jogo. BD É o mesmo que a nossa HQ. HQ? História em quadrinhos. BD? Banda desenhada. Alguns aficionados dizem também história em quadradinhos. Beneficiação Quando uma placa indica que a estrada está em beneficiação, significa que ela está em obras. Berlinde Todos eles brincaram de berlinde, na infância, sem ficar na berlinda. Deve ter alguma influência do francês. É um lindo nome para bolinha de gucle, E a bolinha maior é chamada de mataculho ou abafador. Se o berlinde é leitoso, vale mais ainda, nas trocas. Berma Na primeira estrada que entrar, você pode ver placas dizendo Cuidado, berma com defeito! ou Supressão da berma! Cuidado mesmo, porque berma é acostamento, E se for Troco sem berma! mais cuidado ainda. Bestial Parece gíria do tempo da Jovem Guarda do Roberto e do Erasmo Carlos. Mas o calão é mesmo português e quer dizer maravilhoso, sensacional, excelente, o máximo! Se você procurar o significado nos dicionários portugueses, encontrará: prática sexual com animais... Betão Do francês beton, que deu betão, que quer dizer cimento armado, concreto, Daí as nossas betoneiras. Bibrão Continuando com a influência francesa. Tudo começou com o bi beró n, passou pelo biberão e, depois de várias gerações, depois de muita mamadeira, deu o atual bibrão. Bica Não é torneira, como dizem os cariocas. E o famoso cafezin ho paulista, aquele de máqui na. Só que, não sei por quê, eles servem sempre meia xícara, Se quiser a chávena inteira, peça uma bica cheia. Em Lisboa, um bom lugar para se tomar uma bica é na Brasileira, tradicional café do largo do Chiado, muito frequentado pelo monumental Fernando Pessoa. Bicha Esta é a mais famosa das diferenças. Todo mundo sabe que bicha é fila em Portugal. Mas, por mais que a gente esteja preparado para ouvir bicha pra cá, bicha pra lá, sempre se surpreende: boa!" era a manchete de um jornal, referindo-se ao grande musical português. — Esta é a bicha do cacete ou a bicha da pastilha elástica? — Antigamente não tinha tanta bicha assim em Portugal... — Para se conseguir um dentista brasileiro em Portugal, tem que se passar por várias bichas antes. — 0 governo está prometendo acabar com as bichas. — Já para o rabo da bicha!