COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE BENGUELLA Á CONTRA-COSTA. A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS; DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS. Por SERPA PINTO. VOLUME PRIMEIRO. Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI. A SUA MAGESTADE EL-REI D. LUIZ 1^o, COM PRÈVIA LICENÇA OFFERECE ESTE LIVRO O AUTÔR. SENHOR, Não foi um sentimento de adulação servil que me levou a pedir licença a Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de uma dupla dìvida de justiça e de gratidão: de justiça ao Monarcha intelligente e illustrado que firmou o decreto creando recursos para a primeira expedição scientìfica Portugueza d'este sèculo á Àfrica Central; de gratidão, ao prìncipe cujos dotes de coração e de espìrito disputam primazias ás suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis constitucionaes da Europa contemporànea. Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu obscuro nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro pertence a Vossa Magestade como legìtimo tìtulo da minha immensa gratidão. Ouso rogar respeitosamente a Vossa Magestade queira aceitar a minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que se dignou dar-me incitamentos para uma empresa, da qual, depois de realisada, fôram ainda os favôres de Vossa Magestade a mais sincera e não regateada recompensa. O Vosso ajudante de campo E o mais dedicado dos Vossos sùbditos, Alexandre de Serpa Pinto. Londres, 61 Gower Street, 5 de Dezembro de 1880 . TRIBUTO DE GRATIDÃO. Vou citar nomes. É difficil e perigosa tarefa. Ha sempre o receio de ferir modestias, ou levantar susceptibilidades. Não importa; sigo avante. Será grande a lista, por serem multiplicados os favôres; e posso bem peccar por omissão, filha de memoria preguiçosa. Que me perdôem os que desejariam esconder êsses favôres na mais velada modestia, como aquelles a quem um lapso de reminiscencia deixasse no olvido. Seguindo a ordem chronològica dos factos, procurarei no profundo sentimento de gratidão a lembrança dos serviços e favôres recebidos. Cabe á Commissão Central de Geographia o primeiro logar no meu reconhecimento; por me ter distinguido com a sua escôlha para instrumento da exploração que decidio fazer em Àfrica. Proposto pelo S_nr. Conselheiro Andrade Corvo, fui unànimemente aceito, e attendido nas propostas que apresentei para a organização da emprêsa. Falando da Commissão Central de Geographia, não posso omittir de citar nomes; porque, recebendo obsèquios de tôdos, fui particularmente auxiliado por muitos. O D_or. Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos seus jazigos, não podem occultar á minha gratidão. O D_or. Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D_or. Bocage, Conde de Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da Costa e Silva, fôram os cavalheiros que, no seio da Commissão, mais se esforçáram por me encher de favôres. Outro, que só annos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se organizou a expedição), não deixou de concorrer com o sem consêlho abalizado para a parte scientìfica d'ella. Refiro-me ao S_nr. Brito Limpo. Fora da Commissão, prestáram-me valiôso auxilio, os meus particulares amigos Marrecas Ferreira e João Botto. Vem depois da Commissão Central, a Sociedade de Geographia de Lisboa; e com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D_or. Bocage e Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano Cordeiro e Rodrigo Pequito. Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente agradêço tôdos os favôres que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeação. Fora do paiz prestáram-me valiôso auxilio, o S_nr. Mendes Leal, Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Vizconde de Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que á cooperação d'estes cavalheiros, e só a ella, podémos eu e Capello ter dado conta do encargo que tomámos de organizar em um mez o material da expedição. Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que concorrêram poderosamente para a realização da nossa emprêsa. Sam o Conselheiro José de Mello e Gouvea, que então governava nos negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral do Ministerio das Colonias. Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensáram-me taes favôres em viagem, que não posso deixar de escrever aqui os seus nomes. Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vêrde, Vasco Guedes, e o do Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me dispensáram innùmeras finezas. Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul Newton, a Associação Commercial, e sôbre tudo os officiaes e Commandante da Canhoneira Tâmega , sam crèdores do meu mais profundo reconhecimento. Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro: Henrique Moreland Stanley. O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro, e d'elle recebi proveitosas lições. Melhor mestre não poderia ter. Que elle recêba n'estas curtas linhas o mais sincero tributo da grande admiração que nutro por elle, e a mais franca expressão da minha estima, e da gratidão que lhe consagro. Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar; e nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente Seraphim, o pharmacèutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam outros tantos cavalheiros que não posso esquècer. Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de Quillengues, sam mais dois crèdores á minha gratidão. Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D_or. Bradshaw e da familia Coillard, transpòrto-me ao Bamanguato, a Shoshong (Xoxon), onde os favôres do rei Kama, e sobre tudo os de Mr. e Madame Taylor, me obrigam a não olvidar os seus nomes. Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em Pretoria; estou na primeira terra do mundo civilisado que encontro depois de Benguella; e ali sam tantos os favôres que se me prodigalizam, que não sei como sahir do embaraço que elles me causam para os agradecer. Mr. Swart, o thesoureiro do Govêrno, foi o primeiro a obsequiar-me, e será o primeiro citado. Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D_or. Bissik, Mr. Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e tôdos os officiaes do Regimento 80. A Baronêza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim o Coronel Lanyan. Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e não se demorou o nosso Consul Portuguez no Cabo, o S_nr. Carvalho. Se dêvo muita gratidão ao Governador Inglez, não dêvo menos ao Consul Portuguez, que, por telegrammas immediatos, veio prestar-me a maior assistencia. Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, então residindo em Pretoria, não foi dos ùltimos a encher-me de favôres. Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de Mr. Goodliffe, e em Maritzburgo multiplicáram-se os obsequios do Coronel Baker, Capitão Whalley e Madame Saunders, e Mr. Furs. Em Durban, Mr. Snell, o Consul Portuguez, e Mr. e Madame B. H. de Waal, chefe da Handels Company em Àfrica Oriental, muito se distinguíram em favôres prestados. Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a minha missão. Vou regressar á Europa, tendo terminado a minha viagem, e accumùlam-se os obsèquios que recêbo a cada momento. Em Lourenço Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e tôdos. Em Zanzibar, o D_or. e Madame Kirk, Widmar, e sôbre tôdos o Capitão Draper do 'Danubio' da Union Steamship Company , que de Durban me transportou ali. No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favôres. Em Alexandria, sobressáe a tôdos o Conde e a Condêssa de Caprara. Ainda antes de chegar a Lisbôa, recêbo um serviço importante do Barão de Mendonça, em Bordeos. Em Lisbôa, o Govêrno, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos, porfiam em obsequiar-me. Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favôres, e em que me não sobejou um minuto para os agradecer. Quizéram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda das fadigas da viagem; e sem o poderôso concurso que me prestáram Pequito, Sarrea Prado, Batalha Reis e D_or. Bocage, impossivel me seria fazel-a. Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam elles, não deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento, á Sociedade de Geographia de Lisboa tudo o que por mim fez. Á Associação Commercial e ao seu digno Presidente, o S_nr. Chamisso, que sempre tomou o maior interesse pela exploração de que eu fiz parte. Sube em Lisbôa um facto que não posso deixar de consignar aqui com um nome. Agradêço ao S_nr. Thomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da Marinha, para que me fôssem enviados soccorros de Moçambique para o interior d'Àfrica. Ao Côrpo Diplomàtico residente em Lisbôa expresso os meus sentimentos de gratidão, e sobre todos aos S_nrs. Morier, Barão de P. Hegeurt, Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata. Á Associação Commercial do Porto, aos bombeiros voluntarios d'aquella cidade, á Sociedade Euterpe e á Sociedade de Instrucção, aos municipios e mais instituições do paiz que me obsequiáram, consigno aqui um testemunho de agradecimento. Ás Associações Portuguezas no Brazil, aos meus conterraneos que longe da patria me saudáram, a elles que nada poupáram para mim em honras e distincções, envio um fraternal protesto de immensa gratidão. Sobre todos áquelles que formáram uma sociedade com o meu nome, e que de Pernambuco me offerecêram um mimoso presente, de tal distincção, que nunca os poderei esquècer. Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros as altas honras com que me distinguíram, sôbre tôdos ao Monarcha Belga, ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento geogràphico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais affectuoso interesse. Ás Sociedades de Geographia da França, principalmente ás de Paris, onde o Almirante La Roncière le Noury, Ferdinand de Lesseps, MM. Daubré, Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, me enchêram de favôres; de Marselha, que me conferio uma subida distincção, e cujo Presidente, Mr. Babaut, muito me obsequiou; e á Commercial de Paris, onde distingo o seu digno Secretario Geral, Mr. Gauthiot. Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portugueza, e nella os S_nrs. Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite, Garrido, e D_or. Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favôres recebidos. Ás Sociedades de Geographia Belga, e á de Anvers, nomeadamente aos seus Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e àlém d'estes cavalheiros, não posso deixar de falar, em um paiz onde tôdos me obsequiáram, nos nomes dos S_nrs. du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favôres repetidos e cordialidade de trato convertêram em verdadeira amizade a sincera estima das primeiras relações. Cabe, pela ordem dos factos, o ùltimo lugar á Inglaterra, que seria talvez a primeira pêlo nùmero de favôres dispensados. Principiou nas colonias Inglezas da Àfrica do Sul a ter juz á minha gratidão este paiz, onde depois se me tinham de multiplicar os obsequios. Á Sociedade de Geographia de Londres, ao seu Presidente o Conde de Northbrook, aos seus Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat, e muitos outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus sentimentos de reconhecimento. Ao S_nr. Frederico Youle, ao D_or. Peacock, aos S_nrs. M. d'Antas, Sampaio, Fonseca Vaz, Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que alem de subidos favôres me dispensáram grandes serviços durante a minha grave doença, não posso deixar de lavrar um bem pùblico testimunho de gratidão. Ainda me falta citar o nome de Mr. David Ward, o Mayor de Sheffield, e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovett Cameron, para fechar a lista, que seria interminavel a não tomar a resolução de a fechar aqui. Ás Sociedades Scientìficas dos outros paizes, e a tôdos aquelles que não posso citar, e que me cobríram de favôres, agradêço tudo quanto por mim fizéram, e agradêço tanto mais sinceramente, quanto me custa não os poder personalizar. Major Alexandre de Serpa Pinto. Londres, 5 de Dezembro de 1880 . O LIVRO. Não tem pretenções a obra de literatura este livro. Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de viagem. Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a exposição das causas determinantes. Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador. As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o. Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e passáram os maos tratos que eu por lá passei. Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não podem avaliar sem se haverem experimentado. Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade. Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar. Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não me convencer do contrario. As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador. Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do exèrcito e não quiz outra. Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes, na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer. Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal materia o avalial-o. Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi. Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos. Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal. A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a incorrecção da forma. A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora d'ella. Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo, por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma. Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que tẽm dedicado a esta publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito, elles de certo concorrêram muito. O S_nr. Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do livro; o S_nr. E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura das minhas cartas geogràphicas; o S_nr. Cooper, que interpretou magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella. Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do Continente Nêgro. Londres, 61 Gower Street, 5 de Dezembro de 1880 . Primeira Parte.-- A CARABINA D'EL-REI. PRÒLOGO. I.--Como eu fui Explorador. No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de operações que no baixo Zambeze sustentou cruenta guerra contra os indìgenas de Massangano. O S_nr. José Maria Latino Coelho, então Ministro da Marinha e Ultramar, dera ordem ao Governador de Moçambique, para que, finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer um detalhado reconhecimento do paiz, tão longe quanto me fôsse possivel. A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de vãs instancias, e de um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas d'Àfrica Oriental, voltei á Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior d'aquelle continente, que mal tinha entrevisto. Razões particulares de familia fizéram adiar, se não aniquiláram, os meus projectos. Official do exèrcito, sempre de guarnição em pequenas terras de provincia, fazia das minhas horas de òcio horas de trabalho; e ainda que mal antevia a possibilidade de ir á Àfrica, era o estudo das questões Africanas o meu ùnico e exclusivo passatempo. As sublimes questões de astronomia não eram por mim desprezadas, e o muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o estudo da Àfrica e do ceo. Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos mais intelligentes homens que tenho conhecido, o Capitão Daniel Simões Soares. Pouco depois de havermos feito conhecimento, èramos ligados por estreita amizade. O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de serviço, têve a companhia do outro! Àfrica, e sempre Àfrica, era o nosso assumpto de conversação. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazìamos correr velozes, debatendo questões, que eu mal pensava seria chamado a resolver um dia. Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti á crìtica de Simões Soares, e de outro meu camarada, o Capitão Camacho; memoria filha das nossas interminaveis palestras Africanas. Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas colonias de Àfrica Oriental, e isso com a maior economía para o Estado. Depois de muito debatida a questão por nós tres, foi a memoria enviada ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca chegara ás mãos do Ministro da Marinha. A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar á Àfrica, apesar de ser chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses de subida importancia. Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões Africanas tinham ali tomado grande interesse com a creação da Commissão Central Permanente de Geographia, e com a fundação da Sociedade de Geographia de Lisboa. Falava-se muito n'uma grande expedição geogràphica ao interior d'Àfrica Austral. Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S_nr. João d'Andrade Corvo. Se não é facil explorar a Àfrica, não é menos difficil falar ao Ministro, e sôbre tudo se esse Ministro é o S_nr. João d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos importunos. Persegui-o uns oito dias, e na vèspera da minha partida de Lisboa, obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros. Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispôr de pouco tempo, e perguntando-me, ¿o que eu queria? Travou-se entre nós o seguinte diàlogo:-- "Ouvi dizer, que V. Ex_a. pensa em enviar á Àfrica uma expedição geogràphica; e sôbre isto venho falar." O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda afabilidade. "¿Já estêve em Àfrica?" me perguntou elle. "Já estive em Àfrica, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me occupado muito em estudar questões Africanas." "¿Quer ir fazer uma longa viagem na Àfrica Austral?" Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir," disse por fim. "Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande expedição á Àfrica, bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não esquècerei o seu nome." "É verdade"; me disse, quando eu já ia a sahir, "¿que condições e que vantagens pede por esse serviço?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi. Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros á Calçada da Gloria, N_o. 3, e procurei o D_or. Bernardino Antonio Gomes, Vice-presidente da Commissão Central Permanente de Geographia. Tivémos larga conferencia, e o distincto sabio, então todo entregue a questões geogràphicas, disse-me, que já tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da expedição. No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizéram arrefècer um pouco o febril enthusiasmo que se apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em Àfrica. Minha mulhér e minha filha eram laços difficeis de romper, e cada vez que a idéa de me privar das caricias da meiga criança me passava pela mente, arrefècia completamente em mim o ardor das explorações. De um lado, a familia, e do outro a Àfrica, eram dois poderosos atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a questão. Se eu fosse nomeado Governador de um districto, podia ir estudar uma parte d'Àfrica, sem me separar da familia. Fui collocado no 4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratoria, e apenas um enthusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ella se faria; e na sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um alto brado a favor d'ella. O D_or. Bernardino Antonio Gomes, já de idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia já os primeiros symptomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores illustrações Portuguezas do sèculo 19. Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a quem hoje me prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro. Todos aquelles a quem falava de exploração, me diziam ser cousa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um impulso harmònico ás explorações Portuguezas em Àfrica; por outro lado, sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros. Nutri então a idéa de ir governar, e de me estabelecer em Àfrica, n'essa Àfrica em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus. Fui falar ao Ministro. D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se falando já de explorações. "¿O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex_a. o governo de Quillimane, que está vago." O S_nr. Corvo rio-se. "Tenho missão de maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de si para cousa differente de governar um districto em Àfrica; e por isso não lhe dou o governo de Quillimane."-- "¿Então V. Ex_a. ainda pensa em fazer explorar a Àfrica? Eu com franqueza digo, que hoje não creio que a idéa se realize."-- "Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de deixar de ser João de Andrade Corvo, ou na pròxima primavera, uma expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na Europa, ha de partir de Lisboa para a Àfrica Austral."-- "¿E conta comigo?"-- "Conto comsigo," me disse, "e em breve terá noticias minhas." Sahi aterrado do Gabinete do Ministro. Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "Não tenho a honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista." Sôbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito Capello--Official de guarnição a bordo do couraçado Vasco de Gama ." No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no Café Martinho, ás 3 horas.--Capello." Ás tres horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam completamente desertas. Só a uma dellas estava sentado um primeiro tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta. Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle sentado. Moreno, de olhar plàcido; o cabello raro, e grisalho, o pequeno bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude. "¿É o S_nr. Capello?"-- "Sou; ¿é o S_nr. Serpa Pinto? já o esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me d'Àfrica."-- "É verdade. ¿Então está decidido a fazer parte da expedição?"-- "Estou; e já n'isso falei ao D_or. Bernardino Antonio Gomes."-- "Foi elle que me falou no S_nr. ; ¿que compromissos tem?"-- "Nenhuns. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o D_or. Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que, se for á Àfrica, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens. ¿Conhece-o?"-- "Não o conheço. Falei ao Ministro e elle disse-me, que contava comigo para a expedição."-- "N'esse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto de ir."-- "¡Ora essa!... então desisto eu."-- "Mesmo, eu não creio que a cousa vá a effeito."-- "Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, ¿porque não havemos de ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos ìntimas relações, e creio bem chegaremos a ser amigos."-- "¿E porque não? Então, se a expedição for ávante, iremos juntos, e escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."-- "Esta dito. ¿Pensa sèriamente que o Governo votará uma tão grande verba como a que é precisa para uma empresa d'estas?"-- "Não sei, duvido; e agora ùltimamente fala-se menos na expedição." Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a ìntima convicção de que a expedição nunca se realizaría. Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois separámo-nos. Elle seguio viagem no couraçado Vasco da Gama para Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em Caçadores 4, no Algarve. Com o descanço da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira, distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões mathemàticas, que elle maneja com intelligencia superior. Foi por seu intermedio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade. Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de Luciano Cordeiro chegáram ás mãos do Ministro da Marinha, em que tratava do modo de organizar uma expedição de exploração na Àfrica Austral. Passáram-se mezes, e não mais me faláram de expedição. Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa descrença em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria igual descrença. Na Commissão Permanente de Geographia discutiam-se varios projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões. Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S_nr. João d'Andrade Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crèdito de 30 contos para uma expedição em Àfrica; mas, pouco depois, cahio o Ministerio, e foi o S_nr. José de Mello Gouvea encarregado da Pasta das Colonias; quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento. Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornaes davam por escolhidos exploradores que eu não conhecia, e ás vezes apenas falavam em Capello. Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos astronòmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Botto, distincto professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já idéas de viajar. O meu tempo era passado entre as caricias da familia e os meus livros de estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchêgos do lar domèstico, para pensar em trocar a minha vida plàcida pelo bulicio e azares das viagens. Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o nôvo ministro, José de Mello Gouvea, havia no parlamento apoiado a proposta de João d'Andrade Corvo, e que fôra votada a somma de 30 contos para uma exploração. A morte de Bernardino Antonio Gomes, vìctima, talves, do muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, n'uma idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de espìrito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um grande vàcuo na Commissão Central de Geographia. Outros, é verdade, tomando grande interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da commissão; mas discussões repetidas iam adiando a pràctica urgente. Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via possibilidade de se levar a effeito a expedição em 1877; e em vista do que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer. O Algarve é um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera oriental, e as copas elegantes das palmeiras que se inclinam sôbre as casas em terraços, faz-nos, ás vezes, esquècer de que vivemos no prosaïsmo da Europa. Eu era ali o commandante militar, quer dizer, que afazeres poucos tinha. O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus livros de estudo, e os meus instrumentos de observações, faziam-me passar horas bem felizes, d'essa plàcida felicidade que a muitos não é dado conhecer. O lar caseiro, o xambre e os pantufos chegáram a ser para mim o ideal do bem-estar. Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o verão; quando, um dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me apresentar immediatamente ao General commandante da Divisão; e ali achei uma ordem para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro das Colonias. Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e plàcida junto dos meus; ahi vôlvo a correr mundo. Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns d'òculos, outros sem òculos, uns velhos outros nôvos, todos conhecidos, ou pelas sciencias, ou pelas letras, ou pelos seus serviços pùblicos, tratavam de questões Africanas. Presidía a esta solemne sessão o Ministro José de Mello Gouvêa. Eram Secretarios D_or. José Julio Rodrigues e Luciano Cordeiro. Conde de Ficalho, Marquez de Souza, D_or. Bocage, Carlos Testa, Jorge Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio Teixeira de Vasconcellos, lembra-me que estavam ali. Lá no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona, estava um homem de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por entre os vidros da luneta de tartaruga. Era João de Andrade Corvo, que me dizia com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se havia de fazer." Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas sahìamos d'ali, com as instrucções precisas para a nossa viagem. Tìnhamos escolhido um terceiro socio, e esse era o tenente Roberto Ivens, o amigo de Capello, que eu não conhecia, e que a esse tempo estava em Loanda a bordo do seu navio de guerra. Estàvamos a 25 de Maio, e tomámos o compromisso de partir a 5 de Julho. Era muito, porque tìnhamos que vir preparar a expedição a França e Inglaterra, e só dispùnhamos de um mez para isso. Então Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a peito desfazer todos os obstàculos que os indispensaveis caminhos burocràticos nos podiam trazer; e andou de modo, que a 28 de Maio eu e Capello partìamos para Paris e Londres, a comprar o que se nos tornava necessario. Levàvamos um crèdito de oito contos de réis. II.--Como foi Preparada a Expedição. Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps. D'elles ouvímos conselhos e recebémos os maiores obsequios. Infelizmente, não encontrámos no mercado, nem instrumentos, nem armas, nem artigos de viagem, taes como os desejávamos. Foi preciso encommendar tudo. Com uma recommendação especial de M. d'Abbadie, fomos procurar os constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias, Lorieux, Baudin e Radiguet trabalhàram para nós. Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage (Fauré) das armas, Tissier do calçado, e Ducet jeune da roupa. Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali comprámos os chronòmetros, em casa de Dent, e alguns instrumentos em casa de Casella; uma boa provisão de sulfato de quinino, e muitos objectos de cautchouc na casa Macintosh, entre elles dous barcos e algumas banheiras. Procurámos de balde em Londres, como tìnhamos de balde procurado em Paris, um theodolito que tivesse as condições necessarias para uma viagem de tal ordem qual ìamos emprehender. Uns, òptimos para observações terrestres, não tinham as condições precisas para as observações astronòmicas; outros, que reuniam as condições requeridas, eram intransportàveis, já pelo peso, já pelo volume. Não havia tempo para fazer construir um de propòsito, e de volta a Paris, tivémos de aceitar aquelle que já antes nos tinha sido offerecido por M. d'Abbadie. Recolhémos, em Paris, tudo o que tìnhamos encommendado, e que tinha sido fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho, desembarcàvamos eu e Capello em Lisboa, completamente preparados para a nossa viagem; podendo assim cumprir o nosso compromisso, de partir para Loanda no paquete de 5. Tìnhamos feito os preparativos em 19 dias. Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em Àfrica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens, o modo porque se haviam preparado outros viajantes. Em todas as narrativas havia escassez de informações a esse respeito, e lembra-me ainda o quanto isso me enfadou. Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em Àfrica, e se d'ella escrevesse a narrativa, não ser omisso n'essa parte, e dizendo quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me prestáram serviços reaes, e quaes os que me fôram carga inutil. A historia das explorações d'Àfrica está no seu comêço. Muitos exploradores me succederám em Àfrica, como eu succedi a muitos, e creio fazer um bom serviço áquelles que depois de mim se aventurarem no inhòspito continente, apresentando-lhes agora uma relação dos objectos de que me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou os inconvenientes que n'elles encontrei. Segundo as instrucções que do Governo tinha recebido, podia demorar-me tres annos em viagem, e para isso me preparei. A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me sôbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei aterrado quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e Londres. Só malas tìnhamos 17! todas das mesmas dimensões, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6. Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia, caixas para escovas e mais objectos competentes; outra continha um serviço de meza e chá para tres pessôas; e uma terceira o trem de cozinha. Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4 frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte artificial, um chronòmetro, umas tàbuas logarìthmicas, umas ephemèrides, um aneroide, um hypsòmetro, um thermòmetro, uma bùssola prismàtica, uma bùssola simples, um livro em branco, lapis, papél e tinta; 50 cartuxos para cada arma; um vestuario completo, e tres mudas de roupa branca; isca, fusil, pederneiras, e alguns pequenos objectos de uso pessôal. Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura, escrivaninha e logar para papél. Eram pessôaes, e pertencia cada uma a um de nós. As outras 10 malas continham indistinctamente roupas, calçado, instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras iguaes e abriam com a mesma chave. A nossa barraca era uma tente marquise de 3 metros de lado por 2^m, 3 de alto. As camas eram de ferro, fortes e còmmodas. As mesas de tezoura, os bancos e cadeiras de lona. Todos estes artigos fôram da fàbrica de Walker. Cada um de nós tinha uma carabina magnìfica de calibre 16, cujos canos, forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido cuidadosamente montados por Fauré Lepage. Uma espingarda do mesmo calibre da fàbrica de Devisme, uma Winchester de 8 tiros, um revólver e uma faca de mato completavam o nosso armamento. Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas, das mesmas dimensões das malas, contendo, em latas cuidadosamente soldadas, chá, café, assucar, hortaliças secas, e farinhas substanciaes. Hoje devo aqui lavrar um alto agradecimento ao S_nr. Oliveira, proprietario da mesma fàbrica, pelo escrùpulo que têve na escôlha dos gèneros que nos forneceu, e que muito nos servìram no comêço da viagem. Os instrumentos que levámos fôram os seguintes: 3 sextantes, sendo um de Casella, de Londres; um de Secretan, e um de Lorieux, verdadeiro primor. Dois cìrculos de Pistor, fabricados por Lorieux, com dois horizontes de espelho, e os competentes nivéis. Um horizonte de mercurio de Secretan. Tres lunetas astronòmicas de grande fôrça, duas de Bardou e uma de Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella; 4 pedòmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6 bùssolas de algibeira; 1 bùssola Bournier de Secretan; 3 outras azimutaes, duas de Berlin e uma de Casella; 2 agulhas circulares Duchemin; 6 hypsòmetros Baudin, 1 de Casella, 3 de Celsius de Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12 thermòmetros de Baudin, Celsius e Casella; 1 baròmetro Marioti-Casella; 1 anemòmetro Casella; 2 binòculos Bardou; 1 bùssola de inclinação, e um apparelho de fôrça magnètica, que nos fôram obsequiosamente emprestados pelo Capitão Evans, por entremedio de Mr. d'Abbadie. E finalmente, o theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de Aba , e que tão cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor. Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado o seguinte letreiro-- Expedição Portugueza ao interior d'Àfrica Austral, em 1877 . Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares zoològicos e botànicos nos fôram enviadas pelos S_nrs. D_or. Bocage e Conde de Ficalho. Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que ìamos deixar Lisboa, para nos internarmos nos sertões desconhecidos da Àfrica Austral. CAPÌTULO I. EM BUSCA DE CARREGADORES. No dia 6 de Agosto de 1877, chegàvamos a Loanda, no vapor Zaire , do commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho affectuoso de muita gratidão, pelos favores que me dispensou durante a viagem. Desde a minha saïda de Lisboa, uma preoccupação constante me perseguia. A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser ainda muito aumentada, com fazendas, missangas e outros gèneros, que seriam a nossa moeda no sertão. Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li eu as difficuldades em que se encontráram muitos exploradores, por não poderem obter o nùmero sufficiente de carregadores para as cargas indispensaveis. ¿Como os obteria eu? Em Cabo-Verde sube, que uma carta que eu e Capello tìnhamos dirigido ao Ivens não fôra por elle recebida; pois que sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por isso não podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe fazìamos, de estudar a questão, e ver se nos obtinha em Loanda os auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas ficou sem resultado, e apesar do apoio que nos prestou o Capitão Tito, nem um só keruboy podémos ajustar ali. Chegámos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa do S_nr. José Maria do Prado, um dos primeiros proprietàrios e capitalistas da Provincia de Angola, que immediatamente poz á nossa disposição, uma das muitas casas que possue na cidade; casa com accommodações bastantes para receber o enorme trem da expedição. Do S_nr. Prado recebemos innùmeros favores. Na noite do dia 6, fomos procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua Excellència o Governador-Geral, que vinha, em nome do S_nr. Albuquerque, fazer-nos os mais cordiaes offerecimentos. No dia 7, procurámos o Ex_mo. Governador, que nos recebeu affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus trajos, que, òptimos para a vida do mato, eram, a não poder ser mais, ridìculos para uma visita ceremoniosa. O S_nr. Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a impossibilidade de obtermos carregadores. Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em Àfrica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe: Não ha carregadores . Decidí immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por ali os poderia contratar; e n'esse sentido pedi ao S_nr. Albuquerque, me mandasse transportar ao Zaire. O só navio de guerra que podia ser posto á minha disposição andava cruzando na foz do Zaire; resolvi d'ir procural-o, e no dia 8, parti n'um escalér, tripulado por 8 prêtos cabindas, que me foi fornecido pela capitanía do Porto. Levava ordens do Governo para o commandante da canhoneira. Não ha nada mais desagradavel do-que fazer uma viagem de 120 milhas em um escalér. De Loanda ao Ambriz comi apenas umas sardinhas e bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no escalér no mesmo dia da partida, não tive tempo de fazer preparativos. No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no planalto de um còmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam cortadas a prumo sôbre o mar. Fazia as vêzes de chefe, um empregado de fazenda, o S_nr. Tavares, que caprichou em obsequiar-me, assim como tôdos os habitantes da villa, mormente o S_nr. Cordeiro, em casa de quem estive hospedado. Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de conhêcer Avelino Fernandes a bordo do vapor Zaire , e relações ìntimas se estabelecêram entre nós. É filho das margens do Zaire, e tem grande paixão por esse rico solo, onde as àrvores gigantescas da floresta virgem lhe assombráram o berço. Tem 24 annos. A côr morena e o cabello crespo indicam que nas suas veias, de envolta com o sangue Europêu, gira o sangue Africano. Rico, dotado de uma esmerada educação, adquirida nos principaes centros da Europa, e que uma intelligencia superior soube desenvolver, é o verdadeiro typo do cavalheiro palaciano, que não se pôde conhêcer sem que a elle nos prenda logo verdadeira sympathìa. As muitas relações que elle tinha no Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali carregadores. Sube no Ambriz que a canhoneira Tâmega devia chegar áquelle ponto dentro de dois dias; e por isso resolvi esperal-a. A viagem de Loanda no escalér não me tinha deixado recordações tão fàgueiras, para que eu persistisse em continuar para o norte da mesma forma. No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois traços vou narrar o que vi. Do planalto em que assenta a povoação Europêa, desce-se para a praia por um caminho em zigzag, que estava sendo reconstruido por alguns grilhetas. Na praia, entre dois soberbos edificios, que sam armazens das casas commerciaes Franceza e Hollandeza, ostenta-se um albergue, meio-derrocado pêla velhice, meio-em-construcção recente não-continuada, que é a Alfàndega; Alfàndega sem depòsitos, onde as fazendas, arrumadas á porta sôbre o areal, pagam um irrisòrio tributo de armazenagem. A N.N.E. da villa, muitos hectares de terreno sam occupados por um pàntano, inferior de 3 metros e 12 centìmetros ao maior preamár; e na encosta da escarpa que do planalto da villa desce ao pàntano, assentam as cubatas da povoação indìgena, nas peiores condições de salubridade. Ao sul da villa, entre umas moitas de mato virgem, é o cemiterio--onde os cadàveres enterrados de dia, sam pasto das hyenas á noite. A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, está prestes a ser inutilizada; porque a oxidação do ferro em contacto com o ar e a àgua, produz-se cêdo; e a ponte não foi pintada, não ha verba para sua conservação, nem alguem que por ella vigie. A casa do chefe é um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro perigo em habitar. O paio ameaçava ruina; e isso fêz-me impressão, porque elle contém a pòlvora do commercio, que não rende menos de duzentos mil réis mensaes para o Estado. É bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da minha visita ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados áquella bonita villa, cuja importancia é patente, sendo um grande centro de commercio. Um kilòmetro ao N. da ponte de desembarque, lança no Atlàntico as suas àguas o rio Loge, cuja foz é obstruida por um banco de areia, que lhe dá difficil accesso, mas que depois é navegavel por uns trinta kilòmetros. No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrìcula, fundada pêlo cèlebre Jacintho do Ambriz, e hôje pertença de seu filho Nicolao. Esta propriedade representa um dos maiores esfôrços feitos na provincia de Angola, para o desenvolvimento da agricultura. Jacintho do Ambriz foi levado á Àfrica por uma desgraça ìntima. Filho do povo, sem a menor instrucção, não sabendo mesmo ler ou escrever (mas dotado de uma razão clara, de um espìrito fino, e de muita felicidade), chêgou a fazer uma grande fortuna. Jacintho casou no Ambriz com uma mulhér da sua igualha. Era a tia Leonarda, mais conhêcida por tia Lina , natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhêci eu vestida sempre á moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar que fala o pôvo d'aquella provincia, como se de lá tivêsse chêgado. Na sua casa comi um jantar beirense, e por um momento julguei-me transportado a uma das hospitaleiras casas dos nossos lavradores do Norte. A tia Lina entrou muito na felicidade que levou Jacintho á riqueza. Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na Àfrica, obriga a dois distinctos ramos: Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e adquirir dos prêtos esses productos, vendendo-lhes as fazendas. Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os prêtos. Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vêzes vìctima da sua boa fé, e das extorções de alguns chefes; o que provocava uma phrase á tia Lina, que eu muitas vêzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos esmagam-te; mas eu esmago os prêtos!" O verbo empregado pêla tia Lina não era precisamente o verbo esmagar , mas, por muito enèrgico, substituo-lhe outro algo semelhante. Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criança que puxava por elle. Comprou terreno, e lançou os fundamentos d'essa vastissima propriedade que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o seu trabalho e a sua bôlça, até ao ùltimo momento de vida que têve. Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou de outro vocàbulo que decorara, mas cuja significação não conhecia bem; com tudo, tinha muito espìrito, e ha d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo: Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco. Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco. "¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande ámanhã um escalér, pelo Loge até minha casa, buscal-os." No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens, encostava ao muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o escalér até dois kilòmetros mais, e chêgando á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos marinheiros: "Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da minha propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao commandante." Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das enormes àrvores, cujos troncos, de espantoso diàmetro, não lhes permitiam a subida; e depois de alguns vãos esfôrços, retiráram desanimados, perseguidos pêla grita e pêlas caretas da macacaria. "Eu dei-lhos; se os não levam, não é culpa minha," dizia o Jacintho, rindo ás gargalhadas. Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que, màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fàbrica Portugueza. Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e, custassem-lhe o dôbro, fazia elle fabricar em Lisboa tôdos os seus artigos, já para a agricultura, já para a industria. A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido pêlos disparates que dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas que fêz--dêve ser respeitada por tôdos os que se interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua immensa fortuna, e trabalhando até ao seu ùltimo dia. Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade agrìcula, tambem importante, pertencente ao S_nr. Augusto Garrido. Não tive tempo de a visitar, porque, no dia que ali passei, não pude esquivar-me aos muitos favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito. No dia seguinte, chêgou a canhoneira Tâmega , e sube, indo a bordo, que se achava sem mantimentos, e com grande nùmero de praças doentes; motivo por que combinei com o commandante, o S_nr. Marques da Silva, esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar. Três dias depois chêgou a Tâmega de volta de Loanda; indo eu logo para bordo, com Avelino Fernandes, seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire. Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei logo que comêçou a viagem. Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em carregadores. Disséram-me, que seria, talvêz, possivel obtel-os, se os chefes indìgenas me quizêssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim, era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o serviço que eu exigia. Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse para os libertar em seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo livres? Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora não obtivêsse um só carregador ali. Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia 9, o grande explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha seguido para Cabinda. Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os nossos serviços ao arrojado viajeiro. Partímos, e logo que ancorámos no porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da canhoneira. Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura, que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal. Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez, e disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo Portuguez puz á sua disposição o dinheiro de que carecêsse. Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão. Os officiaes da Tâmega confirmáram os meus offerecimentos em nome do seu Commandante. Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á sua disposição. Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes não deixàvamos Stanley, e àvidos de ouvir a narração da sua viagem, o tempo que elle tinha preso, era por nós passado a questionar os seus homens. No dia 19, os officiaes da Tâmega déram um soberbo banquête ao intrèpido explorador, para o qual convidáram o Commandante Marques, Fernandes e a mim. No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo tôda a comitiva de Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre ellas 12 mulhéres e algumas crianças. Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distincção a que eu fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que têve, e com elles commodidades que eu não podia offerecer-lhe, n'uma casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro. O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa, perguntei a Stanley, ¿qual a impressão que trazia do S_nr. Albuquerque? E elle disse-me apenas: " He is a very cold gentleman ." ("É um cavalheiro mui frio.") O Consul Americano, o S_nr. Newton, deu-nos um almôço, e muitos favores nos dispensou. Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto, ainda não tìnhamos um só carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley pêlo Governador, me repetira sua Excellencia, que não me seria possivel obtel-os, sôbre tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do nùmero de homens de que precisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza. É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instrucções do Governo. O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se estudarem as relações hydrogràphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes comprehendidos entre as Colònias Portuguezas de uma e outra costa d'Àfrica Austral. Umas instrucções subsequentes indicavam mais particularmente o estudar-se o rio Cuango, nas suas relações com o Zaire; o estudo dos paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria estudar-se o curso do Cunene. O que fôra designado na lei do Parlamento, elaborada pêlo S_nr. Corvo, parece ao principio problema vasto de mais para uma só expedição, e uma verba de trinta contos de réis; mas a lei foi bem redigida. O S_nr. Corvo sabía, que o viajante em Àfrica, não só nem sempre é senhor dos seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde encontrar um não-previsto problema, que julgue de importancia superior á do que lhe foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores. Quanto ás instrucções, fôram ellas mais restrictas, mas ainda assim, deixavam bastante largos os movimentos da expedição. O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado. Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, até encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao Cassibi, que intentàvamos descer até ao Zaire; e finalmente, reconhêcer o Zaire até á sua foz. Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que nós propunhamos fazer, e sôbre tudo a impossibilidade de obter carregadores em Loanda, tivémos de modificar completamente o nosso plano. Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e que, se ali os obtivêsse, entràssemos pêla foz do rio Cunene, subindo-o até ás suas nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para S.E., até ao Zambeze. Como não podìamos ter grande confiança na gente que ajustàssemos, lembrámo-nos de pedir ao Governador um certo nùmero de soldados, que fôssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam acompanhar; porque, não sendo aquelle serviço regular, não podia compellir os soldados a irem. Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no principio de Setembro devia chêgar de Lisboa. N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu via. Sympàthico, ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado pêlas viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrámos-lhe tudo o que resolvêramos fazer, e as difficuldades que tìnhamos encontrado até então. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a minha partida para Benguella, no dia 6. Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador. Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada partida da Europa. Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros, differentemente do que o devia fazer. No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino Fernandes, a respeito da escravatura, e mostràvamos a Stanley o espìrito das leis Portuguezas sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer então escravos onde o Governo tinha força. Discorrìamos ácerca do assumpto, quando Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador. Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta official do S_nr. Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, ¿se nas terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos ficámos eu, os meus companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversação ao almôço, e aquella carta depois de um de nós ir a Palacio, pareceria ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada. Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da Tâmega , em minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, não tinha visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia muito bem sabía, só por informações nossas poderia falar, convivendo quasi exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum do paiz governado pêlo S_nr. Albuquerque. Era querer o S_nr. Governador viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado. Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que èramos estranhos áquella carta. No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S_nr. José Maria do Prado para alguns particulares, e nem uma recommendação para o Governador do Districto, que eu não conhecia. Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu, Portuguez, não tinha podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um estrangeiro, o explorador Schutt, que não encontrou as menores difficuldades, para seguir o primeiro caminho que nós tìnhamos tencionado seguir. Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns 20 ou 30. Foi já um pouco animado com esta promessa, que chêguei a Benguella, no dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de recommendação para alguns negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem. CAPÌTULO II. AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES. Alfredo Pereira de Mello,[1] Governador de Benguella, ao ouvir o meu pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e disse-me, que não tinha meio de me receber em sua casa. Sorprendeu-me o caso, sabendo eu que o Governador era bizarro de genio e de natureza franco. Tive convites, logo á minha chegada, já de Antonio Ferreira Marques, já de Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador. Elle disse-me, que não tinha cama a offerecer-me, e eu mostrei-lhe a minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa d'elle a minha bagagem. Disse-me, que não tinha quarto; apontei-lhe para um canto da sala em que estàvamos, onde ficaria òptimamente. Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a curiosidade a resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas cêdo desvendei o misterio. Alfredo Pereira de Mello era homem nôvo, ainda que tinha já uma patente superior na armada. Sympàthico e intelligente, é estimado por tôdos aquelles que o conhêcem de perto; porque a uma finissima educação, reune grande rectidão de caracter, e a energía peculiár a tudo bom marinheiro. Serviu na marinha Ingleza, e tem de viagens larga pràtica. Vio as Amèricas, e antes de ir para Àfrica como Ajudante-de-Campo do Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japão. O Governador, que já me conhêcia de nome, ao ouvir o meu pedido, esquèceu que tinha diante de si o explorador, para só se lembrar do homem habituado a viver no meio do luxo e das commodidades. Pereira de Mello têve vergonha de hospedar-me. Um Governador de Benguella, se é recto e probo, vive mesquinhamente com a paga que recebe. A casa do governo é arrendada. A mobilia, um pouco menos de modesta, guarnece a sala e um quarto. Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei, o melhor que tenho visto. E com-tudo a este porto, vẽm repetidas vêzes navios de guerra estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a bordo; e elle nem um copo d'àgua lhes pôde offerecer em sua casa, porque a prêta ou o muleque tem de trazer o côpo n'um prato velho. O serviço de mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sôbre a cabêça de Pereira de Mello, ao ouvir a minha teimozía em ficar. Não tinha razão. O asseio que presidía a tudo, suppría o vidrado da louça gasto com o tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o appetite já derrancado pêlos ares Africanos; e não se offenda o cozinheiro do Hotel Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhór em casa do Governador de Benguella do que comia dos seus opìparos manjares, ainda que a prêta Conceição, cozinheira do Governador, nunca ouvio falar do heroe das caçarolas, o cèlebre Brillat-Savarin. Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu coração, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Três officios dirigidos ao Governo da Provincia, em que pedia autorização para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta. Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim. Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo de Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador de então já se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a ellas lhe não dar remedio o Governador Geral da Provincia, e entre outras cousas que pede com urgencia, figuram os reparos para duas peças de bronze que designa, e que ainda hôje os carecem. Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora é, que os reparos já fôram encommendados e não podem tardar em chegar; porque, sendo a encommenda d'elles feita em 1790, dêve estar quasi concluida a sua construcção. Benguella é uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlàntico até ao sopé das montanhas que formam o primeiro degrao do planalto da Àfrica tropical. É cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco, ainda hoje povoada de feras; e isso não admira, que os Portuguezes, em geral, de caçadores não tẽm manhas. As habitações dos Europêos occupam uma grande àrea, porque todas as casas tẽm grandes quintaes e dependencias. Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortaliças da Europa, e muitos frutos tropicaes. Vastos pàteos cercados de alpendres servem para dar guarida ás grandes caravanas que do sertão descem á costa em viagem de tràfico, e que repousam três dias na casa onde effeituam as permutações. Um rio, que na estação estía apenas é larga fita de àrea branca, que se desenrola das montanhas ao mar, a travez da floresta do Cavaco, é ainda assim a grande fonte de Benguella, que os poços ali cavados dam àgua boa philtrada pêlas àreas calcàreas. Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de àrvores, pela maior parte figueiras sycòmoros, de pouco arraigadas, e por isso ainda pequenas. As praças sam vastas, e em uma ajardinada, crescem bonitas plantas de vistoso aspecto. As casas, todas terreas, sam construidas de adôbes, e os pavimentos sam, em umas de tijolos, e de madeira em outras. A alfàndega é bom edificio, recentemente construido, e tem vastos armazens para as mercadorias do tràfico. Esta alfàndega, e o largo ajardinado, como outros melhoramentos de Benguella, fôram de um Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto. Uma ponte magnìfica de architraves de ferro, creio que encommendada pêlo mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada pêlo Governador Teixeira da Silva, é guarnecida por dois guindastes e carrís, por onde, em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas á alfàndega. Eu aqui commetti um erro de grammàtica, escrevendo o verbo transportar no presente do indicativo, quando no condicional é que era. Transportariam , se houvesse pessôal para isso; mas não transportam , porque o não ha. Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado. A povoação Europêa é cercada, por todos os lados, de senzalas , ou povoações de prêtos, e mesmo entre a povoação branca ha pequenas senzalas , em quintaes abandonados. O seu aspecto geral é agradavel e aceiado. Tem Benguella má fama entre as terras Portuguezas de Àfrica; e supõem muitos, ser aquillo um paiz infecto, que exhala de miasmàticos pàntanos a peste, e com a peste a morte. Não é assim. Eu não conhêci Benguella como ella fôra em tempos passados; mas hôje, não é nem melhor nem peior do que outros muitos pontos d'Àfrica. O aceio e as plantações de arvoredo, de certo tẽm. modificado muito as suas anteriores condições hygiènicas, e com uma pouca de boa vontade, não seria difficil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque não pôde deixar de merecer verdadeira attenção um ponto de tão subida importancia commercial, e em facil contacto com tão ricas terras nos sertões. Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam cêra, marfim, borracha e urzella, que chêgam á cidade trazidos pêlas caravanas dos sertões. Estas caravanas sam de duas espècies. Umas, dirigidas por agentes das casas commerciaes, trazem ás mesmas casas que os despacham os productos do seu tràfico no interior; outras, exclusivamente compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor ganho encontram. O tràfico com o gentío faz-se por permutação directa do gènero por fazenda de algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros productos Europêos sam objecto de uma segunda permutação pêla fazenda recebida; e assim, depois da primeira troca do marfim ou cêra pelo algodão, é este trocado por armas, pòlvora, àgua-ardente, missanga, etc., á vontade do comprador; porque a fazenda de algodão é, por assim dizer, a moeda corrente n'este tràfico. O commercio está entre mãos de Europêos e crioulos, e felizmente já ali encontrámos muitos d'esses rapazes que, aventurosos, deixam patria e familia, para ir em terras longinquas buscar fortuna. Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, já por conta propria, já como empregados de casa alheia. Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tôda a vida, sam deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali quantidade de patifes, de que é bom resguardar-se; não os confundindo com a gente digna e capaz, que a ha. A policia é confiada á fôrça militar, que um dos regimentos destaca para Benguella; sendo que de Benguella ainda sam espalhadas differentes fôrças nos concêlhos do interior; desfalcando a guarnição da cidade, já de si pequena. Nós temos dois exèrcitos, um na Metròpoli, outro nas colonias, que nenhuma relação tẽm entre si. O nosso exèrcito da Metròpoli é bom, porque o Portuguez é bom soldado; o nosso exèrcito das colonias é mao, porque o prêto é mao soldado; e os brancos que ali servem de mistura com prêtos, sam peiores ainda do que estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade, fazendo-lhes perder na Europa o fôro de cidadãos, vam desempenhar em Àfrica o posto nobre do soldado; sendo a nossa autonomía Africana, e a segurança pùblica e particular, confiada á defeza de homens, que dam por garantía um detestavel passado. Dahi as contìnuas scenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali. Durante a minha permanencia em Benguella, houve um grande roubo com arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior energía na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados, sendo muito coadjuvado pêlo seu Secretario, o Capitão Barata, que conseguio descobrir os ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fôra o roubo planeado pêlo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por elle e alguns soldados!!! Se o nosso exèrcito Metropolitano não se presta á censura do homem mais pichoso, as nossas fôrças coloniaes sam vìctimas das merecidas chufas de tôdos os estrangeiros, que as observam. Por mais que tenha cogitado, nunca pôde attingir ao prèstimo de tal exèrcito em nossas colonias, que para policia não serve; servindo menos para a guerra, que da minha lembrança tenho visto ser feita por côrpos voluntarios, levantados no reino, e que àlém vam servir por certo praso. Hôje mesmo, em Lisboa, três batalhões estam sempre prontos a marchar para as colonias, e já lá tẽm ido; o que prova sabermos nós, que o ter exèrcito no ultramar, tal como elle é, não passa de velha costumeira. Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhêcimento do Juiz de Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que, como elle, empregaria tôda a sua influencia para que eu não tivêsse vindo de balde a Benguella, e assim o fêz. O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião em sua casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado itinerario, pediu-lhes que o coadjuvâssem na empresa de arranjar carregadores; para que eu podêsse levar a cabo a expedição. Todos assim o prometêram. O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fôram incansaveis, e no dia 17, dia em que este ùltimo se retirou para Lisboa, tinha eu o nùmero de carregadores que pedira, cincoenta, que, com trinta esperados de Nôvo Redondo, prefaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bihé. O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao Bihé o grôsso das bagagens, que nós encontrarìamos n'aquelle ponto; onde deverìamos contratar mais carregadores para seguir ávante. N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando a ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me. No dia seguinte, um prêto meu serviçal furtou-me uns 75 mil réis, e desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse. A 19 chegáram os meus companheiros na canhoneira Tâmega , e n'esse mesmo dia resolveu-se, que não irìamos á foz do Cunene, mas sim entraríamos directamente ao Bihé. Esta nôva resolução que tomámos, alterava o que havia contratado com os carregadores, e àlém d'isso, a gente de Benguella, que, transportada a paiz distante, não pensaría em desertar, não me inspirava garantía, viajando logo no comêço em paiz de que conhêcia a língua e os costumes. Comêçou nôva campanha. Eu tinha presentes as narrações de Cameron e Stanley a respeito dos embaraços causados por deserções, e até as do proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de Tete com o D_or. Kirk. Logo depois da chêgada dos meus companheiros, combinámos em ser o Ivens encarregado dos trabalhos geográphicos, o Capello de Meteorologia e Sciencias Naturaes, e eu do pessôal auxiliar da expedição, coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me pôr logo em campo, e o primeiro passo que dei, foi ir tomar consêlho de Silva Porto. Narrei-lhe a nôva decisão que havìamos tomado, de seguir directamente ao Bihé, e expuz-lhe o meu embaraço. Silva Porto veio a Benguella comigo, pois que a sua casa da Bemposta dista 6 kilòmetros da cidade, e precorrémos as casas onde haviam caravanas de Bailundos, sem que elles quizêssem annuir a levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha chêgado uma grande caravana, e este cavalheiro chêgou a offerecer uma avultada gratificação ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se quizêssem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguío. Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros viajantes d'Àfrica, e nenhum outro pôvo estende mais longe as suas correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os Bihenos viajam só do Bihé para o interior como assalariados; e se de maravilha vẽm á costa, é por conta propria. Os Bailundos alugam os seus serviços entre a costa e o Bihé, e não vam ao interior para leste; mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Loanda. Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias de Benguella ao Bihé por Bailundos, e d'ali aos pontos remotos do interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao Bihé. D'este ponto á costa tornam a servir-se dos Bailundos. Depois de informado d'isto, só me restava mandar assalariar Bailundos, para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva Porto, despachando logo cinco prêtos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora, porque os enviados levavam 15 dias a chêgar ao paiz, e outro tanto tempo, pêlo menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir; fazendo uma somma de 45 dias; afiançando-me elle, que antes não os teria. Nós estàvamos em fins de Setembro, e por isso só poderìamos partir por meado de Novembro.[2] Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com elles, resolvémos não perder tanto tempo em Benguella; e entregando as cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos Bailundos, partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo esperar no Bihé; tempo que aproveitarìamos no arranjar de carregadores ali para seguir ávante. Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Nôvo Redondo, faziam um total de 66 homens. Tìnhamos, àlém d'isso, 14 soldados; os meus muleques pequenos de serviço; uns Cabindas de serviço de Capello, e Ivens; e 2 chefes prêtos, um contratado por mim na Catumbella, o prêto Barros, e outro por Capello, em Nôvo Redondo, o Catão. Em tôda esta gente não tìnhamos um só homem de confiança. Tratámos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e conhêcémos que eram 87; isto é, tìnhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de balde que trabalhei para os haver, não me foi possivel obter um só. Os prêtos, não comprehendendo o que ìamos fazer, ao sertão, estavam receiosos, e com a sua desconfiança natural, imaginavam loucuras e recusavam-se. Chêgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado. Resolvi, por consêlho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os Mundombes faríam menos difficuldades, do que a gente de Benguella; mas, sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali fôsse por mim. No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fêz. Os Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho conhêcido d'elles; mas, fora d'isso, não fazem outras viagens; e recusáram as pagas avultadas que lhes offerecìamos para irem ao Bihé. Tornava-se necessario tomar uma resolução, e essa foi logo tomada; seguirìamos sempre para o Bihé, mas tomarìamos por Quillenges e Caconda. O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para Quillengues. Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bihé, e eram umas 400. Poz o Governador á nossa disposição uma lancha, para transportar por mar ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali deviam ser carregadas até Quillenges, e alguns carregadores de Benguella que estavam doentes. No dia 11 de Novembro, estàvamos prontos a deixar a costa, e fixámos a partida para o dia 12. Nesse dia fugíram 4 carregadores de Nôvo Redondo, e no seguinte 5 de Benguella. Emfim, no dia 12 deixàvamos a Cidade, depois das mais cordiaes despedidas dos amigos, que se reuníram para nos dizer adeos. Pouco antes tinha eu ido á praia, e por muito tempo tive os olhos fixos na vastidão do Atlàntico, d'esse mar enorme que ia perder de vista; e mal cogitava então, que só o volveria a ver dois annos depois, na França, em Bordeos. Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida, senti uma pungente mágoa, uma indefinivel saudade, uma dôr profunda, que me produzíram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a consciencia de ter deixado Benguella. A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao passo cadenciado da caravana; seguí-a. No dia 13, chegàvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64 kilòmetros. Tìnhamos com-nosco 69 pessôas, e seis jumentos, que fôram, homens e burros, alojados na fortaleza. Nós três, com os nossos muleques de serviço, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio de Santos Reis, distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos. Dois dias depois, chegáram as cargas que tinham vindo por mar, e inventariando tudo, conhêci, que para seu transporte precisava de 100 homens, àlém dos effectivos que comigo tinha. Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a lancha, mettendo a bordo mais cargas do que tìnhamos julgado absolutamente necessarias. Decidímos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o paquete, de costume, está em Benguella a 14; mas a 18 nem o vapor tinha ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado um só homem. A 21 chêgou a mala, mas de gente só tìnhamos a trazida de Benguella. O chefe declarou-nos, que no dia 26 poderìamos partir; mas, precisando nós de 100 homens, apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia aparecêram mais 27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os fizesse esperar, despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por dois soldados dos que comigo tinha. O chefe declara-me que lhe é impossivel conseguir mais gente. Faço reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo tratar com elles. Sam três typos magnìficos. Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella, que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é Batara. Os meus companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque desde o dia 24 estam com febre. O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de ramageus, muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de infanteria, desabotoada, deixando ver o peito nú, porque camisa não usa; e na cabêça, sôbre um barrete de lã vermelha, põe nobremente um chapéo armado de estado-maiór. O Bahita traja saias de lã de vistosas côres, uma rica farda de Par do Reino, quasi nôva, e na cabêça, sôbre o indispensavel barrete, uma barretina de caçadores 5. O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz á cinta um espadão enorme. Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos séculos e altos dignitarios das suas negras côrtes, que tomam assento no chão em torno da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que tirava de uma marimba, monòtona toada. Esta marimba é formada de dois paos de 1 metro de comprido, ligeiramente curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas pequenas de madeira, cada uma das quaes é uma nota da escala. O som é reforçado por uma fila de cabaças collocadas inferiormente, sendo a que corresponde á nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e á mais alta 3 a 4 decilitros. Os Sobas portáram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem que os tamava a sério. Depois de me prometterem carregadores, viéram acompanhar-me a casa, que distava uns dois kilòmetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de àgua-ardente a cada um, mandáram elles dançar a sua fidalgaria, e o Bahita mandou entrar na dança umas raparigas que haviam ficado de parte. Eu pedi-lhes que dançassem elles; mas respondéram-me, que a sua dignidade lh'o não permittia; sendo isso contra as pragmàticas estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita dançando, de saias e farda de Par; e conhêcedor do imperio da àgua-ardente nos prêtos, mandei dar outra garrafa aos sobas. Foi o bastante. Atropeláram as suas leis, e eil-os saltando em brutesça dança no meio do seu pôvo, que enthusiasmado por tal honra, redobra de contorsões e momices, que chegam a atingir o delirio. O Bahita é magnìfico, e com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este molde. Fala continuamente em mandar cortar cabêças, sentenças estas que os seus escutam com a maior submissão, mas de que interiormente se riem, porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o não consente. O Dombe Grande é um fertilissimo valle, que se estende primeiro do Sul ao N., e depois a Oeste, quasi em àngulo recto, até ao mar. É enquadrado por dois systemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro por leste, em cujo sopé corre o rio Dombe , Coporolo , ou Quiporolo , e até rio de S. Francisco --que todos estes nomes tem. Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão. (De uma photographia do pharmaceutico Monteiro.)] É rio que de inverno traz muita àgua, mas de verão é sêco; sendo que, mesmo nas maiores estiagens, àgua se encontra cavando poços; o que acontece em tudo o valle do Dombe, onde não é preciso profundar mais de 3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o valle se estende N. S., ha uma lagôa, de 50 metros de largo por 1 kilòmetro de extenção, e da forma de S. Esta lagôa é curiosa, porque não é formada por depòsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte nascente subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir infiltrações, que, um kilòmetro abaixo, vam formar nascentes, que sam aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre, tainha e muitos crocodilos. Tenho-a visitado muitas vêzes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas é certo que os ha, porque m'o afiançou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo, que sam muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaçados pêlos seus prêtos, tentáram na fuga atravessar a nado a lagôa, não logrando um só atingir á outra margem, porque tôdos fôram prêsa dos vorazes amphibios. Nas montanhas de oeste junto á lagôa, montanhas formadas de carbonato calcàreo e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quaes nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e parecer, tanto quanto por fóra se podia observar, que contém extensas galerias. Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e verificámos não ter ella merecimento. É um salão pròximamente circular, de 14 metros de diàmetro, architectado pêla natureza na immensa mole de calcàreo, que forma a montanha. Parece ser guarida habitual de feras, que o dá a entender o ar saturado do fedôr almiscarado de certos animaes, bem como as traças de leão impressas no pó impalpavel que cobre o chão, onde encontrámos alguns espinhos do Hystrix Africano. No valle do Dombe ha algumas feitorias agrìcolas importantes, sendo as principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro Santos Reis. Esta ùltima conta apenas três annos de existencia, e produz cana de açucar de que extrahe para cima de 40 mil litros de àgua-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado ha só três annos. É uma feitoria que começa, tudo ali está ainda em construcção; mas pêlo resultado já obtido se pôde aquilatar a riqueza do solo ali. Tudo o valle é cultivado de mandioca, pêlos indìgenas, e tão fertil é, que depois de três annos de falta de chuva, não tem deixado de ter producção regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por anno. É o celeiro de Benguella. Os indìgenas ali não permutam as fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor já conhêcem. Mulhéres e Donzellas, Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)] A demora que ali tivémos foi prejudicialissima á ordem, e disciplina da minha gente. Tôdos os dias apresentavam nôvas exigencias, tôdos os dias levantavam querellas entre si; e eu não podia ser demasiado severo, de receio que me desertassem tôdos. Vendéram os pannos para comprar àgua-ardente, e chegáram a vender as rações de comida para se embriagarem. Os soldados eram os peiores. Os sobas não mandáram gente, e eu principiei a ver a repetição das scenas de Benguella. Não podìamos seguir. Homens Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)] No dia 1 de Dezembro, chegáram ao Dombe 30 homens mandados de Quillengues pêlo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu lancei mão d'elles, e decidi com os meus companheiros partirmos no dia 4. Tinha havido mais três deserções, dois homens de Nôvo Redondo e um de Benguella. Os nossos burros eram muito manhosos, e não havia ensinal-os; todavia resolvêmos conserval-os. CAPÌTULO III. HISTORIA DE UM CARNEIRO. A 4 de Dezembro deixei o Dombe, pêlas 8 horas da manhã, e segui para Quillengues. O Capello e o Ivens ficáram ainda, para enviar algumas cargas; deviam ir encontrar-me á noite. Foi consêlho dos guias, que não tomàssemos o caminho das caravanas, mas sim um atalho conhêcido d'elles, para evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que já então levava muita àgua; dando difficeis vaos, e que aquelle caminho corta em diversos pontos. Depois de duas horas de jornada na planicie, chegámos ao sopé da serra da Cangemba, que borda por leste o valle do Dombe. Descançámos um pouco, e ás 11 horas, emprehendémos o subir da serra pêlo leito de uma torrente, então sêco. Foi difficil trabalho. Os homens iam muito carregados; porque, àlém das cargas da expedição, do peso de 30 kilogrammas, levavam para si rações para nove dias, em farinha de mandioca e peixe sêco. A differença de nivel era de 500 metros apenas; mas o leito da torrente, formado de rochas calcàreas, offerecia obstàculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos, era preciso com as mãos ajudar o côrpo na subida, e o passar ali os seis jumentos, deu grande canceira. Tìnhamos comprado no Dombe dois carneiros, para matar em caminho; um dos quaes facilmente seguiu a comitiva, mas o outro deu trabalho, porque se recusava a andar, e a sua teimosía em volver ao Dombe era constante. Fôram três horas de fadigosa marcha; que tanto gastámos para transpor um espaço que não passava de mil metros, e isto por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de fadiga. Acampámos logo junto a um poço cavado no leito arenoso de um ribeiro que ia sêco; ribeiro a que os Mundombes chamam Cabindondo. O logar era àrido, e apenas vegetavam aqui e àlém alguns espinheiros brancos, rachìticos e ressequidos pêlo sol, que n'esta època do anno queima. O nosso horizonte era formado pêlas cumiadas das montanhas que correm norte-sul. Pêla tarde chegáram Capello e Ivens, e fomos logo comer; que eu estava ainda em jejum. No dia 5 de manhã, seguímos a S.E., e depois de 4 horas de marcha, em que vencémos um espaço de 20 kilòmetros, assentámos campo em um logar que os guias chamáram Taramanjamba; valle extenso, cercado de cêrros pouco altos. A altitude é de 600 metros; mostrando que apenas estàvamos elevados 100 metros acima do nosso campo de hontem. A vegetação continúa pobre, e a falta de àgua é grande. Para beber e cozinhar, apenas obtivémos pouca, de depòsitos fluviaes nas cavidades das rochas; depòsitos que fôram logo esgotados pêla nossa sedenta caravana, sendo que á noite já se fazia sentir a sêde. Durante a marcha, se os jumentos continuáram a ser incòmmodos, não o foi menos o carneiro, que era bravissimo, e mais teimoso que os burros. Decidi matal-o, e tendo combinado isso com os meus companheiros, dei as ordens n'esse sentido aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores. De volta ao campo, vi que os muleques não tinham comprehendido a minha ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o manso. No dia seguinte partímos de madrugada, e depois de cinco horas de marcha, acampámos no logar chamado Tine, onde nos afiançáram os guias haver àgua. Contra o que eu esperava, o carneiro, não só deixou de ser teimoso, mas poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia, já em marcha já no campo. A marcha n'esse dia foi difficil; porque, não só a sêde abrasava a gente, mas ainda por uma hora andámos no leito sêco do rio Canga, pedregoso e desnivelado, o que nos fatigou muito. O terreno é já granìtico, e a vegetação arborescente luxuriante. Àgua, como na vèspera, foi da chuva, recolhida nas cavidades das rochas; mas era melhor ao paladar e mais lìmpida á vista. Tìnhamos alguns homens com feridas nos pés, que só chegavam tarde ao campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda outros que, por fracos, se atrazavam, e por preguiça muitos. N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho; fazendo isso que só tarde comêssemos. O Capello, de si pouco communicativo, não se queixava dos incòmmodos que soffria; mas Ivens, loquaz e de gènio alegre, não se calava e nos fazia rir a cada passo, com os seus ditos engraçados. O appetite era já grande, quando chegáram os carregadores, e elle não desfitava os olhos de uma perna de carneiro que um muleque volteava junto da fogueira em espeto de pao, e de repente disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho para aquella carne até chorava." Desde o Dombe apenas tìnhamos comido uma vêz no dia, e assim, a nossa gente; com a differença, porem, que elles comiam sem interrupção desde o acampar até dormir: o que me fazia receiar, que as rações distribuidas para nove dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em paiz onde era impossivel obter vìveres. Avançámos 25 kilòmetros no dia seguinte, a E.S.E., e fomos acampar em uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso d'esse dia relativamente melhor, sempre por terrenos granìticos, e por entre vegetação mais vigorosa que até ali. N'essa floresta encontrámos os primeiros baobabs que desde a costa temos visto. Àgua continuava a ser escassa, e sempre de depòsitos pluviaes. Pêlas três horas d'esse dia, fomos avisados de que uma caravana se dirigia ao nosso campo, vindo do interior; e saindo logo ao seu encontro, soubémos ser o ex-chefe de Quillengues, Capitão Roza, que ia doente para Benguella. Convidámol-o á nossa barraca, onde jantou; partindo em seguida, depois de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe offerecêmos. Logo que elle partiu, fui avisado pêlos muleques, de que em torno do campo se viam traças frescas de caça; e sahi a ver se a encontrava. Segui um rasto de grandes antìlopes, e tão longe me levou elle, que veio a noite, e com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo. Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive idéa de subir a ella, para do cume, vendo o clarão dos fôgos do meu campo, dirigir ali meus passos; idéa que executei com bom resultado, porque effectivamente enxerguei ao longe um clarão que tratei de alcançar, tendo marcado pêla bùssola a sua direcção. Não se imagina o que seja caminhar em noite escura por entre as sárças de uma floresta virgem, e quanto tempo se leva a transpor um curto espaço; deixando aqui e àlém farrapos da roupa, senão tiras da pelle. Chêguei por fim, já guiado pelo vozear do gentio; mas ¡qual não foi a minha decepção, vendo, que pêlo meu tinha tomado o campo do Capitão Roza, que devia estar a 6 kilòmetros longe d'elle! Porem, como um caminho ligava os dois campos, porque uma caravana que passa deixa trilho, endireitei n'elle, e depois de uma hora de jornada, já ouvia o som das businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para guiar meus passos. Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chêguei á minha tenda, onde Capello e Ivens não estavam livres de cuidados. Ali tive uma noticia inquietadora, mas que não foi sorpresa. Já se sentia falta de vìveres, e sôbre tudo os soldados já tinham em 5 dias comido a ração de 9. No seguinte dia forçámos a marcha um pouco mais, e percorrémos em 6 horas 30 kilòmetros a E.S.E. O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do Capitão Roza. Nas florestas que atravessámos continuáram apparecendo baobabs gigantescos. Depois de passarmos o rio Calucúla, acampámos na sua margem direita. O rio leva pouca àgua, mas esta é lìmpida e bôa. Continuàvamos a comer só uma vêz ao dia, e a hora da refeição variava entre a 1 e 3, conforme ás marchas. Era preciso poupar os vìveres. Ressentido da fadiga da vèspera não sahi a caçar n'esse dia, e fiquei na barraca. O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e réptiz. Os soldados termináram as rações, e começáram a queixar-se de fome, falando em matar o carneiro. Eu tinha-me afeiçoado ao animal, que de bravo que era se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas marchas e não me abandonando um momento. Opuz-me a que fôsse morto, e o Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso. A 9, levantámos campo, ás 5 horas, e sustentámos a marcha até á uma; hora a que acampámos nas faldas da serra da Tama. Das 8 ás 9 horas seguímos ao sul, na margem esquêrda do rio Chicúli Diengui, que vai ao N., provavelmente ao Coporolo. A vegetação é cada vêz mais luxuriante, e n'esse dia o nosso caminhar foi por entre floresta espêssa. Logo que se estabeleceu o campo, renováram-se as representações dos soldados famintos, e com ellas a idéa de matar o carneiro. O Ivens deu nôva ração de arroz aos soldados, e isto, ainda que contemporizava, não era uma positiva salvação para o pobre animal. Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caçar, para salvar a vida do meu carneiro. Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e já voltava ao campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que pastavam. Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou para sôbre uma rocha, e d'ali comêçou a espiar a floresta com a sua vista experimentada; em quanto a fêmea, de orelha á escuta, investigava os arredores. Era grande a distancia, mas não hesitei, e atirei ao macho, que vi cair fulminado para àlém do rochêdo. A fêmea, ouvindo o estampido do tiro, saltou ligeira sôbre o penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro, vendo-a em seguida pular, em salto elegante, e desapparecer no mato. O meu muleque correu logo a buscar o antìlope môrto, mas eu vi que, em logar de parar junto do rochêdo, seguiu sempre; eu dirigi-me para ali com o coração palpitante, porque suppuz que me tinha enganado julgando ver cair o primeiro antìlope. Torneei a rocha, e tive um grande alvorôço. O lindo animal ( Cervicapra bohor ) estava estendido sem vida. Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque curvado ao peso de grande carga. Era o segundo antìlope, que elle tinha levantado môrto, a poucos passos na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao passo que o macho cahiu sem vida, a fêmea pôde effeituar uma pequena carreira. Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devìamos chegar a Quillengues, e ali terìamos recursos, estava salvo para sempre. No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilòmetros, e de termos passado a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na margem direita do Vambo--que tôdos correm ao N., a unir as suas àguas (quando as tẽm), ao Coporolo, que aqui já se chama Calunga, nome que conserva até á sua nascente. Na jornada d'esse dia começámos a encontrar gramìneas enormes, nas clareiras do mato. Tão grandes, que era impossivel ver nada com ellas, e difficil o caminhar. Durante a marcha desappareceu um meu muleque pequeno, e uma prêta, mulhér do muleque Catraio do Capello; e ainda que despachei gente a buscal-os, não fôram encontrados. A escaçez dos mantimentos era grande, e não eram já só os soldados a queixarem-se de fome, tôdos faziam representações, e não attendiam razão. Tivémos de seguir. No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do rio Tui, muito pròximo de Quillengues. Dos muleques perdidos não havia noticia, e faltava desde a vèspera um jumento, que não appareceu. Em quanto se estabelecia o campo, eu segui para a fortaleza de Quillengues á busca de vìveres, com que voltei ás 8 da noite. Estava decididamente salvo o meu carneiro. N'essa noite apparecêram o muleque e a prêta perdidos, e isso deu-me um verdadeiro prazer; porque, fôrçados a marchar, pela fome, não tìnhamos podido demorar-nos a procural-os. O logar onde acampámos era baixo e pantanoso, fôra de recursos, é isolado; e por isso resolvémos ir acampar na libata do chefe de Quillengues, onde entrámos no dia 12, pelas 11 horas. Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados até ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter outros até Caconda; o que elle me certificou ser facil, dizendo-me logo, que sabia como os rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios, e por isso não davam passagem; o que nos impedia de partir immediatamente. N'esse dia já comémos bem, e tivémos duas comidas, almôço e jantar. Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato, trazido por um indìgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei bem o prêto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca julguei ver mais o pobre animal, que, se escapasse das feras, não escaparia á ladroagem dos naturaes, pensava eu. Quillengues é um valle regado pêlo Calunga (rio que eu supponho ser o curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e coberto de povoações indìgenas. O estabelecimento Portuguez occupa uma àrea de 45,500 metros quadrados; por ser um rectàngulo de 250 metros por 182. Este rectàngulo, cercado de palissada, tem quatro baluartes de alvenaria, a um meio de cada face; e dentro uns abarracamentos, que sam morada do chefe militar, e quartéis dos soldados. Algums baobabs e figueiras sycòmoros crescem ali, assombrando com seus ramos gigantescos um terreno coberto de gramìneas indìgenas, onde pastam os rebanhos do chefe. Se a importància de Quillengues é grande como ponto productivo, e facilmente colonisavel, não o é menos como posição estratègica; pois que pôde ser considerado uma das chaves do sertão interior, com respeito a Benguella. Os sobetas do paiz reconhêcem a autoridade Portugueza; mas, de natureza salteadores, atacam sem cessar outros pôvos indìgenas, para lhes furtarem o gado. Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a terra, que de ubèrrima suppre o pouco trato; produzindo milho, massambala, e mandioca, em quantidade grande. As suas habitações sam cubatas circulares, de 3 a 4 metros de diàmetro, construidas de grossos troncos de madeira, revestidas de barro. A porta é bastante alta, para dar entrada a um homem sem curvar-se. Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo azagaias, ferros de frechas, e machados, já de guerra, já de cortar madeira. As enxadas não as forjam, e sam por elles compradas no Dombe, ou em Benguella. Os seus curraes sam, como as povoações, cercados de forte palissada; sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos, para evitar o assalto nocturno de feras. Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque ali abundam corças pequenas ( Cephalophus mergens ), que das folhas sam àvidas, e causam damno grande ás plantações. A àgua-ardente é gènero muito estimado pêlos Quillengues, e sam elles tão dados á embriaguez, que, durante três mezes no anno, tanto quanto dura o fruto do gongo, fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam continuamente embriagados; não sendo possivel obter d'elles o menor serviço. Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente, que dêve ser pêlo menos de 4 metros de panno da costa, e duas garrafas de àgua-ardente; e logo com o portador vem a noiva e seus parentes comer, em grande bròdio, um boi, que dêve offerecer-lhes o noivo. O adulterio é coisa de grande estimação para os maridos; sendo que por lei fazem pagar ao amante multa, que se traduz em gado e àgua-ardente. A mulhér que não tem commettido algum adulterio é mal vista do marido, que não augmenta o seu haver por esse meio. Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi seduzida, e entre elles faz prova a accusação da mulhér. Entre o pôvo, os cadàveres sam enterrados em logar escolhido, e conduzidos á cova n'uma pelle de boi, cobertos de panno de algodão branco. Os dias de nôjo, sam dias de grande festa em casa do finado. Os sobetas tẽm sepultura reservada, e sam ali conduzidos dentro de uma pelle de boi preparada em ôdre, depois de lhe vestirem as melhores roupas. Nas festas d'òbito ha mortandade enorme de gado, porque o herdeiro tem obrigação de matar todo o rebanho, para regalar o seu pôvo, e contentar a alma do finado. No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo. Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema Pertuisset; e de companhia com dois outros, decidíram repartil-a de modo que a cada um tocasse seu pedaço de chumbo. Armáram-se de uma faca, e pôsta a bala sôbre uma pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois acocorados para melhor ver a partilha; quando sùbito a bala faz explosão, ficando os três feridos, e sôbre tudo o muleque de Silva Porto Calomo, que recebeu treze estilhaços, produzindo alguns feridas profundas. Mandámos uns prêtos reconhêcer, se já dariam vao os rios; e por elles soubémos, que se conservavam altos; o que bem soppùnhamos, porque, durante a nossa estada ali, não cessou de chover. Resolvémos então seguir outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de àguas; e por isso, pedímos ao chefe nos tivesse prontos os carregadores; o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23; mas n'esse dia senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas, fiquei eu, e os meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta febre por três dias, e não tenho consciencia de ter passado o dia 25; dia duplamente festivo para mim, porque, sendo o de Natal, é o anniversario de minha filha. Tivéram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua esposa; e no dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no 1_o. de Janeiro de 1878, isto é, três dias depois. A esposa do Tenente Roza fêz-me dois presentes, que eu mal sabia então estavam destinados a representar um papél, ao diante, na minha viagem. Fôram elles um serviço de chá de porcelana de Sèvres, e uma cabrinha muito meiga, de raça pequena, a que puz o nome de Córa. A esse tempo succedeu um desastre, que de véras me contristou. O meu carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com os carregadores famintos, foi môrto por uma cadella perdigueira, que eu levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pêla cadella, na fuga quebrou uma perna ao passar por entre a paliçada do campo, e em breve se finou. Foi o meu primeiro grande desgosto n'esta viagem, tão abundante d'elles. CAPÌTULO IV. POR TERRAS AVASSALLADAS. No dia 1_o. de Janeiro de 1878, deixámos Quillengues, tendo ali feito provisão de vìveres, e comprado bastante gado para matar, bois e carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns 7 kilòmetros, e voltou á sua residencia, seguindo nós sempre a S.E., até ás faldas da serra de Quillengues, onde acampámos junto á povoação do Secúlo Unguri. Tìnhamos um companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido, o deixàssemos ir até ao Bihé em nossa companhia. Era elle Verìssimo Gonçalves, filho de um conhêcido sertanejo do Bihé, môrto havia pouco, que em Quillengues era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz, mulato e de mesquinha educação, como era de côrpo acanhado, cheio de vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e era intelligente. Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais particularmente. Era acanhado e tìmido, mas não covarde, e debaixo de uma apparencia fraca, possuia uma forte organização e mùsculos de ferro. Sabía apenas ler e escrever, mas era um soffrivel atirador de segunda ordem, e manhoso caçador. Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos, que n'esta nôva jornada já me servíram de cavalgaduras. No seguinte dia, logo á saída, começámos a ascensão da serra de Quillengues, que n'esse ponto se chama Serra Quissècua. A subida foi difficìlima, e durante três horas lutámos com as agruras da montanha, elevando-nos a 1740 metros do nivel do mar, ou 836 acima do planalto que termina em Quillengues. Em um desfiladeiro da serra passámos um pequeno ribeiro, que os indìgenas chamam Obaba-tenda , o que quer dizer àgua fria, fomos acampar na margem de outro chamado Cuverai , affluente do Cúe. Estes dois ribeiros sam permanentes, e sam àguas que correm ao Cunene. O terreno continúa granìtico, mas a vegetação muda completamente de aspecto--de certo devido isto á altitude. O baobab desappareceu, e já se encontram fetos á sombra das innùmeras e variadas acacias que povôam as matas. A flôra apresenta riqueza maior em plantas herbàceas, e nas gramìneas sôbre tudo nota-se uma fôrça de vegetação vigorosissima. Notei que atravessámos regiões onde se não encontra uma só ave, e de repente entra-se em zonas onde milhares de passarinhos fazem uma chiada enorme. Caça vi ali pouca, mas os rastos anunciam havel-a. Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa. Estàvamos acampados junto do ribeiro Quicúe, que corre a S.E., em leito granìtico, e vai, provavelmente, engrossar o Cúe; quando sentímos a cadella do Capello ladrando e arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se aproximava da barraca. Ao mesmo tempo sentìamos um forte ruminar perto de nós; o que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e pastavam dentro do campo, que era cercado de abatises espinhosas. Falámos á cadella e adormecémos. Ao alvorescer ouvímos grande rumor no campo, e saindo logo, soubémos, que os prêtos, que ao principio tinham julgado, como nós, que os burros andavam á sôlta, percebêram depois que se enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo. Fôra effectiva menta um bùfalo enorme que nos dera a honra da sua companhia durante a noite. O caso era notavel e de explicação difficil, a não serem os repetidos rugidos dos leões que se tinham ouvido; fazendo com que o bùfalo viesse buscar guarida entre nós. No seguinte dia fomos acampar pròximo da povoação de Ngóla, e eu fiz logo annunciar a minha visita ao Sova. Depois do almôço, fui á libata procural-o. Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e dois guardasóes. O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia. Trajava tanga comprida de panno da costa, e sôbre ella uma pelle de leopardo. Tinha o peito nú pendendo-lhe do pescôço um sem-nùmero de amuletos. Recebeu-me fôra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu offereci-lhe um guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado; favor a que elle se mostrou muito grato. Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle não percebeu muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe offerecia um pequeno barril de pòlvora, 50 pederneiras e uma duzia de guizos de latão, sem nada lhe pedir em troca--o que sôbre modo o espantou. Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle accedeu a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes indìgenas sam desconfiados. Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar àgua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro. Mostrei-me admirado de que um chefe quizesse tão pouco, e convidei-o a procurar vasilha maior. Mandou então buscar uma cabaça que levaria o duplo da botija, e eu pedi-lhe que juntasse outra igual. O Règulo não podia dissimular a sua admiração pêla minha generosidade. Partímos a pé, acompanhados por três das mulhéres, as filhas, e muito pôvo, tôdos sem armas, para me mostrarem a confiança que eu lhes havia inspirado. Chegámos ao campo quando Capello fazia observações meteorològicas, e o Sova ficou admirado diante dos thermòmetros e dos baròmetros. O Ivens veio logo para junto de nós, e depois de grandes comprimentos, mostrámos ao Règulo as armas de Snider e de Winchester, que lhe causáram verdadeiro assombro. Este Chimbarandongo , que tal é o nome do sova de Ngóla, é intelligente, e sabe viver com o seu pôvo. Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licença para o matar, por haver necessidade de provisões, consentio n'isso, pedindo-me para lhe atirar eu. O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de nós. Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei. O boi cahio. Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou tão maravilhado, que me deu repetidos abraços no meio do seu enthusiasmo. Pêlas 4 horas, formou-se sôbre nós tempestade violenta, que se desfez em raios e copiosa chuva, durando até ás 6 horas. O Sova e as mulhéres recolhéram-se á nossa barraca, assim como alguns dos macotas. Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a provar-lhes, que nós tìnhamos trazido a chuva, e com ella um grande beneficio ao paiz, ressequido pêlos calores do estío. Tentámos explicar-lhe, que não tìnhamos tão grandes poderes, e que só Deus governava nos grandes phenòmenos da natureza; levando o Ivens a questão a ponto de lhe explicar como e porque chovía. Ouvindo isto, fez o Sova sair os seus macotas e mais pôvo que escutava a lição meteorològica. Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o pôvo, elle disse, que se deixasse de chover, indagaria qual dos seus sùbditos tirara a chuva, e o castigaria de morte. Nôvo discurso da nossa parte contra a pena capital; e nôva ordem de despejo da parte d'elle, que, a pesar do meio embriagado, tinha tino bastante para não comprehender que as nossas theorías não quadravam ao seu systema governativo. Ao anoitecer retirou-se do modo o mais còmico, indo acavallo em um dos seus conselheiros, que levava as mãos nos hombros de outro; e como estivessem tôdos embriagados, a cada passo perdiam o equilibrio, ameaçando com a queda partir a cabêça ao seu soberano. Este règulo é sensato e homem de bom juizo. Não acredita em feitiços; nem acreditava que nós lhe tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe apparentar que o crê, para não perder o prestigio entre os seus, que só assim querem ser governados. No seguinte dia, vindo elle despedir-se de nós, me disse, que a sua polìtica era ser amigo dos brancos; pois que das bôas relações com elles provinha a roupa com que se cobria, e as armas e a pòlvora com que continha em respeito os seus inimigos. "Sem os brancos," me disse elle, "nós somos mais pobres que os animaes; porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e sam bem loucos os prêtos que não cultivam a amizade dos filhos do Puto." A libata ou povoação de Ngóla é fortemente defendida por uma dupla palissada feita com arte, que tem até uma das faces dentada para cruzamento de fogos. É tão vasta que pôde conter tôda a povoação do paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O ribeiro Cutóta corre dentro d'ella, fazendo que possa resistir a longo assedio sem receiar a sêde. Deixando Ngóla, caminhámos por duas horas a N.E., e encontrámos o Cúe, o maior dos rios, que corre entre Quillengues e Caconda. No sitio em que tentámos a passagem tinha elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo, não dando por isso vao. A chuva torrencial da vèspera, augmentando-lhe o volume d'àgua, tinha tornado impetuosa a corrente. Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil passagem aos homens carregados; mas os bôis e os jumentos só a nado podiam passar. Depois de grande trabalho, os bôis nadáram para a outra margem; os burros porem recusáram seguil-os. Só a grande custo conseguio o prêto Barros, ajudado de mais dois, fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar pé na outra margem; o que era perigoso, que ali abundam crocodilos. Depois de uma hora de trabalho, avançámos para E.N.E., encontrando o ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba, onde assentam as povoações de Caluqueime. Passámos depois o rio Cacurocáe, que corre a S.S.E. ao Cúe; e meia hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e vai affluir ao Cúe; acampando na margem d'este ùltimo, pêlas 4 horas da tarde, junto da povoação de Catonga, onde tem a sua libata um tal Roque Teixeira. A marcha foi de 30 kilòmetros, o que muito nos fatigou. O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude varía apenas entre 1450 e 1500 metros. A vegetação arbòrea apresenta um certo rachitismo; mas a herbàcea continúa a ser variada e rica. No dia 6, seguímos sempre a N.E., passando logo o Cúe, em ponte feita pêlo gentío. Este ribeiro tem 5 metros de largo, por 1 de fundo, e corre a S.E. ao Catápi. Alcançámos o Coúngi ou Catápi, ás 11 e meia, e acampámos na sua margem esquêrda. O Coúnge, que a montante toma o nome de Catápi, tinha ali 10 metros de largo por um de fundo, com violenta corrente, e dirigindo-se a S.E. vai lançar-se no Cunene pròximo do Lucéque. N'esse dia matei uma grande gazella ( Cervicapra bohor ), a maior do gènero que vi em tôda a minha viagem, tão grande que fôram precisos 4 homens para a transportar ao campo. Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato; verificando nós ser contra as hyenas que nos rondavam as barracas, e por noite fôra tivémos mùsica, em um duêto de baixo e contra-baixo, pela voz clara de um leão, na mata, e pêla ronquenha de um hippopòtamo, no rio. O aspecto do paiz continúa o mesmo. Nas lombadas matas rachìticas, de uma vegetação que mais se pôde chamar arborescente do que arbòrea, pêla maior parte. Leguminosas, nas depressões; vastas clareiras, verdadeiros prados de gramìneas diversas, por entre as quaes serpea um ribeiro ou um rio. O terreno continúa granìtico, apresentando as rochas aspectos variados; mas sendo pouco abundantes em mica. Continuámos caminho ao N.E., passando junto da libata de Cuassequera, fortificada entre enormes rochêdos granìticos, e rodeada de gigantescos sycòmoros, produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o ribeiro Lossóla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na margem do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao Catápi, mas correndo ao N. O planalto já é mais elevado, e caminhàvamos então n'uma altitude de 1600 metros. D'esse ponto seguímos a Caconda, tendo atravessado três ribeiros, que correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o Chitequi, o Jamba, e o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que corre a O.S.O., e que já no dia 6 tìnhamos atravessado com o nome de Coúnge. No ponto em que o passámos tem 10 metros de largo por 1 de fundo, e pequena corrente. Algumas das clareiras que n'esse dia atravessámos eram cobertas de junco, pantanosas e de difficil accesso. A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros precedêram-me na chegada a Caconda. Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido á porta pêlo chefe interino, mulato e rico proprietario do consêlho, sargento da guerra prêta; o qual me disse, que o chefe tinha ido para Benguella, deixando-lhe a espiga de nos receber (textuaes palavras). Depois de me ter dito esta amabilidade, o S_nr. Matheus convidou-me a entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das fortificações, vi entre os meus companheiros um homem de estatura mais que mediana, aspecto macilento, testa ampla e elevada, olhar pouco fixo, trajando casaca e gravata branca, que o Capello me apresentou, dizendo-me, "Aqui tem José d'Anchieta." Estava diante de mim o primeiro explorador zoologista d'Àfrica, esse homem que tinha passado 11 annos nos sertões d'Angola, Benguella, e Mossàmedes, enchendo as vitrinas do museu de Lisboa com valiosissimos exemplares. Tive depois occasião de presenciar o seu viver, que é digno de ser descrito. Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da fortaleza. A casa no interior era em forma de T, e tôda cercada de estantes, onde haviam, de mistura, livros, instrumentos mathemàticos, màchinas photogràphicas, telescopios, microscopios, retortas, pàssaros de mil côres, vidros variados, louça, pão, frascos cheios de lìquidos multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos, cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e carabinas de differentes systemas. Junto á casa, um cercado, aprisionando umas vacas e uns porcos. Á porta algumas prêtas e prêtos esfolando pàssaros e preparando mamìferos; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado em velha poltrona, que attesta longos serviços. Sôbre a mesa é impossivel dizer o que ha. Pinças, escalpellos e microscopios ha muitos. De um lado, um monte de bocados de pàssaros mostra que elle acabou de se entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente d'elle, uma flôr cuidadosamente dissecada, attesta que elle acaba de ler na disposição das suas pètalas, no nùmero de seus estames, na forma do seu receptàculo, no arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia, do gènero e da especie em que a dêve collocar. De escalpello na mão e microscopio no ôlho, passa elle as horas que pôde tirar ao trabalho de colleccionador, e é já a planta, já a ave, o ponto de mira do seu estudo. A momentos, é interrompido por um doente que chega, a quem elle dispensa os cuidados de mèdico, e ao mesmo tempo os remedios da cura, quando lhe não dá tambem a gallinha da dieta. Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do Museu Zoològico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa amizade que é difficil encontrar onde não existem estreitos laços do mesmo sangue. Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos serviços que tem prestado ás sciencias zoològicas, conhêce que tem no D_or. Bocage o homem que lhe faz justiça, e sabe aquilatar esses serviços; o homem que completa na Europa o trabalho que elle começa em Àfrica; o homem, emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos incòmmodos custáram cada um d'esses exemplares, que descreve, descrevendo com elles nôvas especies. José d'Anchieta é um d'esses nomes que merece o respeito dos homens de sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas; porque, trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz, conservando-se elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da desmoralização que lavra nas terras em que vive, e de que poderia tirar proveito se fôsse menos escrupuloso. Basta de falar d'elle, que não ha elogios que lhe não caibam; falando mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado para sempre aos seus trabalhos, que não morrem. Soubémos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do commando, e fôra nomeado outro official do exèrcito de Àfrica para o substituir. Dois dias depois da nossa chegada, chegáram tambem a Caconda o nôvo chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa correspondencia da Europa, que lemos com avidez. Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a acompanhar-me a casa de José Duarte Bandeira, o primeiro potentado de Caconda, onde me disse que se arranjariam, pêla grande influencia de que dispunha o tal Bandeira. Partímos para Vicéte no dia 13 de manhã, e n'esse mesmo dia o Ivens seguio para casa de Matheus, a fazer um reconhecimento ao Cunene, no logar da sua confluencia com o Quando. Eu tambem devia ir fazer uma visita ao mesmo rio para o sul. O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue aos cuidados de Anchieta. Seguí a S.S.E., passando logo os rios Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a O.N.O., com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande contribuição d'àgua. Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, chêguei pêla noite a Vicéte, libata fortificada entre rochas, no cume de um outeiro que domina vasta planicie. Fui recebido por José Duarte Bandeira, que, depois de bôa ceia, me proporcionou òptima cama, de que bem precisava. Logo na manhã seguinte, o Alferes Castro falou nos carregadores, e Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram precisos para seguirmos ao Bihé. Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que partìssemos no seguinte dia. Caminhámos nove milhas a Leste, e encontrámos o rio no Porto do Fende. Logo á chegada, matei um grande hippopòtamo, que têve a imprudencia de vir resfolgar a meio rio ao alcance da minha carabina. Passei ali dois dias. O rio tem ahi 100 metros de largo por 6 a 7 de fundo, com uma corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no Fende é N.O. a S.E. por espaço de 2 milhas, sendo a montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O. a jusante inclina-se para S.S.O. por 26 milhas, até ao Luceque. Por vêzes toma uma largura de 200 metros e mais. Abundam n'elle hippopòtamos e crocodilos. 1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns ràpidos a que chamam Da Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e 10 milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete, ùltimas que tem no seu curso superior; sendo depois navegavel até ao Humbe. A margem direita é, nos pontos em que a visitei, montanhosa e coberta de mato virgem; á esquêrda, vasta planicie, de 4 a 5 kilòmetros de largo, que encosta ao sopé dos montes, que formam um pouco elevado systema, correndo N.S.; em cujas vertentes oeste assentam as povoações do Fende. Pêlas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre nós uma tormenta, que despedio innùmeras faïscas e copiosa chuva, deixando-nos completamente molhados. A 17 voltámos para Caconda, com a promessa de termos os carregadores dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte, um barril de àgua-ardente para a convocação . Nesta parte de Àfrica, a àgua-ardente desempenha para com os homens o mesmo papél, que na Europa o azeite para com as màchinas. Sem ella não se movem. O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa, esquèceu-se de que tìnhamos a gastar o dia em jornada; e saindo nós ao alvorecer, só á noite alcançarìamos Caconda. Partímos com o alforje vazio, e pêlo meio-dia já o appetite degenerava em fome. Parámos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia ver se matava caça para comer; mas apenas avistei uma codorniz, que nos servio a ambos de almôço e jantar, cozinhada n'uma marmita de soldado. Confesso que já tenho almoçado e jantado melhor do que n'esse dia. Os meus prêtos, vendo a minha avidez em roer os ossos da codorniz, que a cadella de balde devorou com os ôlhos, fazendo-me mil negaças com a cauda, déram-me uma raiz de mandioca, que partilhei com o Alferes. Chêguei, á noite, a Caconda, e depois de uma bôa ceia, dei fé que Ivens ainda não tinha chegado, e que Capello já estava bom. O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mandámos o tal barril de àgua-ardente ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na convocação dos carregadores. No dia 23, chegáram de Benguella uns artigos que tinham sido requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me offerecia Antonio Ferreira Marques. N'esse dia despachei outro portador a Vicéte, pedindo ao Bandeira os carregadores, que já se demoravam. Não appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe para que fôsse a Vicéte, e usando da sua influencia como autoridade, visse se dava pressa ao Bandeira em nos mandar a gente precisa. O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo já estarem promptos 61 homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os pagamentos, que ali só querem algodão branco, mas disse serem precisas mais 50 peças, que nós não tìnhamos, mas que o Bandeira ficou de emprestar. No dia seguinte, nôva carta do chefe, dizendo, que os carregadores iam ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira carta, dizendo, já lá ter 94 homens; e finalmente, no dia 5 de Fevereiro, outra carta, dizendo, que não havia nem um carregador, e que nenhum se arranjaria. Imagine-se o nosso desapontamento. Eu a esse tempo ainda não tinha formulado e arraigado no meu espìrito um principio, que mais tarde me sugerio a experiencia, e que entrou depois, de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz resultado da minha viagem. O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu espìrito, traduzio-se n'esta sentença:-- "Desconfiar, no sertão d'Àfrica, de tudo e de tôdos, até que provas repetidas e irrefutaveis nos permittam confiar um pouco em alguma cousa ou alguem." Ora, para mim, essas provas sam tão difficeis de se apreciarem, como o sam as de um amor eterno, ou as da sòlida fortuna do commerciante, embrulhado em transacções de vulto. Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de nós propoz alvitre qual d'elles mais disparatado. O desapontamento era grande. Socegados os espìritos, decidímos ir eu procurar os carregadores fôsse onde fôsse, e se longe ou perto os não podesse encontrar, seguirmos para o Bihé, e mandarmos d'ali buscar as cargas. Julgàvamos isso possivel. O chefe voltou de Vicéte, e não me deu explicação plausivel do facto. Acordámos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha carregadores; porque, não só o Alferes Castro, como o chefe, e Anchieta mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar mais perto. Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraços para fazer uma remessa de productos zoològicos para Benguella, o que era relativamente mais facil. O que nos estava acontecendo é digno de notar-se. Não só Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento Matheus e outros, enviam grandes caravanas a sertões longìnquos; ¡e todos elles não podéram obter um só carregador para nós! Eu começava de antever um propòsito firme de nos embaraçarem o passo, e mal cuidava então que esse propòsito fôsse tão longe como infelizmente tive occasião de experimentar depois. O correr d'esta narrativa mostrará, quam habilmente me fôram levantados obstàculos, que só uma decidida protecção de Deos me fez vencer. Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que continúe com a narração das minhas aventuras, que começam aqui a tomar um caracter mais extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a respeito de Caconda. A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hôje no districto de Benguella tremula a bandeira Portugueza, é um quadrado de 100 metros, cercado de um profundo fosso e de um parapeito, onde aqui e àlém se pôdem ver as linhas distinctas de uma fortificação passageira, construida outrora com arte. Uma palissada forma segunda fortificação no interior, resguardando umas casas arruinadas, que fôram habitação do chefe, quartèis e paiol. Algumas bôas peças de bronze, montadas a barbete, deixam ver por sôbre o plano de tiro, deformado pêlo tempo, as suas bôcas verde-negras e oxidadas. A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja. Ao norte, uma reunião de pequenas cubatas, morada dos soldados. O paiz é agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de febres, é certo que ellas ali sam mais benignas do que em outros pontos. A povoação é pouquissima, e tem-se retirado muito da fortaleza. O solo é ubèrrimo, e muitas plantas Europêas facilmente se aclimam ali, produzindo espantosamente. No trigo, feijão e batata vi eu isso, em pequenissimas plantações. O ribeiro Secula-Binza é uma fonte de àgua cristallina correndo em leito de granito. Junto da fortaleza ha poucas àrvores; que as necessidades dos habitantes tẽm despovoado as matas que dêvem ter existido outrora, como ainda hôje existem mais longe. O commercio é pouco, e esse mesmo é feito muito longe no interior. A mesma pégada de decadencia que se nos revela em Quillengues, é ainda mais patente aqui. A importancia de Caconda é igual, senão superior, á de Quillengues; mas tem menos segurança ainda para o commercio; que o caminho de Benguella é infestado de salteadores. CAPÌTULO V. VINTE DIAS DE AGONIA. Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia 10 homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo Gonçalves, de quem já falei, e o chefe de Caconda, o Tenente Aguiar, que quiz por fôrça acompanhar-me n'esta expedição, que tinha por ùnico fim o arranjar carregadores; querendo mostrar assim a sua bôa vontade em nos auxiliar, e que era estranho aos acontecimentos de Caconda. Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar; porque a esse tempo não tinha ainda arreigado no meu espìrito o principio que formulei no capìtulo anterior, e hôje mesmo creio que elle foi enganado como eu, apesar da sua muita experiencia dos sertões avassallados. Depois de uma jornada de 17 kilòmetros a N.E., alcançei a libata de Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda; e depois o Catapi, que ali corre a S.O. O sova mandou-me logo um porco pequeno, e não tendo eu podido comprar gallinhas, mandou-me uma. À tarde veio á minha barraca, e depois de larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus antepassados fôram sempre avassallados a El-Rei de Portugal, elle não o era; porque as muitas arbitrariedades commettidas pêlos chefes contra elle e os seus, tinham quebrado os compromissos antigos; que o Mueneputo ja lhe não fazia justiça, e narrou-me muitos dos acontecimentos em que baseava as suas accusações aos chefes, falando com modo muito atilado. O chefe estava presente á entrevista, e não podia responder ás accusações dirigidas aos seus antecessores, tão claramente eram ellas formuladas. Este velho era homem de tino, e falou-me na polìtica dos Portuguezes em Caconda com um juizo difficil de encontrar em prêto boçal. Procurei desfazer a má impressão que o soba tinha dos chefes de Caconda, mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma vêz tive occasião de apreciar o mao resultado dos minguados estipendios que se conferem aos chefes dos consêlhos do interior; causa primordial da decadencia do nosso poderio e influencia ali. O sova de Quipembe é muito idoso, e soffre de gota, que lhe embaraça o caminhar. A sua libata é vasta, bem fortificada e muito bem situada. Desde a minha chegada muitas dezenas de prêtos e prêtas pequenos olhavam pasmados para mim, fugindo em debandada ao menor movimento que eu fazia. Tentei fazer-lhes perder o mêdo que manifestavam, dando-lhes alguns guisos e bagos de coral; mas só mui receosos se chegavam a mim, fugindo logo que recebiam o presente. Fôram objecto de grande admiração, os meus òculos e o meu cobertor, em que se desenhava um enorme leão em fundo vermelho. No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro Utapaira, e uma hora depois alcançava o Cuce, affluente do Quando. Este rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando difficil passagem, por serem as suas margens escarpadas e lodoso o fundo. A margem direita é montanha suave e pouco elevada, e a esquêrda campina de 1 kilòmetro de largo. Passei ao sul da libata de Banja, magnificamente situada no tôpo de um outeiro, e depois de atravessar três ribeiros, o Canata e Chitando, que vam ao Cuce, e o Atuco ao Quando, alcancei este ùltimo rio, um dos grandes affluentes do Cunene. O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a três de fundo. No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de massas enormes de granito, para reapparecer um kilòmetro a jusante. Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante vegetação, onde as palmeiras elegantes se destacam do verde-negro dos gigantescos espinheiros. Os rochêdos denegridos sobressaem aqui e àlém por entre os tufos de mato, mostrando os cabêços puïdos do bater das tempestades. Nuvens de passarinhos chilram nas árvores e innùmeras rôlas esvoaçam sôbre os espinheiros. De quando em quando ouve-se o resfolgar dos hippopòtamos nos pegos do rio. É a belleza selvagem em tôda a sua força, mas a par d'ella ha ali alguma cousa de horrivel, que sam venenosissimas serpentes que a cada passo se arrastam junto de nós. Matei algumas, que me certificáram os prêtos serem de mortal peçonha. Apparecéram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem da margem esquêrda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma muralha de pedra, que pêla extensão parecem ter sido muro de povoação antiga. Foi este o primeiro dia na minha viagem em que de noite tive por tecto o ceo estrellado, mas por isso não foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer matámos, entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa. Seguímos a N.E., e para àlém da povoação de Pessange, encontrámos a de Canjongo, governada por um secúlo, que nos offereceu capata e vendeu algumas gallinhas a trôco de panno de algodão ordinario, e depois de passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E., descançámos algumas horas na margem esquêrda, e caminhando depois a N.N.E., chegámos, ás 5 horas da tarde, á libata grande de Quingolo. O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente. Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os chefes de Caconda não faziam caso d'elle, e faziam mal n'isso; que ainda assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e fôsse eu ver se obtinha os outros ao Huambo. Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manhã, o sova veio visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que me disse partiriam no seguinte dia para Caconda. Quiz fazer algumas compras de vìveres, mas nada me quiséram vender; sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um grande porco. Eu fiz-lhe um presente de 3 peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente. O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro prazer. Ao meio dia apparecéram os chefes dos carregadores que partiam, para receberem os pagamentos. Esta libata grande de Quingolo é situada sôbre um outeiro granìtico que domina uma enorme planicie. Por entre as rochas crecéram sycòmoros enormes, que lhe dam uma frescura constante. Estas rochas combinadas com as palissadas formam uma temivel fortificação, rodeada de um fosso meio obstruido. No tôpo do outeiro dois rochêdos enormes de elevadas proporções formam uma especie de mirante, d'onde se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho visto. Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos Carvoeiro ao Mondego até á beira-mar, apenas interrompida aqui e àlém por verdejantes clareiras, o paiz que se avista do alto de Quingolo é talvez, mais vasto e grandioso, sendo limitado em tôrno por um perfil azulado de longínquas montanhas que de distantes mal se avistam. No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui ás 8h. 30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem fiquei nos melhores termos de amizade. Logo á saida passei o ribeiro Luvubo, que corre ao Calae, e pêlas 10 horas alcancei a libata do secúlo Palanca, onde pedi agasalho, por me ser impossivel caminhar com febre que recrescia a cada momento. Apesar do meu estado de saude, fiz observações astronòmicas, para determinar a minha posição; e falo n'isso, por ser este o primeiro d'essa sèrie de pontos que eu devia determinar através d'Àfrica. Foi a povoação de Palanca o primeiro ponto determinado por mim, n'essa linha que marca o meu caminho do mar Atlàntico ao Indico. Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia produzíram-me ràpidas melhoras que me permitíram seguir no dia immediato. Eu viajava acavallo em um possante bôi, e tinha um outro de reserva, bôis muito bem domesticados e que offereciam bôa commodidade ao andar, podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um galope curto. Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dôro, a que chamam das mulhéres, onde foi muito difficil a passagem dos bôis, por ser de fundo lodoso. O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente, pêlo que resolvi deitar-me a descançar um pouco. Não haviam arvores no sitio, e ao sol ardente sôbre uma terra ardente adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que estava fresco e tinha sombra. Eram os meus prêtos que, de motu proprio estavam em tôrno de mim segurando um panno para desviar do meu côrpo as ardencias de um sol a prumo. Tocou-me tal prova de cuidado. Segui ávante e passei um riacho--o Dôro, a que chamam dos homens, que se une ao primeiro e corre depois ao Calae, não sei se com o mesmo nome. Duas horas depois encontrava o rio Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de fundo, em cuja margem descancei. É affluente do Calae e abunda em peixe miudo, que muito ali pescámos. Eu sentia-me bastante doente. Á febre que tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que, havia dois dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha. Aproveitei o descanço para mandar fazer um caldo de frango, que não levou sal, por se me ter acabado a pequena provisão trazida de Caconda. Depois de duas horas de repouso, seguímos sempre a N.E., e meia hora depois passàvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de largo por 1,5 de fundo, e corre ao Calae. Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2 metros, tornáram difficil a passagem dos bois. Trabalhámos ali duas horas. Duas horas depois, já ao cahir da noite, alcancei a libata do Capôco, o poderoso filho do sova do Huambo. O Capôco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para habitar, offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente mandou-me duas gallinhas. Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar. Fiz-lhe um presente de duas peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que se conhêcem pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem dos artelhos, trouxeram em cestas abundante comida aos meus prêtos. Depois de tomar alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por ver coroada de èxito a minha excursão. No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles, não só a amizade e a companhia dos meus conterraneos, mas ainda os recursos que já me faltavam completamente. Adormeci sorrindo. ¡Quam longe estava eu de pensar que adormecia na vèspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por 20 dias! No dia 14 fui a casa do pai do Capôco, o sova das terras do Huambo. A libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3 kilòmetros da do filho, e está assente na margem esquêrda do rio Calae. Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pôvo, trajava soberbamente uma casaca escarlate, cobrindo-lhe a cabêça uma barretina de caçadores. Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em 3 peças de riscado ordinario e duas garrafas de àgua-ardente, a que se mostrou muito grato. Ficou muito sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me para eu atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas balas n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um ôvo a 50 metros. Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas está hôje reduzido a dominar apenas em parte d'elle. A sua historia é curta, mas vulgar. Elle era casado com a filha do sova do Bihé, que entretinha relações amorosas com um dos seus secúlos. Tremiam os criminosos da còlera do rei se viesse a saber a sua falta. Houve rompimento entre Bilombo e um règulo vizinho, e a guerra foi declarada. Bilombo tomou o commando do seu exèrcito e partio, ficando a governar na sua ausencia o amante da sua mulhér. Conspiráram ambos e Capussocússo fêz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do paiz banhada pêlo Calae, onde o pôvo se lhe conservou fiel, e á epocha da minha passagem, me disse, estar preparando uma terrivel vingança á adùltera e ao seu amante o traidor Capussocússo. De volta a casa do Capôco, despedi os três guias, que me acompanháram desde Quingôlo, e por elles escrevi a Capello e Ivens, dizendo-lhes, que os esperava, e que não abandonassem as cargas, por ser o paiz pouco seguro. Fui de tarde dar um passeio ás margens do Calae, e sorprendeu-me a quantidade de caça que encontrei, que nunca tanta tinha visto, mas nada matei por não ir prevenido para isso. O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande bôi, presente mui valioso, por ser escaço o gado bovino n'aquelle paiz. Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando chegáram três portadores do sova de Quingôlo, com cartas d'elles, e uma cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz. Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular, assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir sós, e que pêlos 40 carregadores enviados por mim de Quingôlo, me mandavam 40 cargas, acompanhadas pêlo guia Barros, para eu as conduzir ao Bihé. Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão Africano, que então tinham os meus companheiros, podia desculpar um tal proceder. Eu achava-me n'um paiz hostil, e se até ali tinha sido respeitado, fôra só porque o gentio me julgava a vanguarda de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o receio das represalias tinha até então sostido a rapacidade dos indìgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho sertanejo, que percorrera impunemente os mais longinquos sertões Africanos, tivera de sustentar cruento combate com um gentio àvido de rapina. ¿Que seria de mim logo que se soubesse que tôda a minha força consistia em 10 homens? Encarei a minha posição e achei-a um pouco séria. Capello e Ivens tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade não lhes consentiria de certo o deixarem-me em tal posição, se elles conhêcessem bem essa posição. ¿Que fazer? Em três dias podia alcançar Caconda, e voltar d'ali a Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma jornada de vinte dias ao Bihé, jornada em que teria de arriscar cada dia e a cada hora a vida e as bagagens. ¿Que fazer? A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma agitação febril indescriptivel. ¿Devia seguir ávante? ¿Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos junto de mim? ¿Teria o direito de arriscar a minha propria vida em imprudente passo? ¿Deveria voltar a Benguella? ¿Quem comprehenderia na Europa o obstàculo quasi insuperavel que me fazia recuar? Ninguem, a não ser um ou outro explorador infeliz como eu. ¡Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o cuidado a augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de pé, e havia momentos que uma phrase estava gravada no meu pensamento e eu repetia machinalmente aquella phrase. Audaces fortuna juvat . Era a velha sentença dos fortes Romanos, era a lei que dicta as acções dos aventureiros. Decidi seguir ávante, eu que não tinha ido a Àfrica para só visitar o paiz do Nano, que, digamos a verdade, não deixa de ser muito interessante, sôbre tudo para nós os Portuguezes. Descrevi aos meus 10 homens a nossa posição precaria e a resolução tomada de caminhar para o Bihé; elles protestáram-me a sua dedicação e a intenção de sempre me acompanharem. D'esses dez homens 3, Verissimo Gonçalves, Augusto e Camutombo estivéram em Lisboa depois de terem atravessado comigo a Àfrica; 4 seguíram do Bihé Capello e Ivens, por minha ordem; 1, o prêto Cossusso, enlouqueceu, junto ao Quanza, e foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto, Domingos Chacahanga, para d'elle ter cuidado; e os dois restantes, Manuel e Catraio grande, cahiram aos meus pes varados pêlas azagaias Luinas, e cumprindo a sua promessa formulada rudemente n'este dia, morréram defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas. Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhêcia, e não tivera até então logar de experimentar o seu valor. Eu estava em casa do Capôco, que até então me tinha dispensado os maiores favores; mas Capôco era o cèlebre salteador do Nano, que chegara a ir atacar Quillengues, um anno antes. ¿O que faria elle, logo que conhêcesse a minha fraqueza? D'elle dependia o èxito da minha empresa. Capôco é homem de vinte e quatro annos, sympàthico e de maneiras agradaveis. Muitas vêzes me dizia Verissimo Gonçalves, que lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo nome era tão temido, e que tão longe dirigia as suas correrias de devastação e morte. Entre as suas escravas conhêceu Verissimo algumas raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno anterior. Uma mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de Quillengues, e Capôco pedia por ella grande resgate. Capôco é intelligente, parco no comer e beber, e ainda que possue grande nùmero de escravas, as que formam o seu harem sam mui poucas. Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas de pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capôco ¿porque não havia feito d'ella sua amante? "Porque não dêvo," me respondeu elle, "é minha escrava pêlo direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o intento de a resgatar, dêvo respeital-a e será respeitada, porque a dêvo entregar como a tomei." Um dia Capôco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado (apontava para o oeste), o sol passava primeiro pêlo Huambo antes de ir a Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber quanto tempo depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei fazer-lhe comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um homem leva a percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque julgava, me disse, ser o nosso paiz muito mais longe. Os costumes entre os pôvos do Nano e do Huambo sam os mesmos que entre os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas não enxadas, que vẽm do norte. Como já incidentalmente notei, as raparigas, em quanto virgens, usam nos artelhos de ambas as pernas ou só na esquêrda, umas manilhas de verga de pao, e é grande crime para a familia, conservar as manilhas áquellas que já não tẽm direito de as usar. Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é haver em tôdas as povoações uma especie de kiosques para conversação. Homem e Mulhér do Huambo.] Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de côlmo, sam bastante separados. No meio arde a fogueira, socia constante do gentio Africano, e em tôrno tomam assento os habitantes da povoação em toros de pao. É o sitio da palestra, sôbre tudo quando chove; ali narram-se episodios de guerra ou de caça, fala-se tambem de amor, e muito menos de vidas alheias do que na Europa. No paiz do Huambo comêça na costa de oeste o grande luxo nos penteados, tanto em homens como em mulhéres, e tenho visto alguns que difficilmente seriam executados pelos melhores cabelleireiros da Europa. Ha penteados que levam dois e três dias a fazer, e que se conservam por muitos mezes. Os penteados das mulhéres sam profusamente enfeitados com umas contas de vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral branco ou encarnado, e é este gènero muito procurado no paiz. Eu infelizmente não levava nenhum. A pòlvora, armas e o sal de cozinha sam ali gèneros de grande valia. Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse dispensar, o que tornava mais embaraçosa a minha posição. Fui falar ao Capôco e expuz-lhe que os meus companheiros tinham seguido por Gallangue, e que só viriam 50 cargas, não precisando eu por isso mais de 40 homens e esses só para irem d'ali ao Bihé. Despedímos por isso os 80 carregadores que a essa hora já estavam reunidos, e que se retiráram muito descontentes. Capôco prometeu-me que teria os 40 de que precisava até ao Bihé. N'esse dia chegou o prêto Barros com as 40 cargas, e trouxe-me nôva carta dos meus companheiros, confirmando o que diziam as primeiras. Por elle sube que elles tinham saïdo de Caconda para o Bihé; acompanhados pêlo ex-chefe, Alferes Castro, e pêlo degradado Domingos, que me tinham mostrado a impossibilidade de obter gente em Caconda, e que a obtivéram no dia em que eu sahi d'aquelle ponto. A elles, talvez, devia eu a crìtica posição em que me achava, porque os meus companheiros, pouco conhêcedores d'Àfrica, e nada d'aquelle paiz, não podiam julgar das difficuldades que me creavam, ao passo que aquelles dois senhores, de sobra as conheciam. Não os accuso de um crime, mas culpo-os de uma leviandade. Não lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez depois de se passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos perigos a que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me tinha prendido com garras de ferro a doença, proveniente de 20 dias de cruel agonia, a que elles déram causa; vi-os entrar, famintos e sem recursos, na casa de Silva Porto, que eu occupava no Bihé; e esquècendo tudo o mal que me haviam feito; e não me lembrando de que um estava privado dos direitos de cidadão por uma sentença infamante; reparti com elles o pouco de vìveres que eu tinha, dando-lhes os meios de voltarem com relativa commodidade a Caconda. É que eu vi n'elles, não só dois brancos, dois Portuguezes, perdidos no já longinquo sertão do Bihé, mas vi mais os homens que me fizéram ter de mim uma opinião de que me sentia orgulhoso, os homens que em 20 dias de agonia que me déram, em mil perigos a que me lançáram, com que me fizéram lutar e que eu venci, me retemperáram a alma para commettimentos maiores. A elles devia a confiança que tinha em Deos e em mim mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava pagar uma dìvida de gratidão, onde outros, succumbindo ao soffrimento, só veriam, talvez, um motivo de vingança. Não antecipemos factos. Capôco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens que queria, mas só até ao Sambo, porque elles se recusavam a ir mais àlém; por estarem despeitados pêla despedida dos 80 que se haviam reunido para ir a Caconda e ao Bihé, e que eu tinha dispensado. Àlém d'isso, elles exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia contratado por 10 pannos de Caconda ao Bihé, e estes exigiam só do Huambo ao Sambo 8 pannos. Acertei tudo, para poder partir. No dia seguinte de manhã, reuníram-se os 40 homens; mas de repente surgio uma nôva difficuldade. Quando em Caconda fomos enganados pêlo Bandeira, o Ivens tinha tirado a tôdos os fardos sortidos o algodão branco; porque os prêtos que esperàvamos do Bandeira não queriam pagamento em outro gènero. Esquèceu esta circunstancia, e eu, levando dois fardos sortidos, não levava nem uma só peça de algodão branco. A gente do Capôco declarou-me logo, que não queriam receber senão algodão branco, e não pegariam nas cargas se eu lho não désse. Recusáram-se a receber o riscado, e já se iam, quando appareceu o Capôco, e não sem custo os decidio a receberem metade em riscado, metade em zuarte. Havia grande descontentamento entre elles quando ás 10 horas os fiz seguir acompanhados pêlo guia Barros. Eu devia partir dentro de uma hora; mas fui atacado de tão violento accesso de febre, que tive de deitar-me. Desde a vèspera chovia torrencialmente, e sôbre tudo a noite foi tempestuosa. A febre comêçou a declinar ás 4 horas da tarde, e a chuva cessou. Pêlas 5 horas, precisei sahir da libata e fui a um mato pròximo, os meus passos eram vacilantes e apoiava-me pesadamente no meu bordão. Precavido sempre, disse ao meu prêto pequeno Pépéca, que me acompanhasse e trouxesse uma das minhas carabinas. Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme bùfalo a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente. Tomei das mãos do pequeno a espingarda, e qual não é o meu desespêro, vendo que, em logar de carabina, elle tinha trazido uma simples arma de caça, carregada de chumbo! Senti-me perdido e vi a morte inevitavel, terrivel caminhando para mim n'aquella fera, que mugia surdamente. Lembrei-me de Deos, de minha mulhér e de minha filha. A fera avançava aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam para o ataque. A 8 passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de chumbo, elle parou meio segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o outro tiro não havia mais distancia entre a bôca da espingarda e a cabêça do bùfalo do que alguns decìmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O bùfalo seguio sempre, passando a tomar uma carreira vertiginosa, e desappareceu no mato. O meu Pépéca ria a bandeiras despregadas, e inconsciente do perigo, batia as palmas gritando, "O bôi fugio, o bôi fugio, têve mêdo de nós." Voltei a casa do Capôco; e passei a noite mais socegado. Quiz escrever, e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma velha caixa de sardinhas de Nantes. Era a 21 de Fevereiro de manhã. Despedi-me do Capôco, e febril ainda, segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi un bilhete. Era elle do guia Barros, dizendo-me, que na vèspera á noite, os carregadores tinham fugido tôdos, deixando as cargas na libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova Bilombo. Parei, e mandei chamar o Capôco. Contei-lhe o occorrido, e elle disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar. Segui ávante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S. para o Cunene, tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta corrente. As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de gramìneas, por entre as quaes surge aqui e àlém um solitario dragoeiro. O solo é de formação animal, que tudo o terreno é coberto por um mundo infinito de termites, ou antes o cobre. Uma ponte, construida toscamente de troncos de àrvore, une as duas margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um affluente importante, o Cuçuce, que traz volume d'àgua igual ao seu. Caminhei a E.N.E., e pêlas 10 horas passei junto á libata do secúlo Chacaquimbamba, em cuja frente havia grande ajuntamento de gentio. Passei sem nada me dizerem; mas tinha andado uns 50 metros, quando senti um grande barulho do lado da libata. N'esse momento Verissimo correu a mim e disse-me, que havia questão com um carregador nosso. Voltei a traz e vi o prêto Jamba, carregador da minha mala, a quem tinham tirado a espingarda, o que conseguíram facilmente, porque elle a largou com receio de deixar cair a mala, que continha os chronòmetros e outros instrumentos delicados. Àlém da arma, elles tinham mettido para a libata uma cabra e um carneiro, que me tinham sido dados pêlo Capôco. Intimei-os a que me entregassem o roubo; mas apenas me respondéram com um murmurio ameaçador. Calculei ràpidamente as circunstancias, e vi-me com 10 homens, cercado por 200 que me ameaçavam furiosos. Esquèci por um momento tôda a prudencia e bom senso, e quiz experimentar o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de ser meus socios em perigos maiores, e caminhando para a porta da libata, armei o revólver e ordenei-lhes que entrassem e me trouxessem o roubo. O meu prêto de Benguella, Manuel, um môço de que eu nunca fizera caso, soffreu uma transformação sùbita, e armando a carabina, de um salto entrou na libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e Catraio grande. Os outros seguíram, e eu, estudando os meus homens, esquèci-me de mim, e podia ter sido vìctima do furor da populaça que me cercava; mas a nossa audacia espantou-os, e recuáram, vendo sahir da libata Verissimo com a cabra, o Augusto com o carneiro, e os outros de carabina prompta cobrindo-lhes a retirada. A arma, mais facil de esconder do que os animaes, não foi encontrada, mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a primeira; que o successo desta tinha autorizado. Os meus prêtos, animados pêla indecisão dos gentios, só proferiam palavras de morte, e custou-me a contel-os para que não fizessem fogo sôbre os indìgenas. Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos satisfação plena. Eu dizia isto fiado no Capôco, em quem já confiava um pouco. Seguímos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio Põe, affluente do Caláe, que tem 5 metros de largo por 1 de fundo, cujo leito lodoso e molle dá difficil passagem. Ás 3 horas chegava á libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova do Huambo, onde estavam as cargas abandonadas e o prêto Barros. O Quimbungo recebeu-me muito bem, e disse-me que me daria carregadores até ao Sambo, e sabendo do occorrido de manhã, pedio-me que não fizesse mal ao secúlo Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena satisfação do insulto. Pêlas 6 horas, chegou ali o Capôco, trazendo alguns carregadores dos que tinham fugido, e as fazendas apprehendidas aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia feito adiantados. Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a arma roubada, e poria á minha disposição o chefe da povoação para eu o castigar. Que não receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle mesmo, ou o tio, me acompanhariam até ao Sambo. Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel. No dia seguinte reuníram-se mais carregadores; mas não ainda os sufficientes. Capôco tinha partido logo de madrugada para casa do Chacaquimbamba, e ao meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle secúlo, a quem perdoei a offensa da vèspera. O delinquente deu-me mil satisfações, e melhor do que as satisfações, dois magnìficos carneiros. Capôco, esse homem selvagem e ferôz, que é o terror do Nano, esse homem que eu consegui dominar completamente e que tantos serviços me prestou, despede-se de mim e volta á sua libata, recommendando-me instantemente ao tio. De tarde desencadeou-se sôbre nós uma horrivel tempestade, e á chuva torrencial misturava-se o raio e o trovão da tormenta perpendicular. Recresceu-me a febre. Durante a noite nôva tormenta; mas com chuva moderada. O secúlo Quimbungo, logo de manhã cêdo, me veio dizer estarem promptos os carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado. Recusei positivamente, porque, àlém da experiencia adquirida com o mao resultado dos pagamentos adiantados, foi consêlho do Capôco, nunca fazer taes pagamentos. Os homens recusáram-se a seguir e fôram-se. Quimbungo reune a gente da sua povoação, e ordena-lhe que sigam comigo; elles obedecêram, mas sam mui poucos e reunidos aos que me trouxe o Capôco, deixam ainda 27 cargas, que eu entrego ao Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me ámanhã para o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente. Parti ás 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio Canhungamua, de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao Sul vai unir as suas àguas ás do Cunene. Uma ponte de troncos de àrvore, de construcção nôva, deu-me facil passagem e á comitiva, que na margem esquêrda do rio se recusou a ir mais longe n'aquelle dia, sendo-me preciso empregar a maior energia para os fazer seguir até as 3 horas, hora a que acampei n'uma espêssa floresta de acacias. O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular tratamento que eu lhe podia fazer. Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial. Levanto campo no dia seguinte ás 6 horas, e duas horas depois, passava o Cunene, em ponte construida, como tôdas n'esta parte d'Àfrica, de troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de largo por 2 de fundo, e corre ao Sul. As margens sam levemente accidentadas, cobertas de gramìneas, e pouco arborizadas. Duas fileiras de àrvores, mui semelhantes aos salgueiros da Europa, desenham duas linhas tortuosas, por entre as quaes o rio se deslisa com veloz corrente em leito de areia branca e fina. Descancei um pouco, depois de ter feito as observações precisas para determinar a altitude, e segui ao meio dia, alcançando, pêlas 2 horas, a libata do sova Dumbo, no paiz do Sambo. Este sovêta é vassallo do sova do Sambo, é homem rico e tem muita gente nas povoações que governa. Recebeu-me muito bem, e quiz que me hospedasse na libata, o que aceitei. Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter eu chegado em má occasião, por ter muita gente fôra em guerra. Paguei e despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei certo de seguir no dia immediato. Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um secúlo rico, que mora na margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o sovêta de quem era amigo. Este Cassoma, com quem não sympathizei, veio fazer-me mil protestos de amizade, offerecendo-se para me acompanhar ao Bihé. De tarde mandei ao sovêta 3 garafas de àgua-ardente, e fiz lembrar-lhe que me não faltassem os carregadores na manhã seguinte. Ao contrario dos usos da hospitalidade do gentio n'estas paragens, o sovêta nada me mandou para comer, e eu e os meus tivémos fome, porque ninguem nos vendeu farinha. Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e estômago vazio, me ia deitar, senti bater á porta e logo entrarem o sovêta Dumbo, o tal Cassoma e um secúlo chamado Palanca, amigo e principal conselheiro do sovêta, e cinco das mulhéres d'este ùltimo. Conversámos um pouco sôbre a minha viagem; mas de repente o Cassoma, interrompendo a conversa, disse ao sovêta, "Nós não viémos aqui para conversar, queremos àgua-ardente, e diga a esse branco que nol-a dê já." O sovêta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que lhe desse àgua-ardente a elles e ás mulhéres. Eu respondi-lhe que já lhe tinha dado três garrafas, que elle nada me tinha offerecido, que era esta a primeira hospedagem que eu recebia de um chefe em que me deitava com fome, e por isso não lhe daria nem mais uma gota de àgua-ardente. O Cassoma meteu-se logo na questão, animando o sovêta contra mim, e entre nós comêçou uma controversia que durou mais de uma hora, em que eu fiz prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por fim elles concluiram dizendo-me, que pois eu lh'a não queria dar por bem, m'a iam tirar á fôrça. Eu então, perdendo a paciencia, empurrei com o pé o barril, e armando o revólver, perguntei-lhes qual era o primeiro que bebia. Elles vaciláram um momento, mas o Cassoma disse ao sovêta: "Tu es rei, vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o envolvia, entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o branco m'o não furte," e caminhou ao barril. Eu levantei o revólver á altura da cabêça do sovêta e fiz fogo; mas Verissimo Gonçalves, que estava junto a mim, empurrou-me o braço e a bala, desviando-se da pontaria, foi cravar-se na parêde. Os três nêgros, transidos de mêdo, recuáram até á parêde, e as 5 mulhéres fizéram um berreiro horrivel. Eu ouvi então junto á porta uma estrepitosa gargalhada que me chamou a attenção, e devisei na sombra dois homens encostados ás carabinas, que riam como riem prêtos. Eram os meus Augusto e Manuel, que se tinham aproximado, ao ouvirem a discussão, e que, acompanhados dos outros 8 homens, guardavam a porta. O Verissimo disse então ao sovêta e aos seus companheiros, que se fôssem deitar, e não me dissessem mais nada, porque, se eu me zangasse outra vez, elle não lhes poderia salvar a vida como ha pouco. Elles tomáram o prudente consêlho, e retiráram-se, ficando tudo em silencio. Sem o empurrão que me deu o Verissimo, eu teria môrto um homem, e na situação em que nos achàvamos, estarìamos completamente perdidos. Foi elle que salvou tudo. Com a excitação que me produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem fôrças nas pelles que estendidas no chão me serviam de leito. Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e disséram-me, que dormisse descançado, que elles velariam por mim. Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em três occasiões differentes: 1^o com o bùfalo no Huambo, 2^o na libata do Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite. Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia lá fora. Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo. ¿O que succederia de manhã? Eu estava só com 10 homens, dentro de uma povoação fortificada, d'onde não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as portas ¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto com o règulo? Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora. Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir, e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo. Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfações do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado fôra o Cassoma, que elle já tinha posto fôra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi depois. Mulhér do Sambo.] Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente não eram só carregadores, que no grupo devisei 6 raparigas, ainda de manilhas nos artêlhos; tal cuidado poz elle em servir-me, que, para não me demorar, mandando ir homens das povoações distantes, me deu os que na sua tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o nùmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal prova de cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo presente digno, de offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse um homem da sua confiança recebel-a no Bihé, mostrando-lhe desejos de que esse homem fôsse o secúlo Palanca seu conselheiro ìntimo. Exultei de alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovêta Dumbo entregava nas minhas mãos um preciôso refem, que me responderia já pêla minha segurança, já pêla das cargas que deixei dois dias antes entregues ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo. Deixei a povoação ás 11 horas, á frente da estranha comitiva, formada dos meus dez bravos de Benguella, dez salteadores do Sambo, e seis virgens escravas do sovêta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar d'isso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoação onde passei tão horrivel noite. Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoação de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre. Não aceitei a hospitalidade offerecida pêlo chefe da povoação, porque, depois do que se passou na vèspera, recordei-me de um bom consêlho que me deu Stanley, e protestei não mais em Àfrica pernoitar em casa de gentio. O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.] Viéram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e batatas magnìficas, em nada inferiores ás da Europa. A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito doente. Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas àguas iam a um ribeiro affluente do Cubango, sam as àguas que este ùltimo rio recebe mais de Oeste. Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5 da manhã, hora em que parou. Ha grande abundancia de òptimo tabaco n'este paiz, onde me vendêram muito e baratissimo. Ali poucos prêtos fumam, mas tôdos cheiram tabaco em pó, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de fumo, e reduzindo-o a pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um pao, especie de mão-de-almofariz, que a elle anda prêso com uma correa fina. Parti as 7_h. 40_m. a N.E., atravessando uma região muito cultivada e muito povoada. Ás 8_h. 30_m. passei junto da grande povoação de Vaneno, e ás 10 parei para descançar junto da aldea de Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia sempre a N.E., ás 11 passei junto da povoação de Chacapombo, muito populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de tôdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o valor do porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaças de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois fui acampar no mato pròximo da povoação do Gongo. Esta ùltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa, porque choveu muito, e o vento S.O. era rijo e frio. Pêla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoação me ficava uns 15 kilòmetros a N.O., mandando-me pedir alguma cousa, e dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado á porta do sova, elle me daria um bôi. Agradeci a bôa intenção, e resolvi dar-lhe no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o despedisse sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria facil porque já o tinham querido fazer, e foi preciso tôda eloquencia do Verissimo para os convencer a seguirem ávante. O secúlo Capuço, chefe da povoação pròxima, mandou-me comprimentar por três das suas mulhéres (tôdas feias), e por ellas um presente de uma gallinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis côvados de riscado e dei algumas missangas ás mulhéres. Junto á noite viéram algumas mulhéres vender farinha, milho e mandioca. Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha é enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de oleo de ricino, que ellas prodigalizam na sua toilette . Os homens do sovêta Dumbo eram verdadeiramente insobordinados, querelavam-se com a gente de Benguella, e durante a noite só houve tranquillidade na barraca onde dormiam as seis virgens nêgras, as minhas gentís carregadoras. A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o secúlo Capuço, veio agradecer os 6 côvados de riscado que lhe dei, e em logar das três mulhéres feias que me enviou na vèspera, trouxe-me um lindo porco e uma gorda gallinha. O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e que foi muito insignificante, sendo como era em trôco da intenção de me dar um bôi, se eu passasse junto da libata d'elle. Segui pêlas 8 horas, e ás 9 passei junto das povoações de Chacáhônha, primeiras da raça (Ganguela) na Àfrica de Oeste. Passei o riacho Bomba, cuja margem esquêrda segui por dois kilòmetros, quando os carregadores pousáram as cargas, recusando seguir ávante, e pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois kilòmetros do Cubango, e querendo passar o rio, instei com elles a que andassem mais aquelle curto espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes daria os seus pagamentos e os despediria. Recusáram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito offendido na sua libata, pêlo sovêta Dumbo, e por isso não iam para diante, sendo certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fôra do seu paiz, me vingaria n'elles das offensas recebidas. Fôram baldados os meus esfôrços e tudo foi eloquencia perdida. Recusei-me a pagar-lhes se elles não passassem o Cubango; responderão-me que se retiravam sem pagamento, e logo chamáram as seis raparigas e ordenáram-lhes que os seguissem. Eu estava no desespero; ali perto era a povoação do Cassoma, e eu vi ser aquillo plano combinado de antemão para me entregarem a elle, que me havia precedido no caminho. As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se com que ôlhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me. Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa carabina atravessada sôbre os joêlhos. Era o secúlo Palanca, que eu havia esquècido. Saltar sôbre elle e derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de pés e mãos, e dei ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acacia que se estendia sôbre as nossas cabêças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida, elle, transido de mêdo, gritou-me, "Não me mates, os carregadores vam passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fêz reunir os carregadores já dispersos. Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles obedecêram. Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometti-lhe um tiro na cabêça á menor excitação dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango n'uma bem construida ponte, e acampava na margem esquêrda junto das povoações de Chindonga. Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.] Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio extrae abundante minerio. Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo e Sambo, de que guardarei eterna memoria. O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de fundo. Fiz observações para determinar a posição e altitude, e logo corri á barraca, que uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sôbre nós copiosa chuva. Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois côvados de riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste. Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as mulhéres tinham obrigação de trabalhar e não mereciam paga. Ellas retiráram-se tristes; mas achando natural o meu modo de proceder, tão aviltada é a mulhér n'aquelles paizes. Quando já se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo, mandei-as chamar e dei 4 côvados do mais brilhante zuarte pintado que possuia a cada uma, e algums fios de missangas differentes. É impossivel descrever o contentamento d'aquellas desgraçadas ao receberem tão valiosa paga. Os homens roiam-se de inveja, e eu convenci-os de que, se não tivessem querido voltar para casa na outra margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo. Foi a minha vingança, e ao mesmo tempo proveitosa lição. O Secúlo que me deu um Porco.] N'essa noite veio procurar-me um secúlo da povoação de Chindonga, que me trouxe de presente um porco. Este secúlo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a um côvado de riscado por dia, dizendo-me, que elles só iriam até ao paiz de Caquingue, onde eu facilmente obteria gente para o Bihé. A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas completamente molhado havia três dias, eu sentia já os primeiros symptomas do terrivel ataque de rhèumatismo que depois ia compromettendo a minha viagem. A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso. O secúlo veio logo de manhã com os carregadores; mas eu tinha resolvido descançar ali um dia, e por isso convoquei-os para o dia seguinte. Disse-me elle, que os meus companheiros tinham passado na vèspera, vindos do Sul. O secúlo Palanca, do Sambo, continúa bem vigiado, mas livre. Eu na vèspera tinha mandado dizer ao sovêta Dumbo, que a cabêça do seu amigo me respondia pêlas cargas que vinham escoltadas pêlo prêto Barros, resolução que Palanca achou muito justa e natural, por ser lei do paiz. Talvez o meu procedimento, que eu confesso francamente, me seja censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um pouco na posição de algum, acompanhado só de dez homens, n'um paiz em que tudo lhe é hostil, desde o clima até ao homem. Se eu não professo o principio de que os fins justificam os meios, não sou tambem bastante virtuoso para apresentar uma face á mão que me esbofeteou a outra. Longe das vistas do mundo civilisado, fôra d'esses dois cìrculos de ferro que apertam a humanidade culta, a que chamam o còdigo penal e as conveniencias sociaes, cìrculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e á infamia; o explorador d'Àfrica, perdido no meio de pôvos ignaros, cujos còdigos differem essencialmente dos nossos; tendo por ùnica testemunha dos seus actos a Deos, por ùnico censor das suas obras a sua consciencia, precisa ter uma fôrça sublime para se conservar honrado e digno, quando muitas vêzes as paixões travam no seu ìntimo uma luta infrene. Por mim o digo, que tôdas as ovações que me tem dispensado o mundo civilisado, pêla felicidade que tive de vencer os obstàculos materiaes no meu caminho, seriam talvez mais justamente applicadas, se se soubesse quantas lutas, e que terriveis lutas sustentei para me vencer a mim mesmo. Vencer as suas paixões indòmitas, vencer os seus hàbitos materiaes e moraes da vida civilisada, sam os dois grandes trabalhos do explorador. Aquelle que o conseguiu, attingirá o seu fim, cumprirá a sua missão. Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo. Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de que sahi sempre vencedor. O meu genio indòmito têve de ceder á vontade inquebrantavel, e na falta de tempo para escrever um còdigo, tomei um que accommodei ao meu uso. Os meus principios fôram os do direito natural; a minha lei, curta mas òptima, resumiu-se nos dez preceitos do Decàlogo. Não se julgue que quero fazer jus á canonização, nem mesmo que pretendo ter seguido á risca os preceitos gravados no vigèsimo capìtulo do livro sublime do Èxodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas fiz o que pude para não me afastar muito d'elles, e fiz bem. Esta divagação fica aqui, não como narrativa de àguas passadas, mas como consêlho a exploradores futuros, que não sejam missionarios, que a esses Deos me defenda de falar em materia da sua competencia. É verdade que eu encontrei alguns em Àfrica que me fizéram lembrar o velho rifão, "Em casa de ferreiro, espeto de pao." Passemos adiante. Durante o dia, viéram muitas prêtas vender alimentos, e entre outras cousas vulgares, trouxéram uma mui extraordinaria. Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes ás do Acherontia Atropos , e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidòptero no seu primeiro estado vive nas gramìneas, e é facil ali colher grande provisão. Os Ganguelas sam àvidos de tal manjar, que os meus prêtos recusáram. Mulhéres Ganguelas das margens do Cubango.] No dia seguinte logo de manhã, viéram offerecer-se muitos mais carregadores, que recusei, por me serem inuteis. Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da sahida quebrei os meus òculos, que usava desde Lisboa. Andei a N.E., e cinco horas depois, acampava na margem esquêrda do rio Cutato das Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sôbre uma pequena cataracta. No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente do Cutato. O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e depois pêlo Leste para o Sul. Este S gigantesco é uma serie de ràpidos, em que o rio se precipita com fragor enorme, pôr sôbre as rochas de granito que formam o seu leito. Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.] No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante e jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto. [Figura 11--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação.] A margem direita é occupada pêlas plantações da povoação de Moma, que occupam um espaço que avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as maiores que tenho visto em Àfrica. A cultura entre estes pôvos consiste principalmente em milho, feijão e batata, mas o que mais se vê sam campos de milho. Antes de chegar ás plantações, atravessei uma floresta de acacias enormes, de sorprendente belleza. O aspecto das margens do Cutato é muito original. Onde termina o granito do leito do rio comêça um solo de formação termìtica, e o terreno coberto de milhares de montìculos, uns cultivados, outros cobertos de vegetação silvestre, tôdos ligados, formando como que systemas de montanhas, ferem a vista, admirada ao contemplar um tão estranho systema orogràphico artificial. Marquei a grande povoação de Moma, três kilòmetros a O.S.O., e depois de ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me, molhado da incessante chuva, e atacado de nôvo accesso de febre. Os ameaços de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta època do anno, as gramìneas de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta é difficil, senão impossivel, vedar a àgua em uma barraca. A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144 pulsações. Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bôi; mas, depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar. Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores Ganguelas dispensavam-me os maiores cuidados. O logar em que acampei foi junto de umas povoações a que chamam Lamupas, por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz tẽm o nome de Mupas . É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pôvos grandes cultivadores. Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam cobertas de barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam cobertas por um alpendre de côlmo, e sam sempre debaixo de uma àrvore grande. Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos pêlos parentes do defunto, como nós depomos nos tùmulos das pessôas queridas, as saudades e as perpètuas. De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio. A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas comêçavam a fazer-se sentir atrozmente. Segui ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu campo, passei junto da grande povoação de Cassequera. Logo que passei um pequeno riacho que fica para àlém da povoação, deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramìneas, que me prenderam a attenção pêlo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma èpocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse desenvolvimento. Sepultura de Secúlo.] O meu muleque Pépéca foi atacado de tão violento e repentino accesso de febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar contratar um homem, na povoação de Cassequera, para o levar ás costas. Ao meio dia, passei junto da libata do Capitão do Quingue, primeira povoação do paiz de Caquingue. Fui hospedar-me em casa de João Albino, mestiço de Benguella, filho do antigo sertanejo Portuguez Luiz Albino, môrto por um bùfalo nos sertões do Zambeze. João Albino mora na libata de Camenha, filho do Capitão do Quingue. Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das fôrças do sova de Caquingue, que ia fazer a guerra a uns sovêtas do Cubango. O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo continuava a ameaçar-me. A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens. Fui visitar o velho capitão do Quingue, a quem levei de presente uma peça de lenços. Elle deu-me um bôi, que mandei logo matar, porque há muito que tìnhamos só carne de porco para comer. O capitão era muito velho e doente. Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha viagem, e não comprehendeu o que eu andava fazendo. Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu és secúlo de Moeneputo, e elle mandou-te ver estas terras e estudar os caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que não sam bôas, e o Moeneputo hade querer pôr termo a isso; peço-te, que quando isso aconteça, te lembres de que eu te dei um bôi, e te tratei como meu irmão; eu pouco viverei, mas então lembra-te de meus filhos, e não lhes faças mal." Comovéram-me estas palavras do ancião. Os seus secúlos viéram acompanhar-me respeitosamente até á libata do filho onde estava hospedado, e poucos deixáram, no correr do dia, de me trazer pequenos presentes, já gallinhas, já ôvos e já canna de assucar. Na libata do capitão vi uma pequena plantação de cana de assucar, tão viçosa como não vi no litoral, e em que esta enorme gramìnea tinha um desenvolvimento descommunal. Notei esta circunstancia, por ter julgado até então, que a uma tão grande altitude, cerca de 1700 metros, não vegetaria tal planta. De volta á libata, encontrei ali Francisco Gonçalves ( o Carique ), irmão do Verissimo, que, sabendo da minha chegada, vinha visitar-me. Este Carique , filho do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, é comtudo filho de outra mãe, e a elle pertence por herança materna o throno de Caquingue. Vive junto do sova, seu tio, e é casado com uma filha do futuro sova do Bihé. Foi educado em Benguella, e possue alguma instrucção e bastante intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns prêtos que fôram escravos de seu pai, e que logo se offerecéram para me acompanharem na viagem do Bihé para Leste. Assim, pois, já antes de chegar ao Bihé, arranjei alguns carregadores. Carique, Albino, o filho do Capitão, e outros que fazem commercio sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e Sulatebelle, descendo o Cubango até ao Ngami, sempre pêla margem direita, e vam tambem negociar ao Cuanhama, paiz a leste do Humbe, na margem esquêrda do Cunene. O artigo principal do tràfico é o escravo, que em caminho trôcam por bôis, e estes e fazendas, por cêra e marfim. Resolvi demorar-me ali um dia, não só para descançar e enxugar, mas tambem para me informar sôbre este paiz, cujos usos já differem muito dos dos povos que tinha encontrado até ali. De tarde, o Carique e João Albino déram-me largas informações sôbre o paiz, das quaes transcrevo do meu diario as mais curiosas. O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bihé, a oeste com o paiz de Moma, a leste e ao sul com pôvos confederados de raça Ganguela. A raça Ganguela occupa n'esta parte d'Àfrica um vasto territorio, e está dividida em 4 grandes grupos, os quaes soffrem ainda subdivisões. A lìngua e usos sam os mesmos; mas a sua organização polìtica differente. No paiz de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam constituidos em reino, tendo um ùnico chefe. Nas suas outras divisões formam confederações, muito vulgares em Àfrica, sendo cada povoação governada por um chefe independente. Os que demoram a S.E. de Caquingue chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles que vivem a leste do Bihé, Bundas. D'estes ùltimos terei de falar detidamente no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de Caquingue, sam cultivadores e negociantes, e sam, de tôdos os pôvos da Àfrica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos, em commettimentos de exploração commercial. No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre elles e outros pôvos activas relações de commercio. Não tem a menor idéia de uma religião qualquer, e vivem com os seus feitiços, não pensando na existencia de um Ente Supremo que tudo dirija. Ferreiros Caquingues.] Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de ferro, que sam abundantes no paiz. Para extracção do minerio cavam poços circulares de três a quatro metros de diàmetro, que não profundam mais de dois metros; de certo por lhe escacearem os meios de elevarem com facilidade o minerio a maior altura. [Figura. 14.--1. Folles. 2. Bocal de Barro. 3. Bigorna. 4. Martello.] Visitei muitos d'esses poços junto ao Cubango. Extraido que é o minerio que elles julgam sufficiente para o trabalho d'aquelle anno, comêça a separação do ferro, que elles fazem em côvas pouco profundas, misturando o minerio com carvão vegetal, e elevando a temperatura por meio dos seus instrumentos de insuflação, que consistem em dois cylindros de pao, cavados de 10 centìmetros, com 30 de diàmetro, e recobertos por duas pêlles de cabra curtidas, ás quaes estam ligados dois paos, de 50 centìmetros de comprido por 1 de diàmetro. É por meio d'estes paos que um ràpido movimento dado ás pêlles produz a corrente de ar, que é dirigida sôbre o carvão por dois tubos de pao ligados aos cylindros, e terminados por um bocal de barro. Depois comêça um incessante trabalhar, noite e dia, até que tudo o metal é transformado em enxadas, machados, machadinhas de guerra, ferros de frecha, azagaias, pregos, facas e balas para as armas, e até mesmo fuzis para ellas, de ferro temperado com unha de bôi e sal. Vi muitos d'esses fuzis darem fogo tambem como os do melhor aço fundido. Durante tudo o tempo que duram os trabalhos é expressamente prohibido a qualquer mulhér aproximar-se do campo dos ferreiros, porque dizem elles que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi estabelecido para que os homens se não distraiam do trabalho, em que empregam, como já disse, noite e dia. [Figura. 15.--Objectos fabricados pêlo gentio entre a Costa e o Bihé. 1. Machado de Trabalho. 2. Ferro de Frecha para a Guerra. 3. Frechas. 4. Ferro de Frecha para Caçar. 5. Pé das Frechas. 6. Machado de Guerra. 7. Enxada. 8. Azagaias.] Findo que é o metal e transformado em obra, voltam os ferreiros a suas casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida depois de terem reservado o necessario para seu uso. Tôdos estes pôvos não admittem causas naturaes de doença ou de morte. Sempre que adoece ou morre alguem, ou fôram as almas do outro mundo (uma certa é designada) que produzio o mal, ou então foi algum vivo que fêz feitiço ao doente ou ao môrto. Logo que morre alguem, se os parentes não estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e no entanto penduram o cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da porta da povoação, e esperam que elles venham para fazer o enterro. Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se immediatamente á devinhação para saber a causa da morte. Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens nas extremidades, levam o côrpo ao logar destinado ás adevinhações, onde o espera o adevinho e o pôvo formado em duas alas. O adevinho tomando na mão direita um coral branco, comêça a adevinhação. Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o môrto, que o pôvo acredita que mexeu sem intervenção estranha, o adevinho declara que foi a alma de fulano ou de fulana que o matou, ou então que foi feitiço dado por alguem que elle designa. No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma côva no mato, em qualquer logar indistinctamente, e lançando n'ella o cadaver que cobrem de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a pessôa designada pêlo adevinho como feiticeiro é agarrada, e, ou paga ao mais pròximo parente a vida do môrto, ou lhe cortam ali a cabêça, indo dar parte do occorrido ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle escutar o caso. Comtudo pôde dar-se o caso de um accusado negar firmemente a sua culpabilidade na morte, e então tem direito de defesa. Para isso, vai elle buscar um cirurgião que vem, na presença do pôvo proceder ás provas da innocencia ou culpabilidade do accusado. O cirurgião chega á presença dos parentes e do pôvo, e compõe uma bebida venenosa de que tomam quantidades iguaes o accusado e o mais pròximo parente do môrto. A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e é n'aquelle dos dois em que ella se manifesta com mais intensidade que recae a culpa da morte.[3] Se é no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se é no parente, tem este de indemnizar o accusado pêla accusação feita, dando-lhe logo um porco para lhe pagar o trabalho de ir buscar um cirurgião, e depois tem de lhe dar o que o accusado exigir, sejam dois bôis, dois escravos, um fardo de fazenda, etc. etc. Antes de continuar, dêvo fazer sentir uma grande differença que existe de três entidades importantes, nos pôvos da Àfrica Austral, e que muitas vêzes sam confundidas. Sam ellas o cirurgião, o adevinho e o feiticeiro. Effectivamente, estas três entidades que parecem á primeira vista ter pontos de contacto, nenhum tẽm na realidade. O cirurgião fica definido pêla palavra. É um curandeiro, tem conhecimento de um certo nùmero de plantas e raizes, que empega sempre empìricamente, bem como as ventosas sarjadas, de que faz grande uso; sendo bem certo que a sciencia de curar está muito em atrazo n'aquelles paizes. O cirurgião, que nunca faz diagnòstico da molestia, faz sempre o prognòstico. A dosagem das plantas medicamentosas é sempre empìrica, e nas suas polypharmacias entram os mais absurdos e inuteis componentes. É verdade que entre nós ainda não vai longe o uso da Triaga. O cirurgião, que é ao mesmo tempo pharmacèutico, emprega durante a preparação das suas drogas, um certo nùmero de ceremonias e de palavras sem as quaes ellas perderiam a virtude. Fazem grande segrêdo das plantas que empregam, e dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam interrogados. O cirurgião é pessôa muito importante, e muitos actos solemnes requerem a sua presença. Elle decide altas questões, porque a sua opinião prevalece á do adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgião nunca a emitte sem fazer antes um certo nùmero de remedios e ceremonias, já com plantas, já com sangue do homem ou dos irracionaes, a que chamam, fazer os curativos . O adevinho só adevinha, e mais nada. No caso de doença, o adevinho é sempre chamado para adevinhar se sam almas do outro mundo ou feitiços, e só depois d'elle, vem o cirurgião. Estes dois sujeitos entendem-se sempre. O adevinho não é só consultado em caso de doença ou morte, é ouvido em tudo e por tudo, e nada se faz sem que elle adevinhe primeiro. Para a consulta, coloca-se elle no centro de um cìrculo formado pêlo pôvo, que dêve estar sentado. Arma-se de uma cabaça e um cesto. A cabaça contem missanga grossa e milho sêco, o cesto é cheio das cousas mais disparatadas, ossos humanos, legumes sêcos, pedras, paos, caroços de frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc. Comêça por sacudir frenèticamente a cabaça, e durante a chocalhada que faz invoca os espìritos malignos , ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos objectos que vam apparecendo na parte superior, vai lendo o que se quer saber do passado, do presente, ou do futuro. Este uso encontrei eu desde a costa, mas não tão seguido como aqui. Falei em espìritos malignos , e é preciso dizer, que ali os espìritos malignos emparelham em malignidade com as almas do outro mundo ( Cassumbi ) e com os feiticeiros. Ás vezes entram no côrpo de alguem, e custa muito fazel-os sahir. Outras vêzes, fazem tropelias maiores, tomando conta de uma povoação, onde durante a noite não deixam socegar ninguem, sendo preciso que o cirurgião faça grandes curativos para os expulsar. Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle. Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia. Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o pôvo da libata, e muito da povoação do capitão, para assistirem á adevinhação. A ceremonia fêz-se com grande apparato, e elle comêçou a ler nas trapalhadas do cesto as cousas mais lisongeiras a meu respeito. Eu era o melhor dos brancos, passados, presentes e futuros; a minha viagem seria feita com grande felicidade, e felizes seriam aquelles que fossem comigo. Este vaticinio produzio o melhor effeito, e têve grande influencia no resultado da minha partida do Bihé. Já falei do cirurgião e do adevinho, e vou dizer o que é feiticeiro. Esta palavra tem uma significação que, tendo alguns pontos de contacto com a que lhe damos na Europa, não é comtudo a mesma cousa. Ali qualquer é, ou pôde ser feiticeiro, e feiticeiro é mais o envenenador do que homem que governa nos espìritos. Effectivamente, o feitiço ali é veneno, e dar feitiço a alguem, é dar veneno, que determine, ou doença, ou morte, ou loucura. Esta é a rigorosa accepção da palavra, mas ainda assim o feiticeiro pôde causar grandes prejuizos, e como tudo se atribue a feitiço , a perda de um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo provem da sua malevolencia. Não se julgue porem que se pôde designar o feiticeiro; não pôde. O feiticeiro apparece como causa do effeito, e como essa causa é logo destruida, o feiticeiro é como um meteoro que se desvanece logo depois de apparecer. Esta pràtica dá logar a terriveis vinganças, como bem se pôde suppor. Àlém d'estas três entidades, duas das quaes sam definidas e uma indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa importancia entre estes pôvos bàrbaros. É elle o homem que dá e tira a chuva. Ha um certo nùmero de indivìduos que se atribuem o poder de governar nos meteoros aquosos. Possuindo um espìrito observador, attentáram em que com taes ventos em certa èpocha do anno chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes, que sam tão vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados por homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos animaes, sôbre tudo das aves, elles que podem com certa probabilidade fazer um prognòstico do tempo, atribuem a si o poder, de dar e tirar chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar ou tirar. Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras vêzes se enganam. Estas pràticas que nos causam estranheza, eram ha dois sèculos vulgares na Europa, e ainda hôje existem entre nós no baixo pôvo dos campos. Não é preciso ir á idade media para se encontrarem os Reis consultando os seus astròlogos, e mesmo em Portugal existe um livro, impresso, com tôdas as licenças necessarias , em 1712, que o seu autor Gaspar Cardozo de Sequeira , mathemàtico da villa de Murça, intitulou Thesouro de Prudentes, livro acrescentado pêlo engenheiro Gonçalo Gomes Caldeira, que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas, aos homens cultos d'essas eras, porque o pôvo de então não sabia ler. Desculpemos pois os ignaros prêtos d'Àfrica Austral. Uma lei engraçada d'aquelle paiz, é a respeito das mulhéres que morrem de parto. Logo que uma mulhér morre de parto, o marido tem obrigação de a enterrar elle só, levando o cadaver ás costas até á sepultura, e fazendo sózinho o trabalho da inhumação. Em seguida, tem de pagar a vida d'ella aos parentes, e se não tem com que, constitue-se escravo d'elles. As sepulturas dos proletarios não tẽm signal algum que as indique, e sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato. Quando eu falar do Bihé, serei mais minucioso em certos costumes que sam communs a estes paizes, e que tive depois occasião de estudar detidamente, sôbre tudo aquelles que se referem aos sovas e aos grandes. Um costume que é privativo de Caquingue é o que elles chamam tratar as mulhéres . Logo que uma mulhér está gràvida, um sujeito pede ao marido em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo é obrigado a tratal-a , isto é, dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de toilette . Este costume vigora só entre gente rica. Logo que nasce a criança, o noivo redobra de presentes á mãe, e tem o dever de vestir a filha até á pubredade, isto é, á èpocha do casamento. Se acontece nascer um varão, a obrigação de vestir mãe e filho subsiste, e este, logo que chega a ser homem, fica para Quissongo do que o tratou . Mais adiante direi o que é um Quissongo. Este costume não é tão extraordinario como parece á primeira vista, e se em Àfrica só o encontrei no paiz de Caquingue, cá na Europa é elle vulgar, não na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos salões chama-se a isso, creio eu, casamentos de conveniencia . Amanheceu o dia 5 de Março, depois de uma noite tormentosa em que a chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as dôres rheumàticas eram mais persistentes e estendiam-se dos joelhos aos artelhos. O meu Pépéca estava melhor, e por isso resolvi partir. Receiando porem do meu rheumatismo, fui pedindo uma maca e carregadores para ella, que me fóram obsequiosamente cedidos por Francisco Gonçalves ( o Carique ). Depois de cordiaes despedidas, parti ás 10 e meia ao N., e uma hora depois, passei o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi. Tem 6 metros de largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi cavallo (Bonito) embaraçou-se em umas sarças, perdeu o ànimo, e foi ao fundo; custou muito salval-o, e só pude seguir ao meio dia. Á 1_h. e 15_m. passei o riacho Govêra, de 3 metros de largo por 50 centìmetros de fundo, e á 1 e 45 acampava a S.S.O. da povoação de Chindúa. Passei no caminho junto de duas grandes povoações, a de Cacurura, e a de Cachota. Já estava em terras que prestam obediencia ao sova do Bihé. O paiz continúa ali a ser muito povoado e cultivado. Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha febre tinha desapparecido completamente, mas as dôres rheumàticas recresciam n'uma progressão assustadora, e já ameaçavam estender-se a tudo o côrpo. Logo de madrugada, o dono da ponte sôbre o Cuchi mandou-me avisar para passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando passagem só a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e é lei, que quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali pôde passar sem terminar a passagem da gente que primeiro chegou, e constava que uma grande comitiva de gentio se dirigia para ali em sentido inverso ao meu. Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia hora depois. O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul ao Cubango. Da ponte avista-se, 2 kilòmetros ao N., a grande cataracta do Cuchi, de sorprendente belleza, cujo ruido chêga até nós. Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a E.N.E., passei o pequeno ribeiro Liapêra, que côrre ao Cuchi, e mudando de rumo para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que côrre a N.E. para o Cuqueima; indo acampar, pêlo meio dia, nas matas do Charo, a S.O. da povoação de Ungundo. Estes dois pequenos riachos, o Liapêra e o Caruci, marcam a separação das àguas para o Cubango e Cuanza. O secúlo Chaquimbaia, chefe da povoação de Ungundo, veio comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas; retribui o presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia seguinte. Durante o dia, não só em caminho encontrei muitos ranchos de gente armada que vam reunir-se ás forças do sova de Caquingue, mas ainda depois que acampei, passáram innùmeros prêtos armados que levavam o mesmo destino. Das 7 ás 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E. uma trovada longinqua; mas, ás 9 horas, formáram-se trovoadas em muitos pontos do horizonte, e pareciam tôdas convergir sobre o meu campo, que era situado em um alto. Ás 10 horas, 5 trovoadas encontravam-se em choque immenso sôbre o campo, e a mais horrivel tormenta que até então tinha presenceado se desencadeou sôbre mim. Os raios succediam-se com intervallos de três a cinco segundos, e o estalar sêco dos trovões era incessante. Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gôtas de chuva cahiam aqui e àlém. O baròmetro apenas desceu dois milimetros, e o thermòmetro conservava uma temperatura de 16 graos Cent. As agulhas magnèticas desnorteavam, e conservavam um oscillar constante. Uma bùssola circular Duchemim, chegou a voltear ràpidamente. Durou este estado de cousas até ás 11 horas, hora a que soffreu modificação mais terrivel ainda. Um vento fortissimo, um verdadeiro tufão, começou a soprar de leste, e n'um momento correu os quadrantes pêlo norte até S.O., onde se fixou com a mesma intensidade. Copiosa chuva começou a cahir então. O vento, no seu passar furioso, soprou aos ares as barracas do meu campo, e nós ficámos expostos á chuva torrencial que cahio até ás 4 horas, em que a tempestade começou a abrandar. Quem o não presenceou não avalia o que seja uma tempestade, de noite, no meio das florestas d'Àfrica Austral, quando ao rebombar dos trovões se une o grito multìsono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terriveis. A chuva apagou os fôgos do campo, o vento soprou longe os frageis abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as trevas, depois do seu ràpido fulgor. Muitas vêzes, ao estalido do raio succede outro estalar medonho. Foi a àrvore, que levou sèculos a crescer, e que n'um momento, ferida por elle, voou em rachas e baqueou no solo. ¡O espectàculo é horrivel, mas grandioso e sublime! Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos, só restavam para o lembrar, innùmeras àrvores derrubadas e um terreno encharcadissimo. ¡A mim restava mais alguma cousa! O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e estendendo-se a tôdas as articulações, tolhia-me os movimentos. Soffria muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia esforços enormes para calar na garganta os gritos arrancados pêlo soffrimento que infligia o movimento da maca. Uma hora depois, envolvi-me em um pàntano extenso, onde a àgua dava pêla cintura aos homens que me carregavam. O terreno, encharcado pêla chuva da noite, estava transformado em pàntano enorme. Alcançámos um outeiro, quando, ás 2 horas, nôva tempestade, vinda de leste, cahio sobre nós. Da maca, onde gemia dôres atrozes, animei a minha gente a seguir sempre, com intenção de alcançar as povoações de Bilanga, onde queria pernoitar. Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o Verissimo, estar eu n'aquellas povoações, na libata do Vicente; mas não tenho a menor idéia, nem do caminho andado, nem da noite velada, que me disséram os prêtos ter sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a febre e o delirio. A cabêça estava livre, mas o ataque e as dôres recrescéram, se era possivel isso. Não podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges das mãos. Verissimo e os meus prêtos dispensavam-me os maiores cuidados. Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e não dava passagem no vao; mas, sabendo que existia uma pequena canôa a jusante da cataracta, resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao rio, tratou-se de calafetar com musgo a canôa já muito velha, e que apenas podia soportar o peso de dois homens. O rio, que trazia uma enorme cheia, ia caudalosissimo. Resaltando por sôbre as rochas da cataracta, divide-se, formando uma pequena ilha, e logo depois, une as suas àguas em um só canal, largo de 100 metros. Era ali que ìamos passar. Eu fui collocado dentro da canôa com mil cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava um grito doloroso. Um habil barqueiro tomou o remo e a canôa deixou a margem. Tìnhamos de atravessar 100 metros de àgua, mas de àgua animada de violenta corrente, e encrespada por ondas furiosas produzidas pêlos baldões da cataracta. O barqueiro dirigio a canôa para a ilha, e até chegar á juncção das àguas tudo foi bem; mas ali o fragil barco preso nos enormes rodomoinhos não quiz seguir ávante, apesar da pericia do habil nêgro. Eu via a àgua, em ondas espumantes ainda do salto de ha pouco, referver em volta de mim, e comecei a comprehender o grande perigo em que estava. Tentei mover um braço e apenas consegui soltar um grito de dôr! Julguei-me perdido, porque, se a canôa afundasse, eu não poderia nadar. Sempre presa no rodopiar das àguas, não seguia ávante, e de repente começou a rodopiar ella mesma. O prêto receiou que nos afundasse-mos, e decidio saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou. Alliviada d'aquelle peso, a canôa fluctuou melhor, mas não deixou o sitio em que estava presa pêlas fôrças desencontradas da àgua. De repente um baldão entrou na barca e molhou-me. Tive um momento de verdadeira imbecilidade, e não sei o que se passou; só me lembra, que de repente me achei nadando com tudo o vigor, só com um braço, sustentando fôra d'àgua com o outro um dos chronòmetros que trazia comigo, para que não lhe chegasse a àgua. Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava ràpido os remoinhos das caudalosas àguas, o que me era facil a mim, que desde criança aprendi a lutar com os ràpidos do meu patrio Douro. Os prêtos, sempre tendentes a admirar a destreza physica, prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos. Tinham desapparecido as dôres, a febre cessou de repente, e eu sentia-me bem disposto e forte. Ao submergir-se a canôa, do meio de 100 homens que assistiam á scena, e que ficáram boquiabertos e indecisos, um arrojou-se valorosamente á àgua para me salvar. Menos perito nadador do que eu, não alcançou a margem senão depois de mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua dedicação ficou gravada no meu coração para sempre. Era o meu prêto Garanganja, que enlouqueceu depois, não tendo uma alma assás forte para sopportar as miserias que experimentámos. Quando me firmei em terra andei, sem dôres, sem febre. Despi-me immediatamente; mas não tinha roupa para mudar, porque as bagagens estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um sol abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia. Voltáram as dôres e a febre, e só sei que no outro dia, estava estendido em um leito na libata da Annunciada, morada que tinha sido do sertanejo Guilherme Gonçalves, pai do Verissimo. Cheio de dôres e ardendo em febre, mas um pouco melhor, decidi partir e ir encontrar os meus companheiros. Parti ás 11 horas, e durante uma grande parte do caminho, atravessei uma planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas àrvores feridas do raio. Vi tambem uma planta que ali abunda, e que é, ou a nossa urze das altas montanhas do norte de Portugal, ou a ella mui semelhante. Os meus ôlhos, pouco afeitos ás subtilezas das observações que demanda o estudo do reino vegetal, não sam bastante penetrantes para differençar especies, gèneros e familias, quando ellas não se differençam por si mesmo. Chêguei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) pêla uma hora, e fazendo um supremo esfôrço, fui a casa dos meus companheiros. Elles, confirmando o que me tinham escrito, disséram-me que iam continuar sós, e que me deixariam uma terça parte de fazendas e material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O Ivens offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario estado de saude, se eu quizesse voltar á Europa. Manifesto-lhe aqui a minha gratidão, por tão generosa offerta. CAPÌTULO VI. PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO. Depois de 20 dias de cruél agonia e grandes soffrimentos, estava emfim no Bihé, muito doente é verdade, mas cheio de fé e contente de mim mesmo. Logo que falei aos meus companheiros, deixei a casa de Belmonte, e fui em maca para a libata pròxima do Magalhães, onde cahi sem fôrças sôbre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma meningite declaráram-se, ao passo que redrobravam as dôres rheumàticas. No dia seguinte, fóram ver-me o Capello e Ivens, que me leváram medicamentos. Peiorei, e veio o delirio. Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em magnìfico leito, despido e entre lençoes de fina bertanha. O leito era coberto de elegante cortinado de reps côr-de-rosa e franjado de branco. Disséram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me mandara aquella cama; que as havia assim no Bihé, em Belmonte, em casa de Silva Porto. Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me tiráram os prêtos, deixara-me em um estado de fraqueza indescriptivel. As dôres tinham cedido um pouco, mas continuava a febre. De tarde, viéram os prêtos de Nôvo Redondo procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhães, Verissimo e Joaquim Guilherme José Gonçalves, irmão mais velho do Verissimo. Vinham elles dizer-me, que não queriam seguir com os meus companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam. Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a acompanhal-os. Sube então, que Capello e Ivens estavam construindo um abarracamento a 5 kilòmetros d'ali, e já lá tinham as bagagens, devendo em breve mudarem-se de Belmonte. Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga conversa. Dei-lhe tôdas as cartas de recomendação que Silva Porto me havia dado em Benguella para obter carregadores, e comprometi-me a não pedir gente ao sova Quilemo, ficando-lhe o campo completamente livre a elles. Ivens disse-me, que iam mudar para o abarracamento que tinham, e que em casa de Silva Porto me deixavam o que me pertencia na partilha. Eu mandara-lhes entregar tôdas as cargas que trouxera comigo, e as que acompanhou o prêto Barros, que já tinham chegado. O prêto Barros declarou-me, que não queria continuar a viagem, e por isso despedi-o, bem como a alguns prêtos de Benguella, que manifestáram igual intenção. Escrevi poucas linhas a Pereira de Mello, que o meu estado de saude não me permitia ser extenso. Quando, fatigado de determinar tanta cousa, eu ia embrulhar-me nos lençoes e procurar no sono um pouco de descanço, surgio diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de physionomia enèrgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia olvidado, era o secúlo Palanca, o conselheiro ìntimo do sova Dumbo do Sambo. "Já despachaste tôda a tua gente, me disse elle, uns despediste-os, outros ficaste com elles, ¿o que determinas de mim, e qual é a minha sorte?" "Tu vais voltar a tua casa, lhe respondi, levarás ao Dumbo a espingarda que lhe prometti, e alguma pòlvora, e para ti terei alguma cousa tambem. Dêvo-te uma indemnização por aquella corda que tiveste ao pescôço pròximo do Cubango, e pêlos sulcos que te fizéram nos pulsos as cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas órdens n'esse sentido. Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o tinha sido diante da prisão e da morte, retirou-se, e deixou logo o Bihé. Dois homens seguíram-se no meu quarto á sahida do secúlo do Sambo. Estava escrito que eu não descançasse no primeiro dia das minhas melhoras. Estes dois prêtos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de confiança de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella. Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicação, muitas vêzes repetidos, consegui ficar só. Só, não! Junto de mim estava a ùnica, a grande dedicação que tive na minha viagem a travez d'Àfrica. Córa, a minha cabrinha, em pé, com as patas pousadas sôbre o leito, berrando e lambendo-me as mãos, pedia-me uma caricia, que eu não lhe fazia ha muito. No dia seguinte, os meus companheiros avisáram-me de que deixavam a casa de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali. Encontrei 7 cargas de fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com instrumentos, e três carabinas Snider, que elles me haviam deixado. A libata de Silva Porto, ou povoação de Belmonte, está situada sôbre a parte mais elevada de um outeiro, cuja vertente norte desce suavemente até ao leito do rio Cuito, que corre a leste para o Cuqueima. A posição da libata é muito bonita, e forte como ponto estratègico. Casa de Belmonte (Bihé).] Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e flôr, o que não acontece a outras algumas no Bihé. O laranjal é cercado de uma sebe de roseiras, que attingem uma altura de tres metros, e estam sempre floridas. Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé.] Sycòmoros enormes assombram as ruas e rodeam a povoação, defendida por uma forte palissada de madeira. Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha posição, e elaborando projectos mais ou menos sensatos! Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dôres, que, queimado da febre, concebí, e organizei na minha mente o plano que havia realizar depois. Se de alguma cousa me orgulheço na minha viagem, é d'esse tempo. Mais tarde joguei muitas vêzes a vida, fui de certo mais de uma vez temerario, mas era obrigado a isso para me salvar. Ali não! Estava doente, quasi anèmico, e sem recursos. Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa. Mil difficuldades, que provinham da minha separação dos meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quasi impossivel de transpor, para emprehender uma exploração qualquer. O desànimo reinava na minha pouca gente. [Figura. 18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé. * Sycomoros. * Forte palissada de pao. * Palissada da horta coberta de roseiras sempre floridas. * Romeiras. * Larangeiras. * Hortas. * Cemiterio. * Casas dos prêtos. 1. Entrada da povoação. 2. Entrada da casa de Silva Porto. 3. Casa. 4. Pateo interior. 5. Cusinha e dispensa. 6. Casas de criados. 7. Armazem.] Entrèvado e sem fôrças, não pensar um só momento em voltar face ao desconhecido que se erguia ante mim como um abysmo attrahente; desfazer uma a uma as difficuldades que surgiriam; reconstruir muitas vêzes o trabalho feito, que se esvaïa como cahe um castello de cartas; criar recursos onde os não havia; conseguir organizar uma expedição sôbre as ruinas de outras que se haviam desmembrado; é, aos meus ôlhos, a parte mais difficil da minha viagem, e de que mais me orgulheço, se é que me orgulheço de alguma cousa. Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle cégamente. Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte d'Àfrica. Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e Senna. Os mais pràticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por tôlo. Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e confecção do material necessario aos meus planos. No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes parte do occorrido até então, e pedia-lhes auxilio e consêlho, submettendo á sua crìtica os meus projectos. Despachei portadores para Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem. A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado. Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me que, chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em Belmonte. O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6 caixas de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc., necessario para a viagem. Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de queixar-se do modo por que o recebi no Bihé; se quizér ser justo e verdadeiro. Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de recommendação para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um favor. Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram soffrer em Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu ainda não estava habituado ao soffrimento. No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos 60 carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para receber mais alguma fazenda e partir. A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um livro de lembranças, para ter á mão as fòrmulas que me eram necessarias para os meus càlculos; fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes cùbicas, que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque na Europa, para tornar mais portateis as minhas tàbuas logarìthmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fôram incluidos os meus livros mathemàticos. Não se riam os sabios, da singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para poder ter escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares. Quem não é explicador de mathemàtica, vê-se muitas vêzes embaraçado para resolver uma questão mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos os livros, e por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi facil. Tôda a minha bibliotheca consistia em três almanacs para 1878, 1879, e 1880, as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem texto, tàbuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um livrinho de Flamarion, As Maravilhas Celestes . Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as questões de x e y . Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si. Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das fòrmulas de Neper para resolver triàngulos esphèricos, quando entrava o muleque, e me exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um verdadeiro inferno. Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de observações meteorològicas. Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição determinada. Algumas excursões que fiz no paiz com a bùssola na mão, permitíram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas tão aproximada quanto se pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda nas terras do Bihé. Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante e rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu conhecimento do que a ninguem. O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quasi um limite natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé ainda se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns pontos. O paiz é pequeno, mas muito povoado. Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas quadradas, e um càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a sua população em 95 mil habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este nùmero nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço do que se dá entre nós, é consideravel para a Àfrica Austral, onde a população está muito pouco accumulada. Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela. O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda. Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do Cuanza. A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora. Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a origem do pôvo Biheno. Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé, mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante, está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica Austral. Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um ùnico filho varão, que têve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve dois filhos, dos quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu irmão, que tinha grande influencia no pôvo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como escravo, a um prêto que ia levar uma leva de escravos a Loanda. Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado pêlo Governador Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de Giraúl fizéram-n-o detestado do seu pôvo; houve conspiração, e alguns nobres partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar d'esta questão, para a corôa Portugueza, não só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traido pêlos seus, e entregou as redeas do governo a seu irmão mais nôvo, que lhe deu uma povoação e um pequeno dominio para viver. Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha pôr cêrco á capital. Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmão aos Ganguelas de àlém Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um bocado de homem assado. Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse respeito alguma cousa dêve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles não podia deixar de ser communicado ao governo da Metròpoli. Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis fôram sovas do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais pròximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vam ao poder, e o neto primogènito do filho primogènito só toma as rèdeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos mais nôvos de seu pai. Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não fôram sovas, fôram Calali e Óchi, por terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao mais velho Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangúla, por não ter deixado filhos o irmão mais velho de seu pai. Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia ser acclamado, já dentro da capital. De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legìtimo, filho do sova Bandúa, que foi acclamado. É elle Quillemo, o actual sova do Bihé. Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarám ao poder, os filhos d'este ùltimo, que sam muitos. Por este breve resumo da historia do Bihé se vê, que aquelle paiz é de fundação recente, e que desde o seu comêço quasi, existíram relações ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla intervenção tomada pêlo Governador Geral de Angola, na acclamação do sova Cangombi, avô do actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena. Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze sovas em cinco gèrações, que vam representadas no seguinte quadro:-- Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a sua origem não dêve ir muito àlém da coordenação d'aquella carta. Mulhér do Bihé cavando.] Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o trabalho é feito pêlas mulhéres, que só ellas cultivam a terra. Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro règulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos remotos sertões onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando estas disposições, alguns homens ousados, taes como Silva Porto, Guilherme (o Candimba), Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros negociantes sertanejos, começáram a dirigir os Bihenos nas suas excursões, e fizéram n'isso um grande serviço ao mundo; porque, abrindo nôvos mercados ao commercio, abríram nôvos horizontes á civilisação. Não foi só o seu tràfico que veio augmentar o movimento commercial da praça de Benguella, mas, ainda animado por elles, e perdido o receio dos brancos, o gentio dos mais remotos paizes, desceu a vir permutar directamente os seus gèneros nas casas commerciaes de Benguella. Carregador Biheno em marcha.] Nas viagens sertanejas, aos brancos seguíram-se os prêtos, e obtendo, primeiro alguns, depois muitos, um certo crèdito na praça de Benguella, fôram ao Bihé organizar expedições, d'onde partem a procurar a cêra e o marfim nos sertões mais distantes. Muitos prêtos conhêço eu que negoceiam com um crèdito de 4 e 5 contos de réis, e alguns com mais, como o prêto Chaquingunde, que foi escravo de Silva Porto, que, durante a minha permanencia no Bihé, chegou do sertão, onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de réis! Não é difficil no Bihé encontrar um branco Portuguez, escapado dos presidios da costa, secretario de um prêto commerciante rico. Para o Biheno, em questões de viagens de tràfico, nada é impossivel, e tudo lhe parece natural. Se elles soubessem dizer onde tẽm estado e descrever o que tẽm visto, os geògraphos da Europa não teriam em branco grande parte da carta de Àfrica Austral. O Biheno deixa com o maior desapêgo o lar, e carregado com trinta kilogrammas de fazendas, vai para o sertão, onde se demora 2, 3, e 4 annos, voltando em seguida a casa, onde é recebido com a naturalidade de quem volta de uma viagem de três dias. Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava prêtos seus em outras direcções, e negociava ao mesmo tempo no Mucusso, na Lunda e no Luapula. A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graça quando intentou a viagem ao Matianvo, foi ali procurar carregadores. É mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum fardo; o que acontece frequentemente com os Zanzibares. Àlém d'isso, os Bihenos tẽm outra grande vantagem sôbre os Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de escravos, não promovem elles mesmos no interior guerras para os haverem; comprando-os a quem os vende, mas nunca tratando de os obter por fôrça. Isto quando em viagem de tràfico sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem o que podem, e sam dotados de inaudita crueldade. Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e hàbito de viajar, possuem grandes defeitos, e não conhêço em Àfrica pôvo mais profundamente viciado, mais abertamente depravado, mais duramente cruel, e mais sagazmente hypòcrita. Tem esta gente uma certa emulação entre si como viajantes, e muitos conhêço eu que se ufanam de ter ido onde outros não fôram, a que elles chamam descobrir terras nôvas . Elles sam educados na vida de caminheiros, e tôdas as comitivas levam innùmeras crianças, que, com cargas proporcionaes ás suas forças, acompanham os pais ou parentes nas mais longìnquas correrias; e é por isso que não causa estranheza encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no Matianvo, no Niangué, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso, se elle viajou desde os 9 annos. Ao homem que chega ao Bihé para seguir em viagem sertaneja, offerecem-se dois meios de obter carregadores. Um é por meio de presentes ao sova e aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro é annunciar a viagem, e esperar que elles se venham offerecer. O primero é mao, porque, àlém do grande dispendio feito com os presentes que é preciso dar ás pessôas a quem se pedem os carregadores, estes sam obrigados a ir, e o que os pedio é responsavel pela vida d'elles para com as familias ou senhores. Àlém d'isso, as pessôas a quem se pedem, com o intùito de extorquir mais presentes, vam demorando quanto podem a partida, e quando se está na sua dependencia as exigencias crescem. O segundo meio é bom, porque os que se vẽm offerecer sam prêtos livres, vẽm por sua vontade, e se algum morre, segundo a lei do paiz, como foi elle que se offereceu, não tem o que o aceitou a menor responsabilidade do facto. É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só os Bihenos mas sim tôdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a Caquingue chama-se Quissongo , e no Bihé e Bailundo Pombeiro . Sam estes Pombeiros que se vẽm offerecer, trazendo uns 10, outros mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolhéram um para Pombeiro, e n'estes sam tôdos livres. Outros sam formados por gente livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo Pombeiro em quem tẽm confiança. Outros ainda, sam grupos de escravos dos Pombeiros que os commandam. A obrigação do Pombeiro é vigiar pêla sua gente, e responder por ella ante o chefe da comitiva. Come e dorme com elles, é emfim o cabo de esquadra da caravana. O Pombeiro não leva carga, mas, em caso de doença ou morte de algum dos seus, substitue-o como carregador temporariamente. Durante a marcha o seu logar é no couce da comitiva, e logo que um seu carregador se atraza, elle fica para o acompanhar. O pagamento dos carregadores nunca é feito adiantado, e nas viagens de tràfico regulares é diminutissimo. Assim, um carregador, para ir do Bihé á Garanganja (Luapula), recebe 12 pannos ou valor de 2400 réis, e na volta uma ponta de marfim escravelho, talvez de 4000 réis, ao tudo 6400 reis, comida á parte, porque o chefe da comitiva tem obrigação de sustentar tôda a sua gente durante a viagem, excepto nos primeiros três dias de sahida do Bihé, para os quaes cada um leva de comer. Esta regra tem ainda uma excepção. Muitos sertanejos, ao sahirem do Bihé, destinam um certo nùmero de pombeiros para destacarem em caminho, ou no termo da sua viagem, para differentes pontos. A estes Pombeiros dam um certo nùmero de fazendas, pêlas quaes elles lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos Pombeiros que vam traficar livremente, chamam-se banzos , e d'ellas comem o Pombeiro e carregadores desde o comêço da jornada. Afora este caso, em tôdos os mais o chefe sustenta Pombeiros e carregadores. Os Pombeiros não sahem nunca por tempo determinado, e tanto ganham demorando-se pouco como muito. É sabido que os nêgros em Àfrica não dam valor ao tempo. Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o contacto com brancos não tem trazido o menor adiantamento a essa gente. Não tẽm a menor idéa de uma religião qualquer, não adoram nem sol, nem lua, nem ìdolo, e vivem com os seus feitiços e advinhações. Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no desassocego d'ella em quanto não cumprem certos preceitos ou vinganças em favor do morto. A forma do governo é monàrchica absoluta, e tem muito do feudalismo. Cada um é, muitas vêzes, juiz em causa propria, e quando eu falar dos mucanos direi como ali se faz justiça. Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam aos sovas, e sôbre tudo á sua morte e á acclamação do nôvo règulo. Antes porem de descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso é falar da sua côrte. O sova é rodeado de um certo nùmero de sujeitos, a que chamam Macotas , que muitos julgam corresponderem aos ministros entre nós, mas que assim não é. Os Macotas formam apenas uma especie de consêlho a que o sova submette sempre as suas deliberações, mas de cuja opinião poucas vêzes faz caso. Sam secúlos e favoritos do sova, e nada mais. Secúlo é o fidalgo, filho de nobre, ou enobrecido pêlo sova. Muitos secúlos que possuem libatas, dentro d'ellas tẽm o tratamento de sovas, e os seus pôvos, quando lhe dirigem a palavra, dizem Ná côco , o que quer dizer Vossa Magestade. Àlém dos Macotas, ha três prêtos que rodeiam o sova, e que, quando elle dá audiencia, se sentam no chão junto d'elle, e apanham da terra os escarros do regùlo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a cadeira, e o Bôbo, figura indispensavel em tôdas as côrtes de sova, e mesmo dos secúlos ricos e poderosos. O bôbo tem obrigação de limpar a porta da casa do sova e a rua em tôrno d'ella. As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi sempre coberta de sycòmoros enormes, e dentro d'ellas uma segunda palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo recinto chama-se o lombe . Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se passa pêla morte ou acclamação dos règulos. Logo que morre o sova, o acontecimento é sabido dos Macotas, que guardam o maior segrêdo. Dam parte ao pôvo de que o sova está doente e por isso não apparece. O cadaver é deitado na cama, na cubata, e coberto com um panno; isto em Caquingue, porque no Bihé, é dependurado pêlo pescôço ao tecto da cubata. O côrpo ali jaz até que a putrefacção e os insectos deixam a ossada nua, no paiz de Caquingue; no Bihé, até que a cabêça se separa do corpo. É então que anunciam a morte do règulo, e que se procede ao enterro. Os ossos sam metidos em uma pelle de boi e enterrados em uma cubata que existe no Lombe, sarcòphago de tôdos os sovas. A cubata em que apodreceu o cadaver é demolida, e tudo o material é transportado fôra da libata, e abandonado no mato. Será desnecessario dizer, que a morte de um sova é sempre produzida por feitiço, e que um desgraçado paga com a vida, não o feitiço, que não fez, mas a vingança particular de um dos Macotas. Logo que se anuncía a morte do sova, o pôvo sahe furioso, e durante alguns dias, sam roubados tôdos os que passam pròximo da capital, sendo que se apossam das pessôas mesmas, que escravizam para venderem depois. Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o até á Libata Grande (capital); mas ali elle não entra no Lombe, e fica vivendo na povoação como qualquer do seu pôvo. Em seguida á entrada do herdeiro na Libata, sahem dois bandos de caçadores, um em busca de uma malanca ( Catoblepas taurina ), e outro em procura de uma creatura humana. Do grupo que vê o antìlope, se adianta um caçador que lhe atira, fugindo logo, e sam os outros que lhe vam cortar a cabêça, porque, se fôr o que lhe atirou, é logo assassinado, e nunca pôde dizer que foi elle que o matou. O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que encontra (homem ou mulhér), e arrastando-a para o mato, cortam-lhe a cabeça, que trazem com tudo o cuidado, abandonando o côrpo. Chegados á libata, esperam pêlo bando que foi caçar o antìlope; porque mais facil sempre é encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma malanca. Reunidas em uma cesta as duas cabeças, a do homem e do antìlope, vem o cirurgião, e comêça a fazer os curativos precisos para que o nôvo sova possa tomar as redeas do governo, e quando acaba a sua magía, declara que elle pôde entrar no Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no Lombe, no meio de grande grita e muita fuzilaria. O primeiro passo que dá o sova no seu governo, é escolher entre as suas amantes uma que apresenta como sua mulhér, a qual fica morando com elle, e toma o nome de Inácúlo, e o governo caseiro; as outras ficam vivendo no Lombe, mas fôra do recinto do règulo. No Bihé, como em tôda a Àfrica Austral, está estabelecida a polygamia. Os crimes no Bihé sam sempre julgados em primeira instancia pêlo lesado, e só se o culpado se não sujeita ao pagamento da multa, é que, algumas vêzes, sobe a causa ao conhecimento do sova, porque em outras a justiça é feita pêlo lesado. A palavra terrivel no Bihé, o vocàbulo Mucano , não exprime simplesmente o crime, mas designa uma idéa que involve ao mesmo tempo o crime e o pagamento da multa. Ali tôdos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto é, ao pagamento de multas; e não ha penalidades intermediarias entre a multa e a pena de morte. Se alguem rico sôbre quem pesa um mucano, se recusa a pagar, e o lesado é poderoso, faz presa ao culpado em valor muito superior á multa, ficando a presa em depòsito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao que a fez. Aquelle que faz uma presa injusta é obrigado pêlo sova á restituição, e a dar um porco ao prejudicado. Este systema é ázado a roubos, e tôdos os dias apparecem mucanos os mais estupendos. Um dos mais vulgares é o do adulterio das mulhéres, a quem os maridos mandam que se façam seduzir por este ou aquelle homem que possue alguma cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano. O chefe de uma comitiva é obrigado a pagar os mucanos dos seus prêtos, e responsavel pêlo comportamento d'elles. Quando um branco responsavel pêlos mucanos dos seus prêtos, tem por seu lado força bastante e se recusa a pagar, elles esperam, ás vêzes, annos até poderem atacar outro branco mais fraco, e fazerem-lhe presas, dizendo-lhe, que é por causa do outro, e que se entenda com elle. Se o que têve um mucano é fallecido, o desgraçado que vem habitar a sua povoação paga por elle. O modo por que se faz justiça no Bihé, é a causa do grande transtorno que soffre o commercio, e das grandes perdas das casas de Benguella. Durante a minha estada em casa do Silva Porto, viéram ali uns prêtos que traziam uma gallinha para fazer uns curativos , e o hortelão vendo-a disse, que tinha uma muito parecida com ella. Fôram estas palavras objecto de um mucano, em que o hortelão têve de pagar 16 côvados de algodão ao dono da gallinha. Logo que chega alguem ao Bihé e traz fazendas, procuram arranjar-lhe innùmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma grande parte d'ellas. Os sertanejos, quando chegam ao Bihé, sam tão defraudados pelos mucanos, que muitas vezes não lhes fica para ir negociar no interior mais do que a terça-parte das facturas trazidas. Guilherme (o Candimba), pai do Verissimo, a ùltima vez que ali foi em viagem de tràfico, foi obrigado a dar fazendas no valor de 600 mil réis, por um mucano que lhe arranjáram, de um seu prêto ter comprado um bocado de carne de carneiro por três cartuxos de pòlvora, e não os ter dado no dia aprasado, mas sim no seguinte, em que já não fôram aceites. Durante a minha estada no Bihé, Silva Porto têve de pagar um mucano de 700 mil réis por uma bagatela ainda maior. É o mucano, esse roubo infame, porque é legal e autorizado, a causa principal do estôrvo ao commercio, e da decadencia do Bihé. Foi o mucano que expulsou do Bihé a Silva Porto e aos sertanejos honrados. Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco triplicará o commercio de Benguella, e novas fontes de riqueza, atrofiadas hôje pela pouca segurança, virám alimentar as industrias Europeas. O pôvo do Bihé é ázado a grandes commettimentos. Esmague-se no seu seio a vìbora da ignorancia que o corróe; levantem-se esses brutos ignaros á altura de homens, dê-se-lhes uma direcção, e elles caminharám na via do progresso e chegarám onde difficilmente chegará outro pôvo Africano. Os prêtos d'Àfrica sam como os cavallos de fina raça, quanto mais fogosos e bravos, mais promptamente se tornam doceis e obedientes. Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se poderám civilizar; aos outros não será difficil tarefa trazel-os ao caminho do bem. Os Bihenos, como tôdos os povos d'esta parte de Àfrica, sam muito dados á embriaguez. Ali ainda chega a àgua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se muita capata. A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes modos, é uma especie de cerveja feita de milho. Nas terras onde cultivam o lùpulo ( Humulus lupulus ), servem-se das cònicas sementes d'esta trepadeira para confeccionarem a bebida. Para isso, reduzem as sementes a pó, e misturado este pó com fuba de milho, em uma enorme panella, ferve por espaço de oito ou dez horas em muita àgua, e logo, retirada do fôgo e fria, é a capata, que se bebe immediatamente. N'este preparado a fermentação acètica predomina, e é tão pequena a fermentação alcohòlica, que não embriaga senão em grande quantidade. Como a bebida não é filtrada, fica cheia de farinha em suspensão, e é mais massa muito flùida, do que puramente um lìquido. É muito substancial, e ha prêtos que passam um e mais dias sem comer, bebendo só capata. Nas terras onde não ha lùpulo é este substituido por uma farinha feita de milho em estado de germinação, que elles fazem produzir, já enterrando o milho, já deitando-o em àgua por alguns dias. No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande fermentação alcohòlica, addicionando-lhe mel, que no fim de alguns dias está em parte transformado em alcohol. Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa. Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco, mas que é agradavel e muito nutriente. É ella feita com a raiz de uma planta herbàcea, que os meus poucos conhecimentos botànicos não me permitíram classificar, a que os prêtos chamam imbundi . Uma forte decocção da raiz do imbundi, depois de fria e de uma ligeira fermentação em uma grande cabaça, e addicionada, a frio, á fuba fervida como para a capata. A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina. Esta bebida chama-se Quissangua. A alimentação do pôvo do Bihé é quasi toda vegetal, e tendo elles poucos gados, que nunca matam para comer, apenas uma ou outra vez comem carne de pôrco, animaes estes que abundam ali no estado domèstico. Creio que fôram introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a caça, e a pouca que há sam pequenos antìlopes ( Cephalophus mergens ), difficeis de matar por muito esquivos. Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de putrefacção. O leão, o chacal, a hyena, o crocodilo, e tôdos os carnìvoros, sam para elles finos manjares, mas sôbre tudo o que mais amam sam os cães, que engordam para comerem. Isto talvez provenha da falta de alimentação animal que tẽm no seu paiz. Elles não sam positivamente canibaes, mas comem de tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos, e um ancião de cabelleira branca é òptimo presente que recebe o sova, ou algum rico secúlo, para um banquete. Os sovas do Bihé fazem repetidas vezes uma festa, na sua libata, a que chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5 pessôas, sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1 mulhér que faça panellas, 1 do primeiro parto, 1 que tenha papeira (é vulgar ali), 1 cesteira, e 1 caçador de côrças. Presas as vìctimas, sam degolladas, e as cabeças lançadas no mato. Os corpos entram de noite para o Lombe da libata grande, onde sam esquartejados, e morto um boi, a sua carne é cozida com a carne humana, parte da qual é tambem fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer no banquete deve levar sangue humano. Logo que está prompta a sinistra e repugnante ceia, o sova manda participar que vai começar o Quissunge, e todos os habitantes da povoação correm pressurosos ao festim. Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas habitações para as comerem cruas. O Biheno é altamente ladrão, e furta sempre que pode algum objecto, logo que está no seu paiz; fóra d'elle, não só se abstem de roubar, mas, como carregador, respeita a carga que lhe confiáram. Quando uma comitiva acampa no mato, no Bihé, é preciso logo dar parte d'isso ao secùlo dono da terra, mandando-lhe um pequeno presente; sem o que, ficam autorizados os prêtos da povoação vizinha a roubarem quanto possam. Logo que se dá o presente ao dono da terra, é elle o responsavel por qualquer roubo que haja. É tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo, ao sova; ao que se chama dar a Quibanda . Elles nunca ficam satisfeitos, e exigem sempre mais do que se lhes manda. As libatas ou povoações fortificadas (que todas o sam, desde a costa ao Bihé) tẽm as mesmas condições, salvo pequenas modificações, devidas á disposição do terreno. Sam grupos de cubatas feitas de madeiras e cobertas de côlmo, cercadas por uma palissada, que varía entre 2 a 3,5 metros de altura. Esta palissada é formada por estacas de pao-ferro de vinte centìmetros de diàmetro, umas apenas cravadas no terreno, outras amarradas com travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por travessas encaixadas em forquilhas enormes. [Figura 21A.--Palissada Solta.] [Figura 21B.--Palissada amarrada com Casca de arvore.] [Figura 21C.--Palissada travada com Forquilhas.] Outra palissada igual á exterior, senão mais forte, rodea o Lombe, ou morada do chefe da povoação. Em muitas vi grupos de casas rodeadas de palissada. As libatas, e sôbre tudo as antigas, sam cobertas de frondosas àrvores, e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em algumas lhes fazem passar a àgua por dentro. Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ellìpticas ou circulares, e outras formando polygonos irregularissimos. Não ha a menor ordem nas construcções, e em geral é a disposição do terreno que as determina. Planta de uma Libata de gentio no Bihé. A. Entrada. B. Cubata onde se enterram os sovas. C. Trophéu de cornos. c c c . Casas das amantes do sova. O O. Casa do sova. a a a . Lombe ou morada do sova. d d d . Casas dos prêtos.] [Figura 22C.--Trophéu de Cornos de caça, em quasi todas as libatas.] Fora da porta das libatas ha isto.] As povoações sam fortificadas com o receio dos ataques do homem, que feras não abundam muito no paiz, e não é mesmo isso necessario para feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as povoações sam abertas. As guerras dos prêtos ali sam, a maior parte das vezes, sem causa, e basta a riqueza de um pôvo para que elle seja atacado. Sam verdadeiros ataques de salteadores. Logo que um règulo decide ir fazer a guerra a outro, ou a um pôvo qualquer, manda emissarios seus aos sovas e secúlos circumvizinhos, convidando-os a tomar parte na campanha, e estes, como na Europa no tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que os convoca. Alguns povos fazem periòdica e systemàticamente a guerra, e no Nano, por exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao Mulondo, Camba e Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para elles, e sam os seus pastores. Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de Àfrica, é a de ser sempre vencedor o que ataca. Ha excepções, mas muito raras. Uma das excepções foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bihé, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram derrotados pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um grande resgate Silva Porto e Guilherme José Gonçalves (o Candimba). Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na Bèlgica, e tiram o seu nome de um cèlebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram a adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na Bèlgica para os prêtos, que sam uma imitação grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se nos canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga. Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e tẽm 22 centìmetros de comprido. As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme, pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares do que espheras. As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode bem julgar, tẽm um alcance de cem metros apenas. O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira precisão do tiro de frecha, entre os prêtos, não vai àlém de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra, não sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da mão. Talvez haja reparo em eu escrever pello de carneiro, mas cabe dizer, já que falei n'isso, que os carneiros ali não tẽm lã. Existem no paiz duas differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omême, que tem o pello mais longo, differe muito da lã. Estes carneiros, de raças exòticas, degeneráram de certo por effeito do clima e das pastagens. Tẽm os Bihenos cabras de uma raça muito inferior, e o seu gado bovino é pouco, e de raça muito pequena e fraca. As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domèsticos no Bihé, de pequeno corpo. Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a respeito d'este paiz, cujas posições e condições climatèricas se encontrarám em um capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril de 1878. As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da noite do dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'àgua, o que mostra terem sido já muito fracas. O tempo estava esplèndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida ás chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura, desapparecêram, para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido de dia por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz melancòlica e scintillante, que ellas só tẽm nas regiões tropicaes. Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu estava ainda no Bihé! Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda não tinham chegado as fazendas e as cargas que deixámos em Benguella, em Novembro de 1877, isto é, uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Março. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido gastos, com a sustentação da minha gente de Benguella e com a minha. Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa. Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas horas por dia para caçar. Na falta de caça grossa, tinha, na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas perdizes. Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas, não excedendo nunca esse nùmero para não destruir a provisão. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentação diaria; assim eu, contendo os instinctos de caçador, deixei muitas vezes a caça que podia matar; fazendo sôbre mim supremo esfôrço, para não proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munições pouco abundantes, e a caça necessaria ao meu sustento futuro. Não eram só as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que forneciam um prato á minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas, esvoaçavam continuamente sôbre as àrvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em àgua, que me servia de pão. Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de quatro jardas de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas. A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O mucano aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bihé. A demora da minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada. O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a força de meu lado, e de defender a tôdo o trance a minha propriedade. Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. Àlém d'estas, possuia umas 20 espingardas de silex, das ùltimas d'esse systema usadas pelos exèrcitos na Europa. Para estas não tinha munições. Fiz correr a noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas que me trouxessem. Principiáram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia concertar, o que me não era difficil, por ter aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que é habil artìfice, e que ainda hôje emprega as horas de òcio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as d'aquelles que as tẽm por profissão. Lembra-me aqui uma anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente n'uma casa pròxima á de habitação, dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos nos pés, carapuças vermelhas na cabeça, largos aventaes de couro pendentes do pescôço e justos á cintura, a cara e mãos negras do carvão e do ferro, estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direcções chispas ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por braços nus até ao cotovelo. O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O Senhor Doutor está em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta: "¿Que lhe quer o Senhor?" O cavalheiro, que não era de genio brando, não gostou da pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que não admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle. Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade. Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio dos felizes resultados da minha tentativa. Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas. Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto encontrei uma colecção completa da Gazeta de Portugal , e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado. Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel obter-se. Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem, e não tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sôbre tudo de arcos de barris de àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro quando tinha uns duzentos kilogrammas. Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indìgenas no pateo interior, com grande escàndalo da prêta Rosa, administradora da povoação de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam carvão queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma libata abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo. O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a varão cylìndrico do diàmetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centìmetros de comprido por 4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de caliça e àgua. Depois de frios voltavam á forja, e chegados á tempera da fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa ùnica e homogènea. Depois d'isso o trabalho era facil. A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu haver. Eu não possuia missangas, porque um sacco que me mandáram os meus companheiros não tinha curso nos sertões para onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bihé, e pude comprar aos prêtos aqui e àlém uma pequena porção, que me fez a carga de um homem. Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de algodão, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo. Objectos fabricados por Bihenos. 1. Folle. 2. Folle preparado para servir. 3. Bocal de barro em contacto com a chama. 4. Tenaz. 5. Martello grante. 6. Um bocado de cano de espingarda encabado em páo que serve ao ferreiro para levar áo lume pequenas peças. 7. Martello pequeno. 8. Panellas de cozinha. 9. Panella para capata. 10. Tambores dos batúques.] Sentia desde a minha chegada ao Bihé uma grande falta, e era ella a de um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem muitos incòmmodos e algumas febres. Sempre que tinha de fazer observações depois da meia noite, tinha de estar acordado até á hora precisa; e asseguro que é triste passar uma noite a lutar com o sono, sem luz, e por isso sem nada poder fazer para matar o tempo. No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impressão o seu estado. Estava muito magro, de uma palidez cadavèrica, e accusava nas feições um soffrimento constante. Eu pedi-lhe para vir jantar comigo no dia immediato, que era o dia dos meus annos. Elle disse-me, que talvez não podesse vir pêlo seu estado de saude. Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a posição da nascente do Cuanza. No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro, toscamente forjados, com pertenções a terem uma forma esphèrica. Era o que me bastava, e despedi os ferreiros. N'esse dia chegáram os primeiros Bailundos com as cargas de Benguella, e nos seguintes dias fôram apparecendo novas levas com cargas. Estes Bailundos eram insolentes, e iam fazendo uma grande desordem em Belmonte, que teria tomado sèrias proporções se eu não interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda, três barris de àgua-ardente, e dois saccos de caurim. Faltava-me a pòlvora e o sal, que tinham ficado atraz. Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir, porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou três dias os carregaria de pòlvora. Mandei emissarios a reunir os carregadores, que tôdos estavam justos e promptos. No dia 29 de Abril, os prêtos de Silva Porto fizéram-me um pequeno furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os mandar para Benguella. Elles, para entrarem nas minhas bôas graças, viéram denunciar-me, que sabiam onde estavam 4 espingardas que tinham sido roubadas á expedição no caminho de Benguella. Uma d'ellas fôra furtada pelo S_nr. Magalhães, dono da povoação onde primeiro estive no Bihé. Pude havel-as todas. [Figura 25A.--Quinda, cesta de palha que não deixa passar a àgua.] [Figura 25B.--Peneiro para seccar a Farinha (fuba).] [Figura 25C.--Peneiro de peneirar.] [Figura 25D.--Cabaça para tirar Àgua a capata.] A esse tempo eu mal tinha occasião de comer. Arranjava as cargas, e era preciso estar presente a tudo, para não ser roubado, porque tôdos os prêtos, os de Silva Porto e os meus, eram uma quadrilha de ladrões. Havia uma excepção, uma ùnica. Era o meu prêto Augusto, que me deu sempre prova da maior fidelidade. Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se não distinguia dos outros, a não ser talvez por ser um pouco mais dado a embriaguez. Na distribuição das armas, os prêtos fizéram repugnancia em receber as de Snider, e só o Augusto me pedio logo uma. Foi a primeira vez que attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz um exercicio ao alvo, e vi que elle era um soffrivel atirador. Depois, em Quillengues, sube, que elle dissera entre os prêtos, que me não deixaria nunca, e como, pêla sua força herculea, e pêla sua coragem, elle tinha tomado um grande ascendente sôbre os outros prêtos, chamei-o a mim. Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de posição, e de simples carregador, estava chefe da comitiva. Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o. Augusto é o melhor prêto que eu tenho encontrado em Àfrica; mas ninguem é perfeito n'este mundo, e Augusto não quer ser excepção á regra. Entre os seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por virtude. Augusto é louco pêlo bello sexo. Forte como um bùfalo, corajoso como um leão, entende que deve protecção e apoio ás creaturas frageis que encontra no seu caminho. Já não tinham conta as suas aventuras galantes desde Benguella ao Bihé. Casado em Benguella, casou de nôvo no Dombe, em Quillengues, Caconda, no Huambo, e desde a sua chegada ao Bihé, já tinha feito ali três ou quatro casamentos. É um verdadeiro D. Juan de côr prêta. Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas admoestações n'esta parte. Um dia, como as queixas das mulhéres fossem muitas, chamei-o e reprehendi-o severamente, ameaçando de o abandonar se elle continuasse. Chorou muito, lançou-se de joêlhos aos meus pés, fez mil protestos de emenda, e pedio-me para lhe dar uma peça de fazenda, que com isso iria contentar as mulhéres, e só ficaria com Marcolina, a sua mulhér de Benguella. Dei-lhe a peça de pano, e fiquei satisfeito de tão sincero arrependimento. Uma Casquilha do Bihé.] Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da povoação, e cantos e festas que anunciavam um acontecimento desusado. Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver. ¡Qual não é o meu espanto, sabendo que o Augusto festejava o seu nôvo casamento com uma rapariga da libata de Jamba! Vi que o furor de casar-se era superior ás suas forças, e decidi não mais me importar com os seus negocios galantes, mesmo porque elle não compromettia ninguem, e casava sempre legalmente. Estàvamos a dois de Maio, e ainda não tinha podido reunir os carregadores, e ainda não tinham chegado do Bailundo, nem a pòlvora nem o sal vindos de Benguella. O Verissimo andava por lá reunindo a gente; mas ainda nem um só se tinha apresentado. Na manhã do dia três, estando eu em casa, ouvi fora da porta os acordes de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas, coisa mui differente da mùsica monòtona dos prêtos. Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um prêto alto e magro, quasi nu, de physionomia triste e expressiva. Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em forma ás nossas rabecas, era cavado em uma só peça de pao, que formava a caixa e o braço, sendo o tampo de uma tabua fina da mesma madeira. Tinha tres cordas de tripa, fabricadas pêlo mùsico, e o arco era guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina. Era de certo uma imitação das rabecas da Europa, e não um instrumento primitivo. A madeira de que era feita chama-se no paiz Bóle , e abunda nas matas da Àfrica de Oeste. Não seria talvez para desprezar o ensaio d'esta madeira na fabricação de instrumentos de corda. O bàrbaro mùsico cantou uma aria em meu louvor, a mezzo petto , com voz muito agradavel, acompanhando-se na tôsca mas harmoniosa rabeca. Foi muito applaudido pelos prêtos que tinha attraido em volta de si, e eu mesmo gostei d'aquella mùsica original. Chegáram á libata uns prêtos do sertão do Andulo, que vinham vender tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam em quantidade. É este tabaco do Andulo que os Bihenos compram e mandam para Benguella, vendendo-o ali com o nome de tabaco do Bihé. Eu comprei grande provisão, e calculei que me ficou por 500 réis o kilogramma. Os preços dos differentes gèneros no Bihé não sam aquelles que me tẽm forçado a pagar, e sam os seguintes: Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algodão; seis ovos, uma jarda; um cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas (75 a 90 kilogrammas), uma peça de algodão branco e outra de zuarte; o alqueire de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de mandioca ou de feijão, três jardas. Isto sam jardas de fazendas das mais ordinarias, cujo prêço no Bihé não se dêve calcular superior a 200 réis. Uma jarda de fazenda chama-se no Bihé um Pano , 2 jardas uma Béca , 4 jardas um Lençol , 8 jardas uma Quirana . As fazendas de negocio proprias para o Bihé e sertões explorados pelos Bihenos, sam, algodão branco, zuarte, zuarte pintado, lenços de zuarte pintado, lenços finos, lenços cangengos, fazendas de lei e riscados, tudo da mais inferior qualidade. As peças de algodão branco tem 28 jardas umas, e outras de melhor qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os lenços pintados 8 jardas, os lenços cangengos 6, e a fazenda de lei 12 jardas. As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta parte de Àfrica, porque, não tendo muito mais importancia para o gentio, sam consideravelmente mais pesadas. Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos quaes continha 624 jardas, e os outros, de algodão fino, tẽm apenas 180 jardas, e sam mais pesados.[4] Já se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de bôa qualidade, que àlém de ser grande o seu custo, é grande tambem a difficuldade do seu transporte, pois que três homens carregam d'ellas tanto quanto um carrega de fazenda ordinaria. E sôbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda é em trôco de alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um objecto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objecto. O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens. Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é recebida àlém, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso. Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida em toda a Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda encarnada, de ôlho branco, a que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a. O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza até ao Zambeze, mas o graüdo não é recebido. O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas, n'estas paragens, não dêve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura. Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e secúlos, sam pèssima moeda. Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiçados do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo òptimo presente, não sam bôa moeda. Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este gènero, estam no mesmo caso. Prestigiações, sortes de physica e chìmica, produzem certa impressão no gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não comprehendendo as causas que determinam certos phenòmenos, lançam a cousa á conta de feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo. Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as fizér. De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que mais os admira é verem um bom atirador. Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma àrvore, mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será objecto das conversações por muito tempo. A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse. Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que tẽm para adquirirem aquelle abençoado remedio, que os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar. Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso. Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panellinha de meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella que continha o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pùblico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar á panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em tão pequeno alvo. Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o precioso licor. Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu fui applaudido então pêlo gentio entusiasmado. O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada. Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito. Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades, e sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada. O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte. N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por Pereira de Mello e Silva Porto. Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que no meu diario escrevi então, na cabeça do capìtulo em que falo do Bihé, aquelles dous nomes, e hôje ainda os conservo, como preito e homenagem áquelles dous cavalheiros. Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabão, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim. Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratidão para com o governador de Benguella; foi a sua carta e fôram as expressões dos seus sentimentos a meu respeito. Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o homem, com Pereira de Mello. Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse. Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era. Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu pedisse. Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estivér, e dê tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possivel eu serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os socorros. Sabe que eu não uso fazer offerecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu irei logo." A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridìcula. Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia seguinte o resto das cargas da expedição, e com ellas a pòlvora por que eu almejava. Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonçalves trazia-me uma lembrança de Antonio Ferreira Marques. Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo. Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora. Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos, que estavam promptos, e só era deitar-lhes pòlvora e dobral-os. Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuição das cargas, e dei as ordens para a partida. Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros. Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado o prêto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia. O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle não havia mais noticia. Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo. Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho imenso tinha contratado, a quem fôra preciso desfazer uma a uma todas as aprehensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar á perdição. Era um golpe terrivel. Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se arreigaria entre os pretos aquella convicção, mal destruida pelos meus reïterados argumentos, e então seria impossivel obter um só carregador mais. Quasi desanimei. Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador, entrou no meu ànimo o desalento. Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esfôrço. ¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo a trair-me? ¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na libata no dia anterior? ¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella intriga? Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem então nem depois, encontrei resposta que fosse àlém de suspeita muito vaga. Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento. Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!" ¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse ao Bihé elle me obteria carregadores. Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa tranquilizou um pouco o meu ànimo alquebrado. Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no ùltimo recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle. Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente. Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e então começou de nôvo o trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil então do que antes. Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos Bihenos vontade de se alistar n'ella. A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa que levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir. N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores trazidos por um prêto Antonio, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves. Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte d'ella despertos junto ás fogueiras. O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um pôrco de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos. Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou mulhéres para fazerem farinha de milho. Mulhéres do Bihé pisando Milho.] Indo agradecer-lhe á sua povoação, passei pelas plantações, onde andavam algumas mulhéres cavando, completamente curvadas, empunhando as enxadas pelos seus dous cabos. De volta ao acampamento, encontrei um prêto dos de Nôvo Redondo, que não tinha podido seguir com Capello e Ivens, pêlo seu estado de saude. Não se sustinha em pé, e uma ardente febre o devorava. Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle pedio-me que o não abandonasse, e eu agasalhei-o no campo, entregando-o aos cuidados do doutor Chacaiombe. Veio visitar-me Tiberio José Coimbra, filho do Coimbra, Major do Bihé, o qual me obtêve alguns carregadores de gente da sua povoação. N'esse dia aparecêram mais uns 12 carregadores com que eu já não contava, e eram capitaneados pêlo prêto Chaquiçonde, irmão da mãe de Verissimo. Ia renascendo a esperança, e de nôvo se ia organizando a nova comitiva. Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de José Alves, com esperança de completar ali o nùmero de gente que carecia. Obtive do soveta de Cabir alguns homens para me transportarem as cargas que não tinham carregador, e tambem 4 homens e uma maca para o doente de Nôvo Redondo. Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na povoação de Cuionja, de Tiberio José Coimbra, onde me esperava um òptimo almôço, com òptimo chá. Até havia guardanapos! Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando á povoação de Caquenha, com 4 horas de caminho. Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da povoação. Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fôra o chefe da cèlebre expedição que Silva Porto mandou do Bihé a Moçambique, e que conseguio alcançar Cabo Delgado, na costa do mar Indico. É elle o ùnico dos homens d'aquella expedição que hôje vive. O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito. Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus esforços foi-me impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma segurança o seu trajecto. De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas não me restou a menor dùvida, porque ha três pontos que elle precisa perfeitamente. Um é ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas; outro ter atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago Nyassa. Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas do commandante, dois kilòmetros a S.E. da libata de José Alves. Era já noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte ver este personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo. Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presença do tão falado sertanejo. José Antonio Alves é um prêto ( pur sang ) de Pungo Andongo, que, como muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever. No Bihé chamam-lhe branco, porque ali todo o prêto que usa calças e sapatos de liga e guardasol, é tratado assim.[5] Em Benguella levam a condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco escuro; mas a verdade é, que nas suas veias não ha uma gôta de sangue Europeu, e que elle é prêto não só na côr como na ascendencia, e quiçá na alma. Veio para o Bihé em 1845, onde foi empregado de um sertanejo, e depois começou a negociar por conta propria, abonado pela casa Ferramenta de Benguella, que hôje faz avultado commercio sob a firma J. Ferreira Gonçalves. José Alves é homem de 58 annos, já um pouco grisalho, de corpo franzino, e soffrendo de uma affecção pulmonar. Vive como prêto, tendo todos os costumes e crendices do gentio ignaro. Quando cheguei a casa de José Alves, estava elle decidindo um mucano . Informado da questão, sube que um empregado mulato do José Alves seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz nada tinha de seu, elle fez-lhe um mucano á familia da mãe, que possuia alguma cousa, exigindo, em paga do delicto, um boi, ou uma cabecinha , para ficar limpo o seu coração. Isto me disse elle, passando a palma abranqueada da mão nêgra por sobre a parte da caixa thoràcica onde se alberga aquella vìcera, nos que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os seus movimentos de sìstole e diàstole. Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um mucano , percebi eu. Depois de decidido o mucano , falei-lhe da minha viagem, que elle duvidou podesse levar a effeito com os pequenos recursos de que dispunha. Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores, evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe quizessem pagar bem, não teria difficuldade em os arranjar. Era o mesmo que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter. Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido forçado a tal companhia, por tanto tempo. Nesta parte do Bihé a vegetação arbòrea começa a ser mais vigorosa, e junto ao rio Cuito, apresenta o terreno a mesma disposição termìtica que descrevi na margem do Cutato dos Ganguellas. Com uns carregadores que me chegáram no dia 29, enviados pelo irmão de Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente sufficiente para seguir viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o dia 30. Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo. Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as mesmas atoardas de Belmonte, e viéram muitos d'elles declarar-me, que voltavam a suas casas, e não me seguiriam. Fiz esforços de eloquencia para os convencer a seguirem-me, mas poucos me escutáram. Era a segunda vez que, em vèspera de partida, no Bihé, ficava eu sem gente. Ali ficáram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir de todas as commodidades, e a abandonar toda a alimentação que levava, com poucos mais poderia seguir. Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu não desanimei na empresa. Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de resultado feliz a minha esperança. No Bihé andam a monte muitos degradados e desertores, escapados dos presidios da Costa. Um d'estes honrados cidadãos veio procurar-me, e pronunciou uma estudada arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela dècima-sètima, e repetido emprêgo de termos só usados na minha provincia, me denunciou n'elle um conterraneo. Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a alma do orador era sentina de todas as podridões, em decomposição n'um clima tropical, trascalando fedores em cada phrase evaporada d'aquelle espìrito immundo. Depois de me aconselhar a dispor das armas e munições que tinha, n'uma empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar, terminou por me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim, fôsse para o que fôsse, ou elle, empregando manhas que tinha de geito para o gentio, faria que todos me abandonassem, e me poria na impossibelidade de dar um passo. Terminada esta peroração, que o homem julgou ser argumento triumphante nas minhas decisões, exigio immediata resposta. Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o sujeito, a quem mandei applicar logo cincoenta açoutes, para fazermos maior conhecimento; porque, se eu o conheci ás primeiras palavras, elle não me conhecia ainda. Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras do Bihé, com ração de comida e de chicote todos os dias. Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco era mais nêgra do que a pelle d'elles ouvintes. A nova da minha justiça espalhou-se nas povoações circumvizinhas, e deu-me crèdito entre os pretos, que tinham em má conta o meu prisioneiro. No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio viéram offerecer-me carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias. Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores não chegavam, e a 5 de Junho, já no maior desespêro, decidi abandonar muitas cargas e seguir ávante. Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha decisão. Tivémos um longo conselho, em que eu sustentei a minha resolução, dando ordem para que os carregadores me acompanhassem ao rio Cuito com as cargas que eu tinha decidido abandonar, para as lançar ao rio. Já se ia executar esta deliberação, quando o doutor Chacaiombe tomou a palavra, e me pedio para adiar de alguns dias a execução d'ella, dizendo-me, que obtivesse nas povoações vizinhas gente de ganho que transportasse tudo até ao Cuanza; que elle ia tentar um esfôrço junto de um sova seu amigo, e me iria encontrar no Cuanza. Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza até 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe, declarando-lhe positivamente, que não esperaria um só dia mais. Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicação, e depois de uma proposta de Miguel (o caçador de elefantes), decidíram pegar tambem elles em cargas, ainda que isso seja não só contra os usos, mas tambem inconveniente em marcha, onde elles tẽm o seu serviço especial a desempenhar. Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato. N'esse dia morreu o homem de Nôvo Redondo que eu tinha recolhido no Cabir. Levantei campo ás 9 horas do dia 6, tendo muita gente de ganho á razão de 1 panno por dia. Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da povoação de Cassamba. Fica esta povoação no meio de grande e espessa floresta, onde fui caçar, encontrando apenas algumas pintadas que matei. Quando, a 7 de Junho, levantei campo, saío-me ao encontro o soveta de Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de presente. Desculpei-me de não lhe dar immediatamente um presente, por estarem os carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua ao meu nôvo acampamento, d'onde lhe enviaria uma lembrança. Depois de três horas de marcha, e de ter nas duas ùltimas atravessado grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do rio Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por três de fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto. Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e cargas com grande morosidade, porque a pequena embarcação não tinha capacidade para mais de cinco pessôas, ainda que o poder de fluctuação da sua caixa de ar era muito superior. Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno apaülado, e nu de arvorêdo, mandei pedir ao sova do Gando, para me dar algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente. Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha á minha disposição o lombe da sua povoação, que aceitei e onde me fui estabelecer. Chegáram uns prêtos de mando do soveta de Cassamba, a reclamar o presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem reconhecer como vindo da sua parte, traziam a azagaia do sovêta, que de manhã eu lhe vira na mão. É costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e escrita existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma mensagem, para que não se duvide que elles vam da parte de quem os envia. Mandei o promettido presente. O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnìfico boi, ficando muito satisfeito com uma peça de algodão riscado e algumas cargas de pòlvora que lhe dei. No dia immediato levantei campo logo de manhã, e duas horas depois, fui acampar 1 kil. a Oeste da povoação de Muzinda. Antes de partir, mandei soltar, e pôr na outra margem, o meu prisioneiro branco, já impossibilitado de me fazer mal, porque, passando o Cuqueima, eu estava fora das terras do Bihé. Mulhéres Ganguellas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam os Dentes incisivos.] Viéram ao meu acampamento muitas mulhéres da povoação de Muzinda, algumas das quaes traziam a cara pintada de verde, sendo dois riscos transversaes sôbre a testa, de orelha a orelha, e outros dois, descendo d'esses, cruzando-se entre os olhos, passando aos lados do nariz, ligados por um sôbre o labio superior. Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa distancia, arremedam um chapéo de dama Europea. Tôdos os homens cortam em triàngulo os dois incisivos da frente na maxila superior, formando uma abertura triangular com o vèrtice apoiado na gengive. Esta operação é feita com uma faca em que vam batendo pequenas pancadas. Deu-me um indìgena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent. de comprido por 50 milimetros de diàmetro, affirmando-me que a producção d'aquella rica gramìnea é abundante ali. Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para àlém do Cuanza comprar cêra a trôco de peixe sêco do Cuqueima. Estes indìgenas andam quasi nus, tendo por ùnico vestuario duas pequenas pelles, que pendem de um estreito cinto de couro. As mulhéres, essas andam ainda um pouco menos cobertas! O sovêta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que eu retribui com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando. A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da povoação de Liuíca. N'aquelle ponto o Cuanza é mais modesto do que o Cuqueima, porque tem 50 metros de largo por 2 de fundo, com uma corrente de 15 metros por minuto. O seu leito é de area branca e fina, e notavel a transparencia das suas àguas. O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a três kilòmetros de largo, que encosta de um e outro lado a pequena elevação de vertentes dôces, cobertas do arvorêdo. Na planicie vegetam gramìneas altissimas, tão bastas que difficil é romper por entre ellas. O terreno da planicie é mais ou menos pantanoso. Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgião Chacaiombe, tinha, logo que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do que aquelles que construia só para uma noute. Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de entre Cuqueima e Cuanza, e que é elle mesmo tributario do sova do Bihé, a quem só obedece quando lhe faz conta; porque não teme os seus ataques, sendo-lhe facil defender a linha do Cuqueima, e sendo a maior parte, senão tôdos, os barcos que navegam ali, das povoações Ganguelas. Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me não dar um boi, por ser a sua povoação muito distante. Recebi tambem a visita do sovêta de Liuíca, que me offereceu um boi. Este sovêta, homem de boa feição, frequentou muito o meu campo durante a minha permanencia na sua vizinhança. Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali. Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque Pépéca o matasse com um tiro. Elle olhou para a criança e aceitou. O Pépéca, sofrivel atirador ensinado por mim, tomou a carabina, e fez fôgo a um boi que ia mais separado dos outros, e que cahio fulminado. Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o sovêta disse-me que mandasse tomar conta do boi, e lhe desse a pelle, e um bocado de carne para elle comer, o que eu fiz logo. Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente raça dos outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza. No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que não posso deixar de narrar aqui. Andava eu fora, quando alguns dos meus prêtos viéram encontrar-me com um mulato, desconhecido para mim, que me disséram ser chefe de uma comitiva, que me vinha procurar, para me pedir licença de ir comigo até ás margens do rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para segurança sua. Consenti no pedido, ainda que não de bom grado. N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros até tarde, e sentados á porta da minha barraca, discursàvamos sôbre as probabilidades que haveria de ser bem succedido o meu cirurgião Chacaiombe na sua empresa, quando eu senti para uma parte do campo um tinido singular. Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que era aquillo, e mandei lá o meu Augusto. Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas do pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de escravos chegados n'essa noute do Bihé. Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto três ou quatro pombeiros que estavam junto de mim. Contive a còlera que me dominou por um momento, e mandei chamar o meu hòspede. Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de mim. Perguntei-lhe ¿o que era aquelle bater de ferro? Respondendo-me elle, que era a acorrentar umas cabecinhas que levava para vender no sertão. ¡No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza, acorrentava-se uma leva de escravos! Continuei a fazer um grande esforço para me conter, e disse ao pombeiro, que fosse soltar tôdos aquelles desgraçados e m'os trouxesse livres. Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso alvar. Perdi então a paciencia, e a raiva contida a custo transbordou violenta. Cego de furor, lancei-me por sôbre a fogueira áquelle boçal mulato, e já a minha faca o ia ferir de morte, quando vi, que algumas espingardas dos meus Quimbares lhe ameaçavam a cabeça, e por um d'esses reviramentos tão vulgares como ràpidos no meu espìrito, só pensei em salvar-lhe a vida. Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado tôda a minha gente, e ameaçavam exterminar tôda a comitiva Bihena. Eu, que conhêço a ferocidade dos negros logo que se sentem fortes, tremi pela vida dos inocentes que podiam ser immolados. Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e á excepção de 5 dos meus pombeiros que assistíram ao comêço da scena, tôdos ignoravam o que era aquillo, e só proferiam palavras de morte. Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir. Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os á minha presença, assim como tôdas as correntes e prisões que encontrassem nas barracas onde elles estavam. Mandei lançar ao rio Cuanza as prisões de ferro, reservando só aquellas com que prendi os prêtos, guardas da leva. Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os seus guardas presos o tempo sufficiente para os não poderem alcançar. Desapparecêram tôdos, excepto uma pequena, que quiz ficar comigo, por não saber onde ir; e só na occasião de deixar o meu acampamento soltei e dei liberdade aos chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos. Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgião, e na noute d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87, separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha aquellas que estavam irremediavelmente condenadas. Declaro que é difficil tal escolha. Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador, é escolher entre as cargas, indispensaveis tôdas, aquella que hade dispensar. Se não é mais difficil, é pelo menos tanto como achar o modo de determinar uma boa longitude. Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, tôda a alimentação que para mim levava, e parte da que levava para a minha gente, e algumas cargas de missanga que os meus companheiros me haviam cedido, e que, comprada em Loanda, era de valor problemàtico nos sertões em que me ia internar. Se no dia 14 de manhã não tivesse novas do Chacaiombe, as cargas condenadas seriam destruidas, queimando umas e lançando outras ao Cuanza. ¿Para quê? me perguntarám os meus leitores. Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertões da Àfrica, onde tivér de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar inaproveitaveis tôdos os objectos que fôr forçado a abandonar, e isto por duas razões, uma que diz respeito á sua propria gente, e outra ao gentio dos paizes que atravessa. Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa da carga abandonada, tôdos os dias terá carregadores doentes, que o obrigarám a abandonar cargas, para d'ali retirarem objectos em proveito proprio; organizando assim um industrioso roubo permanente. Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por falta de carregadores, não deixará de ministrar ás comitivas futuras, na muita capata que lhe offerecem, um tòxico qualquer, que, se não matar, os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas em seu favor; o que não fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que houvér de ser abandonado é inutilizado. Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz uso. No dia 14 de manhã, não tendo noticia do Chacaiombe inutilizei 61 cargas! RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO. O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bihé. Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de exploração se pode colher de dados geogràphicos e topogràphicos. Muitos dos pontos marcados sam determinados astronòmicamente, sendo os intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e projecção das distancias percorridas, distancias avaliadas pelos pedòmetros e pelo tempo gasto a percorrel-as. As posições do Benguella, Dombe, Quilengues, Ngola e Caconda, que empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens, e como eu apenas tinha os resultados dos càlculos, ahi os designo taes como m'os deu o Ivens, sem as observações iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as posições astronòmicamente determinadas por mim vam precedidas das observações iniciaes. Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos trabalhos que tìnhamos começado, não podendo fazer observações de inclinòmetro e fôrça magnètica, porque os ùnicos instrumentos que para isso levàvamos ficáram em poder de Capello. Começarei a expor os meus trabalhos pela determinação das coordenadas geogràphicas de Caconda á margem esquerda do Cuanza, onde pára a minha narrativa no precedente capìtulo. No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se poderem verificar os resultados que designo. Todas estas observações calculadas em Àfrica fôram recalculadas em Londres pelo 1^o tenente calculador da marinha ingleza, Selwyn Sugden. *Quadro das Observações Astronòmicas feitas pelo Major Serpa Pinto entre Caconda e o rio Cuanza*. É muito notavel que a primeira longitude que determinei em Belmonte pelo chronòmetro é muito pròximo da verdadeira obtida pelo trànsito de Mercurio. Esta longitude muito pouco differe tambem da obtida pelo eclipse do 1^o Satèlite de Jùpiter a 23 de Abril. Não inclui n'este quadro as innùmeras observações feitas para estudar as marchas dos chronòmetros, que publicarei em separado um dia. Nos estados dos chronòmetros a grande differença que se nota entre alguns provém do pertencerem a differentes chronòmetros. Como se vê, o instrumento empregado por mim foi o sextante com o horizonte artificial de mercurio, que outro não tinha, tendo ficado em poder dos meus companheiros o Abba, ùnico theodolito universal que possuìamos. Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bùssolas azimutaes eram fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz Barão de Barth. Os meus chronòmetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de algibeira, e um, que, depois, de Benguella me enviáram ao Bihé, de marinha, tambem de Dent. Este ùltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre tudo o que eu designo com a letra S, nos càlculos. Das altitudes muitas sam determinadas pelo hypsòmetro, e outras pelo aneroide, cotisado com o hypsòmetro. Essas altitudes vam marcadas na carta em metros. A carta do paiz do Bihé, muito grosseira e incompleta de certo, foi levantada á bùssola, nas minhas excursões venatorias; mas, ainda assim, possue a sufficiente exactidão para se julgar do paiz, e prouvera a Deus que as cartas de pontos muito mais pròximos da costa em que dominamos, estivessem tão pròximas da verdade como ella. Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar ràpidamente do paiz que ellas representam. De Benguella ao Dombe, como se vê, costeei o mar, em terreno calcàreo, abundante de minèrios diversos. As àguas faltam ali na estação sêca, e apenas o valle do Dombe Grande tem a sufficiente para ser enormemente productivo. A vegetação, sem ser pobre, não tem, todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes. Entre Benguella e o Dombe apenas se encontra àgua potavel n'um pequeno charco na Quipupa. [Mappa 3.--Entre Cubango e Cuanza] O paiz é abundante de caça, e encontra-se n'elle grande variedade de antìlopes, sendo os mais vulgares o Strepsiceros kudu , o Cephalophus mergens , o Cervicapra bohor , e o Oreas canna . Nas rochas de carbonato de cal que formam o systema orogràphico do Dombe Grande, abundam os hyrax , e na planicie, entre as grandes e pomposas plantações de mandioca, vivem muitos hystrix , maiores um pouco do que os da Europa, e que causam ali grande estrago nas terras cultivadas. O valle do Dombe Grande é de certo a melhor porção de terreno da provincia de Angola. As suas condições de salubridade não sam más, e o solo é de grande fertilidade. Um porto de mar, o Cúio, dista apenas alguns kilòmetros do maior centro de producção. As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e já tem estado em exploração, sempre em pequena escala, por falta de capitaes. Ha ali enxôfre e cobre. A população indìgena é de bôa ìndole e trabalhadora, tanto quanto o pode ser um prêto abandonado a si mesmo. Entre o Dombe e Quilengues o paiz é deserto. Pelo caminho que segui há falta de àgua, e a vegetação, pobre ao principio, toma luxuriante esplendor ao passo que nos approximamos de Quilengues. Seguindo o curso do rio Coporolo não ha falta de àgua, e ouvi dizer, que se encontra sempre uma vegetação rica. Contudo, o paiz mesmo por ali não é habitado. Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam elevando gradualmente até atingir 900 metros em Quilengues. No rio Canga começa o terreno granìtico, e com elle uma vegetação mais pomposa. Todos os rios designados no Mappa até Quilengues sam apenas torrentes na estação chuvosa, mas em muitos é possivel encontrar àgua na estia, cavando poços nos seus leitos arenosos. O proprio Coporolo está sujeito a esta condição de pobreza. Quilengues é um extenso e fertil valle, em condições iguaes ao do Dombe; tendo por em quanto muito menos valor, por falta de communicações com a costa. A sua população é densa, e nas suas campinas pastam milhares de cabeças de gado vaccum de excellente raça. Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra os Mundombes sam sempre vencedores; o que os não impede de serem vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente. Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei de Portugal, mas não sam tão submissos como os Mundombes. Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis communicações o ligarem á costa, á Huila e a Caconda, e quando fôr administrado como o deve ser. De Quilengues a Caconda o caminho é por Caluqueime, paiz muito povoado; mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa. Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de Quilengues, que se eleva ràpidamente a 1750 metros, e que eu passei na parte chamada Monte Quissécua. Ali começa o grande planalto da Àfrica Austral, e d'ali ao Bihé a planicie enorme conserva aquella altitude, tendo apenas ligeiras depressões nos leitos dos rios, e um ou outro pequeno systema de montanhas isoladas. D'este planalto já correm rios permanentes, sendo o primeiro que encontrei n'estas condições affluente do Cunene. A vegetação arbòrea no planalto não é já tão forte como em Quilengues, mas a herbàcea é mais rica, se é possivel sel-o. O terreno continúa granìtico, e começa a apparecer n'elle maior abundancia de termites. As ùnicas povoações que se encontram no caminho que segui sam Ngola e Catonga, de que ja falei detidamente. Em Caconda o paiz é um pouco mais accidentado, devendo ser não menos rico e productivo do que o de Quilengues. É cortado de rios permanentes, que o regam em todas as direcções, affluindo ao Catapi, affluente do Cunene. A febre miasmàtica é endèmica em Caconda, como em Quilengues e como na costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno, e raras vezes faz vìctimas. Eu julgo Quilengues nas mesmas condições de salubridade de Caconda. As condições climatològicas do paiz de Caconda é que já differem essencialmente das da costa, e mesmo das de Quilengues. Apenas 13° e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser ardente, é temperado pela altitude enorme a que se encontra; mas está por isso mesmo sujeito ás bruscas mudanças que se dam entre o dia e a noite em todo o planalto. Ha ali uma luta constante entre a altitude e a latitude, sendo que esta impera de dia quando um sol a prumo dardeja raios de fogo, e aquella de noute quando uma altura de 1700 metros nos faz viver n'uma atmosphera tão rarefeita. Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria òptimamente em Caconda, se uma màchina em contacto com um thermòmetro, nos fosse deitando cobertores na cama á medida que o thermòmetro descesse, durante o somno. Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute dá-se quando o sol tem declinação Norte, porque durante o tempo em que elle anda ao sul do Equador é ella muito menor. Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas infelizmente não o sei de sciencia propria, que nenhumas ali encontrei; todavia, creio que se poderám ali aclimatar. A batata é muito boa e produz muito, não só ali como em todo o planalto; mas é tão difficil o seu transporte para Benguella, que a batata que se consome ali vai de Lisboa. Ha muito boa hortaliça e legumes da Europa, que se dam bem em todo o planalto. Perto da fortaleza, a população é rara, mas a uma certa distancia está condensada; sendo governada por chefes independentes. De Caconda ao Bihé o paiz é muito populoso, e, se menos pastores do que os povos até Caconda, sam um pouco mais agricultores. Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos, mais aguerridos e independentes. Os terrenos, como se vê no mappa, sam cortados de rios que dividem as suas àguas para tres grandes arterias, o Cunene, o Cubango e o Cuanza. Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que chamam no paiz a Enhana de Ambamba, terreno alagadiço onde nascem cinco rios importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul. Dos que vam ao Norte, um é o Québe, que vai entrar no mar por 10° 50' de Latitude S., junto ás Tres Pontas, entre Novo Redondo e Benguella Velha. Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro é o Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza. Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos Ganguelas, que se une ao Cubango. O maior systema de montanhas que encontrei é uma serra que corre de N.E. a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o Caláe e o Cuçúce, que se unem para affluir ao Cunene. Uma grosseira observação do aneroide indicou-me o seu cume a mais de 2500 metros acima do nivel do mar. Fazendo excepção á minha regra de não baptizar em Àfrica rios ou montes, dei a esta serra o nome de Andrade Corvo, por ser designada no paiz apenas por serra do Huambo. Não encontrei entre os indìgenas vestigios de ter o paiz outro minerio àlém do ferro, o que não quer dizer que o não haja. O terreno é ainda granìtico, e o solo pode dizer-se que em muitos pontos é de formação animal, pois que é construido pelas termites. Àlém da disposição especial que encontrei no terreno termìtico das margens do Cutato dos Ganguellas, encontram-se 4 differentes construcções termìticas, que suponho pertencerem a 4 differentes especies. Montes termìticos, dos terrenos entre a costa e o Bihé. 1 e 2 tem altura entre 2 e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.] Ha abundancia de caça, sobre tudo nas faldas da serra de Andrade Corvo, entre o Caláe e o Cuçúce, que nunca vi tanta em Àfrica, a não ser no Zambeze. Alem dos antìlopes que já citei falando do Dombe, abundam ali o Hippotragus equinus , o Catoblepas taurina , e o Bubalus Caffer . As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo um sem-nùmero de especies da Acacia. Ha muito poucas plantas trepadeiras. Passamos a linha divisoria das àguas entre o Cubango e o Cuanza, e entramos no paiz do Bihé, de certo o mais importante do Sudoeste d'Àfrica. O paiz do Bihé, de cujos povos falo detidamente no capitulo anterior, é cortado por dois rios importantes, ainda que innavegaveis, o Cuqueima e o Cuito. Innùmeros riachos sulcam em todas as direcções o terreno, e vam affluir áquellas arterias principaes. O clima é igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas condições atmosphèricas. O terreno é granìtico e de uma admiravel fôrça productiva. As pastagens sam òptimas para todos os gados. É pobre de caça; mas, em compensação, é desinfestado de feras. Não creio muito que seja rico em productos mineralògicos, porque a sua densa população não tem encontrado vestigios de minerios ricos, e eu tenho visto em Àfrica, que os primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o chumbo e o ferro sam os indìgenas. No Bihé o que é verdadeiramente rico é o terreno, e não sei de paiz Africano que mais podesse prosperar pela agricultura e commercio. A raça Europea vive ali muito bem, e o producto do cruzamento d'ella com as raças do paiz é physicamente admiravel. Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das condições climatològicas, e sobre tudo no primeiro mez, em que o pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de sahir, observei regularmente o baròmetro e o thermòmetro de 3 em 3 horas durante o dia. Adiante apresento um quadro d'essas observações, durante trinta dias, fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota durante o dia é devida á estação do anno em que fôram feitas as observações, estação que corresponde ao nosso outono. As chuvas tẽm duas èpochas, com uma interrupção de estiagem que se dá em Dezembro e Janeiro. As primeiras chuvas cahem em meado de Outubro, e duram até principio de Dezembro, sendo mais moderadas do que as segundas que cahem do fim de Janeiro ao principio de Março. Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na estação chuvosa as maiores tormentas que observei vinham do oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas vẽm sempre, sobre tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros elèctricos, e cahem no meio de terriveis trovoadas. O seguinte quadro apresenta as minhas observações desde o dia 25 de Março ao dia 23 de Abril de 1878. Por esta serie de observações se vê quão ameno é o clima do Bihé n'esta èpocha do anno. É muito notavel a marcha diurna do baròmetro, que ali é inalteravel em presença das mudanças bruscas da atmosphera. Um boletim meteorològico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou 1^h. 50^m. do logar, completa o estudo atmosphèrico d'este paiz n'aquella èpocha. Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado durante toda a viagem, tendo apenas as interrupções provenientes de doenças ou de estorvos occasionaes. O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco até ao Cuqueima, na parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do Cuqueima eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza. Na parte leste do paiz reapparece a vegetação arbòrea mais rica, e ha pequenas mas densas florestas. Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bihé e Benguella, não existe o zé-zê, esse flagello de muitos pontos da Àfrica Austral, que, matando o cavallo e o boi, priva o homem de dois dos seus maiores auxiliares na vida pràtica. Uma especie de epizotia, que no paiz chamam cahônha , ataca o gado bovino e lanìgero; não fazendo ainda assim os estragos que na Europa e outras partes d'Àfrica produz a epizotia. *Boletim meteorològico feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do Bihé*. Não existe ali a molestia que mata tantos cavallos no Transvaal e no Calaári, a que os inglezes chamam Horse-sickness . Em toda a parte o gado suino prospera e desenvolve-se como na Europa, sendo facil a conservação da carne, o que já não acontece perto da costa. O paiz até ao Cuanza, e ainda para àlém, tem grande carencia de sal, sendo todo o que ali se gasta proveniente da costa. Não ha minas de sal gemma, e as àguas, mesmo as das lagoas, sam potaveis. N'este succinto resumo, procurei compendiar o resultado das minhas observações, dando uma noticia geral do paiz, e terminarei com um curto juizo meu ácerca d'elle. Collocado em uma posição geogràphica muito differente da do Transvaal, o paiz comprehendido entre a costa e o Bihé, aproxima-se d'elle pelo clima, e possue um solo mais fertil. A comparação entre a mesma planta vegetando nos dois paizes indica isso. Tem uma população indìgena muito mais condensada do que a do Transvaal e muito mais agricultora. Não é menos abundante em boas pastagens, e é mais rico em florestas. O Transvaal possue uma grande riqueza mineralògica, que escaceia ali; mas eu creio que estará reservado a este paiz um futuro mais pròspero do que áquelle, porque o Transvaal está isolado do resto d'Àfrica pelos desertos àridos e pela mosca zé-zê, em quanto estes terrenos estam em facil communicação com um interior quiçá mais rico. [Figura 29A.--Viagem ao Cunene. 1. Ràpido da Libata Grande. 2. Ràpido de Canhacuto. 3. Ràpido de Quiverequete.] CAPÌTULO VII. ENTRE OS GANGUELAS. No dia 14 de Junho, como eu tinha decidido, levantei campo, e ás 10 horas comecei a passagem do Cuanza, que durou duas horas. Passagem do Cuanza.] Prestou-me valiosos serviços o meu barco de cautchuc da casa Macintosh de Londres; mas ainda assim, o sova de Liuíca emprestou-me quatro canôas, que muito me auxiliáram. Não houve o menor accidente durante a passagem, e ao meio dia seguia a leste internando-me no paiz dos Quimbandes. Tendo passado junto das povoações de Muzeu e Caiáio, fui acampar pelas 2 horas a E.S.E. da povoação de Mavanda, junto da nascente do riacho Mutango, que corre a N.O. para o Cuanza. As povoações ali não sam já tão sòlidamente fortificadas como as de àlém Cuanza. Os Quimbandes formam uma confederação, sendo o paiz dividido em pequenos estados, que se unem sempre para protecção mùtua. Todas as numerosas povoações em tôrno do meu campo obedecem ao sova Mavanda, que é tributario do sova do Cuio ou Mucuzo, na mesma margem do Cuanza um pouco ao N. A cousa que primeiro me ferio a attenção entre os Quimbandes, foi o penteado das mulhéres, que sam as mais extraordinarias que tenho visto. Algumas entrançam o cabello de forma que, depois de ornado com buzio (caurim), assimelha um chapéo de dama Europea. Homem e Mulhér Quimbande.] Outras dam-lhe tal forma, que parecem trazer na cabêça um capacete Romano. O buzio (caurim) é distribuido ou accumulado com profusão nas cabeças feminiz, e o coral branco ou encarnado aparece ainda, mas muito mais raramente, do que entre os povos de Oeste-Cuanza. O cabello, n'estes penteados estupendos, é fixo com um cosmètico nauseabundo, massa formada de tacula em pó e òleo de ricino, que lhe dá uma côr avermelhada. O òleo de ricino é preparado em grande quantidade entre estes povos. Depois de extrahirem as sementes do Ricinus communis , dam-lhe uma ligeira torrefacção e reduzem-n-as a pó. Este pó conservado por muitas horas em àgua ebulliente, fornece o òleo, que a frio é separado grosseiramente da àgua, e guardado em cabaças pequenas. Raparigas Quimbandes.] Estes povos não o empregam como purgante. Notei logo, que o typo feminino entre os Quimbandes se approxima um pouco do typo caucasio, e vi algumas mulhéres que se poderiam chamar bonitas se não fossem prêtas. Logo que cheguei, mandei um pequeno presente ao sova Mavanda, que me agradeceu muito, mandando contudo pedir-me uma camisa. Igual pedido me tem sido já feito por outros, o que mostra a tendencia que tẽm para se vestirem. Os homens Quimbandes cobrem a sua nudez com duas pelles de pequenos antìlopes que cahem adiante e atraz de um largo cinto de couro de boi. Só os sovas usam pelles de leopardo. As mulhéres andam quasi nuas, e algum farrapo de pano, ou de liconte, substitue a folha de vinha clàssica. No dia seguinte logo de manhã, viéram uns portadores do sova dar-me parte, de que a gente que eu esperava chegara de noute á outra margem do Cuanza, onde estavam acampados. Não dei o menor crèdito á noticia, porque, já conhecedor das manhas do gentio, sabia que elles tẽm costume de indagar o que mais desejamos, para nos virem burlar com uma noticia agradavel e pedir alvìçaras. Contudo, disse ao indìgena que me certificou tel-os visto, que fôsse a elles, e pedisse ao Doutor Chacaiombe, que me mandasse um signal seu para ficar certo de que vinha a caminho. Ainda de manhã, o sova Mavanda mandou-me uns enviados dizendo, que sahia n'aquelle dia a combater uma povoação vizinha onde um seu sùbdito se revoltara contra o seu poder, e ao mesmo tempo pedindo-me que o auxiliasse n'aquella campanha. Recussei dar-lhe auxilio, mas procurei fazel-o de modo a não me indispor com o sova, o que consegui com bôas razões. Seria meio-dia, quando passou junto ao meu campo o exèrcito de Mavanda. Á frente ia, em pau muito alto, uma bandeira tricolor como a Francesa, mas com as cores invertidas. Depois seguiam-se dois homens levando a pao e corda uma enorme caixa de pòlvora, provavelmente vazia. Seguia-se o sova rodeado dos seus grandes, e após este estado maior o exèrcito a 1 de fundo. Seriam uns 600 homens armados de arcos e frechas, levando ao tôdo 8 espingardas. Alguns passos á frente da bandeira, dois prêtos tocavam os tambores de guerra, fazendo um barulho infernal. Ao anoutecer voltou o exèrcito sem ter combatido; porque o inimigo rendeu-se á discrição. Logo que passáram o meu campo, principiáram a fazer exercicio, simulando um ataque á povoação do règulo. Estendéram em linha de atiradores, tomando a bandeira o centro da linha, e sempre atraz d'ella a caixa da pòlvora e o sova. Esta grande linha singela, porque cada homem estava isolado, começou a envolver a povoação, já avançando, já recuando, sempre em accelerado. A uma vóz do sova, precipitáram-se sôbre a povoação, dando saltos enormes, e fazendo tôda a especie de momices que usam para aterrar os adversarios, com uma grita infernal. Quando eu pensava que elles iam direitos a suas casas atacar o jantar, vejo que voltavam á posição que tinham antes do ataque, e que reunidos á voz do chefe, entravam na povoação na mesma ordem de marcha em que tinham sahido. Á noute voltou o Quimbande a dizer-me, que estêve com o meu doutor, mas que elle não lhe quizera dar signal algum para mim. Vi que se verificavam as minhas previsões, e que era tudo falso. O meu acampamento dava-me serios receios, porque, coberto de erva sêca, podia incendiar-se de um momento a outro, e os meus prêtos, transidos de frio, não calculavam o perigo, e alimentavam dentro das barracas fogueiras enormes. Desde o rio Cuqueima até Mavanda, e ainda mais àlém, produz vigorosamente a cana de assucar e o algodoeiro. Os Quimbandes cultivam o algodão, que fiam para fazer linhas onde enfiar o buzio e a missanga. No dia seguinte, continuáram a asseverar-me, que os carregadores estavam na margem do Cuanza, e não podiam passar o rio por não lhes emprestarem as canôas as indìgenas d'ali. Decidi-me a mandar lá o Augusto, acompanhado de um guia Quimbande. Pelas 11 horas, chegou um enviado do sova, a participar-me que este viria visitar-me. Pouco depois chegava Mavanda, rodeado da sua côrte, e se ficou espantado a olhar para mim; eu não fiquei menos a olhar para elle, porque era o maior homem que tenho visto em minha vida. A uma altura enorme reunia uma grossura e gordura verdadeiramente phenomenal. Cobria a cintura com um panno usado, sobre o qual cahiam três pelles de leopardo. Muitos amulêtos lhe pendiam de um collar de missangas. Se Mavanda é grande, possue coisas grandes tambem, porque me trazia de presente o maior boi que vi em Àfrica. Depois dos extensos comprimentos do costume, elle disse-me ex-abrupto, que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao rebanho de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe, prenoitando ás vezes fora do curral, e sendo, nas florestas em que se acoutava, atacado por feras que lhe causavam grande damno. Dei-lhe immediatamente o remedio com um conselho, e foi elle, o de ter um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse guiado ás pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Elle não achou mao o conselho, e disse-me, que apesar de ser contra os usos do paiz o fazer vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para evitar as contìnuas perdas. Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante d'elle, e vi-o com prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito satisfeito, e nos melhores termos de amizade. Logo que se retirou o sova, chegáram uns enviados do sova Capôco com uma carta para mim. Dava-me noticia do Chacaiombe, e dizia-me, que me mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir, que fôsse comigo uma comitiva sua, que desejava enviar aos sertões do Zambeze a fazer negocio. Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os carregadores, não contando muito, ainda assim, que elles viessem, e n'esse sentido respondi ao sova Capôco. Em vista d'aquella deliberação, ordenei a reconstrucção do acampamento para o dia seguinte, mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes, com receio de um incendio. Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos.] No dia seguinte, houve grande actividade na reconstrucção do campo, que estava prompto ao meio-dia, apresentando um bonito aspecto. O campo era formado de barracas cònicas, de troncos de àrvore, medindo três metros de diàmetro na base, por dois e meio de alto. A minha barraca, feita pelos Bihenos com mais esmero do que as outras, media cìnco metros de diàmetro na base, por três e meio de alto. Esqueleto da Barraca.] O acampamento era formado por uma linha circular de barracas, ligadas por uma fileira de abatizes de àrvores espinhosas. A minha barraca occupava o centro, e em frente d'ella as cargas estavam em pilha. A minha gente de serviço estabeleceu o seu campo em tôrno de mim, ao alcance da voz. Tinha finalizado o trabalho do campo, quando me viéram avisar de que uns enviados do sova do Gando me procuravam. Mandei-os vir à minha presença, e conheci em um d'elles um dos grandes do sova, que tinha visto junto d'elle no Gando. Traziam-me uma carta, e uma encomenda, que não sei que sovêta lhe tinha enviado para mim. Abri a carta, e vi ser ella do meu amigo Galvão da Catumbella, que me enviava um presente, que tinha dirigido ao Bihé, julgando que eu estivesse ainda ali. A bôa harmonia que eu tinha guardado com as povoações por onde passei, fez com que aquella carta e o presente chegassem até mim vindo de mão em mão. Abri a caixa, e encontrei uma porção de passas de Màlaga, que viéram a propòsito adoçar um pouco a monotonia da minha já bem pobre alimentação. Barraca concluida em uma hora.] Na carta dava-me elle algumas noticias da Europa, as ùltimas que tive até chegar a Pretoria. Pensei n'isso então; e, quam profunda não foi a minha tristeza ao lembrar-me de quanto tempo teria de ficar sem noticias dos meus, noticias que já me faltavam havia tanto! Deitei-me debaixo de uma triste impressão de saudade. Ao alvorecer, viéram avisar-me, de que uma pequena comitiva, capitaneada por um prêto, levando cêra, se dirigia ao Bihé. Mandei chamar o chefe, e pedi-lhe que me levasse uma carta, que entregaria a alguem no Bihé, pedindo-lhe que a fizesse chegar a Benguella. Elle accedeu, dizendo-me logo, que não se podia demorar, porque queria ir dormir junto ao Cuqueima. Tinha pouco tempo; ¿a quem escrever? Não podia perder este portador do accaso para dizer aos meus: Ainda sou vivo. Peguei na penna, e escrevi algumas linhas ao Doutor Bocage. Na carta inclui dois pequenos bilhetes, um para minha mulhér, outro para Luciano Cordeiro. O chefe da pequena caravana, já impaciente, recebeu a carta e partio. Hôje sei que aquella carta chegou á Europa, e foi recebida pelo seu destinatàrio. Como ella foi do Bihé a Benguella não sei. Era essa protecção que tinha levantado em volta de mim Silva Porto, que ainda se fazia sentir. O sova Mavanda passou o dia comigo, e conversámos muito. Eu dei-lhe alguns pequenos objectos, e entre elles uma caixa de fòsforos, com que ficou maravilhado. Na occasião de retirar-se, disse elle aos seus macotas estas palavras, que me impressionáram pela figura empregada. "Não vêdes de longe um pàssaro que vôa muito alto, e vai pousar em àrvore distante, e dizeis é uma rôla; depois caminhaes e abeirais-vos d'elle, e ficais admirados do tamanho; era uma àguia. Assim foi o Manjóro (nome que me davam); passou ao largo da povoação, e nós dissémos é a rôla; agora vivemos com elle e conhecemo-l-o, e dizemos, é a àguia." Nos passeios que dei nas cercanias, perseguindo os antìlopes, que sam escassos, levantei a carta do paiz, ou antes, pude concluir a carta do paiz comprehendido entre o Cuqueima e Cuanza. O sova Mavanda mandou-me dizer, que o maior pedido que me podia dirigir era, o de lhe eu dar um par de calças. Resolvi logo fazer-lhe a vontade, e chamei o velho Antonio. Arvorei-o em Alfaiate, cousa que muito o sorprendeu, e enviei-o a tomar medida ás calças do sova. Talhei depois as calças, que fôram cosidas pelo velho Antonio, e leváram 5 jardas de algodão largo!! Este rei é um verdadeiro hippopòtamo, mas muito boa pessôa. No dia 20 de manhã, veio um enviado do sova dizer-me, que, por ser então a èpocha em que festejam uma especie de carnaval, o sova, para me fazer honra, viria ao meu campo mascarado, e dançaria diante de mim. [Figura 35A.--Ganguelas á Quimbandes.] Pelas 8 horas, chegáram os batuques, e juntou-se grande concurso de pôvo. Meia hora depois, appareceu o sova, com a cabêça mettida em uma cabaça, pintada de branco e prêto, e o enorme corpo augmentado por uma armação de varas coberta de liconde, igualmente pintado de prêto e branco. Um saio de clinas e caudas de animaes, completavam o trajo. Logo que elle chegou, os homens formáram em linha, com os batuques a traz, e as mulhéres e rapazis desviáram-se para longe. Começáram os batuques, e os homens immoveis do corpo, cantando as suas monòtonas toadas e batendo as palmas. O sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu campo.] O sova foi collocar-se a uns trinta passos em frente da linha, e começou uma brutesca dança, em que parecia fera enraivecida; conquistando os maiores applausos da sua e da minha gente. Meia hora depois, correu, e foi sumir-se na sua povoação, sendo seguido pelos seus. Pouco tempo mais tarde, voltou ao meu campo, já sem o seu trajo feroz, e andou comigo até á noute. Decididamente eu tinha-lhe cahido em graça. Tinha aproveitado tôdo o tempo que podia tirar aos meus trabalhos, dando melhor arrumação ás cargas, tendente a diminuir o nùmero d'ellas. A fazenda que tinha era já quasi nenhuma, e tôda a minha riqueza monetaria consistia em um saco de buzio e na missanga comprada ao José Alves; mas o gasto, para sustentar a minha gente, era grande, e eu via com horror a diminuição do meu pequeno haver. No paiz a caça era pouca e miüda, pois apenas se encontravam algumas gazellas ( Cervicapra bohor ). Mulhér Quimbande carregada.] ¡Quantas vezes a pobre rima pouco volumosa das fazendas e missangas me não despertava uma atroz angùstia! ¡Quantas vezes uma dôr pungente me não cerrava o coração, fazendo-me antever um futuro bem sombrio! ¡Quantas vezes ficavam sem resposta as caricias da minha cabrinha Cora, e os cantares folgazãos do meu meigo papagaio, que voava para o meu hombro pedindo-me uma meiguice! ¡Quantas vezes uma fé sem limites me invadia o coração, e o desalento era banido do meu ànimo! A razão queria lutar contra esses raios de infundada esperança que me alegravam o espìrito; mas essa esperança era tão tenaz que procurava argumentos e sophismas para combater a razão. Sam momentos indescriptiveis, essas lutas do espìrito, estando o homem isolado, sendo elle mesmo o pro e o contra das suas idéas, sem um amigo, ou um inimigo, que lhe adule um pensamento ou lhe combata outro. Fui joven e tive amores, e com elles as penas dos amores; fui pai, e vi morrer-me nos braços uma filha que adorava; mas confesso que nunca senti n'alma tão profunda tristeza, tão cruel melancolia, como a que por vezes, em dias aziagos, experimentei em Àfrica. Só! sózinho, no meio de uma multidão ignara, e estridente, cuja lìngua e falares não comprehendia, tinha momentos horriveis, que se traduziam logo em febre e doença! Não conto como soffrimento as fomes, as doenças, a miseria. Não! que homem é e deve ser superior á materia bruta, que deve dominar, para se afastar do irracional. O soffrimento é a dùvida. O soffrimento é não saber como se hade vencer o abysmo que a razão nos mostra cavado ante os passos que queremos dar. O soffrimento é ver dezenas de pessôas, que nos acompanham cégas, dizendo: "Elle sabe o que faz;" e que arrastamos com-nosco ao abysmo! O soffrimento é a responsabilidade tremenda da missão que nos imposémos. Se me não importava hôje muito que os meus detractores experimentassem um pouco da fome, da sêde e das privações que passei; não lhes desejo, mesmo a elles, que soffressem a millesima parte do que eu soffri moralmente. É verdade, que, para soffrer como eu soffri, é preciso ter alma, coração e uma consciencia. A carta que de Mavanda escrevi ao D_or. Bocage, ressentia-se já do que eu soffria então. Foi escrita n'um dos meus dias nebulosos. Deixemos porem esta divagação, que pouco interessa; e falemos dos acontecimentos de então. Os Quimbandes fabricam alguns objectos de ferro e de madeira, muito mais perfeitos do que os fabricados no Oeste-Cuanza. [Figura 38. 1. Cachimbo. 2, 2. Facas. 3, 3. Cacetes de guerra.] O frio de noute era muito intenso, e já era grande a differença entre as màximas e as mìnimas. Apesar da carta que recebi do sova Capôco, não acreditava muito na promessa dos carregadores, nem na volta do meu Doutor Chacaiombe; e por isso, ia sempre reduzindo as cargas quanto era possivel; o que só podia fazer distribuindo o conteudo de uma pelas outras. Isto tinha um limite, com o limite do peso que podiam carregar os homens. Estàvamos a 22 de Junho, dia em que expirava o prazo que eu decidira esperar por os carregadores do sova Capôco. A minha angùstia era grande, e só então avaliei bem o mao bocado porque tẽm passado outros exploradores, tendo de abandonar cargas que lhes sam absolutamente precisas. A escôlha é cousa sèria, quando todas se nos afiguram indispensaveis. O pouco que de commodidades eu levava já tinha sido abandonado; o resto de algumas latas de comida dei-as aos muleques. Os meus carregadores, vendo o meu embaraço, pedem-me que os carregue até ao máximo pêso com que podérem caminhar; mas, ainda assim, é impossivel ir tudo. Depois de todas as reducções, e de ter distribuido as cargas, ficam 4 sem carregadores. Sam ellas as duas do meu barco Macintosh, um barril de àgua-ardente, e 50 libras de pòlvora. Decidi abandonar o barco, com grande pesar, e pedir ao sova Mavanda dois homens para me levarem a pòlvora e o barril d'àgua-ardente de acampamento em acampamento, até que dois dos meus carregadores ficassem sem carga, o que não tardaria a succeder pelo grande gasto que faziamos. O sova tomou conta do barco, e deu-me os dois homens que lhe pedi, ficando tudo prompto para seguirmos no dia immediato. Levantei campo no dia 23 ás 8 horas, e depois de três e meia horas, cheguei á margem esquerda do rio Varea, que passei sobre uma soffrivel ponte de madeira. O sovêta de Divindica, povoação que assenta na margem esquerda do Varea, na confluencia do riacho Moconco, veio pedir-me alguma cousa pela passagem da ponte, e dando-lhe eu quatro jardas de fazenda, retirou-se satisfeito. [Mappa 4.--O Paiz dos Quimbandes] O rio Varea corre ali ao N., e vai affluir ao Cuime. Tem 25 metros de largo por 2 de fundo, e pequena corrente, não tendo cataractas a jusante de Divindica. Marquei a uma milha ao sul as povoações de Moariro e Moaringonga. Segui a leste, indo acampar, pelas 2 horas, na margem esquerda do rio Onda, em frente á grande povoação de Cabango, capital dos povos Quimbandes de Leste. Eu levava duas garrafas de vinho do Porto de 1815, resto de um presente do meu amigo E. Borges de Castro, e ao chegar ao ponto em que acampei, o muleque Moero, que as levava, cahio, quebrando-se uma d'ellas, e entornando-se o precioso nectar, sem que se podesse aproveitar uma gôta. Desde Mavanda até ás nascentes do riacho Moconco, cujo curso segui até á confluencia com o Varea, a vegetação arbòrea é esplèndida, e no cimo dos montes que marginam o riacho é tambem pomposa. Para àlém do Varea é ainda mais rica. Desde que passei o Cuanza ouvia falar no rio Cuime, como o rio maior do paiz dos Quimbandes, affirmação que me era confirmada pelos grandes affluentes que lhe ia encontrando, o que me fazia arder em desejos de lhe ir lançar uma vista d'olhos. Do Cuanza a leste o planalto apresenta um aspecto muito differente do que até ali. As paizagens sam mais pintorescas e não apresentam a monotonia do Bihé. Os rios e ribeiros cavam os seus leitos mais fundos, tornando mais sensiveis os accidentes do terreno. As margens dos rios e ribeiros àlém dos limites das cheias, já se apresentam cobertas de vigorosa vegetação arbòrea, e a vegetação arborescente forma barreiras impassaveis nas florestas. Na parte leste do paiz dos Quimbandes, a população começa a rarear. O sova de Cabango é ainda tributario do sova do Cuio ou Mucuzo. Os costumes d'estes povos sam os mesmos dos Bihenos, salvo na actividade, que é entre os Quimbandes substituida pela mais vergonhosa preguiça. Os Quimbandes andam quasi nus, não trabalham, não viajam e não negociam. Poucos tẽm espingardas, por não terem com que as comprar. Já apanham alguma cêra, que os Bailundos lhes vẽm permutar a buzios e missangas, mas isto em pequenissima escala. A terra é cultivada pelas mulhéres, e a sua producção é rica. O que mais tenho visto nas plantações é mandioca e ginguba. Este paiz deve merecer particular attenção. Cortado com rios navegaveis que vam affluir a um grande traço navegavel do Cuanza; tendo um clima magnìfico e ubèrrimos terrenos, onde produz bem o algodão, a canna de assucar, os cereaes e virentes pastagens, occupado por uma população que facilmente se submette, está nas melhores condições de um desenvolvimento ràpido. No dia 24 de Junho passei o rio Onda, e fui acampar na sua margem direita, três milhas àlém do meu campo anterior. O rio Onda tem, em Cabango, 15 metros de largo por 5 de fundo, e vindo de leste corre depois a N.O. a affluir ao Varea. Depois de ter determinado a posição do meu acampamento, fui passear rio acima, e encontrei bastante caça. Logo acima de Cabango, o Onda estreita a 10 metros, mas profunda a 6, tendo uma corrente de 10 metros por minuto; corrente que se estende até ao fundo; o que me foi denunciado não só pela sonda, mas tambem pela inclinação que tomam as plantas que vegetam no fundo; o que se vê facilmente, por serem as àguas muito crystallinas e o fundo de area alvissima. Ditassoa, peixe do rio Onda.] N'este rio não vi outro peixe, a não ser um que os naturaes chamam Ditassoa , e que é soffrivel. Percorrendo as margens do rio, vi, a distancia, um grupo de àrvores que se destacava da paizagem, e que julguei serem palmeiras; mas aproximando-me reconheci um lindo grupo de Fetus arboreos, da mais elegante belleza. As margens do rio sam cortadas verticalmente, e por isso apresentam junto á borda a mesma profundidade que no meio. Retirei do meu passeio, satisfeito com o que vira. O rio Onda era outro rio navegavel, outra estrada natural, que encontrava n'este soberbo paiz. Ao chegar ao meu campo aguardava-me uma agradavel sorpresa. O Doutor Chacaiombe foi a primeira pessôa que veio comprimentar-me. Eu, que julgava não mais vel-o, saudei-o com o maior jùbilo, porque o seu desapparecimento era uma nuvem nêgra na minha viagem. Fetus arbòreos das margens do rio Onda.] Já por vezes tenho falado no Doutor Chacaiombe, e não disse quem era. Este homem foi o adevinho que, em casa do filho do capitão do Quingue, me predisse as cousas mais agradaveis a respeito do meu futuro. Accumulando as funcções de cirurgião com as de adevinho, veio elle estabelecer-se junto a mim no Bihé, e não mais me deixou até que se encarregou da missão de obter carregadores no Capôco, d'onde julguei que não mais voltaria. Depois de muitos comprimentos, annunciou-me Chacaiombe que os carregadores chegariam dentro de dois dias, e eu resolvi esperal-os. O meu Augusto veio dar-me parte, de que o sova de Cabango viera visitar-me, e se retirara muito contrariado por me não encontrar. Mandei logo o pombeiro Chaquiçonde ao sova, pedir-lhe dois homens para mandar a Mavanda buscar o barco que ali tinha deixado, com bem pesar meu e da minha gente, que viram os serviços que elle nos prestou nas passagens do Cuqueima e do Cuanza. Fui em seguida enxugar-me ao fogo, pois que cheguei do rio muito molhado, e ainda me lembrava com horror do rheumatismo no Bihé. No dia seguinte, parti de madrugada para a caça, dirigindo-me ao norte, onde o paiz é coberto de densas florestas. Depois de ter andado oito milhas, encontrei o rio Cuime, a jusante da sua grande cataracta. Voltei e já era noute quando alcancei o meu campo, extenuado de fadiga; mas tendo feito boa caçada, e tendo visto o rio que ardia em desejos de ver, e que effectivamente é uma via importante, sendo como me asseguráram os naturaes, navegavel desde a sua grande cataracta até ao Cuanza. No seguinte dia, voltei ao rio Onda, e ali sorprendeu-me a vista mais de uma povoação que divisava ao longe. Ao approximar-me, conheci que eram, não povoações de prêtos, mas sim de formigas brancas ( termites ), que juntavam em grandes grupos as suas construcções cònicas, cuja côr alvacenta, devida á da argila que iam buscar ao sub-solo, lhes dava toda a apparencia de aldeas de indìgenas. De volta ao meu campo, encontrei o sova de Cabango, que ali tinha chegado havia pouco, com uma comitiva de 60 homens e muitas mulhéres. Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça.] Esta gente, que se apresenta quasi em completa nudez, faz consistir todo o seu luxo nos penteados. Variam-n-os ao infinito e sam elles verdadeiras obras d'arte, e tẽm technologia propria. Nas mulhéres o cabello, que fica em forma de cimeira de elmo Romano, chama-se tronda , e o que cae em trancinhas, dos lados, cahengue . Os penteados masculinos, que formam tufos encrespados, chamam-se sanica . O sova offereceu-me um boi, e eu dei-lhe um presente com que elle pareceu retirar-se satisfeito. Chegáram n'esse dia os carregadores que vinham do Capôco e eram apenas quatro, mas eram os sufficientes, sendo dous para o barco, e outros dous para alliviar algumas cargas mais pesadas. Á noute os meus prêtos e os da terra fizéram grande batuque, que durou até depois das 10 horas. Homem de Cabango.] O frio de noute continuava intenso, sendo que ás 3 e meia horas da manhã d'esse dia, o thermòmetro marcara 0°C. A desigualdade entre a màxima e a mìnima era já muito extraordinaria, e grande a seccura da atmosphera, como se verá dos boletins meteorològicos. O sova voltou a ver-me, e deu-me alguns esclarecimentos sobre o paiz. Diz elle, que já não reconhece a soberania do sova do Cuio ou Mucuzo, e se considera independente. As matas tẽm muita cêra, e os Bailundos vẽm ali permutal-a a buzio (caurim) e missangas. Trabalham em ferro, e fazem machados grandes, balas e facas. Os machados de guerra, frechas e azagaias, vẽm-lhes dos Luchazes, e as enxadas dos Ganguelas, Nhembas e Gonzellos. Homem de Cabango.] Este soba, que se chama Chaquiunde, é um pouco falto de probidade, o que não admira muito. Veio, depois de larga conversa, fazer-me exigencias, allegando ter-me dado um boi. Vi-me na necessidade de o pôr fora do acampamento; mas elle, vendo a aspreza com que eu o tratava, mostrou-se contente, e explicou a sua impertinencia, desculpando-se com os seus macotas, que o tinham aconselhado a fazer grandes exigencias, e que o que pedia era para elles, pois que a elle eu tinha dado um presente superior ao valor do boi. Tendo chegado os dois Quimbandes com o meu barco, resolvi seguir no dia immediato. O dia 28 amanheceu frigidissimo, pois que o thermòmetro, ás 6 horas marcava apenas dois graos acima de zero; e por isso pude só levantar campo ás 8 horas, indo acampar ás 10 e 40 junto da margem do Onda, tendo andado a E.S.E. Precisava fazer pequenas marchas, porque os meus carregadores iam muito pesados. O terreno desde o rio Varea até ali é coberto de uma camada arenosa, sendo o sub-solo formado por uma argila de côr cinzenta, variando desde o branco sujo até ao azul acinzentado. Junto ao leito do Onda o solo é formado por uma forte camada de humos, que ainda assim assenta sobre o sub-solo da mesma argila acinzentada. Junto ao rio vi alguns montes termìticos, apresentando a côr azul cobalto. O terreno das clareiras é habitado por uma especie de termites differente d'aquella que habita as florestas. As termites das clareiras construem montes mamelados, apresentando o aspecto de cones truncados cobertos por cùpulas hemisphèricas, tendo de 80 centìmetros a um metro de diàmetro na base, por igual altura. Nas florestas formam ellas verdadeiros cones, tendo de 4 a 6 centìmetros de diàmetro na base, por 25 a 30 centìmetros de altura. Sam muito approximados, e semelham um eriçado de espinhos que parecem brotar da terra. Estas termites das florestas vam buscar os materiaes das suas construcções muito perto da superficie da terra, porque nas suas architecturas figura como materia prima a terra vegetal que forma o solo dos matos, e estas, apesar do cimento empregado, não tẽm a ligação e dureza das termites das clareiras, que, empregando uma argila consistente, formam verdadeiras petrificações. Nas habitações das termites das clareiras, apesar do seu interior ser formado de cèlulas como as de um favo de abelhas, a bala Snider não penetra n'ellas a mais de 10 centìmetros. Como já disse, nas encostas que abeiram o Onda, estas formigas accumulam as suas habitações em limitados espaços, figurando, a quem de longe as vê, verdadeiras povoações Quimbandes. Por espaço de uma hora, depois que deixei o acampamento, caminhei na margem do rio em terreno descoberto; mas depois entrei em uma esplèndida floresta, cortada de riachos affluentes do Onda. O Lago Liguri.] Por vezes, a floresta tomava o aspecto de um d'esses grandes parques do norte da Europa, onde uma viçosa relva cobria completamente o solo. No meio da mata os meus passos fôram suspensos para contemplar uma das mais pintorescas paizagens que tenho visto. Uma vasta clareira era occupada por uma lagôa de àgoa crystallina e fundo arenoso. Àrvores enormes assombravam o pequeno lago, que reflectia os seus ramos de um bello verde-escuro, onde chilravam mil pàssaros. A relva descia dos lados até á àgua, e só desapparecia para deixar logar a uma arêa alva e fina. Os prêtos d'este paiz, que não sam muito poetas, acham encanto n'este pequeno lago, a que chamam Lago Liguri, e em que ja me haviam falado. Tôdos os riachos d'este paiz tẽm as margens apaüladas, e na àgua estagnada ha um depòsito de côr vermelha, que ao principio atribui á presença de ferro; o que conheci ser engano, porque o chá verde feito com aquella agua não a denunciava ferrea, pela formação do tanato de ferro. Só, talvez, por uma accumulação de animàlculos infusorios se produzam aquelles depòsitos vermelhos. Desde o Bihé, observei, que em tôdos os pontos onde ha àguas estagnadas abundam sanguesugas, mas n'estes còrregos affluentes do Onda sam ellas em maior nùmero. O rio continùa a ter entre 10 e 12 metros de largo, por 4 a 5 de fundo, tem corrente muito insensivel. Abunda a caça. No dia seguinte, caminhei a S.E., sempre na margem direita do Onda, por espaço de três horas, sendo difficil a passagem de uma emmaranhada floresta, e mais difficil ainda o vadear o ribeiro Cobongo, de 4 metros de largo por 1 de fundo, e cujo leito lodôso embaraçava o andar. Depois de três horas de caminho, afastei-me do Onda, seguindo a margem do ribeiro Cangombo, que passei indo acampar na margem esquerda do ribeiro Bitovo. A 30 de Junho, segui a leste, aproveitando toda a margem do Bitovo, para caminhar livre de floresta, e d'ali passei ao valle do ribeiro Chiconde, cujo curso segui até ao Cuito, onde acampei. Fez-me profunda impressão o contemplar as aguas do ribeiro Chiconde, correndo velozes para o Cuito. Até ali tinha encontrado àguas correndo ao oceano Atlàntico, e essas àguas, cujo murmurio acalentava o meu somno, eram como um laço que me prendia á minha patria, indo cahir no mesmo mar que banhava o meu Portugal. Se ellas podessem converter o seu murmurio em falas, que de saudades, que de angùstias que viram, podiam ir contar aos meus! Ao deixar o Bitovo partio-se esse laço que me ligava á costa do Oeste. ¡Que pungente saudade não foi a minha! Fazia um anno n'aquelle dia que eu fôra dar o abraço de despedida a meu velho pai, e recordou-me mais do que nunca que elle me deixara com o presentimento de não mais me ver. N'aquelle dia já assentava o meu campo no paiz dos Luchazes, tendo deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo. Viéram alguns homens e mulhéres das povoações da margem direita do Cuito ao meu campo; mas nada trouxéram que vender, e nós precisàvamos de comida. Prometêram contudo que no dia seguinte traziam algum Massango, porque não cultivam milho nem mesmo Massambala. Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca, feijão fradinho, ginguba, mamona e algodão, tudo em pequena escala, apenas o necessario para o consumo do cultivador. Colhem bastante cêra, já apanhada nas florestas, e já de colmeas que collocam sobre as àrvores, e onde os enxames vẽm habitar. A cêra é um gènero, que elles permutam por peixe sêco do Cuanza, que os Quimbandes ali vam levar. O rio Cuito ali não tem peixe. Os povos Luchazes sam pouco viajantes, e apenas deixam as suas povoações para fazerem pequenas caçadas aos antìlopes, afim de obterem pelles para se vestirem. A pequena cultura é feita por homens e mulhéres. O sovêta que governa as poucas povoações da margem do rio Cuito é o Muene-Calengo, que paga tributo a outro sova Muene-Mutemba, cuja povoação não pude precisar bem onde fica. Luchaze das margens do rio Cuito.] Estes Luchazes trabalham em ferro e fazem todas as obras de que precisam. O ferro é encontrado no paiz. Uma cousa ùnica que vi entre os povos bàrbaros que visitei, é usarem os Luchazes de isqueiros para fazerem fogo, com fusil e pederneira. As pederneiras sam trazidas pelos Quibôcos, ou Quiôcos, que as vẽm trocar a cêra; e os fuzis fabricados por elles sam de ferro forjado e temperados em àgua fria, onde os lançam estando o ferro rubro. A isca é preparada com algodão misturado com a amendoa, pisada, contida no endocarpio de um fruto chamado Micha. As mulhéres Luchazes usam cestos differentes dos empregados pelas Quimbandes, e differentemente os trazem, porque sam suspensos da cabêça por uma larga tira de casca de àrvore, e caem sôbre as costas. Este modo de trazer os cestos impede-as de trazerem os filhos, como é uso geral em Àfrica, sobre os rins, trazendo-os ao lado. No dia seguinte, viéram de manhã algumas mulhéres trazer massango; mas em tão pequena quantidade, que mais fez sentir a fome que já tìnhamos. Mulhér Luchaze carregada.] O rio Cuito tem no ponto em que o passei 7 metros de largo por 1 de fundo, com uma corrente de 25 metros por minuto. É affluente do Cubango, e na sua confluencia assenta a grande povoação de Darico. Nasce na planicie de Cangaba, onde tẽm nascente muito pròxima o Cuime e o Cuiba, affluentes do Cuanza, e o Lungo-é-ungo, affluente do Zambeze. Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil.] Não podendo obter vìveres, resolvi seguir ávante, e quando dava ordens para levantar campo, chegava á margem do rio Cuito uma comitiva de escravos, capitaneada por três prêtos. Apoderei-me dos três prêtos, e soltei todas as escravas, pois que na comitiva não iam escravos. Fiz com que entrassem no meu campo, e disse-lhes, que eram livres, e se quizessem acompanhar-me eu as fazia chegar a Benguella. Disse-lhes, que nada receiassem dos seus guardas, e que se convencessem de que eram livres. Declaráram-me uma a uma, que não queriam a minha protecção, e que as deixasse ir como tinham vindo. ¿D'onde eram? Não m'-o sabiam dizer. ¿Que fazer? Repugnou-me leval-as comigo a despeito seu. Depois de algumas instancias, resolvi deixar aquellas desgraçadas seguirem o triste fado a que não queriam esquivar-se. Demais, ¿seria elle melhor se me seguissem? Não é facil, ainda que isso se afigure na Europa, libertar uma leva de escravos, quando essa leva é encontrada longe dos dominios Europeus. Uma leva de escravos tem gente de naturalidades differentes, e muitas vezes longinquas. Se aquelle que os pode libertar os quizér restituir ás suas familias, tem de percorrer uma grande parte d'Àfrica á busca dos lares dos seus protegidos, o que é pràticamente impossivel. Abandonal-os e dizer-lhes:-- Ide-vos --é fazel-os novamente escravos dos primeiros povos que encontrarem. Muitas vezes, aquelles desgraçados, arrancados das povoações em tenros annos, perdêram da memoria o sitio onde nascêram, e falando já uma lìngua differente da que balbuciáram crianças, e esquècêram longe dos seus, tẽm por sua patria a terra da escravidão, e não conhecem outra. Hôje, depois que os navios de guerra, Portuguezes e Inglezes, cruzam no Atlàntico e no Ìndico, e impedem a exportação do homem, a escravatura é gènero de permutação apenas no interior, e o seu systema tem-se modificado. O escravo apparece em Àfrica por dois modos. Ou é o prisioneiro de guerra, ou é o gènero de pagamento de dìvida pelos parentes. Outrora fazia-se a guerra expressamente para se fazer o prisioneiro, e infelizmente ainda hôje se faz, posto-que em menor escala. O ente humano dado, pelo parente proletario, em pagamento da dìvida contrahida, ou da multa decretada, é vulgar. No caso de guerra, outrora todo prisioneiro servia para escravo, porque lhe não era facil, adulto que fôsse, voltar da Amèrica á Àfrica. O Atlàntico era garantia segura. Os adultos mesmos, podendo logo produzir um trabalho maior, eram preferidos ao adolescente e á criança. Hôje não é assim. O homem feito foge, e tem sempre na idéa o voltar ao ninho d'onde o arrancáram, e essa esperança não o abandona em quanto pisa o continente onde tem seu paiz. Disse-me a mim um negreiro:-- sam muito fugitivos . A criança, o adolescente e a mulhér, offerecem ao commerciante maior garantia, porque, espìritos mais irresolutos, não ousam encarar o pensamento de atravessar paizes enormes, para voltar ao seu. Tem por isso mais valor, hôje, na Àfrica Austral, a criança e a mulhér, e nas levas de desgraçados que infelizmente ainda arrastam os duros grilhões a travez do solo Africano, é raro vermos um homem feito. Uma vez que falei na escravatura, direi ainda mais algumas palavras sobre ella. Portugal, a Inglaterra e a França, tẽm, nos ùltimos tempos, empenhado uma verdadeira luta contra o commercio da carne humana, e as modificações feitas nas antigas praxes Americanas, concorrêram para que esse commercio diminuisse consideravelmente, e se modificasse essencialmente na Àfrica Austral. Contudo, eu atrevo-me a dizer, que não será ainda a geração que ora começa, aquella que verá desapparecer o escravo do solo Africano. O mesmo principio que imperava outrora na Amèrica, fazendo colonisar com os escravos, existe e existirá por muito tempo em Àfrica. Os governos prêtos tambem tẽm a sua polìtica colonisadora, e entre elles e os logares de procedencia do escravo, falta-nos um Oceano, onde possamos fazer singrar as nossas esquadras, e proteger os mesquinhos com as nossas baterias d'aço. Só os principios civilisadores poderám fazer cessar um dia a escravidão; mas infelizmente esse dia está longe, porque os argumentos de que se servem esses principios, sam menos eloquentes e menos enèrgicos do que os projecteis cylindro-cònicos o fôram no Atlàntico e no Ìndico. Eu tenho para mim, que a abolição da escravatura, no interior da Àfrica Austral hade existir de facto, quando deixar de existir a polygamia entre os prêtos; porque, ainda que os principios civilisadores façam desapparecer o escravo, a sensualidade asinina do negro fará subsistir a escrava. Isto não quer dizer, que eu descreia de que se possam dar alguns rudes golpes de immediato effeito no reprovado commercio; mas sim que penso na difficuldade do seu completo exterminio. Já vai longa a divagação, voltemos ao assumpto. Dizia eu, que as raparigas não quizéram ser livres, e seguíram os seus conductores. Eu preparei-me tambem para partir, forçado sobre tudo pelas imperiosas necessidades dos estômagos, que em viagens de exploração governam tanto e mais do que as sociedades de Geographia. Segui quasi a Leste, e depois de marcha de duas horas, avistava uma povoação, e acampava na margem de um ribeiro perto d'ella. Sube que ribeiro e povoação se chamavam Bembe. Quando começava a faina de cortar madeira para acampar, vi de repente os meus prêtos dispersarem-se em varias direcções, fugindo espavoridos. Não atinava eu com a causa de tal terror, e dirigi-me ao sitio onde elles trabalhavam, a investigar o que seria. No logar onde eu tinha mandado construir o campo, milhões da terrivel formiga chamada pelos Bihenos Quissonde, sahiam da terra, e d'ella fugíram os meus homens. A formiga Quissonde é uma das mais temiveis feras do continente Africano. Dizem os naturaes, que ataca e mata o elephante, introduzindo-se-lhe na tromba e nos ouvidos. É inimigo que se não pode combater, e atacando aos milhares, só se lhe pode escapar na fuga. O Quissonde tem entre 6 e 8 milimetros de comprido, côr castanho-clara muito luzidía. As mandìbulas d'este feroz hymenòptero, sam fortissimas e de grandeza desproporcionada. Da sua mordedura no homem sahi logo um jacto de sangue. Os chefes conduzem as suas phalanges a grandes distancias, e atacam todo animal que encontram no seu caminho. Por mais de uma vez, durante a minha viagem, tive de fugir aos ataques d'este feroz insecto. Algumas vezes vi nos caminhos centenares d'ellas esfregadas aos pés, levantarem-se, e continuarem a sua marcha, primeiro lentamente, depois com a sua celeridade ordinaria, tanta é a sua vitalidade. Vem a propòsito falar aqui de outras formigas mais vulgares do que o Quissonde. Uma é pequena, de três milimetros a quatro de comprido, negra e como o Quissonde armada de fortes mandìbulas. Chamam-lhe os Bihenos Olunginge. É o maior inimigo das termites, contra as quaes dirige terriveis ataques, e que vence apesar da desproporção do seu tamanho. Estas pequenas formigas sam um verdadeiro beneficio, pela enorme destruição que causam nas larvas, nymphas e ovas das termites. Em alguns pontos encontrei nas habitações das termites uma grande quantidade de formigas enormes, atingindo o comprimento de 20 milimetros, que vivem em communidade com os abundantes nevròpteros da Àfrica Austral. Estas formigas, supponho eu, que, pouco dadas ao trabalho de construir habitações, vam procurar nas construcções termìticas, abrigo e morada. Nenhum d'estes pequenos insectos ataca o homem àlém do Quissonde, que o ataca sempre, e ainda nas margens do rio Bembe fez dispersar os meus carregadores. Tive pois de ir longe escolher outro sitio para acampar. Voltáram da povoação do Bembe alguns homens que ali tinha enviado, com a triste nova, de que o sovêta dera ordem para nada me venderem. A fome já se fazia sentir muito, caça não apparecia, e apenas tivémos n'esse dia um punhado de massango, que tanto coube a cada um de nós na divisão que fiz, do pouco que obtivémos na margem do rio Cuito. Ali o paiz já era completamente desconhecido a todos, e nenhumas informações podiamos colher do gentio esquivo. Reuni os meus pombeiros, e fiz-lhes ver a grande necessidade de alargarmos a marcha no dia seguinte, até encontrarmos povoações mais hospitaleiras. Elles conviéram na imperiosa necessidade, e apesar de muito carregada a comitiva, e enfraquecida pela falta de alimento, decidíram animar a sua gente para os fazer ir avante. Havia dous dias que encontrava vestigios de ter sido outrora povoadissimo este paiz, pelas ruinas, já antigas, de muitas povoações que encontrei. ¿O que determinaria este abandono? ¿Seria a devastação pela escravatura? ¿Seria a insalubridade do clima? ¿Seria a falta de caça? ¿Seria a má qualidade do terreno? Não o pude saber; mas a primeira hypòthese parece-me a mais admissivel. O facto era, que essa falta de população inesperada, nos creou o maior embaraço, e eu n'essa noute soffri horrivelmente das torturas da fome. No dia immediato, tive logo de manhã o transtorno de um carregador doente; mas o meu Doutor Chacaiombe houve-se com toda a bizarria e offereceu-se para levar a carga. Na occasião de partir, apparecêram uns enviados do sovêta do Bembe, pedindo-me alguma cousa para elle; fiz-lhes ver o mao procedimento do sovêta para comigo, e mandeios pôr fora do campo. Segui ás 8 horas e 40 minutos. O rio Bembe, que tinha a vadear, tem dois metros largo por um de fundo e corre a S.O. para o Cuito. A sua margem direita é montanha ìngreme; mas a esquerda, depois de uma trincheira quasi vertical, de 10 metros, estende-se, plana e paludosa, por um kilòmetro. A marcha atravez do paúl levou uma hora, e fatigou muito a faminta caravana. O terreno em seguida é levemente inclinado e coberto de uma vegetação arborescente difficil de transpor. Depois de outra hora de fatigante caminhar, comecei a descer uma encosta, a cujo sopé se desenrolava uma planicie, occulta por densa floresta. Desci uns 50 metros para alcançar a orla da mata; mas tive logo de alterar o meu rumo. A floresta era impassavel. Aprovetei um difficil trilho de caça, que ora me levava a Leste, ora a Noroeste, e depois a Sueste, até que o terreno me faltou de repente. Um sulco profundo de cem metros, cavado pelas àguas de um ribeiro, tolhia-me a passagem. A difficuldade do caminho, o peso das cargas, e a fraqueza dos meus carregadores, obrigáram-me a acampar ali. A fome já se fazia sentir em todos os seus horrores. Uma esperança todavia me animava; eu tinha visto vestigios de caça. Pouco depois de chegarmos, matou-se no campo uma cobra, que me disse o meu doutor ser muito venenosa; mas haver contraveneno á sua mordedura. Tinha um metro de comprido, e era côr de telha no dorso, tendo o ventre um pouco mais claro. Os olhos eram verdes muito brilhantes e a lingua bipartida. A bôca era armada de quatro dentes dispostos como as presas de um cão. Ahi ficam os signaes d'ella para aquelles que pisarem um dia aquellas paragens. Era preciso caçar, e eu, logo que fiz as minhas observações, parti para um lado, e mandei em outras direcções os meus prêtos Augusto e Miguel, os ùnicos que tẽm algumas manhas de caçadores na minha comitiva. Encontrei perto do campo um grande rasto de bùfalos e segui-o. Não se faz idéa na Europa do que seja caçar para comer. É um prazer horrivel. Deve ser assim o apontar á banca, do jogador que precisa ganhar uma certa quantia para pagar uma dìvida de honra, e que mistura o febril prazer do jôgo, com a cruciante angùstia da incerteza. Os olhos com que elle devora as cartas que lentamente vam escorregando por entre os dedos do banqueiro; os olhos que queriam penetrar atravez da carta opaca para anticipar o desfecho da agonia da dùvida, no fim da qual está a salvação ou a morte suicida; devem ter a mesma expressão dos olhos do caçador faminto, que perscruta a floresta em busca da caça que é para elle questão de vida ou morte. Ha contudo uma differença. É que o caçador faminto pode invocar em seu auxilio a Divindade, pode balbuciar uma sùpplica a Deus. Ao passo que o caçador por prazer segue descuidoso uma pista, cheio de felizes emoções ao avistar o gamo que procura; caminha desassombradamente, sabendo que no sitio ajustado, um cozinheiro prepara òptimos manjares; que pára aqui e àlém para contemplar uma flôr mimosa, uma paizagem agradavel. O caçador por necessidade só pensa na caça que, matando-a, lhe matará a fome. Ao passo que um caminha curvado para chegar ao alcance do tiro, o outro deita-se de rastos, não sente os espinhos que lhe razgam as carnes, e por umas palhas que faz tremer, treme tambem de dar um alarme, e caminha devagar, devagar, reduzindo a distancia para que o tiro não falhe, com o coração a palpitar, e com o estômago a bradar em contorsões pungentes. Deve ser assim o caçar do tigre e do leão. O rasto que eu segui levou-me ao fundo do precipicio onde corre o pequeno còrrego, e por muito tempo segui a sua margem direita, passando depois á esquerda, onde vi os bùfalos, que caminhavam pastando na orla de uma densa floresta virgem. Estavam a 500 metros de mim. Começou então esse fatigante caminhar de rôjo, a carabina a tiracollo como que nadando n'um mar de palha curta. De quando em quando levantava a cabêça descoberta para espreitar a minha presa, e prosseguia n'aquelle caminhar difficil cheio de commoções. Os bùfalos pastando, ora caminhavam ora paravam, sempre na orla da mata. Se paravam que alegria, se andavam que desespêro o meu! Na mente phantasiava eu chegar ao acampamento e dizer, "vam á margem do còrrego, e lá encontrarám caça para matar a fome." Era uma mistura de prazer e de angùstia que me causava a incerteza horrivel. De repente os animaes desapparecêram na floresta em apressado trotar. ¿O que seria? ¿Terme-hiam presentido? Levantei-me e segui o rasto com a maior presteza; mas entrando na floresta, o meu desespêro subio de ponto. Na mata virgem o solo coberto de musgo espesso não deixa perceber um rasto ao ôlho mais experimentado. Parei desanimado. Tudo o que tinha phantasiado cahio como sonho fágueiro ao impertinente despertar. Ainda fui longe sem nada perceber de caça, e perto das 6 horas da tarde recolhi ao campo, prostrado de fadiga e fome, tendo andado inutilmente 20 kilòmetros! Ao entrar no acampamento, achegou-se a mim o meu Augusto, mostrando-me radiante de alegria um soberbo antìlope que tinha morto! Era uma enorme Malanca ( Hippotragus equinus ) da corpulencia de um boi. Fiz immediatamente a partilha pelos meus carregadores e por mim mesmo, e depois de um longo jejum, que nem Deos me leva em conta por ser involuntario, tive um opìparo jantar, adubado pela fome, que faria inveja aos mais pichosos gastrònomos. Miguel, o meu bravo caçador de elephantes, tambem veio comprimentar-me; mas revelava-se-lhe no rosto a mais profunda tristeza. Logo que sube a causa do desespêro do meu valente, não pude deixar de me consternar muito. Durante a ausencia de Miguel, a minha cabrinha Córa entrou na sua tenda, e comera-lhe o grande feitiço que elle possuia para matar os elephantes. Consistia o valioso talisman em um dente humano cahido do tecto de uma casa velha, embrulhado em palha e trapos por um cirurgião de grande fama, que lhe tinha incutido as maiores virtudes; sendo facilimo ao portador de tão extraordinario objecto, o encontrar e matar elephantes sem o menor perigo. Miguel estava inconsolavel; mas eu consegui tranquelizal-o, promettendo-lhe maior feitiço do que o perdido, para o mesmo fim. E não o enganava, pois que a boa carabina que tencionava dar-lhe, logo que chegàssemos a paiz de elephantes, valia bem por tôdos os dentes humanos embrulhados em palha e trapos. Depois de comer, reuníram-se em tôrno da minha fogueira os meus pombeiros, e contáram-me, que durante a minha ausencia, toda a gente tinha ido ao mato, seguindo uns os indicators , haviam colhido bastante mel, sendo que outros haviam feito larga colheita de uma fruta chamada pelos Bienos atundo , semelhante á goiaba, mas produzida por uma planta herbacea de pequeno talhe. Os pedùnculos d'esta fruta partem do caule junto á terra, e o fruto cresce semi-enterrado. O seu sabor é agradavel, não julgando eu que seja muito nutriente. Atundo, Planta e Fruto.] No dia seguinte era preciso seguir avante, e por isso, apesar do frio, levantámos campo muito mais cêdo que do custume. Seguímos a S.E., encontrando, depois de duas horas de marcha, um rio difficil de transpor. Tinha 4 metros de largo, por 4 de fundo, e violenta corrente. Mandei cortar grandes àrvores na floresta, e pouco depois estava lançada uma ponte e a comitiva passava. Pouco a jusante do sitio em que passei o rio, affluia a elle um riacho vindo de Leste. Segui a margem direita d'este riacho, e uma hora depois, acampava perto de duas povoações que avistava. Logo que chegámos, viéram espreitar-nos alguns gentios, com quem pudémos falar a pedir provisões. Pouco depois, já apparecia no nosso campo algum massango que pretas quasi nuas vinham vender. Comprando a missanga sem regatear, em breve tivémos alimentação sufficiente para aquelle dia. Em breve se estabelecêram relações cordiaes entre aquelle gentio e nós. Por elles soubémos, que o ribeiro onde acampámos na vèspera se chamava Licócótoa, o rio onde n'aquelle dia havìamos lançado a ponte Nhongoaviranda, e o còrrego em cujas nascentes estàvamos acampados Cambimbia. As duas povoações que ficam na margem esquerda do ribeiro sam Luchazes, aquella que ficava a N.O. do meu campo era de Quiôcos ou Quibôcos. Fôram estes ùltimos que viéram ao meu campo e com quem estava em relações. Comi mais de um litro de massango cozido em àgua, não me foi desagradavel tal alimento. Depois de ter saciado o appetite, calculei a posição em que estaria n'aquella noute o planeta Jùpiter, no momento do eclipse do 1^o satèlite que eu precisava observar. Eu estava acampado n'uma floresta copada, que não me deixava ver os astros. Logo que achei pelo càlculo a posição do planeta no momento desejado, escolhi o logar onde assentaria o meu telescopio, e mandei rasgar na floresta um claro sufficiente para poder fazer a observação. Houve grande faina; e os meus bravos Bihenos, machado em punho, conseguìram em duas horas razgar uma abertura por onde eu podesse dirigir o meu òculo. As mulhéres dos Quiôcos ou Quibôcos que viéram ao meu campo traziam os filhos ao lado como as Luchazes, suspensos do hombro opposto por uma faixa de casca de àrvore. Àlém de massango, trouxéram ellas para vender umas raizes tuberculosas chamadas Genamba, de que os meus pretos gostavam muito e eu nada. Não cultivam o milho, e alimentam-se de massango. O luxo dos penteados não se encontra entre os Quibôcos ou Quiôcos, e o seu vestir é mais miseravel do que entre os Quimbandes. As mulhéres andam nuas! Causará de certo estranheza ao leitor, que eu, estando em pleno paiz dos Luchazes, lhe esteja falando em Quiôcos. Se isso o admira, não me sorprendeu menos a mim o caso de os encontrar ali. A emigração constante dos Quiôcos e a colonização das terras Luchazes por elles, é um facto. O paiz dos Quiôcos ou Quibôcos (que lhes chamam indifferentemente) é collocado ao norte de Lobar, nas vertentes leste da serra da Mozamba. Livingstone fal-o cortar pelo parallelo 11 sul, e pelo meridiano 20 leste de Greenwich. Os Quiôcos sam viajantes, caçadores, e ousados. Alguns, descontentes com o seu paiz, emigráram para o sul, atravessáram o Lobar, e viéram estabelecer-se na margem direita do Lungo-é-ungo, em paiz Luchaze. Não foram hostilizados, e atraz d'estes seguìram-se outros, sendo constante hôje a emigração. Não paráram ali, e seguíram muitos emigrantes mais ao sul, indo até ao Cubango. A maior parte da povoação de Darico é de Quiôcos. Perguntando-lhes eu, ¿qual o motivo de abandonarem o seu paiz? disséram-me, que a doença e a falta de caça os afugentava de lá. Estes Quiôcos com quem entrei em relações, estavam estabelecidos ali havia pouco, e não lhes sobravam as provisões para venderem; mas disséram-me elles, que [**Nota de editor: No original há um salto da página 235 à 237. Trata-se de um erro de impressão.] [**Transcriber's note: In the original book there is a gap between pages 235, 236 and 237... it is a printing error.] No alto da serra ha um esplèndido panorama de N.E. a N.O. Vê-se tôdo o curso do rio Cuango, affluente do Lungo-é-ungo pelo sul. [Mappa 5.--Disposição da àgua em Cangala] Avista-se a bacia d'este desde Cangala até á confluencia do Cuango, e bem assim as bacias superiores dos rios Cuito, Cuime e Cuiba. O golpe de vista é sorprendente. Na vertente de oeste da serra Cassara-Caiéra a vegetação arbòrea é esplèndida, na cumiada enfèzada e pobre; na vertente leste a vegetação arborescente e herbàcea verdadeiramente rica. Esta vertente leste é chamada Bongo-Iacongonzêlo. Fui acampar na nascente do ribeiro Canssampôa, affluente do Cuango, e durante tôdo o trajecto d'aquelle dia não encontrei àgua. Junto ao meu campo, na outra margem do ribeiro, ficavam cinco povoações Luchazes. Estas cinco povoações sam governadas por um sovêta que obedece ao soba Chicôto, cuja povoação é na confluencia do Cuango com o Lungo-é-ungo. As duas povoações Luchazes que ficam no Cambimbia obedecem ao Muene-calengo do Cuito. O sovêta Cassangassanga veio visitar-me, e trouxe-me de presente um cabrito. Dei-lhe alguma missanga com que se retirou satisfeito, promettendo mandar-me algum massango n'aquelle dia, e guias no immediato para me conduzirem a Cambuta, onde me disse eu encontraria muitos vìveres. Cumprio as suas promessas, não só mandando o massango n'aquelle dia, como os guias no seguinte. O massango, dividido, deu uma pequena ração a cada um de nós; o cabrito não era cousa de vulto para tanta gente, e francamente dormímos com fome. Ali cultivam massango, pouca mandioca, menos feijão, bastante mamona e algum lùpulo. Trabalham o ferro com bastante perfeição, sendo o minerio encontrado no paiz. No dia 6 de Julho, parti a leste, e depois de três horas de caminho, na ùltima das quaes segui a margem do ribeiro Andara-canssampoa, acampava em frente da povoação de Cambuta, junto ao rio Bicéque, que corre a N.E. para unir-se ao Cutangjo, affluente do Lungo-é-ungo. O paiz tem uma certa agglomeração de população, que obedece ao sova de Cambuta. Ali pude obter bastante massango, ùnico alimento que cultivam em abundancia, e por isso ùnico que me viéram vender. Povoação de Cambuta, Luchaze.] Nunca vi tão grande quantidade de rôlas como ali, e eu matei muitas, carregando a arma com pedrinhas miùdas das margens do ribeiro. Adoecêram-me alguns carregadores com papeira, e outros com gastrites, de certo provenientes da má alimentação. Entre as raparigas que viéram ao meu campo vender massango, notei algumas muito galantes e muito esbeltas. Andam quasi nuas, e mal se lhes percebe, não uma folha de vinha, mas um pequeno farrapo de casca de àrvore. Ali homens e mulhéres sem excepção tẽm os dentes incisivos da frente cortados em triàngulo, de modo que estando a dentadura unida, apparece um lozango vazio, formado por os dois triàngulos cortados na frente em dentes de ambas as maxilas. O frio continuava a ser intensissimo durante a noute, e só junto de grandes fogueiras podiamos repousar. Mulhér Luchaze de Cambuta.] No dia seguinte, continuavam as doenças. Um caso bem para notar era, serem só atacados os Bihenos, e resistirem os negros de Benguella, não tão habituados como aquelles ás vicissitudes da vida sertaneja. De manhã, matou-se perto do acampamento uma ave de rapina, que a minha vista pouco experimentada não soube collocar em algum dos gèneros em que se divide a familia dos rapaces diurnos, querendo, na minha ignorancia em tal assumpto, que fosse um Gypeta, ainda que julgo ser ùnica a especie do gènero conhecida. O meu pàssaro parecia-se enormemente com o gypeta, excepto nas dimensões que as tinha muito menores, pois contava apenas, de ponta a ponta de aza, 1 metro e 75 centìmetros. Fôsse o que fôsse, foi saboreado pelos Bihenos, que em materia de gastronomia, desde o homem até ao abutre, passando pelo crocodilo, leopardo e hyena, de tudo comem sem escrùpulo. Homem Luchaze de Cambuta.] N'esse dia, como na vèspera, o tempo que me ficou livre das observações, empreguei-o a percorrer os arredores, levantando, como costumo, uma planta grosseira dos terrenos que avisto, tendo marcado tres milhas ao sul da nascente do Biceque, a nascente do rio Cuanavare, grande affluente do Cuito. Junto da nascente do Cuanavare, estive na povoação de Muenevinde, governada por uma dama, cujo marido que se chama Ungira, não tem voz activa na governação. Eu nunca fui amante de feijão-fradinho, mas á noute, de volta ao campo, tive um pequeno presente d'elle, e comi-o com devorador appetite. Objectos fabricados pelos Luchazes. 1 e 3. Machados. 2. Frecha. 4, 4. Ferros de frecha. 5. Enxada.] O sova de Cambuta estava ausente em caçada, e fizéram-me as honras da casa as suas damas, com quem conservei as mais cordiaes relações, obtendo d'ellas, não só boa provisão de massango, mas ainda 12 carregadores para elle, e dois guias para me encaminharem ás nascentes do Cuando e do Cubangui, affluente d'aquelle, rios que me diziam no paiz serem os maiores do mundo . Permittam-me aqui agora os meus leitores duas palavras, a respeito das ùltimas do perìodo anterior que sublinhei. O rio Cuando, de certo o maior affluente do Zambeze, não foi conhecido por mim pelas informações dos Luchazes de Cambuta; e eu, tendo sustentado a minha marcha do Bihé até ali, uma grande parte do caminho fóra e muito ao norte do trilho das caravanas Bihenas, sabia o que fazia, e onde deveria pouco mais ou menos ir encontrar as nascentes de tão grande arteria. Devia isso ás informações de Silva Porto, que já tinha descido aquelle rio do Cuchibi até Liniante, levando cargas em canôas. Silva Porto tinha-me assignalado as nascentes d'aquelle rio, que elle conhecia nos seus terços medio e inferior, pouco mais ou menos no ponto em que as encontrei, e isto por informações colhidas por elle do gentio. Se Silva Porto podesse dar aos pontos que conhece da Àfrica Austral, as posições traduzidas em longitudes e latitudes, enchiam-se facilmente os espaços em branco que ainda existem na carta d'aquelles paizes. Assim, pois, partindo de Cambuta a buscar as nascentes do Cuando, eu cumpria o itinerario que havia traçado, e ia resolver um dos problemas que mais desejava resolver. As noticias detalhadas ia eu colhendo em caminho, as geraes essas já as tinha aprendido de Silva Porto. Disséram-me os meus guias, que ìamos atravessar, para àlém do rio Cutangjo, uma região despovoada, e por isso era mistér fazer provisões para o caminho. Foi essa informação que me levou a comprar mais massango, e a pedir 12 homens, ás mulhéres do sova. Parti no dia 9 de Julho ás 9 da manhã, e três horas depois passava o rio Cutangjo, e acampava na sua margem direita, junto da povoação de Chaquissengo. O Cutangjo tem ali 4 metros de largo, por 1 de fundo, e corre a N.N.E. para o Lungo-é-ungo. Vi que nas plantações havia alguma mandioca e muito massango--o terrivel massango, que tanto me havia de perseguir em Àfrica! Algodoeiros e mamona cultivam muito estes Luchazes. [Mappa 6.--De Cambuta ao Cubangué] Trabalham o ferro, que tiram das margens do Cassongo, e as suas obras sam muito perfeitas. Quasi todos os Luchazes tẽm barba por baixo do queixo, e pequeno bigode. Vai ali desapparecendo o luxo dos penteados extraordinarios que até ali faziam a minha admiração. Mulhér Luchaze do Cutangjo.] Os homens usam um largo cinto de couro cru, com fivelas feitas por elles; cobrem com pelles a sua nudez, e abrigam-se do frio com licondes, que extrahem de àrvores das florestas. Não fabricam panellas, e as que usam vam obtel-as dos Quimbandes. Fazem manilhas, com cobre, que ali lhes vẽm permutar a cêra os Lobares, sendo que estes o obtẽm da Lunda. Cachimbo Luchaze.] Fui ver a povoação de Chaquicengo, que, como todas do paiz, é muito bonita e de um grande aceio. As casas sam feitas de troncos de àrvores, de 1 metro e 20 centìmetros de altura, que tanto é a altura das paredes. O intervallo da madeira, que é encostada uma á outra, é cheio, em umas de barro, em outras de palha. Os tectos sam de côlmo, e como as armações sam feitas de varas muito finas, fazem uma curva, tomando um aspecto de tectos Chinezes. Os celeiros sam collocados muito altos sobre uma armação de madeira, todos de palha, e de cobertura movel; pois é preciso levantal-a para ir dentro buscar os mantimentos. Tẽm accesso por uma escada de mão, e não sam mais do que um cesto gigantesco á prova d'àgua, em que é tampa um tecto cònico. Capoeira dos Luchazes.] As capoeiras sam umas pyràmides quadrangulares de varas d'àrvore, assentes em quatro pes ou estacas muito altas, para as pôr ao abrigo dos pequenos carnìvoros. No centro da povoação ha, como no Huambo, uma especie de kiosque para conversa. Ali, em tôrno de uma fogueira, alguns homens preparavam arcos e frechas. Recebêram-me muito bem, e viéram-me offerecer uma bebida preparada com àgua, mel e farinha de Lùpulo, que misturam em uma cabaça onde a deixam fermentar. Chamam-lhe Bingundo, e é a mais alcohòlica que tenho encontrado. Estes Luchazes usam uma armadilha para apanhar pequenos antìlopes e lebres, que é engenhosa, e bem so comprehende em vista do desenho. Chama-se Urivi. Urivi, Armadilha para caça.] Depois de um passeio até ás nascentes do Cutangjo, voltei ao meu campo, acompanhado por grande nùmero de homens e mulhéres que não cessavam de me admirar. Entre esta gente das margens do Cutangjo vi muitos typos masculinos de uma fealdade repugnante. Estes povos, não só apanham muita cêra nas florestas, mas ainda collocam nas àrvores innùmeras colmeas que fabricam com uma grossa casca de àrvore ligada com pinos de pao. Luchaze do Cutandjo.] Objectos Luchazes. 1. Bainha de faca. 2. Cesto. 3. Travesseiro de pao. 4. Cortiço d'abelhas.] No dia 10 de Julho, parti ás 8 da manhã, e meia hora depois, apesar dos guias, andava perdido em uma floresta impassavel, d'onde pudémos a muito custo sahir ás 10 horas. Então encontrámos terreno limpo de arbustos, mas coberto de àrvores gigantes, que nos abrigavam do sol; prazer que durou pouco, porque, meia hora depois, já andàvamos outra vez mettidos em mato tão emmaranhado que nos deu verdadeiro trabalho a transpor. Emfim, ás 11 e 20 minutos, descia eu a vertente suave de um còmoro, em cujo sopé a àgua limosa de uma pequena lagôa era cercada por um tapête de verdejantes gramìneas. Ao chegar ali, dei um tiro em um animal que creio se chama Leopardus jubatus , cuja pelle veio augmentar a minha cama felina. Esta pelle, que foi minha cama até Pretoria, offereci eu ao Doutor Bocage. Este leopardo jubatus bastante raro, porque em toda a minha viagem vi apenas dois, vê muito pouco de dia, supponho eu, e supponho isto por ter notado em ambos, que, ao deparar com elles, fitavam as orelhas para o meu lado, em que sentiam rumor, como querendo perceber o perigo mais pelos orgãos auditivos do que pelos visuaes. Abeirei-me da lagôa, e determinei a sua posição, tendo mandado construir o meu campo uns 100 metros ao sul, sobre a encosta, ficando uns 30 metros sobranceiro ao paúl, que mais paúl do que lagôa é o charco onde nasce o grande affluente do Zambeze. Quando trabalhava fui acommettido de um repentino e violento accesso de febre que me prostrou por três horas. Quando voltei a mim, não pude deixar de sorrir. Estava coberto de amuletos, tendo ao pescôço um sem-nùmero de cornos de pequenos antìlopes, cheios das mais virtuosas medicinas. Uma pulseira de dentes de crocodilo enlaçava-me o braço direito, e dois enormes cornos de malanca pendiam de dois paos espetados dentro da barraca. Os meus prêtos, durante a febre, não se haviam poupado a cuidados, e ouvido o doutor Chacaiombe, tinham posto tudo aquillo sobre mim, com a mais inteira fé no resultado. Uma forte dose de quinino, que tomei, determinando o meu prompto restabelecimento, veio corrobar mais as virtudes dos amuletos, que tudo a elles foi attribuido. Os meus prêtos Augusto e Miguel, tinham ido caçar; mas voltáram sem nada, tendo encontrado alguns leopardos. Víram contudo muitos rastos de caça grossa. No dia seguinte de manhã, levantei uma grosseira planta do paúl, rectifiquei a minha posição, e levantei um pequeno padrão, construido de barro, dentro da barraca das observações, onde enterrei um frasco que fôra de quinino, perfeitamente rolhado, contendo um papél, onde, de um lado, por baixo do nome d'El-Rei, escrevi os nomes dos membros da commissão central permanente de geographia, e do outro, as coordenadas do ponto, e a data. Depois do meio-dia, os guias Luchazes fôram mostrar-me a nascente do rio Queimbo, affluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes, 6 milhas geogràphicas a S.O. do paúl da nascente do Cuando. Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos de suas casas, e queixavam-se muito do frio. O paiz é despovoado, e deve ter muita caça, porque d'ella haviam rastos, continuando a apparecer leopardos, que d'ella sam tambem indicio certo. Nós não vimos nenhuma. Era preciso seguir avante, porque os mantimentos desappareciam ràpidamente, e precisàvamos alcançar as povoações Ambuelas, para escapar á fome. Na manhã de 12 de Julho, por um frio de dois graos acima de zero, mandei levantar campo e preparar para partir; não conseguindo deixar o acampamento antes das 8 horas. [Mappa 7.--Paúl da nascente do Cuando] Milhares de periquitos esvoaçavam nas matas e faziam uma chiada infernal. Segui a margem direita do Cuando por duas horas, e em seguida, por indicação dos guias, passei á margem esquerda sobre uma ponte que improvisámos de troncos de àrvore. Ali já o rio tinha dois metros de largo por dois de fundo, e violenta corrente. Ao passar o rio, avistei uma manada de gnous, a que não pude atirar. Acampei ali. As margens do Cuando sam montanhosas, e desde a nascente até áquelle ponto tẽm uma faxa apaülada de 30 a 40 metros, que deita em toda a extensão muita àgua, que vai engrossar o rio. Este facto dá-se com quasi todos os rios d'aquellas regiões, que recebem por aquelle meio enorme quantidade de àguas, de modo que, sem a elles affluirem outros, sam navegaveis a algumas milhas das pequenas nascentes. Na margem direita do rio vi aqui e àlém algumas barreiras verticaes estratificadas, apresentando faxas côr-de-rosa, brancas e azues. No dia seguinte, levantei ás 8, e caminhei até ao meio-dia, indo acampar junto de um còrrego affluente do Cuando. Adoecêram-me alguns homens, com papeira, e outros com inflammações nas pernas. Felizmente, as cargas das provisões tinham diminuido sensivelmente, e tinha carregadores de sobrecelente. Nas margens apaüladas do Cuando abundavam sanguesugas, que mandei apanhar, para applicar a alguns doentes que d'ellas careciam. As matas que atravessei, e aquella em que estava acampado, eram quasi exclusivamente formadas de umas àrvores enormes, a que os Bihenos chamam Cuchibi, àrvores prestadias ao viajante faminto. O seu fruto semelha um feijão, onde só um grão de vivo escarlate está encerrado na casca verde-escura. Este fruto, depois de uma demorada cocção, separa os invòlucros escarlates dos cotylèdones brancos. Sam aquelles invòlucros escarlates a parte comestivel d'esta semente. O Cuchibi.] Sam bastante oleaginosos, e os Ambuelas e Luchazes extrahem d'elles um òleo que tempera a comida. Este fruto é de certo um grande socorro ao viajante faminto; mas não é para pressas, que a sua cocção é demoradissima. Outro fruto que se encontra ali e que é bastante vulgar em todo o planalto, é o que os Bihenos chamam Mapole. É produzido por uma àrvore de mediana corpolencia, e semelha pela côr e tamanho uma laranja madura. Um pedùnculo bastante comprido suspende este fruto verticalmente dos ramos da àrvore. O epicarpio e o mesocarpio estreitamente ligados, formam um invòlucro de quatro milimetros de espessura, de dureza cornea. Folha e Fruto do Cuchibi. (Tamanho natural.)] Só com um forte machado se pode partir. No interior a parte comestivel é um lìquido espesso e coagulado em que se agglomeram umas sementes como as das ameixas pequenas. Este lìquido, de sabor agro-dôce, tomado em quantidade, é bastante purgativo; mas asseguráram-me os Bihenos, que é muito nutritivo e um homem pode viver d'elle alguns dias. No dia seguinte, deixei o rio Cuando, que já ali se inclina a S.S.E.; e por indicação dos guias, caminhei a leste, para ir demandar as nascentes do Cubanguí, rio que elles me diziam ser muito grande. Depois de uma hora de marcha, passei um ribeirão que corre ao sul, n'um terreno apaülado de 100 metros de largo, que custou a transpor; 4 milhas àlém, outro grande ribeiro corre parallelo ao antecedente. O Mapole, Àrvore e Folha.] Entre os leitos d'estes ribeiros, e bem assim entre os dos affluentes do Cuando, a leste, correm montanhas norte-sul, montanhas que pertencem a um systema mais importante, que ao norte corre leste-oeste, indo as suas vertentes N. terminar no valle do Lungo-é-ungo. Pelas 11 e meia, cheguei ao alto da serra, d'onde os guias me mostráram, muito ao longe, as nascentes do rio Cubanguí. Marquei aquellas nascentes perfeitamente a leste; e como receei não poder, chegado que fôsse, determinar a latitude, parei, e ao meio-dia determinei a d'aquelle ponto em que estava, por ser a mesma das nascentes do rio, estando, como estavam, leste-oeste com elle. Pelas 2 horas da tarde, acampei junto ás nascentes, que sam em tudo semelhantes ás do Cuando. O pàntano que dá nascente a este rio tem o seu eixo norte-sul, e estende-se por um kilòmetro, variando a sua largura entre 80 e 100 metros. Mapole, Fruto e disposição dos Ramos.] Não appareceu caça, mas vimos d'ella muitos rastos, e durante a noute, os leões fizéram um concerto infernal em tôrno do campo. Já ali se distribuíram as ùltimas rações, e de nôvo tìnhamos diante de nós a fome. Os guias diziam, estarem perto as povoações, mas termos de marchar dois dias para as alcançar; porque os muitos doentes, e sobre tudo o pombeiro Canhengo, que estava mal, nos impediam de forçar as marchas. O meu cuidado era extremo, e receiava já que o aggravarem-se as doenças com a fome e com a fadiga me impedisse de alcançar a tempo os recursos precisos. No dia seguinte, apesar de todos os meus esforços, não consegui sustentar a marcha àlém de quatro horas, e tive de acampar na margem do Cubanguí, que não deixei desde a sua nascente. No ponto em que acampei já o rio conta três metros de largo por um de fundo. Um gnou, que matei, e algum mel que os prêtos colhéram na floresta, deu minguada ração com que passámos um dia. No dia immediato continuei a seguir a margem direita do Cubanguí, e depois de quatro horas de marcha, acampei junto ao ribeiro Linde, em frente de três povoações Ambuelas. Mandei logo não só áquellas povoações, mas ainda a outras que ficavam na margem direita, e apenas pudémos obter uma escassa ração de massango. Todos nos diziam, que no dia seguinte chegariamos á terra do sova, e que elle nos daria de comer. Na confluencia do Linde já o rio Cubanguí tem 5 metros de largo por 3 de fundo. Os meus doentes não melhoravam muito, o que não era por falta de dieta. Foi preciso sustentar marcha de seis horas, para alcançarmos no dia immediato a povoação do chefe, a quem mandei logo um presente de uma farda velha de cabo de infanteria 2, que elle muito agradeceu, dando ordem aos seus povos para me venderem mantimentos. A trôco de missanga obtivémos massango, o maldito massango, que tanto me havia de perseguir. Despedi os meus guias, e os doze Luchazes que até ali me acompanháram, e que se retiráram satisfeitos com o que lhes dei. Elles fraternizáram com a gente das povoações Ambuelas, que estam ali um pouco misturadas com a raça Luchaze. Em um dos dias seguintes que passei ali, acampou junto de mim uma grande porção de familias Luchazes que se vinham estabelecer no paiz. Moene-Cahenda, Sova de Cangamba. 1. O que elle traz na mão.] Passou ali tambem um rancho de caçadores, que iam para o sul em busca dos elephantes. Foi a primeira vez que ouvi falar em elephantes, porque todo o paiz que atravessei desde Benguella até ao Cubanguí, não os tem, nem mesmo d'elles vi rasto antigo. Ainda assim, os taes caçadores disséram-me, que precisavam andar seis dias para os encontrarem. Dois dias depois da minha chegada, veio visitar-me o sova de Cangamba, Muene Cahenda, que me levava um presente de quatro gallinhas e um grande cesto de massango. Trajava a farda que eu lhe tinha enviado, e da cinta pendiam-lhe pelles de leopardo. Na mão trazia elle um objecto formado de caudas de antìlope, com que sacudia as moscas. A cultura é feita no paiz por homens e mulhéres, que, em pequenas plantações, cultivam massango, algodão, pouca mandioca, e ainda menos batata dôce. Trabalham muito em ferro, que extrahem das minas na margem direita do rio, junto das quaes passei, ao norte de Cangamba. Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas de Cangamba.] Ao contrario dos outros povos Ganguelas, em Cangamba sam os homens que fazem as panellas e as mulhéres esteiras. Fiam o algodão, que tecem em teares de occasião, fazendo uns pannos, do tamanho de toalhas de rosto, muito perfeitos. Viéram vender-me tabaco, que dizem cultivar no paiz, mas que eu não vi nas plantações que visitei. As armas de que usam sam frechas e machadinhas. O Cubanguí tem, junto a Cangamba, 15 metros de largo por 6 de fundo, e 12 metros de corrente por minuto. Tem peixe, a que não posso assignalar o feitio, porque os que vi eram sêcos, e tinham de 40 a 50 centìmetros de comprido. Mandioca e peixe sêco; ¡que opìparo banquête para quem andava condenado ao atroz massango! O rio Cubanguí, para não escapar á lei geral d'aquelle Continente, tem crocodilos, mas sam nada vorazes, e afiançáram-me os Ambuelas, não haver exemplo de uma desgraça causada por elles. Cachimbo Ambuela.] Fui pagar a visita ao sova, que é sujeito distincto e sympàthico. Como me não vendiam senão massango, pedi-lhe, que me desse alguma mandioca e algumas batatas dôces, presente que elle me fez em minguada porção, escusando-se por não ter mais. Ainda assim, chegou para três dias. ¡Três dias de fèrias de massango! Tendo obtido guias, alguns carregadores, e bastante massango, decidi seguir ávante, no dia 22 de Julho, a demandar as povoações do sova Caú-eu-hue, no rio Cuchibi, onde passa, o caminho outrora seguido por Silva Porto, e que eu abandonei no Cuanza, seguindo mais ao norte. Disséram-me os guias, que teria de jornadear em paiz deserto por espaço de 8 dias, e por isso precisava ir bem provido de rações. Os meus doentes tinham melhorado com o descanço e mais abundante alimentação; ainda assim, o Muene-Cahenga forneceu-me dez homens para ajudarem a carregar o massango de que me provi. Tendo-me dito os guias, que durante dois dias devìamos caminhar na margem do rio, tive a lembrança infeliz de o descer embarcado. A 22 de manhã, mandei transportar o meu barco de cautchuc ao rio, fiz levantar campo, e tendo entregue o commando da comitiva ao Verissimo, dirigi-me ao barco, que tripulei com dois muleques pequenos, o meu Catraio, e outro pequeno de 12 annos, chamado Sinjamba, filho de um carregador Biheno, que escolhi por falar bem a lìngua Ganguela, e poder servir-me de intèrprete, se isso fôsse preciso. Declaro, que não foi sem uma certa commoção que deixei a margem, e me lancei na corrente de um rio desconhecido, tendo por ùnicos companheiros duas crianças, e governando um barco de fragil tela. O rio, que nasce trinta milhas ao N., já tem ali 15 metros de largo por 6 de fundo, e pouco a jusante, alarga a 40 e 50 metros, e ás vezes mais. O seu fundo, que varía entre 3 e 6 metros, é coberto de area muito alva, que de certo cobre uma camada de lôdo, porque a flora aquàtica do rio é verdadeiramente assombrosa. Muitas especies de juncos e outras plantas aquàticas enraizam no fundo, atravessam com suas fôlhas e seus troncos finos, sempre agitados pela corrente, 6 metros d'àgua, e vẽm desabrochar á superficie, as suas flôres de variado colorido, e elegantes formas. Por vezes, esta pomposa vegetação occupa tôda a largura do rio, e parece impedir a passagem. A principio hesitei em lançar o barco sôbre aquelle prado aquàtico, julgando encontrar fundo e falta de àgua para navegar; mas depois que a sonda ali me accusou, ora 4 ora 6 metros de àgua, não mais duvidei em deslizar por entre aquelles jardins floridos. [Mappa 8.--De Cangamba ao Cuchibi] Nos pontos onde a àgua, pela disposição do leito, tem corrente insensivel, é que esta vegetação submersa se converte em verdadeira mata virgem, que prende o barco e não o deixa avançar. Vi muitos peixes nadando ligeiros por entre as sarças, sendo alguns de mais de 60 centìmetros de comprido. Bandos de patos fugiam diante de mim, estranhando de certo o serem interrompidos n'aquellas regiões nunca devassadas por uma canôa. Nos juncaes das margens, milhares de passarinhos chilreavam e saltavam nos ramos das gramìneas, que mal se curvavam ao seu pêso ligeiro. Aqui e àlém, um pàssaro pescador sustentava a mesma posição no ar com um ràpido bater d'azas, até descer verticalmente com velocidade de frecha a tomar a prêsa que espreitava. Nos canaviaes da margem, um grande rumorejar na folhagem verde deixava-me perceber um ou outro crocodilo que desapparecia nas àguas. Outras vezes, aquelle rumor era seguido pelo baque de um côrpo que em leve salto se precipitava no pego, e mal eu tinha tempo de perceber uma esquiva lontra. O rio, cuja direcção geral é Norte-sul, descreve as mais caprichosas curvas, que quadruplicam o caminho. A margem direita é um vasto paúl de largura muito variavel, que ás vezes alcança 1000 metros. D'ali se escôa um grande volume d'àgoas que engrossam o rio a olhos vistas. Três milhas àlém de Cangamba, vi um rancho de 18 mulheres que pescavam junto á margem, peixes pequenos, com cestos de vime. Em uma das voltas do rio, percebi três antìlopes desconhecidos para mim, e quando ia a tomar a carabina para lhes fazer fôgo, elles saltáram na àgua e desapparecêram em profundo mergulho. Este facto causou-me a maior estranhêza, que cresceu de ponto quando, no correr da viagem, por vezes divisei muitos d'aquelles animaes, já nadando e mergulhando ràpidamente, já conservando sempre a cabêça submersa, e deixando ver apenas as pontas dos cornos. Este animal curioso, que tive depois occasião de matar no Cuchibi, e de cujos hàbitos tive algum conhecimento, obriga-me a suspender por um momento a minha narrativa, para falar d'elle. Chamam-lhe os Bihenos Quichôbo, e os Ambuelas Buzi. O seu tamanho, no estado adulto, é o de um bezerro de um anno. O pêllo é cinzento escuro, de 5 a 6 centìmetros de comprido, e extremamente macío. Na cabêça o pêllo é mais curto, e tem sôbre as fossas nasaes uma lista esbranquiçada transversal. Os cornos tẽm 60 centìmetros de comprido, e a sua secção na base é semicircular, tendo a corda quasi rectilìnea. Conserva esta secção até três-quartos da sua altura, depois do quê se torna quasi circular até á ponta. O eixo medio dos cornos é recto, e formam entre si pequeno àngulo. Sam torcidos em tôrno do eixo, sem perder a sua forma rectilìnea, apresentando as arestas uma espiral de passo muito largo. As patas tẽm compridas unhas semelhantes ás do carneiro, e reviradas nas pontas. A disposição das patas e os seus hàbitos sedentarios tornam este notavel ruminante improprio para correr. A sua vida passa-se na àgua, e nunca se afasta muito da margem do rio, onde sahe a pastar, raras vezes de dia, e muito de noute. O seu sono e o seu repouso é na àgua. A sua potencia mergulhadora é igual, senão superior, á do Hippopòtamo. Durante o sono aproximam-se da superficie da àgua, e deixam ver fora d'ella metade dos seus cornos. O quichôbo.] É muito tìmido, e acoita-se no fundo das àguas ao menor signal de perigo. É facil de surprender e de matar, sendo que os indìgenas lhe dam grande caça, para se aproveitarem das suas pelles, que sam magnìficas, e da sua carne, que não é muito bôa. Quando sahem a pastar, a sua pouca destrêza na carreira, permitte aos indìgenas o apanharem-n-o vivo, não se defendendo no ùltimo trance, como fazem quasi tôdos os antìlopes. A fèmea, como o macho, é armada de cornos. Ha muitos pontos de contacto entre a vida d'este extraordinario ruminante e a dos hippopòtamos seus conterràneos. O rio Cubanguí, o rio Cuchibi e o alto Cuando, dam guarida a centenares de Quichobos, que não apparecem já no baixo Cuando, nem no Zambeze. Eu explico este facto pela voracidade dos crocodilos no Zambeze e baixo Cuando, que em pouco tempo dizimariam tão tìmido animal, se elle se afoutasse a ir viver nas àguas onde reina com absoluta soberania o carniceiro amphibio. Em uma entrevista que tive em Pretoria com um notavel caçador de antìlopes, Mr. Selous, me disse elle ter ouvido falar do meu antìlope, aos indìgenas do alto Cafucue, onde lhe disséram existir um animal n'aquellas condições de vida. A minha pouca competencia em materia de zoologia, não me permittio fazer mais minucioso estudo de um animal, que eu julgo merecer a attenção dos homens de sciencia pelos seus estranhos hàbitos. Continuando com a minha narrativa, tenho a fazer os maiores elogios ao meu barco Macintosh, que se portava muito bem nas àguas do Cubanguí; mas cuja exiguidade de formas me obrigava a uma posição constrangida, que, pelas 4 horas da tarde, me produzia dôres em tôdas as articulações. Desde que deixei Cangamba não mais vi signaes da minha comitiva, e pêlas 4 horas da tarde, ás dôres de uma posição contrafeita já se unia um vago cuidado e uma fome bem pronunciada. Os meus pequenos remadôres estavam extenuados de fadiga. Aportei á margem esquêrda, e mandei o muleque Sinjamba subir ao tope de uma àrvore a investigar se na outra margem se erguia o fumo do acampamento. Elle julgou ver o fumo a N.O., a montante por isso do sitio em que estàvamos. Tornámos a subir o rio, e eu com muito custo pude saltar no paúl da margem direita e encaminhar-me ao logar onde fôram assignalados os indicios de fumo. Teria andado um kilòmetro, quando percebi vestigios da passagem da minha comitiva para o sul. Os rastos da minha cabra e dos cães não me podiam enganar. Voltei ao barco e tornei a navegar rio abaixo. De vêz em quando parava e mandava o muleque trepar a alguma àrvore da margem esquêrda, mas esta manobra repetia-se sem resultado. Aproximava-se a noute, e eu não estava sem cuidados; porque, àlém da fome que sentia, receiava o dormir fora do campo, por causa dos meus chronòmetros que ficariam sem corda. Tinha desapparecido o sol, e n'aquellas paragens o crepùsculo é curto. Decidi acampar com os meus dous pequenos na margem esquêrda, e quando já dava execução ao meu plano, pareceu-me ouvir o estampido de um tiro muito longe a S.O. Redobrámos de esforços, e pouco depois ouvia outro tiro, a que respondi. Ao meu tiro, vi o clarão de outro atirado a 200 metros de mim. Dirigi para ali o barco, e deparei com o meu Augusto mettido em àgua até á cinta no paúl de margem direita. Um Biheno estava com elle. Foi grande a sua alegria ao vêrem-me, e logo viéram tirar-me do barco e transportar-me ás costas por tôdo o paúl que era largo ali. Foi difficil aquelle caminhar que levou meia hora, mas eu cheguei enxuto á margem. Os pequenos, depois de prenderem o barco a um canavial, seguíram-nos. Disse-me o Augusto, ser longe o acampamento e termos de atravessar uma espêssa floresta. Eram profundas as trevas na floresta, e difficil o caminhar por entre as sarças. Tropeçar aqui, cahir àlém, andar dez metros em dez minutos, rasgando o vestuario e a carne nos espinhos do matagal, tal é o jornadear á noute em mata virgem. Depois de uma hora de violentos esforços, sentímos perto tiros e grande grita. Eram os meus, que me buscavam. Fiz-lhe signal e encontrámo-n-os. Vinha Verissimo Gonçalves á frente de um grupo de Bihenos, que quizéram por fôrça transportar-me ao campo, em umas andas que ali improvisáram com troncos cortados na mata e folhagem d'arbustos. Assim entrei no meu acampamento, onde, á meia noute, junto de um bom fôgo, matava a fome de 36 horas. Demorei-me ali um dia, e no seguinte logo de manhã comecei a passagem do rio, que foi muito demorada, porque dispunha apenas para isso do meu pequeno barco Macintosh. Segui ás 9 horas na margem esquêrda do rio, e uma hora depois, encontrava um ribeiro nas margens do qual appareceu muita caça; segui sempre, e pela 1 hora fui acampar junto de outro riacho, que como o primeiro era tributario do Cubangui. Aparecêram no meu campo dois Ambuelas caçadores de cêra (como elles dizem), que prevenìram os guias de que era imprudente seguir para o Cuchibi; porque, tendo morrido um sovêta pròximo do caminho que devìamos seguir, estàvamos expostos aos desatinos que elles costumam praticar em taes occasiões. Viéram prevenir-me d'isso, mas eu, a despeito da morte de tôdos os sovêtas possiveis, resolvi seguir ávante, e effectivamente no outro dia, depois de marcha bastante forçada de 6 horas, alcancei a margem direita do rio Cuchibi. Na minha comitiva havia muita gente com uma molestia que tinha alguma cousa de ridìculo; 18 ou 20 pessôas estavam com papeira. CAPÌTULO VIII. AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS. Foi a 25 de Julho que acampei na margem direita do rio Cuchibi. O terreno que medea entre este rio e o Cubanguí, é occupado por floresta virgem, onde se nota vegetação opulentissima. Um naturalista botànico encontraria ali vasto assumpto para demorado estudo; tal é a variedade de plantas que crescem, umas á sombra d'outras, n'aquella brenha enorme. Por espaços o caminhar foi difficil, e mais de uma vez as machadas sahíram dos fortes cinturões de couro, para tornar transitavel um ou outro carreiro de feras. Ao caminhar na mata foi o meu olfato impressionado por um aroma suave e delicadissimo, emanado da flôr de uma àrvore abundante ali. Nenhuma das flôres conhecidas tem mais delicado aroma do que o da flôr do Oúco , que assim chamam os naturaes á primorosa àrvore. A configuração da àrvore, a disposição das fôlhas, as flôres, em cachos, e sôbre tudo a minha ignorancia em botànica, fizéram-me escrever no meu diario sem hesitação, é uma Acacia. Ha tempo, recebendo a visita do boticario da minha aldea, e vendo elle um dos meus albuns de desenhos, disse-me com tôda a franqueza de aldeão: "O senhor escreveu aqui uma asneira, esta flôr não pode ser de uma acacia, porque tem só duas pètalas e três estames, e deve saber, que a acacia produz flôres de cinco pètalas, e dez estames; por isso entra na familia das Papilionàceas, e hôje entra na classe das Leguminosas, e eu vou-lhe buscar o meu de Candolle ..." Não vá, lhe disse eu, acredito-o sôbre palavra, e como ahi vai representada a flôr, não me metterei a querer classifical-a. Oúco. Flôr dez vezes augmentada. As flôres formam cachos de 3 cent. de comprido por 15_mm. de diàmetro. Pètalas brancas, ovario e estames castanhos, perfume delicioso.] Esta àrvore, cujas flôres cubicei para offerecer ás damas da Europa, não a encontrei antes d'este ponto, e desappareceu no curso superior do rio Ninda. Outra àrvore que encontrei ali e que chamou a minha attenção, não pelo aroma das flôres, mas pelo gôsto dos frutos, foi uma que os naturaes chamam Opumbulume . O fruto é em tudo semelhante ao Mapole, que já descrevi, sendo o seu gôsto differente, e muito mais differente a àrvore que o produz. O rio Cuchibi apresenta um aspecto differente do dos outros affluentes do Cuando até ao ponto em que os visitei. Corre no meio de uma planicie que encosta ás vertentes dôces de montanhas cobertas de espêsso mato. Opumbulume.] A planicie completamente enxuta, e não apaülada, como quasi tôdas as que fazem margem aos seus congèneres da Àfrica de Sudoeste, chêga por vezes a alargar-se em oito kilòmetros de extensão. O rio serpea ali, não em curvas de curto raio como o Cubanguí, mas em pouco ondulada linha, que ao longe faz parecer rectilìnea a sua directriz. Uma pomposa vegetação herbàcea vai terminar nas escarpas do leito, onde corre uma àgua cristallina, deixando perceber o fundo de area branca. Carece completamente da flora aquàtica que abunda no Cubanguí, não sendo inferior a sua fauna, de que falarei mais tarde. Havia caça e fiz uma bôa caçada, pois que matei um songue, antìlope vulgar nas margens do Cuando e nas dos seus affluentes. Aparecêram-me n'aquelle dia alguns homens queixando-se de uns tumôres que se desenvolviam nas articulações das pernas, e os impediam de andar. Felizmente, o gasto de mantimentos já me deixava livres outros homens, que tomáram as cargas d'aquelles. Uma grande parte dos meus carregadores tinham feridas sôbre as tìbias, sôbre a cabêça do proneo e tendão d'Achilles, que não havia meio de curar. Debalde esgotei tôda a minha sciencia mèdica, emprestada do Chernoviz, e debalde o meu doutor Chacaiombe reunio os seus medicamentos selvagens, aos mais estupendos processos de feitiçaria, ellas a tudo resistíram. Eu attribui o caso a duas causas, e não sei se atribuia bem. Em primeiro logar, o constante exercicio de andar, pensei eu ser uma; em segundo logar, a alimentação seria outra. Não julguem os meus leitores que lhes vou falar contra o innocente Massango. Não, sou muito leal inimigo para atacar na ausencia aquelle que tanto me perseguio. Deixo em paz o Massango, não é elle offensivo, e creio mesmo que é bôa dieta. A alimentação a que me refiro, e á conta de quem deito em parte a inutilisação dos meus esforços e dos do doutor Chacaiombe, em curar os meus doentes, é outra. Os Bihenos, como já tive occasião de dizer, comem de tudo e de todas as carnes em estado de putrefacção. Ainda que repugne um facto que vou narrar, mostra elle bem a que grao sobe o gôsto do Biheno pela carne. A minha cadella Traviata têve em caminho oito cachôrros mortos. Mandei-os enterrar pelo meu Augusto, em sitio occulto, para os subtrahir á voracidade dos meus Bihenos; mas dois d'elles, do acampamento seguinte, voltáram atraz, lográram descobrir o sitio onde elles fôram enterrados, e leváram-n-os; fazendo com aquella carne um banquête. As termites comem elles cruas ás mãos cheias, e apreciam muito os ratos. Na ordem dos roedores ha um que elles muito procuram, e é um rato pequeno de farta cauda sedosa, que vive nas tocas das abelhas, as quaes não aggride. O Rato mencionado.] O ponto do rio Cuchibi onde eu estava acampado é despovoado de gente, e diziam-me os guias, que só depois de quatro dias de marcha lograriamos alcançar as povoações. No dia immediato, seguímos viagem rio-abaixo pela margem direita. A meia jornada, n'esse dia, notei eu que me faltava muita gente. Mandei fazer alto, e voltei atraz a indagar do caso; quando deparo em um mato com muitos dos meus, que compráram a uns Ambuelas, carne de Quichôbo, a trôco de cartuxos que me tinham furtado. Fugíram, ao ver-se descobertos; mas menos destros pude alcançar o pombeiro Chaquiçonde e o meu doutor Chacaiombe. Este lançou-se de joêlhos a pedir perdão, mas o secúlo Chaquiçonde tirou do machado para me agredir. Dei-lhe tão forte pancada na cabêça com a coronha da arma, que elle cahio por terra atordoado, e eu julgei-o môrto; não me causando tanta impressão ter môrto um homem em defensa propria, como o ter sido isso por uma insubordinação, a primeira que se dava comigo. Voltei á comitiva, que mandei acampar, e fiz transportar ao campo o século Chaquiçonde, que vinha banhado em sangue de larga ferida produzida pela pancada. Fiz-lhe um curativo, e reconheci que não era de circunstancia o ferimento, porque feridas na cabêça, quando não matam logo, em breve cicatrizam. Reuni depois os pombeiros, por quem fiz julgar o delicto do culpado, sendo a maioria de voto, que elle devia ser condenado á morte. Outros entenderam, que lhe deveria mandar dar muita pancada. Mandei-o comparecer, fil-o reconhecer a sua culpa, e perdoei-lhe. A minha generosidade produzio geral assombro. No dia seguinte, sustentei marcha de seis horas, sempre na margem direita do rio. Continuava de apparecer bastante caça muito esquiva. Matei um songue . Este elegante antìlope differe bastante d'aquelle a que os Bihenos dam o mesmo nome entre a Costa e o Bihé. Tem 1 metro e 50 centìmetros de altura na agulha, e 1 e 40 da agulha á raiz da cauda. O pêllo curto é amarello torrado, e de tinta igual. Medi alguns saltos de 5 metros, e vi-os saltar por sôbre um canavial de 2 metros de alto. No momento do hallali defende-se e ataca raivôso. A sua carne é saborosa, mas, como a de tôdos os antìlopes, muito sêca. Vive em manadas, sempre na planicie, e tem vigias em quanto pasta. Songue.] [Figura 70A.--Rasto do Songue.] Só muito perseguido se embrenha nas matas, ou atravessa um rio a nado. Este antìlope desapparece completamente àlém do curso superior do rio Ninda. Segui no dia immediato. Á medida que ia descendo o rio, vi que a planicie marginal mais e mais se alargava. N'ella pastam bandos de antìlopes, predominando os songues . N'esse dia já se sentia grande falta de vìveres, e comêram-se as ùltimas rações de massango. Finalmente, a 29 de Julho, depois de três horas de marcha, fui acampar em frente das povoações de Caú-eu-hue, onde reside o sova do Cuchibi. Antes de falar dos povos Ambuelas, e d'um rico paiz atravessado pelo Cuchibi, quero dizer duas palavras do meu modo de viajar, ou antes da minha vida em Àfrica. É certo que tôdos os meus predecessôres tẽm tido o seu systema, e aquelles que me seguirem terám o seu, tôdos òptimos. A minha vida, salvas raras excepções, foi a seguinte. Levantava-me ás 5 horas, despia-me (porque dormia sempre vestido e armado), e tomava banho em àgua á temperatura de 33 centìgrados. Os Inglezes tomam banho em àgua fria, que é mui tònica; eu por mim, lavo-me por aceio, e não uso da hydropathia; para isso tinha uma chaleira de ferro que me servia para aquècer a àgua. Narrando o meu viver Africano, falarei de alguns objectos que a elle estavam estreitamente ligados. O primeiro, depois da chaleira, era a minha banheira de cautchuc, fabricada pela casa Macintosh de Londres. Era um traste preciôso, que, depois de tão aturado serviço, ainda se acha hôje em òptimo estado. Coisa de borracha fabricada em Inglaterra é assim. Depois do banho, passava ao meu toilet . A bacia era cortada em uma cabaça de 50 centìmetros de diàmetro. As toalhas eram de finissimo linho de Guimarães. Escôvas, esponjas, sabonêtes e perfumarias (eu em Àfrica usava muito de perfumarias), eram de primeira qualidade, fornecidas pelo Carlos Godefroy, que vende tudo muito caro, mas muito bom. Terminado o meu toilet , a que assistia o meu criado de quarto Catraio, guardava elle cuidadosamente tôdos os objectos de que eu me tinha servido, e vinha apresentar-me os chronòmetros, thermòmetros e baròmetro. Dava corda, e comparava os primeiros, registrava as indicações dos segundos. A esse tempo já o meu muleque Pépéca tinta feito o chá, e vinha apresentar-m'-o. Figura aqui um objecto a que eu ligava a maior importancia. Era uma chàvena de porcelana, chàvena que me foi offerecida pela espôsa do tenente Rosa, em Quillengues. Fina como uma fôlha de papél, transparente e elegante, aquella chàvena fazia as minhas delicias, tornando mais saborosa a infusão das fôlhas do arbusto Chinez. Depois de tomar três chàvenas de chá vêrde, sem assucar, porque o não tinha, fechava as malas, e dava ordem de partida; partida, que raras vezes se effeituava antes das 8 horas, por ser impossivel arrancar os carregadores de junto das fogueiras, onde os prendia um frio intenso. Partìamos pelas 8 horas. Na frente da comitiva o prêto Cahinga, de Silva Porto, levantava a bandeira, e logo após elle seguiam as caixas de cartuxos, a pao e corda. Iam após os outros carregadores indistinctamente a um de fundo, fechando a marcha eu, o Verissimo, e os pombeiros. O carregador que por qualquér motivo tinha de deixar o caminho, pousava a carga, e era isso signal para junto d'ella parar o pombeiro a quem elle pertencia, que depois o acompanhava. Durante o caminho observava os meus rumos, e calculava as minhas marchas, combinando o pedòmetro com o relogio. As marchas regulares eram entre 8 e 10 milhas geogràphicas, sendo elevadas a muito mais quando as circunstancias o exigiam. A tempo acampava, e durante uma hora durava a faina de construir barracas. Era um cortar de madeira, de ramos e de erva que durava uma hora. Se não tinha observações a fazer, estendia-me horizontalmente na erva viçosa, e dormia até me virem prevenir que estava prompta a barraca. Geralmente a barraca estava prompta á uma hora; tinha pois de esperar algum tempo para fazer as minhas observações para o boletim meteorològico, que era feito a 0_h. 43_m. de Greenwich. Para saber a hora consultava um relogio que o Pereira de Mello me mandara de Benguella para o Bihé, relogio de latão, puro cylindro de construcção helvètica, oito rubins etc., que trabalhava desembaraçadamente. Á hora precisa, chamava o Catraio, que me trazia os instrumentos, e usando eu de um thermòmetro de funda, que pertencêra ao infeliz Barão de Barth, quando eu fazia girar o thermòmetro, juntavam-se sempre a distancia tôdos os carregadores Bihenos, que contemplavam pasmados aquella operação, que eu repetia tôdos os dias, e elles tôdos os dias vinham contemplar pasmados. Logo que registava as observações, vinha o meu muleque Moero com os pratos, e a ração, que eu não quero chamar jantar, aquelle punhado de massango cozido em àgua. Depois da refeição, se a fadiga me impedia de ir caçar e percorrer os arredôres, empregava o tempo passando as notas do dia para o diario, calculando as observações, desenhando, etc. A tinta que eu empreguei em tôdos os meus trabalhos, foi a dos pequenos tinteiros màgicos, cada um dos quaes me durava de dois a três mezes. Este systema de fazer apontamentos durante as marchas e durante o dia, que depois passava ao diario, dava em resultado, o ter eu um duplicado dos meus trabalhos, e de haver sempre a possibilidade de se salvar um, se o outro se perdesse. Os apontamentos diarios eram feitos a lapis, em pequenos quadernos, que eu ia lacrando e sellando á medida que os prehenchia. Nelles, àlém dos factos, estavam registradas tôdas as observações iniciaes, já astronòmicas, já meteorològicas. Estes cadernos, que ao deixar Durban enviei a Portugal por via de Inglaterra, chegáram a salvo a Lisboa, onde ainda estam por abrir, ao passo que a copia desenvolvida do que elles contẽm, sempre me acompanhou, e está servindo de norma ao que estou escrevendo agora. Foi-me preciso fazer esta viagem, para saber o quanto vale o tempo, e para quanto elle chêga sendo bem aproveitado. Vinha á noute, e então crepitava na minha barraca grande fogueira, que me proporcionava calor e luz. Se eu não tinha observações a fazer durante a noute, ou, muitas vezes, se a fadiga obrigava o repouso a preterir tudo o que houvesse a fazer, ia deitar-me sobre as pelles de leopardo que formavam a minha cama, tendo por travesseiro a pequena malinha em que guardava os meus papeis. Um hàbito que adquiri em viagem, de envolta com o frio da ante-manhã, faziam-me regularmente acordar ás três horas. Levantava-me então e reaccendia a fogueira amortecida. Vinha á porta da barraca, onde via um thermòmetro deixado fóra, e que a essa hora me dava uma mìnima muito approximada. Eu não tinha thermòmetros de màxima e mìnima, e sam apenas approximadas estas duas indicações thermomètricas que vẽm nos meus boletins; sendo a temperatura màxima approximada a que se fazia sentir á 1_h. e meia, proximamente á hora do meu boletim a 0_h. 43_m. do tempo de Greenwich. Depois das 3 horas até ás 5, o meu tempo era passado junto ao fôgo, fumando ininterrompidamente 10 ou 12 cigarros, e pensando na minha patria e nos meus. ¡Quantas vezes a essa hora, hora para mim de meditação e tristeza, não cogitava eu no futuro do meu emprehendimento! Estava então no Cuchibi, 20 graos a leste de Greenwich, e 14 e meio ao sul do equador. Estava longe de tôdo o soccorro que carecêsse, ¿onde iria buscar recursos para seguir ávante? Do Bihé até ali ainda tive a pouca fazenda de algodão de que dispunha; mas as ùltimas peças estavam diante de mim. Eram o meu ùltimo dinheiro. Em tôdos os povos encontrei mais ou menos facilidade de permutar o alimento pela fazenda de algodão, sendo a preferida o zuarte, o zuarte pintado e o algodão branco ordinario. Raras vezes querem os riscados e a fazenda de lei. O buzio miüdo (caurim), que tem muito valor entre os Quimbandes, e muito pouco entre os Luchazes, recupera no Cuchibi a sua importancia, para emprego bem diverso d'aquelle que lhe dam os primeiros d'estes povos. Ali é para ornamentar as cabeças, aqui é para fazer cinturões, em que ha grande luxo. A missanga Maria 2^a tem grande valor em toda a parte; mas no Cuchibi é preferida a tudo, excepto á pòlvora. Chegando ao Cuchibi, cheguei ao primeiro ponto em que n'esta viagem me pedíram manilhas de cobre e arame para ellas. Logo depois de ter estabelecido o meu campo, appareceu n'elle um homem que veio falar-me, dizendo ser Biheno e ter ficado ali doente, deixado por uma comitiva, havia três annos. Foi reconhecido por muitos dos meus carregadores, e engajou-se ao meu serviço. Eu estava no caminho das comitivas do Bihé, e como tencionava demorar-me alguns dias, mandei um pequeno presente ao sova, e participar-lhe a minha resolução. Sube pelo Biheno que me appareceu, que corria a noticia de ter havido uma revolução no Barôze, tendo sido expulso o règulo Manáuino, e acclamado um outro de que não se conhecia por ora o caracter. Não me foi agradavel esta noticia, porque eu sabia que Manáuino era feroz e sanguinario com os seus, mas hospitaleiro para com estranhos. Estes Ambuelas, entre os quaes estava, sam a pura raça Ambuela, porque as do Cubangui estam muito misturadas com a raça Luchaze. Sam os habitantes do Cuchibi inimigos dos Ambuelas de Oeste, e muitas vezes vẽm ás mãos. A raça Ambuela occupa tôdo o paiz banhado pelo Cuando superior, e está agglomerada, sôbre tudo na parte em que este rio recebe os seus confluentes, Queimbo, Cubangui, Cuchibi, e Chicului. As povoações no rio Cubangui sam construidas, já nas ilhas do rio, já no mesmo rio sobre estacaria. Sendo estes povos os ùnicos que possuem canôas, dormem de noute descançados nas suas habitações aquàticas, sem receio de serem atacados. O sova mandou-me logo provisões e bastante milho. ¡Com que prazer eu comi um prato de milho cozido! ¡Estava por algum tempo livre do fatal massango! Mandou elle dizer, que viria visitar-me no dia immediato. N'esse dia, logo de manhã, sahi a dar um passeio. O emmaranhado da brenha espinhosa tornava difficil o caminhar na floresta. Ainda assim, afastei-me uns três kilòmetros do acampamento, e fui deparar com uma enorme armadilha de apanhar caça. Era ella formada por uma sebe que devia ter alguns kilòmetros de extensão, fechando um espaço pròximamente circular. Este cercado enorme tinha de 20 em 20 metros, pròximamente, umas aberturas, em cada uma das quaes estava armado um Urivi, armadilha em que a caça, lebres e antìlopes pequenos, sam esmagados por um pesado cêpo. Reunida muita gente fazem uma grande batida no mato, e então a caça foge espavorida, e não podendo saltar o cercado, investe com as aberturas, onde vìctima é dos Urivis ali collocados. De volta ao meu campo, encontrei no mato um acampamento de Mucassequeres, abandonado de ha pouco. Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas.] Recebi a visita do sova, homem de idade avançada, de typo sympàthico, com um perfil judaico. Vinha bem vestido, trazendo sôbre uma farda um casaco de linho branco, e ao pescôço um grande e vistoso lenço. Cubria-lhe a cabêça um barrête de listas prêtas e encarnadas. Na mão trazia uma concertina de que tirava sons desordenados. Deu-me nôvo presente, de milho, mandioca, feijão e gallinhas, que eu retribui dando-lhe algumas cargas de pòlvora, o mais estimado presente que se pode fazer no Cuchibi. Retirou-se o velho muito satisfeito, promettendo avistar-nos mais vezes. Disse-me elle n'esta primeira visita, que os reis do Barôze, mandam ali receber tributos, e que elle, para evitar guerra, lh'os manda pagar, estando assim estabelecida uma especie de vassalagem; que, havia pouco, soubera da revolução do Zambeze, mas não conhecia o nôvo potentado, e nenhumas informações me podia dar d'elle. N'essa tarde, os meus prêtos prendêram no mato dous Mucassequeres que trouxéram á minha presença. Os dous pobres selvagens tremiam de mêdo e julgavam-se perdidos. Falavam um pouco a lìngua Ambuela, e por meio de um intèrprete pudémos entender-nos. Elles julgavam que uma sentença de morte os ia fulminar, ou ao menos que a escravidão iria sujeitar o resto de seus dias. Mandei que os desamarrassem, e lhes entregassem as suas armas. Disse-lhes que estavam livres, e que voltariam para a sua tribu, e dei-lhes alguns fios de missanga para as suas mulheres. Elles caminhavam de sorpresa em sorpresa, e não podiam crer na verdade das minhas palavras. Dei-lhes de comer, e pedi-lhes que me levassem a ver o seu bivac. Depois de discutirem acaloradamente um com o outro, n'uma lìngua desconhecida a tôdos os que ouviam, e completamente differente na intonação a tudo o que em lìnguas Africanas eu tinha ouvido até ali, decidíram que me levariam á sua tribu se eu quisesse ir só. Aceitei, e parti com os dois horrorosos selvagens. Apesar do meu muito hàbito da floresta, era-me difficil acompanhar os ageis guias, que mais de uma vez tivéram de esperar por mim. Ao cabo de uma hora de caminho, deparámos, no meio de uma pequena clareira, com o acampamento da tribu. Haviam ali mais três homens, sete mulheres e cinco crianças. Alguns ramos d'àrvore derreados, com outros encostados na frente, sam os seus ùnicos abrigos. Não tẽm o menor apresto de cozinha. Sustentam-se de raizes, e de carne que assam em espêtos de pao. Não conhecem o sal. Homens e mulheres mal cobriam a sua nudez com pequenas pelles de macacos. Arcos e frechas sam as ùnicas armas de que se servem. Eu estava muito embaraçado, porque não os entendia nem podia fazer-me entender d'elles. Dirigi-me ás mulheres, a quem dei alguns fios de missangas que tinha levado para isso. Ellas recebêram-n-os sem darem mostra de nenhum sentimento de agrado. A miseria d'aquelles desgraçados compungia-me. O seu rôsto é feissimo, olhos pequenos e um pouco inclinados nas òrbitas, ossos molares muito distanciados e salientes, nariz achatado, com as fossas nasaes desmesuradas. Tẽm o cabello encarapinhado e pouco, crescendo em montões separados, mais basto no alto da cabêça. Alguns bocados de pelle de animaes atados nos pulsos e nos artelhos sam o seu ornamento, ou talvez amuleto milagroso. Procurei fazer comprehender aos meus guias que ia voltar, e elles precedêram-me no caminho, deixando-me, já noute, na orla do bosque d'onde eu ouvia o vozear do meu campo e alegres cantares. Durante a minha permanencia no Cuchibi, pude recolher algumas informações, ainda que escaças, a respeito de tão estranhas gentes. Os Mucassequeres partilham com os Ambuelas os territorios de entre Cubango e Cuando, sendo que estes vivem sôbre os rios e aquelles nas florestas, estes sam bàrbaros, aquelles selvagens. Não convivem, mas não se hostilizam. Se a fome os obriga, os Mucassequeres vẽm aos Ambuelas permutar marfim e cêra por alimentos. As tribus Mucassequeres sam independentes, e não obedecem a chefe commum. Guerreiam-se mesmo e os escravos que fazem uns aos outros vẽm elles vender aos Ambuelas, que os permutam depois ás comitivas do Bihé. Os Mucassequeres sam os verdadeiros selvagens da Àfrica tropical do sul, os outros povos podem ser chamados bàrbaros. O Mucassequer nunca têve casa ou simulacro d'ella. Nasceu sob a àrvore da floresta, viveu e morreu sob a àrvore da floresta. Despreza a chuva e o sol, e soporta as intemperies como qualquér fera dos matagaes. Ainda o leão e o tigre tẽm um antro onde se escondem; o Mucassequer precisa que pêlo côrpo despido lhe sopre a briza do mato. Não conhece a enxada, porque nunca cultivou a terra. Raizes, mel e caça sam o seu alimento, e cada tribu vagueia sem cessar em busca de raizes, mel e caça. Nunca dormem hôje onde ficáram hontem. A frecha é a sua arma, e tão destros sam no seu manejo, que caça apontada é caça morta. O proprio elefante cahi traspassado pelas suas setas lançadas por musculosos braços. As duas raças que habitam este paiz, sam tão differentes no côrpo como nos hàbitos. O Ambuela é prêto e tem o typo da raça caucàsica; o Mucassequer é branco e tem o typo da raça hotentòtica em tôda a sua hediondez. O nosso marinheiro crestado pelo sol e pelo vento dos temporaes é mais escuro do que o Mucassequer. Ha contudo n'aquella côr branca alguma cousa de amarello terroso, que os torna hediondos. Tive o maior pesar de não poder recolher dados mais precisos sôbre esta curiosa raça, que me parece dever merecer attenção especial dos anthropologistas e dos ethnògraphos. É minha opinião, que este ramo da raça Ethìope, pode ser collocado no grupo da divisão Hotentòtia. Tem na forma muito dos seus caracteres, e nós vemos n'essa raça uma variação sensivel na côr da pelle. O bushman do sul do Calaári é de côr mui clara, e alguns tenho visto quasi brancos. Sam de estatura pequena, e de côrpo franzino, mas tẽm tôdos os caracteres do typo Hotentòtio. No norte do mesmo deserto, sôbre tudo junto aos lagos salgados, formiga outra raça nòmada, os Massaruas, fortes e de estatura elevada, de côr nêgra carregada, possuindo o mesmo typo Hotentote, e indubitavelmente pertencendo ao mesmo grupo. Disséram-me no Cuchibi, que ainda entre o Cubango e Cuando, mas muito ao sul, existia outra raça em tudo semelhante aos Mucassequeres, em typo e hàbitos, mas muito prêtos. Assim, pois, em vista da affinidade dos caracteres, não me repugna admittir, que o grupo Hotentòtico da raça Ethìope, se estenda ao N. do Cabo até entre Cubango e Cuando, passando por diversas modificações de côr e de estatura, devidas quiçá aos meios em que vivem, á altitude, á grande differença de latitudes, ou ainda a outras causas menos apreciaveis. Por muito tempo as subdivisões da raça Ethìope na Àfrica tropical, serám mal conhecidas na Europa, por não ser facil colligir os dados para o seu estudo. ¿Qual é o indìgena d'essas tribus bàrbaras que deixa moldar o seu côrpo? ¿Caso deixasse, como pode o anthropologista levar a materia para fazer os moldes, e reconduzir depois esses moldes até á costa? ¿Como colleccionar esquelêtos, cràneos mesmo sómente, em paizes onde a profanação de uma sepultura pode ser caso da perda de uma expedição? ¿Como occultar da sua propria comitiva, dos seus proprios carregadores, esses despojos humanos, que seriam olhados como uma fonte de maleficios? A photographia, de tôdos o meio mais incompleto de fazer esses estudos, apresenta, ainda assim, difficuldades insuperaveis. Em primeiro logar, é difficil empregal-a em viagem de exploração, onde nem sempre dá os resultados que d'ella se esperam; sendo quasi impossivel o transporte de um laboratorio, em frascos de vidro á cabêça de um carregador, que tropeça e cahi dez vezes por dia. Eu sei-o de experiencia propria, e que o digam Capello e Ivens. Suppondo porem que se podiam mais ou menos facilmente empregar os meios photogràphicos, ¿qual era o indìgena do interior que deixava apontar uma màchina, e estava um momento firme diante da objectiva da càmara escura? No correr da minha narrativa terei occasião de narrar uma anecdota acontecida comigo e com o photògrapho Suisso M. Gross, em que eu consegui obter um grupo de Betjuanas, já meio-civilizadas, com uma paciencia e uma despesa incalculaveis. Com os Mucassequeres, aconteceu-me, de nem mesmo lhes poder apanhar o typo com o lapis e papél! Voltemos á minha narrativa. Ao deixarem-me na orla da floresta, já noute, os meus Mucassequeres disséram-me umas palavras, que provavelmente queriam dizer bôa noute, e fôram-se. A claridade espalhada na atmosphera pelas fogueiras do meu campo, e o som de alegres cantares guiavam meus passos, e pouco depois entrava eu no recinto do acampamento, onde, ao som da mùsica bàrbara dos Ambuelas, havia um dançar phrenètico. Mulhér Ambuela.] Muitas raparigas Ambuelas dançavam com os meus carregadores, fazendo soar as manilhas dos braços em compassado tinir. Impressionou-me o typo d'aquellas raparigas, que era perfeitamente Europeo, e algumas vi que, com a mudança de côr, fariam inveja a muitas formosas Europeas, a quem igualariam em belleza, e excederiam em formas e elegancias naturaes. Ali sube um caso nôvo para mim. Estes Ambuelas, quando chêga ao paiz uma comitiva, vẽm tocar e dançar ao seu campo, e á medida que a noute se adianta, vam pouco a pouco retirando, e deixando ali mulheres, irmãs e filhas. É costume de hospitalidade d'esta gente, offerecerem companheiras aos foragidos que apparecem. No dia seguinte, muito cêdo, ellas retiram para as suas povoações, e pouco depois voltam, a trazer presentes ao amante de uma noite. Opudo.] Comigo deu-se uma estranha aventura. Moene-Caú-eu-hue, o velho sova, mandou-me as suas duas filhas, Opudo e Capêu. Opudo teria uns vinte annos, Capêu dezaseis. A mais velha era feia, e tinha um modo altivo; a mais nova, sympàthica, tinha um rôsto càndido e ingènuo. Desde que me internei em Àfrica, decidi ter uma vida austera, o que me deu sempre grande influencia sôbre os meus prêtos, que, não me vendo beber senão àgua, e não me conhecendo uma só aventura galante, me julgáram sempre um ente superior e privilegiado. Apesar da minha fôrça de vontade, tive de sustentar uma luta atroz comigo mesmo para resistir á tentação da filha mais nova do sova Caú-eu-hue. Capêu só fala o Ganguela, que eu não entendia, mas Opudo falava o Hambundo. Capêu.] "¿Porque nos desprezas?" me perguntou ella com modo altivo. "¿Por ventura na tua terra tens mulheres mais bonitas do que minha irmã?" "Nós dormirêmos aqui; porque eu não quero que se diga, que as filhas do chefe dos Ambuelas fôram expulsas por um branco." ¡Imagine-se a ridìcula situação em que eu estava collocado! Era tal a atribulação do meu espìrito, que não sabia que responder. É verdade que a ùnica resposta a dar, era aquella que eu não queria dar. Na minha barraca estavam sentadas duas mulheres, sôbre pelles de leopardo; entre mim e ellas a vasta fogueira deitava uma luz pàlida, que era inda amortecida pelo verde escuro da folhagem que forrava o interior da cabana. Os lampejos da fogueira alumiavam a cabêça càndida, e collo nú de uma mulhér de dezaseis annos, que me fitava com um olhar lànguido, tùmido de desejos, inebriante de lascivas promessas. Eu via o arfar d'aquelle peito nu, de belleza esculptural, e não podia desviar os meus olhos d'elle. Lá fóra, ao ruidoso som dos batuques, havia um cantar mais brando, e o dançar mais compassado indicava a lassidão dos membros. Os meus bravos carregadores escolhiam as companheiras da noute. Eu estava só com as duas raparigas, mais só do que se estivesse muito longe de gente. "Nós ficarêmos aqui, me disse a orgulhosa Ambuela; não quero expor minha irmã aos chascos das mulheres velhas das povoações, e só te digo, branco, que se tu és secúlo do Muene-Puto, eu sou filha do sova." O ridìculo da minha posição augmentava; eu sustentava uma luta comigo mesmo para não ceder aos atractivos da joven selvagem, e não tinha uma palavra a dizer, porque não sabia o que fazer. Aquella situação picaresca não podia continuar, e eu não sabia como terminal-a. Preferia mil vezes estar em luta com o guerreiro pai, que em tal colloquio com a amante filha. De repente levantou-se a pelle que fechava a porta da barraca, e alguem entrou. Era a pequena Mariana, que tinha escutado tudo o que se disse na tenda. Entrou e foi acocorar-se junto á fogueira que atiçou. Depois comprimentou as Ambuelas batendo repetidas vesses as palmas, como é uso no paiz, e repetindo a palavra Cô-qúé-tú -- cô-qúé-tú , e disse-lhes: "O branco não as depreza; se as não deixa dormir aqui, é porque aqui só eu durmo, o branco é meu. Junto d'esta está a minha barraca, podem ir dormir ali." As filhas do sova Caú-eu-hue levantáram-se e sahíram com a pequena, a quem eu daria tudo para pagar tal serviço; mas, momentos depois, voltava Opudo, e dizia-me baixo, "Hôje durmimos fóra, mas tu has de ser amante de minha irmã." Confesso que me metteu mêdo aquella mulhér, a mim que nunca temi as feras! Deitei-me pensando na estranha aventura, e vindo-me vivamente á lembrança a bìblica historia da capa de José no Egypto. No dia immediato, as filhas do règulo viéram como as outras trazer-me presentes; eu dei-lhes alguma missanga, e ellas retiráram, sem fazer a menor allusão á scena da noute. Pouco depois, um portador do sova veio prevenir-me, de que elle me esperava essa tarde, e me mandaria um barco para eu ir á sua povoação. No acampamento apparecêram algumas cobras que os prêtos diziam serem venenosas, e muitos escorpiões nêgros de 10 a 12 centìmetros de comprido. Alguns dos meus prêtos fôram picados por estes repugnantes aràchnides, cujo veneno não produzio outro accidente àlém de violenta dôr e tumefacção dos tecidos pròximos. Os Ambuelas sam os primeiros povos que se encontram no meu caminho, que não vam occultar nas florestas as suas plantações. É na grande planicie por onde corre o rio que a cultura é feita; por isso a abundancia de producção que tem afamado estes povos como cultivadores. As cheias alagam a campina; e o nateiro que ali deixam as àguas é ubérrimo adubo que lhe avigora a cultura. Se não regam o terreno, como não vi fazer a pôvo algum Africano, fazem irrigações, e observei em volta das plantações fundos sulcos, por onde se produz a secagem dos terrenos que cercam. Estive trabalhando, e só tarde me lembrei de ir procurar a canôa que o sova me prevenio estaria á minha disposição junto ao rio, para ir á sua povoação. Ao chegar ao ponto designado, ¡qual não foi a minha sorpresa ao ver a ligeira barca tripulada por Opudo e Capêu, as duas filhas do règulo! Eu, que me julgo pouco medroso, confesso que sempre tive muito mêdo de mulheres. Todavia não quiz deixar perceber receios, e saltei para a estreita piroga, que equilibrei, dizendo-lhes: "Vamos." Ellas com immensa destreza, com extrema elegancia, manobráram a canôa, correndo por um canalête que conduz ao rio. O sol estava no occaso. O ligeiro barco deslisava por entre uma vegetação aquàtica riquissima, que vinha expor as suas bellezas á superficie d'àgua do canal. As victoria-regias e muitas espècies de Nenuphar, prendiam ás vezes o andar da canôa. Barco e Remo do Cuchibi.] Eu só pensava n'aquellas mulheres. Via já a canôa voltada, e eu presa de um crocodilo. De repente, por uma habil manobra dos remos, a canôa estacou, e Opudo disse-me: "Já é muito tarde para irmos a casa de meu pai, eu esperei-te muito tempo, volvamos para a terra, e ámanhã voltarás." Pouco depois atracàvamos, e ellas acompanháram-me ao campo. Veio a noute, e lá fora no acampamento, as danças e os cantares, e na minha barraca as filhas do règulo conversando de cousas indifferentes. Levantáram-se quando cessou o ruido das festas, e fôram deitar-se á porta da barraca junto de uma fogueira que accendêram. Quiz que ellas fôssem para a barraca da pequena Mariana, mas Opudo respondeu-me, que "era bicho do mato e estava acostumada a tudo." [Figura 76--Tambor das Festas Ambuelas.] N'esse dia o meu Augusto, que foi ao mato caçar, encontrou um bando de macacos pequenos, os primeiros que aparecêram no meu caminho desde a costa de Oeste. No dia immediato, fui logo de manhã visitar o sova, mas, querendo evitar aventuras, armei o meu barco de cautchuc e fui n'elle. O canal que segui vai desembocar n'um braço do rio que tem 20 metros de largo por 6 de fundo, com corrente ràpida de 50 metros por minuto. O rio divide-se, formando ilhotas baixas e encharcadas, onde cresce um canavial espêsso. É n'estas ilhotas, ainda cortadas por pequenos canaes, formando um verdadeiro labyrintho, que assentam as povoações Ambuelas n'um solo pantanoso, ao nivel do rio. As casas sam meio-encobertas pelo canavial basto. As parêdes sam construidas de caniços, assentes sôbre estacaria, e as coberturas sam de côlmo. Caú-eu-hue (Cidade do Cuchibi).] Casas, como tudo o que fazem estes Ambuelas, sam pèssimamente construidas, e pouco abrigam. Fora das portas, pendem de grandes estacas enormes cabaças, onde elles guardam a cêra, e outros objectos. As proprias casas estam atulhadas de cabaças. Entre os Ambuelas, a cabaça é mala, é cofre, é o seu principal traste de mobilia. Os depòsitos de mantimentos, só differem das casas de habitação em estarem dois metros elevados do solo, sôbre estacas, e por isso livres das inundações do rio. N'uma das ilhotas mora o sova Moene-Caú-eu-hue. Ha ali a sua casa de habitação, quatro mais, de quatro mulheres, e alguns depòsitos de mantimentos. Junto da casa do règulo estam misturados em trophéo rùstico, càveiras, cornos e outros despojos de caça. Moene-Caú-eu-hue recebeu-me tendo a seu lado dois dos seus favoritos. Logo que me sentei, o meu intèrprete e um dos favoritos começáram um estridente bater de palmas, e apanhando uma pouca de terra, esfregáram com ella o peito, e repetíram muitas vezes apressadamente as palavras Bamba e Calunga , terminando por nôvo bater de palmas muito ràpido mas pouco forte. Estavam os comprimentos feitos. O règulo quiz ver o meu barco, e fez n'elle uma pequena excursão pelo rio. O seu espanto, ao ver o poder de fluctuação do barco portatil, não tinha limites, e muitas vezes me repetio, que não vendesse d'aquelles barcos aos Ambuelas do Cubangui, senão estavam perdidos. Tranquillizei-o dizendo-lhe, que os brancos não queriam guerra entre elles, e por isso teriam tôdo o cuidado em não lhes dar os meios de a fazerem. De volta á ilha, mandou elle vir uma cabaça de Bingundo , e um copo de folha de flandres, lata troncocònica de marmelada de Lisboa, deixada ali por algum sertanejo Biheno, em viagem de commercio. Cheio o copo, entornou o sova algumas gôtas do lìquido fermentado no solo, e cobrio de terra hùmida o sitio, bebendo em seguida tôdo o seu conteüdo. Tendo-lhe dito o intèrprete, que eu só bebia àgua, elle passou a cabaça aos seus favoritos, que a esgotáram em um momento. Ao meio dia estava de volta ao meu acampamento. Estive n'esse dia com um indìgena, irmão do sova, que me disse, ter descido d'ali ao Zambeze embarcado pelo Cuchibi e Cuando. O Irmão do Sova.] Este prêto é intelligente, e fala bem o Portuguez, por ter sido soldado em Loanda, para onde fôra vendido no tempo da escravatura. É um grande caçador, e muitas vezes percorreu, nas suas excursões cynegèticas, as margens do Guando até Linianti. Disse-me, ser o Guando completamente navegavel, sem ràpidos, mas por vezes alargar tanto que adquire pouco fundo, e ser tão poderosa a vegetação aquàtica, que prende os barcos, tornando em alguns pontos difficil a navegação. Affirmou-me, e depois tive occasião de verificar nas localidades, que o rio Cuando se chama sempre Cuando até Linianti, e d'ali ao Zambe ainda Cuando ou rio de Linianti, e nunca Chobe, ou Tchobe, como vem designado nas cartas. A raça Ambuela continúa no Cuando o mesmo systema de vida que tem no Cuchibi, e as ilhas sam ainda o local onde edificam as suas povoações. Nas margens do Cuchibi reapparece o luxo dos penteados, que tinha desapparecido com a raça Quimbande. O bùzio miüdo, caurim , é de nôvo muito apreciado ali, não para enfeitar as cabêças, mas para fazer largos cintos adornados com elle. No fim do canal onde embarquei para ir a casa do sova, notei dois molhos de grossos paos espetados verticalmente e distanciados de alguns metros. D'estes paos pendiam bocados de esteiras já meio-apodrecidas do tempo. Indagando o que era aquillo, sube que junto áquelles paos se praticava a circuncisão ás crianças màsculas de 6 a 7 annos, e depois as mandavam para o mato completamente despidas, até completa cura, sendo-lhes ministrada a alimentação pelos operados do anno antecedente. Elles no mato teciam esteiras para cobrirem a sua nudez, e ao re-entrarem nas povoações, deixavam-n-as penduradas nos paos em que haviam sido operados. Mostráram-me ali tambem outra engenhoca muito curiosa. Sôbre duas forquilhas tôscas elevadas meio metro da terra, descança um pao cylìndrico de um metro de comprido com 30 milimetros de diàmetro, envolvido em palha fortemente amarrada, que lhe dá um aspecto fusiforme. Este apparêlho é feito por um cirurgião de fama, que lhe incute um poder extraordinario. Logo que um marido suspeita sua mulhér de esterilidade, manda chamar o cirurgião, que a conduz junto ao curativo . No meio de palavras cabalìsticas, é-lhe esfregado o peito e as costas com o precioso pao envôlto em palha, e afiançou-me o sova, que o resultado apenas se fazia esperar nove luas. Apesar da muita fé que os Ambuelas tẽm n'este systema de terminar a esterilidade, eu não me atrêvo a aconselhal-o na Europa. As minhas relações com os indìgenas eram as mais cordiaes e affaveis. As filhas do règulo continuavam a trazer-me presentes, e só ellas proviam á minha alimentação e á dos meus muleques de serviço. Cousa que eu desejava era logo procurada e a minha vontade satisfeita, querendo ellas fazer acreditar ás outras, que entre nós existiam relações mais ìntimas do que as de uma leal amizade. Eu sabia que era uma vergonha para ellas o serem repudiadas pelo forasteiro a quem se dam, e deixava-as apparentar a meu respeito o que realmente não eram. Vivìamos assim nos termos da melhor amizade, sendo verdadeiramente importante a coadjuvação que ellas me prestavam, para obter os carregadores e mantimentos de que eu precisava, para atravessar uma larga zona despovoada e falta de recursos. Pude obter larga provisão de milho e algum feijão, sendo a maior parte presente das filhas do règulo. Os meus haveres tocavam o seu fim, e salvo uma grande porção de pòlvora encartuxada, alguma missanga e pouco cobre para manilhas, já nada mais possuia. Dois dos meus carregadores levavam o presente que eu destinava ao règulo do Barôze, no qual figurava um realejo, em cuja tampa dois bonecos automàticos, que dançavam ao som do moïnho de mùsica, faziam divertir enormemente o gentio. O meu Augusto aproveitava a curiosidade dos indìgenas, explorando-a em meu favor, e fazendo ver o realejo em acção, a trôco de ovos de gallinha, que elle tinha o cuidado prèvio de deitar em àgua para ver se estavam em bom estado, porque mais de uma vez no principio, foi enganado pelo gentio manhozo, que àvido de satisfazer a curiosidade, não hesitava em ir aos ninheiros tirar ás gallinhas os ovos incubados. Moene-Caú-eu-hue, de certo a instancias das filhas, resolvia todas as difficuldades que se apresentavam, e preparava-me ràpidamente a partida. Ellas tinham resolvido acompanhar-me até onde fôssem os Ambuelas, devendo ser Opudo quem dirigisse a horda dos seus sùbditos. Antes de seguir os acontecimentos da minha viagem, direi mais algumas palavras do paiz e dos Ambuelas, que tão hospitaleiros fôram para mim. A lìngua Ambuela não é mais do que a lìngua Ganguela, a mesma que se começa a falar a leste do rio Cuqueima. Como o Hambundo, de que é um dialecto, é pobríssima, muito irregular nos verbos e falta de tôdos os vocàbulos que exprimem um sentimento nobre e generoso. ¿Serám tão infelizes estes povos que não sintam a necessidade de exprimir esses sentimentos pela palavra, por serem elles estranhos á sua existencia? Impossivel me foi averigual-o, mas não me repugna crel-o. N'este ponto, onde fui recebido como amigo, e por isso livre de qualquer influencia que predisposesse o meu espìrito contra o gentio Africano, não pude ler ainda nos arcanos da alma do nêgro, mais do que sòrdida cupidez, a material lascìvia, a cobardia em presença do forte, a ousadia contra o fraco. Os povos Ambuelas sam, de tôdos os que encontrei no meu caminho, os que em maior escala cultivam a terra, que lhes paga o trabalho que elles lhe dispensam com prodigalidade admiravel. O feijão, a abòbora, a batata dôce, a ginguba, o rìcino e o algodão, sam cultivados entre as enormes searas de milho de òptima qualidade. Tambem cultivam estes povos a mandioca, mas pouca pude obter, por terem sido n'aquelle anno destruidas as plantações d'ella por uma cheia do rio extemporànea. As gallinhas sam o ùnico dos animaes domèsticos que possuem os Ambuelas. O seu viver, sempre em receio dos ataques dos vizinhos, faz com que estes povos não sejam pastôres, deixando ao abandono as extensas planicies cobertas de viçoso pasto, onde poderiam apascentar enormes rebanhos. O gado bovino deixa de apparecer onde desapparecem os Quimbandes. O caprino apparece, ainda que raro, entre os Luchazes, entre os quaes apparece mais raro ainda o pôrco domèstico, que abunda no Bihé e entre o Bihé e a Costa Oeste. Em paizes cobertos de ubèrrimas pastagens, livres da terrivel môsca zê-zê, em todas as condições desejaveis para largas criações de gados, ¿porque faltarám elles? Não é talvez difficil encontrar a explicação. O gado é a riqueza maior dos povos Africanos, e excita sempre a cupidez dos vizinhos, sendo como eu já tive occasião de dizer, a causa permanente das guerras entre os povos que demoram da Costa Oeste ao Bihé. O receio de ser rico, e por isso de ser atacado e roubado, não é estranho talvez á falta de gados que se encontra do Cuanza ao Zambeze. Entre estas bàrbaras gentes os paradoxos sam vulgares, e ha ali principios estabelecidos e arraigados que difficilmente podem ser comprehendidos na Europa. O cão, esse fiel e dedicado amigo do homem, não desmente junto do prêto o seu mistér de companheiro desvelado, e vigia ladino, encontrando-se entre tôdos os povos das raças Ganguelas. É verdade que uma variedade de gozos e alguns podengos degenerados, sam apenas os espècimens que se encontram da raça canina n'esta parte de Àfrica. Entre os Quimbandes e os Bihenos sam os cães desveladamente tratados, porque sam destinados a serem comidos, e sam apreciado manjar. Os Ambuelas, como disse, com elementos para serem dos primeiros povos pastores de Àfrica Austral, nenhum gado possuem, e apenas fazem criação de uma variedade de gallinhas muito pequenas. Entre os habitantes do rio Cuchibi não ha logares destinados para cemiterios. Os sovas sam enterrados no mato em logar separado, mas o pôvo é indistinctamente sepultado no lôdo do rio. Os Ambuelas tẽm costumes brandos, e é mais franca a sua hospitalidade. Sam bastante caçadores, e apanham muita cêra nos matos. Caçador Ambuela.] A mulhér tem mais alguma consideração entre elles do que entre os outros povos que até ali visitei, onde é apenas escrava ignobil. Estes indìgenas sam muito pescadores, o que não admira vivendo no meio de um rio cuja fauna aquàtica é variadissima. Effectivamente, de tôdos os rios que até ali encontrei, nenhum vi tão piscoso. Pude obter dos indìgenas, durante a minha estada ali, 18 variedades de peixes, assegurando-me elles haverem outras ainda. Chinguêne. 1/4 do natural. Pelle molle e desprovida de escamas. Dorso castanho com manchas mais escuras; forma triangular, sendo o ventre um lado e o dorso o vèrtice; 3 barbatanas ventraes, 2 subdorsaes e duas dorsaes. Dois fios musculares sobre a boca e dois na maxilla inferior. É especie de um gènero muito vulgar em Àfrica e que conta muitas especies.] Áquelles que pude ver dam elles os nomes seguintes:-- Peixes pequenos, menores de 20 centìmetros. 1. Mussouzi peixe de pelle. 2. Mango idem. 3. Chinguene idem. 4. Chibembe idem. 5. Limbumbo idem. 6. Dipa peixe de escamas. 7. Chitungulo idem. 8. Lincumba idem. 9. Nhele idem. 10. Lingumoeno idem. Lincumba. Tamanho natural. Escama dura e larga; dorso cinzento azulado; ventre branco prateado; 5 barbatanas ventraes, 1 lombar. Barbatanas moles.] Peixes grandes, entre 20 e 50 centìmetros. 11. Chó peixe de pelle. 12. Mucunga peixe de escamas. 13. Undo idem. 14. Chinganja idem. 15. Nassi idem. 16. Bula idem. 17. Ganzi idem. 18. Boei-ie idem. Chipulo ou Nhele. Tamanho natural. Escama dura e miuda; dorso cinzento avermelhado; ventre branco avermelhado; 3 barbatanas veutraes, duas sobreventraes, e 1 lombar percorrendo tôdo e dorso, armada de espinhos.] Seis diferentes grandes Mamiferos habitam o rio Cuchibi. 1. O Hippopòtamo. 2. O Quichôbo ou Buzi (antìlope). 3. O Nhundo (Lontra commum). 4. Libao (Grande Lontra malhada de branco). 5. Chitoto (pequena Lontra completamente prêta). 6. Dima (herbìvoro do tamanho de uma cabra pequena, desarmado de cornos, vivendo nas mesmas condições do Quichôbo ou Buzi). Ainda os reptis que habitam as àguas do rio sam numerosos, sendo que os crocodilos sam pequenos e pouco vorazes, e as cobras umas sam, outras não venenosas. Tem uma grande variedade de batràchios, que os Ambuelas não distinguem, dando a tôdos indistinctamente o nome de Manjunda. Nos canaes e sitios onde a àgua é estagnada, vivem milhares de sanguesugas, como em tôdos os rios d'esta parte de Àfrica. Tinha feito larga provisão de milho, e para elle muitos carregadores, sob o commando das filhas do sova; decidi-me pois a partir, e depois das mais cordiaes despedidas, segui, a 4 de Agosto, continuando a descer o rio na margem direita. Duas horas depois de ter deixado Caú-eu-hue foi-me indicado pelos guias um vao onde seria possivel a passagem. Passáram elles para me mostrarem o caminho, e eu vi, que a um homem de estatura regular, dava a àgua pelo pescôço durante uns 20 metros. O rio tem ali de 70 a 80 metros de largo. Despi-me e fui estudar o vao. Vi que era estreito, e logo a montante e a jusante profundava de 3 a 4 metros, mas o fundo era de areia muito resistente. A corrente do rio era sôbre o vao de 60 metros por minuto. N'estas condições a passagem é sempre difficil a uma comitiva carregada. Dei ordem de começar a passagem, que levou duas horas, conservando-me eu sempre dentro de àgua, com o Verissimo e Augusto, os ùnicos que sabìamos nadar, promptos a acudir a algum que perdêsse o pé. Não houve porem o menor incidente, e nem uma carga se molhou, tal cuidado tivémos tôdos. Passado o rio, como estivèssemos bastante fatigados, apenas ganhámos a povoação de Lionzi, onde acampámos. Houve grande affluencia de gentio no meu campo, e chovêram presentes e offertas de venda de mantimentos. Nunca vi em Àfrica tantas gallinhas como n'esse dia trouxéram os Ambuelas a meu campo. Não houve carregador ou muleque que não comêsse gallinha assada. Notei entre aquelle gentio uma moderação e brandura verdadeiramente admiraveis em pôvo Africano. Tôdos os homens vinham armados de arco e frechas; alguns traziam azagaias, e muitos, àlém das armas gentìlicas, compridas carabinas de silex, de fàbrica Belga. O vao do cuchibi.] Entre os Ambuelas, homens e mulheres cortam um triàngulo nos dois dentes incisivos da frente, mas em àngulo muito mais aberto do que entre os Quimbandes. As suas armas sam fabricadas por elles, sendo muito imperfeito o trabalho do ferro, que extrahem em minas a jusante da confluencia do Cuchibi e Cuando. Os Ambuelas que usam espingardas só querem, como eu já disse, as armas lazarinas hôje fabricadas na Bèlgica, e a cada peça de caça que matam, enrolam em tôrno do cano um bocado de pelle do animal, o que dá logar, pela simples inspecção da arma, a saber quantas vìctimas ella tem feito. Isto deforma a arma, e impede de apontar; mas, como elles só arriscam um tiro a dez passos, acontece matarem. O caçador que vi ali tendo morto mais caça tinha dez bocados de pelle em tôrno do cano da espingarda. Aquella pobre gente, sem as armadilhas do mato, não teria pelles para cobrir a sua nudez. Pòlvora é rara ali, onde apenas de annos a annos apparece um sertanejo Biheno, que lhe vende pouca, e por isso tem subido valor. Azagaias dos Ambuelas.] Entre os Ambuelas que viéram ao meu campo appareceu um muito engraçado, que por tôdos os modos procurava convencer-me a dar-lhe uma carga de pòlvora por um gallo grande que trazia. Divertio-me muito com o modo engraçado por que tentava convencer-me a fazer a transacção, até que eu lhe disse, que faria o negocio, se elle matasse o gallo a cincoenta passos com uma frecha. Elle aceitou, e eu medi a distancia. Ferros de frechas dos Ambuelas.] Collocado o gallo convenientemente disparou-lhe oito frechas que trazia, fazendo pèssimos tiros. Outros indìgenas enthusiasmáram-se com o divertimento, e começou um chuveiro de frechas em tôrno do pobre animal, e ainda que alguns se acercáram a quarenta passos, foi de meio metro distante do alvo o tiro mais certeiro. Eu então disse aos Bihenos que dava o gallo a quem o matase. Viéram os melhores atiradores de frecha da comitiva, e quem melhores tiros fez foi o prêto Jamba, de Silva Porto, que chegou a cravar uma seta a cinco centìmetros do gallo, que ficaria vivo, se eu o não matasse com um tiro da minha carabina Winchester. No mato em que estava acampado havia uma enorme quantidade de aranhas brancas, com o côrpo volumoso como uma ervilha, que mordiam, causando uma dôr violenta mas passageira. O acampamento estêve sempre cheio de mulheres, talvez por estarem ali comigo as filhas do règulo. Usam ellas grande nùmero de manilhas de ferro da espessura de dois a três millimetros de secção quadrangular, tendo as duas arestas exteriores picadas. Quando dançam (e dançam muito as Ambuelas), só o tinir das manilhas é uma mùsica. Ellas comprimentam-se umas ás outras batendo repetidas vezes com as mãos abertas nos peitos nús. Um costume que encontrei entre tôdos os povos Ganguelas, mas mais rigorosamente cumprido no Cuchibi, é o modo de falar aos sovas ou sovêtas. A pessôa que fala, diz o que quer dizer ao sova, a um dos prêtos que elle tem a seu lado; este repete o recado a um segundo prêto, que o transmitte ao sova. A resposta segue pelas mesmas vias. A explicação que me déram d'isto foi a seguinte:--A pessôa que dá o recado, ouvindo repetir depois duas vezes o que disse, pode corrigir alguma interpretação errònea que houvesse da sua idéa, e o mesmo se dá com quem responde. Eu supponho, porem, que ha ali mais alguma cousa, e que os sovas estabelêceram o uso, para durante a repetição trìplice da arenga, terem tempo de preparar a resposta. De Lionzi fui dar um passeio de caça pelo rio até á sua confluencia com o Cuando, cuja posição marquei grosseiramente, por não ter podido fazer observações, mas que, ainda assim, não deve ter grande erro, por haver eu determinado perfeitamente a posição de Lionzi. Junto á confluencia do Cuchibi, encontrei duas grandes povoações Ambuelas, Linhonzi e Maramo, e entre ellas e Lionzi, uma grande povoação, Chimbambo. Na confluencia do rio Queimbo está situada a povoação de Catiba, governada por um prêto da povoação de Caú-eu-hue, e sujeito ao sova do Cuchibi. De volta ao meu campo, vim encontrar a minha gente de tal modo entregue ás delicias de Càpua, que não havia fôrça para os arrancar dos braços das formosas filhas desta nova Ninive Africana. A embriaguez do Bingundo e a embriaguez do amor, tornavam surdos os meus homens a rogos e a ameaças. O sovêta do Lionzi veio ao meu campo, e trouxe comsigo um Mucassequer, seu hòspede. Eu entendi-me logo com o Mucassequer, para elle ser guia até ás nascentes do rio Ninda, que eu queria ir demandar; e estando n'esse dia de muito bom humor, chamei os pombeiros e disse-lhes, que ia seguir com os Ambuelas e os meus muleques, e que ficassem elles se quizessem, mas que eu lhes levava tôdos os mantimentos. Puz-me logo a caminho, guiado pelo Mucassequer e acompanhado das filhas do sova e sua gente. Os meus Quimbares, vendo-me partir, deixáram tambem o campo, e seguíram-me, ficando tôdos os Quimbundos e os muleques do Verìssimo. Depois de uma difficil marcha de seis horas a travez de floresta emmaranhada, e onde se não encontra àgua, alcançámos a margem direita do rio Chicului, abrasados de sêde. Este rio corre em uma planicie deserta e apaülada, de 1600 a 2000 metros de largo, e a floresta sempre espêssa vem terminar onde começa o paúl. Durante a noute os leões e leopardos rondáram sem cessar o meu acampamento, rugindo em côro infernal. No dia immediato, decido logo de manhã passar á outra margem. Passei o rio n'uma ponte, de certo construida outrora, por comitivas Bihenas, que eu reconstrui, e que me deu facil passagem; mas não foi igualmente facil alcançar a floresta da margem esquerda, porque havia a atravessar a planicie lodosa, onde nos enterràvamos até por cima da cintura. O meu Pépéca por vezes ficou só com a cabêça de fóra, e deu trabalho a desenterrar. Fôram 1500 metros de travessia difficil e fatigante. O rio tem 15 metros de largo por 4 a 5 de fundo, com uma corrente de 40 a 45 metros por minuto. Vi n'elle muito peixe grande e pequeno, e alguns crocodilos de pequeno talhe. Depois de passar o rio, vi a um kilòmetro jusante, uma grande manada de songue, e indo logo ali encoberto pelo mato, consegui matar três. A minha cabrinha Córa não se separa um momento de mim, e anda em contìnuo sobresalto desde que sentio os leões. Os meus prêtos apanháram muitas aves, variedade de codornizes, com uma poupa branca, e pernas brancas. Pela uma hora n'esse dia, chegáram os meus Quimbundos, e os pombeiros, de orêlha baixa, viéram pedir-me mil perdões de não terem seguido na vèspera. Eu andava então de tal modo satisfeito, que tudo perdoei, indo em seguida pescar com um enorme tresmalho que levava, e com o qual apanhei innùmeros peixes muito semelhantes aos mugens ou taïnhas dos nossos rios. Esta rêde, tresmalho ou barbal, como lhe chamam os pescadores do rio Douro, foi um presente que me fez meu pai, e que, em muitas circunstancias, foi o ùnico recurso que tivémos para matar a fome. A doença grave de um dos meus prêtos fez-me demorar dois dias n'aquelle ponto; o que me contrariou em extremo, porque, tendo comigo numerosos Ambuelas, as provisões que eu tinha trazido do Cuchibi desappareciam ràpidamente, e eu tinha diante de mim um enorme paiz a atravessar até ao Zambeze, onde nenhum recurso encontraria, àlém da caça, sempre problemàtica em Àfrica. Em um dos dias, os Ambuelas fôram á floresta em busca de mel, guiados pelos indicators ("indicadores"), e d'elle fizéram grande colheita. Muitos naturalistas notaveis, desde Sparmann e Leveillant, os primeiros que estudáram esta curiosa ave, até os mais modernos exploradores que tẽm descripto os seus hàbitos, que me perdoem ainda aqui falar d'ella, e lhes diga, na minha humildade, o que concluí do muito que observei os seus costumes em Àfrica. Que o indicator seja ou não um cúco é coisa de que não faço questão, deixando isso á autoridade dos Bocages e dos Günthers. Que elle se dêva chamar Cuculus albirostris , como queria Temminck, ou sómente indicátor, como querem outros, é nova questão, em que não entro. Descrevel-o, sendo profano em ornithologia, seria pedantismo; e por isso limitar-me-hei a contar o que lhe vi fazer, e a tirar uma conclusão minha. Logo que o homem penetra em uma floresta dos sertões d'Africa Austral, apparece-lhe o indicator saltitando de ramo em ramo, e chegando a aproximar-se, sempre com o seu chilrear monòtono. Logo que lhe damos attenção, levanta elle o seu vôo pesado, e vai pousar mais longe, vigiando se o seguimos. Se o desprezamos, volta elle para junto de nós, e continua a saltar e a chilrar, voando outra vez, e formulando muito pronunciadamente o convite de o seguirmos. Cedemos a final e acompanhamos a ávezinha, que de ramo em ramo, com vôos curtos para nos não perder de vista, nos vai guiando a travez da floresta, a maior parte das vezes até junto de um ninho de abelhas. Este caso é o mais vulgar, e é sempre aproveitado pelos indìgenas buscadores de cêra. Alguns exploradores, e entre elles o nosso Gamito, dizem, que elle conduz tambem o homem junto do antro da fera. Esse caso nunca se deu comigo, que segui dezenas de indicators , e nunca encontrei indìgena que m'-o affirmasse. Conduzir-me junto do cadaver de caça já em putrefacção, a um acampamento abandonado de ha pouco, a uma lagôa, junto de outra gente, isso me aconteceu a mim, e acontece a tôdos os que seguem o buliçoso passarinho. E contudo elle nada lucra em guiar os passos do homem para ali. O que é facto é, que elle leva o homem quasi sempre ao mel, e eu supponho que o quer levar sempre, e que sam occasionaes os outros encontros, que tẽm feito impressão a muitos viajantes; encontros nada de estranhar em florestas Africanas. É mesmo possivel, que no caminho para o enxame encontremos o leão, sem que a intenção do pàssaro seja a de nos fazer devorar pela fera. Se porem a regra geral, de ir indicar as abelhas, tem excepções, sam ellas tantas e tão variadas, que eu atrevo-me a dizer, que o indicator é o verdadeiro apodador da humanidade. Encontrei junto ao rio Chicului uma pelle de cobra de sete metros de comprido por 40 centìmetros de largo, affirmando-me os indìgenas que as ha ali maiores. Pude finalmente seguir a 9 de Agosto, já desejoso que as filhas do sova do Cuchibi voltassem com a sua gente, porque os mantimentos que trazìamos desappareciam a olhos vistos, e já não era pequeno o meu cuidado pensando no futuro. Depois de marcha de três horas, encontrei um ribeiro, correndo a S.S.E., e depois de atravessarmos a vao, encontrámos uma lagôa de duzentos metros, que tivémos de vadear com àgua pela cintura. Este ribeiro, que entra no Chicului perto da sua foz, é o Chalongo, provavelmente o que nas cartas apparece com o nome de Longo, e que, por uma errada informação, os cartògraphos tẽm feito correr ao Zambeze. Durante a passagem da lagôa, vimos alguns abutres descendo com persistencia em um mesmo logar, a meio kilòmetro de nós. Fui ver o que atrahia ali os repugnantes rapaces, e ao longe vi uma nuvem d'elles esvoaçando sôbre um corpo volumoso cercado de hyenas, que fugíram sem que eu lhes podesse atirar. Aproximei-me, e encontrei uma enorme Malanca ( Hippotragus equinus ) recentemente morta pelo leão. Malanca.] A pelle do soberbo antìlope estava rasgada em tiras pelas garras da fera, e, cousa notavel, que eu não pude explicar, as unhas das patas estavam completamente roïdas. Os olhos tinham sido arrancados das òrbitas, de certo pelas aves rapaces. Os meus Quimbundos, logo que víram a Malanca, corrêram sobre ella, e com unhas e dentes disputáram uns aos outros os restos d'aquella carne bafejada pelas hyenas, em mais repugnante espectàculo do que, minutos antes, me tinham offerecido as proprias hyenas e abutres. Mais pareciam feras do que homens. E note-se, que então não havia necessidade, porque eu tinha môrto caça, e as provisões feitas no Cuchibi nos tinham em abundancia. Os meus proprios Quimbares não resistiram á tentação, e juntáram-se aos Quimbundos no repugnante espectàculo. Metti em ordem a caravana, e fiz seguir ávante. Pelo caminho fui pensando no poder que tem a vida selvagem sôbre o prêto. [Figura 87--1. Cornos vistos de frente. 2. Rasto da Malanca] Os meus Quimbares, gente meio-civilizada de Benguella, já igualam os Quimbundos em selvageria e embrutecimento. Eu ás vezes penso, que isto, que se afigura possivel a muita gente na Europa, de civilizar o prêto em Àfrica, é simplesmente absurdo. O elemento civilizador será por ora tão pequeno junto do elemento selvagem, que este predominará em quanto aquelle não tomar proporções enormes. É preciso que em Àfrica haja por cada prêto um branco para se realizar esse sonho de muitos espìritos elevados do velho mundo; porque só então o elemento civilizador equilibrará com o selvagem, e poderá vencel-o. Temos até um exemplo d'isto com os Böers do Transvaal, que, Europêos de origem, em um sèculo apenas, perdêram tudo que de civilização trouxéram da Europa, fôram vencidos pelo elemento selvagem do meio em que viviam, e hôje, se sam Europêos pela côr e pela religião de Christo que professam, sam bàrbaros pelos costumes que tiráram do paiz. O notavel era, ter eu atravessado tantos povos bàrbaros, onde nunca chegou o menor elemento civilizador, e não ter encontrado pôvo algum peiór do que o Biheno, que está em contacto com a civilização da Costa de Oeste. Ao caminhar pensava eu n'isso, e repetia a phrase que tantas vezes me tinha repetido o meu amigo Silva Porto: "Olhe que os melhores Bihenos sam incorrigiveis, firme-se n'este principio e marche com elles." Depois que eu entendia o Hambundo é que bem podia avaliar o que elles eram. Ás vezes, á noute, na minha barraca, eu escutava as conversas que se falavam em tôrno de mim, e não se calcula o que eu ouvia. Uma noute, escutava eu episodios de uma guerra que um anno antes tinha havido no Bihé, contra gente Bihena que não reconhecia a autoridade do sova Quilemo, e entre outros ouvi o seguinte, no meio das gargalhadas e dos signaes de approvação que os ouvintes dispensavam ao narrador:-- Contava elle, que uma noute fizera dois prisioneiros, um muleque e uma rapariga pequena, e que, como a pequena chorasse e gritasse por elle lhe ter amarrado fortemente os braços, elle cortou-lhe uma orêlha com o machado, e depois deu-lhe com o mesmo machado no pescôço, mas de vagar para a não matar logo. Elle descrevia ao auditorio as contorções e gritos da vìctima, com grande applauso dos companheiros, até que narrou o modo porque a tinha morto; coisa de que depois se arrepêndera muito, porque a familia d'ella, que não sabia do occorrido, veio offerecer-lhe em resgate três escravos, com que elle poderia ter começado um pequeno negocio. Não quero narrar mais d'estas scenas repugnantes, e direi apenas, que se deve avaliar bem, como o chefe de bandidos na Europa não precisa, para sustentar a disciplina em sua orda de rèprobos, ter mais energia do que o Europeo que em Àfrica tem de commandar tal gente. Fui acampar á nascente de um còrrego chamado Combule, que, a uma milha da sua fonte, vai lançar, para o Oeste, no rio Chicului, as suas àguas, que ainda ali não seriam sufficientes para mover uma azenha. Convenci as filhas do sova a voltarem aos seus lares, e fizemos as mais cordiaes despedidas. Ainda Opudo arriscou com timidez o pedido, de eu voltar para o Cuchibi, e ir viver entre elles, e Capêu fez-me, mais eloquente ainda, a sùplica, com um olhar de mulhér, um d'esses olhares que sam a verdadeira força d'ellas, porque sam espontaneos, e não aprendidos na escola da garridice. Não foi sem pesar que vi partir aquellas duas bôas raparigas, as duas ùnicas amizades que percebi em indìgenas Africanos. Ao separarmo-nos, chegou-se a mim o meu guia Mucassequer, e disse-me:-- "Eu tenho passado a minha vida no caminho que vais seguir d'aqui ao Limbai, e por isso conhêço bem o paiz. Leva sempre prompta a tua melhor espingarda, e desconfia de tudo no mato, porque vais viver muitos dias entre feras. Toma cautela sôbre tudo com os bùfalos do Ninda, no caminho has de ver sepulturas de gente morta por elles, e mesmo de brancos. Eu sou teu amigo, porque não me fizeste mal, e deste-me pòlvora e missangas, por isso te previno." Depois da partida dos Ambuelas, fiquei só com a minha gente, e verifiquei, não sem algum sobresalto, que tinha havido uma reducção enorme nos vìveres. No dia immediato, embrenhei-me em uma enorme floresta espinhosa, e onde era a miüdo preciso abrir caminho para seguir ávante. Depois de uma fatigante marcha de 5 horas, a mais difficil e atroz que fiz em Àfrica, acampei á nascente do rio Ninda, tendo deixado uma grande parte do fato nos espinhos da floresta. Meia hora depois de chegar, estava convertido em verdadeira caricatura, porque estava coberto de bocados de tafetá inglez, onde os espinhos me haviam rasgado as carnes. Estava pois á nascente do rio Ninda, afamado pela ferocidade dos habitantes das suas margens. Os leões ainda me não tinham devorado; mas cheguei a pensar, que se o quizessem fazer tinham de se apressar, para encontrarem alguns restos do que deixassem milhares de insectos que dirigiam um ataque encarniçado contra mim. Ao cahir da tarde, uma nuvem de môscas, tão pequenas que não tinham mais de um milimetro, cahio sôbre o acampamento, e n'um louco esvoaçar, entravam pelo nariz, pela bôca, pelos ouvidos, e enchiam-nos os olhos, dando-nos um verdadeiro supplicio, verdadeira praga. O acampamento foi rodeado de fortes palissadas e enormes abatizes, tomando-se todas as precauções para que ficàssemos ao abrigo de um ataque das feras. Eu fui acommettido por um violento accesso de febre, o que não impedio que, durante a noute, por mais de uma vez sahisse da minha tenda a investigar porque ladravam os cães. Os leões rugíram toda a noute em volta do campo, e sôbre a madrugada, um côro de hyenas veio completar aquella mùsica infernal. Não posso deixar de declarar aqui, áquelles que no enthusiasmo de uma coragem temeraria se fazem illusões sôbre as bellezas da vida das selvas, que a vida entre feras é positivamente desagradavel. O bùfalo africano.] No dia immediato, demorei-me até á tarde, para poder determinar aquella posição, e mudei o meu acampamento para uma milha mais a leste. Junto do sitio onde acampei ficava a sepultura de um Portuguez, o sertanejo Luiz Albino, morto n'aquelle ponto por um bùfalo. Na minha comitiva estava o prêto de confiança de Luiz Albino, o velho Antonio de Pungo Andongo, aquelle que eu fiz alfayate do sova Mavanda. Luiz Albino sahira do Bihé com uma grande factura que vinha negociar ao Zambeze, e em uma das suas etapes, veio acampar no mesmo ponto onde eu estava acampado n'aquelle dia. Sahio a caçar, e deu um tiro em um bùfalo, ferindo-o na articulação de um pé. Já se vê que atirava mal, porque não se fere um bùfalo em um pé. Voltou ao acampamento, e chamou o velho Antonio (que então era nôvo), dizendo-lhe, que tinha ferido um bùfalo mortalmente, e que chamasse gente para o irem buscar. Os Bihenos, sempre cautelosos, não quizéram ir, e elle, chamando-lhes cobardes, foi só com o prêto Antonio. Chegado ao mato, o bùfalo, que, como tôdos os bùfalos feridos, queria vingança e o esperava, correu sôbre elle. Luiz Albino disparou-lhe os dous tiros da espingarda sem lhe acertar, e foi em seguida colhido pela fera, que com uma cornada lhe rasgou o baixo ventre. Antonio disparou contra o feroz ruminante, e o cadaver da fera foi cahir sôbre o cadaver do branco. Hôje, uma forte estacada de madeira, cercando um quadrado de cinco metros de lado, fêcha um recinto, onde se levanta uma cruz tôsca de madeira; e lembra ao caminhante, que é preciso ter prompta a carabina e ôlho á mira para viajar ali. Tinha chegado ao primeiro ponto da minha viajem onde apparecem elephantes, e por isso mandei alguns homens á descoberta, mas os exploradores voltáram tendo apenas encontrado alguns rastos antigos. Eu fui dar uma volta pelo mato, mas nada vi em que podesse dar um tiro. No dia immediato, segui viagem, sempre na margem direita do Ninda, sem que algum facto extraordinario viesse perturbar a marcha. A 13 de Agosto, fui estabelecer um nôvo acampamento dez milhas para leste do da vèspera. Um vago receio já me perturbava o espìrito. Os vìveres diminuiam ràpidamente, e eu estava ainda longe de paiz de recursos. Tentei caçar, mas sem resultado percorri a floresta, ainda que vi muitos rastos frescos e cheguei mesmo a perceber caça, mas tão longe e esquiva que nada fiz. No dia 14, tinha eu, sòzinho com o meu Pépéca, tomado a dianteira á caravana, quando, ao chegar ao sitio onde resolvi terminar a marcha d'aquelle dia, percebi um enorme bùfalo que pastava tranquillamente. Pude, ao abrigo do mato, aproximar-me d'elle, e atirei-lhe a trinta metros, apontando á espàdua, porque me ficava atravessado. O animal cahio fulminado, com grande espanto meu, porque o sitio onde atirei era para fazer uma ferida mortal, mas não produzir morte tão ràpida como a que eu vi produzir. Abeirei-me d'elle, e ¡como não fiquei espantado, vendo que a bala, em logar de ferir o ponto a que a dirigi, subio perto de vinte centímetros na mesma vertical, indo cortar-lhe as vèrtebras, e produzindo a morte instantanea, pela solução de continuidade da espinal medula! Este caso fez-me profunda impressão, porque um tal desvio da bala podia, em qualquer circunstancia, ser causa da minha perda; e logo que estabeleci o meu campo, tratei de alvejar a carabina a 25 metros. O desvio vertical revelado no tiro ao bùfalo continuava a manifestar-se. Era a minha carabina Lepage, de grande calibre e balas d'aço. Sendo a sua trajectoria muito curva, o armeiro calculou a ùltima ranhura da alça para 80 metros; e como eu não tinha ainda com aquella arma atirado a menor distancia, não tinha ainda advertido no perigo que corria fazendo um tiro de 20 a 30 metros. Assim, pois, a estas distancias, ainda que eu pela ranhura mal percebêsse o ponto culminante da mira, o desvio vertical era constante. Cuidei logo de remediar o defeito, e por tentativas, fui profundando a ranhura da alça, até que obtive a maior precisão á pequena distancia requerida. Este episodio, que registei no meu diario e que hôje descrêvo aqui, ainda que seja de interesse nullo para a maioria dos meus leitores, é uma prevenção áquelles que me seguirem em Àfrica, prevenção que lhes pode ser de subida utilidade. O rio Ninda corre n'uma planicie levemente inclinada a leste, e que me afirmam se estende ao sul até á juncção do Cuando e Zambeze. Até ao ponto em que eu estava acampado, a floresta desce espêssa até á margem do rio; mas d'ali em diante forma apenas tufos de àrvores, semeados aqui e àlém n'uma planicie enorme. Ali o Ouco é àrvore corpulenta, e tão abundante, que por espaço de horas o caminhante vive n'uma atmosphera embalsamada pelo suave perfume das suas flores. No dia immediato, sustentei marcha de seis horas, e desviei-me um pouco da margem do rio, cujo canavial espêsso era obstàculo ao caminhar; indo acampar junto de uma lagôa de bôa àgua, não longe da pequena povoação de Calombeu, pôsto avançado do règulo do Barôze. Nada nos quizéram vender, e já começavam a escacear os mantimentos. Não achando bôa a minha posição, e não podendo seguir no dia immediato, por ter muitos doentes, mudei o campo para uma milha mais a leste, continuando a tirar àgua da mesma lagôa, ou antes paúl, que melhor lhe cabe este nome. Estava na enorme planicie do Nhengo, planicie elevada mil e doze metros ao nivel do mar, que se estende a leste até ao Zambeze, e ao sul até á confluencia do Cuando. O terreno enxuto na apparencia, é encharcado e esponjoso, e cede lentamente á pressão do côrpo, deixando infiltrar àgua do seu seio alagado. Nas noutes que ali dormi, deitei-me em leito sêco de ervas cobertas de pelles, para acordar n'un charco. Começava ali para mim uma nova vida de tormentos, porque nem á noute um sono reparador podia vir mitigar as fadigas do côrpo, e adormecer as aprehensões do espìrito. A falta de vìveres, que não tardaria a chegar; a difficuldade que me apresentava o paiz; a minha saude que eu sentia profundamente afectada; e a minha propria comitiva que começava a dar signaes de insobordinação, traziam o meu espìrito perturbado, perturbação que se traduzia por um mao-humor contìnuo. No dia 16 de Agosto, tive um momento de desespêro. Estavia só, completamente só. Não havia um homem na minha comitiva que tivesse um pouco de energia. Àlém das difficuldades que se erguiam diante de mim, tôdos me creavam difficuldades. Eu tinha de decidir, de intervir em tudo, até nas mais pequenas cousas de que nunca me deveria occupar. Algumas dedicações me rodeavam, não o duvidava, mas dedicações sem energia, em gente capaz de cumprir uma ordem, mas incapaz de fazer cumprir a outros as que lhe transmittia. O Verissimo não é cobarde, mas espìrito acanhadissimo, sem vontade propria, e irresoluto, não tinha a fôrça sufficiente para se impor no commando. Àlém d'isso, aparentado com alguns dos pombeiros, era por elles desattendido. Via-me forçado até a fazer cumprir as ordens que dava! No meu diario escrevi então alguns perìodos, que vou transcrever aqui textualmente, e que traduzem o meu soffrimento de então. "Isto desnortea-me, e traz-me de pèssimo humor. ¡Meu Deos! ¡quanta vontade, quanta persistencia, quanta energia é precisa a um homem que só, rodeado de difficuldades, rios proprios que o cercam as encontra, para proseguir na missão que se impoz! Hôje sózinho no meio d'Àfrica, tendo uma missão a cumprir, e tendo de sustentar a honra da bandeira da minha pàtria, ¡quanto eu soffro! ¡e quanto eu tremo por ella! Preciso de ser um anjo ou um demonio, e chêgo a crer que sou ás vezes uma e outra cousa." N'este dia já tive de dar comida á ração, e só milho já havia. Sentado á porta da minha barraca, ao cahir da tarde, terminava a minha parca refeição, e olhava em roda os meus carregadores, que comiam em silencio. Parecia que uma tristeza profunda havia cahido sôbre o meu campo, apossando-se de tôdos os espìritos. De repente os meus cães levantáram-se e corrêram ao mato ladrando furiosos. Um homem desconhecido, seguido por uma mulhér e dois rapazes, sahio do mato, e sem fazer caso dos cães, entrou no acampamento, que percorreu com um ràpido olhar, vindo sentar-se a meus pés. Era um prêto coberto de andrajos. Um panno esfarrapado mal encobria a sua nudez. Um casaco completamente despedaçado pendia-lhe dos hombros nús. Na cabêça uma cousa que muito esfôrço de imaginação faria suppor os restos de um chapéo braguez, e na mão um pao. As suas armas eram trazidas pelos dois muleques que o seguiam. A physionomia enèrgica, o olhar, andar e os modos decididos, do indìgena, prendêram logo a minha attenção. Perguntei-lhe quem era, e o que queria. Elle respondeu-me em Hambundo: "Eu sou Caiumbuca, e venho procural-o." Ao ouvir o nome de Caiumbuca, não pude conter a minha emoção. Tinha diante de mim o mais audaz dos sertanejos do Bihé. Do Nyangue ao Lago Ngami é conhecido o nome de Caiumbuca, o antigo pombeiro de Silva Porto. Em Benguella dissera-me Silva Porto: "Chame para junto de si a Caiumbuca, e terá o melhor immediato que pode encontrar em tôda a Àfrica Austral." Procurei-o debalde no Bihé, onde não me soubéram dar noticias d'elle. "Anda no sertão, e nunca se sabe bem onde elle anda--" foi a resposta que obtive de tôdos. Caiumbuca estava no Cuando abaixo da confluencia do Cuchibi, e sabendo da minha passagem, viera, só com uma mulhér e dois muleques, procurar-me. Conversei a sós com elle por espaço de uma hora, li-lhe mesmo uma carta que Silva Porto me tinha dado em Benguella para elle, fiz-lhe as minhas propostas, e ao cahir da noute, reuni os meus carregadores e apresentei-lhes o meu immediato. A 17 de Agosto, forcei marcha de seis horas, porque os vìveres estavam no fim, e era preciso alcançar as povoações. Acampei na margem direita do rio Nhengo, que é o Ninda depois de receber do norte um affluente volumoso, o Loati. O Nhengo tem de 80 a 100 metros de largo, por 4 e mais de fundo, com uma corrente quasi insensivel. Ás vêzes parece uma comprida lagôa, onde vegetam milhares de plantas aquàticas. Nas suas margens ha uma forte vegetação arbòrea, vegetação que por vêzes estende os seus ramos vigorosos por sôbre as àguas, e de uma e outra margem vẽm dar um abraço fraternal a meio-rio. Este grande affluente do Zambeze corre na enorme planicie de que já disse duas palavras, a planicie que d'elle toma o nome, planicie hùmida, onde não é encharcada ou verdadeiro paúl. Ali milhares de moluscos terrestres arrastam a sua casa espiral por entre a herva curta e rachìtica. Alguns càgados e muitas tartarugas de lagôa ( Emydes ), vivem na campina, onde já, aqui e àlém, algumas palmeiras, as primeiras que encontrava desde Benguella, balançam ao vento as suas copas elegantes. Os meus prêtos fizéram colheita de tartarugas ( Emydes ), que a fome lhes fez devorar, a pesar do repugnante cheiro que rescendem estes pequenos Cheloneas carnìvoros. Tendo-me dito Caiumbuca, que, a pequena distancia do acapamento, haviam algunas povoações, decidi demorar-me ali um dia, para obter vìveres. Foi debalde que, no dia immediato, enviei gente ás povoações a pedir mantimentos; o gentio muito esquivo fugia, e não attendia razão nem offertas. A nossa posição tornava-se muito séria, porque já nada havia que comer para êsse dia, e as tentativas de caça e pesca não déram o menor resultado. Um pequeno bando capitaneado pelo meu Augusto, entrou no campo, perseguido por um bando de leões, que só retiráram ao perceber o ruido do acampamento. Conferenciei com Caiumbuca, e decidímos fazer, no dia seguinte, marcha grande, para alcançar umas povoações a que elle chamava Cacapa, e onde me disse que poderìamos obter vìveres. Seguímos pois no dia 19, tendo comido pela ùltima vez a 17 de manhã. A marcha foi sustentada por oito horas, indo acampar perto de uma lagôa, porque tìnhamos deixado a margem do rio, para nos aproximarmos das povoações. Apesar da fadiga da jornada e da fraqueza produzida pela fome, enviei gente a procurar vìveres, indo entre elles o proprio Caiumbuca. Voltáram ao anoutecer com as mãos vazias. Nada, absolutamente, o gentio lhes quizera ceder, mostrando-se até hostil! A nossa posição era grave. Tentar outra marcha, no estado de fraqueza em que estàvamos, era arriscàrmo-nos a ficar tôdos mortos de inanição. Reuni os pombeiros, a quem expuz as circunstancias precàrias da caravana, e de tal modo os encontrei desalentados, que nenhum alvitre me foi propôsto. Chamei alguns dos prêtos que tinham ido ás povoações e perguntei-lhe, ¿se effectivamente ali haveria mantimentos? e tendo-me elles respondido afirmativamente, eu tomei uma resolução immediata. Disse aos pombeiros, que fôssem animar a sua gente, porque no dia immediato de manhã terìamos de comer em abundancia. Ficando só com Caiumbuca, communiquei-lhe a resolução que tinha tomado, de ir no dia immediato fazer provisão de alimentos ou por bem ou por mal. Na madrugada de 20, mandei de nôvo o Augusto com alguns prêtos ás povoações, pedir que me vendêssem milho ou mandioca, e expor as circunstancias em que nos encontràvamos. A ùnica resposta que obtivéram os meus enviados foi uma aggressão insòlita. Então reuni tôdos aquelles a quem a fome não tinha completamente prostrado, e pude ter oitenta homens, semi-vàlidos. Puz-me á sua frente, e assaltei a povoação do chefe, que, depois de um curto tiroteio sem consequencias, se rendeu á discrição. Corri logo aos celeiros, que estavam cheios de batata dôce, e tirei tanta quanta me era precisa para matar a fome da minha gente, regressando ao campo, com o chefe e mais alguns prêtos prisioneiros. Dei a estes o valor das batatas em missanga e pòlvora, e pul-os em liberdade, fazendo-lhes ver, que era melhor tratar as cousas por bem d'ali em diante. Elles agradecêram muito a minha generosidade, e prometêram fornecer-me aquillo que tivessem logo que eu lh'-o mandasse pedir. N'esse dia, á 1 hora e meia, estando o ceo limpo, apenas com espêssa barra no horizonte, cahio um tufão vindo do N., que, depois correu a S.O., o foco passou um kilòmetro a O. de mim, arrancando àrvores e destruindo tudo na sua passagem. No meu campo, o vento soprou tão rijo, que tivémos de nos deitar por terra em quanto durou a sua maior intensidade. O thermòmetro subio de 20 a 32 graos, e o baròmetro desceu de 667_mm. a 663. Foi esta a mais violenta oscillação baromètrica que observei na Àfrica tropical. Ás duas horas e meia, o vento acalmou de repente, ficando a atmosphera completamente coberta de um nevoeiro denso. As povoações que me ficavam um kilòmetro ao sul chamam-se Lutué; mas Caiumbuca disse-me, que entre os Bihenos sam conhecidas apenas pelo nome de Cacápa, por serem ricas em batata dôce, que na lìngua Hambunda se chama écápa . As gentes d'estas povoações, como a de tôdas da planicie do Nhengo, sam de raça Ganguela, submettidas pela fôrça aos Luinas ou Barôzes. Sam povos miseraveis e intrataveis. Pêla tarde, chegou ao meu campo uma tropa de Luinas, que andavam rondando no paiz, e que, sabendo que eu chegara ali na vèspera, me viéram ver. Era commandada por três chefes, dos quaes o maioral se chamava Cicóta. Os chefes viéram comprimentar-me e offerecer-me os seus serviços, e pedindo-lhes eu logo, que me obtivessem de comer, elles respondêram, que tambem estavam lutando com falta de vìveres, mas que no dia seguinte me acompanhariam até umas povoações onde acharìamos recursos. Disséram-me, que me iriam conduzir até junto do rei do Lui, e que nada me faltaria pêlo caminho logo que chegàssemos ás povoações Luinas, já pouco distantes. Escudo dos Luinas.] Estes Luinas tẽm uma bôa presença, sam altos e robustos. Uma pelle de antìlope primorosamente curtida, passada entre as pernas e prêsa no cinto de couro na frente e nas costas, e um amplo capote de pelles, é o seu vestuario. Os três chefes traziam carabinas raiadas de grande calibre, de fàbrica Ingleza. Os outros sobraçavam grandes escudos de forma ogival, de um metro e 40 cent. de comprido por 60 cent. de largo, e estavam armados de um feixe de azagaias de arremêsso. O peito e os braços cheios de amulêtos. Os pulsos sam ornados de manilhas de cobre, latão e marfim, e por baixo dos joêlhos trazem de 3 a 5 manilhas muito finas de latão. O que n'elles e admiravel sam as cabêças, não pêlo cabêllo, que é cortado curto, mas pêlos enfeites que lhe põem. A do chefe Cicóta está coberta de uma enorme cabelleira, feita da juba de um leão. Os outros traziam penachos de plumas multicolores verdadeiramente assombrosos. Durante a noute apparecêram entre nós innùmeros escorpiões, sendo mordidos por elles alguns dos meus homens. O Chefe Cicóta.] O terreno continúa esponjoso e hùmido, sendo um tormento viver em tal paiz. Multiplicam-se ali as palmeiras, e já vam apparecendo algumas àrvores no campo. As termites apresentam aqui já um nôvo aspecto nas suas curiosas construcções. A 22 de Agôsto, levantei campo, e cinco horas depois, ia de nôvo acampar junto da povoação de Canhete, a primeira povoação de raça Luina. Durante a manhã houve um denso nevoeiro. Algumas matas que passei eram formadas de àrvores enormes, e limpas de arbustos, sendo facil o caminhar ali. Logo que acampei, por prevenção de Cicóta, viéram muitas raparigas ao campo trazer-me gallinhas, mandioca, massambala e ginguba. Durante tôda a tarde continuáram a trazer-me presentes, que eu retribuia o melhor que podia. ¡Tinha já que comer em abundancia! Termites do Nhengo.] Pedi tabaco, de que eu trazia ainda bôa provisão, e sal, ¡sal que eu não provava havia tantos mezes! Respondêram-me, que tinham o maior pesar de não poderem satisfazer ao meu desejo, mas que o tabaco e o sal só se davam ou se vendiam por uma licença especial do règulo. ¡Eis uma terra Africana onde ha dois artigos de contrabando! Felizmente não ha alfàndegas. Fui visitar as povoações de Canhete. Cresce ali nos quintaes o tabaco e a cana de assucar com um desenvolvimento enorme. As casas sam feitas de caniço revestido de côlmo, e tẽm umas a forma de um semicylindro de 1,5 metro de raio, outras sam ogivaes, não tendo mais altura do que aquellas. Os celeiros sam como os das povoações Ambuelas, mas de menores dimensões. Os Luinas viéram ao meu campo, e fizéram ali uma dança guerreira, muito pintoresca, em que havia um mascarado que fazia o papél de truão. N'essa noute chegou o prêto Cainga, que eu tinha mandado, dois dias antes, ao règulo, a participar-lhe a minha chegada. [Figura 92. 1 e 2. Casas Luinas de 1_m. 5 de altura. 3. Celeiro. 4, 4. Enxada do Lui.] Viéram com elle alguns chefes com presentes do rei para mim, e entre elles seis bois. ¡Carne de vacca! ¡tinha carne de vacca para comer! Disse-me o Cainga, que elle se mostrou ufano por eu vir falar com elle de mando do Mueneputo, e que me esperava uma recepção esplèndida. Eu estava sempre desconfiado, porque conhecia bem os nêgros, e sabia quantas traições encerram as suas zumbaias, mas não deixei de ficar satisfeito. Elle mandou reunir muitos barcos, de modo que podesse passar a minha comitiva de uma só vez, para mostrar a sua grandeza. Disse-me o Cainga, que elle era rapaz de 20 annos, e que, sabendo que eu era nôvo, dissera, que seriamos amigos. Comi tanta carne e tanta batata, já temperadas com sal, condimento que obtive por contrabando, que me senti muito incommodado, e passei uma pèssima noute. Os chefes Luinas que viéram da parte do règulo, trouxéram ordem ás povoações para me fornecerem o que eu pedisse sem retribuição. Esta ordem foi acertada, porque eu não tinha com que retribuir. Quando ia a levantar campo, chegáram novos enviados do rei com sal e tabaco para mim, e com o recado, de eu não seguir o caminho directo da embocadura do Nhengo, porque elle queria castigar as povoações privando-as da minha visita. Mandei dizer-lhe, que eu não seguiria outro caminho, por ser este o que mais me convinha. Que eu não servia para elle castigar comigo os seus povos delinquentes; e que, se elle me não mandasse barcos ao sitio do Zambeze que eu havia designado, eu passaria o rio sem o auxilio d'elle. Logo á sahida de Canhete, encontrei um paúl horrivel, que tendo apenas 500 metros de largo, levou 1 hora a transpor. Caminhei a leste, e três horas depois alcancei as povoações da Tapa, onde aceitei uma casa offerecida pêlo chefe, por não ser possivel acampar fóra da povoação em terreno pantanoso. As casas ali sam formadas por uma pyràmide troncocònica de caniço, coberto interna e externamente de barro. A porta tem 60 centìmetros de alto por 50 de largo. Esta casa é cercada por outra só de granito, concèntrica áquella, e que tem de raio um metro mais. O tecto abrange as duas casas e é feito de caniço coberto de côlmo. O chefe levou-me um presente de gallinhas e batata dôce. Marquei, duas milhas ao sul, a grande povoação de Aruchico. Corte vertical de uma Casa Luin da aldea da Tapa. a. Casa interior. b. Intervallo entre as duas parêdes. c. Porta interior, 50_c. por 40_c. d. D_a. exterior 1^m. por 50_c. e. Ventilador. f. Parêde, caniço e barro. g. D_a. caniço, 2_m. h. Armação de caniço. k. Cobertura de côlmo.] No dia 24 de Agosto, parti ás 8 horas da manhã, e depois de atravessar um paúl como na vèspera, alcancei a margem direita do rio Nhengo ás 9 horas, descendo até ao Zambeze que encontrei ás 10 e meia. ¡Com que enthusiasmo eu saudei o grande rio! Alguns hippopòtamos vinham resfolgar á tôna d'àgua a 30 metros de mim, e dois fôram vìctimas da sua imprudencia. Um crocodilo enorme foi tambem infeliz em se conservar ao sol n'uma ilha pròxima. Tinha saudado devidamente o Liambai! Tinha-o saudado tingindo-o de pùrpura com o sangue das feras. No meio do maior enthusiasmo dos meus e dos muitos Luinas que me acompanhavam, alcancei as canôas, e passei, ao meio-dia, para a margem esquêrda do rio. Segui sempre a leste, e ás 2 horas, encontrei outro braço do Liambai, que se separa d'elle junto a Nariere. Andei por isso em uma grande ilha onde ha povoações, sendo a principal Liondo. Aquelle braço do rio, ainda que tem 150 metros de largo, é pouco fundo, e foi transposto a vao. Na outra margem havia mais gente mandada pelo règulo. Segui sempre, e ás 3 horas, encontrei uma grande lagôa junto á povoação de Liara, que passei embarcado. Este lago, formado pêlas àguas que o Zambeze lhe introduz no tempo das chuvas, chama-se Norôco. Segui sempre a leste, por entre um labyrintho de pequenas lagôas, que era preciso evitar, e ás 5 horas cheguei a Lialui, grande cidade, capital do Barôze, ou reino do Lui. O rei tinha feito programma. Tive em poucos dias duas grandes sorpresas, para mim já meio selvagem e esquecido dos costumes Europeus. O contrabando de tabaco, de sal, e o programma do rei do Lui. Uns mil e duzentos guerreiros formáram alas até á casa que eu devia provisoriamente ir occupar, e um dos grandes da côrte, acompanhado de uns trinta figurões, formáram o meu sèquito. Chegado á casa, que tinha um grande pàteo cercado de caniçal, estava um estrado, onde eu me devia sentar, para receber os comprimentos da côrte. Logo em seguida, chegáram os quatro conselheiros do rei, dos quaes é presidente Gambela. Com elles vinham tôdos os grandes que formavam a côrte do rei Lobossi. Sentáram-se, e começou, da parte d'elles e da minha, uma troca de comprimentos e saudações, com mil protestos de amizade. Por fim retiráram-se gravemente, e fôram substituidos por outros massadores, que só me deixáram á noute fechada. Retirei-me para a casa que me destinavam, que era um d'esses semicilindros de que já falei, e tive uma noite de insomnia, pensando no futuro da minha empresa. Estava sem recursos, e se o rei não protegesse enèrgicamente a minha viagem, ¿que poderia fazer? Sem a generosidade d'elle, nem mesmo teria que comer ali. Elle mandara-me dizer, que me falaria no dia immediato. ¿Como nos entenderìamos? Aquelle Gambela, o presidente do Consêlho, que acabava de estar comigo, o homem que tôdos me diziam ser o verdadeiro rei, ¿que seria elle para mim? O capìtulo seguinte mostrará, que não era sem razão que um presentimento mal definido me produzio uma noite de insomnia em 24 de Agosto de 1878. Fim do Volume primeiro. Notas: [1] Alfredo Pereira de Mello, capitão-tenente, e Governador de Benguella, era o mesmo Tenente Mello de que fala Cameron no Across Africa , e que era então Ajudante-de-Campo do Governador da Provincia d'Andrade. [2] Parte d'estes carregadores, 200, só chegáram a Benguella a 27 de Dezembro, e outros 200 por fins de Fevereiro. [3] Isto é quasi a pràtica seguida entre os Maraves, a prova do Muave. (Gamito, e Muata Cazembe.) [4] Eu chamo fardo a carga de um homem, proximamente trinta kilogrammas. [5] Lembra-me aqui do que me dizia o Ivens, com aquella graça que nunca perdeu nos transes mais dolorosos. Dizia elle, "Em eu vendo entrar no meu campo prêto de sapatos de liga e guardasol, já sei que é branco, e estou logo a tremer." COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI. CAPÌTULO IX. NO BARÔZE. A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em febre. Estava no alto Zambeze, junto do 15_to parallelo austral, na cidade de Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Barôze, Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode ter o vasto imperio da Àfrica tropical do sul. Como se sabe pêlas descripções de David Livingstone, um homem vindo do Sul á frente de um exèrcito poderôso, o guerreiro Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua confluencia com o Cuando, e invadio os territorios do alto Zambeze, sujeitando ao seu dominio tôdas as tribus que habitavam o vasto paiz conquistado. Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na Àfrica Austral, partira das margens do Gariep com um pequeno exèrcito formado de Basutos e Betjuanas, ao qual foi aggregando os mancêbos dos povos que vencia, e ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas phalanges, que depois se tornáram tão terriveis, ja na conquista do alto Zambeze, ja na defensa do paiz conquistado. A êsse exèrcito, formado de elementos differentes, de povos de muitas raças e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e d'ahi lhe veio o nome de Macololos que tão conhecido se tornou em Àfrica. No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados por chefes independentes, que não podéram, separados como estavam, oppor séria resistencia ao terrivel guerreiro Basuto. Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro, Chibitano soube dar união aos povos conquistados, e fazer com que elles se considerassem irmãos no interesse commum. Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando três raças distinctas. Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no centro, os Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas, raça mais vigorosa e intelligente, que devia substituir um dia os Macololos na governação do paiz. É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que se tem conservado as sedes do govêrno desde o tempo de Chicreto, o filho e successor de Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao vasto imperio Lui ou Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de Barôze. Mais tarde, n'este capìtulo, terei occasião de falar na historia d'este pôvo desde a ùltima visita de Livingstone até á minha passagem ali; proseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sôb o reinado de Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela. A organização polìtica do reino do Lui é muito differente da dos outros povos que eu tinha visitado em Àfrica. Ali ha dois ministerios perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios estrangeiros; sendo este ùltimo dividido em duas secções, cada uma com o seu ministro. Uma d'ellas trata dos negocios de Oeste, outra dos do Sul. Isto é, uma trata com Portuguezes de Benguella, outra com os Inglezes do Cabo. Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos negocios estrangeiros de Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da guerra e a dos negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do consêlho do rei. Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conducta nas graves questões que tinha a tratar. Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava. Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja possuia, dirigindo-me em seguida á grande praça onde devia ter logar a audiencia. Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande praça, e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe sombra com um guarda-sol. Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente grôsso. Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de côr, e em logar de gravata, trazia ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos. As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver as meias de fio de escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado. Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa de capote, e na cabêça um chapéo cinzento, ornado de duas grandes e bellas pennas de avestrús, completavam o traje do grande potentado. Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual estavam prêsas muitas clinas de cavallo, servia-lhe para enxotar as môscas, acção que elle fazia com tôda a gravidade. Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na frente os três conselheiros. Umas mil pessôas, sentadas no chão em semi-cìrculo, deixavam perceber a sua jerarchia pelas distancias a que estavam do soberano. O Rei Lobossi.] Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida os conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um apertar-de-mão com elle e com Gambela, abaixei a cabêça a Matagja e aos outros dous conselheiros, e sentei-me junto a Lobossi e a Gambela. Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de uma côrte Europea do que de um pôvo bàrbaro, eu disse ao rei, que não era negociante, que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que tinha a falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados ali diante de tão numerosa assemblea. Gambela.] Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a recepção que me mandara fazer na vèspera e a que elle mesmo me fazia ali, me mostravam que eu não era confundido com um negociante qualquér; que eu era seu hòspede, e teriamos tempo de falar em negocios, porque elle esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua côrte. Depois de me dizer esta amabilidade, despedio-se de mim, que voltei a casa abrasado em febre. No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me mandava de presente. Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de bôi ao rei, e dar carne á gente da côrte. Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne distribuida entre os meus carregadores e a gente da côrte; tendo o cuidado de mandar ao rei e aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor quinhão a Gambela, a quem fiz notar a distincção que fazia. Matagja.] As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela. Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia particular, em uma casa tambem semi-cilìndrica, mas de grandes dimensões, que não contava menos de 20 metros de comprido por 8 de largo. Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia sympàthica e expressiva me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na viagem que o cèlebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem elle fala, no seu roteiro com tanto elogio. Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois de o rei ter bebido, bebêram tôdos com profusão, e nem me offerecêram, sabendo que eu só àgua bebia. Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu entendi não dever falar-lhe ainda dos meus negocios. Entre outras cousas, falámos a respeito de lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que falasse um bocado em Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres d'Alma do poema "D. Jayme," e os prêtos ficáram encantados ao escutar a harmonia da nossa lìngua, que o mimôso e grande poeta, Thomas Ribeiro, soube imprimir e fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas. Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada. Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana, com quem conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de amizade. Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle estava n'um dos pàteos interiores, sentado em uma esteira, junto a um grande fôgo, que ardia n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro. Na sua frente, em semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam a maior immobilidade e silencio. Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a nossa conferencia. Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma farda e um chapéo, que lhe apresentei logo. Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa vio aos lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de Penafiel, e que fôram vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residencia luxuosa de Lisboa, pelo viver mais buliçôso da capital da França. Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e fêz-me mil agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importancia, entrámos em assumpto. No Barôze falam-se três lìnguas. O Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto, idioma deixado ali pêlos Macololos, que modificáram os costumes d'aquelles povos a ponto tal, que até lhes implantáram a sua lìngua, que é a lìngua official e elegante da côrte. Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao règulo, que vinha da parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome pêlo qual sua Magestade Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da Àfrica Austral, e que é formado por duas palavras-- Muene , que quer dizer Rei, e Puto , nome dado em Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir caminhos ao commercio, e que estando o Lui no centro de Àfrica, e ja em communicação com Benguella, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim um mercado muito mais perto, onde elles poderiam ir abastecer-se dos gèneros Europêos de que precisassem. Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe havia feito o não virem ali negociantes de Benguella, não me occultando que, entre outras cousas, estava sem pòlvora. Eu respondi-lhe, que elles viriam, se com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia affirmar, que o Mueneputo estava dispôsto a proteger o commercio com elle, se elle se compromettesse a não consentir nos seus estados a compra e a venda de escravos. Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometti-lhe, se elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle carecia. O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha prêtos), quiz por vêzes enredar-me, mas eu não sahia da verdade e da lògica, e elle foi vencido. No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que elle me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo. Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre desconfiado de prêtos, não posso deixar de confessar que me retirei satisfeito. O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma hora me recolher, sobreveio-me um enorme accesso de febre. Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul de Lialui, para o quê obtive autorização do rei. Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma grande casa circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panellas de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a gente do règulo, dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e ninguem se entendia ali. Eu voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre. Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio senão ouvir uns e outros, porque aquelles nêgros não tẽm a menor consideração por um doente, peiorei muito. Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda furtada pêla gente d'elle, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e Augusto, Verissimo e Camutombo completamente bêbados, não quizéram saber d'isso. No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu estava um pouco melhor, mas a febre era constante e não queria ceder aos medicamentos. Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu grande consêlho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus projectos. Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz embaraçar, e outra vez se saío mal. Tive de explicar Geographia a Gambela e aos conselheiros da corôa. Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo a elle o curso do Loengue, que, com o nome de Cafúcué, vai entrar no Zambeze a jusante dos ràpidos de Cariba. Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a povoação de Cainco, situada em uma ilha do Loengue, e que descerìamos o rio embarcados até ao Zambeze, e por este ao Zumbo. Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o Zambeze de Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel. Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10 (citando-lhes para isso um facto de uma expedição Luina que, partindo de Narieze, tinha alcançado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia por terra, elles estariam em ràpida, communicação com os estabelecimentos Portuguezes de Leste, por vias fluviaes completamente navegaveis. O pùblico estava admirado da minha erudição, e Gambela, que sabia mais geographia Africana do que muitos ministros d'estado Europêos, e que conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu ás razões. Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se enviasse a comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente sufficiente para atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando três ou quatro fortes postos no caminho, para segurar a passagem áquelles que, indo comigo até ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sessão, houve grande enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguella, e os que me deviam acompanhar. Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão, melhorando ás 6 horas da tarde. Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o primeiro rei da dinastia Luina. Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e sympàthico. Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de cavallaria ligeira, em muito bom estado. Fez-me profunda impressão ver aquella farda! ¿A quem teria pertencido? ¿Como teria ido parar ao centro d'Àfrica? Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto, que pertencêra a um espôso estremecido, algumas migalhas de pão para matar a fome. Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e elle respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia ja muito tempo. Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e elle respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de official sem bolsos, era impossivel. Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito, effectivamente vi que não tinha bôlso ali. Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha bolsos ali. Em um d'elles os meus dêdos encontráram um pequenino bilhête. ¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda? ¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos e não me atrevia a abrir? Cheio de commoção, desdobrei o papél, e vi n'elle algumas linhas escritas a lapis, que li àvidamente. Não pude conter uma gargalhada. O papél dizia assim:-- "Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me indicar o modo de nos correspondermos." Por baixo um nome e uma morada. Sabia de quem fôra a farda. O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo, que hôje occupa uma distintissima posição n'uma das armas scientìficas do exêrcito Portuguez. Um dia em pùblico commetti a indiscrição de pronunciar o nome do signatario do bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, não creio ter de modo algum offendido aquelle nobre official e distincto cavalheiro. Uma farda que o talento e a applicação ao estudo fizéram trocar por outra, mais distincta; que, abandonada ou dada a algum criado, pêla instabilidade das cousas, foi parar ao centro de Àfrica, creio é cousa que não desdoura ninguem. Em quanto ao bilhête de amôres, creio bem que ainda menos o deve vexar. Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não escrevêram bilhêtes assim, e mais infelizes os que depois dos trinta ja os não podem escrever. "Aquillo, meu amigo, foi cousa que um papá , ou uma máma , sempre impertinentes em taes casos, te não deixou entregar, ao sahir do theatro ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos desoito annos fêz recolher ao bôlso. Imagino, meu amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquelle bilhête esquècido, depois de atravessar os mares, atravessou aquelles inhòspitos paizes, e andou em companhia de um prêto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que esse prêto era filho de rei." N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamentos tristes, á vista do bilhête encontrado no bôlso da farda de um alferes de cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhête só podia ser um bilhête d'amôres. Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os paizes, é sempre um fogacho onde as maripôsas vẽm queimar as azas douradas. Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que ja era major. No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar. Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico de confiança. Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco. Principiou elle por tirar do pescôço um cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços de uma fruta qualquér que eu não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras màgicas, e atirou com os caroços ao chão. D'estes, uns ficáram com a parte interna voltada para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposição, concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pòlvora. N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e massambala. Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle. No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que peiorava de instante a instante. Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia ante a fraqueza moral que se apossava de mim. Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia. O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada portador que vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido cada vez mais impertinente. N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem para me enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pòlvora por cada mùsico. N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar fôgo. Sube depois que aquillo era uma convocação á guerra, e antes de falar nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o ponto em que ficou narrada pêlo D_or. Livingstone, isto é, desde a morte de Chicrêto. O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de ferro, sabia prudencia e fina polìtica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pègada de decadencia no reinado de seu filho Chicrêto. David Livingstone, muito grato aos favôres de Chicrêto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a Moçambique, é talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pôde deixar de narrar a desordem e profunda decadencia em que encontrou o imperio Macololo. Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do paiz, que nem os naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a autoridade aos invasores. Môrto Chicrêto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a minoridade de Pepe, irmão muito mais nôvo de Chicrêto, e filho ainda do Grande Chibitano. Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma Saint Barthélemi por os Luinas, os restos d'esse forte exèrcito invasor foi assassinado, escapando apenas poucos, sôb o commando de Siroque, irmão da mãe de Chicrêto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere. Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira, acclamáram seu chefe Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o paiz, e procurou conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano. Chipópa reinou muitos annos, mas as ambições apparecêram e, em 1876, um tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criança de 17 annos. O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabêça a Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tôdos os parentes e amigos do pai que o eleváram ao poder, chamou para junto de si só os parentes maternos. Aquelles conspiráram, fizéram uma revolução, e tentáram assassinal-o, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pôde escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação de Mutambanja. Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e Manuanino têve de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos, caçadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou contra elle um nôvo exèrcito. Foi do resultado d'aquella expedição que n'esse dia chegáram noticias. Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que elles chamam Mozungos , intimáram estes a que lhes entregassem Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacáram, mas, com tanta infelicidade, que fôram completamente batidos pêlos brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegáram a Lialui a narrar o seu desastre. Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á guerra; e porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praça da cidade. Ja que falei na historia do Lui, não dêvo proseguir sem narrar um dos seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo verdadeiramente sympàthico. É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da Saint Barthélemi dos Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze. Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elephantes. Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando por vêzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo umas questões em que bateu os que o atacáram, retirou por prudencia para o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador. Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado, não podia deixar de ser ambiciôso. Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se approximando d'ali pêlo Cuando. Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pòlvora, denunciou-o, e Manuanino, então acclamado de pouco, fel-o assassinar junto da povoação de Mutambanja, pêla mais cobarde traição. Tôdos os seus fôram vìctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio o tùmulo ao ùltimo dos Macololos. Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarcha, que só via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de tempestade. As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui. Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pôvo semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.[1] Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios fiéis, que partiam para povoações distantes. ¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o paiz? Diziam e repetiam, que fôram os Muzungos que matáram os sicarios de Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era Muzungo , estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raça differente dos Portuguezes de oeste. No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados Chiudéres , nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, Muzungos ; e os Inglezes do sul, Macúas . A tôdo e qualquér prêto que vem das colonias Portuguezas chamam Mambares , de certo corrupção da palavra Quimbares , com que sam designados os prêtos semi-civilizados de Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de Mambares . Os Quimbares sam prêtos de qualquér procedencia, geralmente escravos ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa. Em Benguella chamam Quimbundos ao gentio selvagem do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos. No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam. O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e por isso, que tudo o que havìamos combinado estava prejudicado. Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha posição. N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de febre, viéram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar. Levantei-me a custo e fui ouvil-os. Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que me iam deixar, porque viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e só desejavam voltar ao Bihé. Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles! Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viéram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tôdos os Quimbares me viéram fazer igual declaração. Aquella resolução inesperada dos Bihenos fêz-me recobrar o sangue frio que ja não tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim. Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento, entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a Benguella. Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58 homens. No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me repetidas exigencias de cousas que eu não possuia, e elle queria por fôrça que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança, mas criança impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites para o aturar. Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo. Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas as armas e a pòlvora que possuia, porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por ella, e não precisava levar tanta gente armada. Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora, mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fôsse das outras, dos homens que me ficáram, ou das minhas particulares. Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista. No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tôda a minha gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propòsito para me ir juntar aos Muzungos que estavam no Cafuque com o Manuanino, e fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pêla minha insistencia em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra elle prevenido dos projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé. Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimação; cousa que em nada me desconcertou o espìrito, porque, desde a vèspera á noute, eu esperava novidade grande. Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com que o não encontrassem em tôdo o dia. Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os sertanejos do Bihé de virem ali, têve por ùnica resposta nôvo mandado de despejo, e só livre o caminho do Bihé. Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a guerra, não sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de Benguella. Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sôbre o caso, porque a noute era bôa conselheira, e que esperava ainda a sua ùltima decisão no dia immediato. A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que o ùnico caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S. Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estêve em minha casa, conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnìfico revólver Adams-Colt. Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exèrcito, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo lhe tomará contas d'isso. Vocês estam indispostos com os Matebeles, ameaçados pêla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que não sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho." Gambela sahio da minha barraca furioso. N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sôbre-aviso. A larga conversação que tive com o antigo companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só pensava em ver occupar o trôno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira. Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio e aquella affeição, considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se. Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas cubiçosas, que elle não tinha n'aquelle momento. Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo á audiencia do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ìntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "¡Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!" Uma revolução feita n'estes termos não podia deixar de dar bom resultado n'um paiz que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não houvesse uma gôta de sangue derramado. Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar. Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres para mim. Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das cousas que se estavam passando nos seus estados, não podia dar-me fôrça para me seguir, nem se responsabilizava por qualquér desastre que me podesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas. Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só eu mesmo me responsabilizar pêla minha vida, e não tornar ninguem responsavel d'ella. Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que ficáram sem satisfação, por não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tôdos os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo que eu não tinha cavallos, era impertinencia tal desejo. Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fôra filha de reïteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu. No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e tambores, dirige-se á grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta sebe semi-circular, cujo centro é occupado pêla cadeira real. Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a côrte, e á sua direita Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes. Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em linha, e aos lados, em muitas fileiras, o pôvo. Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que não precisam ser tratados em conselho privado. Aquella audiencia é tambem judicial. N'aquelle dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio sentar-se em frente d'elle, e fez a accusação. O acusado negou o crime, e logo de entre o pôvo sahio um homem que veio advogar em favor do réo. Ali qualquér amigo ou parente pode defender o amigo ou parente. Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle; fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora. Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusação e defesa. O crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhér do ladrão; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do roubo, pêla posse da mulhér. Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhér de lhe não obedecer. Esta accusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte sùbditos de Lobossi fizéram amargas queixas contra as espôsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa revolta domèstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que tôda a mulhér que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fôsse amarrada e mettida na lagôa, onde passaria uma noute só com a cabêça de fora. Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a promulgassem nas povoações. Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo porque Gambela conferenceia com o rei em segrêdo, diante de tôdos. A um signal de Gambela, começa a mùsica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é impossivel perceber uma palavra das que trocam o rei e o ministro. Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se embebedarem. Vẽm panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á tarde, depois de novas libações, dá nova audiencia. Logo que, ao anoutecer, termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi deitar-se ao som ruidoso dos tambores. O cessar dos batuques annuncía que o règulo está recolhido, e então a guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma mùsica, que, apesar de monòtona, é agradavel; e tôda a noute cantam um côro suave e harmonioso a meia voz. Esta mùsica que no Barôze acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em tôrno do seu aposento. N'estes poucos traços dou uma idéa resumida do viver monòtono do autòcrata Africano, viver repartido entre a lascivia tôrpe e a embriaguez brutal. N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que, em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem assassinar; dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os Luinas que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um branco da mesma raça. Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era caso grave para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos ministerios; precaução tomada pêlos novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz as opposições. Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a reputação dos antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pôvo, para lhes diminuir a fôrça moral como opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais seguro o systema polìtico dos Luinas, o que não quer dizer que o recommende. O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana, decidio, que eu não morrêsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de mim que a aste vergastou-me o braço esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prêto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fôgo sôbre elle, foi acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em direcção a Lialui. Corri sôbre elle. Sentindo-me no encalço, o prêto deitou-se por terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fôgo. Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com as azagaias cahidas ao lado. Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao contacto da minha mão, senti um lìquido quente correr-me por entre os dêdos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de mêdo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento. Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque tôdas as noutes se ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara junto á cabêça superior do hùmero direito, perto da clavìcula, e não tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. Não lhe apparecendo sangue nas vias respiratorias, calculei que o pulmão não tinha sido offendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida, pêla sua tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido cortado. N'estas condições a ferida não apresentava gravidade, pêlo menos de momento. Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os muleques conduzissem para ali o ferido. Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que enviara aquelle braço. Lobossi mandou logo retirar d'ali o prêto, e disse-me, que aquillo era um grande agouro, e que ja não durmiria aquella noute socegado. Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito, lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e dizendo-me, que ia matar meio mundo. O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disséram nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sôbre o facto o maior segrêdo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados. Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de Gambela. Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me sorpresa. A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguem se introduzia de rastos. Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a prêta Marianna, que, com meio côrpo dentro da barraca, me fazia signal para que entivesse calado. Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reunio com muito socêgo a gente de Silva Porto, e estêve a falar com elles na barraca d'elle. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem la estava. Elles disséram, que como tu não entendias a lìngua do Lui, quando tu lhes dissesses uma cousa para dizer ao rei, elles diriam outra, e te dariam tambem a resposta trocada, que assim haviam de fazer com que o rei te matasse. "Toma cautela, olha que elles sam muito maos." Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o ùnico collar de missanga que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana. A declaração da Marianna, veio ferir-me profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a atraiçoar-me. Mil pensamentos tristes, que não conseguíram alquebrar-me o espìrito, produzíram uma noite de insomnia. É verdade, que a prevenção de Marianna veio dar-me uma vantagem enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes conhecia a traição nos seus detalhes; e de manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o rifão Portuguez, de que "um homem avisado vale por quatro." Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a espada de Damocles estava suspensa sôbre a minha cabêça. N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguella, e a comitiva do rei do Lui, commandada por três chefes Luinas e guiada pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho da costa. Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava satisfeito com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um pôvo tão poderôso em relações com a civilização Europea da costa, era ja um resultado importante da minha viagem.[2] A revelação feita n'essa noute por Marianna trazia-me preoccupado, e eu só pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traição d'aquelles em que eu mais confiava. Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse mesmo dia. A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se déram comigo depois da minha chegada ao Lui, não me tem deixado falar dos povos Luinas e seus costumes. Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada por Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que tẽm unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pègada de decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha ( Cannabis Indica ), a embriaguez e a syphilis, tẽm lançado aquelle pôvo no mais abjecto embrutecimento moral, e enfraquecimento physico. Cachimbos de fumar o Bangue.] O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da raça prêta chegou-lhe do sul e leste pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali importados pêlos Bihenos, que lhe trouxéram ainda outro inimigo não menos terrivel, o tràfico da escravatura. Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os Luinas a pràtica da polygamia. ¡Gambela, á èpocha da minha estada no Barôze, tinha mais de setenta mulheres! O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz que fica ao norte da primeira região das cataractas, compõe-se, da enorme planicie onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vêzes, de 30 a 35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao mar; do paiz mais elevado a leste, onde assentam innùmeras povoações, que vẽm estabelecer as suas culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre parallela ao rio, e onde estam muitas povoações, livres das maiores cheias. Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é inundada, e eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado signaes do maior nivel das àguas três metros. No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de metros cùbicos d'àgua por hora. Isto dá uma medida do que sam as chuvas na Àfrica tropical, acrescentando-se, que regularmente a inundação atinge o seu màximo em oito dias. O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira para o paiz montanhoso durante as inundações. Ao retirar das àguas, volvem a occupar as povoações abandonadas na invernía, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto viçoso em èpocha alguma do anno; porque os prados sam formados, pêla maior parte, de caniçal, onde abunda uma especie do Calamagrostis arenaria . As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do Zambeze, e sempre junto das encostas. A inundação deixa na planicie um sem-nùmero de pequenas lagôas, que se atulham de vegetação aquàtica, e que sam outros tantos focos miasmàticos de infecção palustre. Ha èpochas no anno em que os proprios indìgenas sam fortemente atacados pelas febres endèmicas. Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios. É d'estas lagôas que se fornecem de àgua potavel os indìgenas, mas é preciso confessar, que elles só a bebem depois de transformada em Capata. Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres. Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu principal alimento. O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres. O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com a batata dôce, a base da sua alimentação. A farinha de milho é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de massambala, principal cultura do paiz. Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e tôdos os seus utensilios, sam feitos no paiz. Não usam facas, e não podemos deixar de nos admirar das esculpturas que fazem em madeira, sabendo que não empregam facas, e mais ainda, logo que conheçamos o instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro d'esta é instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudellas em que comem as vasilhas do leite, e tôdos os seus utensilios de madeira, sam cortados com ella. Vasilha para leite feita de Madeira.] Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a colhér. Vivendo de leite, o Luina não pode prescindir da colhér, e dispensa a faca. O seu systema de alimentação explica a falta d'esta e o muito uso d'aquella. Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas. Especie de Espàtula.] Pratos e Escudellas para a comida.] Colhér.] Machado de cortar Madeira.] A industria ceràmica limita-se no Barôze á fabricação de panellas para cozinha, para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes. Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar o bangue . Artigos de Barro. 1. Panellas de cozinha. 2. Tálha de guardar cereaes. 3, 3. Fornalhas dos cachimbos.] O Luina só fuma o bangue ; o muito tabaco que cultivam é empregado exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem grande uso homens e mulheres. É este o pôvo mais coberto que encontrei em Àfrica. É raro ver-se ali um homem ou mulhér despidos da cintura para cima. Os homens, como ja disse no capìtulo anterior, usam umas pelles passadas em um cinto, que pendem adiante e atraz, chegando até aos joêlhos. Um manto de pelle, que posto, assemelha as capas do tempo de Henrique 3^o, cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até meia perna. Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu trajar. As mulheres trajam um saio de pelles, que adiante chêga ao joêlho, e atraz desce até ao grôsso da perna. Sôbre o saio um largo cinto enfeitado de buzio ( caurim ). Um pequeno manto de pelles, muitas missangas ao pescôço e muitas manilhas nos braços e pernas, sam o vestuario do paiz. Vemos hôje muitas indìgenas substituindo as pelles por estôfos Europêus, os capotes por cobertores de algodão, e mesmo tôdo o trajar gentìlico, por o fato do homem civilizado; mas eu aqui não curo das excepções, falo no traje primitivo do paiz, e não nas innovações que o commercio ali tem levado. É preciso contudo revelar, que este pôvo tem uma tendencia manifesta para se vestir. De certo, antes da invasão dos Macololos, os Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos Chuculumbes, seus vizinhos de leste, andam completamente nús, homens e mulheres. A oeste os Ambuelas fôram tambem encontrados nús, pêlos primeiros sertanejos Portuguezes que ali se aventuráram,[3] e ainda hôje não se cobrem muito. Homem Luina.] O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado outróra pêlos Macololos, e por isso é de crer que fôsse introduzido por elles. Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo para se vestir, deve merecer a attenção do commercio, e é uma tendencia a explorar em beneficio d'elle, dos indìgenas e da civilização. Mulhér Luina.] As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com manteiga de vacca misturada de talco em pó, que lhes dá á pelle um lustro avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro desagradabilissimo. Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do sul, e outras de silex Belgas, vindas do commercio Portuguez de Benguella; mas os indìgenas, ao contrario do que acontece, com tôdos os povos da costa de Oeste até ao Zambeze, preferem as armas de fulminante, e alguns ha, que só querem ja carabinas raiadas. Não usam cartuxo como os Bihenos e povos circumvizinhos d'estes, e trazem a pòlvora sôlta em cornos, ou em cabaças. As armas do paiz sam azagaias, porrinhos, e machadinhas. Não usam frechas. Azagaias Luinas.] Machadinhas de guerra.] Porrinho.] Tẽm por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de bôi armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a seis azagaias de arremêço. Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam por isso menos terriveis; devido ás barbas desencontradas que lhes fazem, de modo que, na maior parte dos ferimentos, é preciso matar o ferido para lh'-as arrancar do côrpo. O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que tẽm, fôram as missangas chamadas no commercio de Benguella, missanga leite, azul celeste e Maria 2^a. Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados. Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo elles as melhores. O arame de latão, de três a quatro milìmetros de diàmetro, tem valor, e a roupa feita, cobertôres, armas de percussão, fulminantes, pòlvora, chumbo em barra, e artigos de caça, sam ali cotados em subido prêço. Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente com o règulo, que faz d'elle monopolio; pertencendo-lhe tôdo o marfim que se caça nos seus estados, e tôdos os gados dos seus sùbditos, a quem elle os pede quando precisa. Das fazendas, armas e outros artigos que permuta, faz presentes aos seus caçadores, chefes de povoação, côrte, etc. As mulheres gozam de bastante consideração, e entre a nobreza não fazem nada, passando a vida sentadas em esteiras, a beber capata e a cheirar tabaco. Possúem muitos escravos, pêla maior parte Macalacas, que as servem. Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma raça magnìfica, e mesmo as suas gallinhas e cães sam de melhores raças do que os que encontrei até ali. O valle do Barôze está cercado por éste a sul da terrivel mosca zê-zê, o que os obriga a concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a sahida d'elles, a não ser para oeste no caminho de Benguella, tôdo limpo do prejudicial diptéro. Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva Porto), que foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio dos Macololos, e que eu encontrei em condições bem differentes, sôb a dinastia Luina, em 1878. Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de Setembro, dia seguinte ao da revelação de Marianna, resolvi fazer com que os traidôres fôssem trahidos por um dos seus, e lancei as minhas vistas sôbre Verissimo Gonçalvez. Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar, a copia de uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em que eu dizia ao governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe pedia que mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe d'elle, e se acaso acontecesse eu ser vìctima de alguma traição, as mandasse para Portugal, onde eu disse ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas. Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra escrita como simples prevenção, porque eu confiava plenamente na sua dedicação por mim; mas que essa dedicação tinha de estar vigilante, porque eu desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me acontecêsse alguma desgraça, eu não poderia evitar os horrores que estavam reservados aos entes que lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que Caiumbuca não transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me dava transtornadas as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar sempre presente nas minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em Portuguez (Caiumbuca não falava Portuguez) o que elle dizia ao rei. Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me enganava, e contou-me tudo. Eu preveni-o, que não deixasse perceber nada a Caiumbuca, e que me tivesse ao corrente do que elle tramava. N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que me devia acompanhar, para eu seguir para a costa de Moçambique, e por isso podia partir quando eu quizesse. Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda não tinha passado tão bem como n'esse dia. O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida d'estes. O centro era um largo circular, de não menos de cem metros de diàmetro. A um lado, dentro da fila das barracas, ficava a minha barraca, cercada por uma sebe de canas, que fechava um recinto, onde só entravam os meus muleques de serviço. Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha marcado com persistencia 33 graos centìgrados, e o calor reflectido pêla areia tinha sido incòmmodo. A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado á porta da minha tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e nos amigos, no futuro da minha emprêsa, tão ameaçada ali, e ora alegre ora triste, não perdia a fé e esperava. O acontecimento da ante-vèspera vinha pairar como nuvem nêgra sôbre o ceo lìmpido da esperança. Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das fogueiras, só eu estava fora. De sùbito prendeu-me a attenção um sem-nùmero de pontos luminosos que vi atravessarem o espaço. Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a barraca. Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de angustia suprema escapou-se-me da garganta. Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e lançavam achas ardentes sôbre as barracas cobertas de herva sêca. Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas incandescentes, e pareciam loucos. Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em tôrno de mim. Em presença de um perigo tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de uma vez me tem acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e tranquillo de espìrito, pensando só em lutar e vencer. Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um cìrculo de fôgo, e consegui reunil-a no meio do espaço interior do campo. Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na minha barraca em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos instrumentos, os meus papéis e trabalhos, e a pòlvora. A esse tempo as barracas abrazavam tôdas, mas o fôgo não podia attingir-nos. Verissimo estava a meu lado, inclinei-me para elle e disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo, passa por onde poderes e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi que a sua gente me ataca, diz tambem a Machauana o perigo que côrro." Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o desapparecer por entre as labaredas. A esse tempo ja as azagaias ferviam em tôrno de nós, e ja haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do prêto Jamba de Silva Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho direito. Ás azagaias respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o gentio avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as barracas consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em tôrno de mim, que desarmado segurava a bandeira da minha patria, estavam batendo-se como verdadeiros bravos os meus valentes Quimbares. ¿Estavam tôdos? Não. Faltava ali um homem, um homem que deveria estar ao meu lado e que ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu immediato, desapparecêra! Ataque contra o acampamento no Lui.] Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem contra um. Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que com estridente grita pulavam ao clarão das chamas, avançando para nós cobertos com o alto escudo e brandindo as puidas azagaias. Foi um combater encarniçado em que as carabinas de carregar pêla culatra, pêlo seu fôgo sustentado, continham em respeito aquella horda selvagem. Contudo eu calculava que o têrmo do combate não estava longe, porque as munições desappareciam ràpidamente; eu só tinha no comêço quatro mil tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar pêla bôca, mas não seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fôgo abrandasse, por faltarem as armas de carregamento ràpido, serìamos esmagados pêlo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia, mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a frente, e fez fôgo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom differente, e virando costas, tomáram elles precipitada fuga. Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um tal reviramento. Fôram os tiros do meu Augusto. Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas carregadas de nitro-glicerina. O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla explosão, as cabêças e os peitos em que acertavam, produzio o pànico no meio d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa nova para elle, um feitiço irresistivel. Foi a Providencia que me quiz valer. Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo, com uma grande fôrça capitaneada por Machauana, que vinha em meu soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo, sabendo que eu fôra ali para os atacar de combinação com os Muzungos de leste, que estavam com Manuanino, fizéram aquillo por sua conta; mas que elle ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não soffrer mais aggressões. Tudo aquillo, se não foi ordenado por elle, foi por Gambela. Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o que haviamos de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens Portuguezes dos ùltimos sèculos:--"Enterrar os mortos, e tratar dos vivos." No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as pêrdas de vidas por tão insòlito ataque. A bandeira Portugueza estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer realçar a sua pureza immaculada; e mais uma vez, longe da patria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saberá. Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião cuidadoso, e o resto da noute foi passado a curar os feridos e a alentar os sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei Lobossi. Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe àsperamente sôbre o acontecimento da noute. Tornei-o, diante do seu pôvo, responsavel pêlas desgraças d'aquella noute; e disse bem alto, que aquelles que tivessem a chorar a perda de parentes, só a elle deviam lançar culpas. Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem resistir a um nôvo ataque. Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço que eu tinha empregado na vèspera, fazendo com que os prêtos rebentassem por si. Era assim que elles explicavam o caso funesto das balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto. Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as montanhas, não pude realizar esse desejo senão a 9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos com a fome; porque ninguem nos quiz vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Fôram as lagôas que fornecéram abundante pesca e alguns patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a planicie e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando tôdos, feridos e sãos, no maior estado de fraqueza. O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome, preoccupou-me, e dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem caça. Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas. CAPÌTULO X. A CARABINA D'EL-REI. Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante do sitio que escolhi para acampar. Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de comer. Algumas mulheres viéram vender pouca cousa a trôco dos invòlucros metàlicos dos cartuxos queimados das carabinas Winchester. Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagôas pròximas, e tirámos algum peixe, que se comia cozido em àgua sem sal. De Caiumbuca não havia noticias, e eu convencia-me que elle tinha partido com a gente que retrocedêra ao Bihé; quando n'essa tarde me viéram dizer, que elle estava no acampamento, e me queria falar. Apresentou-se, dizendo que fôra acompanhar a comitiva de Lobossi, que seguira com o prêto Antonio, porque tinha de mandar prevenir a gente da sua libata no Bihé, de que tinha muita demora ainda no sertão, pois seguia comigo para a costa de leste. Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com relação a elle; e depois de pensar um momento, resolvi aceitar a desculpa da ausencia d'elle na noute do combate, e não lhe mostrar que tinha perdido a minha confiança, e que sabia da sua projectada traição. Elle pedio-me para regressar n'essa noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato com a gente que Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para Quisseque, logo que o estado de alguns feridos m'o permittisse. Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos que não quizesse que morrèssemos á fome no seu paiz. Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente. No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que comer e os meus. Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se á terra em cìrculo enorme, lembrei-me de determinar a variação da agulha magnètica pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos azimuthes, que eu tinha sido forçado a empregar até então. Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a observação, muito antes de tempo, porque o sol estava ainda elevado do horizonte uns dez graos; quando um phenòmeno curiosissimo se deu na atmosphera. Estava ella lìmpida, de um azul um pouco carregado mas sem uma nuvem, sem um extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol começou a perder a sua forma circular, e a desapparecer lentamente, como se eu observasse um occaso no oceano; e isto dez graos acima do horizonte, por ceo na apparencia limpo, como ja disse. Só depois do seu completo desapparecimento é que se podia mal perceber, pêlo feixe de luz que em leque se espargia no ceo, uma barra de extractos, tão iguaes em côr ao azul da atmosphera, que a vista mais apurada a confundiria com ella; parecendo que a limpidez do firmamento não era interrompida até ao horizonte. Algumas vêzes mais observei igual phenòmeno, mas não a tanta altura, nem tão perfeitamente definido. Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem Caiumbuca, nem a gente que Lobossi devia mandar-me. Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar pròximo da meia-noute; e como eu não quizesse perder essa observação, por encontrar grande differença em longitude na posição do Zambeze, recomendei ao Augusto, que me chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe indiquei, o que correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga, deitei-me cêdo, e adormeci profundamente; esperando que Augusto velasse, depois da instante recommendação que eu lhe tinha feito. Por noute fora acordei ao chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto, julgando ser a hora indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu fiel nêgro, elle disse-me, cheio de commoção: "Senhor, estamos atraiçoados; a gente fugio tôda, e roubáram tudo." Levantei-me, e sahi da barraca. O acampamento estava deserto. La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e Pépéca, e as mulheres dos muleques, estavam silenciosos e pasmados olhando uns para os outros. Não pude conter uma gargalhada. O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe de mim. Era tão crìtica a minha posição, vivendo no meio de tantas miserias, rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles quereria ser meu socio. Ànimos mais fortes e espìritos mais enèrgicos do que os dos prêtos que acabavam de fugir, não teriam querido partilhar da minha sorte. Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e puz-me a indagar o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A gente tinha fugido tôda, sem que algum dos presentes a presentisse. Os cães, habituados com elles, não ladráram. O Pépéca foi passar revista ás barracas, e nada encontrou. As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca, e que consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido. Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me restava o que havia dentro da minha barraca. Eram os meus papéis, os meus instrumentos, e as minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma das cargas roubadas continha os meus cartuxos, e sem elles de nada serviam. Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e achei-me com trinta tiros de balas d'aço para a carabina Lepage, e com vinte e cinco cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de pouco ou nada serviam. Era tudo quanto possuia. Não pude deixar de curvar a cabêça ante este ùltimo golpe que me feria, e um atroz confrangimento de coração trouxe-me, pêla primeira vez em Àfrica, o presentimento de que estava perdido. Estava no centro d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo de trinta balas apenas, quando só da caça poderia viver e só a caça me poderia salvar; e tinha em tôrno de mim só três homens, três crianças e duas mulheres! Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto fiel; e sem consciencia do que dizia, sem a menor convicção nas palavras que proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que não receiassem nada, porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de véla. Recolhidos ás barracas, eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente e sem fôrças. O abalo moral tinha despedaçado o côrpo, já fortemente abatido pêlas febres. Sentado, com os braços encostados nos joêlhos e a cabêça encostada ás mãos, eu olhava fito para a crepitação da chama, sem ter um pensamento, sem uma idéa, em perfeito estado de imbecilidade. Contudo, o instincto filho do hàbito, fêz-me sentir, que estava desarmado; chamei o meu muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe uma arma. Elle entrou na barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar, colloquei sôbre os joêlhos. Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as idéas principiáram a vir mostrar-me os horrôres da minha posição. Havia muitos mêzes, que eu caminhava ávante, pobre e sem recursos; havia muito tempo que eu contava ùnicamente com a caça para sustentar a minha caravana. Essa idéa perfeitamente arraigada no meu espìrito, tinha-me dado sempre a fôrça de seguir, de ter fé e de esperar. De repente sentia em mim um vazio enorme. A idéa tinha cahido por terra, e desapparecido com a caixa que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu ùnico recurso. Deve ser ao encarar uma posição como a minha que o homem se suicida. Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a cabêça e os meus olhos fixáram-se na carabina que eu tinha pousada nos joêlhos. Olhei, a talvez meio minuto, e uma idéa atravessou-me o espìrito. De um salto entrei na barraca, e corri a levantar as pelles do meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que me servia de travesseiro, estava um estôjo de couro, rectangular, baixo e comprido. Foi com mão febril que abri aquelle estôjo esquècido, e apalpei trèmulo os objectos que elle continha. As idéas occorriam-me de nôvo em tumulto. Deixei o estôjo, e abri a mala dos instrumentos, onde a caixa do meu sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti debaixo da mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da barraca e do acampamento, e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu grande tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e tensa pêlo peso do chumbo que lhe envolvia a tralha. Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a rêde voltei ao campo, curvado ao pêso d'ella. Cheguei junto á fogueira, e depuz no chão o meu fardo. Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia louco, e louco estava eu de contente. O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o thesouro que empobrece a sua miseria, não deve ter na vista expressão differente da que eu tinha a olhar para aquella carabina. É que ella para mim era a vida, a salvação, e tudo. É que ella para o meu paiz era uma expedição coroada de èxito; era a realização de um voto formulado por elle no seu parlamento; era o bom èxito obtido, tanto mais meritorio, quanto mais estorvado. A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha estremecida, a arma que me ia salvar, e comigo a expedição atravez d'Àfrica, era a Carabina d'El-Rei. No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para fazer balas, e tudo o necessario para se carregarem os cartuxos, logo que existissem os invòlucros metàlicos, cada um dos quaes, pêlo seu systema de construcção, pode servir muitas vêzes. Uma pequena caixa, que vinha no estôjo ja quando El-Rei me offerecêra o valioso presente, continha quinhentos fulminantes. As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle recurso, trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de pòlvora que eu desde Benguella empregava, á falta de cousa melhor, para entalar a caixa do sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha rêde de pesca ia fornecer-m'-o. Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns centos de tiros sentia-me com fôrça de criar recursos n'esse paiz de caça. O resto da noute foi para mim como manhã bonançosa depois de noute de temporal. Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava tranquillo e confiante. Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a mandar dois homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi; disse-lhe tambem, que ia mudar o meu campo para mais pròximo da aldea, e logo nós quatro, eu, Verissimo, Augusto e Camutombo, construímos quatro barracas e um forte cercado, onde nos recolhémos com o meu magno espolio. N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho, cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo. Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me estendi nas pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono sôlto até ao pôr-do-sol. O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos patos, conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella alimentação sem condimentos a fome ja impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi pouco e pensei muito. Sustentar nove pessôas era mais facil do que sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão mais momentosa e que mais urgente era resolver, estava, se não resolvida, pêlo menos muito simplificada por si mesmo. A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente arraigada em mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um projecto, sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha confiança era tal, que os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes. Diziam elles, que eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia, que não tinha ainda formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja." Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2 kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada cartuxo era de 5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella pòlvora carregar duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda possuia, e com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage, prefaziam um total de trezentos cartuxos. Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de 35 grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de trinta kilos. Fulminantes tinha duzentos a mais. Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado d'elle, para que eu fôsse viver para Lialui até tomar uma deliberação. Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o Verissimo a Lialui tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei que sahisse antes de amanhecer no dia immediato, para ter tempo de voltar no mesmo dia. Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito doente. No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente até á volta do Verissimo, que só chegou de tarde. Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam alguma comida, e um presente de leite coalhado, enviado por Machauana. Lobossi mandava dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto a ajudar-me, mas que fôsse eu viver para casa d'elle; e que com tempo decidiriamos o que havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe pêlos muleques, que logo que estivesse melhor iria falar-lhe; mas que não deixaria o mato, e que me era impossivel ir viver com elle, por causa das febres. Estava ancioso por me achar só com Verissimo, para ter noticias de Lialui. A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda impressão. Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi, estava reunido o grande consêlho em discussão acalorada. Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali, pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em Patamatenga, e queria vir ao Lui. Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze opunha-se com tôda a sua eloquencia o ministro dos estrangeiros Matagja, e d'ahi nascêra a acalorada discussão a que assistira o Verissimo; sendo resolvido em consêlho, que não fôsse concedida a licença para o homem penetrar nos estados do rei Lobossi. O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a menor importancia, começou a narrar-me o que tinha podido colher de noticias ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto e Caiumbuca; mas eu é que não o escutava ja, e aquelle missionario Inglez ( Macúa , diziam elles) não se me tirava do pensamento. Quando o Verissimo acabou o seu aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu problema, e a resolução consistia, em ir encontrar aquelle missionario. Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era ja convicção minha. Fui àvidamente buscar uma pèssima carta d'Àfrica que tinha, e calculando approximadamente onde seria Patamatenga, medi uma distancia de seiscentos kilòmetros. Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10 kilòmetros por dia, eram sessenta dias de jornada, e trezentos tiros que eu possuia, divididos por sessenta dias, dava-me cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de me pôr a caminho, mas ardia em febre tambem, e comecei por deitar-me. Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me permittindo sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15 para 16, resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de pôr em execução um plano que tinha concebido, para ir encontrar o missionario, idéa que me não sahia da mente. Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de Lobossi. Fui muito bem recebido por elle, que negou ter sido connivente com Caiumbuca e os prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus Quimbares ; o que era falso, porque sem o consentimento d'elle, não poderiam elles ter passado o Zambeze. Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me, ¿como queria eu ir para ali, não tendo carregadores? Esta pergunta do rei foi muito applaudida pêlos assistentes, que notáram a esperteza d'elle em m'-a fazer. Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que tinha o rio Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu dispensava os carregadores, tanto mais que não tinha cargas. Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da parte do auditorio. Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar. Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca fôrça, e não podiam arrastrar os barcos por terra. Novamente applaudido; estava fazendo um gôsto immenso em patentear o seu espìrito fino diante dos ouvintes; e de salto, sem esperar resposta, perguntou-me, ¿porque não tinha ido viver com elle para Lialui, como me tinha ordenado? Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por muitas razões; sendo a principal, o ser elle um refinado velhaco, que, desde a minha chegada, só tinha procurado enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei ladrão e assassino, levantei-me e puz-me a caminho. O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me embargar o passo. Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno, o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem fiz a profecia de que ainda seria rei do Lui.[4] Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo. O rei disse-me, que não tinha razão para me zangar com elle, que era muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que o Liambai estava livre para mim. Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era mal aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis Macololos, foi a grande protecção que dispensáram a Livingstone. Que os Luinas queriam perder o commercio; e que elle completaria a ruina do Lui começada por Manuanino. Que o seu pôvo, não a camarilha que o rodeava, mas o seu pôvo sensato, ainda o expulsaria do poder, por incapaz de governar, e não fazer mais do que disparates. Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me daria os barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu não chegasse a alcançar o missionario, mesmo porque queria que eu mudasse de opinião a seu respeito. Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me mandaria dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse arranjado as tripulações. Chamou diante de mim o Chefe de Libouta, e deu-lhe ordens a esse respeito. Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o. Elle pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os factos. Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda a verdade, nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem fôra ao longe o motor dos acontecimentos. Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito. Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente approvados, porque muito convinha aos Luinas estar em communicação com a costa de Leste. Dias depois da minha chegada, rebentou no Chuculumbe a revolução, á testa da qual se achava Manuanino, o rei destronado. Caiumbuca foi então dizer a Lobossi, que eu não era estranho áquella revolta, e que queria ir para Leste juntar-me aos brancos que apoiavam Manuanino. N'essa occasião Caiumbuca levara os Bihenos a abandonar-me, dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que me ia mandar matar, e não poderia impedir que fôsse morta a gente que estivesse comigo. Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que não queriam estar comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado. A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao meu principio de sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de tudo, fui enganado. É verdade que Silva Porto, o homem em quem eu tinha a màxima confiança, disse-me e escreveu-me, que podia fiar-me em Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle. Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e não seria facil convencel-os da verdade. Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi então que os muleques de Silva Porto fôram dizer ao rei, que tinham ordem de seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer, que me fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé voltassem ali, sem o quê não teria mais relações com Benguella. Foi então que tentáram matar-me, affirmando Machauana, que Lobossi sempre se opoz a isso, assim como a maioria do seu consêlho, mas que Gambela era de opinião contraria. Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que tôdo o que eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas muito ricas, despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos exploradores tem perdido no Continente Africano. Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas produzíram, eu ia continuar a minha viagem com a gente de Benguella, quando o ataque da noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma nova intriga dos prêtos de Silva Porto levou á fuga os restantes. ¿Por ordem de quem trabalhou Caiumbuca? Eis o que não pude saber. Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar n'isso. A encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios d'ella os muleques de Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal, depois das instrucções recebidas dos prêtos de Belmonte. O mandatario estava ao longe, muito ao longe. A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do meu Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da escravatura. Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos o Commander Cameron e David Livingstone, tẽm apontado muitos factos horriveis e verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior d'Àfrica por sertanejos Portuguezes. Por muitas vêzes, a opinião pùblica em Portugal tem levantado a sua voz potente, contra as asserções vilipendiosas dos accusadores estrangeiros, querendo negar factos que elles asseveram; e em que ella não acredita, porque, na sua ìndole bondosa, é incapaz de os comprehender e de os admittir. Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados, não deixam de conter um germen de realidade. ¿Mas serám esses factos uma nòdoa para Portugal? Não sam. Affirmo-o, e sustento-o. Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser Portuguezes. Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam rèprobos a quem a sentença infamante da justiça imprimio um indelebil ferrête de ignominia; sam os salteadores e assassinos, a quem a patria banio do seu seio com horror, que podéram quebrar o grilhão de ferro com que estavam acorrentados ao patìbulo aviltante; e fugindo a um mundo onde só os espera o desprezo da gente civilizada, vam ao longe buscar entre os selvagens a guarida que perdêram, e continuar ali a sua vida de crimes. Taes homens não deshonram a sua patria, porque não tẽm patria. Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos, é querer tornar a França responsavel dos actos da Communa, a Amèrica do assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores dos Abruzos. Ha rèprobos em tôda a parte, e não podem ser nòdoas nos povos que os esmagam na sua justa indignação. Dos sertanejos Europeus que tẽm estado estabelecidos no Bihé, de dois apenas tenho noticia, que não pertencessem a tal ordem de gente. Sam elles Silva Porto, e Guilherme José Gonçalves; mas estes fôram sempre queridos e estimados do indìgena e do Europêu, gozáram sempre da consideração que a sua honradez e probidade lhes grangeáram, fôram cidadãos prestantes, que, com um tràfico legal e digno, nem chegáram a fazer fortuna, e fôram muitas vêzes vìctimas dos outros. O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e conhecido n'uma grande parte da Àfrica central pêla corrupção da palavra Prôto , e mais de uma vez me servi d'elle para desfazer obstàculos. Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica central, ha Portuguezes dignos e nobres, que tẽm feito um grande serviço á humanidade no commercio lìcito com o interior; esse commercio, que é o mais seguro mensageiro da civilização na terra dos nêgros. Não confundamos pois; não confundamos, e será pouco nobre ir buscar a autoridade do explorador, para lançar, apontando factos verdadeiros, mas nada producentes, um labéo sôbre um pôvo nobre, o primeiro que deu mão forte á Inglaterra contra o tràfico infame; sôbre um pôvo que sacrificou os seus interesses Africanos legislando a abolição da escravatura; contra um pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade até á Àfrica, mandando para lá as leis que o regem na Metròpoli; chegando ao excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um còdigo que por libèrrimo é impossivel entre gente mais que semibàrbara. Não precisa Portugal justificação; que o defendem os factos, as leis e a energia que emprega na grande obra da civilização Africana; mas, falando do tràfico da escravatura de que por vêzes ia sendo vìctima, não me pude eximir a pôr a questão nos seus verdadeiros têrmos. José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de nascença; não se parecem com Portuguezes na côr, sam indìgenas, sem instrucção, verdadeiros selvagens de calças e chapéos. Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em Àfrica por terras onde elles tẽm andado, do que nas regiões bàrbaras dos canibaes, que nunca víram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de armas na mão frente a frente; ali é a traição e a covardia que o esperam. Aqui é explorar na brenha espinhosa onde o leão occulta o seu antro; ali é caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes. Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás sedes dos grandes potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem acontecido a mim com Lobossi, no Lui. O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim, dá tudo ao règulo; chêga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bihé de tanga de pelles, como os seus carregadores. No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que elle lhes desse pêla factura que levavam, o que entendesse sufficiente. O explorador que hôje chêgue ali e não faça o mesmo, está perdido. Àlém d'esta, outra razão deve aconselhar o explorador a evitar os grandes potentados; é ella o caso de uma aggressão, sempre de recear. Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da Àfrica austral, poderá, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios será forçosamente esmagado. Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de Machauana. Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma gazella, o que nos fazia òptimo arranjo. As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins. Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o tempo; podendo obter uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinação da declinação da agulha, estudos meteorològicos, etc. No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decidí mandar lá o Verissimo, a saber se a offerta das canôas era ou não comedia. N'esse dia apparecêram ali uns prêtos, que pêlo typo conheci logo não serem do paiz. Diziam elles serem da Luêna, e querendo indagar onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de nòs dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz, viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles. Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da aldeola, que falava a lìngua dos Machachas, lìngua em que elles se exprimiam bem, dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Disséram-me, haver no seu paiz muitos elephantes, e serem caçadores; empregando para isso a azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos de côrpo e de pequena estatura, com feições bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam, quasi tôdos, na cabêça uns penachos feitos de sêdas de elephante, demonstrando cada penacho um elephante môrto pêlo que o traz. Vestem pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de liconde para se cobrirem. Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio levar muito longe as averiguações ácerca do paiz d'elles e dos terrenos que atravessáram para chegar ali. No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas estavam promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que só iria em dois dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter de fazer observações e completar estudos meteorològicos no dia 22. Por esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento em sua casa, porque iria ser seu hòspede. Eu queria fazer do ladrão fiél. A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei ás duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com pompa, e foi conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha por um sol abrasador prostrou-me de fadiga, e só á noute pude ir visitar Lobossi. Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que estava convencido de que fôra illudido por Caiumbuca e pêlos muleques do Silva Porto; que acreditava ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria dar todas as satisfacções pêlos transtornos que eu tinha soffrido nos seus estados, de que elle dizia não ter tido a menor culpa. Aproveitei tão bôas disposições, para renovar o meu pedido de gente e auxilio, para seguir pêlo paiz do Chuculumbe até Caiuco, e descer depois o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo pêlo Zambeze. Respondeu-me, que isso não podia ser, porque esse projecto encontrava uma grande opposição nos velhos do seu conselho. Que o Munari (Livingstone), no tempo de Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com gente do Lui, e que nenhum dos que com elle fôram para leste voltara mais ao paiz. Os velhos falando elle n'isso, disséram-lhe, que me perguntasse o que era feito dos seus irmãos Mbia, Caniata e Scuêbu, e muitos outros que fôram e não voltáram. Diziam elles, que, ao partir, Livingstone prometteu, que os tornaria a trazer ali; e ainda hôje as mulheres e os filhos esperam por maridos e pêlos pais. Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do pôvo era grande, e não lhe convinha ir contra ella. Os três barcos estavam ás minhas ordens para descer o Zambeze, e nada mais podia fazer por mim. A 24 de Setembro, logo de manhã recebi a visita de Lobossi, que se vinha despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que deviam tripular as canôas até umas povoações do Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos barcos e novas tripulações. Deu-me uma pequena ponta de marfim, para eu offerecer ao chefe das povoações onde arranjaria os barcos, e trazia tambem um bôi para a matalotagem. Agradeci-lhe muito, e separámo-nos nos melhores termos de amizade. Segui a S.O., e depois de uma hora de caminho, encontrava o braço do rio a que chamam pequeno Liambai, e pouco depois, três pequenas canôas largavam a margem, levando a minha bagagem, a mim, a Verissimo, Camutombo e Pépéca. O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguíram por terra, acompanhados do caçador Jasse e do chefe Mutiquetéra, mandados por Lobossi, para seguirem comigo, e irem dando as suas ordens aos chefes, a fim de ter o caminho livre. Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que representavam duas dedicações inquebraveis, aquelles que desde a minha sahida não me haviam dado um ùnico dissabor, estavam ali comigo, sempre promptos a seguir quando eu marchava, a pararem quando acampava, a dispensarem-me mil caricias quando me viam triste, a divertirem-me quando alegre estava. Eram Córa e Calungo, a minha cabrinha e o meu papagaio. A viagem do rio ia separar-me tôdos os dias de Córa, que não podia ir sempre embarcada pêla exiguidade de espaço nas canôas, mas Calungo voando sem mêdo para o meu hombro, seguio embarcado. Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha, deixámos o pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um canalête, por onde o braço oeste do rio deita um pequeno veio de àgua, de lagôa em lagôa para o braço leste. No intervallo entre as lagôas, ás vêzes de mais de cem metros, o navegar é difficil, porque é difficil navegar onde não ha àgua. Foi preciso muitas vêzes descarregar os barcos e arrastal-os sôbre um fundo de lôdo. Nas lagôas o caniçal espêsso embaraçava tambem a navegação. Depois de um trabalho violento e aturado, parámos ás seis horas na margem de uma lagôa, em planicie recentemente queimada, onde não havia com que construir o mais pequeno abrigo. Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podémos assar carne, que eu comi com appetite voraz, por não ter ainda n'esse dia tomado alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sôbre a terra hùmida e deitei-me ao relento. Os remadores estivéram tôda a noute assando carne e comendo; fazendo assim desapparecer a maior parte do bôi dado por Lobossi, e mostrando que a capacidade estomàchica dos sùbditos do rei do Lui é verdadeiramente incommensuravel. Depois de uma pèssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e naveguei em uma lagôa por meia hora, entrando em seguida no braço principal do Liambai. Apparecia nas margens uma tal quantidade de caça, que fiz parar a flotilha, e entrar em serviço a Carabina d'El-Rei; que, na sua estrea, me forneceu logo vìveres que calculei chegariam para dois dias, apesar da voracidade dos Luinas. O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era pequena, e essa mesma não aproveitada pêlos remadores, que receando os hippopòtamos, que sem cessar vinham resfolgar no pego, iam sempre encostados ás margens, onde a àgua pouco funda não permitia o accesso aos enormes pachidermes. Tìnhamos de parar de instante a instante, para tirarmos àgua das canôas velhas e fendidas. Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os prêtos faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade da corrente, que achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era S.E., mas o rio dá ali voltas curtas em grande zig-zag; tendo eu em uma d'ellas navegado por 20 minutos a N.O. Acampei na margem esquêrda, pêlas cinco da tarde, nas mesmas condições da vèspera, sem abrigo e ao relento. Muitas vêzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos hippopòtamos de um lado, appareciam elles no outro, e corrémos perigo grave. Eu não lhes quiz atirar, para não gastar as munições. Só quem se vê no centro d'Àfrica com pouca pòlvora sabe o valor de um tiro. Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizéram ser insolentes comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo instrucções recebidas do proprio Lobossi, que prevenira o caso. O Verissimo, que desde Quillengues resistira á febre, cahio com um violento accesso, e eu mesmo não estava sem ella. No dia immediato naveguei apenas por espaço de uma hora, parando junto á povoação de Nalólo, governada por uma mulhér, irmã de Lobossi. Mandei pedir-lhe desculpa de a não ir visitar, allegando a minha doença e a febre do meu intèrprete Verissimo. Ella aceitou a desculpa, e enviou-me um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui caçar, para fazer nova provisão de vìveres, e consegui matar dois antìlopes (Pallahs). As pelles, como as da ante-vèspera, fôram sêcas com cuidado e guardadas. Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de feijão fradinho. Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu á noute ardia em febre tambem, tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno hùmido. Acordei completamente encharcado do orvalho, e muito doente. Segui viagem, e depois de seis horas uteis de navegação, com o rumo medio de S.S.E., acampei, sempre na margem esquêrda. Apesar de outra noute pèssima, a febre ia cedendo a fortes doses de quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para alcançar a povoação de Moangana, cujo chefe me devia fornecer um barco por ordem de Lobossi. O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso, que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria elle mesmo á povoação da Itufa, onde eu devia pernoitar, um barco e algum presente que me podesse arranjar. O vento era fortissimo de leste, e encrespava as àguas do rio, que não tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo para canôas tão pequenas como as nossas, mas, apesar d'isso, seguímos, e em hora e meia chegámos a Itufa, grande aldea, na margem esquêrda. Mais de uma vez estivémos em grande risco de soçobrar, e declaro que é triste perspectiva a de cahir a um rio coalhado de crocodilos. O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi constante que me minava, sentia-me com mais fôrças. Ja me esperavam na aldea, prevenidos pêlos meus muleques que jornadeáram por terra, e que, com o caçador Jasse, e com o chefe, haviam chegado n'essa manhã. O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma panella de leite coalhado e uma cêsta de farinha de milho; mas começou por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que elle não tinha barco. Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento fizéram desapparecer o resto do presente do chefe, declarando-me que tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com o chefe para me obter alguns vìveres mais; mas elle respondeu-me, que só a trôco de fazendas m'os dariam, e como eu não as tinha, nada se poderia fazer. Dei aos muleques as pelles dos antìlopes que tinha môrto, e a trôco d'ellas sempre arranjáram farinha, ginguba e tabaco. Á noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de aranhas enormes, muito chatas e nêgras, que desciam das parêdes em vagaroso caminhar; e fugi da casa, indo deitar-me no pàteo ao relento. Estava escrito, que durante a minha viagem no Zambeze, nem uma só noute um tecto abrigaria o meu sono. No dia 29, logo de manhã, chegou o velho Moangana com o promettido barco. Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me, que tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu estivesse satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos. Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra canôa; o chefe só fazia repetir-me, que a não tinha, e lastimar que houvessem enganado Lobossi e a mim. Os Luinas e Macalacas tẽm por hàbito esconder as canôas em lagôas interiores cobertas de caniçal, que communicam com o rio por pequenos canalêtes disfarçados pêla vegetação e só d'elles conhecidos. Quando não querem que as vejam, difficil é encontral-as. O caçador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das manhas dos Luinas, tanto buscáram entre os caniçaes das lagôas, que encontráram uma canôa; fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que ignorava que ella estivesse ali. As casas da Itufa sam, como tôdas as dos Luinas, de três formas differentes, e taes como ja descrevi falando das povoações de Canhete e da Tapa; mas aquellas que tẽm a forma tronco-cònica sam de muito grandes dimensões. A que me foi offerecida pêlo chefe, a casa das aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de diàmetro, e no exterior 10. Casa na Itufa.] N'estas dimensões, não podem como as outras ser construidas só de caniços, e umas fortes estacas verticaes sustentam o tecto, cuja armação é de longas varas de madeira. Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que é original d'ali. Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma semi-cilìndrica deitada no sentido do eixo, formando assim dois compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente construidas, ao passo que a casa tronco-cònica, verdadeiro typo da casa Luina, é edificada com cuidado, e muito resguardada. Pêla primeira vez, depois de ter deixado o Bihé, vi gatos em Àfrica, que os ha em abundancia na povoação da Itufa. Ha tambem ali muitos cães de bôa raça, que empregam com vantagem na caça dos antìlopes. Continuava a difficuldade de obter vìveres, mas a carabina suppria a falta de fazendas para permutações, e sempre ìamos obtendo alguma farinha de massambala a trôco de carne e pelles. As tripulações estavam promptas, e os dois barcos em acção de seguir, quando uma nova difficultade veio retardar a viagem. Os remadores declaráram, que não embarcavam, em quanto eu não deposesse nas sepulturas das mulheres dos antigos chefes da Itufa, alguns massos de missanga branca. Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a innùmeros perigos durante a viagem; porque as almas das mulheres dos chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem trègua. Eu, que não tinha missanga, nem branca nem prêta, chamei o chefe e mostrei-lhe a absoluta impossibilidade de socegar as almas das fidalgas da Itufa. Elle a muito custo pôde resolver as tripulações a seguir, mas foi só no primeiro de Outubro que largámos d'ali. O meu nôvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco de Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centìmetros de bôca, e 40 centìmetros de pontal. As duas àrvores empregadas no alto Zambeze para a fabricação das almadias, sam o Cuchibi e o M'ucussi , enormes leguminosas das florestas, da região das cataractas. A madeira d'estas àrvores gigantes, é de extrema dureza, e de maior densidade do que a àgua. A minha piroga era tripulada por quatro homens, um á proa e três a ré. Eu ia sentado na frente, a um têrço do comprimento do barco, sôbre a minha mala pequena, que continha os meus trabalhos. O duplicado do meu diario, observações iniciaes, etc., levava eu amarrados ao côrpo com uma cinta de lã. As minhas armas iam ao meu lado, e as pelles do meu leito completavam a carga. Na outra canôa, Verissimo, Camutombo e Pépéca, as malas da roupa e instrumentos, e a caça que ia matando. Os remadores remam sempre de pe, para equilibrarem as canôas, que se voltariam sem isso. O remar em taes barcos é verdadeiro exercicio acrobàtico. O meu Barco. Remos.] Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em que o remador tem de fazer tôdos os prodigios de equilibrio do patinador sôbre o gêlo, para sustentar a posição estavel. Foi em taes condições que eu, no dia 1 de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sôbre o rio gigante, cujas ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaçavam a cada momento submergir as estreitas almadias. Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquêrda, em uma pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de reunião aos barqueiros. As minhas novas tripulações eram mais comedidas do que os muleques do rei que me trouxéram a Itufa, mas começavam ja com pedidos e exigencias. Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a uma lagôa pròxima, fui ao barco buscar a espingarda de caça miüda, de que só tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros. O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de 30 milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de dois kilòmetros ao Zambeze. Á planicie monòtona e nua succede o paiz accidentado e coberto de luxuosa vegetação. Ás margens de arêa branca e finissima, uma arêa que, comprimida sôb os passos do homem, solta vagidos como os de uma criança, produzindo uma impressão inexplicavel, porque, estando muito sêca, imita um fraco grito humano. A essas margens de arêa tão extraordinaria, succede, em transição ràpida, o terreno vulcànico; e sam blocos de basalto que marginam o rio. Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixáram sôbre esses penêdos denegridos, vomitados em ondas de fôgo nas èpochas primitivas do mundo. Desde o Bihé, que não via uma pedra, e com satisfação olhava para aquellas que via ali. Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fôgo para cozinhar os patos, o lume communicou-se á herva alta e sêca que cobria o solo, e logo, assoprado por um vento forte, voou por sôbre a terra em ondas de chamas. O atear do incendio foi tão ràpido, que por um momento estivémos envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar nas canôas para lhe escapar. No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de navegação, comecei a encontrar grandes filões basàlticos, atravessando o rio no sentido E.O. Alguns vẽm tanto á flôr d'àgua, que tornam difficil a navegação, e ainda que a corrente é inapreciavel, foi preciso diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos, n'aquelles paredões naturaes. O rio começa, na região basàltica, a ser povoado de ilhas cobertas de vegetação pomposa. Pêla tarde, avistámos um bando de ongiris ( Strepsiceros kudu ) que pastavam na margem direita. Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos antìlopes. Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de uma hora. Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas ( Numida meleagris ), que nunca tantos vi em Àfrica. A terrivel môsca zê-zê tambem é abundantissima ali, incommodou-me muito na floresta com as suas picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas havia e tanto me perseguíram, que até depois de estar no barco ainda por muito tempo estive coberto d'ellas. Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois de seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E. O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por uma febre lenta e contìnua, que me minava a existencia. No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosissimas, cobertas de vegetação luxuriante. Navegámos, havia duas horas, quando vimos dois leões que na margem direita bebiam àgua do rio. Apesar de eu ter estabelecido como regra não me entremetter com feras, sem a isso ser forçado, e apesar ainda do valor que então tinham para mim os cartuxos, os instinctos do caçador vencêram a razão, e mandei abicar a canôa á margem, direita aos bichos. Os leões, percebendo-nos, deixáram o rio, e fôram postar-se em uma eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para elles. Deixáram-me approximar a uns cem metros, e depois poséram-se lentamente a caminho para montante do rio, parando de nôvo depois de curto espaço. D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas elles caminháram de nôvo e embrenháram-se em um pequeno massiço de arbustos. Eram dois leões machos de grandeza desigual, tendo um quasi o dôbro da corpolencia do outro. Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a cabêça de um dos magestosos animaes, por entre os arbustos, a vinte metros de mim. Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo tôdos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pêla febre, e receei que o pulso tremêsse ao dar ao gatilho. Tive uma sensação singular que até então não havia experimentado, e que provavelmente era a do susto. Por um esfôrço de vontade o tremor parou, a carabina tomou firme a direcção que eu lentamente lhe dava, e como ao atirar a um alvo, quasi fui sorprendido pêlo meu proprio tiro. Passou ràpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde segundos antes se mostrava a cabêça da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e com dois tiros promptos, dei volta ao massiço. Para o lado do Norte seguiam as pégadas de um leão, mas de um só. O outro estava ainda ali. Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo inerte do rei das florestas Africanas. A bala express esmigalhando-lhe o cràneo, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e n'um momento a pelle e garras fôram-lhe arrancadas. Na massa encephàlica foi encontrada a bala que produzio a morte.[5] Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distincto, um ruido longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias. Devia ser uma cataracta, e essa idéa, que logo me occorreu, foi confirmada pêlos remadores. Pouco depois, os filões basàlticos multiplicavam-se, formando paredões naturaes, sempre no sentido E.O.; mas, ao contrario do que tinha acontecido até ali, o rio ja levava uma corrente ràpida que tornava perigosissimo o navegar. Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de nôvo a parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na viagem depois de nova interrupção de uma hora. Acampamento na Sioma.] Pêla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma, estabelecendo o meu campo sôb uma gigante Figueira-Sycòmoro, perto do rio. A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E. N'essa noute o meu sono foi acalentado pêlo ruido da cataracta de Gonha, que, a jusante dos ràpidos da Situmba, interrompe a navegação do Zambeze. No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para as cataractas. O braço do Liambai cuja margem esquerda eu descia, correndo a principio a S.E., vai vergando para O., até que chega a correr perfeitamente E.O.; e n'essa posição recebe dois outros braços do rio, que formam três ilhas cobertas de vegetação esplèndida. No sitio onde o rio começa a curvar para O., ha um desnivelamento de três metros em 120, formando os ràpidos da Situmba. Depois da juncção dos três braços do Zambeze, toma elle uma largura de seiscentos metros apenas, e logo ali deita um pequeno braço a S.O., pouco fundo e obstruido. O resto das àguas encontram um corte transversal de basalto, com um desnivelamento ràpido de 13 metros, e n'elle se precipitam com fragôr immenso. O corte é N.N.O., e forma três grandes quedas, duas aos lados, e uma no meio. Por entre as rochas que separam as três grandes massas de àgua, cahem um sem-nùmero de cascatas de maravilhoso effeito. Ao Norte, um terceiro braço do rio continúa a correr no mesmo nivel superior da cataracta, e despenha-se no ramo principal em cinco cascatas lindissimas, a ùltima das quaes fica quatrocentos metros a jusante da grande queda. Ahi o rio encurva de nôvo a S.S.E., estreia a 45 metros, e conserva uma corrente de 150 metros por minuto. Os diversos pontos-de-vista que se gozam da borda sôbre tôdo o espaço das quedas, sam sorprendentes, e nunca vi em paiz algum dos que tenho visitado, paizagem mais bella. Gonha não tem a imponencia das grandes cataractas. Ali a paizagem é suave, variada e atrahente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e com a àgua, estam harmonizadas, como por mão de artista habil em tela primorosa. Cataracta de Gonha.] Mêsmo o despenhar da àgua no abismo, não causa ruido pavoroso, e é de certo amortecido pêla vegetação enorme que a rodea. [Mappa: Alto Zambeze -- Cataractas de Gonha] Ali não se elevam vapôres, que convertidos em chuva alaguem as visinhanças; ali o accesso é livre a tôda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar facil a visita á sua bella obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a admirem. Depois de levantar a planta da grandiosa cataracta, demorei-me ali até á noute, não cançando os olhos de ver tão esplèndido quadro, em que a cada momento descobria uma nova belleza. Voltei ao meu campo, saudoso pêla lembrança de que não veria mais em minha vida, o espectàculo sublime que deixava para sempre. No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para jusante da cataracta, e era elle por floresta espêssa, e não inferior em extensão a cinco kilòmetros, porque em tôda essa extensão o Zambeze, apertado em margens de rocha apenas distanciadas de 40 a 50 metros, conserva uma velocidade de 150 metros por minuto, e é tal o referver das àguas, que impossivel é navegar nelle. Este espaço estreito a jusante da cataracta de Gonha, chama-se o Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome. O ponto onde recomeça a ser navegavel chama-se o Mamungo. A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das povoações da Sioma, povoações de Calacas ou escravos, governados por un chefe Luina, mandados, estabelecer ali pêlo governo do Lui expressamente para o serviço de carregarem os barcos por terra; serviço a que sam obrigados sem terem direito a retribuição alguma. Foi fatigante aquelle trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado de não ter nada que desse áquelles desgraçados, que tão humildemente se prestam a trabalho tão rude. O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas continúa apertado em cinta de rocha, onde estam marcadas as cheias por traços horizontaes provenientes dos depòsitos das àguas lodosas. Por esses traços vi que as àguas se elevam ali a 10 metros, nas màximas cheias, acima do nivel de então, que deveria ser o mìnimo proximamente. Logo que sôbre as rochas basàlticas começa a haver terra vegetal, principia uma vegetação frondosa. O aspecto do Zambeze n'aquelle ponto assemêlha o do Douro no seu têrço medio, com a differença apenas, de que n'aquelle o granito é substituido por basalto. Depois de ter navegado por espaço de hora e meia, encontrei a foz do rio Lumbé, onde parei. Este rio vem do N., e tem, pròximo da embocadura, 20 metros de largo, por um e meio de fundo. Cem metros antes de entrar no Liambai, é-lhe superior de trinta metros, e por isso despenha-se em cascatas, que seriam talvez lindissimas se ali perto não ficasse Gonha. Segui, depois de ter visitado a foz do Lumbé, mas n'esse dia apenas naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris, acampei, e fui caçar. Consegui matar dois antìlopes, que nos demorámos a preparar; decidindo não navegar mais n'aquelle dia. No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a cataracta Cale. Passagem dos barcos em Gonha.] Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros. Três ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste, é o que contém maior volume d'àguas, mas é tambem aquelle em que o desnivelamento é mais ràpido. Nos outros braços o desnivelamento, que é de três metros, produz-se em cem de extensão, enquanto n'este não se estende a mais de quarenta. Tôdos os canaes sam obstruidos com rochêdos desencontrados, onde as àguas resaltam com fragor immenso. Descarregámos os barcos, que fôram arrastados por um canalête junto á margem direita, e logo a jusante da queda reembarcámos e seguímos viagem. Meia hora depois, passàvamos uns ràpidos, onde só pequenos canaes sam praticaveis, e por onde os remadores governáram as pirogas com prodigiosa destreza. Cataracta de Cale.] Pouco depois, outros ràpidos fôram passados com igual felicidade; sendo o resto da navegação d'esse dia por entre pontas de rochas açoutadas por violenta corrente d'àgua, sem que outros desnivelamentos ràpidos apparecêssem. Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e a falta de alimentação vegetal era sensivel. O dormir sempre ao relento, e o nenhum resguardo que era forçado a ter, tendo de sustentar a minha gente pela carabina, faziam peiorar o meu padecer constante. N'essa noute, rebentou sôbre nós uma violenta trovoada, e com ella cahíram as primeiras gôtas d'àgua d'aquella nova èpocha das chuvas. O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de côrpo, mas não mais fraco de espìrito. Segui viagem, e meia hora depois, encontrava os grandes ràpidos de Bombue. O rio forma um grande ràpido central, onde o desnivelamento é de 2 metros. Do lado de Este três canalêtes obstruidos por innùmeras rochas, e de Oeste um canal mais largo, onde o desnivelamento é mais ràpido. A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de vegetação divide o rio em dois braços iguaes. Bombue tem mais dois desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros a jusante do primeiro, e o terceiro duzentos metros a jusante d'este. Tôdos estes ràpidos sam cheios de pontas de rochas desencontradas, tornando impossivel a navegação. Os barcos descarregados fôram lascados junto a terra, operação fadigosa, que levou muito tempo. Rapidos de Bombue.] Pozémos os barcos a caminho, encontrando um ràpido que sem querer passámos embarcados com inaudita felicidade; e depois de 4 horas de viagem, parámos junto á confluencia do rio Jôco. Viajei n'esse dia por entre ilhas de uma belleza admiravel, que apresentavam os panoramas mais pintorescos á minha vista, fatigada da monotonia do planalto Africano. N'essa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobresalto por os nêgros, que tinham visto perto alguns elephantes. Apesar do meu mao estado de saude, tomei a carabina e segui-os. Na margem do Jôco avistei eu os enormes pachidermes, que se enlodavam n'um paúl. Tomei-lhe o vento e approximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animaes. A floresta espêssa que descia até junto ao paúl, permittio-me approximar-me sem ser visto. Por um momento contemplei aquelles gigantes da fauna Africana, e não posso occultar que tinha remorsos prematuros de lhes fazer mal. A necessidade venceu o escrúpulo, e atirei ao mais pròximo, dirigindo-lhe a bala ao frontal. O colosso oscillou um momento, sem mover as patas, e dobrando os joêlhos, foi cahindo de vagar sôbre elles--posição que conservou um momento, tombando depois para o lado, e fazendo tremer a terra com o baque enorme. Os outros seis atravessáram o rio Jôco em apressado trotar, e desapparecêram na floresta. Acerquei-me do inoffensivo quadrùpede, e ao contemplar a minha obra de destruição, não pude deixar de olhar para mim, depois de olhar para elle, e de me achar bem pequeno. O meu estado era tão melindroso, que ja não pude voltar por meu pé, e tive de ser amparado pêlos nêgros para chegar ao acampamento. No dia immediato estava peior, e sobreveio-me uma grande inflammação do fìgado. Deitei causticos, que pulverizei de quinino depois de cortados. A doença não me permittia partir n'aquelle dia, e resolvi ficar ali até experimentar melhoras. N'esse dia aconteceu ao meu Augusto a mais extraordinaria aventura de que tenho tido conhecimento. Atirou a um bùfalo que ferio, e que correu ràpido sobre elle. Augusto tirou o machado, e no momento em que a fera baixava a cabêça para lhe marrar, atirou-lhe um golpe á fronte, com a sua força hercùlea. Homem e bùfalo roláram por terra. A gente que estava perto do meu valente nêgro, julgára este morto, quando víra o feróz ruminante levantar-se e fugir. Augusto levantou-se, e àlém do abalo do choque, não tinha soffrido nada. Os nêgros acercáram-se d'elle, quando o meu muleque se abaixou, e depois de apanhar o machado, apanhou, tão admirado como os que o viam, um côrno do animal, cortado cerce pêlo golpe vigoroso. Nas matas da região das cataractas, ha o Cuchibi, o Mapole, o Opumbulume e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no planalto, e àlém d'esses, dois frutos privativos d'ali, a Mocha-mocha, e o Muchenche. Este ùltimo é muito sacharino, e d'elle fiz eu um refresco muito agradavel. Os causticos pulverizados de quinino, e três grammas d'elle que introduzi no organismo, em três injecções hypodèrmicas a curtos intervallos, acalmáram o meu estado febril, e no dia 10 levantei-me com sensiveis melhoras. A primeira noticia que me déram foi que o meu Augusto desapparecera desde a vèspera, e não tinha sido encontrado por alguns homens que o fôram procurar ao mato. Esta noticia deu-me grande cuidado, porque o Augusto é de um atrevimento louco, e fêz-me recear uma desgraça. Mandei gente em tôdas as direcções a buscal-o, e eu mesmo fui com alguns homens, apesar do meu estado, e do muito que me faziam soffrer os causticos. Fôram infructuosas as nossas pesquizas, e da excursão apenas trouxémos dois seb-seb ( Rubalis lunatus ) que eu matei, e muitas varas de madeira, que os Luinas colhêram proprias para astes de azagaias, e que sam do mesmo pao de que fazem os remos. Chamam-lhe Minana. De volta ao campo, secámos ao fôgo muita carne dos antìlopes. Esta região, a que chamam o paiz de Mutema, é abundantissima de caça da floresta, e desde o elephante até á codorniz, ha milhares de animaes de tôdas as familias, gèneros e especies do planalto Africano. No Zambeze, ao contrario, escaceia a caça d'àgua, abundantissima na região das planicies. Pêla tarde appareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha perdido na floresta, e que encontrara uma povoação de Calacas, onde lhe tinham furtado tudo o que elle trazia, excepto a espingarda. Os Luinas, ouvindo isto, declaráram que iam desforçar o Augusto, e por mais esforços que empreguei não consegui contel-os. Alta noute voltáram os marinheiros, carregados com os despojos do saque, e entre elles vinha o casaco do meu muleque. É costume d'elles, logo que encontram povoações de Calacas na região das cataractas, saqueal-as e destruil-as. N'essa noute o meu estado de saude aggravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei ordem de partir no dia immediato. Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Jôco, encontrei os grandes ràpidos de Lusso. Desembarquei e segui por terra, fazendo três kilòmetros em três horas. O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos, formando ilhas cobertas de vegetação esplèndida. Depois do bello panorama de Gonha, nada vi mais bello do que os ràpidos de Lusso. Embarquei de nôvo por baixo dos ràpidos, e tendo navegado por duas horas, parei a montante da cataracta de Nambue. As ilhas, com a sua vegetação pomposa, continuavam a apresentar os mais atrahentes aspectos. Decidi passar a cataracta n'esse dia, e houve grande trabalho, com a pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou quatro horas aquelle fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da queda. A cataracta de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro é de meio metro, o segundo, 150 metros a jusante, é de dois metros, e perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo, é de um metro, e o ùltimo, tambem de 1 metro, fica a 100 metros d'este. Occupam por isso as quedas uma extensão de 310 metros. O Zambeze corre ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a tomar o seu curso regular a S.S.E. Durante a noute estive á morte. A febre intensa devorava-me, e nunca pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre festivo para mim, por ser o anniversario de minha mulhér. As repetidas injecções hypodèrmicas de sulphato de quinino em alta dose, conseguíram dominar a febre. Eu chamei o Verissimo e Augusto, e entreguei-lhes os meus trabalhos, recommendando-lhes, que, se eu morrêsse, proseguissem na viagem até encontrar o missionario, e lh'os entregassem. Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se elles salvassem aquelles papéis, e os entregassem em mão segura, que os fizesse chegar a Portugal. Ás 6 horas da manhã do dia 12, senti um grande allivio e decidi seguir viagem. Parti ás 6 e meia, e ás 7 e 15 minutos, passei uns pequenos ràpidos, e logo abaixo outros, mais desnivelados, extensos e perigosos. Entestámos ao ùnico canal praticavel, e logo que o barco se achou envolvido na corrente, um hippopòtamo veio resfolgar a jusante. Estàvamos entre Scylla e Charybdis, ou a fera ou o abismo. Tornámos a entestar com a corrente e subindo o rio, por uma habil manobra, pozémo-nos a coberto do perigo junto a um rochêdo quasi em sêco. Nos ràpidos.] O barco da carga, receando o cavallo-marinho, desviou-se do canal, e foi impellido com velocidade enorme de encontro ás rochas de um canalête obstruido. Nunca pensámos que se salvasse, mas elle derivou por entre as fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe de àgua que quasi o encheu. Ás 7.50, outros ràpidos, e ás 8, uns muito desnivelados e extensos. Quizémos sahir em terra, porque sentiamos a jusante um ruido enorme, semelhante ao rebombar dos trovões pêlos alcantiz das serras, que nos fez recear grandes ràpidos, ou uma cataracta impossivel de transpor. Foi baldado esfôrço. A margem mais pròxima, a esquêrda, ficava-nos a 600 metros, e a corrente ràpida, quebrando-se entre os cabêços basàlticos, e resaltando em ondas de espuma, tornava impossivel o abeirar á margem. Sam momentos indescriptiveis estes. Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido, presentindo o perigo imminente a cada desnivelamento do rio que se lhe mostra, arrastado de voragem em voragem pêlos turbilhões da àgua revôlta, o homem experimenta a cada momento sensações novas, e cem vêzes soffre a agonia da morte, para sentir outras tantas o prazer da vida. Das 8 horas e 5 minutos ás 8 e 40, passámos seis ràpidos de pequeno desnivelamento; mas a essa hora, uma queda desnivelada de um metro se nos apresentou na frente. Semelhante ao homem que, em corrida, estaca por um movimento instinctivo, ao ver o abismo aberto sôb o seu caminho, o meu barco, como se fôsse animado, parou, por um impulso dos remos; machinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de hesitação produzio o desgovêrno, e a comprida piroga atravessou na corrente, e saltou ao abismo, na corôa de espuma de uma onda enorme. Foi um segundo, mas foi o peior momento da minha vida. Era a Providencia que nos salvava. Se o barco tivesse atestado de prôa com a voragem, seria submergido, e estariamos perdidos. O desgoverno d'elle foi-nos a salvação. Logo abaixo d'estes, outros ràpidos menores; e então fizémos fôrça de remos para uns rochêdos, que a meio rio estavam collocados em ponto onde a corrente era mais fraca. Abeirámos a elles, e estivémos a tirar àgua e a arrumar as cargas, desarranjadas pêlo abalo dos ràpidos. Segui ás 8 e 55 minutos, e logo, ás 9 e 15, encontrámos novas cachoeiras. Ás 9 e 25, os grandes ràpidos da Manhicanga. Ás 9 e 30, outros; e d'ahi aos grandes ràpidos da Lucanda, que passámos ás 11 e 8 minutos, saltámos em sete cachoeiras mais. Depois de passarmos um pequeno ràpido, encontrámos a cataracta de Catima-moriro ( apaga o fôgo ) ao meio-dia. É Catima-moriro o ùltimo desnivelamento da região superior das cataractas do alto Zambeze. D'ali até á nova região de ràpidos, que precede a grande cataracta de Mozi-oa-tunia, o rio é perfeitamente navegavel. O espìrito tambem se fatiga como o côrpo, e foi verdadeiramente fatigado de espìrito, que eu cheguei ao têrmo d'essa perigosa jornada do dia 12, jornada que não posso relembrar sem terror. As commoções d'aquelle dia tinham sárado o côrpo, e achava-me sem febre, mas muito fraco. Appareceu muita caça, mas a minha fraqueza e as dôres que me produziam os causticos ainda abertos, não me permittíram caçar. O curso do rio foi sempre a S.S.E. D'ahi em diante, o rio torna a ter o mesmo aspecto do Barôze, planicies enormes, fundo de areia, e nem mais um rochêdo. As margens sam formadas por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento leste era de nôvo fortissimo, e encrespava a superficie das àguas, levantando ondas bastante grandes. Apesar d'isso, segui a 13, e fui acampar junto da povoação de Catongo. De nôvo tinha peorado, e era prostrado pêla febre que me mettia no barco para seguir. Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do Jôco, e que chegou n'essa noute. Sube, que na vèspera tinham corrido um eminente perigo, sendo atacados por um bando de leões. Subindo para cima de àrvores podéram escapar-lhe, mas estivéram muito tempo cercados por elles. A minha cabrinha Córa foi içada por um pano que lhe atáram aos cornos, e estêve amarrada a um tronco junto de Augusto. O Augusto matou um dos leões, atirando-lhe de cima da àrvore, e trocou em Catongo a pelle d'elle por uma grande porção de tabaco. No dia 14, naveguei a leste, direcção que toma o Zambeze, e fui acampar, pêla tarde, ja perto da povoação do Quisseque. O rio continúa a dividir-se, formando grandes ilhas, mas não como as da região das cataractas. Sam canaviaes monòtonos, que cançam a vista. Tivémos n'esse dia pescadores, que nos fornêceram abundante peixe. Fôram os Uanhis, como lhes chamam os Luinas, e que não sam mais do que pygargos gigantêscos que povoam as margens do rio. Fôram perseguidos alguns, que abandonáram o peixe que levavam. Uma d'essas Àguias aquàticas, tinha nas garras poderosas um peixe mais corpulento do que uma pescada, e levou-o fugindo dos meus remadores, sem que mostrasse esfôrço ao voar. Todavía, a maior parte abandonavam a prêsa, para fugir mais ràpidamente. Estes pygargos do Zambeze, que não vi acima da região das cataractas, tẽm a cabêça, o peito e a cauda completamente brancos, e as azas e costas de um nêgro de èbano. Sam exactamente como a especie Americana descripta com o nome de pygargo de cabeça branca , mas menos corpulenta do que a ave que serve de emblema ao pavilhão dos Estados-Unidos. No dia 15 de Outubro, cheguei de manhã ao Quisseque, tendo navegado por uma hora a leste. Não quiz ir para a povoação, ja desconfiado do gentio, e fui acampar no meio do caniçal de uma ilha fronteira. Mandei prevenir o chefe de que estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de nôvo reapparecera intensa. Pouco depois da minha chegada, appareceu na ilha um homem trajando á Européa, que, pêla côr de café com leite da pelle, eu reconheci ser um filho das margens do Orange. Disse-me, por intermedio do Verissimo, usando da lìngua Sesuto, que era criado do missionario, e estava ali esperando a resposta do rei Lobossi a respeito de seu amo. Por elle sube, que o missionario era Francez, o que sôbre modo me fez admirar. Este homem, que se chamava Eliazar, vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi em nêgro. Dizendo-lhe eu, que vinha de propòsito procurar seu amo, elle manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionario era o melhor homem do mundo. Eu não sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que o meu homem era Francez, mas é facto que o tive. Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome é Carimuque, mas que tambem é conhecido pêlo de Moranziani, nome de guerra dos chefes do Quisseque. Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia immediato, porque estava muito doente, e precisava encontrar o missionario, para elle me dar remedios. Preveni-o de que não tinha vìveres, nem com que os comprar, e elle prometteu-me mandar n'esse dia mesmo comida para mim e para os meus. N'essa tarde os meus remadores começáram a gritar que não deixariam o Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os e fiz-lhe ver, que não tinha nada que lhes dar. Que o marfim só poderia ser convertido em fazendas logo que eu chegasse ao missionario que as deveria ter, e por isso para serem pagos era preciso seguir ávante. Elles parecêram convencer-se com o meu argumento. Passei uma noute horrivel no caniçal da ilha. Eram cobras que perseguiam ratos, e ratos a fugir de cobras, os companheiros que tive em tôrno de mim. A febre augmentou. Carimuque veio ver-me na manhã de 16, e trouxe-me um presente de massamballa e uma pequena porção de farinha de mandioca. Declarou-me elle, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionario para elle me mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados. Recusei terminantemente fazel-o, e declarei-lhe, que lhes não pagava se elles não seguissem no dia immediato. Depois de grandes debates, em que fiz prova de enorme paciencia, e em que Eliazar pleiteava por mim, repetindo cem vêzes, que seu amo, logo que me visse, pagaria tudo o que elles quizessem, ficou resolvido que no dia 17 nos porìamos de nôvo em viagem. N'esse dia chegáram ali os enviados que Carimuque mandara ao Lui com a mensagem do missionario. Como se sabe, e eu ja narrei no comêço d'este capìtulo, Matagja opposera-se formalmente ao ingresso do missionario no paiz do Lui. A resposta do rei Lobossi, dada por Gambela, vinha cheia de hypocrisia, e não era uma negativa formal. Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que elle fôsse para ali; mas que, n'aquelle momento, as guerras e a falta de commodidade que poderiam offerecer-lhe em Lialui, cidade novamente construida, fazia com que elles lhe pedissem, que se fôsse embora, e voltasse no anno seguinte. Para Carimuque vinha uma ordem positiva para não lhe dar meios de elle seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com a mensagem do rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me sempre de seu amo a quem tecia verdadeiros panegyricos. Nesse dia, ás 4 horas da tarde, desencadeou sôbre nós uma horrivel trovoada, que despejou copiosa chuva até ás 6 horas. Carimuque veio ver-me de nôvo, e trouxe-me duas gallinhas. Parti ás 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas horas e meia, encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E. O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas de certo influe n'esta altura a àgua do Zambeze que o represa. Corre em uma planicie enorme, onde pastam milhares de bùfalos, zêbras e grande variedade de antìlopes. Vi ali muitos coroanes, e presenciei um effeito de miragem sorprendente, apresentando-me tôda aquella manada heterogènea, de patas para o ar. Nunca vi tanta caça junta como ali, é ella muito esquiva, e não deixa approximar a menos de duzentos metros. Pude matar uma zêbra, que nos forneceu òptima carne, muito melhor do que a de qualquér antìlope. Depois de duas horas de demora ali, segui viagem, e naveguei por duas horas e meia mais, parando, ás 5 da tarde, por vermos na margem uma àrvore velha trazida pêla corrente, onde fomos fazer provisão de lenha para a noute. Foi um verdadeiro beneficio aquella àrvore, sem a qual não teriamos lenha para cozinhar em campinas despidas de arvorêdo. Quando ìamos a seguir, appareceu um prêto, gritando que os outros barcos tinham amarrado muito acima e acampado ali a gente. Tivémos que voltar a traz, por não termos provisões no meu barco, e ir a carne na barco da carga. Só ás 6 e 30 minutos, ja noute, juntei a minha gente, e acampei com elles. N'essa occasião ja iam tôdos embarcados, porque Carimuque tinha pôsto dois barcos grandes á minha disposição, e n'elles eu havia accommodado Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha. Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo. Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma porção de farinha de mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim tão doente e tão debilitado. N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho que a continha completamente vazio. Entrando em averiguações do caso, sube que fôra o meu muleque Catraio que a furtara e comêra. N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio das trevas. Foi o combate cruento entre um bùfalo e um leão, que terminou pêla morte d'aquelle em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava prolongados rugidos, acompanhados por um côro de hyenas. De manhã, a 100 metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do bùfalo, cuja cabêça estava intacta, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de carne deixados pêlas hyenas. Segui viagem, e depois de cinco horas de navegação, entre ilhas divididas por canalêtes, formando um systema complicado, aportei sôbre um ràpido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadea de cachoeiras que vai terminar pêla grande cataracta de Mozi-oa-tunia. Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras àrvores, sôbressahem já os baobabs, esses gigantes da flora Africana, que eu não via desde Quillengues. Desembarquei, e fui deitar-me á sombra de um d'esses colossos vegetaes. Tinha terminado a minha navegação no alto Zambeze, e d'ali até encontrar o missionario o meu caminhar era de nôvo a pé. A povoação de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e para lá partíram os marinheiros com as cargas. Eu adormeci, e só acordei por noute escura. Só o Verissimo, Camutombo e Pépéca estavam junto de mim. Perguntei-lhes ¿porque estàvamos ainda ali? respondendo-me o Verissimo, que não tinha querido interromper o meu sono. Apesar do escuro da noute, ia pôr-me a caminho, quando reparei que não tìnhamos uma só arma. O Verissimo, que de vez em quando fazia asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. Não fiquei socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras. Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas ás escuras elles nenhuma encontravam que servisse. Pépéca lembrou-se então de ter visto perto de nós um barco velho, que effectivamente encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao corte da minha faca de mato. Lembrei-me de o jogar como arìete contra o tronco do baobab, e logo nós três dando-lhe o movimento de vai-vem, o lançámos com a màxima fôrça. A canôa fez-se em rachas na parte que soffreu o choque. Esta operação, repetida algumas vêzes, forneceu lenha e com ella uma bôa fogueira. Estàvamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentímos gente, e logo appareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me. Parti com elles, e cheguei a Embarira pêla meia noute. O chefe da povoação tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e fadiga. Estava em Embarira, na margem esquêrda do rio Cuando, cujas nascentes havia descoberto e determinado três mezes antes. Estava pròximo a alcançar o missionario, de quem esperava auxilio para poder continuar a minha viagem, e estava em vèspera de novas aventuras, que não calculava ainda. O estado da minha saude muito melindroso, a dùvida no futuro, as apprehensões do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa onde me recolhi, fizéram-me passar uma noute atribulada. Depois, uma outra idéa, não me sahia da mente. Ao chegar ali, sube, que um branco (Macua), que não era nem missionario nem commerciante, estava acampado de fronte de mim, na outra margem do Cuando. ¿Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens? Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia seguinte. CAPÌTULO SUPPLEMENTAR. A pàginas 184, em capìtulo anàlogo a este, tratei por modo succinto, dos paizes comprehendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bihé. N'este capìtulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do Bihé ao curso superior do rio Zambeze, até onde termina a narrativa da minha viagem na pàgina antecedente. Apresentando um resumo das minhas determinações astronòmicas, dos meus estudos meteorològicos, etc., sem pedantismo o faço, e creio apenas, n'isso cumprir um dever, tornando pùblicos um certo nùmero de estudos e trabalhos de que fui encarregado, e que, se não interessam a alguns leitores, podem merecer attenção de outros. Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria affectação. Àlém da carta geral d'Àfrica tropical do sul, quiz eu apresentar algumas cartas parciaes dos paizes que mais merecéram a minha attenção no caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes que a pequena escala d'aquella não comportaria. Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de vista geogràphico, com tanto mais interesse, quanto elle é desconhecido aos geògraphos; que nas suas cartas o tẽm preenchido até hoje com linhas mal seguras, traçadas pela mão trèmula da dùvida, colhida nas informações pouco idòneas e contradictorias de gente ignara. Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana, antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui; mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas notas dam um valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo muito que a sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos nêgros, dam ellas um fraco auxilio ás sciencias geogràphicas, em que elle, por falta de elementos, não pôde fazer um trabalho sério. Sam paizes completamente novos á geographia aquelles que apresentei nos antecedentes capìtulos, e de que vou tratar n'este. As coordenadas geogràphicas dos principaes pontos do meu itinerario fôram calculadas dos elementos que adiante publíco. Começarei por descrever o systema fluvial d'esta parte da planura Africana. As ùltimas àguas que correm á costa de Oeste nascem em tôrno do Bihé, dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cúito, que, depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E. no Deserto do Calaari. O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene, termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste, que vam buscar as suas àguas ao meridiano 18 E. Greenw.; taes sam: o rio Onda, que ainda nasce dentro do àngulo formado pelo Cubango e Cúito, e o Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as suas nascentes com as do Cúito e as de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo Zambeze vai lançar no mar Indico àguas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas, para atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas àguas para pontos da terra tão distantes, é pròximamente de 12° e 30', isto é, está n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13, onde nascem os dois rios gigantes da Àfrica Austral, o Zaire e o Zambeze, e seus principaes affluentes. Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois systemas d'àguas perfeitamente definidos, mas que tẽm um traço commum de união no parallelo 12 e na faxa que borda esse parallelo 60 milhas ao Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas origens muitos dos grandes affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um d'elles um systema d'àguas que vai engrossar as duas artérias principaes. Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os parallelos 8 e 15 austraes, tôda a àgua que corre ao Norte vai entrar no Atlàntico por 6°, 8', com o nome de Zaire; tôda a que corre ao sul entra no Oceano Indico por 18°, 50', com o nome de Zambeze. Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das àguas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se entregavam ao estudo de um d'esses systemas d'àguas filial do Zaire, eu seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e á medida que avançava no interior do continente, esse systema ia-se apresentando firmemente definido e claro. Os paizes de que falei nos anteriores capìtulos, os mesmos de que estou tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma um dos principaes, se não o principal, affluentes do Zambeze. O rio Cuando, artèria principal d'este systema, nasce, por 18°, 57' de longitude, 12°, 59' latitude, n'um pequeno charco apaülado, superior ao nivel do mar em 1362 metros. A sua foz, na confluencia com o Zambeze, está collocada em 17°, 49' de latitude, 25°, 23' de longitude, na altura de 940 metros do nivel do mar. A extensão do seu curso é de 540 milhas geogràphicas, ou pròximamente mil kilòmetros. O seu desnivelamento da nascente á foz é de 422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso. Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam uma extensão de vias fluviaes não inferior a mil milhas geogràphicas, ou pròximamente mil e oitocentos kilòmetros, que com o curso d'aquelle rio perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de tres mil kilòmetros. Estes algarismos enormes representam a importancia d'aquella parte do planalto Africano. Forçando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude seguir a linha das nascentes do grande rio e seus principaes affluentes, que ficáram perfeitamente determinados nos seus cursos superiores. Aos traçados hypothèticos, a que a maior parte dos geògraphos preferiam deixar na carta d'aquella parte d'Africa um branco enorme, pude substituir um traçado firme e seguro do paiz ignoto. O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, sam todos rios navegaveis, banhando fèrteis paizes e promettendo um futuro áquella parte do continente nêgro, livre do zê-zê, a môsca terrivel, que corta cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos. Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal systema d'aguas das terras comprehendidas entre o Bihé e o Zambeze, vou succintamente falar da sua orographia. Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituição geològica do solo, que facilmente explica os pequenos accidentes d'elle. O solo Africano Austral é rocha das èpochas primitivas. Se junto ás costas, nos terrenos baixos observamos os depòsitos sedimentares, e o trabalho da àgua, elles acabam ali, para não deixar perceber mais do que a acção do fôgo. Os calcàreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o terreno plutònico, e encontramos até ao Bihé o granito primitivo, profusamente distribuido. Do Bihé para leste o granito vai desapparecendo, e àlém Cuanza é substituido pelos xistos argilosos, e micaxistos. É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da acção do metamorphismo. Effectivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo é metamòrphico. Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plàsticos, pela acção das grandes àguas, que do Bihé ao Zambeze, se algum viajante tencionar um dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe, que leve pedras do Bihé e d'onde termina a região granìtica, porque em todo o caminho que segui não encontra uma só. A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a falta de cataractas e ràpidos nos rios d'esta região Africana. Em tôdo o caminho que segui ha uma depressão constante no terreno até ao leito do Zambeze, formando uma inclinação suave. Esta depressão é de 292 metros, em 720 kilòmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza á planicie do Nhengo. A orographia d'aquella região é produzida pela acção da àgua, e perfeitamente marcada pelas depressões dos leitos dos rios. 30 a 40 metros acima do nivel das àguas correntes, se elevam systemas de montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem excepção o curso das àguas. A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura attinge a sua maior elevação, mais pobre em àrvores, mas riquissima em arbustos e plantas herbàceas; na parte leste do paiz do Bihé, e sobre tudo àlém-Cuanza, já recupera, com a menor elevação do solo, tôda a sua riqueza tropical. A caça, que escaceia desde o paiz do Huambo até pròximo da nascente do Cuando, reapparece abundante d'ali até ao Alto Zambeze. Seis raças perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo do nome genèrico de Ganguelas, assentam as suas povoações do Cuanza ao Nhengo. O paiz a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios, Cuime, Onda e Varea, e seus pequenos affluentes, é habitado pelos Quimbandes. Do Cuito á nascente do Cuando, assentam as suas povoações os Luchazes. Os affluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, sam povoados de gentes de raça Ambuela. Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes está sendo invadido por uma emigração enorme de Quiôcos ou Quibôcos, que tendem a estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e muito para o sul, o paiz, sem povoações fixas, é com tudo occupado por uma grande população nòmada, os Mucassequeres. A margem sul do rio Lungo-é-ungo e seus pequenos affluentes, sam habitados por os Lobares. Tres d'estas raças, os Quimbandes, Luchazes e Ambuelas, falam a mesma lìngua, o Ganguela, com pequenas modificações. Os Quiôcos e Lobares falam dialectos differentes, e os Mucassequeres uma lìngua original, tão diversa das outras, que é impossivel serem comprehendidos de povos estranhos. Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as condições de dar a riqueza aos seus possuidores. Formando federação, não deixam de andar em questões continuadas com os vizinhos da mesma raça. Não sam bravos, mas sam ladrões, e atacam sempre as comitivas do Bihé que vam negociar cêra mais ao interior, logo que essas comitivas sam fracas e elles conhecem que podem vencer. É certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem elles embuscados a contar as espingardas que traz, e o nùmero de caixas de pòlvora, que se distinguem pelo seu invòlucro de pelle de leopardo, costume adoptado pelos sertanejos Bihenos. Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou oito caixas de cartuxos, pode dormir descançado, que só terá d'elles amizade e respeito. Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, não possuem já rebanhos bovinos, e apenas ha aqui e àlém algum gado caprino de inferior especie. Já cuidam de colher cêra, e sam um pouco mais industriosos do que os seus vizinhos de oeste. Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo. Constituidos em federação como aquelles, cada povoação tem um chefe independente, um pequeno senhor, que não se dá ares de tyranno com o seu pôvo. Os Ambuelas, de muito melhor ìndole, não sam nada guerreiros. Sam talvez a melhor gente indìgena d'Àfrica Austral. Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da cêra. Sam pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados. Formam federação como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais de independencia. Em geral, vi n'Àfrica, que mais felizes e livres sam os povos governados por pequenos senhores. Não se praticam ali as scenas de horror tão vulgares nos grandes imperios regidos por autòcratas. Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o assassinio, ao passo que entre os grandes potentados o roubo vem depois do homicidio. Sem pertenções a propheta, quero crer, que, um dia, será entre aquelles povos que se estabelecerám os mais seguros elementos de civilisação Europea n'Àfrica. É minha opinião, que nos paizes occupados pelas confederações Africanas, regidos por pequenos règulos, de ìndole menos guerreira, por se reconhecerem mais fracos, é que deve entrar a civilisação com mão forte, debaixo da forma do commercio, do missionario e do explorador. Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos exploradores, do mais enèrgico trabalhador Africano, do mais dedicado apòstolo da civilisação do continente nêgro, do meu amigo H. M. Stanley. Diz elle, que devem os missionarios atacar a Àfrica pelos grandes potentados. Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrario. O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e não ha ali um só Christão! Se o chefe é catechizado, o seu pôvo obedece e finge seguir a lei de Christo. É como a estàtua de Nabuchodonosor, tem pes de barro aquella civilisação. Môrra o chefe, venha outro que não queira trocar o harém onde ceva a brutal lascivia, pelo thàlamo nupcial onde uma só espôsa lhe acompanhe os passos na carreira da vida, e cahio o monumento, a civilisação desfez-se, e não ha àmanhã um só christão na igreja que hoje regorgitava de pôvo. O commercio é bem recebido pelo grande potentado, porque representa interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto. No Matebelle, onde os missionarios Inglezes não tẽm podido fazer escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes tẽm introduzido com o vestuario e com outras necessidades que tẽm sabido crear, uma civilisação relativa. Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que já disse. Môrra o rei Khama, e vá ao poder um sova que não queira ser Christão, e tôdos os cathequizados se esvaïrám como fumo. Os negociantes continuarám o seu tràfico, mas o missionario terá de repetir com elle as orações do Domingo, ás pessôas de familia que o rodeam. Digo-o sem receio de errar. No Transvaal, entre pequenos règulos, vemos muitos indìgenas que seguem a lei do Evangelho. No Basuto ha Christãos convictos, independente da influencia d'alguns chefes que o não sam. Se os exemplos sam estes, aquelles que vêem no missionario o primeiro mensageiro da civilisação Africana, que ataquem os pontos fracos do reducto, e não vam perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos é mais activo. Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior consideração não só as missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos povos bàrbaros do continente nêgro. Tenho visto em quasi todos os que conhêço a tendencia para seguirem um caminho differente d'aquelle que aponto. Tôdos querem um grande nùmero de adeptos para a catechese, sem olharem ao terreno em que semeam. Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou ràpidamente dizer duas palavras mais sôbre o assumpto, que me proponho a ratar um dia largamente em obra adequada. Eu francamente não creio o cèrebro do prêto á altura de comprehender um certo nùmero de questões, comezinhas entre povos de raças evidentemente superiores. As questões abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a tão inferiores organizações. Explicar theologia a um prêto equivale a expor as sublimidades do càlculo differencial a uma assemblea de camponios. Mas, se o prêto não está á altura de poder jàmais comprehender as verdades da religião de Christo, têm sem dùvida o sentimento do bem e do mal, e está nas condições de comprehender os principios de moral commum. Marchem para entre os povos ignaros d'Àfrica Central os missionarios, sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a sua missão evangèlica, mas desvendem os olhos. Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e não queiram ensinar aos nêgros o que ha de sublime n'ella para cèrebros mais bem organizados. Ensinem moral e só moral, com o exemplo e com a palavra; criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de tudo; criem-lhes necessidades, que ellas farám nascer o trabalho, e só por elle se regenera um pôvo. Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da civilisação, homens que compenetrados dos seus devêres para com Deos e para com a sociedade, saibam firmar o edificio social em sòlidas bases; ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o prêto possa comprehender; esperando a occasião que o tempo, a civilisação, não deixará de trazer, se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos ànimos as verdades da theologia e da moral. Busque primeiro fazer do prêto um homem, que tempo terá de fazer do homem um Christão. Seguir o caminho contrario é edificar na areia. No correr d'esta obra terei ainda de falar nas missões Africanas, e falarei desassombradamente com a consciencia de que presto um verdadeiro serviço á causa das missões e á causa da humanidade, apontando erros de que ellas estam eivadas. O homem que mais poderia coadjuvar o missionario em Àfrica seria o negociante. Infelizmente o commercio sertanejo está em mãos de bem tristes apòstolos da civilisação. Já falei dos Portuguezes, e com bem pesar meu tenho de metter estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invasão do commercio pelos Àrabes de Zanzibar não dá em civilisação e cultura o que devia dar, porque a dissolução de costumes de taes gentes destroe tudo quanto o commercio adianta. Por outro lado, os traders (traficantes) Inglezes, creio que deixam muito a desejar em moralidade, segundo ouvi dizer a missionarios seus conterraneos. Esta questão, do commercio sertanejo como meio civilisador, é questão que me proponho a tratar um dia, e que não é cabida aqui, onde só por incidente falei de missões e commercio. Volvendo a entrar em assumpto, dizia eu, que os paizes comprehendidos entre o Cuanza e o Zambeze estam em condições de receberem com mais facilidade do que os outros povos que conhêço em Àfrica, o impulso civilisador que a Europa hoje se empenha em imprimir aos esquècidos povos do grande continente. Deixando estes paizes, dos quaes já falei detidamente nos anteriores capìtulos, vou entrar no Alto Zambeze. Até ali era eu o primeiro explorador a pisar aquellas paragens, o primeiro a descrevel-as, o primeiro a apresentar uma carta geogràphica que as representasse; ali havia sido já precedido por outro, e por outro que se tornou tão distincto na obra da civilisação Africana, que ganhou um tùmulo em Westminster Abbey, e repousa hoje junto dos reis, dos grandes homens de Inglaterra. Vinte annos antes de mim, David Livingstone percorreu aquelle paiz. N'esse tempo era elle governado por outra raça, e eu fui encontral-o em condições bem differentes. As condições de geographia physica eram as mesmas; mas os geògraphos que seguirem outros, terám sempre rectificações a fazer, terám sempre alguma cousa a acrescentar. Entre a carta de Livingstone e a minha ha differenças que já déram nas vistas a alguns geògraphos Europeos. Que o vulto respeitavel do cèlebre explorador me perdôe se eu o contradizer em alguns pontos da sua geographia do Alto Zambeze. Era a sua primeira viagem, e o Missionario ousado estava longe ainda de ser o explorador geògrapho do futuro. Elle mesmo não se vexa de confessar que, n'esse tempo, de balde tentou medir a largura do rio por um processo trigonomètrico comezinho. Da confluencia do Liba á do Cuando, o Zambeze apenas recebe na margem direita dois affluentes, o Lungo-é-ungo e o Nhengo. Quem viaja da Costa de Oeste vê logo, que entre o Nhengo e o Cuando nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko, etc., sam traços filhos de informações erròneas. Na longitude do Zambeze, no parallelo 15, encontrei tambem differença grande para oeste; notando-se que essa differença envolve um êrro manifesto; porque eu observava os reapparecimentos do primeiro satèlite de Jùpiter, e havendo erro da minha parte era esse erro prejudicial a mim, porque envolvia approximação da determinação de Livingstone. Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reapparecimento, era uma milha mais a favor d'elle. O que poderia produzir um erro que me afastasse da posição determinada, era eu ver o satèlite antes do reapparecimento, o que é materialmente impossivel. O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto é, do parallelo 15 á cataracta de Mozi-oa-tunia, é dividido em quatro trôços perfeitamente distinctos. Do parallelo 15 (e mesmo muito mais do Norte) até pròximo do parallelo 17, é perfeitamente navegavel em tôdas as èpochas do anno. Ahi começa a apparecer o terreno vulcànico, e com elle o basalto. É a primeira região dos ràpidos e cataractas, onde fôra um serio obstàculo, a grande cataracta de Gonha; tudo mais com pequeno trabalho se tornava facilmente navegavel, abrindo um canal junto de uma das margens. Mesmo em Gonha, era de pequena difficuldade profundar um canalête que existe na margem esquêrda junto do caminho que segui por terra, e que vem designado na carta, por onde se escôam àguas na èpocha das cheias. Da ùltima cataracta, Catima-Moriro, até á confluencia do Cuando, torna o rio a ter uma navigabilidade facil. D'ahi para jusante novos ràpidos vam terminar na enorme cataracta de Mozi-oa-tunia, e essa região não poderá nunca ser aproveitada como via importante, porque uma sèrie de abismos lhe corta um futuro melhoramento qualquér quanto a navegação. No valle do Alto Zambeze ha terrenos productivos e ferteis. Vastas pastagens alimentam milhares de rêzes nos valles, acima e abaixo da região das cataractas. Na região montanhosa ha a môsca Zê-zê, e torna-se difficil passar os gados de Lialui ao Quisseque. Contudo, a môsca está concentrada nas florestas da região das cataractas, e para leste do Barôze não existe, porque os povos Chuculumbes sam grandes pastôres. O valle do Alto Zambeze, cheio de belleza, fertil e rico, exhala do seu seio envôlto nos aromas das suas flôres o miasma pestilente. Os Macololos fôram dizimados pelas febres, e quando as azagaias do rei Chipopa libertáram o paiz dos ùltimos conquistadores, já o clima tinha feito a sua obra de destruição. Os Bihenos, que resistem ás febres de quasi tôdos os paizes Africanos que visitam, sam fulminados pelos miasmas do Zambeze. No paiz entre o Bihé e o Zambeze, onde as caravanas se demoram muito tempo a permutar cêra, é rarissimo haver um caso de febre no gentio Biheno; àlém da planicie do Nhengo, multiplicam-se as sepulturas d'elles. Verissimo, indìgena e possuindo uma organização refractaria ao miasma, Verissimo, que nunca em sua vida estivera doente, não pôde escapar ao clima do Barôze, e vímos no capìtulo antecedente ser elle prostrado pêla febre. Eu mesmo, que resisto bastante ás endemias Africanas, sentia respirar a morte com o ar que respirava ali. Esta verdade, se tivera sido apregoada ha mais tempo, teria poupado a vida á familia Elmore, que só d'abeirar-se ao paiz succumbio; porque o clima na região do Quisseque, e da confluencia do Cuando até Linianti, não tem melhores condições de salubridade do que o Barôze. Cumpro um dever falando bem alto a linguagem da verdade a respeito de um paiz que está merecendo a attenção da Europa. Ahi fica ella, e salva está a minha responsabilidade de informador consciencioso, para todas as desgraças, que aquella voragem ainda ha de causar aos que não crerem. ¿Será por isso o Lui um paiz de que se dêva fugir e ao qual ninguem se deverá abeirar? Não é, e eu vou procurar demonstrar, que elle deve merecer uma séria attenção, não só á Europa em geral, como muito particularmente a Portugal. A Àfrica Austral, entre os parallelos 12 e 18, tem uma largura media de dois mil e seiscentos kilòmetros, e a partilha das àguas para as duas costas faz-se a um quinto d'esta extensão, junto á Costa de Oeste; porque se faz pròximo do meridiano 18 E. Greenw., isto é, a 600 kilòmetros apenas, da Costa Oeste. D'ahi já se lançam dois rios, cujas àguas se juntam ao Zambeze, o Lungo-é-ungo e o Cuando. Antes de vermos a importancia d'estes dois cursos d'àgua, estudemos o proprio rio gigante, aquelle que bebe as àguas de tôdo o planalto Africano ao sul do parallelo 12 até ao parallelo 20, e a leste do meridiano 18. O Zambeze divide-se naturalmente em tres grandes trôços perfeitamente distinctos: O alto curso, o curso medio, e o curso inferior. O Alto Zambeze comprehende o rio desde as suas nascentes, ainda ignotas, até á sua grande Cataracta Mozi-oa-tunia. O curso medio estende-se desde Mozi-oa-tunia aos ràpidos de Cabrabassa; e o Baixo Zambeze d'ahi ao Mar Indico. Vejamos agora quaes sam as condições de navigabilidade de cada uma d'estas partes do rio, e qual a sua importancia relativa, e a dos seus affluentes. Já n'este mêsmo capìtulo descrevi as condições do Alto Zambeze e por isso começarei por tratar do seu curso medio. Conta elle de Mozi-oa-tunia a Cabrabassa uma extensão de 460 milhas geogràphicas, ou de 828 kilòmetros, e divide-se em duas regiões perfeitamente distinctas, a superior e a inferior, cada uma das quaes é extensa de 230 milhas, ou 414 kilòmetros. A região superior, que principia na grande cataracta e termina nos ràpidos de Cariba, não tem importancia como via navegavel, nem pelos affluentes que recebe, todos pequenos e inaproveitaveis á navegação. Tem esta região alguns trôços navegaveis, mas em pequenas extensões, e logo interrompidos com ràpidos. A segunda parte do curso medio, de Cariba a Cabrabassa, está em condições bem differentes, tanto por offerecer uma facil navigabilidade como por os importantes affluentes que recebe do Norte. De um d'estes affluentes me occuparei em breve. O Baixo Zambeze, de Cabrabassa ao mar, conta uma extensão de 310 milhas geogràphicas, ou 560 kilòmetros, onde apenas poucas milhas sam occupadas pelas cachoeiras de Cabrabassa; sendo o resto do curso navegavel, ainda que em más condições, por falta de àgua na estação estia. Esta parte do rio, mesmo nas más condições em que está da confluencia do Chire a Tete, é ainda uma grande via por onde se faz todo o commercio do interior com Quelimane. Recebe elle um affluente importante, o Chire, magnìfico rio, que da sua foz a Chibisa, não tem cataractas, sendo perfeitamente navegavel. O Chire que vem do Norte, no seu têrço medio corre a S.E. quasi parallelamente ao Zambeze; e por isso de Chibisa a Tete apenas medea uma distancia de 65 milhas geogràphicas, ou 117 kilòmetros, em terreno pouco accidentado, e que hoje, sem caminhos, se vence facilmente a pé em cinco dias. Esta circunstancia é muito para merecer a attenção; porque, sendo o rio Zambeze pobre em profundidade da foz do Chire a Tete, não o é do Mazaro ao mar; e assim, navegando-se por elle e pelo Chire até Chibisa, chegamos a 5 dias de jornada a pé, de Tete, com toda a rapidez que nos podem proporcionar aquellas magnìficas vias. Os 117 kilòmetros que separam Chibisa de Tete, podem ser vencidos em um dia com uma simples estrada de rodagem, e em tres horas com uma ferrovial. Estam pouco ou nada estudados os ràpidos de Cabrabassa, e não faço idéa até que ponto elles constituem um sério obstàculo á navegação, e se com pequeno ou grande trabalho se poderia remover esse obstàculo. Sei porem, que a região que elles occupam é pouco extensa, o que já constitue uma vantagem indiscutivel. Voltemos ao curso medio do Zambeze. Recebe elle pelo norte dois importantes rios, o Aruangua do norte, e o Cafucué. O primeiro, em cuja foz assentou outrora a importante e commercial villa do Zumbo, cujas ruinas attestão até que ponto a ouzadia Portugueza, ia fundar os seus mercados, introduzindo a civilisação e o commercio nas mais remotas terras Africanas, é um rio volumoso em àguas, mas, (dizem os sertanejos Portuguezes) muito cortado de cataractas. Seria contudo importantissimo o seu estudo, ainda que não lhe vejo a mesma importancia que tem o outro rio, o Cafucué, de que vou falar. Os pombeiros Bihenos passam ao norte do Lui, atravessam o paiz dos Machachas, e encontram um rio enorme a que elles chamam o Loengue. Esse rio é percorrido por elles nas suas viagens de tràfico, que o sobem até ás origens, e descem até á foz, onde toma o nome de Cafucué. Alguns dos que estavam comigo fizéram muitas vezes essa viagem, e raro é o Biheno que não tenha estado em Caiuco. Miguel, o meu caçador de elefantes, de quem mais de uma vez falei no correr da minha narrativa, passou dois annos n'aquelle paiz caçando elefantes, e muitas vezes percorreu o rio embarcado de Caiuco a Semalembue; isto é uma distancia que eu calculo grosseiramente em 220 milhas geogràphicas, ou 400 kilòmetros. De Lialui a Caiuco deve a distancia ser de 220 kilòmetros, porque é facilmente vencida pelos Luinas em dez dias, havendo exemplos de ter muitas vezes sido ganha em 8 e 7. Em virtude d'estes dados, lancemos um ràpido golpe de vista ao estudo que temos feito do Zambeze, e reconheceremos que, n'uma extensão de 900 milhas geogràphicas, ou 1620 kilòmetros, seguindo pelo Zambeze, Chiri-Tete, Cafucué ou Loengoe, a Caiuco e Lialui, temos apenas 18 dias de caminho por terra, 5 de Chibisa a Tete, 3 de Cabrabassa, e 10 de Caiuco a Lialui; representando uma extensão de 400 kilòmetros, e por isso sendo aproveitados 1220 kilòmetros de vias fluviaes perfeitamente navegaveis. Voltemos agora ao Alto Zambeze, e vejamos quaes as suas circunstancias com relação aos seus affluentes. De um sabemos nos já que é navegavel, o Cuando, mas sabemos tambem, que elle desàgua entre duas regiões de cataractas; o que o isola das partes importantes do curso do Zambeze. Mas da região que está entre a sua foz e o Lui, já disse que não vejo impossibilidade de ser facilmente tornada em via aproveitavel; e logo que assim seja, e mesmo agora, poderìamos descer do Lui, e subir pelo Cuando até perto do meridiano 18. Contudo, outro rio poderia fornecer-nos o meio de attingir aquelle ponto mais directa e facilmente, se fôsse navegavel. Era elle o Lungo-é-ungo. O Lungo-é-ungo é a grande estrada dos Bihenos para o Alto Zambeze, e por isso muito conhecido d'elles. Affirmam-me, que não tem cataractas, e não deve tel-as, correndo em terreno igual ao do Cuando e do Ninda. O seu desnivelamento é de 400 metros em 540 kilòmetros de curso. Dizem os Bihenos, e affirmáram-me os naturaes, sempre que andei pròximo d'esse rio, que elle não tem cataractas, como já disse, mas que por vezes a sua corrente é muito violenta, sendo preciso puxar as canôas á cirga. Sendo isto verdade, como supponho, chegarìamos do Mar Indico, quasi á Costa de Oeste d'Àfrica, apenas com 18 dias de caminho por terra, a pé! Isto é, em uma extensão superior a dois mil kilòmetros, apenas terìamos de caminhar em terra 400! A exploração do Loengue ou Cafucué e a do rio Lungo-é-ungo sam hoje das mais importantes a emprehender na Àfrica Austral, e sam relativamente faceis e pouco custosas. Não pude deixar de chamar a attenção para este ponto, que resolve o problema da facil communicação entre as duas costas. Já vam longas estas divagações, em um capìtulo onde eu apenas tencionava apresentar os meus trabalhos geogràphicos e meteorològicos. Nas seguintes pàginas vai publicado d'esses trabalhos, o que eu julguei mais interessante para alguns leitores. Ás observações iniciaes de astronomia que me déram a determinação dos pontos do meu caminho, seguem-se aquellas que me premitíram fazer o relêvo do continente. Vẽm depois as notas meteorològicas, com interrupções inevitaveis quando se é só a fazer um trabalho tal. Constam ellas de dois boletins, que registam as observações feitas 0 h. 43 m. de Greenwich, e ás 6 horas da manhã do logar em que me achava, hora a que dava corda aos chronòmetros. O estudo d'esses boletins mostra sempre a grande uniformidade das oscillações baromètricas, e as enormes desigualdades de temperatura e de humidade do ar nos paizes a que se referem. Vê-se tambem, que os ventos reinantes sam do quadrante Este em todo o paiz do Bihé ao Zambeze. Como já tive occasião de dizer, e bem se comprehende ao ler a minha narrativa, não pude fazer collecções naturalistas, e apenas, aproveitando muito pouco papél de que podia dispor, levei das nascentes do rio Ninda algumas plantas, que estam em poder do Snr. Conde de Ficalho, para serem estudadas, e onde parece já terem apparecido algumas especies novas. É opinião do Snr. Conde de Ficalho, que o cereal muito cultivado entre os Quimbandes e Luchazes, a que eu chamo Massango , e erradamente chamei Alpiste, é uma especie de Penicillaria , a que chamavam outrora os botànicos Penicetum typhoideum . Aquelle que eu designo com o nome de Massamballa é o Sorghum . *Quadro das Observações Astronòmicas pelo Major Serpa Pinto do rio Cuanza ao Zambeze*. A FAMILIA COILLARD. COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA. Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD. CAPÌTULO I. EM LEXUMA. Foi tormentosa a noute que passei em Embarira. Assaltado por milhares de persovejos, e por nuvens de mosquitos, tive de abandonar a casa que me offerecêra o chefe, e ir procurar ao ar livre um refugio a tão cruél tormento. Ao incòmmodo produzido pêlo ataque dos insectos vinha juntar-se a anciedade da idéa de encontrar no dia seguinte um Europeu, um homem desconhecido, mas com o qual eu contava ja para sahir dos embaraços em que estava. Amanheceu finalmente o dia 19 de Outubro depois de uma longa noute não-dormida. As primeiras noticias que pude colher fôram de que o missionario estava a 12 ou 14 milhas d'ali, mas que do outro lado do rio Cuando vivia um Inglez. Pedir uma canôa ao chefe para passar o rio foi o meu primeiro impulso, mas obtive a mais formal negativa, a pretexto de que não havia canôa. Depois de grande controversia, elle declara-me que me não deixa sahir da sua povoação sem eu ter pago aos marinheiros uma certa porção de fazendas. Chamei o Jasse e mostrei-lhe a impossibilidade de fazer pagamentos sem ter communicado com o Inglez, e ter d'elle obtido fazendas para os fazer, porque eu nenhumas tinha. Jasse reune os marinheiros e o chefe e fala-lhes n'esse sentido, mas nada obtem, e a recusa de me deixarem ir á outra margem do Cuando é formal. Vendo que nada fazia, pedi-lhes que fizessem chegar um recado meu ao Inglez, e escrevi algumas palavras n'um bilhête de visita. Foi o Verissimo o mensageiro. A má noute velada, e a febre constante prostráram-me. Deitei-me ao ar livre, esperando a resposta á minha mensagem. Seria passada uma hora, quando appareceu diante de mim um homem branco. A sensação que experimentei ao ver um Europêu é indefinivel. O homem que eu tinha diante de mim poderia ter de 28 a 30 annos, e possuia um typo perfeitamente Inglez. Barba pouca e muito loura, olhos azues, grandes e vivos, cabello cortado rente e tão louro como a barba. Vestia uma camisa de grossa tela, cujo collarinho desabotoado deixava ver um peito amplo e forte, como as mangas arregaçadas expunham á vista uns braços musculosos, queimados pêlo sol Africano. As calças de estôfo ordinario estavam seguras por um forte cinto de couro, d'onde pendia uma faca Americana. Nos pes sôbre umas meias azues de algodão grôsso, uns sapatos que pêlas costuras, tôdas feitas por fora, logo se via serem obra d'elle mêsmo. Disse-lhe quem era; expuz-lhe as minhas circunstancias, e pedi-lhe para me ceder a fazenda de que eu precisava, a trôco de marfim que eu lhe podia dar. Mostrei-lhe a necessidade que tinha de me libertar d'aquelle encargo para escapar áquella gente e ir encontrar o missionario. Respondeu-me elle, que não tinha fazendas, que estava tambem sem recursos, e que só mandando eu a Lexuma as poderia obter. O seu modo de falar e a delicadeza das suas phrases mostravam-me logo, que aquelle homem não era um ente vulgar. Elle dirigio-se ao chefe, e convenceu-o a deixar-me ir á outra margem do rio, com a condição de que voltaria á noute para Embarira. Partimos, e depois de atravessar um grande rio, aquelle Cuando cujas nascentes eu havia descoberto, e determinado mezes antes, chegámos a um pequeno campo onde nos appareceu outro branco. Era homem de elevada estatura, de longa barba e cabêllos brancos, que mostravam não uma idade provecta, desmentida pêla agilidade do côrpo e expressão da physionomia, mas sim a velhice prematura, producto de longos soffrimentos e trabalhos. Vestia como o primeiro, e só estava um pouco melhor calçado. Conversámos sobre a minha posição, e vimos que elles nada podiam fazer por mim, porque estavam tambem sem recursos. Fui bastante absoluto empregando a palavra nada , porque se não tinham outra cousa a dar-me, tinham um soffrivel jantar, e eu tinha fome. Depois de saciar o meu voraz appetite, combinei com elles escrever ao missionario, a pedir-lhe fazendas para o pagamento aos remadôres. Expedi um portadôr para Lexuma e voltei a Embarira, onde me deitei ao ar livre, com a lembrança da noute terrivel da vèspera. Dormi a noute de um somno ùnico e profundo. Ao amanhecer do dia 20, estavam junto de mim, vindas de Lexuma, as fazendas precisas para os pagamentos das tripulações. Paguei tudo, e obtive do chefe carregadôres sufficientes para levarem as minhas cargas e o marfim a Lexuma; escrevendo por elles ao missionario, a quem pedi hospedagem, e a quem pedia para pagar ali aos carregadôres. Ao meio-dia, uma ligeira piroga, impellida pêlo remar de dous prêtos, corria por sobre as aguas do Cuando, levando a seu bordo três homens brancos. A piroga velha e rachada fazia muita àgua, e por isso o homem que ia na frente descalçara os sapatos que levava na mão, em quanto o da ré, acocorado, esgotava incessantemente a muita àgua que colhia o fragil batél. O do meio, magnificamente calçado á prova d'àgua, contemplava distraido o deslisar dos enormes crocodilos que fluctuavam á mercê da corrente, e pouco caso fazia da humidade da canôa. Estes três brancos, reunidos ali, no centro d'Àfrica, pêlos azares das explorações, eram eu, o D_or. Benjamin Frederick Bradshaw, explorador zoològico, e Alexandre Walsh, zoologista tambem, preparador de exemplares e companheiro do doutôr. Chegados á margem direita, foi logo posta á minha disposição uma das três cubatas que elles tinham. O D_or. Bradshaw, òptimo cozinheiro, como é habil mèdico, sabio distincto, e caçador famôso, foi logo preparar um almôço de perdizes que elle tinha môrto n'essa manhã. O cozinheiro do doutor, um activo Macalaca, deitado de peito no chão, contemplava a seu amo a trabalhar na cozinha, e contentava-se em o ver trabalhar. O appetite, guardado desde a vèspera, fazia dilatar as fossas nasaes ao sentirem o cheiro delicioso que sahia em condensado vapôr das caçarolas do D_or. Bradshaw. Três europêos atravessáram o rio.] Os condimentos de que eu estava privado havia tantos mêzes, exhalavam aromas deliciosos ao olfato de um faminto. A cozinha estava feita, ìamos para a mêsa, onde havia uma grande panella de milho cozido em grão, e um alentado prato de caril de perdizes. Tìnhamos dado a primeira garfada nos pratos, quando na barraca entrou um prêto com um objecto envolvido em alva toalha de linho. O Campo do Doutor Bradshaw.] Vinha da parte do missionario Francez. Desdobrei a toalha, que continha um côrpo bastante pesado, e fiquei commovido diante de um enorme pão de trigo, que tinha nas mãos. ¡Pão! Pão, que eu ja não via ha um anno; pão, que era para mim sempre a cada comida em que o não tinha, uma recordação saudosa; que era um sonho constante das noutes de fome; do qual cheguei muitas vêzes a ter um desejo immoderado, e pêlo qual comprehendi que se possa commetter um crime para o haver, quando privado d'elle por muito tempo. As làgrimas viéram humedecer as minhas pàlpebras resequidas, e creio que foi aquella uma das mais violentas commoções que senti na minha viagem. Esquèci um pouco as perdizes do doutor, para comer, com voracidade, d'aquelle pão, que saboreava com delicias nunca experimentadas em gastronomia. Foi Benjamin Bradshaw quem suspendeu o meu furor voraz, que me poderia ser fatal, e que me fez tomar uma òptima chàvena de cacao, em seguida á qual um sono profundo dormido n'uma barraca, lìvre do sereno da noute, veio restaurar as fôrças. Tôda a minha gente e as cargas haviam partido para Lexuma, ficando comigo apenas Augusto e Catraio e a mala dos instrumentos. Amanheceu alegre o dia seguinte, que deveria ser um dos mais atribulados da minha vida. Depois de um òptimo almôço de perdizes e chocolate, e quando nos deliciàvamos a fumar o aromàtico tabaco do Chuculumbe, chegáram os carregadôres que na vèspera tinham partido para Lexuma, fazendo grande grita e dizendo, que não tinham sido pagos ali. Admirou-me o facto, sôbre tudo por o Verissimo me não ter escrito, e por ter ido com as cargas o marfim que seria garantia a tôdo o pagamento que ali se fizesse. Nós não tìnhamos fazendas, e não sabìamos que fazer diante das exigencias dos selvagens, que teimavam em que tinham sido roubados, porque tinham levado as cargas d'ali a Lexuma, e não tinham recebido o menor pagamento. Pouco depois, chegáram o chefe de Embarira Mocumba e Jasse, que começáram uma questão fortissima comigo e com os Inglezes, ameaçàndo-nos e dizendo-nos as maiores insolencias. Eu estava envergonhado e aflicto por ver os Inglezes, que tanto me tinham obsequiado, mettidos em uma questão que me era particular, e sêrem insultados por minha causa; mas impossivel me tinha sido prever um tal acontecimento. Depois de mil exigencias a que era impossivel satisfazer, elles com Jasse á frente declaráram que iam a Lexuma rehaver as bagagens e o marfim, e que tomariam conta de tudo até sêrem pagos; partindo em seguida, mas deixando ali o chefe Mucumba com um grande trôço de gente a vigiar-nos. Por consêlho do D_or. Bradshaw, nós entrámos em uma das barracas e pozémos as armas á mão, promptos a uma enèrgica defêsa, em caso de um ataque provavel. Ao cahir da tarde Mucumba começou a fazer uma grita enorme, e chamando a sua gente invadio as duas barracas, levando de uma d'ellas a minha mala dos instrumentos, que fez logo transportar ao barco e passar á outra margem. Voltáram a cercar a terceira barraca, em que nós estàvamos, exigindo que eu fôsse com elles para Embarira. Receioso de que os meus hospedeiros se expozessem por minha causa a um perigo eminente, queria-me entregar ao gentio, e libertal-os de um conflicto inevitavel; quando o D_or. Bradshaw me pedio que o não fizesse, e declarou-me que me não deixaria partir, e que deveriamos resistir-lhes a tôdo o trance. Na barraca estàvamos quatro homens, três brancos e o meu Augusto, dispostos a vender caras as vidas, e era tal a nossa attitude que os gentios recuáram ante a idéa de um ataque que seria fatal a muitos. Depois de um consêlho prolongado entre as cabêças, decidíram elles abandonar o campo e passar á outra margem. Dàva-me cuidado não ver o meu muleque Catraio, que comecei a supor teria sido feito prisioneiro, quando elle me appareceu na barraca, com o seu riso intelligente e velhaco, trazendo na mão os meus chronòmetros, que tinha ido á outra margem buscar á minha malla, em quanto os Macalacas nos cercavam e ameaçavam. Mais uma vez Catraio impedia que os chronòmetros parassem por falta de corda. Estàvamos sós, mas muito apprehensivos, porque o doutor, que conhecia bem os indìgenas d'ali, dizia, que elles não passariam sem voltar á carga. Pêlas 9 horas da noute, chega ao campo o missionario Francez, François Coillard, e sabendo tudo o que se tinha passado, afirmou-nos que os carregadores haviam sido pagos generosamente em Lexuma, e que elle se encarregava de fazer ouvir razão ao chefe Mucumba. No dia immediato, logo de manhã, o chefe Mucumba, Jasse e innùmeras gentes, passáram o rio e viéram ao nosso campo. Mr. Coillard, que fala a lingua do paiz como fala Francez ou Inglez, fez um discurso ao chefe de Embarira, mostrando-lhe a pouca-vergonha dos carregadores, que tendo sido generosamente pagos em Lexuma, viéram dizer, que nada haviam recebido, e que tinham sido roubados. Mucumba entregou logo tudo o que tinha roubado na vèspera, e deu muitas satisfações, fazendo recair a culpa sôbre os seus homens que o tinham enganado. Quando parecia que tudo corria bem e se havia harmonizado, appareceu Jasse levantando uma nova questão. Queria elle, que eu pagasse aos seus muleques particulares que tinham vindo em seu serviço, e com quem eu nada tinha. Eu argumentei-lhe com o caso da tripulação de um pequeno barco que do Quisseque viéra em serviço dos outros remadores, e a quem eu nada tinha dado. Depois de um curto debate, habilmente dirigido por Mr. Coillard, elle recebeu duas jardas de fazenda para cada homem, e ficou terminada a questão. Fomos almoçar satisfeitos, julgando que estariam terminados os incidentes desagradaveis d'aquelle dia, mas não estava escrito no livro do destino que assim fôsse. Monsieur e Madame Coillard.] Jasse voltou de nôvo á carga com nova exigencia. Queria elle, que eu lhe pagasse e ao chefe Mutiquetera, a quem eu ja havia pago com largueza. Começou nova questão, em que de nôvo me prestou grande auxilio Mr. Coillard; sendo preciso para a terminar, o prometter um cobertôr a cada um d'êlles. Mandou logo Mr. Coillard a Lexuma um portador buscar os dois cobertôres, e a fazenda que êlle havia tirado da sua pacotilha, para pagar á gente de Jasse. Assim terminou finalmente aquella sèrie não interrompida de questões, para o quê concorreu poderosamente a intervenção que n'ellas tomou Mr. Coillard. Disse-me elle, que ia partir para o Quisseque, a receber a resposta do rei Lobossi a seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta; e por isso me pedia, que fôsse esperar o seu regresso para Lexuma, onde me esperava sua espôsa Madame Christine Coillard; e só então poderìamos discutir maduramente o que convinha fazer de futuro. Resolvi seguir para Lexuma no dia immediato; porque queria determinar a posição d'aquelle ponto, e fazer um certo nùmero de observações. Durante a noute tive um violento accesso de febre, e de manhã sentia-me muito mal. O D_or. Bradshaw não me quiz deixar partir sem tomar algum alimento, e por isso só as 10 horas pude deixar a margem do Cuando. O doutor e seu companheiro deviam abandonar aquelle ponto no mesmo dia, e irem para Lexuma, porque as scenas dos dias antecedentes aconselhavam-n-os de evitar o contacto com aquelle gentio malèvolo. Eu parti por um calor de 40 graos centìgrados, n'um terreno arenoso, onde o caminhar era difficil. A febre tirava-me as fôrças, e mais me arrastava do que caminhava. O terreno era coberto de arvorêdo, e elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno còrrego, onde pude saciar uma sêde ardente. Só duas horas depois cheguei a Lexuma. Eram 6 da tarde. N'um estreito valle de oitenta metros de largo, enquadrado em montes pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma herva grosseira e rachìtica. Uma bella vegetação arbòrea guarnece as montanhas que enquadram o pequeno valle, que se estende na direcção N.S. Na encosta de E. algumas barracas agglomeradas formam o estabelecimento de um sertanejo Inglez, Mr. Phillips. Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas sam a feitoria de George Westbeech. Ao N. das aldeas de Mr. Westbeech, uma forte palissada cerca um terreno circular de 30 metros de diàmetro, onde havia uma casinha de côlmo, dois wagons , ou carrêtas de viagem, e uma barraca de campanha. Era o acampamento da familia Coillard, era Lexuma emfim. Entrei ali no recinto velado pêla alta estacaria de madeira, com o côrpo extenuado pêlo cansaço e o espìrito abalado pêla commoção violenta que sentia. Diante de mim, á porta da casinha de côlmo, estavam sentadas duas damas, bordando a côres em grossa talagarça. Ao ver aquellas damas ali, no centro d'Àfrica, a minha commoção foi indescriptivel. Acampamento da familia Coillard em Lexuma.] A recepção que me fez Madame Coillard foi aquella que faria a um filho, se esse filho fôra eu. Com uma delicadeza extrema, pôz-me logo perfeitamente á vontade, e disse-me, que ainda não tinham jantado, porque esperavam por mim para pôr-se á mêsa. Convidou-me a entrar na barraca de campanha, onde uma mêsa coberta de fina e alva toalha sustentava um serviço modesto, contendo um jantar succulento. Defronte de mim sentava-se Madame Coillard; ao meu lado Mademoiselle Elise Coillard, sobrinha d'ella, de olhos baixos e physionomia rubra de pudôr, por ver um estrangeiro desconhecido entrar tão de golpe na sua vida ìntima e velada, espalhava em tôrno de si esse perfume de candura que cerca e envolve a mulhér formosa aos desoito annos. Interior do campo de Monsieur Coillard em Lexuma.] Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e pêlo fim do jantar eu comecei a provar uma sensação estranha. Aquellas damas, o jantar, o serviço, o chá, o assucar, o pão, tudo enfim se me baralhava na mente com traços mal definidos. Cheguei a não poder formular uma só idéa, e a recear, que a cabêça enfraquecida não podesse supportar as impressões d'aquelle momento. Não tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei apenas que me achei só na barraca. Então um abalo violento sacudio tôdo o meu côrpo; um soluço tolheu-me o ar na garganta, e as làgrimas saltáram ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam de febre. Chorei e chorei muito, não me envergonho de o dizer, e creio que aquellas làgrimas fôram a minha salvação. Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido. Que se riam aquelles que acharem ridìculas as làgrimas n'um homem; pouco me importa o seu motejar estòlido. Infeliz de quem não encontra nos sentimentos do coração o pranto que vem marejar nos olhos, e o soluço que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratidão sentida, do que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos. Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei se podér ainda chorar em iguaes trances. Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitação não o sei eu; mas, muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma cama com cuidados extremos. A apparição das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbação ao meu espìrito. Eu não sabia que dizer-lhes, e creio que só lhes dizia disparates. Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali prêsa das chamas as bagagens do missionario. Deitei-me e creio que dormi. Ao alvorecer da manhã seguinte, as scenas da vèspera desenhavam-se confusamente na minha imaginação enfraquecida. Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle sertão longìnquo. Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu espìrito volveu de nôvo a um deploravel estado de perturbação. Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder filho do hàbito, dei corda e comparei os chronòmetros, fiz as observações meteorològicas, e registei tudo no meu diario. Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco, entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da mêsa para o almôço. Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos. Não posso ainda hôje explicar porque produziam em mim, espìrito forte, uma tal impressão aquellas damas; mas é certo que a sua apparição produzia-me logo uma especie de delirio. Passáram dois dias que eu não sei como fôram passados; no fim d'elles succumbí. A febre apossou-se de mim com violencia assustadôra, e com ella veio o delirio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam á minha cabeceira. A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que a vida estava apenas prêsa por um fio a um côrpo despedaçado pêlas fadigas e fomes da jornada, e pensei que não me levantaria mais. N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papéis, pedindo-lhe que os fizesse chegar com segurança ás mãos do Governo de Portugal. O D_or. Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias antecedentes, e empregara tôda a sua sciencia mèdica para me salvar. Contudo a febre não cedia, e o estòmago não supportava medicamento algum. Decidi eu mesmo tentar um ùltimo esfôrço, e comecei a dar repetidas injecções hypodèrmicas com fortes doses de quinino. A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino pêla absorpção hypodèrmica. O D_or. Bradshaw aconselhou-me e fêz-me tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, começáram a manifestar-se as primeiras melhoras. Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali. As melhoras continuáram ràpidas no dia seguinte, em que ja me pude levantar um pouco. Pareceu-me perceber que não sobejavam muito os vìveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noute. Na madrugada seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui chamar os meus prêtos. Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me na floresta, sem que alguem desse fé da minha escàpula. Pêla tarde voltei com os meus homens curvados ao pêso da caça que tinha môrto. Madame Coillard estava afflicta, pensando que eu havia abandonado o campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha em familia. Como em todas as minhas doenças graves, não tive convalescença, e a minha forte organização fêz-me passar do estado valetudinario ao perfeito estado de saude, em transição ràpida. Com a robustez do côrpo veio o socêgo do espìrito, e só então pude encarar reflectidamente a posição em que o destino me collocara. Pêla conversação repetida com Madame Coillard, pude perceber que não sobejavam recursos ao missionario. O meu marfim, bem pago, mas pago em fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Phillips déram subido e exageradissimo valor, pouco produzio. Madame Coillard só via um meio de sahirmos do apuro em que estàvamos, e êsse era, o de nos não separarmos, por não ser possivel dividirem comigo os poucos recursos que tinham. Contudo, esperàvamos a volta do missionario, do Quisseque, para tomar uma resolução definitiva. A idéa de ficar com elles aterrava-me. Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada momento a minha imaginação ardente de Portuguez. ¿Ser-me-hia possivel, n'um viver tão ìntimo, n'um isolamento tão grande, impedir que uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado n'um lampejo de delirio, fôssem offender a casta menina, descuidosa na sua innocencia càndida? Tremia por mim e por ella. Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até á volta do missionario, e calcular bem até que ponto eu seria capaz de ser honrado. Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu espìrito. ¿Poderia eu namorar-me d'aquella meiga criança? De certo não; e a lembrança sempre viva de uma espôsa idolatrada, era segura garantia aos meus sentimentos. Mas, se o coração estava defendido, não o estava a imaginação fèrvida, e podia, n'um momento de desvario, com uma phrase imprudente, cometter uma infamia--porque infamia seria fazer subir o pejo ao rôsto d'aquella em cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho. Àlém d'isso, o meu devêr era ainda maior. Era preciso evitar a tôdo o custo, que a fama das proêsas que os meus de mim apregoavam; que a posição, um pouco romàntica, em que eu me achava entre aquella familia; não fôssem impressionar a novél imaginação dos desoito annos de uma mulhér. ¿Poderia eu sustentar durante mezes o papél de uma reserva absoluta, na grande intimidade da vida que ia levar? Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde êsse dia tracei a minha conduta futura, de que não arredei um só passo. Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma mulhér, que soube ler no meu ìntimo com essa fina perspicacia que só ellas possuem para ler nos arcanos da alma os mais recònditos sentimentos; e não hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame Coillard, porque, na vèspera da nossa separação, ella escreveu no meu diario um versìculo do Psalmo 37, que me revelou o seu pensamento. Estava resolvido a ficar com elles, quando más novas chegáram do Quisseque. Mr. Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua espôsa, o boato do incendio a que ja me referi. Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fôra prêsa das chamas, e isso vinha ainda complicar a situação, diminuindo o seu haver. Àlém d'esta, outra noticia veio consternar mais a bondosa espôsa do missionario. Dizia elle que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e de quem ja falei, fôra atacado de um accesso de febre de mao caracter, e estava em perigo. Madame Coillard muito affeiçoada áquelle Catechista, que fôra outrora seu servidor, ficou desde êsse momento em cuidados extremos. Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio augmentar a tristeza que reinava no acampamento de Leshuma . Eliazar estava peior e receiava-se que não podesse salvar-se. No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noute, por ter a fazer observações astronòmicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa cujo assumpto era o missionario e a doença de Eliazar. Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, pozémos-nos a caminho de Embarira. A um kilòmetro do acampamento, eu que caminhava adiante d'ellas, preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgáram ser engano, porque ainda um kilòmetro àlém ninguem encontrámos. Contudo, eu sabia não me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e só perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha chegado até mim. Sem isso não teria animado aquellas damas a esperar n'uma floresta povoada de feras, e onde me sentia pouco á vontade pêla responsabilidade que tomava. Pelas onze e meia, o rumor que por vêzes percebi tornou-se distincto para os meus ouvidos, e não duvidei affirmar que gente calçada caminhava no trilho que seguìamos. Pouco depois alguns vultos aparecêram na sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou três prêtos, estava diante de nós. Madame Coillard procurava em vão alguem junto de seu marido. Esse alguem faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma lição estava dada aos imprudentes que se arriscam n'aquelle paiz da morte. Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma. No dia immediato tive uma larga conversa com Mr. Coillard. O que eu previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos, não me podia dar o sufficiente para eu fazer a viagem até ao Zumbo. Discutímos largamente todos os alvitres, e a ùnica possibilidade de èxito era não nos separarmos e seguirmos juntos até ao Bamanguato, onde eu poderia obter meios de seguir avante. Elle tinha pressa de partir, porque àlém de não sêrem fartos os meios para uma espera qualquér, Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiéis servidôres tinham sido abertas ali. Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou combinado que elle me esperaria até ao regresso, o que importava uma demora de 12 a 15 dias. Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame Coillard, com maternal sollicitude, começou logo a tratar dos meus aprestes de viagem. No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre nós, e sobreveio-me um accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre. Este estado de tempo e de doença continuou no dia 11, impedindo-me de realisar o projecto de seguir n'esse dia para as cataractas. No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissimo tinha peiorado, sendo necessario renunciar á partida ainda n'esse dia. Então o missionario propoz-me seguirmos todos a 13 para o kraal de Guejuma, e d'ali seguir eu ao destino projectado. Effectivamente, ás 10_h. e 20_m. da noute de 13, deixámos o campo de Leshuma . Era difficil o jornadear por entre a floresta com os pesados wagons . A cada passo um tronco de àrvore ou um penêdo travava as rodas, e era preciso cortar o tronco ou remover a pedra. O meu Augusto, usando da sua força athlètica, fazia verdadeiros prodìgios. Só ás 6 horas da tarde do dia 15 podémos alcançar o kraal de Guejuma, tendo jornadeado noute e dia apenas com pequenos descanços, para os bois pastarem e nós repousarmos. Não ha àgua entre estes dous pontos, e ainda que tìnhamos uma escaça provisão para nós, os pobres bôis passáram três dias sem beber. Por isso, logo que chegámos a Guejuma, êlles faziam esforços inauditos para se libertarem dos jugos e correrem ás lagôas de pèssima agua, que abastecem aquelle kraal, estabelecido pêlos sertanejos Inglezes para repousar e têrem os gados, que não podem guardar em Leshuma por haver ali a terrivel môsca zê-zê. O nosso caminho fôi por uma planicie arenosa e hùmida, onde os wagons se enterravam dando grande canceira aos bôis. Apesar do mao estado da minha saúde, determinei seguir no dia immediato para as cataractas, e Madame Coillard não deixou um momento de se occupar das minhas provisões de viagem. Não me foi possivel encontrar um guia, mas apesar d'isso, não vacillei um instante em partir. CAPÌTULO II. MOZIOATUNIA. Logo na manhã do dia 16 fiz os meus preparativos de viagem, e bem pouco trabalho tive, porque Madame Coillard ja tinha preparado a parte mais importante d'elles, a dispensa; tendo eu mesmo de entrevir, para mostrar a impossibilidade de levar tudo o que ella queria que eu levasse, pois que não tinha como carregadores mais do que dois homens, Augusto e Camutombo. Comigo deveria partir toda a minha gente que eu não quiz deixar em Guejuma, receioso de que algum fizesse disparte na minha ausencia. Ficáram apenas as minhas bagagens, a minha cabrinha Córa e o meu papagaio Calungo. Para a Àfrica não serve muito o rifão Europêu que diz, "quem tem bôca vai a Roma;" mas sim outro se pode inventar para ali, e é elle, que "quem tem bùssola vai a toda a parte." Monsieur e Madame Coillard estavam verdadeiramente afflictos por me verem partir sem guia e a pe. Mal sabiam elles quanto me era socia a floresta Africana e como eu sabia andar n'ella. Outro motivo de afflicção para elles era, a dùvida em que estavam de que me não viesse a faltar àgua no caminho, por eu não ter meio de conduzir nenhuma, e ser o paiz em extremo sêco. Tranquillisei-os como pude, assegurando-lhes, que não contava morrer de sêde. Como eu devêsse demorar-me de 12 a 15 dias n'aquella excursão, ficou combinado, que elles partiriam para o kraal de Deica, onde eu deveria ir encontral-os. Finalmente, depois de mil demonstrações da mais afectuosa amizade, parti ás 10 horas, sendo acompanhado durante um kilòmetro por Mr. e Madame Coillard, que então se despedíram de mim, e voltáram ao kraal. Segui sempre ao Norte na planicie, e uma hora depois encontrei uma emmaranhada floresta, em que me embrenhei, para não alterar o meu rumo. Depois de caminhar por quarenta minutos na mata, deparei com uma pequena lagôa de àgua cristalina, e parei junto d'ella para deixar passar as horas de maior calor. A esse tempo uma trovoada longinqua fuzilava ao norte, deixando mal ouvir o rebombar dos trovões. Deixei aquelle ponto ás 2 horas, a tempo que se formavam em tôdas as direcções trovoadas ameaçadoras. Ás 4 horas, encontrei um trilho de caça muito seguido de frêsco, e indo por elle á descoberta, fui dar a um grande charco lodôso, habitual bebedouro de feras. Acampei ali, e tratámos de construir abrigos contra a chuva que ameaçava cahir em abundancia. Os pedòmetros annunciavam a marcha de nove milhas geogràphicas. Na manhã seguinte, parti ás 6 horas, e sustentei marcha de 4 horas, interrompida apenas por uma pequena demora, proveniente de um forte chuveiro que cahio pelas sete horas e meia. Parei para comer junto de uma lagôa que dá nascensa a um riacho correndo a E.S.E. Ao meio-dia, segui a N.N.E., mas tive que sustar a marcha ás 3 horas, porque os meus ja não podiam dar um passo, tendo os pés despedaçados, pêla pedra miúda e sôlta que encontràvamos desde a 1 hora, no terreno ja bastante accidentado. Eu mêsmo, doente e fraco, ja não podia soportar as grandes marchas que antes fazia. Durante a ùltima parte da marcha atravessei três pequenos riachos, que correm a S.E. em leitos basàlticos. As montanhas pedregosas, mas cobertas de vegetação arbòrea, correm tambem a S.E., e não apresentam elevações, acima dos valles, maiores do que 50 metros. Acampei junto a um pequeno depòsito de àguas pluviaes. Na manhã seguinte continuei a jornada, sempre em terreno pedregôso e accidentado. Atravessei florestas muito espêssas, mas onde se não encontram os gigantes vegetaes peculiares á flora intertropical. Ainda n'essa manhã passei dois còrregos correndo a S.E. Desde a vèspera caminhava eu em terreno de formação vulcànica. Passou por ali uma revolução enorme, que deixou profundamente assignalada a sua passagem com traços indeleveis, em gigantêscas obras de basalto. No leito dos ribeiros e na escarpa das montanhas, o sol dardejando os seus raios sôbre a pedra côr de fôgo, faz parecer, que ainda ali correm ondas de lava. Eu achava-me em bôa saúde, mas os meus difficilmente podiam caminhar descalços, por sôbre a pedra cortante. Fiz apenas marcha de quatro horas, e fui acampar junto de um ribeiro; tratando logo de construir abrigos para nos acolhermos de uma tempestade imminente. O sitio do meu acampamento era lindissimo. Um ribeiro d'àgua cristalina correndo ao N., ficàva-me por oeste. Um còmoro coberto de frondoso arvorêdo embelezava a leste a paizagem. No limitado valle, àrvores enormes de muito differentes proporções das que até ali encontrara, cobriam o meu campo formado de quatro pequenas barracas. Do norte, muito ao longe, o vento trazia um ruido semelhante ao ribombo de mil longinquos trovões. Era Mozioatunia no seu bramir eterno. Sahi a caçar e encontrei profusão de francolins, de que fiz bôa provisão. Matei tambem uma lebre, muito differente das da Europa nas côres do pello, menor em tamanho, mas igual em fórmas. Tornàva-se muito distincta, por ter o dôrso e as orêlhas quasi prêtas, e o ventre e cabêça de um amarello d'óchre muito carregado, e pintado de manchas nêgras. De volta da caça, observei no meu campo um caso muito singular. Vi milhares de termites trabalhando ao ar livre, e sem o menor cuidado de cobrirem o seu caminho, ja nas àrvores ja na terra. Passei uma òptima noute, depois de um bom jantar de perdizes. No dia immediato, logo á sahida, passei um pequeno ribeiro que corre a N.O., e depois de se juntar áquelle em cuja margem acampei, corre como elle ao N. Segui sempre o curso d'esse ribeiro n'um valle pedregoso e àrido, e depois de três horas de marcha parei, para descançar e comer o resto das perdizes mortas na vèspera. Segui ao meio-dia, mas, uma hora depois, tive de parar. Muitas trovoadas, que desde manhã fusilavam perto do horizonte em todas as direcções, subíram aos ares e viéram estacionar sôbre mim. Uma chuva torrencial cahia, ou antes batia, sobre nós, tocada por um vento rijo de N.N.E. Os nimbus espêssos e nêgros, pairavam perto da terra e despediam das suas entranhas carregadas de electricidade, torrentes d'àgua e torrentes de fôgo. [Mappa de Mozioatunia] Como eu disse, o sitio em que caminhava era um valle profundo despovoado de àrvores. Montìculos de rocha terminados por vèrtices ponteagudos, atrahiam o raio que os abrasava com o seu fôgo potente. Uma faísca veio esmigalhar um penêdo a pouca distancia de mim. Era um espectàculo tremendo e horroroso. Vi ali pêla primeira vez o raio dividir-se. Uma faízca separou-se pròxima da terra em cinco, que partíram quasi horizontalmente a ferir cinco pontos differentes; algumas vi separarem-se em quatro, em duas, e três, quasi tôdas. Ziguezagues de fôgo cruzavam os ares em todas as direcções, e abrasavam a atmosphera. É preciso ter-se assistido a uma trovoada nos sertões da Àfrica Austral, para bem se fazer idéa do que seja uma tempestade medonha. A minha gente prostrada por terra, horrorizada e escorrendo em àgua, estava tranzida de frio e mêdo. Eu gracejava com elles e procurava animal-os, mostrando uma tranquillidade que estava mui longe de ser verdadeira. Uma hora depois a tormenta, como que fatigada do seu pelejar insano, foi diminuindo de intensidade, e eu pude pôr-me a caminho ás 2 horas e meia. Ás três horas tive de parar, obrigado por uma forte chuva que não se demorou muito em passar. Pelas 5 horas passava em frente da grande cataracta e acampava a montante d'ella, aproveitando umas barracas que ali encontrei e reconstruí. Durante a noute uma nova tormenta cahio sôbre o meu campo, e muitas àrvores fôram derrubadas pêlo raio. A chuva torrencial inundou as barracas, apagou os fogos e molhou tudo e a todos. Durou esta tempestade até ás 4 horas da manhã, hora a que cessou quasi de repente. Foi aquella uma noute cruél. Ali ja ao estampido dos trovões se juntava o bramir da cataracta, e era qual produziria sons mais roucos e medonhos. O dia amanheceu chuvoso, e até ás 9 horas foi impossivel sahir das barracas. A essa hora rasgou-se o ceo nublado, e o sol veio illuminar a esplèndida paizagem. Contudo era difficil caminhar n'um terreno encharcadissimo e lodôso. Uma forte apprehensão me perturbava o espìrito. A chuva da noute estragava o pão e mais provisões dadas por Madame Coillard. Os mantimentos chegariam ainda para dois dias, mas não podiam ir mais àlém. Eu tinha contado com dois recursos, a caça e os Macalacas da outra margem, que me venderiam massango. Era porem impossivel caçar por tal tempo, e os Macalacas que passáram o rio pediam taes exorbitancias por pequenos pratos de massango, que me não era dado adquiril-os. Ao meio-dia cheguei á extremidade oeste da grande cataracta. O Zambeze duas milhas a montante da queda corre a E.N.E., e vai encurvando a E., direcção que leva no momento de encontrar o abismo em que se precipita. ¿ Mozi-oa-tunia , ou Mezi-oa-tuna ? Não sei, e ninguem o sabe. No paiz uns dizem um nome, outros o outro. Antes que os Macololos tivessem invadido o paiz ao norte do Zambeze, os Macalacas chamavam Chongue á grande cataracta. Viéram os Macololos e pozéram-lhe um nome da lìngua Sesuto que elles falavam. Os Macololos desapparecêram e o nome ficou, como ficou aos povos conquistados a lìngua dos invasores. Um pouco corrompido, é verdade, mas sempre subsistindo, o Sesuto é a lìngua official do Alto Zambeze. Mezi-oa-tuna quer dizer em Sesuto "a àgua enorme," e ainda que a phrase parêça um pouco disparatada, esta composição é vulgar entre as linguas bàrbaras da Àfrica Austral, para exprimir uma idéa, que a pobrêza das lìnguas só poderia exprimir por uma longa phrase. Assim pois, pode bem ser que seja Mezi-oa-tuna , o nome posto pelos Macololos á grande cataracta. Mozioatunia. A queda de oeste.] Eu contudo inclino-me á opinião de Madame Coillard, que conhece a fundo a lìngua Sesuto, de que seja Mozi-oa-tunia , o nome dado outróra pelos guerreiros de Chebitano á maravilha do Zambeze. Effectivamente, Mezi-oa-tuna era uma phrase nova, uma composição de palavras feita expressamente, ao passo que Mozi-oa-tunia é uma phrase ja feita, quotidiana, vulgar na lìngua dos Basutos. Quando o marido volta a casa e pergunta á mulhér se a comida está ao fôgo, ella responde-lhe "mozi-oa-tunia," "o fumo se levanta." Assim pois é mais de supor que fôsse este ùltimo o nome dado pelos estrangeiros á cataracta, por ser phrase vulgar entre elles, e ser bem apropriada á idéa. Mozi-oa-tunia não é mais do que uma longa cova, um sulco gigantêsco, aquillo para que se inventou a palavra abismo, mas abismo profundo e immenso, onde Zambeze se precipita n'uma extensão de mil e oitocentos metros. O corte das rochas basàlticas que formam o paredão norte do abismo, é perfeitamente traçado na direcção E.O., e tem uma extensão de mil e oitocentos metros. Parallelo a elle, outro enorme paredão basàltico distanciado na parte superior, ao mesmo nivel, de cem metros, forma o outro muro do abismo. Os pes d'estas moles enormes de basalto nêgro, formam um canal por onde o rio corre depois de se despenhar, canal que é de certo muito mais estreito do que a abertura superior, mas cuja largura é impossivel medir. No paredão do sul, proximamente a três quintas-partes d'elle, a Àfrica foi rasgada por outra fenda gigantêsca perpendicular á primeira; fenda que primeiro se encurva a oeste, e vergando depois pêlo sul a leste, vai conduzindo em caprichôso ziguezague o rio, que ella la no fundo aperta em estreito abraço de rochêdos. Na cataracta o grande paredão do norte onde o rio se despenha é em partes perfeitamente vertical, apresentando apenas as saliencias e escabrosidades das rochas. Uma enorme convulsão vulcànica fendeu ali a terra, e produzio aquelle abismo enorme, em que se veio precipitar um dos maiores rios do mundo. De certo o trabalho potente da àgua ja modificou muito a superficie das rochas, mas não é difficil ao ôlho observador, o perceber bem, que aquellas escarpas profundas, distanciadas hôje, fôram despegadas umas das outras. O Zambeze, encontrando no seu caminho aquella voragem, abìsma-se n'ella em três cataractas grandiosas, porque duas ilhas, que occupam dois grandes espaços no paredão do norte, o dividem em três ramos. A primeira cataracta é formada por um braço que passa ao sul da primeira ilha, ilha que occupa no rectàngulo que desenha a forma superior da fenda, o extremo oeste. Este braço precipita-se por isso no pequeno lado oeste do rectàngulo. Tem sessenta metros de largo e oitenta de queda vertical, cahindo em uma bacia d'onde a àgua vai procurar o fundo do abismo e unir-se ás outras em ràpidos e cascatas quasi invisiveis pêla espêssa nuvem de vapôr que envolve tudo lá em baixo. A ilha que separa aquelle braço do rio é coberta de vegetação frondosa, vegetação que se estende até ao ponto onde a àgua se despenha, produzindo uma paizagem sorprendente. É esta a menor das quedas, mas é a mais bella, ou antes a ùnica que é bella, porque tudo mais em Mozi-oa-tunia é horrivel. Aquella voragem enorme, nêgra como é nêgro o basalto que a forma, escura como é escura a nuvem que a envolve, teria sido escolhida se fôsse conhecida nos tempos bìblicos, para imagem do inferno, inferno d'àgua e trevas, mais terrivel talvez que o inferno de fôgo e luz. Para augmentar o sentimento de horror que se experimenta diante d'aquelle prodigio, até é preciso arriscar a vida para a poder ver. ¡Vel-a! impossivel; Mozi-oa-tunia nem se deixa ver. Ás vezes, lá no fundo, por entre a bruma eterna, percebem-se formas confusas, semelhando ruinas medonhas. Sam pontas de rochêdos de enorme altura, onde a àgua, que os açouta, partindo-se em glòbulos se torna nuvem, nuvem eterna, que constantemente alimentada tem de pairar sobre o rochêdo em que se formou, em quanto a àgua cahir e o rochêdo se erguer ali. Em frente da ilha do jardim, no meio de um arco-iris, concèntrico a outro mais desvanecido, vi eu por vêzes, ao ondular da bruma, desenharem-se confusamente, uma serie de picos, semelhantes aos miranetes de uma cathedral phantàstica, que a um lado lançava aos ares uma frecha de enorme altura. Continuando a examinar a cataracta, vemos o comêço do paredão N. logo em seguida á queda de oeste, ser occupado em uma extenção de duzentos metros por uma ilha, aquella de que ja falei, que separa o braço do rio que vai formar a primeira queda. Ali é o ùnico ponto em que se vê tôdo o paredão, porque n'aquella extensão de duzentos metros o vapor não chêga completamente a encobrir o fundo. Foi n'esse ponto onde eu fiz as primeiras medições, e por meio de dois triàngulos, achei para largura superior do corte 100 metros, e 120 para altura vertical do paredão. Esta altura vertical é superior mais a leste, porque o fundo do sulco desce até ao corte que encana o rio ao sul. N'esse ponto tambem obtive elementos para medir a altura. Nas primeiras medições eu tinha por base o lado 100 metros, achado para largura superior do sulco, mas era preciso ver o pé do paredão, e tive de arriscar a vida para isso. Tirei os pannos ao meu Augusto e ao meu muleque Catraio e amarrei-os. Estes pannos de zuarte pintado e ja muito usados, não me offereciam uma grande segurança, mas não tinha outro meio de me suspender no abismo. Passei o fragil amparo em volta do peito, para me ficarem as mãos livres, e tomando o sextante debrucei-me na voragem. Seguravam as extremidades o meu Augusto e um Macalaca da povoação das quedas. Elles tremiam com mêdo e faziam-me tremer, levando eu por isso muito tempo a medir o àngulo. Quando lhes disse que me puxassem, e me pude equilibrar sôbre as rochas, foi como se tivesse acordado de um pesadêlo horrivel. Li no nonio 50° 10', e logo que registei a medida, comecei a horrorizar-me do que tinha feito. Um excesso de vaidade mal-cabida, o querer apresentar com a maior aproximação a altura da cataracta, acabava de me fazer commetter a maior imprudencia que commetti em tôda a viagem. Medir e triangular ali é difficilimo, e começa por faltar terreno onde se possa medir uma base com algum rigor. Eu apenas pude medir 75 metros, e isso com trabalho enorme. Só posso suppor que os triàngulos feitos pêlo D_or. Livingstone da ilha do Jardim, fôram resolvidos só com os àngulos; porque lados não podia d'aquelle ponto medir nenhum. Pena é que não ficasse a fòrmula. A medição da altura com um cordél e uma pedra atada na ponta, acho-a tambem extraordinaria; porque as escabrosidades da rocha deveriam soster o prumo, e àlém d'isso, da ilha do Jardim apenas se vê, na voragem profunda, uma espêssa nuvem que tudo encobre, sendo impossivel divisar nada lá em baixo, ainda que o Doutor atasse á pedra tôda uma peça de algodão branco, em logar de um farrapo de 60 centìmetros, como elle diz que fez. Fôsse como fôsse, elle foi mais feliz e mais esperto do que eu, que pouco fiz, dispondo para isso de melhores instrumentos e mais recursos. Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.] Em seguida á primeira ilha onde fiz as medições, vem a parte principal da cataracta, e é ella comprehendida entre essa ilha e a do Jardim. Ali é que a maior porção d'àgua se despenha n'uma compacta massa de quatrocentos metros de extensão, e ali é que o abismo atinge tôda a sua profundidade. Vem, em seguida, a ilha do Jardim, de quarenta metros de face sôbre a fenda; e depois a terceira queda, formada por dezenas de quedas, que occupam tôdo o espaço entre a ilha do Jardim e a extremidade leste do paredão. Esta terceira queda deve ser a mais importante no tempo das cheias, logo que as pedras que na estiagem lhe dividem as àguas fôrem cobertas, e não existir mais do que uma ùnica e enorme cataracta. A àgua que cae das duas primeiras quedas e parte da terceira junto da ilha do Jardim, correm a leste, o resto da terceira a oeste, e encontrando-se, unem-se em choque immenso, e voltam ao sul n'um referver medonho, correndo ràpidas no fundo do abismo, em canal pedregôso, que as entala nos seus caprichosos ziguezagues. No ponto onde as àguas, ja em um canal ùnico, se dirigem ao sul, fiz uma experiencia que narrarei em capìtulo separado d'este, e que me permittio obter uma altura muito aproximada da maior profundidade do abismo. Não me foi possivel fazer mais, e duvido mesmo que mais se possa fazer, a menos de se ir expressamente preparado para estudar a cataracta; e creio que para isso será possivel inventar algums meios apropriados para trabalhar ali, debaixo de uma chuva eterna, e no meio de um vapôr denso que nada deixa ver. O Rio depois da Cataracta.] Ilhas, bordas da cataracta, rochêdos mêsmos, tudo é coberto de uma vegetação esplèndida, mas de um verde-nêgro triste e monòtono, embora um ou outro grupo de palmeiras tente quebrar a melancolia do quadro, fazendo sobressahir as suas palmas elegantes ás copas dos arvorêdos que as cercam. Uma chuva eterna molha sem cessar as proximidades do abismo, onde rola como que uma trovoada sem fim. Mozia-oa-tunia não se pode desenhar, e excepto a sua extremidade oeste, tudo ali é nuvem de vapôr, que encobre uma paizagem medonha. Não é dado visitar esta sobêrba maravilha sem que um sentimento de terror e de tristeza se aposse de nós. ¡Que differença entre a cataracta de Gonha e Mozi-oa-tunia! Em Gonha tudo é risonho e bello; ali tudo é soturno e triste! Ambas sam attrahentes, ambas sam verdadeiramente grandiosas; mas Gonha é attrahente e bella como a virgem formosa coroada das flores da innocencia, arrastando o alvo vestido nas ruas do jardim, embalsamadas pelas auras perfumadas da manhã de estio: Mozi-oa-tunia é grandiosa e imponente como o salteador requeimado pêlo sol de verão e pêlo gêlo do inverno, o trabuco na mão, o crime na idéa, entre os fraguêdos da serra, por noite escura e triste. Gonha é bella como a manhã bonançosa da primavera; Mozi-oa-tunia é imponente como a noute tempestuosa do inverno. Gonha é bella como o primeiro sorrir da criança nos braços da mãe; Mozi-oa-tunia é imponente como o ùltimo arquejar do ancião nos braços da morte. Gonha é o bello na sua mais sublime expressão da formosura; Mozia-oa-tunia é o bello na sua mais expressiva revelação da grandeza e magestade. Depois da contemplação da mais prodigiosa maravilha natural do continente Africano, voltei ao meu campo fortemente impressionado pêlo que acabava de ver. O tempo melhorara, mas conservava-se encoberto. N'essa noute fui assaltado por nuvem de mosquitos, que não me deixáram um momento de repouso. Logo de manhã, parti para a cataracta, que visitei de nôvo, concluindo os trabalhos começados na vèspera, e que me entretivéram o dia tôdo. De volta ao campo, apparecêram ali uns Macalacas com massango, pedindo-me quatro jardas de fazenda por um prato d'elle, que não continha meio litro de grão.[6] Ainda que muito necessitado de adquirir vìveres, não quiz abrir um tal exemplo, e recusei comprar. Então o Macalaca disse-me, que a fazenda e a missanga não se comia, que eu teria fome, e então lhe daria tudo o que elle quizesse por um prato de comida. Fui-lhe dando logo dois pontapés. Chegou o dia 22 de Novembro, dia que eu tinha fixado para o regresso, mas a minha posição era crìtica. Tìnhamos apenas comida para dois dias, e não lograriamos alcançar Deica antes de seis. Era impossivel partir sem ter feito provisões de mantimentos. Não esperando ja obter nada dos Macalacas, fui caçar apesar do mao tempo. Pouco distante do acampamento, pude atirar a uma malanca, e voltava ás barracas para a mandar esquartejar e trazer ali; quando chegou o chefe das povoações das quedas, que pêla primeira vez eu via, e me vinha visitar. Com elle vinham muitos prêtos, que fôram ajudar a conduzir a malanca que eu havia môrto. Uma tão importante peça de caça fez logo diminuir no mercado o prêço dos vìveres. O chefe foi á sua povoação d'onde trouxe quantidade de mantimentos e duas gallinhas, pedindo-me por tudo a pelle da malanca e o meu cobertor. Necessitado de partir, e não querendo fazer questões, aceitei o contracto, e elle retirou-se satisfeito. Lá foi o meu cobertor! socio de tantas noutes mal dormidas n'aquelles sertões Africanos. Pude enfim deixar Mozi-oa-tunia, e fui pernoitar nas mêsmas barracas que tinha construido na tarde do dia 18. No dia immediato deixei o caminho que seguira até ali quando demandava a cataracta, e endireitei ao sul. Não me tinha sido difficil encontrar a grande cataracta do Zambeze que de longe se annuncia; mas encontrar um ponto que não existe nas cartas e cuja posição eu tinha calculado por informações vagas, não me era facil. N'um paiz como aquelle, despovoado e virgem, eu poderia bem passar perto do kraal de Patamatenga sem o ver, nem dar d'elle conta. Contudo, pelos meus càlculos, Patamatenga devia-me ficar ao Sul verdadeiro, e eu endireitei para la, dispôsto a não alterar aquelle rumo por nenhum motivo que fôsse. Depois de marcha de quatro horas, fui acampar junto de um còrrego em sitio medonho. Nem uma àrvore, nem uma herva. Só penedias nêgras formavam a paizagem, escurecida ainda por um ceo carregado de pesados nimbus. Um silencio profundo reinava n'aquelle pequeno valle da tristeza. No caminho d'êsse dia encontrei alguns leões, que evitei com cautela. Vem a propòsito falar aqui de certa mania louca que ataca quasi sempre o explorador noviço. É tal o seu enthusiasmo por afrontar os perigos, que chêga a creal-os onde elles não existem. A Àfrica offerece cada dia, a cada passo, taes estôrvos ao viajante, taes perigos ao caminheiro, que sam elles de sobra para fazer abortar a maior parte das expedições que tentam devassar os seus segrêdos. A prudencia deve ser o guia de tôdas as acções do exploradôr; o que não quer dizer, que ella mesma não aconsêlhe, em outra dada circunstancia, um excesso de temeridade, quando essa temeridade fôr precisa á salvação commum. Uma das maiores loucuras em Àfrica é caçar feras. A pòlvora vale no sertão tanto como o ouro, e o tiro dado em uma fera é um tiro desperdiçado, é o resultado de uma expedição arriscado, é ás vêzes a salvação de tôda uma caravana, que será perdida sem chefe, posta na balança do acaso, unicamente por satisfação de uma vaidade pessoal. Em quasi tôda a minha viagem, obrigado a caçar para viver, tive muitas vêzes de affrontar as feras; o que não me teria acontecido se, dispondo de recursos sufficientes, me podesse ter dispensado da caça. Uma fera morta em defensa propria e em encontro fortuïto, é um obstàculo destruido; um leão procurado e môrto por o exploradôr geògrapho é um obstàculo creado, é uma imprudencia commettida, é e deve ser um remôrso na sua existencia. Eu commetti algumas faltas d'essas, e sempre depois tive o arrependimento sincero. Hôje se voltasse á Àfrica em viagem de exploração ou encarregado de outra qualquer missão importante, não arriscaria o fim principal, para me dar um prazer que é fumo, porque apenas vem um momento lisongear o amor-proprio. Ja pensava assim, quando de volta da cataracta evitava os leões, que fugiam de mim como eu fugia d'elles. Não havia lenha perto do sitio onde decidi ficar, e o meu Augusto foi procural-a longe. Trouxe alguns troncos de àrvores sêcos, que, ao partir, deixavam apparecer nas rachas escorpiões enormes. No caminho mesmo, e ainda ali, haviam innùmeros dos repugnantes articulados. N'esse dia, uma violenta tempestade vinda do S.S.E. passou sôbre nós, e durante duas horas despejou copiosa chuva. Durante a noute, soprou rijo o vento S.E., que muito nos incommodou, tendo por abrigos, como tìnhamos, apenas um ceo nebuloso. A 24 de Novembro, segui sempre ao Sul por caminho difficil. As montanhas corriam a S.E. e por isso nós subìamos e decìamos continuamente, em terreno pedregoso, e àrido. Depois de cinco horas de fatigante caminhar, encontrei um pequeno charco, junto ao qual acampei. Subindo a um outeiro que me ficava pròximo, avistei ao sul uma planicie enorme, onde não pude divisar os menores signaes de àgua, por mais que a perscrutei com o meu òculo potente. Receei muito que me faltasse a àgua d'ali em diante. É verdade que n'aquelle paiz abunda o Mucuri , e onde elle existe não se morre á sêde. O Mucuri é um grande auxilio do viajante nas florestas ressequidas da Àfrica Austral. É elle um arbusto de 60 a 80 centìmetros de altura, que produz na extremidade das suas radìculas, uns tubèrculos esponjosos, ensopados de um lìquido insìpido que sacia a sêde. Não é facil porem encontrar os tubèrculos logo que se encontra a planta. Crescem êlles nas pontas de pequenas radìculas que, irradiando das raizes principaes, vam muito longe do caule alimentar e desenvolver aquellas excrescencias extraordinarias. O melhor meio de os encontrar é o empregado pêlo gentio Africano, de se collocarem junto á planta e ir descrevendo cìrculos concèntricos a passos lentos, batendo o terreno com um pao. Onde a terra dá um som ôco e surdo ahi estam os tubèrculos, que tẽm de 10 a 20 centìmetros de diàmetro e affectam a forma pròximamente esphèrica. Fiz bôa provisão d'elles no dia immediato antes de deixar o sitio em que passei uma pèssima noute. Sustentei marcha de sete horas, ja em planicie coberta de àrvorêdo e altas gramìneas. De àgua nem signaes. Pêla tarde parámos extenuados de fadiga, e resolvia acampar, quando sôbre a minha cabêça, na àrvore a que estava encostado, ouvi o arrullar das rôlas Africanas. A àgua devia estar perto, porque aquella era a hora das avezinhas bebêrem, e sem bebedouros pròximos as rôlas não estariam ali. A rôla em Àfrica é indicio de haver àgua perto do sitio onde se mostra de manhã e á tarde, porque aquella ave não passa sem beber duas vêzes ao dia. Mandei logo Verissimo e Augusto explorar os arredores, e uma hora depois voltava Verissimo tendo encontrado uma pequena nascente um kilòmetro ao N.O. Fui acampar ali ja por noute escura. Pêlos mêus càlculos no dia immediato deverìamos chegar a Patamatenga. Amanheceu o dia 26 de Novembro, e puz-me em marcha. Logo á sahida do ponto em que acampei, encontrei uma espêssa mata que me levou 20 minutos a transpôr. Ao sahir d'ella, um ribeiro bastante volumoso corria em leito de pedra, e àlém d'elle um kraal magnìficamente construido, mostrou-me, por sôbre a sua forte palissada o tecto ponteagudo de muitas casas. Eu tinha dôrmido junto a Patamatenga sem o saber, e tinha passado uma pèssima noute ao relento, quando poderia ter dormido em òptima cama e no conchêgo de uma bem construida casa. Um Inglez, cujo nome ignorava, veio buscar-me ao rio e levou-me ao kraal, principiando logo, antes de mais conversa, a dar-me de comer. Ás onze horas ja eu tinha comido não sei quantas vêzes, e êlle veio annunciar-me que se estava fazendo um petisco. Tinha ali um òptimo cosinheiro Europêu. Não consentio que eu seguisse para Deica, sendo o seu argumento, que deveria passar o dia com elle, porque o devia passar. Escrevi um bilhete a Mr. Coillard, a participar-lhe que estava de bôa saúde, e que chegaria a Deica no dia immediato. O Inglez, logo que vio a minha resolução em ficar, mandou matar o seu melhor carneiro, e convidou-me a ir ver o seu quintal. Fomos, e elle começou a fazer barbaridades. Destruio um batatal nôvo, só para tirar umas seis batatas. Apanhou quantos tomates, cebolas, e pimentos ali haviam. Não pude impedir aquelle furor de destruição para me dar a comer de tudo quanto tinha, e até creio que tudo quanto tinha se eu me demorasse em sua casa. O quintal era magnìfico e muito bem tratado, mas n'aquella èpocha do anno pouco podia offerecer. Ainda assim o meu Inglez voltou triumphante com seis batatas, dezaseis tomates, alguns pimentos e muitas cebollinhas que foi entregar ao cozinheiro para o jantar. ¡Jantar!... Eu não sei que nome deverei dar áquella comida! Pelo nùmero devia ser muito mais do que ceia, pêla hora menos do que lunch ! Pude soster o furor do meu hospedeiro em dar-me de comer, e consegui ir com elle dar um passeio nos arredores do kraal. Encontrámos no caminho cinco montìculos de pedras que marcam as sepulturas de cinco Europêos, adormecidos ali para sempre, e deitados ao lado uns dos outros á sombra do arvorêdo, n'essa mesma terra que lhes infiltrou no organismo, pêlo ar que deu a respirar, o veneno que lhes deveria cortar as existencias, com prematuro passamento. ¡Quantos tùmulos como aquelles não tẽm um logar incerto, no meio d'êsse continente enorme, e não escondem o segrêdo da sepultura de homens, que deixáram longe affeições e ternuras, que nem podem ter o amargo prazer de derramar uma làgrima sôbre a terra que occulta um ente estremecido! Os cinco tùmulos de Patamatenga encerram os despojos de cinco homens cujos nômes vou citar, e se algum amigo ainda se lembrar d'elles, terá ao menos o conhecimento do canto da terra onde repousam para sempre. O primeiro tùmulo encerra Jolly, môrto em 1875; o segundo Frank Cowley, o terceiro Robert Bairn, ambos mortos em 1875; o quarto Baldwin, e o quinto Walter Carre Lowe, mortos em 1876. Em Abril do anno de 1878, morreu tambem ali perto o Sueco Oswald Bagger, que está enterrado em Lexuma. Os Tumulos em Patamatenga.] Depois de visitar aquelle cemiterio improvisado no meio do sertão longìnquo, voltei ao kraal de Patamatenga, onde fui obrigado a comer vàrias ceias. Na conversação com Gabriel Mayer, o meu hospedeiro, eu fugia de narrar qualquer episòdio passado da minha viagem em que figurasse a falta de vìveres, porque ao ouvir taes narrativas, o bom Inglez entrava em furor e mandava logo pôr a mêsa, mêsa que ja me mettia tanto mêdo como por vêzes me tinha mettido a fome. No dia seguinte, depois de ter almoçado duas vêzes, antes das 7 horas da manhã, parti a essa hora, tendo de levar vàrios petiscos para o caminho, porque Gabriel Mayer não consentio que eu partisse sem essa condição. Depois de cinco horas de marcha a leste, alcancei o acampamento de Deica, onde a familia Coillard me esperava, e onde fui recebido com as maiores demonstrações de simpathia. D'aquelle lado não tinha chovido como em Mozi-oa-tunia, e ficámos em grande embaraço para partir, porque encontrariamos o deserto sêco, e impossivel nos seria atravessal-o antes de cahirem as chuvas necessarias para encher os charcos onde deverìamos encontrar a àgua precisa. Nos dias 28 e 29 de Novembro, percebemos que haviam trovoadas muito ao longe ao Sul e S.S.E., e isso animou-nos a partir, esperando que ellas tivessem despejado alguma chuva no deserto. No dia 28 improvisei, com anzóes que trazia, uns pequenos aparêlhos de pesca, e fui com as damas Coillard pescar a uma lagôa que nos ficava uns duzentos metros a oeste do campo. Conseguímos pescar muitos peixes miudos, e eu tive um verdadeiro prazer por ver o gôsto que gozavam aquellas senhoras n'um divertimento nôvo para ellas, quando sentiam a ligeira canna vergar ao pêso de um peixe que se estorcia na ponta da linha, prêso ao anzol que a sua imprudente voracidade lhe fizera morder. No dia 30 resolvémos partir a 2 de Dezembro, ainda que corriamos o risco de não encontrar àgua logo nos primeiros dias de viagem, mas uma importante consideração nos levava a não differir a partida. Èramos quinze pessôas, e a provisão de mantimentos pequena. D'ali ao Bamanguato não poderìamos obter vìveres, e em Deica mêsmo nenhuns podìamos haver. Era pois preciso caminhar sôbre Xoxom ( Shoshong ) o mais depressa possivel, para alcançar a cidade do rei Khama antes que viesse a fome. Ficou por isso resolvido que partìssemos no dia dois, resolução que foi apoiada pêla chuva que cahio nos dias 30 do mez e 1 de Dezembro. Antes de emprehender a narrativa d'essa aventurosa viagem atravez do deserto, preciso dizer duas palavras á cerca dos meus companheiros. Que elles me perdôem pêlo que vou escrever, se a sua modestia for ferida pelas minhas palavras; mas é preciso que se saiba o nome e os feitos de alguns d'esses obscuros trabalhadores Africanos, que deixam a Europa e a vida civilizada, para irem longe da patria trabalhar tenazmente na grande obra da civilização do Continente Nêgro. No paiz do Basuto, paiz que confina ao sul e leste com as colonias do Cabo e Natal, e ao norte e oeste com o estado livre de Orange, fôram, ha cincoenta annos, estabelecer-se alguns missionarios protestantes Francezes. Estes homens, cujo nùmero augmentava de anno para anno, conseguíram domar um pôvo bàrbaro de canibaes, e eleval-o a um estado de civilização e de instrucção a que ainda não chegou pôvo algum da Àfrica Austral. Hôje as escolas Christãs do Basuto contam os discìpulos por milhares, e uma grande parte da população sendo Christã, abandonou a polygamia e os costumes bàrbaros dos seus antepassados. Os missionarios acháram o campo ja pequeno para o seu nùmero, sentíram a necessidade de expansão, e fôram estabelecer os seus cathechistas para o norte do Transvaal junto ao Limpôpo. Quizéram ir mais longe, e uma expedição foi organizada, tendo por chefe um joven missionario, com destino ao paiz do Baniais ou Machonas, situado entre o Matabele e as terras Natuas. Esta expedição foi infeliz. Entrando no Transvaal, soffreu insultos dos Boers, que a impossibilitáram de seguir ávante, chegando até a serem prêsos em Pretoria o missionario e seus homens de cathechese. Foi então que Mr. François Coillard, director da Missão de Leribé, foi encarregado de dirigir a expedição que falhara. Partio de Leribé, ponto situado perto do rio Caledon, affluente do Orange e a oeste do Mont-aux-sources, e com sua espôsa e sua sobrinha e seus cathechistas, caminhou ao Norte, e por entre innùmeras difficuldades, que só uma vontade tenaz pode vencer, conseguio alcançar o paiz a que se destinava. Muito bem recebido pelos Machonas, deu comêço aos seus trabalhos, quando foi atacado por uma fôrça de Matebeles, que o fizéram prisioneiro e o conduzíram com tôda a expedição perante o seu chefe, Lo-Bengula. O que o missionario e aquellas pobres damas soffreram durante o tempo que estivéram em poder do terrivel chefe dos Matebeles é uma historia triste e compungente. O chefe, que pretende ter direitos sôbre o paiz dos Machonas, exprobou-lhes o terem ido ali sem a sua prèvia licença, e não lhes permitio voltar lá. Retrogradou pois até Xoxon, capital do Manguato, e não querendo deixar sem resultado tão dispendiosa e fadigosa jornada, deliberou fazer uma tentativa sôbre o Barôze. Tinha a vantagem de falar a lingua do paiz, bem como os seus cathechistas, que, Basutos de origem, podiam trabalhar facilmente em um paiz onde se falava a sua propria lìngua. Não foi feliz no Barôze, e ainda que bem recebido e cheio de promessas do astuto Gambela, não lhe consentíram o accesso àlém de Quisseque. Fôram estes, que exponho muito resumidamente, os motivos que leváram a familia Coillard ao Alto Zambeze, e que occasionáram o nosso encontro n'aquellas remotas paragens. Mr. Coillard e sua espôsa, á èpocha do nosso encontro, estavam em Àfrica havia ja vinte annos! Mr. Coillard é homem de quarenta annos, sua espôsa tem a idade que tem tôdas as damas casadas logo que passam dos vinte e cinco, não tem idade. O missionario nutre uma grande paixão pelos indìgenas, á civilização dos quaes votou a sua vida. Sempre tranquillo em gesto e palavra, não se altera nunca, e só tem na bôca o perdão para todas as faltas que vê commetter. François Coillard é o melhor e o mais bondoso dos homens que eu tenho conhecido. A uma intelligencia superior reune uma vontade inquebrantavel, e a teimosia precisa para levar a cabo qualquer emprehendimento difficil. Muito instruido, o missionario Francez tem uma alma moldada para comprehender os mais sublimes sentimentos, e é mesmo poéta. Procurando e glorificando-se de encontrar qualidades bôas nos indìgenas Africanos, não vê ou não quer ver as más. É um grande defeito êsse, mas tem elle ampla escusa na sublimidade dos sentimentos que o dictam. Madame Coillard, como seu marido, é de uma bondade extrema. Não se chêga a ella o necessitado sem ir satisfeito, o triste sem ir consolado. Para elles tudo sam irmãos, e tanto estendem a mão ao indìgena como ao Europêu, ao pobre como ao rico, logo que indìgena, Europêu, pobre e rico precisam d'elles. Eu, por mim, não lhes poderei nunca agradecer os serviços que me fizéram, serviços que me obrigáram tanto mais, quanto maior foi a delicadeza com que fôram feitos. O correr da narrativa mostrará quem sam estas gentes de quem falo agora muito lacònicamente, e que deviam ser meus socios na longa viagem que ìamos emprehender a traves de um deserto desconhecido, porque, deixando o caminho das caravanas, ìamos traçar uma nova estrada. CAPÌTULO III. TRINTA DIAS NO DESERTO. A 2 de Dezembro, começáram logo de manhã os preparativos de partida. Um vagom de viagem em Àfrica do Sul é uma pesada construcção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira, e tirado por 24 a 30 bôis, junguidos a fortes cangas, prêsas a uma corrente longa e grossa, fixa á ponta do cabeçalho no carro. Esta especie de casa ambulante, é carregada com as bagagens e fazendas do viajante, e disposta de modo a offerecer-lhe tôdas as comodidades caseiras. O vagom de Mr. Coillard era uma verdadeira maravilha. Construido expressamente para aquella viagem sôb as suas vistas e com a sua experiencia de viajeiro, tinha commodidades que nunca vi em outro. A minha bagagem foi arrumada com a da familia Coillard no fundo do vagom, ficando apenas á mão aquillo de que eu poderia precisar a miúdo. Elles faziam prodigios para darem logar a todos os meus volumes de carga, como, durante a viagem, se encolhiam para me dar logar a mim mêsmo. Uma partida depois de 15 dias de descanço é sempre muito demorada. Ha muita cousa que arrumar, e no momento de partir descobre-se sempre, que ha uma canga quebrada, que faltam as pitas aos chicotes, que os cubos das rodas precisam ser untados, mil cousas emfim que fazem retardar de algumas horas o momento prefixo. Depois de essas precauções tomadas por Mr. Coillard, e dictadas por uma longa experiencia de tal modo de viajar, conseguímos deixar Deica pelas 2 horas da tarde, e endireitámos ao sul. O nosso comboio compunha-se de quatro vagons, dous pertencentes a Mr. Coillard, e dous outros de Mr. Frederick Phillips, de quem falarei mais tarde. Depois de uma jornada de três horas e meia, encontrámos àgua em uma pequena lagôa, recentemente cheia pêla chuva dos dias anteriores, e pernoitámos junto d'ella. No dia immediato seguímos a S.S.E., e depois de duas horas de viagem parámos hora e meia, para dar descanço aos bôis. Foi de três horas a segunda parte da jornada, e ainda fizémos uma terceira tirada das 7 ás 9 da noute. Sendo explorados os arredores do sitio em que acampámos, encontrou-se àgua um kilòmetro a E.N.E. No dia 4 só podémos partir ás 4 e meia horas da tarde, para darmos tempo aos bôis de bebêrem durante tôda a manhã: e n'esse dia a nossa jornada foi apenas de duas horas e meia, porque, encontrando uma lagôa de òptima àgua, acampámos junto d'ella, ainda que os prêtos de Mr. Phillips diziam haver ali a terrivel môsca zê-zê, o que me parece precisa confirmação. Contudo, por prudencia, no seguinte dia partímos logo de madrugada, e viajámos por sete horas e meia, em três andadas, a ùltima das quaes findou ás 9 da noute. Junto do ponto onde pernoitámos não appareceu àgua. A viagem d'êsse dia foi difficil, por entre emmaranhada floresta, onde os vagons corréram grande perigo de partir as rodas de encontro aos troncos de àrvores colossaes. A 6, de manhã, jornadeámos por duas horas a S.E., encontrando no fim d'ellas uma lagôa de àgua permanente, a ùnica àgua que no tempo sêco se encontra de Deica até ali. Chama-se Tamazêze. Descansámos por sete horas, e seguímos ás 3 da tarde; indo acampar, ás 6, junto de outra bella lagôa tambem permanente, a que os Massaruas chamam Tamafupa. A jornada d'aquêlle dia foi por entre florestas lindissimas, onde abundam espinheiros brancos. O solo é coberto por uma espêssa camada de arêa. Junto á lagôa um formôso tapête de relva cobre o terreno, levemente accidentado. Mas no meio d'aquella relva viçosa cresce uma planta herbàcea de que os bôis sam àvidos, e da qual é preciso desvial-os com cuidado, porque é mortal peçonha para êlles. Estive n'essa noute até tarde levantado, para fazer observações astronòmicas, e talvez ahi tivesse origem o violento accesso de febre que me atacou no dia immediato. Por algumas horas o delirio tirou-me a consciencia, e só ao recuperar a razão pude dar tino dos cuidadosos desvelos que me eram dispensados pêla familia Coillard. O dia seguinte foi ainda passado no mais angustiôso soffrimento, e só ao terceiro dia nos pozémos em viagem, indo eu em deploravel estado. Foi-me arranjada uma cama no vagom de Mr. Coillard, e rodeado da familia, que redobrava em affectuosos cuidados, cercando-me de tôdas as commodidades que a si tiravam, fiz uma jornada que pouca consciencia tenho de ter feito. Sei que a 10 de Dezembro estàvamos acampados em um logar que uns chamam Muacha e outros Nguja. Ali, com o caminho seguido pêlos negociantes Inglezes, devìamos deixar um d'elles, que, como ja disse, era nosso companheiro de viagem desde Deica. Mr. Frederick Phillips, o companheiro de viagem que ìamos deixar, é um Inglez de Inglaterra . Homem de fina educação, affecta uns modos grosseiros e semi-selvagens, que não podem encubrir as suas bôas maneiras originaes. É este um dos seus fracos. O outro elle mesmo o define em algumas palavras que lhe ouvi. "Quizera, me disse elle, que tudo o que existe no mundo, que tudo o que cobre a terra, fôsse marfim, e eu só senhor d'elle." Se eu não tivesse a certeza de que Mr. Phillips era Inglez, pêla fòrmula do desejo julgàra-o nascido em Tarbes. Mr. Phillips, de elevada estatura e robusto em proporção, tem um rôsto enèrgico e sympàthico, que dizem ter feito uma profunda impressão na irmã do terrivel Lo-Bengula, o rei do Matabelle, que tem feito as mais altas diligencias para o desposar. É no Matabelle que êlle tem a sua principal residencia Africana, e se eu o encontrei no Zambeze, foi porque a ausencia ali de Mr. Westbeech seu socio, o obrigou áquella viagem por interesses commerciaes. Mr. Phillips, que encontrei em Lexuma, fêz-me offerecimentos, pondo á minha disposição um dos seus vagons, para eu continuar a minha viagem para o sul, e se os não devi aceitar, não deixo por isso de lhe tributar muita gratidão. Depois de nos despedirmos de Mr. Phillips em Nguja, partímos ao Sul, e jornadeámos por três horas e meia, indo acampar, ás 7 e meia, em sìtio onde não havia àgua. No dia seguinte, depois de duas horas e meia de caminho, parámos em um logar chamado em lìngua Massarua Motlamagjanane, palavra que quer dizer, muitas cousas que se succedem umas ás outras, e isto por se dar êsse caso com uma sèrie de pequenas lagôas que encontrámos estanques. A floresta toma ali um nôvo aspecto, e ás àrvores meãs succedem ja verdadeiros colossos vegetaes, assombrando com as elevadas copas um mato denso de emaranhados arbustos, difficìlimo de transpôr. Seguímos ás 4 horas, e duas horas depois, atravessàvamos a mais sobêrba e bella floresta virgem que encontrei em Àfrica. Logo ao anoutecer, tivémos de parar, porque era impossivel proseguir em tão densa floresta sem arriscar os vagons a um accidente sèrio. N'essa noute eu começava a achar-me completamente restabelecido, e a febre tinha cedido a doses diàrias de quatro grammas de quinino. Meia hora depois de partir, no dia immediato, atingìamos a orla da floresta, e encontràvamos àgua n'um pequeno charco lodôso. Diante de nós estava a planicie descoberta, àrida e sêca; essa planicie, que foi pêla primeira vez atravessada dois graos a Oeste por Livingstone, ainda um a oeste do meu ponto por Baines, e um grao e mais leste por Baldwin, Chapman, Ed. Mohr e outros; essa planicie arenosa e inhòspita, o Saara do sul, o Calaari emfim. Ainda jornadeámos por espaço de duas horas, indo dar descanço aos bôis ás 11 e meia, junto a uns rachìticos e pequenos espinheiros, que com a sua vegetação mesquinha faziam sentir mais a nudêz do deserto. Algumas trovoadas formávam-se pelo Norte, e ás duas horas aproximávam-se de nós, deixando cahir de nêgros nimbos grossas gôtas de chuva tèpida. Desde o Zambeze até ali o terreno é arenôso, sendo o sub-solo formado por uma camada argilosa muito plàstica de côr castanho-escura. A espessura da camada de arêa branca e fina que forma o solo varia entre 10 e 50 centìmetros. Àgua apenas aparece aqui e àlém na estação das chuvas, nas depressões de terreno. Algumas vêzes, como n'aquelle dia ao sahir da floresta, era ella uma lama espêssa e fètida. Tôdo o paiz até ao ponto em que o deixámos n'aquella manhã, é coberto por uma floresta, que vai progressivamente augmentando em espessura e no pompôso da vegetação, ao passo que se afasta do Norte. O que mais se vê sam ainda leguminosas, e uma immensa variedade de acacia cobre o solo. Flôres do mais variado e brilhante colorido, das formas mais mimosas e delicadas, ao passo que encantam a vista, embalsamam o ar com os seus suaves perfumes. Viajar ali é difficilimo. Abrir caminho para o carro, de machado em punho; ás vêzes, durante 10 e mais kilòmetros, haver um solo de cincoenta centimetros de area, onde as rodas dos vagons se enterram profundamente; fazer uma milha em quarenta minutos, tal é o viajar n'aquellas brenhas, quando se viaja bem. A esse enorme terreno, comprehendido entre o Zambeze e o Calaari, chamei eu nas minhas cartas o Deserto de Baines. Foi uma homenagem ao trabalhador infatigavel, o primeiro que devassou aquellas paragens inhòspitas, e cuja vida foi tão deserta de gôsos e de glòrias, como aquêlle paiz é deserto de gentes. Do ponto em que parámos de manhã, seguímos ás 4 horas da tarde, logo que a tormenta passou, e jornadeámos até ás 8 da noute, parando n'um matagal de espinheiros baixos, onde foi difficil acampar no meio das hervas e entre os abrolhos. Durante a noute, chacaes e hyenas déram-nos um concêrto infernal, vindo vocalizar um côro orpheònico, em tôrno do sitio onde chegava a claridade dos fogos do campo. De manhã choveu, e nós seguímos ás 5 horas e meia, sahindo logo dos espinheiros, que poderìamos ter evitado sem umas trevas profundas que na vèspera nos tinham impossibilitado de escolher outro caminho. Sustentámos uma caminhada de cinco horas, apenas com um pequeno descanço, encontrando uns charcos produzidos pêla chuva da manhã, que de nenhum proveito nos fôram a nós, por serem de àgua salgada, mas que, ainda assim, servíram aos bôis sedentos, que os esgotáram em pouco tempo. Era preciso encontrar àgua, e seguímos ainda por quatro horas, parando no fim d'ellas sem termos logrado o nosso intento. Pude fazer n'essa noute uma bôa observação do reapparecimento do primeiro satèlite de Jùpiter. Logo ao alvorecer, caminhámos por hora e meia no deserto arenoso e àrido, onde as rodas dos vagons se enterravam profundamente. No fim d'este tempo de jornada, encontrámos o leito sêco de um rio cuja margem direita seguímos por uma hora, passando-o no momento em que elle encurvava a S.O., e por isso nos desviava do rumo a seguir. As escarpas do sulco arenôso eram de três metros e muito inclinadas. Foi medonho o precipitar dos vagons n'aquelle fôsso, e compungente o trabalho dos bôis para desenterrarem aquellas enormes màchinas de transporte, e fazèrem-n-as subir nas contra-escarpas. Acampámos logo. No leito arenôso do rio algumas lagôas deixavam ver pequenas massas d'àgua lìmpida e cristallina, que alegrava os olhos cançados da aridez e secura do deserto. Corrémos pressurosos a ellas, mas aos primeiros tragos bebidos a alegria converteu-se em angustia cruciante. Aquella àgua era tão salgada como a do mar. Contudo, alguns poços cavados muito fundo, longe das lagôas, déram uma àgua quasi potavel. Era preciso tiral-a a baldes para a dar aos pobres bôis ja sedentos e cançados. Aquelle rio, ou antes aquelle leito sêco, era o do Nata, que no seu curso inferior, quando corre, toma o nome de Xua ( Shua ). Foi decidido que ficàssemos ali dois dias, por ser o immediato ao da nossa chegada um domingo, e a familia Coillard não gostar de fazer viagem em tal dia. Preparou-se para isso um melhor acampamento, podendo obter-se ramos de àrvores nas margens do rio, ja povoadas da vegetação que o paiz carece ao Norte. Pêlo meio-dia estava prompto um kiosque, e estabelecido o campo. As damas Coillard andavam n'uma labutação activa. Faziam o pão e preparavam tudo o que os poucos elementos de que dispunham lhes permittiam, para a festa do Domingo. Depois da minha ùltima febre, e dos mil cuidados e carinhos de que eu tinha sido alvo, o contacto ìntimo com aquellas damas a que a doença me tinha obrigado, modificou profundamente o meu espìrito, e senti em mim uma alteração profunda. Até ao momento de as encontrar, eu havia esquècido, no meio dos selvagens com quem só vivia, o que fôssem carinhos e afagos. O viver entre aquellas damas veio trazer-me á memoria que no mundo ha anjos, rosas perfumadas que embalsamam o caminho espinhôso da vida, frêscos oasis em que o caminheiro repousa das fadigas do deserto àrido. A lembrança de uma espôsa estremecida, e de uma filha adorada, veio estar sempre presente ao meu pensamento, avivada pêla vista constante d'aquellas duas senhôras, instrumentos innocentes e inconscientes de um soffrimento atroz que me causavam. Quantas vêzes, fatigado e doente, eu me sentava ao pé d'ellas, e por um momento era feliz, não pensando que eram para mim dois entes estranhos, lançados no meu caminho por o mais extraordinario dos acasos! Quantas vêzes inconsciente não ia curvando a cabêça aturdida, em busca de um regaço de mulhér adorada, e cahia em mim, e levantava-me e fugia! Ah! como eu as odiava então!! Este soffrimento constante, sempre alimentado pêla vista d'ellas, e exacerbado pêlos seus carinhos, traduzio-se n'um mao humor que me não deixava um momento. Perdi tôdas as formas sociaes de delicadêza, e transformei-me na imagem da mais brutal grosseria. Bastava Madame Coillard dizer uma palavra, para ser logo grosseiramente contrariada. Um dia em que eu tinha subido para o vagom bastante fatigado, ellas priváram-se de quantas almofadas tinham para se encostarem e amortecer os choques violentos de um carro sem molas, para me fazêrem um leito commodissimo. Achei-me tão bem que adormeci em caminho, velando ellas pêlo meu sono, e não cessando de arranjarem uma ou outra almofada desaconchegada pelos solavancos do carro. Madame Coillard estava contente com a sua obra. Tinha de certo tido uma viagem tormentosa, mas eu tinha estado bem, tinha dormido. Era tal a sua satisfação que não pôde deixar de me perguntar se eu havia estado còmmodamente, certa de que eu só lhe poderia responder com um agradecimento expressivo. Pois não foi assim. Disse-lhe, que o seu vagom era um vagom infernal, que eu nem mesmo havia podido dormir um momento, e que tinha passado o dia incommodadissimo. Depois d'esta brutalidade insòlita, encarei com ella, e vi làgrimas a querer marejar-lhe nos olhos. Fiquei tão furiôso que fugi para longe. Casos idènticos repetiam-se a miüdo, e no correr da narrativa apparecerám ainda. Hôje custa-me a comprehender como no meu espìrito se pôde fazer uma tal alteração, e como eu cheguei a commetter taes barbaridades. Os dois dias passados na margem do Nata não fôram dos peiores para mim. Tinha observações a fazer, trabalhos atrazados a completar, e um paiz curiôso a estudar; e isso era agradavel diversão ao meu viver monòtono do deserto. Creio que n'êsses dois dias não fui tão grosseiro como de costume. O Deserto do Calaari, nas partes em que tem àgua, é frequentado por uma população nòmada. Sam os Massaruas, a que os Inglezes dam o nome genèrico de Bushmen . Os Massaruas sam selvagens, mas muito menos do que os Mucassequeres, que encontrei junto aos confluentes do Cuando, por 15 de latitude Sul e 19 de longitude E. Greenw. Os Massaruas sam muito prêtos, tẽm os ossos molares muito salientes, olhos pequenos e vivos, e cabêllo pouco. Viéram alguns ver-nos, e eu dei-lhes tabaco e pòlvora. O seu contentamento foi grande. Voltáram de tarde, a offerecer-me um cabaz de peixe frêsco, que tinham ido pescar nas lagôas para mim. No dia seguinte, em uma excursão que fiz, visitei o seu acampamento. Vi que tinham panellas em que cozinhavam, e outros, ainda que poucos, indicios de uma civilização rudimentar. Vi uma vasta provisão de tartarugas terrestres, que elles muito apreciam como manjar. As mulheres cubriam a sua nudez com algumas pelles, e enfeitavam-se de missangas, bem como os pequenos. Tẽm por armas azagaias e pequenos escudos ogivaes. Usam ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos, e trazem nos braços e pernas manilhas de couro. Rapam o cabêllo junto das orêlhas, deixando no alto um cìrculo que vem tangente á testa. Falam uma lìngua bàrbara muito notavel pêlo modo porque nos fere o ouvido, dividindo as palavras com um estalo dado com a lìngua, a que chamam cliques . A 16 de Dezembro partímos, seguindo a margem esquêrda do rio, e parámos junto d'ella, depois de cinco horas de jornada. Os Massaruas, que chamavam Nata ao rio no ponto em que passámos o Domingo, ja lhe chamam Xua ( Shua ) ali onde acampámos, a cinco horas de caminho. Andámos sempre na margem d'êlle com os rumos de S.O., S.E., S.S.E., S.S.O. e S., o que deu um rumo medio de sul, e não resta a menor dùvida, que o Nata e o Xua sam um e o mesmo rio, que, como quasi todos os rios de Àfrica, tem diversos nomes em diversos trôços do seu curso. Esta parte do deserto é coberta de uma herva curta e rachìtica, e só aqui e àlém se vê uma ou outra àrvore solitaria. Com tudo, nas bordas do rio ha alguma vegetação, e de espaço a espaço não deixa de ser amena esta ou aquella païsagem que se nos apresenta á vista. A àgua dos poços cavados no leito do rio nem sempre é potavel, e a das lagôas é completamente saturada de saes. O terreno do deserto apresenta pequenas clareiras onde nada vegeta, e onde o solo é coberto por uma espêssa camada de saes, depòsitos de àguas evaporadas. As informações dos Massaruas a respeito de falta de àgua eram assustadoras, e nós resolvemos não avançar mais n'aquêlle dia, para aproveitarmos o mais tempo possivel alguma bôa que ali se encontrou em poços cavados profundamente. Desde que percorrìamos aquelle bôrdo do Calaari, notava eu que um fortissimo vento de leste soprava rijo nas primeiras horas da manhã; sendo que do meio dia para a tarde uma brisa suave de oeste durava algumas horas. Eu atribuo aquêlle phenòmeno constante, á influencia na atmosphera do enorme deserto arenôso que nos ficava a oeste. A arêa reflectindo o calor solar, deveria produzir uma dilatação atmosphèrica, que determinaria durante o calor a corrente branda para leste; ao passo que êsse ar lentamente dilatado de dia, seria ràpidamente retrahido pêlo frio intenso da noute, e produziria um desiquilìbrio, que originara a fortissima corrente nas primeiras horas do dia. Mr. Coillard achou prudente partir só na tarde do dia immediato, para saciar bem os bôis, antes de ir procurar àguas muito problemàticas; mas eu decidi seguir só com o meu Pépéca, e combinámos encontrar-nos nas margens do Simoane. O meu fim era sôbre tudo visitar os lagos a que os Massaruas chamam os Macaricáris . Depois de atravessar sete milhas de Macaricáris, entrei n'uma floresta, que percorri n'uma extensão de três milhas até encontrar um leito de rio, com alguma àgua encharcada, que eu suppuz devia ser o Simoane. Desci por elle até ao Grande Macaricari. Depois de um longo passeio nas cercanias, fui procurar um sitio onde calculei que os vagons deveriam passar e esperei. Só ás nove da noute, e noute de trevas profundas, o meu ouvido exercitado pôde perceber ao longe a bulha dos vagons, e caminhando para ali fui sahir-lhes ao encontro. Madame Coillard estava em cuidados, por me ver ausente tôdo o dia só com uma criança, e a primeira cousa que fez, ao parar dos vagons, foi preparar-me chá, bebida de que ella sabia eu ser àvido, e n'essa noute diz o meu diario que tomei a seguir seis grandes chàvenas d'êlle. Effectivamente, o gasto que eu fazia na provisão de chá de Madame Coillard era enorme. O ribeiro Simoane, que então era apenas uma serie de pequenas lagôas de três metros de largo, corre a Oeste no tempo das grandes chuvas, e vai entrar directamente no Grande Macaricari. Tôdo aquelle paiz, e sôbre tudo a floresta entre a qual corre o Simoane, apresentava indicios de ter chovido muito ali, e por isso as lagôas do Simoane tinham àgua, e esta era quasi bôa. No tempo sêco ellas secam, e em alguma que conserva pouca àgua, é esta tão saturada de saes que não se pode aproveitar. Desde que chegámos ás margens do Nata, em tôdos os pontos onde paràvamos, appareciam os Massaruas sempre a pedir alguma cousa. O que valia era fugirem se nos zangàvamos com êlles. Aquêlles Massaruas que sam valorosos e combatem o elephante e o leão, sam cobardes diante do homem, e sôbre tudo do branco. Só ás 4 horas da tarde deixámos aquelle ponto, onde os bôis encontravam um viçoso pasto e abundante àgua; e caminhando a S.O. fomos acampar, ás 8 horas e meia, em sitio sêco. No dia 19, depois de quatro horas de jornada a S.S.E., costeando sempre o terreno que se eleva para o Este, deparámos com o leito sêco de um rio cujas margens alimentam uma vegetação luxuriante. Os Massaruas que apparecêram logo, disséram chamarem-lhe Lilutela, e ser o mesmo que outros chamam Xuani ( Shuani ) ou pequeno Xua. Este nome de Xuani deve ter sido dado áquelle rio por gentes do sul, que falassem a lìngua Sesuto ou algum dos seus dialectos, porque n'aquella lìngua os substantivos formam o diminuitivo com a terminação ani . O Lilutela, nome que eu lhe conservo, por ser o empregado pelos povos nòmadas do deserto, tem o seu leito cavado entre uma floresta formada de àrvores gigantes, mas limpa de arbustos. Esta floresta, que começou umas nove milhas ao N. do Simoane, parece ser a orla de uma densa mata que em terreno mais elevado corre Norte-Sul poucas milhas a leste do nosso caminho. O terreno desde a margem esquêrda do rio Nata é consistente, e não arenoso como até ali. O solo é formado por uma funda camada de argila muito plàstica, e no tempo das grandes chuvas deve ser um atoleiro enorme. Um dos Massaruas que appareceu ali foi mostrar uma lagôa um kilòmetro a oeste, onde os bôis podéram matar a sêde e nós fazer provisão d'àgua. As margens do Lilutela sam cobertas por uma espêssa camada de guano, e na estação em que o rio leva àgua devem ser habitadas por milhões de aves. Seguímos no mesmo dia ás 5 da tarde, debaixo da má impressão de que não encontrarìamos àgua no dia immediato, facto que nos foi affirmado pelos Massaruas. Jornadeámos até ás 11 e meia da noute, sempre por entre a floresta pomposa. Partímos no dia 20 ás 8 da manhã, e meia hora depois, passàvamos o leito sêco do rio Cualiba, que vai ao Grande Macaricari, correndo a Oeste. A floresta ali é cheia de calhaos roliços trabalhados pêla àgua, e povoada de caracoes enormes, e buzios de grandes dimensões. Fômos acampar àlém do leito do Cualiba, para procurarmos àgua. Aparecêram alguns Massaruas, mas não nos quizéram indicar onde faziam provisão d'ella, coisa que elles usam com os forasteiros. Depois de vàrias tentativas feitas no leito do rio, pudémos obter àgua n'um pôço que cavámos um kilòmetro a jusante do nosso campo. Partímos ás 4.25 minutos, parando logo ás 5. e 10, para dar de beber aos bôis em um charco que encontrámos, formado pêla chuva, que cahia torrencial desde as duas horas. Ainda n'esse dia jornadeámos por duas horas, indo acampar ás 8, depois de termos atravessado uma parte do grande Macaricari. O Grande Macaricari. N'aquelle deserto do Calaari, paiz tão notavel, onde a natureza se comprazeu a juntar os mais disparatados elementos, onde a floresta pomposa toca a planicie àrida e sêca, onde a arêa sôlta é continuação do terreno argiloso ao mesmo nivel, onde a secura está, muitas vêzes, perto da àgua; n'aquelle deserto, que por vêzes quér imitar o Saara, outras a Pampa da Amèrica, outras os Stepes da Russia; n'aquelle deserto elevado três mil pes ao mar, uma das cousas mais notaveis é o Grande Macaricari. O Grande Macaricari é uma bacia enorme, bacia onde o terreno se deprime de 3 a 5 metros, e que deve ter no seu maior eixo de 120 a 150 milhas, e no menor de 80 a 100. Como tôdos os Macaricaris , afecta a forma pròximamente ellìptica, e tem como todos o seu maior eixo no sentido leste-oeste. Macaricaris sam, em lìngua Massarua, bacias cobertas de saes, onde a àgua das chuvas se conserva por algum tempo; desapparecendo na estação estiva, por a evaporação, e deixando ali outra vez depositados os saes que dissolvêra. Sam abundantissimos os Macaricaris n'aquella parte do deserto, e eu visitei muitos, cujos eixos maiores, sempre no sentido leste-oeste, tinham três milhas, e mais. As bacias sam de areia grossa, coberta por uma camada cristallina de saes, que atinge a espessura de um a dois centìmetros. Creio que não é so chlorurêto de sòdio o sal que forma aquella camada, ainda que é aquelle que predomina. Os depòsitos calcàreos que aquellas àguas deixam pêla ebullição, evidenceiam que os saes de cal tambem se contẽm na camada crystallina dissolvida n'ellas, em proporção notavel. Fiz collecção de muitos pedaços d'aquella camada que reveste o interior das bacias dos Macaricaris , mas, infelizmente, n'uma caixa que cahio ao mar ao embarcar no vapor Danubio , em Durban, se perdêram êlles, com outros exemplares preciosos que trazia para a Europa. O grande lago recebe na estação chuvosa um volume enorme d'àguas pelos rios Nata, Simoane, Cualiba e outros; sendo que todas as àguas que n'aquellas latitudes cahem desde a fronteira do paiz dos Matebeles, vẽm a elle, porque o terreno elèva-se progressivamente a leste até ao meridiano 28° ou 28° e 30' de Greenwich. Estas àguas, que formam torrentes enormes, devem encher o Grande Macaricari em pouco tempo. Este enorme charco communica com o Lago Ngami pêla Botletle, e o seu nivel é o mesmo d'aquelle Lago; dando esta circunstancia logar a um phenòmeno muito notavel. Estando os dois lagos distanciados de alguns graos, muitas vêzes as grandes chuvas caem a leste, e o Macaricari transborda, sem que as fontes que alimentam o Ngami tenham augmentado de volume. Então a Botletle corre a oeste do Macaricari para o Ngami. Outras vezes dá-se o caso inverso, e o Ngami envia as suas àguas ao Macaricari. Este é o seu curso natural, sendo o Ngami alimentado por um rio permanente e volumoso. ¿Mas o que succede a tôda essa àgua que de tôdos os lados corre ao grande charco? Desapparecerá só pêla evaporação? ¿Não haverá tambem ali uma grande infiltração que por conductos misteriosos e subterràneos vá dar nascença a êsses innumeros riachos, que em plano inferior correm ao mar de uma e outra costa? ¿O que é feito das àguas do Cubango, rio volumoso e permanente, que desapparece n'êsse deserto insondavel? As àguas do Cubango, na minha opinião, chêgam ao Grande Macaricari e desapparecem ali. A Botletle não é mais do que o Cubango, que tem um alargamento a que chamáram o Ngami. Sem o Grande Macaricari, a parte da Àfrica Austral comprehendida entre o parallelo 18 e o rio Orange, seria um paiz fertilissimo, e nas condições climatològicas e meteorològicas que a protegem, seria um paiz de grande futuro. Bastava o Cubango para a fertilizar. Mas o Cubango, bem como tôdos os rios que quizéram entrar no Calaari, encontrou no seu caminho um paiz arenoso e perfeitamente horizontal, que lhe dispersou as àguas, como que dizendo: "Não passareis d'aqui;" e a pouca que encontrou um esgôto, e pensou salvar-se, foi cahir no Grande Macaricari, que a bebeu àvido, sem que ainda assim podesse matar a sua sêde insaciavel. Os rios que tẽm as suas nascentes ao sul do parallelo 18, e a oeste do meridiano 27, ao norte do Orange, e a oeste do Limpôpo, não sam permanentes; e, caudalosas torrentes na estação das chuvas, não sam mais do que sulcos arenosos na estação estiva. As àguas de quasi tôdos vam a essa linha que une o Ngami ao Grande Macaricari onde se perdem, talvez para volverem de nôvo n'uma nova estação das chuvas. Algumas vêzes, como n'aquelle anno, até a Botletle mostrou aos habitantes dos juncaes das suas margens o seu fundo arenoso e branco. É bem digna de estudo esta parte d'Àfrica, ainda hôje envolvida em misterioso véo, mas tão inhòspita é ella, que por muito tempo saberá occultar os seus segrêdos aos olhos dos investigadôres scientìficos. No dia 21 seguímos ao Sul, deixando o Macaricari ás 5 horas da manhã, e fomos parar, quatro horas depois, junto de uma pequena lagôa de bôa àgua, produzida pêla chuva que cahio copiosa na vèspera. O paiz que atravessámos era coberto de vegetação arborescente, sendo o mato formado de espinheiros que difficultavam o viajar. Partímos ao meio-dia, alcançando pêlas duas horas o ribeiro Tlapam, que, ao contrario do que esperàvamos, não nos offereceu uma gôta d'àgua potavel; e por isso continuámos jornada até ás 9 horas da noute, hora em que encontrámos uma pequena lagôa permanente, a que os Massaruas chamam Linocanim ( o pequeno ribeiro ), porque esta lagôa dá nascença a um pequeno ribeiro que corre a leste, provavelmente ao rio Tati. Das 6 ás 8 horas cahio sobre nós uma horrorosa tempestade, com copiosa chuva, que encharcou o terreno, tornando difficilimo o rodar dos carros. Algumas cabras de Mr. Coillard e a minha Córa, querendo refugiar-se da tormenta, procuráram abrigar-se debaixo dos vagons, que rodavam, e uma foi logo esmagada pelas rodas. A minha Córa foi a segunda vìctima. A roda passou-lhe sobre os ilìacos, e eu, ainda que ella chegou viva a Lino Canin, supuz logo que não podia viver muitas horas. N'aquella noute foi morta no nosso campo uma cobra venenosissima. Desde o rio Nata até ali, vi mais cobras venenosas do que em tôdo o resto da viagem. Na vèspera um asqueroso e enorme sapo veio meter-se nas peles da minha cama, e ao acordar achei-me cara a cara com tão amavel companheiro. Escorpiões, centopeias e os mais repugnantes insectos, eram meus socios de cama, vindo procurar junto ao meu côrpo o calor que tão apreciado é pelos animaes de sangue frio. É preciso um hàbito constante do deserto para se poder dormir sobre umas pelles na terra dura em companhia de taes animalejos. Deve comprehender-se, que estas insignificantes bagatellas, reunidas a todas as outras causas, mantivessem o meu mao humor a uma altura constante. O tempo chuvoso continuava persistente, e o ceo sempre encoberto não me permittia fazer observações astronòmicas, o que contribuia para acirrar o meu espìrito ja muito iracundo. N'aquelle dia tôdos os meus cuidados, tôdos os meus momentos, fôram dedicados a tratar da minha pobre Córa, que morreu pêla tarde. ¡Pobre animal! Perdi em ti a ùnica grande affeição que encontrei nas terras Africanas, antes de conhecer a familia Europea que me recebeu no seu seio. Perdi em ti a companheira constante dos meus dias de tristeza, a amiga dilecta dos meus poucos momentos de alegria! ¡Pobre Córa! A sepultura que te cavei junto a Linocanim será sempre um pensamento triste na minha lembrança, e as poucas linhas que aqui te consagro, dictadas por a saudade que me deixaste, sam a expressão sincera do muito que eu te queria, pêlo muito que me eras dedicada. Agora, leitor endurecido e crìtico severo, trata-me de frìvolo pêlo pouco que acabo de escrever de assumpto que taxarás de futil, trata-me como quizeres de mal, que só me darás o direito a lastimar-te. Ha bagatellas na vida que sam verdadeiros acontecimentos para o homem que sente, meras puerilidades para aquelle a quem as paixões ja mirráram o coração. Se és dos ùltimos, ri-te de mim e deixa-me que te lastime. Não contesto que me leves grande superioridade, mas eu sou de outro feitio, e estou bem assim. Córa morrendo deixou-me uma recordação viva n'um filho que tinha, a que os Basutos de Mr. Coillard déram o nome Coranhana. A tarde do dia 22 foi tormentosa, e das 3 horas ás 6 e meia a chuva cahia torrencial. No dia immediato partímos ás 6 horas, indo parar ás 9 em um logar onde os Massaruas caváram um grande pôço, logar a que elles chamam Tlala Mabelli ( fome de mabelli ).[7] No fundo do pôço apenas encontrámos uma lama fètida inaproveitavel. Ainda n'esse dia fizémos uma jornada de cinco horas e meia, sempre debaixo de chuva copiosa. A 24 seguímos viagem, e depois de quatro horas e meia de caminho, encontrámos um pôsto de Massaruas, sujeitos ao rei Cama do Manguato. Chamam aquelle pôsto a Morralana, do nome de uma àrvore que abunda ali. Disséram-nos os Massaruas que podìamos seguir em linha recta, porque a muita chuva cahida nos dias anteriores nos faria encontrar àgua no caminho, sem o quê terìamos de fazer um grande desvio por leste para não morrermos á sêde. Ás 11 horas começou uma chuva forte que só moderou ás 2; seguímos então, mas logo ás 4 parámos, por termos encontrado uma lagôa cheia de àgua magnìfica, e sabermos pelos Massaruas, que só três dias depois poderìamos encontrar de nôvo àgua aproveitavel. ¡Triste vèspera de Natal! Eu estava n'esse dia de um mao humor atroz. Sentado dentro do vagom para me abrigar da chuva, estavam junto a mim Mr. Coillard e as damas. Elles conversavam, eu estava calado; furioso. Não sei a que propòsito Madame Coillard falou de George Eliot. Foi como o fôgo chegado á pòlvora aquelle nome que ouvi. Voltando-me para Madame Coillard, disse-lhe, que George Eliot não escrevia senão disparates, porque era uma mulhér o seu George Eliot, e que uma mulhér só podia escrever disparates. Madame Coillard, ferida por esta minha brutal aggressão, quiz discutir, mas eu só lhe respondia, que as mulheres não nascêram para escritôras, que logo que se metiam a isso não podiam deixar de escrever tolices; que o seu mistér era governar casas, e não fazer livros. Chegou a discussão ao ponto de eu ver a bôa dama commovida, e de fugir d'ali. Momentos depois cahia em mim, e avaliava tôda a extensão do meu arrebatamento, sem poder explicar como se produziam no meu espìrito taes alterações, logo que eu me dirigia a ella. Eu, o maior admirador de George Eliot; eu, que reli Romola e Adam Bede , ficando ainda com desejo de ler aquellas obras primas da cèlebre romancista Ingleza; eu que presto um verdadeiro tributo ao mèrito de Staël e Sand; eu que me ufano de ter entre os primeiros literatos do meu paiz Maria Amalia Vaz de Carvalho, a mulhér que escreveu um dos melhores livros que modernamente se tem escrito ali; eu fazendo violencia ao que pensava e ao que sentia, sustentava, contra a minha convicção, uma idéa estùpida, só e só para contrariar aquella bôa dama, que me pagava as aggressões insòlitas com mais cuidados e com mais desvelos! Amanheceu 25 de Dezembro, dia de Natal, que, sendo dia festivo e de descanço em tôdo o mundo Christão, para nós foi dia de trabalho rude, porque jornadeámos por trêze horas, em três caminhadas, e só á uma hora da noute acampámos. Era a secura do paiz que nos forçava a alargar as jornadas, e mêsmo assim, só contàvamos ter àgua três dias depois. N'êsse dia encontràmos um bando de Bamanguatos, que o rei Cama mandava a Mr. Coillard com bôis frêscos para os vagons. Por elles soubémos a nova das mortes do Capitão Paterson, Mr. Sergeant e Mr. Thomas, e alguns serviçaes, que tinham ido ao Matebelli em serviço do govêrno Inglez, e que se dizia têrem sido assassinados por Lo Bengula. A chuva tinha cessado, mas o ceo continuava sempre completamente coberto. Eu fui n'esse dia atacado de um ligeiro accesso de febre, que me quebrou as fôrças. Havia um anno que, em Quillengues, eu luctava com a morte n'aquelle mesmo dia. Estavam então junto a mim Capello e Ivens. ¡Quanto me lembrei d'elles! ¿Onde estariam? ¿Qual teria sido o seu destino no meio d'aquelles paizes inhòspitos? N'êsse triste dia de Natal, fatigado da jornada, abatido da febre, quanto me lembrei tambem dos meus! De minha filha, que fazia annos, e da festa de familia, que se fazia sem mim! Quantas familias no mundo, n'esse dia, sentadas ás mêsas que vergavam ao pêso das iguarias, desperdiçando vinhos e desprezando a àgua, estavam longe de pensar, que no sêco deserto quatro Europêos fatigados seriam felizes com alguma d'essa àgua, que por tôda a parte era desprezada! A não ser alguns d'esses entes que de perto nos tocam e que nos não podem esquècer, ¿quem se lembraria de nós em tal dia? ¡Ha momentos bem tristes entre tôdos os momentos sempre tristes da vida do explorador! No dia 26, logo de madrugada, fizémos uma primeira marcha de quatro horas, andando em uma planicie que se eleva um pouco para o sul, coberta de herva e apresentando aqui e àlém algumas pequenas matas. O terreno de areia amarello-avermelhada deixava enterrar as rodas dos vagons quasi até aos eixos, e tornava difficilima a tracção d'elles. Ainda n'esse dia fizémos duas jornadas, uma de cinco outra de quatro horas, sem percebermos o menor signal de àgua. Acampámos ás onze e meia da noute, á entrada de um valle, onde o terreno nos pareceu difficil e perigoso de transpor no meio das trevas. Ao despertar, uma formosa paizagem, formosa para olhos cançados da monotonia e aridez do deserto, nos veio alegrar a vista. O pequeno valle á entrada do qual passámos a noute era verdejante e bello. As colinas que o formavam não tinham mais elevação de 20 metros, mas eram pintorescas. Até meia altura deixavam ver a nu um agglomerado de pedras basàlticas cheias de furos, e cujas arestas puidas mostram que houve ali um persistente trabalho da àgua. Apesar da viçosa herva que cobria o fundo do vale àgua nenhuma encontrámos, ainda que ella deve correr ali em profusão no tempo das grandes chuvas. Disséram-nos as gentes Bamanguatas que se chamava aquelle sitio Setlequane. Os bôis dos vagons fugíram durante a noite, e sequiosos fôram ao longe procurar àgua, que não encontráram, sendo reconduzidos ao campo por gente que despachámos em sua busca, só ás 11 do dia. Partímos a essa hora, e três horas depois encontràvamos o leito sêco do rio Luale. Este rio, como quasi tôdos os d'aquelle paiz, só tem àgua corrente na estação das grandes chuvas, mas em tôdo o tempo pode encontrar-se alguma estagnada em alguns poços mais profundos. Todavia, ali ha àgua permanente, e sendo a primeira permanente que lhe fica ao N. em Linocanim, ha entre estes dous pontos uma distancia de 128 kilòmetros, distancia impossivel de transpor na estação estiva. Homens e bôis matáram ali a sêde, e nós decidímos seguir logo avante. Quando ìamos a partir percebémos que faltavam cinco cabras de Mr. Coillard. Fizémos seguir os vagons e as damas, ficando eu e Mr. Coillard com alguns prêtos para procurar as cabras. Eu pude por muito tempo seguir o rasto, mas perdi-o depois; e ás 6 e meia da tarde, ja noute, decidímos ir encontrar os vagons, deixando ali alguns prêtos para continuar as buscas no dia immediato. Partímos sòzinhos por noute de trevas profundas. Mr. Coillard, sempre descuidoso, e crente na protecção de Deos, ia desarmado, levando na mão uma ligeira badine ; eu, que creio em Deos, mas que tambem creio em feras no continente Africano, levava a minha melhor carabina. Uma hora depois de deixarmos o Luale, ouvímos pròximo de nós á nossa esquêrda, um desagradavel côro de hyenas e chacaes, que não podémos enxergar. Este Mr. Coillard produzia ás vêzes em mim uma impressão estranha. Ha coisas n'aquelle homem que me não é dado comprehender. Um dia, narrando-me com tôdo o calor que o seu espìrito de poeta lhe dava, um dos mais commoventes episòdios da sua viagem, me disse elle: "¡Estivémos quasi perdidos!" "Mas," retroqui eu, "o senhor tinha armas, tinha dez homens dedicados e armados com-sigo, podia, nas circunstancias que me pinta, sahir da difficuldade fàcilmente." "Não podia," me disse elle; "não podia sem matar um homem; e eu não mato um homem, nem mêsmo para me salvar e aos meus." Fiquei pasmado a olhar para aquelle homem, typo nôvo para mim, sem poder comprehender que n'aquella organização meridional e ardente podesse existir uma coragem de gêlo, uma coragem que não acha explicação no meu espìrito. Era a coragem filha d'aquellas flôres d'alma que um dos maiores poetas Portuguezes soube diffinir e descrever em phrase espressiva e bella. Era a coragem dos martyres, que a poucos é dado entender e sentir. Eu, por mim, declaro que a não entendo, e posso quando muito admiral-a. Por vêzes, na minha viagem, me encontrei no meio da floresta desarmado, ou melhor falando, sem carabina, que alguma outra arma sempre trazia; e todas as vêzes que isso aconteceu, uma inquietação vaga, uma perturbação ligeira me atribulava o espìrito. Não posso, por isso, comprehender o homem que passeia nos sertões Africanos de badine na mão, vergastando as hervas do caminho. Deve ser sublime aquella coragem, e pena tenho de a não possuir. O caminho que eu e Mr. Coillard seguìamos é povoado de feras, e o valoroso Francez dispunha-se a passal-o sòzinho e desarmado, se eu não teimasse em o acompanhar. Madame Coillard, em cuidados por nos ter deixado atrás, fez parar os vagons e esperou por nós, que a encontrámos depois de três horas de marcha. Seguímos logo, indo acampar, á uma hora da noute, junto do ribeiro Cane. Logo de manhã, appareceu o meu Augusto com as cabras perdidas, que elle encontrara de noute. Seguímos ás 7 horas, a travez de um paiz montanhoso e coberto de luxuriante vegetação, offerecendo a cada passo panoramas lindos. As montanhas correm a S.O., e todas as àguas, se as houvesse, deviam correr a leste. Depois de duas grandes jornadas, fomos acampar junto do leito sêco de um ribeiro chamado Letlotze, onde podémos encontrar àgua n'um pequeno pôço. Foi decidido que passarìamos ali o dia immediato, que era Domingo, dia em que a familia Coillard não viajava. Logo na madrugada seguinte, fomos sobresaltados por uma desagradavel noticia. Os bôis tinham ido de noute ao charco encontrado na vèspera, e tinham esgotado completamente a provisão d'àgua com que contàvamos. Os Desfiladeiros de Letlotze.] Mandou-se á descoberta, e foi o meu Catraio quem, depois de longas e demoradas pesquizas, encontrou alguma àgua muito longe do acampamento. O sitio em que estàvamos era lindissimo, e passámos ali um agradavel dia. A 30 de Dezembro, posémo-nos a caminho ao alvorecer. Eu, que acordei n'êsse dia de pèssimo humor, estava possuido de uma verdadeira raiva, e nunca cheguei a sentir tanto òdio a alguem como então senti por aquellas damas, pelo missionario, por tôdos que me rodeavam. Aquelle estado do meu espìrito atribulado exacerbou-se ao ouvir, que Mr. Coillard desejava fazer uma grande jornada n'aquelle dia. Effectivamente, entestámos com os desfiladeiros de Letlôtze, e caminhámos 25 kilòmetros sem parar. Parámos emfim, e procurei logo afastar-me do acampamento, para não fazer alguma loucura. Depois de um passeio nos arredores, voltei, e ao aproximar-me do campo por entre os arbustos, vi Madame Coillard, que falava com Mademoiselle Elise com modo contristado. Não podia ouvir o que diziam, mas o que vi foi bastante para perceber do que se tratava. Mademoiselle Elise tinha na mão a lata do chá, Madame Coillard um pires. Foi despejado no pires tôdo o contendo da lata, e divido em duas partes, uma das quaes volveu para a lata, outra entrou no bule. Era o ùltimo chá de Madame Coillard. Compungio-me tanto o ver o sentimento que se lia no rosto de uma dama Escoceza ao servir o seu ultimo chá, que o meu mao humor cahio por terra, e cahio para sempre, porque não mais volveu. Ainda n'êsse dia jornadeámos por três horas, indo acampar ás 7 e meia em sitio sêco. A nossa viajem foi sempre pêlos desfiladeiros de Letlôtze, onde um sulco profundo serpea em apertadas curvas, mostrando o leito sêco de um rio do mesmo nome. Sete vêzes atravessámos aquelle sulco, com grande risco dos vagons que se precipitavam das suas escarpas profundas e inclinadas. As montanhas que corôam aquelle desfiladeiro sam bellas, e a serra apresenta um dentado original. A 31 de Dezembro, depois de uma jornada de duas horas, entràvamos em Xoxom ( Shoshong ); a grande capital do Manguato. Ás 8 horas eu comprava um saco de batatas e outro de cebôlas; encontrava um Stanley (que não é H. M. Stanley, mas de quem terei que falar muito); e ás 11 horas comia um òptimo almôço de batatas com presunto, um magnìfico beef-steak , e apertava a mão do règulo Càma, o indìgena mais notavel da Àfrica Austral. Madame Coillard ja tinha nova provisão de chá. CAPÌTULO IV. NO MANGUATO. Com o alvorecer do dia primeiro de Janeiro vi eu começar em Àfrica um nôvo anno. Havia dôze mêzes que n'êsse mesmo dia eu tinha deixado Quilengues, e feito uma grande marcha para o interior, ainda convalescente da primeira grave doença que tive em Àfrica. Em Xoxom, um anno depois, o Dia de Anno-Bom devia ser para mim um dia de descanço, e a vèspera da ùltima perigosa enfermidade que me ameaçou a vida n'aquella longa e fadigosa jornada. Passei entre a familia Coillard aquelle dia festivo, na casa meia arruinada que pertencêra ao missionario Mackenzie, e que nós fomos occupar. No dia 2, fui á cidade, ao bairro Europeo, e em uma das casas Inglezas déram-me um magnìfico xaruto, um puro Londres . Ha quanto tempo eu não via um xaruto, e com que prazer aspirei o cheiro delicioso do tabaco Havano!! N'êsse dia apparecêram-me os simptomas de uma febre perigosa. A doença tomou um caracter assustador, e até ao dia 7 estive entre a vida e a morte. Os carinhos e desvelos que me dispensou Madame Coillard não se podem descrever, e de certo a ella devi outra vez o não ter morrido n'aquellas inhòspitas paragens. A 7 melhorei bastante, e pude receber a visita de Stanley. Stanley é um fazendeiro do Transvaal. E Inglez, mas casou em Marico com uma Böer. Viera a Xoxom vender batatas e cebôlas, eu comprei-lhe um saco de cada coisa, e aluguei-lhe o vagom para continuar a minha viagem. N'aquelle dia pude falar largamente com elle e concluímos o contrato. Por esse contrato o vagom ficava ao meu serviço, bem como elle, que seria apenas o driver (conductor), devendo obedecer-me em tudo e por tudo. O homem tambem impoz uma condição que aceitei, e foi, a de passarmos por sua casa, para que a mulhér o não julgasse comido pelos leões. Stanley disse-me logo, que não iria àlém de Pretoria, porque tinha um filho pequenino longe do qual não podia viver. Tive de transigir no contrato com os affectos paternaes do fazendeiro Transvaaliano. Stanley é homem de trinta annos, alto, barba e cabello muito louro, physionomia vulgar e nada enèrgica, um typo completamente opposto ao seu homònymo o grande Stanley. Não era sem um certo acanhamento que eu o tratava por aquelle nome. Depois de longa conferencia, ficou decidido que elle estivesse prompto a partir no dia 13, retirando-se em seguida tão satisfeito comigo como eu ficara com elle. O Manguato, ou paiz dos Bamanguatos, occupa na Àfrica Austral uma àrea que se não pode precisar bem, tão vasta é ella. Ao Sul do Zambeze e ao Norte do parallelo 24, a Àfrica é dividida, de mar a mar, em três grandes raças superiores e distinctas. A leste, os Vatuas ou Landins, cujo chefe é Muzila. Em seguida, os Matebeles ou Zulos, cujo chefe é Lo-Bengula. A oeste, os Bamanguatos, cujo chefe é Cama. Muitos, grandes e pequenos grupos, de raças inferiores, estam sujeitos a estas três raças dominantes, e incontestavelmente superiôres ás outras. Taes sam entre os Matebeles os Macalacas, entre os Bamanguatos os Massaruas. Àlém d'estas, outras castas formam aqui e àlém pequenos grupos, e as povoações dos juncaes da Botletle, e do Ngami, sujeitas ao rei Cama, e os Baniaes e outros povos de leste sujeitos a Lo-Bengula, sam de differente origem. Estes três grandes potentados sam inimigos,[8] e usam bem differente polìtica. Cumpre-me aqui só falar de Cama, e por isso deixarei em silencio o que poderia dizer dos outros dois poderosos règulos, cujos paizes não visitei. O Manguato era, ha poucos annos, governado por um velho imbecil e bàrbaro. Era o pai de Cama. Cama, Christão convicto, educado pelos Inglezes, homem civilizado, de elevada intelligencia e superior bom-senso, não podia ter as bôas graças de seu pai, e ainda que primogènito, e por isso herdeiro legal do poder, soffria uma guerra sem trègua do velho imbecil, que trabalhava para fazer seu successor a seu filho segundo Camanhane. Cama, querendo evitar as intrigas que em Shoshong ( Xoxom ) lhe moviam os inimigos, retirou-se prudentemente para a Botletle; mas em caminho tôdo o seu gado foi disperso pela sêde, e reunido pelos Massaruas foi levado a seu pai. Cama reclamou o que era seu e lhe foi negado, tendo por ùnica resposta, que o fôsse elle mesmo buscar a Shoshong , que ali lhe cortariam a cabêça. Elle replicou, que iria, e marcou o comêço da primavera seguinte para isso, avisando que estivessem preparados para o receber. Effectivamente, apresentou-se no Manguato á frente de uma respeitavel fôrça reunida na Botletle e no Ngami, e tendo batido em differentes combates a gente de seu pai, tomou a cidade de Xoxom pouco depois. Foi acclamado règulo, e seu pai depôsto. Entregou a seu pai tôdo o gado e riquêzas que lhe pertenciam; deu bôa esmola a seu irmão Camanhane, mandando-os viver para o sul junto de Corumane. Um anno depois, Cama chamava seu pai e seu irmão para junto de si, e fazia-lhes os maiores beneficios. Todavia o pai e o irmão, logo que se acháram vivendo na capital, conspiráram contra o generoso règulo, que, desgostoso por se ver envolvido em novas intrigas, entregou o govêrno a seu pai, e retirou-se para o Norte. Os Bamanguatos porem tinham apreciado o govêrno sabio de Cama, e não podiam aturar outro règulo; o que deu logar a que fôssem em massa buscar o filho e de nôvo deposessem o pai. Este quiz retirar-se para Corumane e levou Camanhane comsigo, mas Cama, sabendo da pobreza em que estavam, ainda os encheu de beneficios. Esta ùltima scena da historia do Manguato passou-se sete annos antes da minha estada ali, e desde então o poder de Cama consolidou-se completamente. Cama, nas guerras que sustentou com os seus e com estranhos, adquirio reputação de grande capitão. No tempo em que estive em Shoshong , Camanhane ja vivia ali, ainda que não tem a menor ingerencia nos negocios pùblicos. Cama perdoou-lhe, chamou-o para junto de si e enriqueceu-o. Ao contrario de tôdos os governos indìgenas d'Àfrica, o de Cama não é egoista. Antes de pensar em si mesmo pensa elle primeiro no seu pôvo. Uma grande parte d'êsse pôvo é Christã, e tôdos andam vestidos á Europea. Nem um só Bamanguato deixa de ter espingarda, mas não se vê nunca um homem armado n'aquelle paiz, fora das florestas. Cama nunca traz armas. Vai repetidas vêzes ao bairro missionario, que fica a dois kilòmetros da cidade, e volta por noite fora, só e desarmado. Não ha outro chefe em Àfrica que o faça. Tem este règulo 40 annos, ainda que parece muito mais nôvo. É alto e robusto, mas a sua physionomia inculca pouco. Tem modos distinctos, e o seu trajar á Europea é apurado e de um aceio exquisito. Como tôdos os Bamanguatos, é destro cavalleiro, bom atirador e afamado caçador. Quasi tôdos os dias Cama almoçava comigo em casa de Madame Coillard, e sentava-se á mesa com os modos e distincção de um cavalheiro Europeu. Cama é muito rico, mas a sua riqueza é partilhada pêlo seu pôvo. Ha annos, veio um flagello aos campos Bamanguatos, e sobreveio a fome, mas o pôvo de Shoshong não a sentio. Cama comprou cereaes em tôda a parte, só em uma semana gastou cinco mil libras esterlinas, mas a sua gente têve de comer. É bello ver a respeitosa amizade com que tôdos o saudam quando passa nas ruas. Não é o cortejar a um rei, é o saudar a um pai. Elle visita as casas dos pobres e as dos ricos, e a tôdos anima ao trabalho. Os Bamanguatos trabalham muito. Nos campos ajudam as mulheres no amanho das terras, e ja empregam a charrua importada de Inglaterra. Àlém de grandes cultivadôres, sam pastôres e tẽm muitos gados. Em casa trabalham a curtir pelles e a cosel-as com nêrvos de antìlopes, fazendo ricas coberturas que usam no inverno. No tempo da caça sam caçadores, e as abestruzes e os elephantes sam perseguidos por elles. Em tôdos êstes misteres sam animados pêlo seu chefe, que os visita, ja nos campos, ja no labutar domèstico. Sam muito amigos dos Europêos, e aquelle que chêga ao Manguato está tão seguro como na Europa. Cama anda sempre só, e quando, muito é seguido por dois criados acavallo. Elle anda sempre acavallo. ¿Como no meio de tantos povos bàrbaros se acha um tão differente d'elles? Deve-se isso aos missionarios Inglezes, e não posso deixar no escuro os seus nomes. Três homens trabalháram n'aquella grande obra. Com a mesma imparcialidade com que até aqui tenho falado dos prêtos, vou agora falar dos brancos, e se não deixo de convir que muitos missionarios, e muitas missões Africanas, sam estereis, ou antes contraproducentes, preciso admittir, por factos que vi, que outras dam verdadeiros resultados, pêlo menos apparentes. O homem é fallivel, e tirado do meio social em que foi creado, privado dos confôrtos que lhe conchegáram a infancia, perdido, por assim dizer, no meio dos povos ignaros da Àfrica, habitando um clima inhòspito, comprehènde-se que sôffra uma profunda modificação no seu espìrito. Esta deve ser a regra geral que tem excepções. As excepções sam os homens verdadeiramente fortes, aquelles que apoiam a sua moral n'aquellas flôres d'alma que tão bem descriptas fôram pêlo grande poeta da Beira, aquellas flôres d'alma que dam o olvido ao mesquinho pêlo amor trahido, que dam confôrto ao nàufrago quando a esperança de alcançar a terra se perde, ás quaes se encommenda o monje ao soffrer o martyrio dado pelos bàrbaros onde foi levar a civilização.[9] Os homens que as possuem, podem, entregues a si mesmos, caminhar ávante e attingir um fim sublime; mas estes homens sam verdadeiras excepções. A materia é fraca, e mais fraco ainda é o espìrito humano. Se assim não fôra, dispensavam-se as leis e os govêrnos, e a sociedade estaria constituida em outras bases. Bastavam as flôres d'alma para governarem o mundo. As paixões a que está sujeito o homem levam muitas vêzes o missionario, que é homem e fraco por ser homem, a seguir um caminho errado. A luta entre cathòlicos e protestantes nas missões Africanas sam um exemplo d'isso, sam a demonstração incontestavel de que as paixões más podem actuar no missionario como em qualquer outro mortal. Os missionarios protestantes (os maos ja se entende) dizem ao prêto, que "o missionario cathòlico é tão pobre que nem tem com que comprar uma mulhér!" aviltando assim o homem; que tão aviltado é o pobre entre os povos Africanos como entre os Europeus. Por outro lado, os cathòlicos empregam toda a sorte de traça para desvirtuar os protestantes. D'essa luta nasce a revolta, e produz-se a esterilidade de muitas missões, onde concorrem missionarios de crenças diversas. Falei n'isto incidentalmente para mostrar, que os missionarios tem paixões e erram. Essa é até a regra geral. Ao sul do tròpico o paiz está coberto de missionarios, e ao sul do tròpico a Inglaterra sustenta uma guerra constante com as populações indìgenas. É porque o mao trabalho de muitos desfaz o que alguns construem de bom. Deixemos porem em paz os maos, e falemos dos bons. Dizia eu, que três homens trabalháram na obra da civilização relativa (e para mim apparente) do Manguato. Digo apparente, porque estou convencido de que o règulo que substituir Cama, se não quizér admittir o missionario, levará com-sigo a população inteira, que não hesitará entre a doutrina de Christo, que não entende, e o serralho que lhe delicía a lascivia; que não hesitará entre o padre e o règulo. Mas essa civilização do Manguato é hôje notavel a tôdos os respeitos, e o primeiro homem que trabalhou n'ella foi o Rev. Price, creio que o mesmo que ultimamente foi encarregado da missão de Udjidji no Tanganika, e que tão infeliz foi na primeira viagem. O segundo foi o Rev. Mackenzie, o actual missionario de Corumane; e o terceiro aquelle que ainda hôje prega o Evangelho aos Bamanguatos, o Rev. Eburn; que eu não tive a honra de conhecer, por estar ausente em viagem de missão, mas cujas qualidades pude apreciar pelas suas obras que vi, como pêlo respeito que lhe tributam indìgenas e Europêos. É com o maior prazer que cito estes nomes dignos, e merecedores de serem apontados como exemplos aos trabalhadores da civilização Africana; é tanto maior a minha satisfação fazendo-o, que não conheço pessoalmente nenhum d'estes distinctos cavalheiros. Shoshong ( Xoxom ) é a capital do Manguato. O valle de Letlotze alarga para o sul, tomando uma largura de três milhas, e continuando a ser enquadrado por altas montanhas. É no valle encostada ás montanhas do Norte que assenta a cidade dos Bamanguatos, cidade populosa de 15 mil almas, e que em tempos do pai de Cama chegou a contar trinta mil. As montanhas rasgam-se ali para deixar passar uma torrente que se forma nos tempos chuvosos, e que divide um bairro da cidade. É no fundo d'essa garganta, mesmo, por baixo das altas montanhas de rochas àridas cortadas a pique, que os missionarios estabelecêram as suas vivendas. O sitio foi pessimamente escolhido, porque é hùmido e insalubre. Provavelmente, a falta d'àgua (falta d'agua, que se faz cruelmente sentir em Shoshong) determinou aquella escôlha, fazendo aproximar os missionarios ao leito do ribeiro, onde na estação estiva alguns poços fornecem àgua á população sedenta da cidade de Cama. As casas em Shoshong sam construidas de caniço e côlmo, sam cilìndricas com tectos cònicos. Estam divididas por bairros, e um labyrintho de ruas estreitas e tortuosas lhes dá accesso. No bairro missionario existem as ruinas da casa do Rev. Price, a casa do Rev. Mackenzie muito deteriorada, onde eu habitei, e a igreja abandonada, por ser pequena para conter a multidão que concorre aos officios divinos. Isto a oeste, ou na margem direita do córrego. A leste, ou na margem esquêrda, uma edificação nova, melhor situada do que as outras, é a residencia do actual missionario. Todas estas edificações sam de tijolos com tecto de ferro estanhado. Ruinas da casa do Rev. Price (Xoxon).] Do lado oppôsto da cidade, em planicie livre, está situado o bairro Europêo, e as casas de tijolos mostram as moradas dos negociantes Inglezes. N'uma d'essas casas, a de Mr. Francis, ha um pôço que fornece àgua á colonia Britànica. Os Inglezes em Àfrica não sam como os povos dos outros paizes, e por isso vam mais longe do que elles, ainda que o seu temperamento e a sua ìndole estam muito longe de igualar a dos povos da raça Latina, em bôas condições para resistir ao clima e associar com o gentio. Um Inglez decide ir negociar para o sertão, mete em um vagom tôda a familia e tôdos os havêres, e parte. Chêga, edifica logo uma casa, rodea-se de tôdas as commodidades que pode ter, e diz com-sigo: "Eu vim aqui para fazer fortuna, e se a não fizér em tôda a minha vida, tenho de passar aqui essa vida. Procuremos pois passal-a bem." Não pensa mais na Inglaterra, esquece o passado e olha só para o presente e para o futuro. Nostalgia nenhum tem. Outros ha, e muitos, de classe inferior, que não querem mesmo voltar á patria, e que se estabelecem logo para sempre. N'isto consiste a sua fôrça colonizadôra. Outra cousa que os Inglezes fazem logo é introduzir a libra esterlina em toda a parte. Chêga um indìgena com marfim, pelles, pennas, ou outro gènero do commercio, e quer pòlvora, armas, etc. Os Inglezes não entendem permutações directas. Dam-lhe o valor em libras, e vam vender-lhe ao outro lado do armazem o que o gentio carece. Ao principio custa; mas o indìgena vai-se habituando, vai conhecendo a vantagem do dinheiro, e depois ja não quer outra cousa. O negociante assim sabe bem o negocio que faz. Ha no Manguato um negociante Inglez, de que terei que falar muito ao diante, Mr. Taylor, que ja chegou a introduzir em Shoshong o papel de crèdito. Lêtra passada por elle é recebida pêlo chefe Cama e por muitos gentios ricos. Depois d'êste ràpido esbôço que acabo de fazer do Manguato, não posso deixar de falar na minha posição em Shoshong , que era verdadeiramente crìtica. Tinha a fazer uma grande viagem para alcançar Pretoria, o ponto mais pròximo onde poderia alcançar meios de uma autoridade Europea; tinha de pagar dìvidas ja feitas com a sustentação da minha gente, estava sem roupa; os meus prêtos, cobertos de andrajos, pediam-me algumas jardas de panno para se vestirem, e eu não tinha dinheiro algum. Mr. Coillard offerecia-me a sua bôlça, mas bem precisa lhe era ella para que eu ousasse aceital-a. Queria mesmo saldar algumas dìvidas que com elle contrahira, por saber que elle tinha a fazer ainda uma longa viagem, e não lhe sobejarem os meios. O meu embaraço era grande, e tristissima a minha posição. Eram estas as minhas circunstancias, quando, no dia 8, acompanhei Madame Coillard a fazer uma visita á familia Taylor. Mr. Taylor tem sido um grande viajante, ja estêve no Zambeze, conhece tôdo o Transvaal, a Colonia do Cabo e todos os paizes do sul d'Àfrica. Estabelecido definitivamente no Manguato, a sua casa é uma das primeiras casas commerciaes de Shoshong . Só em marfim a sua exportação orça por trinta mil libras por anno. Mr. Taylor é homem sèrio e de grande crèdito. Mr. Taylor era casado, havia três annos, com uma joven e formosa Ingleza, de cabellos e olhos prêtos. Dotada de uma educação esmeradissima, Madame Taylor embalsama o ambiente que a cerca com esse perfume que envolve toda a mulher de sociedade. Junto d'ella, n'esse dia, cheguei a esquècer-me de que estava no remoto sertão Africano, para me julgar transportado a um salão do West-End em Londres. A conversação estabeleceu-se entre mim, Madame Taylor, Madame e Mademoiselle Coillard, e veio a pello falar-se da minha pròxima viagem. Disse-se, que me era impossivel viajar n'aquelle paiz sem um cavallo, e a propòsito d'isso, Mr. Taylor convidou-me a ir ver os seus. Chegados á cavallariça, elle apontou-me para um magnìfico corredor do deserto, castanho claro com cabos prêtos, e disse-me: "Eis o cavallo que lhe convem para viajar e caçar." Eu conheci logo o grande valor do animal, que pêlas cicatrizes miúdas e redondas assignaladas sôbre os curvilhões, me mostrava ter tido a horse-sickness , e estar por isso á prova, sendo o que ali se chama um cavallo salé . As outras qualidades eram reveladas pelas pernas finas e nervosas, apresentando uma musculatura desproporcional, pescôço longo e pouco guarnecido de clinas, olhar vivo e intelligente, cabêça sêca e elegante, e abundantissima cauda. Ficáram me os olhos n'aquelle bello animal, e triste disse a Mr. Taylor, que não tinha dinheiro para lh'o pagar. " Yes , me disse elle, it is a valuable horse " (Effectivamente, é um cavallo de grande valor). Voltámos á sala, e eu não pude deixar de falar ás damas do formoso animal que acabava de examinar. Pouco depois voltàvamos a casa, e pêlo caminho Madame Coillard mostrava a maior afflicção pêla minha falta de recursos, em quanto Mr. Coillard redobrava de offerecimentos sinceros da sua ja magra bôlça. As noutes que passàvamos na casa do Rev. Mackenzie eram horriveis. Aquella casa deshabitada ha muito, estava cheia de insectos asquerosos, que nos sugavam o sangue, roubavam o sono, deformavam as feições e atormentavam a paciencia. Eram milhões de carrapatos e milhões de persovejos. Umas carraças semelhantes ás dos cães no sul da Europa, castanhas e chatas, mas que depois de saciadas tomavam a forma esphèrica e uma côr esbranquiçada, produziam inflammações horriveis no sitio onde mordiam. Era um supplicio indescriptivel aquelle. Depois de uma d'estas pèssimas noutes, Madame Coillard tinha-me mandado chamar para o almôço, e ja ìamos para a mêsa, quando se fez annunciar Mr. Taylor. Dirigio-se a mim, e com esse ar frio e seriedade de tôdo o legitimo Inglez, disse-me, que me vinha trazer o cavallo castanho que eu tinha admirado na vèspera, duzentas libras que eram tôdo o ouro que n'aquelle momento tinha em caixa, e me offerecia ainda o seu crèdito, tanto junto dos outros negociantes do Manguato, como em Pretoria, se eu carecêsse d'elle. Declaro que cahi das nuvens com tal offerecimento nem de leve sollicitado, e que apenas pude balbuciar algumas palavras banaes de agradecimento; de tal modo fiquei commovido. Mr. Taylor almoçou com-nôsco, e em seguida eu acompanhei-o a sua casa. Montava ja o sobêrbo cavallo, e sentia essa sensação de prazer que tôdo o cavalleiro sente ao montar um formoso animal, sôbre tudo quando está privado d'esse prazer ha muito tempo. Falámos largamente dos meus negocios, e eu não aceitei o dinheiro, contentando-me com o cavallo que me era muito preciso, e admittindo que elle pagasse as minhas dìvidas ja contrahidas em despêsas de viagem, que montavam a cento e oito libras, e sacasse sôbre mim em Pretoria, onde contava haver dinheiro do govêrno Inglez. Mr. Taylor, por um requinte de delicadeza, sacou a dois mêzes de vista sôbre o meu aceite que devia ter logar em Pretoria. A 10 de Janeiro acabava eu de pôr em dia os meus trabalhos, e preparàva-me para a partida. Não posso deixar de citar aqui os nomes de Mr. Benniens, Mr. Clark, e Mr. Musson, que me dispensáram os maiores favôres e coadjuváram a minha partida; estando eu certo de que, sem o anticipado cavalheirismo de Mr. Taylor, teria encontrado n'elles o apoio monetario de que carecia. Em vista dos favôres que ali recebi de estranhas gentes, não pude deixar de lançar um golpe de vista ao passado, e recordar-me de Caconda e do Bihé. O parallelo que estabeleci entre o apoio que encontrei nos sertões concorridos por Portuguezes e Inglezes, veio mais uma vez confirmar a minha opinião, sôbre a qualidade das gentes que de Portugal vam aos sertões Africanos. Tenho viajado muito e conhêço muitos povos. Nenhum vi ainda tão hospitaleiro e tão bondoso como o Portuguez. Quantas vêzes, nas minhas caçadas, eu tenho ido bater ás portas dos aldeões das nossas serras, e sempre as tenho visto abrir de par em par ao forasteiro que pede um abrigo. O pobre aldeão reparte com o hòspede o melhor da sua ceia, e da enorme caixa enfumada sahe o melhor do seu bragal para a cama do desconhecido. Subindo da cabana do pôvo rude ás casarias do lavrador abastado, e d'ahi ás habitações solarengas, em tôdas vemos revelada a hospitalidade Portugueza n'uma simples indicação. Tôdas tẽm os quartos para hòspedes. Quando um Portuguez edifica uma casa, não pensa só na familia e nos seus, pensa tambem no forasteiro que lhe pode vir pedir abrigo, e edifica para elle. É que para o Portuguez o estranho que chêga é recebido como familia, na choupana do pobre e no palacio do rico. Este traço na vida material de um pôvo que edifica contando com o hòspede, define a sua hospitalidade. É por isso que grito bem alto, que não sam Portuguezes os homens que me recebêram mal em Caconda e no Bihé. É por isso que eu verbero acerbamente o systema de mandar para as colonias o que ha de mais baixo, vil e ignobil entre os criminosos da Metròpoli. É ali que está uma das causas mais determinantes do atraso de muitas das nossas ricas possessões. Ali está o escolho em que esbarra muitas vêzes a acção do govêrno. Em Caconda só encontrei estôrvos á minha viagem. No Bihé êsses estôrvos recrescêram, e não se limitáram a exercer uma acção local; acompanháram-me até ao Zambeze. Ali no Manguato só encontrei bôa vontade, só encontrei auxílio, e era quem mais podia fazer por mim. Isto não se commenta. Durante a minha estada em Shoshong , era ali a ordem do dia a morte do Capitão Paterson e dos seus companheiros no paiz do Matebeli. Corriam versões differentes, mas todas concordes em que elles fôram assassinados por ordem de Lo-Bengula. O Capitão Paterson sahira de Pretoria encarregado de uma missão official junto de varios règulos Africanos; missão de que involuntariamente tive conhecimento por um d'estes com quem elle tratou, e sôbre a qual guardo a maior reserva, pêlo respeito que me merecem todas as missões particulares dos governos. Acompanhava-o Mr. Sergeant e alguns serviçaes, e no Matebeli reunìra-se Mr. Thomas, joven Inglez, filho de um missionario ha muito residente no Matebeli, e elle mesmo nascido ali. O Capitão Paterson, depois de tratar o que tinha a tratar com Lo-Bengula, decidio ir ver a maravilha Africana, a cataracta de Mozioatunia. O joven Thomas pedio licença ao règulo para acompanhar aquella expedição, licença que lhe foi concedida. Na vèspera da partida porem, um dos favoritos do règulo foi procurar o môço Inglez, e disse-lhe em nome do seu chefe, que não acompanhasse o Capitão Paterson. Mr. Thomas foi procurar Lo-Bengula, e perguntar-lhe porque lhe negava a permissão antes concedida. Lo-Bengula respondeu-lhe, que elle tinha sido criado pelos Matebelis, e por isso era querido como um filho da tribu. Que tinha um presentimento de que alguma desgraça poderia acontecer áquelles Inglezes, e por isso o aconselhava a ficar ali e a deixal-os seguir sós. Mr. Thomas disse-lhe, que não se importava com os presentimentos, e foi. Não devia voltar como os outros dous Inglezes. ¿O que se passou? ¿Quem o saberá? Só o terrivel Lo-Bengula. Uns, diziam, que fôram envenenados, outros mortos a tiro; mas eu, que conheço o systema dos grandes potentados Africanos, duvido de que alguma cousa certa se possa saber nunca; porque elles matam logo os executôres das suas sinistras ordens, e fêcham o segrêdo dos seus crimes em novas sepulturas. Tudo quanto se dizia para provar uma ou outra opinião eram razões, talvez plausiveis, para quem não conhecesse a Àfrica, mas para mim não. Diziam, por ex., que os Macalacas que, por ordem de Lo-Bengula, os tinham acompanhado, apparecêram depois com galões e outros objectos furtados aos Inglezes, o que provava que houvera assassinio e roubo. Isto não provava nada; porque, se êlles tivessem morrido de morte natural, as suas bagagens seriam logo saqueadas. Diziam outros, que, faltando a àgua, o chefe da caravana Matebeli fôra explorar terreno sòzinho, e voltando muito tempo depois, indicara um pequeno charco pouco distante, e que o Capitão Paterson ao beber d'aquella àgua dissera, " estou envenenado ." ¿Quem veio contar isto, se ninguem da gente d'elles escapou? Noticias de origem Matebeli diziam, que elles tinham bebido àgua de uma lagôa naturalmente envenenada, e por isso tinham morrido tôdos. Isto é outro absurdo. Tôda a àgua das lagôas Africanas é veneno, mas não é veneno que mate n'um dia como o arsènico e os saes de mercurio, ou como muitos alcaloides vegetaes. O veneno d'aquellas àguas infiltra-se no organismo, deteriora-o lentamente, pode matar com o tempo, porque é o miasma palustre e não outra cousa; mas não destroe a vida algumas horas depois de absorvido, e caso produzisse esse effeito em uma organização especial, não o produzia de certo em tanta gente. Assim, pois, é tambem inverosimil a versão do envenenamento natural. Outros affirmavam, que elles fôram traiçoeiramente fusilados; alguns diziam, que fôram mortos a azagaias. ¿Quem trouxe a nova? Parece que houve crime, porque não é possivel que a febre matasse n'um dia tanta gente, e entre ella, gente aclimada no paiz, como o joven Thomas e os indìgenas; parece que houve crime, mas se o houve o segrêdo ficará entre Deos e Lo-Bengula. Um dos viajantes Africanos que me merece mais crèdito, Mr. François Coillard, que ainda se demorou muito em Shoshong depois da minha partida d'ali, assegurou-me na Europa, muito tempo depois, que o rei Cama conhecia o segrêdo da morte d'aquelles infelizes, e deixou-me perceber, que um crime horroroso fôra praticado por ordem do malvado Zulo.[10] A 11 de Janeiro, havia na casa derrocada que habitàvamos um labutar incessante. Eram Madame e Mademoiselle Coillard a preparar-me provisões para a viagem. Faziam biscoutos com pròdiga largueza. ¿Como poderei eu jàmais agradecer tantos favôres? N'aquelle dia tambem recebi presentes de Madame Taylor. Um grande açafate de cakes e um cestinho de ovos, cousa bastante rara em Shoshong . No dia immediato estava prompto a partir, mas decidí seguir viagem no dia 14, não querendo deixar Shoshong a 13. Eu não tenho preconceitos, nem antipathias com nùmeros, mas d'essa vez o embirrar com o 13 foi desculpa dada a mim mesmo, para me demorar mais um dia com essa bôa familia a quem tanto devia. Pude ali alcançar alguns cobertôres de pelles, d'aquelles que os Bamanguatos fazem para seu uso, e que sam cosidos com nêrvos de antìlopes. Pêlas minhas observações achei uma differença enorme na posição de Shoshong , marcada em uma carta de Marenski que possuia Mr. Coillard. No dia 13 fiz as minhas despedidas aos negociantes Inglezes, exceptuando Mr. Taylor, que estava ausente a seis milhas de Shoshong, no seu pôsto de gado. Apesar d'o meu caminho ser ao sul, e o pôsto de gado de Mr. Taylor ao norte, decidi ir la no dia 14 fazer as despedidas a quem tanto me obrigara. Effectivamente, n'êsse dia de manhã, segui para la. As damas Coillard e Madame Clark partíram adiante em uma carriola puxada por dois cavallos. Eu sahi muito depois, em companhia do règulo Cama e de Mr. Coillard. Eu, n'esse dia, tinha de fazer a primeira jornada no caminho de Pretoria, e essa jornada era de dôze milhas, para poder alcançar àgua potavel, o que, com outras dôze que eu ia andar de manhã, perfazia um total de 24, o que é um pouco forçado n'aquelle clima. Seguímos pois acompanhados de dôze cavalleiros Bamanguatos. Logo que deixámos as ruas da cidade, o chefe Cama deu de esporas ao cavallo e partio, mão baixa. Depois de uma corrida vertiginosa de meia hora, passou elle ao galope. Perguntei-lhe ¿para que era aquella pressa? e elle respondeu-me, que era assim que se andava no Manguato, e que os cavallos descançavam bem no galope, para darem outra corrida. Disse-lhe, que tinha razão, mas que o meu cavallo tendo de fazer uma grande marcha n'esse dia, talvez não entendêsse isso como elle. Que não queria ir de encontro aos hàbitos dos cavalleiros Bamanguatos, mas que me desse elle um dos seus cavallos, e mandasse o meu para Shoshong , onde eu o encontraria frêsco para a jornada d'esse dia. Mandou Cama logo apear um dos seus que voltou á cidade com o meu Fly , em quanto eu montava uma êgua magnìfica que elle deixava. Seguímos a toda a brida, e d'ahi a pouco estàvamos no pôsto de Mr. Taylor. ¡Tìnhamos gasto cincoenta e cinco minutos! Madame Taylor fez-nos servir um magnìfico lunch, e depois das mais cordiaes despedidas voltámos a Shoshong . O systema da volta foi o mesmo da ida, brida e descançar no galope! Os Bamanguatos não usam freios nos cavallos, e apenas os dirigem com um bridão Inglez. Dizem elles que os freios e as barbellas não deixam correr os cavallos. Chegámos em um momento a Shoshong . Stanley estava prompto a partir, e só esperava o meu signal. Dei-lhe esse signal, e elle fez estalar o longo chicote por sôbre as cabêças dos bôis, que se poséram lentamente a caminho, arrastando o pesado vagom. Com elle fôram os meus prêtos, á excepção de Augusto e Pépéca, que ficáram comigo. Passei ainda algumas horas com as damas Coillard, mas era forçôso deixal-as, e fazendo soberanos esforços para occultar a minha commoção, disse-lhes um ùltimo adeos, saltei sôbre o cavallo e parti. Tive a coragem de não me voltar em quanto as podia ver! O sol desapparecia ja no horizonte quando deixei Shoshong . Segui o caminho que me foi indicado, e três horas depois, entendi que estava no ponto onde devia pernoitar, mas o vagom não apparecia. Era tarde da noite, e noite de trevas profundas. Chamei, gritei, e ninguem respondeu. Poucos momentos depois, apparecêram-me dois indìgenas. Eram vedêtas de Cama, que receioso de um ataque nocturno dos Matebelles, guarda a sua cidade com uma linha contìnua de sentinellas a muitas milhas de distancia. Estam estas atalaias tão bem dispostas, que podem soccorrer-se, e fazer um momento face ao inimigo, em quanto alguns homens correm á cidade nos ligeiros cavallos a dar o alarme. Os dois homens que me apparecêram acabavam de rondar os postos do sul, e afiançáram-me, que, havia muitos dias, nem um só vagom tinha tomado aquelle caminho; asseverando, que eu devia ter passado pêlo meu antes de chegar ali. Estava muito habituado á vida das florestas para que passasse, mesmo nas trevas, pêlo vagom sem o ver, e se me escapasse a mim, não escaparia ao meu Pépéca, que tem olhos de lince. Os dois Bamanguatos proposéram-me o acompanhar-me a buscar o vagom e partíram comigo. Depois de explorarmos uma grande parte do valle sem encontrarmos vestigios da carroça, cahimos de nôvo em Shoshong , desesperados, acabrunhados de fadiga, e sem poder explicar o caso. Eram altas horas, ¿e que fazer? Resolvi ir bater á porta de Mr. Coillard, e esperar o dia. Mr. e M_me. Coillard levantáram-se logo, e em quanto eu narrava o acontecido ao missionario, Madame Coillard só pensava em me dar de comer e em me preparar bôa cama. Eu até ali, como depois, dormia sôbre a terra em umas pelles, a despeito dos esforços de Madame Coillard em me querer dar uma cama; como as minhas pelles tinham partido no vagom, ella n'essa noite aproveitou o ensejo de se vingar da minha reluctancia, e fêz-me uma cama Europea. Não podémos decifrar o enigma, e reservámos para o dia seguinte o desvendar o misterio do desapparecimento do meu Stanley. Eu, quebrado de fadiga, fui dar bôa ração ao cavallo, e cahi extenuado no leito. Apesar do cançaço, não pude conciliar o sono, porque uma anciedade horrivel me confrangia o coração. Como ja disse, encontrei uma grande differença na posição de Shoshong em longitude, e tôdas as minhas observações eram chronomètricas e referidas á ùltima observação que fiz do eclipse do primeiro satèlite de Jùpiter. Essa posição nova só me podia ser confirmada, por uma nova cotisação dos chronòmetros em longitude determinada, e esses chronòmetros, que eu não sabia onde estavam por ignorar onde estava o vagom, iam parar no dia seguinte por falta de corda. A poucos será dado comprehender o que eu soffri com esta idéa. CAPÌTULO V. DE SHOSHONG A PRETORIA. Mal se adivinhava o alvorecer da manhã, e ja eu estava a pe e vestido. Os chronòmetros não se me tiravam da idéa, e a preoccupação era grande e motivada. Mr. Coillard participava do meu sobresalto, e não me quiz deixar partir sòzinho. Mandou pedir um cavallo ao rei Cama, e seguio comigo no rasto do vagom. Tive de fazer novas despedidas ás damas Coillard, e novamente senti os desgôstos d'aquella separação. Em breve eu e Mr. Coillard deixàvamos Shoshong , e nos internàvamos no esteval que cobre os campos ao sul da cidade. Seguìamos o rasto do pesado carro, quando mui pròximo divisámos um nêgro sentado junto ao caminho. Ao acercar-nos d'elle eu conheci-o. Era o meu muleque Catraio. Caminhou para mim, trazendo nas mãos um objecto volumoso, e ao abeirar-me, disse-me, " Sinhô , dê cá as chaves para tirar os relogios da mala, que sam horas de dar corda." Exultei ao ver a mala dos instrumentos onde estavam os chronòmetros, e sem pedir ao muleque explicações do desapparecimento do vagom, saltei do cavallo, e entreguei-me ás minhas observações matinaes quotidianas. Estava escrito que durante a minha longa jornada os meus chronòmetros não teriam nunca de parar! Catraio, sempre vigilante por aquella obrigação, velava por elles. O missionario ficou sorprendido com o cuidado do prêto. Ali, como em Embarira, Catraio tinha impedido os chronòmetros de pararem, como durante as minhas mais graves doenças o tinha feito. Catraio fôra educado por um Portuguez, que desde pequeno lhe conheceu a bossa da velhacaria, e que têve o cuidado de lh'-a desenvolver á pancada. O muleque, perdida a vergonha, que talvez nunca têve, em breve perdeu o mêdo ao castigo, e fêz-se bêbado e ladrão. Seu amo, a quem elle chegou a fazer um roubo importante com arrombamento de um cofre, isto aos dôze annos, decidio desfazer-se d'elle para sempre, e mandou-o deitar á margem em Nôvo-Redondo. Quando em Benguella eu procurava um muleque intelligente e ladino para o meu serviço particular, mais de uma pessôa me falou em Catraio, que a fama das tratantadas tornara conhecido. Dirigi-me ao que fôra seu amo, e consegui que elle o mandasse buscar a Nôvo-Redondo. Ao ver a physionomia expressiva e intelligente do prêto, fiquei satisfeito com o passo que dera chamando-o a mim. Catraio até ali tinha sido levado á pancada, eu resolvi tratal-o por bons modos, nunca lhe falei na sua vida passada, nunca lhe fiz uma recriminação. Sendo elle o prêto mais intelligente de todos aquelles que me cercavam, eu incumbi-o de me ajudar nos meus trabalhos scientìficos. Catraio, que não sabia ler ou escrever, conheceu em poucos tempos todos os meus instrumentos e todos os meus livros. Quando, separado dos meus companheiros, me vi sòzinho em Àfrica, tive uma grande apprehensão, lembràndo-me que, durante uma doença, os meus chronòmetros poderiam parar. Chamei o Catraio e fiz-lhe o seguinte discurso edificante: "Fica sabendo que de hôje em diante, tôdos os dias, logo de madrugada, tu tens de te apresentar diante de mim com os chronòmetros, thermòmetros, baròmetro e caderno diario, isto esteja eu são ou muito doente, longe ou perto, ficando tu na intelligencia, de que não tens desculpa nas circunstancias mais extraordinarias, se o não fizeres. Agora escuta-me bem. Nunca te bati como nunca te ralhei, mas, se os chronòmetros pararem por falta de corda, eu espèto-te n'um enorme espêto de pao, e asso-te vivo nas brazas de uma enorme fogueira." Catraio, que não acreditava muito que um branco fôsse bom, e que desconfiava mais da brandura do meu trato do que das pancadas habituaes, julgou ter descoberto a minha maneira de castigar uma falta, e o espêto de pao e a fogueira aterráram-n-o. Começou a trazer tôdas as manhãs os instrumentos, a coisa foi passando a hàbito, e eis a razão porque, ainda nas minhas mais graves doenças, os chronòmetros tivéram corda e fôram comparados; eis a razão porque em Embarira Catraio, com risco de vida, os foi empalmar aos Macalacas; eis a razão porque ainda n'aquelle dia fôram salvos de parar, porque elle, vendo que eu não chegara na vèspera, mesmo de noute se pôz a caminho e me veio encontrar á hora propria. Livre da apprehensão que me torturava, tratei de interrogar o muleque sôbre o facto do desapparecimento do vagom, e soube que o Inglez se tinha enganado, e tinha tomado um caminho transversal pêlo bom caminho, mas que, logo ao alvorecer, partiria, e iria esperar-me no logar ajustado para o encontro na vèspera. Eu e Mr. Coillard seguímos no bom caminho, e ás 9 horas encontrámos o vagom. Mandei fazer o almôço, e ao meio-dia separei-me d'êsse homem a quem devia tanta gratidão, e cujos favôres sam d'aquelles que não se podem retribuir nunca, porque tudo que por elle eu fizesse pesaria, em uma balança justa, muito menos do que tudo o que recebi d'elle. Parti immediatamente, e fui acampar ás quatro horas, em sitio sem àgua. N'essa noute, quando ia a deitar-me, senti o galope de um cavallo, que me chamou a attenção. O meu Fly rinchava, e os cães ladravam e arremettiam para o lado de Shoshong . Pouco depois, chegava ao meu campo um cavalleiro Bamanguato, e entregava-me uma carta e um embrulho. A carta dizia, que fôra encontrada em casa a minha espingarda Devisme, e Mr. Coillard apressava-se em mandar-m'a. Escrevi-lhe algumas palavras de agradecimento, e remunerei o portador, que voltou logo a tôda a brida. No dia immediato, 16 de Janeiro, parti á uma hora da madrugada, alcançando ás três horas uma lagôa, ùnica àgua permanente que existe entre o Limpôpo e Shoshong . N'esse dia ainda fiz duas jornadas, uma de três outra de quatro horas, acampando pelas cinco da tarde. Das quatro ás dez da noute a chuva cahio torrencial, inundou-me o vagom, cuja cobertura velha e esburacada nada abrigava, e causou-me perdas sensiveis, sendo a maior, tôdo o pão e biscoutos preparados por Madame Coillard, que ensopados n'àgua se tornáram em massa não aproveitavel. Na marcha ùltima d'esse dia tive de alterar o meu rumo que era Sul, e meti a S.E., para evitar os accidentes do terreno, que tornavam difficilimo o rodar do vagom, e ameaçavam despedaçal-o a cada momento. O vagom de Stanley era uma velha carriola, meio apodrecida e desconjuntada, e que a cada passo parecia querer desfazer-se. No Deserto.] Só ás 8 horas do dia seguinte, depois de uma jornada de três horas, entrei no meu rumo, entrando no caminho abandonado na vèspera. O terreno continuava accidentado, mas era preciso seguir n'elle. Ao descer uma eminencia, as rodas de um lado do vagom entráram n'um sulco profundo, e o vagom tombou, ficando encostado a duas àrvores que lhe amparáram a queda. Eu ja desconfiava que o meu Stanley não prestava para nada, mas tive a convicção d'isso no primeiro embaraço que encontrámos. O homem, ao ver o vagom tombado, sentou-se, fechou as mãos na cabêça e julgou-se perdido. Mandei dejungir os bôis, e fui estudar a maneira de levantar o carro sem o despedaçar. Augusto, Verissimo e Camutombo fôram cortar três fortes e compridas estacas, que amarrei ao vagom e por meio de cordas dadas ás àrvores do outro lado, consegui sustental-o na sua posição natural, empregando para isso apenas uma junta de bôis. Em seguida, enchi o sulco com paos e folhagem, para que as rodas d'aquelle lado podessem descançar ao mesmo nivel das do outro lado. Este trabalho durou mais de quatro horas, e quando consegui pôr o vagom em estado de rodar e mandei jungir os bôis, ao primeiro esfôrço que elles fizéram, a corrente tirante partio-se em bocados. Nova demora, nôvo trabalho a ligar os elos da corrente partida com tiras de couro de girafa, isto debaixo de uma chuva torrencial, e o meu Stanley sempre pasmado e sem saber o que havia de fazer. Consegui partir ás três horas e meia, mas tive que parar logo depois, porque o temporal recresceu, e o terreno argiloso encharcado não permittia o rodar do vagom, que, muito abalado pêla queda, se desfazia em pedaços. A tempestade foi horrivel até ás 10 horas da noute, e durante duas horas, os raios cahiam muito pròximos, lascando as àrvores da floresta. O terreno, sempre accidentado, é coberto de mata espêssa, que vegeta n'um solo de argila muito plàstica. Fly, o meu Cavallo do deserto. (De uma photo. feita em Pretoria.)] No dia 18, parti ás seis da manhã, e meia hora depois entrava n'uma planicie completamente encharcada, e onde as rodas do carro se enterravam na argila até aos cubos. Fazia-se um kilòmetro por hora n'aquelle terreno difficil. Ás 10 horas pude alcançar uma pequena eminencia, mais enxuta, onde parei. Estava junto á margem esquêrda do Limpôpo, conhecido ali pêlo nome de rio dos crocodilos. Fui logo ao rio, que tem ali 50 metros de largo, com uma corrente de 30 metros por minuto. Não tinha meio de lhe avaliar a profundidade. O tempo tinha melhorado, e eu, ao deixar o rio, segui parallelamente á margem, deixando Fly ir a passo, as rèdeas largas e pendentes. De repente, o meu fino cavallo fitou as orêlhas, rinchou e precipitou-se de um salto no meio do esteval, começando em uma carreira desenfreada. Sem saber explicar o caso, sobresaltei-me e tentei sostel-o, mas elle não queria obedecer ao freio. Nada tranquillo e pensando que o nobre animal fugia por evitar um perigo, estava perplexo, quando percebi diante de mim um rumorejar nas estêvas, e vi os cornos retrocidos de alguns ongiris . Percebi tudo; eu não fugia, perseguia. Desde esse momento comecei a ajudar o cavallo, que ganhava terreno sôbre os ligeiros antìlopes. Quanto tempo durou aquella corrida vertiginosa não sei. Passei matas, onde ficáram os restos dos meus andrajos, com alguma pelle do meu côrpo, passei clareiras e planicies, onde os antìlopes e cavallo se atascavam em lôdo. O cavallo ganhava terreno, mas lentamente, só tarde me acerquei dos ongiris e pude atirar-lhes. Um cahio, e os outros seguíram mais ligeiros ainda, instigados pêlo mêdo que lhes causou o estampido do tiro. Fly parou, e foi cheirar o animal, que se estorcía nas vascas da morte, com o mesmo prazer com que o faria um cão de caça. ¿Onde estava eu? ¿Onde me ficava o vagom? Não o sabia; porque não sabia a que rumos tinha andado. Isso preoccupava-me um pouco, mas eu lembrei-me de caminhar a leste até encontrar o Limpôpo. A esse tempo, um enorme temporal cahio sobre mim. Era-me impossivel carregar o antìlope sôbre o cavallo, porque não tinha fôrça para isso. Decidi abril-o, e tirar-lhe os intestinos, a ver se então o poderia elevar do solo. Bastante pràtico no serviço de magarefe, em breve concluí aquelle trabalho. A minha esperança não foi perdida, e pude, ainda que a custo, guindar o animal sôbre o arção, onde o amarrei. Fly perseguindo os Ongiris.] Puz-me a caminho para leste, mas Fly embirrou em querer caminhar ao norte, e comecei a pensar que talvez o cavallo tivesse mais razão do que eu, e deixei-o tomar aquelle rumo. Uma hora depois, avistava o vagom, onde a minha gente não estava sem receios, pêla demorada ausencia que tive. Era ja tarde, e estava extenuado de fadiga; por isso decidi ficar n'aquelle ponto. Ao anoutecer, apparecêram ali uns prêtos do règulo Sesheli que iam a Shoshong , e por elles escrevi ao missionario Coillard, a prevenil-o do mao estado dos caminhos, e a dizer-lhe, que não seguisse o meu rumo. Durante a noute cahio uma horrorosa tempestade, e de nôvo ficámos encharcados. Apesar d'isso, a fadiga do dia trouxe o sono e dormi profundamente, para acordar com uma dôr horrivel no sangradouro do braço direito. Levantei a manga da camisa, e fiquei trèmulo ao ver um enorme escorpião nêgro que me picara o braço n'aquelle ponto mesmo, sôbre a artèria brachial. Era impossivel sarjar sem ferir a artèria, empregando para isso a mão esquêrda, com a qual sou pouco geitoso, e o receio de aggravar a situação fazendo algum disparate, levou-me a decidir não fazer nada. Em poucos minutos a inchação era enorme e as dôres violentissimas. No maior desespêro, tomei três grammas de hydrato de chloral e cahi em modôrra. Era alto dia quando sahi d'aquelle sono, provocado pêlo poderoso anesthèsico. As dôres tinham abrandado, e só existia uma inflammação local, com um tumor do tamanho de uma ervilha no sìtio do ferimento, tumor que só desappareceu mêzes depois. O engorgitamento dos tecidos era grande, e tolhia-me os movimentos. Apesar d'isso, ainda fui caçar n'êsse dia, e tanta caça encontrei que resolvi ficar ali. Matei dois leopardos. A noute foi de tempestade, e os insectos torturáram-me. Alguns leões rondáram o campo, e fizéram-nos estremecer com os seus rugidos estridentes. Seguímos ás 8 horas do dia 20, mas o terreno argiloso, encharcado da chuva, pegava-se ás rodas do vagom, e formava blocos que as impediam de girar, sendo a câda momento preciso tirar-lh'-os a machado. Foi um fadigante labutar, e ás 10 horas parei, porque estàvamos todos extenuados de fadiga. A chuva cahia forte, e só podémos de nôvo por a caminho o vagom ás 2 horas, parando ás 4 e meia junto do rio Ntuani. Ao chegar ali, uma triste decepção nos esperava. O rio Ntuani, que é um riacho sem importancia, e quasi sempre sêco, tinha 60 metros de largo, e deu-me, nas sondagens que fiz junto á terra, 7 metros d'àgua. Impossivel era atravessal-o com um vagom, antes de muito tempo. Tratei, pois, de acampar ali, e construí para isso um bom acampamento, de barracas cobertas de herva. Havia muitos dias que eu andava completamente molhado, mas felizmente a minha saude não se ressentia d'isso. A nossa posição era melindrosa, porque tìnhamos falta de vìveres, e havia ja dois dias que estàvamos reduzidos a uma alimentação puramente animal, e so tìnhamos para comer a carne da caça que eu matava. Não havia perigo da fome, e eu não reciava d'ella em paiz de caça como aquelle; mas comer só carne assada, sem sal nem outro condimento, é duro e pouco hygiènico. O tempo melhorou um pouco, e eu pude continuar caçando. Um Inglez, em Shoshong , dèra-me muitos cartuxos das armas Martini-Henry, que serviam perfeitamente na Carabina d'El-Rei, e eram os que eu então empregava com grande resultado. Tìnhamos carne em abundancia, mas eu ja não a podia soportar. Fazia uma nova collecção de pelles, e a facilidade que me offerecia o vagom para o transporte d'ellas, como a nenhuma necessidade que teria de as vender, deixàva-me a esperança de que estas chegariam á Europa.[11] Na manhã de 21, vi com prazer que o rio baixara trinta centìmetros durante a noute. Comi uma perna de puti ( Cephalophus mergens ), saltei sôbre o meu Fly, e parti para a caça. Na orla de uma mata marginal do Ntuani, o meu nobre cavallo começou n'um correr desenfreado. Eu ja sabia que ia em perseguição de caça, mas não via nada. Corri assim por meia hora, e só então avistei por sôbre os arbustos do matagal uns pequenos pontos nêgros que se moviam com rapidez prodigiosa. Era nôvo para mim o animal que perseguia, e só n'uma clareira me pôde ser a verdade revelada. Quatro abestruzes fugiam diante do meu Fly, que nem um só momento lhe perdia a pista, apesar das voltas furtadas que davam. Entrámos em planicie descoberta, e ali comecei a tomar um verdadeiro interesse n'aquella caçada de nôvo gènero. Fly era o meu mestre. Abandonei-lhe o freio, tomei as rèdeas do bridão, e deixei-o ir. O valente animal agradeceu-me o alìvio que lhe dava com um relinchar de alegria, e seguio mais ràpido. As abestruzes, ainda que podendo produzir uma carreira mais veloz do que o cavallo, não a podem sustentar como este, e param a miúdo. Era isso que me fazia ganhar terreno sôbre as ligeiras aves. Algum tempo depois ja não era preciso mais do que o galope para as acompanhar, e chegáram a parar a sessenta metros de mim. Estavam alcançadas, e na primeira corrida poderia atirar-lhes. Assim foi, e pouco depois a Carabina d'El-Rei fazia ecoar na planicie o estampido da sua dupla descarga. Junto das enormes aves estava eu perplexo, e sem saber o que fizesse, deixava pastar o meu nobre cavallo; quando me apparecêram Augusto, Verissimo e Camutombo, que andavam caçando tambem e ouviram os meus tiros. Disséram-me elles estar perto o acampamento, e por isso mandei depenar cuidadosamente as abestruzes, e esperei o fim d'aquelle trabalho para voltar com elles ao vagom.[12] Ao chegar ali, verifiquei que o rio tinha descido setenta centìmetros. Ainda n'esse dia até á noute o nivel da àgua baixou de quarenta centìmetros, o que perfazia desde a vèspera 1 metro e 40 centìmetros. Eu punha as minhas marcas n'um ponto onde a escarpa vertical me permittia medir as differenças de nivel, mas o meu Stanley não entendia assim, e espetava paos n'um sitio em que a barreira descia com inclinação suave, o que dava em resultado elle contar jardas quando eu contava centìmetros. A cada momento elle vinha muito contente dizer-me que o rio tinha baixado dois pés. O dia 23 amanheceu bonançoso e lìmpido, promettendo muito, porque o rio baixou dous metros e meio durante a noute. Senti logo de manhã uma grande gritaria, e indagando o caso, sube que haviam desapparecido as botas do meu Inglez, que se achava descalço. Depois de varias conjecturas sôbre aquelle importante facto, elle chegou á conclusão, de que os chacáes lhe tinham furtado as botas e os haviam comido. Eu nunca pude explicar o caso, mas elle explicava-o assim. O facto era que o pobre homem tinha de continuar descalço e, eu nada lhe podia fazer, porque àlém de as minhas botas serem pequenas para o seu enorme pé, só tinha umas tambem. Passei o dia caçando, e á noute pude fazer observações astronòmicas, e determinar a posição da confluencia do Ntuani com o Limpôpo. Durante êsse dia o nivel da àgua baixou de 1 metro e 60, mas durante a noute conservou-se estacionario, e tendo chovido na madrugada de 24, recéei nova enchente. Muitas vêzes ouvi a Mr. Coillard narrativas de casos idènticos ao meu, em que um vagom tinha de estacionar junto a um miseravel ribeiro (tornado sobêrbo com as chuvas), por um mez e mais. Essa idéa aterrava-me, e resolvi estudar o rio, a ver se seria possivel a passagem do vagom. Achei effectivamente um ponto onde a àgua me dava pêlo pescôço em tôda a largura, e determinei passar ali. Stanley, ja habituado com o meu modo de decidir questões, começava a não achar nada extraordinario. Assou-se muita carne, e almoçámos. Quando estàvamos a terminar o almôço, ouvímos grande alarido na margem opposta, e vimos que chegavam um comboio de vagons e dois homens brancos. Puz-me a observar o que elles faziam, e vi que depois de mandarem um muleque metter-se no rio, muleque que voltou á margem logo que a àgua lhe cobrio a cintura, contentáram-se de espetar pauzinhos para marcar o nivel d'àgua, dejungíram os bôis, e acampáram. Olhei para as minhas marcas e vi-as cobertas com um centìmetro de àgua. O Ntuani crescia de nôvo. Descarreguei immediatamente o meu vagom, e mandei Augusto e Camutombo passar as cargas, á cabêça, no sitio onde eu reconhecêra o vao. Os meus dois prêtos pêla sua fôrça hercùlea, e pêla destreza adquirida no hàbito de superar difficuldades, faziam a admiração dos dois brancos e dos nêgros que os acompanhavam. Uma hora depois, estavam tôdas as cargas na margem direita, e eu dava ordem a Stanley, espantado d'aquillo tudo, para jungir o gado. Logo que tudo estêve prompto, fiz que Augusto se metêsse a través do rio, levando a soga dos bôis da frente, que nadáram sem difficuldade, seguidos dos outros, sendo que três juntas tomáram pé na outra margem antes de que o vagom entrasse na àgua. Era o que eu queria. Então gritei a Augusto e Camutombo para tanger, e n'um momento o vagom precipitou-se nas àguas do rio. Stanley, agarrado ao carro, têve um momento de enthusiasmo, e ajudou a manobra. Eu, logo que vi o vagom salvo na outra margem, atirei-me vestido ao rio, e nadei para la. Chegado que fui, disse ao Catraio que me desse roupa enxuta, isto é, as ùnicas camisa e meias que eu tinha fora do côrpo, e fiz a mudança. Os dois Europeos, que ao ver-me chegar a terra caminháram para mim, suspendêram-se a dez passos, vendo que comecei logo a despir-me. Depois de mudar de roupa, penteei os meus longos cabellos e barba, que estavam encharcados. Logo que terminei o meu toilet , os dois sujeitos acercáram-se e disséram-me os dois mais sonoros " Good morning, sir ," que tenho ouvido. Correspondi ao comprimento, e perguntei-lhes d'onde vinham. Disseram-me sêrem dois negociantes Inglezes, Mr. Watley e Mr. Davis, e irem para Shoshong , tendo deixado Marico havia um mez. Eu disse-lhes tambem quem era, e d'onde vinha. Ao saberem que eu chegava de Benguella, os dois sertanejos não podéram conter a sua admiração, e disséram-me, que ja se não espantavam com o que me víram fazer ali n'aquella manhã. Fôram êstes os primeiros comprimentos que recebi pêla minha viagem, e é-me grato o recordal-os, porque fôram aquelles que mais impressão me fizéram, pêla rudeza com que fôram formulados, e por virem de homens endurecidos nas lides Africanas. Dei-lhes caça, e elles déram-me uns biscoutos, chá, assucar e sal. Passámos o dia no mais agradavel convìvio, e a 25 de manhã, depois de se têrem encarregado de uma carta para Mr. Coillard, deixei-os, seguindo no meu caminho. O rio tinha de nôvo tomado àgua, e por isso deviam ter ali ainda muita demora; motivo porque Mr. Davis decidio seguir só com alguns prêtos para Shoshong , deixando com os vagons a Mr. Watley. Mr. Davis, no momento em que eu ia a partir, fez o que eu tinha feito na vèspera e atravessou o Ntuani a nado. Parei junto ao Limpôpo; ao meio-dia, depois de marcha de três horas. Uma Vista do Alto Limpôpo.] Muito fatigado, e precisando de pôr em ordem alguns trabalhos, não sahi a caçar. Estava sentado junto á margem do rio desenhando a paizagem, quando senti perto um tiro, e um steinbok passou correndo junto a mim, e precipitando-se no rio começou a nadar para a outra margem. A àgua, que em volta d'elle se tingia de sangue, e o esforço que empregava ao nadar, mostravam-me que ia mal ferido. Augusto appareceu correndo e chegou ainda a tempo de ver o resultado do seu tiro. O antìlope ia quasi attingir a outra margem, quando a àgua se revolveu em tôrno d'elle, uma cauda verde-nêgra e dentada espadanou as ondas, e steinbok e crocodilo desapparecêram no pego. Estava destinado que eu não provasse da saborosa carne do pequeno herbìvoro. Augusto, tão valente como bruto, queria por fôrça ir matar o crocodilo, "que roubou minha caça," dizia elle. O bom do prêto estava furioso. Ainda n'esse dia fiz uma jornada de uma hora, não indo mais àlém, por encontrar muita caça. Ja caçava mais para obter pelles do que alimentação, porque ja abandonàvamos a carne, tanta era ella. Montes termìticos junto ao Limpôpo.] O meu Stanley, depois que se vio sem botas, não sahia de dentro do vagom, e passava o tempo a comer e a dormir. A 26, fiz, logo de manhã, uma jornada de cinco horas, subindo sempre a margem esquêrda do Limpôpo. Mal tìnhamos parado, Augusto veio dizer-me, que andava pastando perto um enorme chucurro (rhinoceronte). Passei ràpidamente o freio ao cavallo, que ainda não tinha desaparelhado, montei e segui Augusto. O enorme pachiderme ja sentira o rumor do campo, e puzera-se ao largo. Avistei-o a quinhentos metros, e ainda que Fly fez o seu dever, tive em breve de renunciar á perseguição da fera, que se internou em mato tão emmaranhado que impossivel me era seguil-a. É notavel que, tendo eu atravessado de Benguella até ali, visse o primeiro rhinoceronte junto ao Limpôpo, onde hôje sam raros, pêla grande caça que lhe fazem os Böers. Outro animal que abunda no Calaari, de que por vêzes avistei bandos, e que nunca pude matar, fôram as girafas. É tão ligeiro e sustentado o seu correr, tão penetrante a sua vista, tão fino o seu ouvido, que difficil é chegar ao alcance de tiro, quando uma grande demora no paiz não permitte ao caçador empregar a astucia. Depois de ter desistido da perseguição do chucurro, voltei ao campo, quando encontrei Augusto que vinha no meu seguimento. Elle poz-se ao lado do cavallo e veio conversando comigo. De repente, junto a uns arbustos, vi-o apontar a arma e fazer fôgo. Acavallo, e por isso tendo a cabêça muito mais alta do que elle, eu não vi a que tinha atirado o meu prêto, quando deveria ser o primeiro a avistar a caça. Perguntei-lhe o que fôra aquillo, e elle respondeu-me, entrando no mato, e arrastando um leopardo que não estava a mais de seis metros de nós. Voltei ao vagom, em quanto Augusto ficou a esfolar o bicho. De tarde ainda fiz uma jornada de três horas, por terreno muito accidentado e coberto de floresta densa. Ao passar um còmoro, avistei o Zoutpansberg , que marquei a leste. O sìtio onde acampei para passar a noute é conhecido dos Böers, e tem o nome de Adicul . Não havia lua, mas o ceo estava lìmpido, e resolvi fazer observações, para determinar aquella posição. Esta circunstancia foi causa de evitar uma grande desgraça. Eu tinha obtido no Manguato uma lanterna para magnesio, que ali fôra deixada por Mohr, ou outro, e que não servia, por falta do combustivel. A mim servia ella, porque eu tinha muito fio de magnesio. Empregava-a eu para ler de noute os nonios dos instrumentos. N'essa noute, tinha acabado de ler no nonio do meu sextante Casella, a altura da Canopus ([Grego: a] do Argus) no momento da sua passagem meridiana, e fazia horarios pêla Aldebaran ([Grego: a] do Touro), quando a dez passos de mim, rebentou um trovão medonho. O meu Fly, preso a uma das rodas do vagom, deu tal puxão á corrente que fez mover o pesado carro, e os bôis entráram de golpe no recinto onde estàvamos, tremendo em convulções de mêdo. Larguei o sextante e peguei na carabina, sempre pousada junto a mim. Augusto virou o foco da luz para a brenha d'onde sahira o rugido feroz, e alumiou as cabêças sobêrbas de dois enormes leões. As feras fascinadas pêla luz deslumbrante da combustão do magnesio, n'um momento de hesitação que tivéram, déram-me o tempo de apontar firme; os dois tiros succedêram-se com o intervallo de poucos segundos, e ambas cahíram fulminadas. Voltei-me para o vagom, onde senti um barulho infernal, e vi que Camutombo fazia esforços inauditos para segurar o meu Fly, que se levantava, e assustado forcejava por partir a corrente. O meu Inglez estava mettido no vagom de espingarda na mão, e ameaçava matar todas as feras do continente Africano se ellas se atrevêssem a atacar os seus bôis. Os meus bôis fôram salvos.] Deixei aos prêtos o prazer de esfolarem os leões, e era bello ouvir o que cada um dizia de si mesmo n'aquella conjunctura. Não havia um só que se tivesse assustado, e para o fim creio mesmo que cada um ja contava aos outros que os leões haviam sido esganados por elle. Creio que só dois homens ali não tivéram mêdo, e esses fôram Augusto e Verissimo. Augusto, que me allumiou firme, e Verissimo, que me disse muito descançado: "Eu nem peguei na espingarda, porque o S_nr. ia atirar, e eu sabia que os leões estavam mortos." Larguei a carabina para pegar de nôvo no sextante, e tomar as minhas alturas da Aldebaran ; occupação de que tinha sido distrahido por tão importunos hòspedes. Ia-me deitar, quando novos rugidos de leão se fizéram ouvir. Sem termos um campo fechado, eu receei pêlo que pudesse succeder, e passei a noute velando com tôda a gente junto ás fogueiras. Os rugidos duráram tôda a noute, e a elles respondia com o ressonar sonoro o meu Stanley, que estendido dentro do vagom, sonhava talvez com aquelle filho pequenino de que se não podia separar, ou quiçá com as botas que não tinha. Parti ás 6 da manhã, para parar ás 9, sempre junto á margem do rio. Ao acampar, todos pensáram mais em dormir do que em comer, e Stanley, que não tinha velado a noute, offereceu-se obsequioso para vigiar pêlos seus bôis. Ás 4 da tarde, depois de uma bôa refeição de carne assada (a carne n'esta parte da viagem occupa o logar do massango de alguns mêzes antes), partímos de nôvo, indo acampar, ás 8 e meia da noute, junto ao rio Marico. O alvorecer do dia 28 veio mostrar-me que eu estava n'um sitio baixo e pantanoso, pouco arborizado e deserto. Mal tinha acabado de fazer o meu toilet , quando Stanley se acercou de mim e começou a dizer-me, que as saudades do filho pequenino e a falta de botas, o impediam de continuar ao meu serviço. "Que d'aquelle ponto sahia um caminho transversal, que o levaria em oito dias a sua casa, e que, por isso, elle, os seus bôis, e o seu vagom, deixariam de estar ás minhas ordens desde esse dia." Declarei-lhe, que se enganava, que elle tinha feito um contrato comigo diante de Mr. Coillard, e que esse contrato era para me servir até Pretoria. O homem recusou-se terminantemente a passar d'ali. Mostrei-lhe que a razão estava do meu lado, por tanto não cedia, uma vez que eu tinha a felicidade de juntar á minha justiça a fôrça. Este ùltimo argumento foi efficaz, e o homem vio que eu não recuaria ante o empregar a força, e por isso acommodou-se, protestando a favor dos bôis e do vagom, sua propriedade. O Augusto, que logo de madrugada tinha ido caçar, voltou pêlo meio-dia, e disse-me, que perto havia encontrado um acampamento de Böers. Disse-lhe, que me guiasse para lá, montei a cavallo e segui o meu fiél prêto. Um quarto de hora depois, entrava no campo dos Böers. Muitos vagons collocados parallelamente, entre elles algumas cubatas de caniço e palha; montes de despojos de caça; um alpendre com um tôrno de tornear madeira; um cercado com bôis e muitos cavallos--eis o aspecto do acampamento de Böers nòmadas que encontrei. Algumas mulheres, de vestido de chita e toucas brancas, acarretavam àgua de um pôço. A uma porta, duas, que não tinham nada de feias, descascavam enormes cebôlas. Uma porção de pequenos, sujos e esfarrapados, brincavam sôbre um chão enlodado. A minha entrada fez sensação, e uma mulhér velha, e ainda mais feia do que velha, veio arengar-me. Não entendi uma só palavra das que me disse aquelle estafermo, e só percebi, ao abeirar-me d'ella, que era ainda mais porca do que feia e velha. Para responder á fala da mulhèrzinha, que tinha empregado o Hollandez corrompido dos Böers, escolhi o Hambundo, e respondi em lìngua do Bihé. Estàvamos pagos e entendidos. Ella não percebeu uma só das minhas palavras, como eu não entendi uma só das suas. Eu, sempre perseguido pêla velha, fui-me approximando das raparigas das cebôlas, que eram ao menos novas e bonitas, e falei-lhes em Inglez, Francez, Portuguez e Hambundo, sem poder fazer-me comprehender. Chamei o meu Augusto, que ja arranhava algumas palavras de Sesuto, aprendidas no Barôze e no convìvio das gentes de Mr. Coillard, e disse-lhe, que perguntasse áquellas meninas, se não haviam homens ali. Elle dirigio-se a ellas, mas foi logo interpellado pêla velha. Com custo, por meio d'aquelle intèrprete, sube, que os homens andavam á caça. A velha, sabendo pêlo Augusto que eu não era Inglez, mudou de modos para comigo, e creio que começou a tratar-me melhor. As raparigas mettiam as cebôlas em um panellão enorme, e punham-n-as ao fôgo nadando em àgua. Pouco depois, chegavam uns sete homens a cavallo. Havia um velho de longa barba branca, cinco entre trinta e quarenta annos, e um rapazola de dezoito ou dezanove. Apeáram-se e viéram cercar-me. O velho falava bem Inglez, e um dos outros falava um pouco. Pudémos entender-nos. Expliquei-lhe quem era e d'onde vinha, duas cousas que elles não entendêram muito bem, e disse-lhes, que era Portuguez, e não Inglez, porque ja tinha percebido que elles não gostavam dos Inglezes. Contei-lhes o caso do meu Stanley me querer deixar, e o velho disse-me logo, que mandasse descarregar o vagom e despedisse o homem, porque elles me dariam meios de continuar a viagem. Não quiz ouvir aquillo duas vêzes, e mandei logo o Augusto buscar o vagom para ali. No entanto, os Böers recebiam-me com franca hospitalidade, e até a velha ja se sorria para mim. ¡Que hediondo sorriso! Pouco depois comia cebôlas cosidas e carne assada. Aquelles Böers, em quanto a provisões, só tinham mais do que eu cebôlas. Chegou o vagom que mandei descarregar, despedindo logo o seu dono, que se retirou satisfeito, como eu fiquei satisfeito por me ver livre d'elle. Falei aos Böers, mostrando-lhes a necessidade que tinha de seguir o mais depressa possivel, e elles promettêram-me, que no dia immediato teria um vagom e bôis. Á noute, elles contáram-me, que tinham feito parte d'essa immensa leva de emigrantes, que, logo depois da annexação do Transvaal, tinham fugido ao jugo estrangeiro, e caminhado ao norte, inconscientes do que faziam, e ignorantes dos perigos do Calaari. Seiscentas familias que se internáram no inhòspito deserto víram os seus gados mortos ou dispersos pêla sêde, e fôram vìctimas do passo precipitado e inconsciente que déram. A vanguarda, em nùmero de vinte-e-tres pessôas, podéram alcançar o Ngami, mas os seus gados iam esgotando os pequenos charcos, e aquelles que os seguiam encontravam a morte junto ás lagôas deseccadas. Ao nùmero dos poucos que ainda conseguíram voltar, pertenciam aquelles que me davam a hospitalidade franca dos Böers. Encontráram, ali junto ao Limpôpo, tanta caça, que decidíram ficar n'aquelle sitio, e viviam uma vida nòmada, acampando nos logares mais proprios ás suas explorações venatorias. No dia seguinte, em quanto as raparigas me serviam um almôço de carne e cebôlas, regado com òptimo leite, os homens preparavam um vagom ao qual jungiam apenas quatro juntas de bôis. O velho disse-me, que iria para tomar conta do vagom seu neto, um rapaz de 16 annos chamado Low, levando com-sigo um seu irmão, pequeno de 12 annos, de nome Christophe. Os bôis dos Böers fôram-me passar o vagom para àlém do Marico, o que foi difficil, por o rio ir bastante cheio; e depois das melhores despedidas, fiz a primeira jornada em caminho de Pretoria. Os Böers sabiam que havia Pretoria, mas nunca la tinham ido, e por isso o meu Low ignorava o caminho. Eu incumbi-me de lh'o ensinar, e para isso deixei o ùnico caminho seguido, aquelle de Marico e Rustemberg; e dando um traço com uma règua na carta de Marenski, tirei um rumo em perfeita linha recta, e segui n'elle a través da planicie. Desde que passámos o rio Ntuani andàvamos cobertos de carrapatos, e bastava passarmos um pouco entre a herva para ficarmos cheios dos repugnantes insectos. Quatro pessôas na minha gente apparecêram com uma febre que se apresentou logo de mao caracter. As duas mulheres, Moero e Pépéca. Tive de lhes preparar o vagom a modo de as poder deitar n'elle, porque era impossivel caminharem. Tôdos nós estàvamos extenuados pêlas fadigas de uma tão longa jornada qual a de Benguella até ali; e sempre mal alimentados, sentiamos a fadiga a degenerar em doença, e exaustos de fôrças sentìamos a doença a terminar na morte. A insalubridade das margens do Limpôpo, e sôbre tudo a do rio Marico, veio profundamente affectar as nossas saudes, ja vacillantes em corpos derrancados, e tôdos em geral nos sentímos doentes. Ainda assim, eu, dotado de uma organização especial, era quem mais resistia á extraordinaria canceira que nos acabunhava. E felizmente para tôdos, que eu resistia mais do que elles! A noute do ùltimo de Janeiro foi tormentosa de chuva e trovoada. Eu não me entendia com as duas crianças Böers que me acompanhavam, e que só falavam o Hollandez; mas ainda assim, fazia-lhes dirigir o vagom á minha vontade. No primeiro de Fevereiro, tôda a gente estava peior, e sôbre tudo o estado das duas mulheres e dos dois pequenos assustava-me. Eu mesmo ardia em febre. Resolvi forçar as marchas o quanto possivel, para no mais curto espaço alcançar o paiz habitado e alguns recursos. Apesar do meu estado, logo que puz o vagom a caminho, afastei-me d'elle e fui caçar, conseguindo matar um sebseb. Fui encontrar o vagom, e fiz com Augusto, Verissimo e Camutombo fôssem buscar o antìlope môrto. Em seguida forcei a marcha até ás cinco e meia da tarde. Parei até ás 9 da noute para descançar os bôis, fazer observações, e determinar o meu ponto, e sôbre tudo para tratar dos doentes. Ainda n'essa noute jornadeei das 9 ás 10 horas. O estado do Pépéca e de Mariana era muito grave. Estavam em delirio, e tinha-se-lhes declarado o typho. Os causticos, que eu lhes tinha aberto com àgua a ferver (por não ter outra cousa), eram continuamente pulverizados de sulfato de quinino, e durante a noute dei-lhes três injecções hypodèrmicas com uma gramma de sulfato cada uma. Moero e Marcolina, a mulhér de Augusto, não apresentavam symptomas de tanta gravidade como os outros dois, mas ainda assim estavam sujeitos ao mesmo tratamento. Na manhã seguinte o estado dos doentes era o mesmo. Depois de lhes curar os causticos, resolvi partir, e não me appareciam os dois pequenos Böers. Fui em sua busca, e não longe, junto a um extenso paúl, a que elles chamavam a Cornocopia, me pareceu que elles estavam pastando, porque os vi apanharem herva e comel-a com sofreguidão. Aproximei-me para ver o que faziam, e conheci não me enganar. Os rapazes comiam herva. Ao abeiral-os, elles estendêram para mim as mãos cheias de uma gramìnea, espècie de caniço fino e de um verde muito claro. Por curiosidade peguei n'um de aquelles caniços, e provei. A minha admiração foi extraordinaria ao encontrar n'aquella gramìnea o mêsmo gôsto da cana de assucar. Percebi então porque pastavam os rapazes. Era pura goloseima. Fiz com que viessem ao vagom e puz-me a caminho. N'aquella planicie appareciam muitas aranhas parecidas com a tarantula, cuja mordedura (me fizéram comprehender os rapazes) é mortal. Isto creio que deve carecer de demonstração, porque em Àfrica se diz o mesmo dos escorpiões, e eu affirmo não ser verdade. Depois de cinco horas de bôa jornada, parei, e logo que tratei dos meus doentes, que continuavam mal, fui caçar, afim de arranjar de comer para elles e para mim. Só voltei ao vagom ás 6 horas, trazendo atravessado no arção um sobêrbo antìlope. Parte do caminho notei que o meu cavallo, sempre fiél, vinha inquieto, e fazendo curvêtas que não eram de uso. Ao chegar ao campo pude explicar a razão do caso. O antìlope ( Cervicapra bohor ) com o pescôço pendido, veio, com um dos agudos cornos, fazendo uma larga ferida ao meu pobre Fly. Depois de medicar os enfermos e a mim, e de comer alguma cousa, ainda jornadeei n'essa noute por duas horas. A 3 de Fevereiro, parti ás 4 da manhã, e parei ás 9. Logo que acampei, avistei dois vagons de Böers que caminhavam para mim. Tive esperanças de obter d'elles alguns vìveres, porque só tinha para comer os restos do antìlope da vèspera. Baldada foi a minha esperança. Eram duas familias de emigrantes que caminhavam, só escudados na caça, e com quem tive de repartir a pouca carne que ja tinha. Disse-me um, que falava Inglez, que eu ia entrar em paiz sem caça, mas que, se força-se as marchas, poderia, seguindo o trilho dos vagons d'elles, alcançar n'essa noute a missão do Piland's Berg. O paiz continúa, sendo uma planicie enorme, da qual se erguem aqui e àlém ex-abrupto algumas serras. Assim era o Piland's Berg, que eu marcava ao sul. Resolvi pois forçar as marchas, para alcançar a missão de que me faláram os Böers; mas, quando dei ordem á partida, apareceu-me Low consternado, dizendo muita cousa que eu não entendia, mas fazendo comprehender, que seu irmão Christophe faltava. A mim é que me não faltava mais nada, senão aturar o endiabrado rapaz. Montei a cavallo, e larguei-me por matos e charnecas a procurar meninos perdidos. Chamei, dei tiros, corri em todas as direcções, descrevendo cìrculos em tôrno do vagom, mas nenhum resultado tirei d'isso; e depois de seis horas de buscas inuteis, voltei ao carro, extenuado de fadiga, e tendo de balde cançado o meu pobre cavallo. N'esse dia ja se não jantou, por não haver que comer. Low chorava e arrepelava os cabellos, dizendo muita cousa em Hollandez, e se ás vêzes imaginava que eu queria partir d'ali vinha deitar-se de joêlhos aos meus pes, pronunciando o nome do irmão. Eu estava verdadeiramente perplexo, e ora me enfurecia contra os Böers, ora tinha por o estado de Low a maior compaixão. Os meus doentes não melhoravam, mas medicamentos e dieta não lhes faltava. Resolvi passar ali a noute, e confesso que não deixava de entrar em furor, ao lembrar-me do tempo precioso que perdia em circunstancias tão graves como aquellas em que estàvamos. Ás 9 da noute, senti grande alarido, e percebi que o Christophe tinha chegado. Não me entendendo com elles, só dias depois, por um intèrprete, pude ter a explicação do facto. Christophe, logo que o vagom parou n'aquella manhã, foi para o mato apanhar pàssaros com visco. Entretêve-se por la até que eu o fui procurar. Vendo-me gritar por elle e dar tiros, têve mêdo de que eu lhe batêsse ou o matasse; escondeu-se no matagal o melhor que pôde, e la se deixou ficar tôdo o dia. Veio a noute, e o mêdo dos bichos foi superior ao mêdo de mim, e o pequeno voltou ao vagom. Não me faltava, na minha viagem, senão aturar uma criança. Ás quatro horas da manhã; segui viagem, e parei ás 8, porque o nosso estado não nos permittia grandes esforços. A leste de mim, corria N.N.O. um systema de montanhas que marginam o Limpôpo. Descancei até ás 11 horas, seguindo a essa hora, alcancei Soul's Port , a missão do Piland's Berg , ás 4 da tarde. Estabeleci-me em umas ruinas, a duzentos metros da casa do missionario, a quem mandei um bilhête de visita. Pouco tempo depois, entrava nas ruinas uma dama acompanhada de um criado, que trazia uma grande bandeja de pêcegos e figos. Era Madame Gonin, a espôsa do missionario. Seu marido estava ausente, e so chegaria no dia immediato. Ao passo que escutava Madame Gonin, comia pêcegos e figos com fome de trinta e duas horas! Dei-lhe escusa do que fazia, dizendo-lhe, que tinha fome. A dama retirou-se, e algum tempo depois, enviàva-me uma òptima ceia. Dois prêtos vinham carregados de comida para a minha gente. Fui agradecer-lhe, e voltei ás minhas ruinas. No dia seguinte, julguei livres de perigo os meus dois doentes mais graves, Mariana e Pépéca. Logo de manhã, fui a uma fazenda de Böers, a ver se obtinha vìveres. O paiz em tôrno de Piland's Berg é muito cultivado, e aqui e àlém alvejam no sopé da serra algumas casas de Böers. Dirigi-me a uma d'ellas. Fizéram-me entrar n'uma sala, que em tôdas as casas dos habitantes do Transvaal desempenha o duplo fim de casa de mêsa e sala de visitas. Aquella tinha sufficiente pé direito, era espàçosa e alegre. As parêdes, pintadas a frêsco, representavam cupidos vendados, despedindo traiçoeiras frechas contra corações enormes engrinaldados de rosas, isto sôbre um fundo azul celeste, dado em àguada pouco nìtida. O pintor não fôra nenhum Rubens ou Van Dyck, mas preciso declarar, que ainda assim, me sorprendeu o trabalho artìstico d'aquella sala; superior ao de umas certas salas de mêsa, de muitas casas de Lisboa, que figuram no primeiro plano um boneco pequenino, pescando á linha n'um rio, onde ao longe navegam dois namorados enormes tocando bandolim; ao passo que em uma àrvore encarnada e azul, muito distante, pousa uma arara vermêlha, maior ainda do que a àrvore, do que os namorados e do que o pescadôr. Ao menos, nas pinturas mytològicas da sala Böer havia uma significação, e aquellas rosas engrinaldando os corações feridos, vinham lembrar, que as chagas d'amor, como as rosas, tẽm perfumes e tẽm abrolhos. Eu, se algum dia, depois de longa vivenda em Lisboa, por êsse poder de imitação, que me faz admittir as theorias de Darwin, chegar ao requinte de mandar pintar a minha sala de jantar por artista indìgena, dar-lhe-hei as indicações da escola Transvaaliana. A sala da casa Böer, àlém das pinturas das parêdes, pouco mais tinha de notavel. Uma grande mêsa, algumas cadeiras, uns vasos com plantas floridas nos vãos das janellas. Cortinas pendentes de guarnições de pao despolido, feitas de caça branca, com um recorte encarnado, e cujas extremidades inferiôres, muito longe do chão, davam ás janellas esse ar desastrado de uma menina de quatorze annos, que, trajando vestido nem curto nem comprido, nos deixa perplexos, sem saber se devemos cortejar uma dama, ou beijar uma criança. A um canto, sôbre uma pequena mêsa, o livro dos Böers, uma Biblia enorme, com fêchos de prata, sôbre uma encadernação outrora vermêlha e hôje de côr indefinida, pêlo uso das mãos sebentas, de três gèrações de Böers. Faziam-me as honras da casa duas damas Transvaalianas, vestidas, como tôdas as do paiz, de chita, e trazendo na cabêça toucas brancas. Uns poucos de pequenos, quasi tôdos do mesmo tamanho, agarrávam-se aos vestidos d'ellas e trepávam-lhes aos joêlhos. O modo porque eram recebidos, parecia mostrar-me que eram tôdos filhos de ambas as damas; o que me causava o maior espanto, e me fazia entrever uma cousa nova para mim. Verissimo servia-me de intèrprete, empregando a lìngua Sezuto. Antes de lhe dizer o que queria, perguntei-lhes ¿de quem eram filhos aquelles meninos? Ambas, ao mesmo tempo, com esse orgulho de tôdas as mães (em quanto os filhos sam pequeninos, e não vẽm, pêlo seu tamanho, revelar segrêdos de idades que se devem occultar), respondêram: "Sam nossos." O caso complicava-se com aquella resposta, e eu cada vez entendia menos. Entrei em explicações e sube afinal, que os pequenos eram uns de uma, outros de outra; mas, como ellas seguiam o costume Böer, de viverem dois casaes na mesma vida domèstica, tôdos elles eram reputados filhos de cada uma. O paradoxo physiològico tinha desapparecido, mas erguia-se a meus olhos outro psychològico não menos extraordinario. No Transvaal dois casaes podem viver sôb o mêsmo tecto, e comerem da mesma panella; e dois amigos combinam casar no mesmo dia e irem viver juntos com suas mulheres; e depois com filhos e netos, para sempre. E vivem, e sam felizes, e não ha ali intrigas e desgôstos entre elles! Ainda, entre elles, comprehende-se; mas entre ellas! É admiravel. A vida patriarchal dos Böers revela-se n'este traço. Depois de me explicarem estas cousas, eu disse ao que ia. Precisava de provisões. As bôas raparigas offerecêram-me logo dois enormes pães, e disséram-me, que não podiam vender-me gallinhas ou patos sem estarem presentes os seus maridos, que tinham ido para a labutação dos campos; mas pedíram-me para esperar um pouco, porque elles não tardariam a voltar para o almôço. Uma desappareceu, e provavelmente foi para a cozinha, em quanto a outra trouxe para a sala uma màchina de costura, e poz-se a trabalhar. Eu fui dar uma volta no quintal, onde me ficáram os olhos na hortaliça, que ali crescia cuidadosamente tratada. ¡Que fome eu tinha de alimento vegetal! Algum tempo depois, chegáram os Böers, que me encontráram em flagrante delicto de colher feijões que comia crus. Voltei com elles a casa. Logo que entrámos na sala dos Cupidos, reunio-se a familia tôda, e tôdos se sentáram nas cadeiras junto ás parêdes. Veio, em seguida, uma prêta com uma pequena banheira, e o mais velho dos homens desçalçou as botas, e lavou os pes; seguio-se o outro, as damas e os pequenos, e a prêta correu á roda da casa com a banheira. Em seguida, fomos para a mêsa. Veio então a Bìblia, e o mais velho leu, com profundo recolhimento, alguns versìculos do Livro dos Nùmeros, o quarto Livro de Moisés. Começou o almôço; eu, com o estòmago cheio de couves cruas e feijões colhidos do pe, não podia comer nada, o que contrariava os meus hospedeiros; mas tomei uma chàvena de pèssimo café com òptimo leite. Depois de almôço, os bons dos fazendeiros offerecêram-me seis gallinhas e dois patos, e nada quizéram receber por isso. Levei de hortaliças quanto pude carregar no meu cavallo. Logo que cheguei a Soul's Port , sube do regresso do missionario, por um convite para jantar, escrito por elle, que encontrei nas mãos de Augusto. Fui ver logo os meus doentes, que achei melhores, sôbre tudo o pequeno Moero, que ja se tinha levantado. D'ali segui para a casa do missionario, onde fui cordialmente recebido. Mr. Gonin, Francez e amigo de Mr. Coillard, exultou com as bôas noticias que lhe dei dos amigos que tinha deixado em Shoshong . Tive um jantar magnìfico, e tanto mais agradavel, que a elle assistiam três damas, Madame Gonin e duas jovens e formosas Inglezas do Cabo, hòspedas da casa. Depois de jantar voltei ás ruinas onde tinha acampado, para fazer observações, e determinar a minha partida para o dia seguinte. Ao chegar ao vagom, uma má nova me esperava. Low veio dizer-me, que haviam desapparecido dois bôis, e não tinha sido possivel encontral-os. Os seis bôis que restavam não poderiam arrastar o vagom d'ali a Pretoria. Decidi ficar ali a procurar os bôis, e dei-as precisas ordens, para que tôda a gente semi-vàlida logo de madrugada se posesse em campo. Fôram baldados tôdos os esforços, e os bôis não apparecêram. Communiquei ao missionario Gonin o meu grande embaraço, e fui logo tranquillizado por elle, que poz á minha disposição uma das suas juntas de bôis. Àlém d'isso, ordenou a um dos seus criados, um Btjuana chamado Farelan, para me acompanhar até Pretoria; servindo-me ao mesmo tempo de guia e de intèrprete, ja para com o gentio, ja para com os Böers, porque falava bem o Hollandez. Dispostas assim as cousas, determinei seguir no dia 7, e depois de agradecer a Mr. e Madame Gonin tantos favôres, parti ás 6 horas da manhã, indo parar, ás 10, junto a uma casa de Böers, que me recebêram muito bem, dando-me abundantes provisões. Ainda n'esse dia fiz duas grandes jornadas. Dos meus doentes, a Mariana e o Pépéca, apresentavam sensiveis melhoras, ainda que promettiam uma demorada convalescença; Moero estava em via de restabelecimento, mas Marcolina, a mulhér de Augusto, dava-me cuidados, porque se achava em um estado adynàmico, com febre constante, que não cedia ao tratamento. No dia 8, o estado de Marcolina era muito grave. Parti ás 4 da manhã, e ás 5 encontrava o rio Quetei, pròximo da sua confluencia com o Machucubiani. A difficuldade da passagem foi grande, por serem muito apicadas as margens e levarem os rios muita àgua. Depois de três horas de trabalho violento, conseguímos transpol-o, e acampámos na margem opposta. Marcava meia milha a O.N.O. o Pico Bote, onde foi pelejada a ùltima batalha entre Böers e Matebelles, sendo estes completamente batidos e forçados a recuar para àlém do Limpôpo. Depois de um descanço de três horas, segui avante e jornadei por oito horas, em duas marchas. O sitio onde acampei, junto a um riacho que corre ao Limpôpo, era coberto de rochas, massas enormes de granito, o primeiro que encontrava depois do Bihé. A disposição geològica do terreno mostrava-se-me, tal qual, a parte do planalto da Costa de Oeste entre Quillengues e Bihé. A flora é que ali é muito differente. No planalto, costa de oeste, apparece uma vegetação arbòrea opulenta; ao passo que, n'esta parte do Transvaal, apenas se vê um ou outro arbusto rachìtico; mas a vegetação herbàcea é rica, e sôbre tudo as gramìneas tẽm desenvolvimento grande. No dia 9 de Fevereiro, o estado de Marcolina era tão grave, que decidi não continuar viagem até ver se ella obtinha melhoras. Baldados fôram os esforços empregados para a salvar, e ao meio-dia expirou. ¡Pobre mulhér! ¡Depois de tão aturadas fadigas, depois de tão àrduos trabalhos, veio perder a vida quando estava pròxima a encontrar o descanço e o confôrto! Marcolina era a legìtima mulhér de Augusto. Viera com elle de Benguella até ali, e mesmo no tempo das aventuras galantes do marido, nunca o abandonou, apesar dos maos tratos que d'elle recebia. Augusto chorava como uma criança junto ao cadaver da sua companheira fiél. Na madrugada seguinte, Camutombo e o Betjuana Farelan, abriam uma profunda cova, onde se enterrava a mesquinha. Eu, de cabêça descoberta e commovido, vi cahir a terra sôbre o cadaver frio. Ali, na margem do ribeiro, junto a Betania, deixava eu a ùltima vìctima da expedição Portugueza através d'Àfrica. D'ali levava uma saudade pungente. ¡Ainda bem que aquelle devia ser o ùltimo tùmulo! O ùltimo enterro.] Voltando ao vagom, perguntava a mim mesmo, se a sciencia tem direito a taes sacrificios; se o homem, no orgulho de juntar mais um àtomo de saber ao pouco que sabe, pode dispor para isso da vida do seu semelhante, e immolal-o cruamente a um ìdolo tão vão como os outros? No meu espìrito não podia formular uma resposta á pergunta que fazia, e hôje digo que isto é uma questão a debater entre o homem e a sua consciencia. Logo que cheguei ao vagom, dei ordem de partida, e segui adiante, para ir visitar a missão de Betania. Betania é uma aldeia de quatro mil habitantes de raça Betjuana, formada de casas bem construidas, e muitas de janellas envidraçadas. O missionario que ali encontrei, Hollandez ou Allemão, chamava-se Mr. Behrens. Appareceu-me fumando em um enorme cachimbo de louça, e uma das primeiras cousas que me perguntou foi, ¿se eu lhe tinha trazido umas pas que me emprestara para abrir a cova de Marcolina? Um quarto de hora depois, eu deixava a casa do missionario, e seguia caminho, indo parar, ás 11 horas, junto de uma aldea de Böers. Viéram elles logo buscar-me para suas casas, e tive de entrar em casa de tôdos. Em tôdas fui obrigado a tomar alguma cousa, e em tôdas recebi presentes de batatas, frutas, hortaliças e gallinhas. A custo me pude desembaraçar d'aquella bôa gente, e pude partir ás 3 da tarde. Encontrei outra vez a margem esquêrda do Limpôpo, que subi por três horas, para chegar a um vao conhecido do meu guia Farelan. Junto ao vao estava grande porção de vagons Böers. O rio trasbordava, e não dava passagem, diziam elles. Como Farelan conhecia o vao, disse-lhe, que se metêsse á àgua e fôsse até onde podesse. O Betjuana passou o rio com àgua pêlo pescôço. Mandei logo tanger os bôis, e fiz entrar o cavallo na àgua, passando o rio em um momento. Eu e os meus já sabìamos lidar com um vagom e com os rios da Àfrica. Os Böers ficáram pasmados, mas pasmados ficáram na outra margem, debaixo de uma chuva torrencial que cahia. Acampei ali. No dia immediato, os alvôres da manhã viéram mostrar-nos o rio que tinha sahido do seu leito, e que deveria levar mais três a quatro metros de àgua. Os Böers que receiáram na vèspera arriscar os vagons, tinham que esperar muitos dias para o passarem. Eu segui viagem, e ás onze horas e meia, passava a enorme serra que divide o Transvaal no sentido este-oeste, o Magalies-Berg. Foi difficìlima a passagem da alta serra, e sôbre tudo a descida na vertente do sul perigosa. O vagom, sem travão, precipitàva-se sôbre os bôis e ameaçava despedaçar-se. Tive de pôr os doentes a pe, com receio de um accidente. Low cahio, e uma roda do vagom esmigalhou-lhe as phalanges da mão esquêrda. Fiz-lhe um primeiro curativo, e tratei de forçar as marchas, para alcançar Pretoria, onde elle podia ser cuidadosamente tratado. O Betjuana Farelan previne-me de que façamos provisão de lenha em uma mata no sopé da serra; porque d'ali a Pretoria só encontrarìamos planicies desarborizadas. Assim fizémos, continuando a jornadear dia e noite, apenas com o descanço necessario para os bôis. Finalmente, no dia 12 de Fevereiro, ás 8 da manhã, acampava uma milha a N.N.O. de Pretoria, e deixando ali o vagom e os meus, entrava sòzinho na capital do Transvaal. Magalies-berg.] CAPÌTULO VI. NO TRANSVAAL. Estou em Pretoria, a Capital do Transvaal, e antes de continuar a narrativa das minhas aventuras, vou dizer algumas palavras da historia d'este paiz e dos seus habitantes. Não se arreceiem os meus leitores do caso. Ainda que um moderno historiador Francez n'um bello livro escreveu a conceituosa phrase, "L'histoire ne commence et ne finit nulle part," eu prometto-lhes que o ràpido golpe-de-vista que vou lançar sôbre a historia d'este pôvo será tão curto, como curta é ella. Não sei quando acabará, se é que não findou ja ou está a findar, mas o comêço da vida Böer, desde que essa vida tomou a forma de nacionalidade autonòmica, é dos nossos tempos, é d'este sèculo. Bartholomeu Dias primeiro, e Vasco da Gama depois, os ousados Portuguezes que afrontáram antes de ninguem as tempestades do Cabo, pensando só na India, como na terra da promissão, pouco ou nenhum caso fizéram da extrema Àfrica do Sul. Foi só em 1650 que a Hollanda--não o govêrno Hollandez, mas a companhia das Indias--ali fundou uma feitoria, para refrescar os seus galeões em viagem do mar Ìndico, feitoria estabelecida pêlo Doutor Van Riebeck. Esta feitoria ergueu-se onde hôje assenta a formosa cidade do Cabo. A companhia das Indias, que pouco se importava com a Àfrica, não pensou em fundar ali uma colonia, e antes pôz tôdos os estôrvos á iniciativa particular, que tendia a cultivar a terra e a commerciar com o indìgena. Pelejavam-se então na Europa as guerras de religião, e com a revogação do Edicto de Nantes e a perseguição dos Protestantes em França, muitos emigráram, e entre elles alguns fôram para a Hollanda. A companhia das Indias deu-lhes transporte para a Àfrica, e elles aceitando-o pressurosos, fôram deixados no Cabo. Não chegava a duzentos o seu nùmero, e se attentarmos a que, segundo diz a historia, van Riebeck não levou com-sigo mais de cem pessôas; e dando-se mesmo o caso de que essa população tivesse duplicado no tempo decorrido de 1650 á chegada dos emigrantes Francezes, estes equilibravam em nùmero com a população Hollandeza. Faço notar esta circunstancia, porque, sendo estes dous elementos que déram principio a essa raça hôje chamada os Böers, quero concluir, que n'esse pôvo, a respeito do qual se tem escrito tão pouco e tão errado, o sangue Francez, se não domina, ao menos equilibra com o Hollandez. O governo Hollandez, desde o estabelecimento dos emigrados Francezes no Cabo, trabalhou para lhes cortar tôdas as relações com a mãe patria, e o primeiro golpe que n'ellas deu, foi a prohibição do uso da lingua natal, ja na celebração do culto divino, ja nas relações especiaes com o govêrno, e nos actos officiaes. Custa a comprehender como o obtêve, mas é facto que lhe quebrou aquelle laço que nas futuras gèrações os podia prender á França; e de tal modo, que quando o General Clarke, em 1795, chegou ao Cabo com o Almirante Elphinstone, e se apossou da colonia em nome da Inglaterra, nem um so Böer falava ou comprehendia o Francez. Muito antes da occupação Ingleza, que se não tornou effectiva senão em 1806, èpocha em que a Inglaterra se apossou definitivamente do Cabo pêla fôrça, desprezando as convenções da paz de Amiens, que restituia aquella colonia aos Hollandezes, ja muito antes os colonos fugiam aos vexames do govêrno da Hollanda; e internando-se no continente iam longe estabelecer-se onde encontravam bons terrenos para cultura e bons pastos para os gados; preferindo brigar com o gentio e prover á sua propria defêsa, a estar em relações e sôb a protecção de um govêrno que os tornava verdadeiros escravos. D'ahi data o nome e a vida errante dos Böers, nome bem pouco em harmonia com tal vida, porque Böer quer dizer fazendeiro ou lavrador, o que dá uma idéa de estabilidade, que elles não tinham nem ainda hôje tẽm; sendo mais pastôres e nòmadas do que lavradôres sam. O primeiro que nos fala dos Böers na sua vida quasi primitiva, reduzidos como fôram a prover elles mêsmos ás necessidades da vida absoluta, é Levaillant, que visitou o interior da Àfrica do Sul, antes da Revolução Franceza, isto é, 14 ou 15 annos antes da primeira occupação do Cabo por Clarke e Elphinstone. Levaillant diz muito mal d'elles nas suas relações com as tribus indìgenas. Trata-os de dèspotas e de abuso constante da fôrça. Devemos dar crèdito ao que diz Levaillant, mas devemos tambem examinar sem paixão as circunstancias em que viviam aquelles homens, duas vêzes emigrantes, e errando sem patria n'um paiz hostil. Accusam-n-os n'esse tempo de abusar da fôrça, quando a fraquêza estava do lado d'elles, como sempre estêve. Tinham armas é verdade, mas os Cafres tinham o nùmero, e eu sei o quanto vale o nùmero sôbre as armas, e sabe-o hôje a Europa, e sôbre tudo a Inglaterra. Os Zulos, os Cafres, e os Basutos tẽm lh'o ensinado. Não devemos lançar á conta de espìrito de crueldade, represalias filhas da necessidade de impor o respeito pêlo terrôr a tribus indomaveis e ferozes. O que lançam em rôsto aos Böers de roubarem e dividirem entre si os gados e as riquêzas dos povos vencidos, é hôje admittido como direito da guerra, e a nação vencedôra impõe á vencida um tributo que não é mais do que o que faziam os emigrantes Franco-Hollandezes, aos Cafres vencidos; que não era differente proceder do que tivéram os Inglezes n'aquellas mêsmas paragens no fim das guerras de 1834 e 1846. Apesar de se terem internado no continente, os Böers so em 1825 passáram o rio Orange, inclinàndo-se a N.E. para fugirem da esterilidade do deserto que se estende ao Norte e N.O. da confluencia do Vaal. Fôram obrigados a isso pêla falta de chuvas que então houve no paiz que elles occupavam. A abolição da escravatura depois da guerra de 1834 trazia os Böers descontentes, porque perdiam com ella os braços que os ajudavam. Sem patria, sem historia, e por isso sem amor a nenhuma terra, elles começáram uma nova emigração em massa, e o nùmero dos fugitivos que passáram o Orange foi avaliado em oito mil. Elegêram então um chefe, e recahio a escôlha em Pieter Retief, cujo primeiro passo foi, expedir uma nota ao govêrno do Cabo, na qual lhe dizia, que eram livres e livres iam escolher um paiz para habitar. Nessa nota havia exarada a intenção em que estavam de viver em paz com o gentio, de não admittirem a escravatura, e de estabelecerem nìtidamente quaes as relações que deviam existir entre amos e criados. Receando dos Cafres, os Böers, passado o Orange caminháram ao norte, mas fôram, nos Zulos que occupavam a margem direita do Vaal, encontrar inimigos mais terriveis do que aquelles que evitavam. O cèlebre Muzilicatezi, que depois se tornou conhecido como rei do Matebeli, tentou sustar a marcha dos emigrantes, e por isso elles tivéram de pelejar uma sangrenta batalha, em que leváram de vencida o valente chefe Zulo. Então Pieter Retief dirigio a caravana a leste, e tendo noticias de um paiz magnìfico que se estendia para àlém da Cordilheira do Drakensberg até ao mar, guiou para ali a sua horda de aventureiros. Ao chegar ao paiz desejado, um nôvo obstàculo lhe veio tolher o passo. Uma tribu poderosa e guerreira procurou destruir aquelle punhado de valentes. Fôram mortìferos os combates travados entre Retief e o chefe Cafre Dingam, e n'um d'elles a victoria dos Böers custou a vida do seu chefe Retief, e a Gert Maritz seu immediato. Senhores das terras de Natal, os Böers escolhêram uma posição magnìfica para fundar uma cidade, e elegêram um nôvo chefe. A cidade têve o nome de Pietermaritzburg, nome que foi um monumento immorredouro levantado á memoria dos dois primeiros chefes Böers. O homem escolhido para nôvo chefe foi Adriano Pretorius, que tempo depois devia ser o primeiro presidente da rèpùblica Transvaaliana, e cujo nome devia ser perpetuado como os de Retief e Maritz na futura capital dos Böers. De 1840 a 1842, os emigrantes vivêram tranquillos, cultivando a terra e apacentando os gados na sua nova patria. Pensavam mesmo ja em firmarem a sua autonomia, constituindo-se em rèpùblica sôb o protectorado de uma nação Europea; quando Sir George Napier, por ordem do govêrno da Metropoli, mandou occupar a Natalia por fôrças Inglezas, fazendo saber aos Böers que a Inglaterra não consentia que os seus sùbditos formassem estados independentes sôbre as costas marìtimas. Pretorius recebeu muito mal o enviado de Sir George Napier, e foi junto a Pietermaritzburg que se trocáram as primeiras ballas entre Böers e Inglezes. Prevenido da resistencia dos Böers, o governador do Cabo reforçou as tropas de Natal e esmagou a insurreição. A pouca sympathia que os Böers votavam aos Inglezes, desde esse dia converteu-se em aversão profunda. Começou para os emigrantes uma nova èpocha de àrdua peregrinação, e abandonando a terra escolhida, fôram novamente procurar um paiz àlém do Drakensberg, um paiz onde podessem ser livres e senhôres. Ao passar a elevada cordilheira espalháram-se ao norte e ao sul do Vaal; estabelecendo as suas residencias no terreno comprehendido entre o Vaal e o Orange, e mesmo ao norte sôbre a margem direita do Vaal, onde fundáram a cidade de Potchefstroom, em 1843. Sabendo que o Govêrno Inglez considerava aquelle paiz como seu, e como seus sùbditos os habitantes, Pretorius persuadio a muitos dos Böers o emigrar de nôvo, e com elles caminhou ao norte. Têve de bater-se com os Zulos, que, vencidos n'uma ùltima batalha no Pico Botes, fôram rechaçados para àlém do Limpôpo, onde o seu chefe Muzilicatezi estabeleceu o reino do Matebeli. Foi então que fôram fundadas mais duas povoações, Lydenburg e Zoutpansberg. É preciso notar, que a cada nova emigração, muitos dos Böers se recusavam a seguir o enthusiasmo pêla liberdade que inflammava outros, e conservàvam-se nos paizes abandonados, tendo, por isso, de se sujeitar ao govêrno Inglez. Foi assim que muitos não deixáram as suas residencias entre o Orange e o Vaal, e cortáram, por assim dizer, relações com aquelles que emigravam sempre. Esse nùcleo que ficou, deu origem aos que hôje formam o Estado livre do Orange, e ali fundáram a cidade de Bloemfontein, sua capital. Lord Grey, sendo Ministro das Colonias em Inglaterra, em 1852, entendeu que eram bastante grandes e ruinosos os dominios Inglezes na Àfrica, e resolveu de limital-os. Querendo, ainda assim, fazer as cousas em grande e talhar por largo, deu ordem ao Governador do Cabo para declarar o Vaal como fronteira norte dos dominios Britànicos, e para conceder os direitos de autonomia aos sùbditos Inglezes que se estabelecêssem àlém d'aquelle limite. É d'esta data o tratado feito com os Böers, pêlo qual a Grã-Bretanha os reconheceu livres e lhes concedeu os direitos de autonomia; é d'esta data que têve um nome o paiz comprehendido entre o Vaal e o Limpôpo; é d'esta data que o govêrno do Transvaal se constituio definitivamente; é n'esta data que Adriano Pretorius foi eleito presidente da nova rèpùblica. Os Böers insurgentes, os teimosos em fugir ao jugo estranho, acabavam de constituir uma nação, de crear um paiz, e de estabelecer a sua liberdade; ao passo que os Böers fiéis aos Inglezes so em 1854, mais de um anno depois, fôram livres e podéram constituir-se em nação, formando o Estado Livre do Orange. É verdadeiramente admiravel ver estes grupos, onde não abundavam os recursos de instrucção, porque o Böer so lê e so conhece a Biblia; ver estas gentes ignorantes dos regimens governativos, a que fugiam havia um sèculo, de repente constituìrem-se em nações, formarem um systema governativo, elegerem assembleas nacionaes, e legislarem sensatamente! Adriano Pretorius foi um homem a todos os respeitos notavel, e que teria feito um nome mêsmo entre povos menos rudes do que os Böers. Inflammado pêlo ardor da liberdade, sabia incutir o seu enthusiasmo no ànimo dos que o rodeavam, e pertinaz n'uma idéa grandiosa, vio coroados de èxito os seus esforços, dando uma pàtria aos seus, e fixando n'um paiz riquissimo, tôdo um pôvo disperso. Este grande homem apenas entrevio a sua obra, porque morreu ao concluil-a. O suffragio geral levou ao poder seu filho, do mesmo nome, criado nos mesmos enthusiasmos de seu pai. O nôvo Pretorius procurou dar melhor organização aos serviços da nação, mas o mesmo desejo de liberdade que animava os Böers a fugirem ao dominio Inglez, fazia que muitos procurassem escapar ao dominio do governo central da Rèpùblica. Contudo, encontràvam-se sempre que era preciso ligar-se contra um inimigo estrangeiro, e as muitas guerras que sustentáram para acalmar os indìgenas, sempre hostís, sam d'isso prova. Em 1859, os Böers do Estado Livre do Orange acclamáram seu presidente a Pretorius, que, director supremo dos negocios das duas rèpùblicas, pensou logo em levar a effeito uma união vantajosa para os interesses communs. O govêrno Inglez andou de tal modo n'essa questão, que Pretorius nada pôde alcançar, e abandonando Bloemfontein, voltou ao Transvaal, onde tomou de nôvo a direcção dos negocios pùblicos. D'ahi até 1867, aquelles dois povos, que apenas contavam um 15 outro 13 annos de existencia autonòmica, não fôram perturbados no seu viver rude e pacìfico, a não ser por pequenas questões com o gentio logo acalmadas; mas, em 1867, os Böers dos dous estados, Transvaal e Orange, fôram sorprendidos por uma noticia que veio perturbar por um momento a sua vida tranquilla. Nas fronteiras oeste dos dous estados, tinham sido descobertas as suas ricas e prodigiosas minas de diamantes, e aquelle pedaço de terreno promettia uma riqueza inexgotavel ao seu possuidor. Naturalmente Böers do Transvaal e Böers do Orange lançáram para elle as vistas cubiçosas. A terra que de um momento a outro tomou tão grande importancia, e que, como o Brazil, a California e a Australia, chamou logo a si aventureiros de tôdas as nações, pertencia a uma tribu, os Gricuas, mestiços de origem Böer, que a esse tempo eram governados por um tal Waterboer, que não perdeu tempo em fazer valer os seus direitos ao terreno cubiçado. Entre os aventureiros que o fulgor dos diamantes atrahia áquella nova Golgonda, abundavam Inglezes, que excediam todos os outros em nùmero. A vontade de se apossar do terreno diamantìfero so foi manifestada claramente pelos Böers do Orange em 1870, anno em que o presidente Brand convidou Waterboer a uma conferencia, e procurou convencel-o de que era senhor, por direitos adquiridos, do cubiçado thesouro. Waterboer não se deixou convencer, e retirou para o seu paiz, teimoso em querer continuar a ser senhor d'elle. O presidente Brand, pêla sua parte, não cedeu tambem, e publicou uma proclamação, em que dizia ser dos estados do Orange a terra dos Gricuas, enviando logo ali um delegado da rèpùblica para se estabelecer como governador. Os Böers do Transvaal a esse tempo procuravam de traçar nìtidamente as fronteiras do seu paiz, e acabavam de referendar com Portugal o tratado da demarcação da sua fronteira de Este, negociado, em Julho de 1869, entre o proprio Pretorius e o Visconde de Duprat, commissionado, para isso, pêlo Govêrno Portuguez. O tratado de 1852 definia sufficientemente as suas fronteiras sul e su-este, mas as outras fronteiras eram demarcadas, a Norte pêla môsca zê-zê junto ao Limpôpo, e a oeste, por cousa nenhuma. Entendeu pois Pretorius, que tanto direito tinha o presidente Brand como elle á posse da terra Gricua, e mandou para ali um delegado official da Rèpùblica, como o Orange mandara o seu. Havia três annos que a primeira pedra d'esse carvão puro e scintillante, a que a vaidade humana deu um tão extraordinario valor, apparecêra nos perdidos sertões da Àfrica do sul, e ja nos terrenos saibrosos onde as mãos àvidas de centenares de aventureiros escavavam os pequenos seixos, se levantava uma cidade opulenta, onde formigava a vida e a civilização da Europa. Era Kimberley. Era uma maravilha edificada com diamantes, como S. Francisco da California foi edificada com ouro. Era um d'esses prodigios que brotam da terra, junto á mina que se explora, que crescem ràpidos em grandeza e em civilização, que tẽm um commercio nôvo e forte, que arroteia terreno virgem, que tẽm um cèrebro nôvo e inventivo, e que nascido hôje, àmanhã desenvolvido pêlas fôrças novas que o avigoram, effeitúa agora em mêzes e semanas, o que antes demandava sèculos e annos. A mina é o mais poderoso principio do desenvolvimento de uma terra virgem. A mina é o mais poderoso incentivo da colonização de uma terra agreste. Scintille o diamante, fulgure a pepita do ouro, negreje o bloco de hulha, lance a mina do seu seio cavernoso, o cobre, o ferro e o chumbo, e ali no deserto julgado àrido, em tôrno do chumbo, ferro, cobre, hulha, ouro e diamante, nasce a vida, cria-se a civilização, e o progresso caminha ràpido como os seus modernos elementos, o vapor e a electricidade. Hontem as enxadas rudimentares dos indìgenas esgravatavam uma polegada de terra, e hôje as locomòbiles poderosas, lançando aos ares o grito da civilização no sibilar do apito, vam movendo arados que revolvem fundo a terra, virgem desde a sua formação geològica, e vem trazer á superficie em glebas recurvadas o pedaço de solo que nunca cuidou ter outro movimento àlém do que as leis do Creador lhe marcáram no espaço infinito. Ali, onde hontem um rio caudaloso apresentava barreira insuperavel aos passos do raro caminhante, hôje uma ponte construida de bocados de ferro ligados em harmònica architectura pelas leis sublimes da sciencia, dá facil passagem a uma população condensada, que nem sequér pensa nas àguas revôltas que lhe correm aos pes. O pàntano que hontem exhalava o miasma pestilento, está hôje convertido em parque ameno, cujas àrvores modificam a atmosphera e o clima. O ferro que, hontem elementarmente tirado da terra, apenas servia para a imperfeita ponta da azagaia bàrbara, corre hôje nas fôrmas gigantescas, e resfriando em forma de rails , vai estender-se n'essas arterias enormes onde pulsa o sangue das nações modernas. Do trabalho e da creação material nascem novas idéas, o cèrebro reforça-se, as faculdades creadôras do engenho humano desprendem-se mais e mais, e vôam longe, trazendo cada dia novos e poderosos elementos ao progresso e riquêza das nações. Foi assim que a Amèrica em um sèculo passou àlém da Europa, é assim que a Àfrica um dia irá àlém da Amèrica. Na terra Gricua, onde, em 1867, apenas cabanas abrigavam uma população bàrbara; em 1870 elèva-se uma cidade Europea, ainda envôlta no cahos das populações nascentes, mas sentindo em si tôdos os elementos de progresso ràpido. N'estas condições, não podia admittir sequér a dominação de povos tão atrazados como Böers e Gricuas. Muito occupada de si mesmo para se poder occupar de vizinhos importunos, apellou para a Inglaterra. O diamante e o ouro tem o poder sobrenatural de fascinar o rei como fascina o proletario, e se Böers e Gricuas estavam offuscados pêlo brilho dos diamantes Africanos, a Inglaterra não deixou de se commover ás scintillações dos seixos preciosos, e decidio logo no seu cèrebro intelligente e cùpido, que a terra Gricua era sua e não podia ser d'outrem. Á proclamação do presidente Brand seguio-se uma proclamação do Governador do Cabo, em que se dizia, pouco mais ou menos, que a terra pertencia aos Gricuas, e que os Gricuas pertenciam á Inglaterra. Esta proclamação precedia o proprio Governador, que entendeu dever ir ao logar do litigio. A recepção que lhe foi feita pêlos mineiros, foi enthusiàstica e esplèndida. Os Gricuas, que se sentiam fracos em presença dos Böers, uníram-se naturalmente á Inglaterra. Então o Governador, forte com o apoio de mineiros e Gricuas, entrou abertamente em negociações com os Böers dos dous Estados, e fàcilmente chegou a convencer Pretorius á desistencia dos seus direitos mais do que problemàticos. Não aconteceu porem o mesmo com o presidente Brand, que não so recusou a proposta de ser a questão decidida por uma arbitragem do Governador da Natalia, pedindo que essa arbitragem fôsse de um dos soberanos da Europa, e ainda mais, fazendo reunir uma fôrça consideravel de Böers para empregar as armas como argumento supremo. O Governador procurou e conseguio prudentemente soster esta manifestação guerreira do Estado Livre, que teria sèrias consequencias n'aquelles paizes. Ao mesmo tempo, o govêrno Inglez annexava ao Cabo o paiz diamantìfero, sem se importar muito com o que ali se passava. Brand todavia não desistia dos seus direitos, como Pretorius. Este, Böer, e tendo apenas a educação rudimentar dos Böers, aprendida nas pàginas da Biblia, vivia e sustentava-se mais pêlo nome herdado de seu pai, do que pelas suas qualidades pessoaes. Fôra mais facil á Inglaterra tratar com elle do que com o presidente Brand, filho da Colonia, mas possuindo uma bella intelligencia, uma vasta erudição, e todas as tricas e chicanas de advogado que é. Brand foi educado na Europa, é doutor pêla Universidade de Leyde, tem carta de jurisconsulto nos tribunaes de Inglaterra, e foi professor na escola do Cabo. Um homem n'estas condições, e dotado de um caracter enèrgico e forte, não se calava em presença das annexações da Inglaterra, e continuou a gritar e a provar que a terra Gricua era sua propriedade. Em seis annos fez seiscentos protestos, até que um dia Lord Carnarvon, o estadista Inglez, que melhor tem sabido comprehender os interesses coloniaes da Grã-Bretanha, o convidou a ir a Londres tratar directamente com elle a interminavel demanda. Brand em Londres continuou a pugnar pelos interesses do seu paiz, e cedeu os direitos á terra Gricua mediante uma indemnização pecuniaria de 105 mil libras. Foi assim que Lord Carnarvon cortou de uma vez para sempre as complicações entre os Böers do Estado Livre e as Colonias Inglezas do Sul d'Àfrica. Brand aproveitando a somma recebida em favor do seu paiz, tratou de lhe dar tôdo o desenvolvimento que uma pequena nação pode ter, com uma pequena quantia como aquella. Mas deixemos os Böers do Orange, dos quaes falei apenas por se ligar a sua curta historia com a do Transvaal, e voltemos a este paiz. Como disse, Pretorius transigio logo com o Governador do Cabo na questão da posse da terra Gricua, e isso foi motivo para se desacreditar entre o seu pôvo. A assemblea nacional (Volksraad) apresentou um voto de censura ao seu presidente, e preciso foi depol-o, e escolher quem o substituisse. Foi então eleito um Hollandez, Francisco Burgers, o terceiro presidente da rèpùblica Transvaaliana. Francisco Burgers, homem intelligente e illustrado, ministro protestante da Igreja reformada, pensou, logo que assumio o poder, levantar o Transvaal ao nivel das nações adiantadas da Europa. Tôdas as idéas do ùltimo presidente eram nobres e elevadas, mas não podemos deixar de admittir que elle commetteu erros manifestos de administração. Burgers não era homem pràtico, e não conhecia sufficientemente o elemento que governava, para saber como lhe dar o feitio que elle lhe queria dar. É sempre melindroso falar de um alto personagem que vive, quando a crìtica tem de analysar os seus actos, e se eu não me posso eximir a falar do D_or. Burgers, porque á sua administração se ligam factos da maior importancia, não quero de modo algum impor a minha opinião a respeito do governo do ùltimo presidente do Transvaal. Direi abertamente o que penso, e que formem os outros os juizos que quizerem. Durante a minha estada no Transvaal, não deixei de indagar, por tôdos os modos ao meu alcance, os factos da ùltima administração Böer, e sôbre elles edifiquei a opinião que vou expor. O presidente Burgers, tomando conta do Govêrno, quiz caminhar mais depressa do que devia n'um terreno tão pouco nivelado. As questões financeiras fôram as que primeiro chamáram a sua attenção, e bem preciso era isso, porque no Transvaal não haviam finanças. As despezas de administração eram pequenas, é verdade, mas as receitas geraes eram pequenissimas e mui irregularmente cobradas. Havia algum papél moeda e pouco dinheiro Inglez. Burgers cunhou moeda de ouro extrahido das minas de Lydenburg, e conseguio em pouco tempo restabelecer o crèdito, muito abalado, do seu paiz adoptivo. Para isso têve lutas ingentes e ignoradas, com um pôvo pouco subordinado, e disseminado n'um territorio enorme, onde as communicações eram e sam ainda hôje difficeis, e onde ainda não foi possivel fazer um censo aproximado. Outro assumpto importante que preoccupava o presidente, era a questão da fôrça pùblica. Elle percebia bem que o systema de defêsa empregado até então pelos Böers, a que chamavam o commando , isto é uma convocação geral para a guerra, era muito deficiente, e não podia continuar, n'um estado que elle queria elevar á altura dos paizes Europêos. A questão de regularizar um exèrcito entre os Böers apresentava grandes difficuldades, e encontrou uma sèria opposição. Um terceiro ponto de não menos importancia a tratar, e do qual se occupou logo o presidente, foi o da viação pùblica. Burgers instituio os primeiros juizes, e abrio as primeiras escolas pùblicas no Transvaal. Isto era muito para um pôvo na infancia, e foi feito de repente. N'isso e só n'isso commetteu um êrro o presidente da rèpùblica. Uma especie de febre de progresso se apossou do D_or. Burgers, que fez uma viagem á Europa, em 1875, com o duplo fim de arranjar dinheiro e um pôrto de mar ao seu paiz. Para o dinheiro foi bater á porta dos Banqueiros de Amsterdam, para obter um pôrto foi pedil-o ao govêrno de Lisboa. Em Amsterdam como em Lisboa foi escutado, e ao passo que obtinha um crèdito na Hollanda, fazia um tratado em Portugal para uma ferrovia que ligasse Pretoria ao soberbo pôrto de Lourenço Marques. Burgers voltava triumphante ao Transvaal, onde o esperavam as maiores decepções. Durante a sua ausencia, havia-se renovado uma antiga pendencia com um règulo indìgena, Secúcúni, ao qual era preciso fazer a guerra. Burgers não hesitou, e fez convocar um commando ao qual adheríram uns dois mil Böers e outros tantos indìgenas. Elle mêsmo se poz á frente do pequeno exèrcito e foi atacar o règulo sublevado. Ou fôsse que Burgers não nascêra para general, ou fôsse por uma d'essas outras causas difficeis de apreciar, que tantos desastres tẽm causado ás tropas regulares Inglezas em Àfrica, o pequeno exèrcito, depois de uma curta guerra em que poucas vantagens alcançou, têve de retirar. A êsse tempo chegava ao Natal Sir Theophilus Shepstone, que ia de Londres, onde Lord Carnarvon sempre na idéa de fazer uma confederação dos estados da Àfrica do Sul, tinha feito reunir delegados das diversas provincias para discutir tal projecto. Parece que Sir Theophilus Shepstone levava instrucções do govêrno Inglez a respeito do Transvaal, porque, logo que chegou a Durban, seguio para Pretoria. Não quero de modo algum entrar, n'uma obra do caracter d'esta, em apreciações sôbre o facto da annexação; e por isso limitar-me-hei a narrar os factos com a verdade que até hôje não tem sido dita. Para bem se comprehenderem esses factos, é preciso mostrar o que era o Transvaal á epocha da chegada de Sir Theophilus a Pretoria. A população Böer, difficil de avaliar, mas que os càlculos mais aproximados faziam montar a vinte-e-uma mil almas, estava espalhada n'um territorio immenso, igual em superficie á Inglaterra e Escocia reunidas. N'esse grande paiz três cidades apenas eram nùcleos de uma população mais condensada, e algumas aldeas separadas por distancias enormes, augmentadas ainda pêla difficuldade das communicações, reuniam pequenos grupos de habitantes. As três cidades, Potchefstroom, Pretoria e Lydenburg continham populações, que eram tudo menos Böers. As minas do ouro haviam attrahido a Lydenburg aventureiros de todas as nacionalidades, predominando o elemento Inglez importado da Australia. Pretoria era uma cidade nascente em que predominava o elemento Hollandez, mas não Böer.[13] Potchefstroom era de todas aquella que era habitada por maior nùmero de Böers, mas ainda assim, elles estavam em minoria em presença dos Hollandezes e Inglezes. As aldeas, das quaes as mais importantes eram Rustenburg, Marico, e Heidelberg, ja tinham a população Böer misturada com Inglezes e Hollandezes. A grande população Böer estava disseminada em casaes, e fugia naturalmente das cidades onde não podia fazer pastar os seus gados. Se era difficil fazer um recenseamento da população branca do Transvaal, mais difficil era ainda avaliar a população indìgena. Tenho visto càlculos que a estimam de duzentas a novecentas mil almas. O paiz estava coberto de missões de três ou quatro differentes sociedades de Inglaterra, de algumas Allemãs, e outras Hollandezas. Estes missionarios exerciam a sua acção sôbre o indìgena, porque Hollandezes tinham os seus pastores nas parochias, e Böers que sabem tanto de Biblia como os pàrochos, até d'elles prescindiam. A sêde do govêrno estava em Pretoria, a mais pequena das três cidades do Transvaal, mas aquella que melhor se acha collocada. Os homens que tinham a direcção principal dos negocios pùblicos eram Hollandezes. Esta era a posição da população heterogènea do Transvaal em principios d'Abril de 1876. Vejamos agora ràpidamente, qual era a posição moral, verdadeira ou apparente, dos Böers. Primeiro examinemos qual o juizo que fora d'Àfrica se fazia dos Franco-Hollandezes da rèpùblica Africana. Era elle de certo pèssimo. O Böer era um selvagem branco, possuindo todos os maos instinctos do selvagem, àvido de rapina, devastando e incendiando as aldeas do indìgena, pobre martyr da brutalidade e rapacidade de tão extraordinario malvado. Foi assim que elle nos foi apresentado por alguns missionarios, os ùnicos que na Europa nos davam noticias dos antigos emigrantes do Cabo. Forte contra o fraco, o Böer era cobarde e fraco em presença do forte. O que havia de verdade n'este juizo eu o direi ao diante. Então estavam elles moralmente desconceituados para com aquelles que apenas os conheciam por informações; e tinham perdido um pouco o prestigio entre o gentio pêlo revez soffrido com Secúcúni. Falavam mesmo, e entre elles discutia-se a questão, de depor o presidente Burgers, elegendo para seu chefe um Böer, P. Kruger, que estava dispôsto a tirar a desforra do indìgena Secúcúni. N'estas circunstancias a annexação era facil, e Sir T. Shepstone soube aproveital-a. As cidades que não tinham nada de Böers, eram por elle, e n'ellas se obtivéram facilmente petições, que, digamos a verdade, eram dirigidas por Inglezes. Tambem se disse, que os prêtos queriam ser Inglezes; e então Sir T. Shepstone, por uma proclamação, de 12 de Abril de 1876, declarou que o Transvaal era uma provincia Ingleza. Sir Theophilus Shepstone quando fez a proclamação estava escoltado por 25 homens apenas, que estavam acampados em barracas no jardim da casa que elle habitava. Assim, pois, a annexação do Transvaal foi pacìfica, e não interveio n'ella a fôrça armada, que elle mesmo não tinha, porque o regimento 80 de infanteria, que, debaixo do commando do Major Tyler, depois entrou no Transvaal, estava a esse tempo acampado na fronteira do Natal àlém do Drakensberg. A annexação foi pacìfica, mas os Böers so soubéram d'ella depois de annexados. Sir Theophilus Shepstone, o homem que melhor conhece e melhor sabe viver com o indìgena d'aquellas paragens, soube o que fez. Os Böers, espantados de se acharem Inglezes de um dia para outro, tivéram o seu movimento instinctivo e hereditario de emigrarem de nôvo. Uma parte d'elles tomáram a vanguarda n'esse movimento que se devia effeituar em massa, e ja narrei no capìtulo anterior como fôram, pêla maior parte, destruidos pêla secura do Deserto. Aquella immensa catàstrophe sustêve os que lhe deviam seguir os passos, e perfeitamente apertados n'um cìrculo de môsca zê-zê, que lhes era barreira insuperavel, tivéram que curvar a cabêça de nôvo ao jugo da Inglaterra. ¿Acabará aqui a historia do Transvaal como paiz autonòmico? ¿Quem o sabe? É preciso ter vivido entre os Böers para se avaliar quão forte é n'elles o desejo da liberdade, quão profundo o odio que votam aos que chamam seus oppressôres. Deixemos por aqui este ràpido golpe-de-vista lançado sôbre a curta historia do Transvaal, mas antes de reatar o fio da minha narrativa de viagem, quero ainda dizer duas palavras sôbre os Böers. Vivi entre elles, perscrutei a sua vida ìntima, desci a exacerbar-lhes as paixões. Vi-os ao trabalho, cavalguei junto d'elles por brenhas e florestas, e apreciei a sua destreza como caçadores, a sua coragem em face do perigo. Não me preoccupa a paixão; se recebi d'elles as mais affectuosas provas de amizade, ja por mais de uma vez n'este livro tenho patenteado a minha gratidão a favôres maiores recebidos de Inglezes. Falo, pois, com a consciencia de que as minhas palavras sam a mais rigorosa expressão da verdade, sem que no meu espìrito haja ao dictal-as a menor influencia apaixonada. Digo isto, porque mais uma vez tenho de falar dos missionarios, falando dos Böers, e não desejo que nem de leve se pense, que actua no meu ànimo um acinte formado contra tão uteis instituições, que eu sou o primeiro a proteger e a approvar; mas cujas chagas ulcerosas precisam do corte fundo do escalpêllo da crìtica, do cauterio ardente da censura verdadeira, para cicatrizarem de uma vez para sempre. O Transvaal não é uma nação que se possa avaliar pêlas nações da Europa. Ali ha uma só classe social--o Pôvo. Não ha distincções e tôdos sam iguaes em absoluto. Sem escolas, tôdos sam ignorantes; trabalhadôres, tôdos sam abastados; religiosos, e bebendo na Biblia, ùnico livro que conhecem, as leis da moral, tôdos sam honestos. O principio que estabeleceu, na idade media, as distincções na Europa, a coragem pessoal, difficil é ter cabida entre os Böers, porque tôdos sam valorosos. Como entre tôdos os povos que vivem uma vida elementar, só toma ascendente sôbre os outros, aquelle que tem o dom da palavra. A vida do Böer é regulada pêlos preceitos Bìblicos, e é verdadeiramente patriarchal. Entre os Böers não ha a mentira, o adulterio é desconhecido. O Böer casa cêdo, e ou fica vivendo na casa de seus paes, ou dos paes de sua mulhér, ou unido a outro vai perto arrotear novos terrenos, e começar uma vida nova. A ùnica distincção entre os Böers é a da idade, e o mais nôvo escuta sempre o mais velho. A mulhér trabalha e ajuda o casal n'um labutar incessante. O Böer tem necessidades muito limitadas, e pode satisfazel-as. Os emigrantes Francezes da revogação do Edito de Nantes eram, muitos d'elles, artìfices, e transmitíram até á gèração actual a arte de trabalhar a madeira e o ferro. Nas casas do Transvaal é facil ver a um canto um tôrno, e um Böer torneando os pés das suas mobilias singelas. Fora, n'um alpendre, em atanaría rudimentar, curtem-se os coiros de que elles mesmos fazem o seu calçado. As outras necessidades da vida sam facilmente satisfeitas por gentes que não tẽm outra ambição àlém da liberdade, e que ha um sèculo a buscam quasi em vão. ¿Como, pois, sendo os Böers taes como eu os descrevo, se diz d'elles tanto mal? A explicação do facto está em pouco para quem viveu no Transvaal, entre elles, e isento da paixão de raça que pode perturbar o espìrito mais justo e sisudo. Quem tem desacreditado os Böers sam os missionarios. Digo-o e sustento-o. Depois que os Böers, occupando o Transvaal, e pacificando pêla fôrça as aguerridas tribus que lhes disputáram a posse, déram uma certa segurança ao paiz, dezenas de missionarios corréram a estabelecer-se ali. D'estes uns eram bons, muitos maos. Preciso dizer aqui o que é o bom e o que o mao missionario. Bons sam aquelles que, intelligentes e illustrados, possuindo as qualidades que se requerem nos ministros de Deos, caminham para o seu fim desassombradamente; edificando com paciencia, com paciencia soffrendo o revés de hôje na esperança do triumpho de àmanhã; ensinando a moral com o exemplo e com a palavra; indo de vagar sem a agitação da paixão que cega, possuidos da responsabilidade da sua missão augusta. Bons sam aquelles que á intelligencia e illustração reunem aquellas flôres d'alma de que falei. Estes existem, mas infelizmente sam em pequeno nùmero. Maos sam os missionarios que, pouco intelligentes e quasi ignaros, pensando que a sciencia da vida consiste em saber mal e interpretar peior algumas passagens dos Livros Santos, empregam tôdos os meios, mais ou menos dignos, para alcançar um fim ficticio; e corroïdos do veneno da vaidade, ou movidos pêlo interesse pessoal, querem apresentar ás sociedades que os enviam, resultados extraordinarios, alcançados por meios que não se avaliam na Europa, e que sam a causa principal da prolongação da luta travada em Àfrica entre a civilização e a barbària. Para estes, o fim principal é insinuar-se no ànimo do indìgena, e na falta de qualidades que lhe ensinem o caminho a seguir, usam um meio facil para obter o seu fim, meio que lhes dá sempre bom resultado. É elle o de prègar a revolta. Para os ouvidos do indìgena é sempre mùsica harmoniosa a frase que o ensina a revoltar-se contra o branco. Os missionarios que tẽm pouco saber e pouca intelligencia começam por gritar-lhe, a cada hora, a cada momento, no pùlpito sagrado, que so deve ouvir a linguagem da verdade; que elles sam iguaes ao branco, sam iguaes ao homem civilizado; quando so lhes deveriam dizer o contrario, quando so lhes deveriam dizer:--"Entre ti e o Europêo ha uma differença enorme, e eu venho ensinar-te a vencel-a." "Regenèra-te, deixa os teus hàbitos de indolencia, e trabalha; deixa o crime, e pratica a virtude que eu te ensinar; aprende e deixa a ignorancia; e então, e so então, poderás alcançar um logar junto ao branco; poderás ser seu igual." Esta é a verdade que lhe ensinam os missionarios bons, esta é a verdade que lhe não sabem dizer os maos. Dizer ao selvagem ignaro, que elle é igual ao homem civilizado, é mentir, é commetter um crime, é faltar a tôdos os devêres que lhe impoz aquelle que o mandou á Àfrica, é atraiçoar a sua missão sagrada. Dizer ao selvagem ignaro, que elle é igual ao homem civilizado, é abrir a jaula á fera diante do pôvo descuidôso que tranquillo está confiado em que a chave está em mão segura. Não! o indìgena, tal como o missionario o encontra n'Àfrica, não é igual ao homem civilizado, está muito longe d'isso. N'elle estam adormecidos os instinctos bons, para so se revelarem os maos. N'elle ha a indolencia e o horror ao trabalho; n'elle ha a ignorancia absoluta: e bastam estas qualidades más, àlém de outras, para cavarem um abismo entre elle e o branco. O systema seguido pêlos missionarios maos é o estabelecimento da desordem; é a maior barreira levantada ao progresso da Àfrica Austral. Os Böers, tendo conquistado um paiz de ha pouco, em breve percebêram que, se alguns missionarios eram auxilio poderoso á sua dominação, outros lhe criavam conflictos e obstàculos. Começáram, pois, a fazer guerra a estes, que procuráram logo desconceitual-os aos olhos da Europa. D'ahi nasce o exàgero da ma fama dos Böers. Esta é uma verdade que eu tenho a coragem de dizer n'um livro d'estes, e que ninguem ainda disse antes de mim. Vivi entre os Böers, ouvi a muitos exaltar as qualidades de tal ou tal missionario, e deprimir os actos de outros e outros. Vivi em Pretoria, e ali, n'um meio muito superior, ouvi a mesma cousa, de Hollandezes e Inglezes. Vivi com missionarios, e encontrei n'elles mesmos as verdades que affirmo. Não tẽm d'isso culpa as bem-intencionadas sociedades que os subsidiam; não tẽm d'isso culpa as autoridades que os apoiam, e que sam d'elles muitas vêzes as primeiras vìctimas. O missionario deve ser um dos primeiros elementos da futura civilização, e d'elles devemos esperar muito; mas, taes como muitos sam, so dam resultados contraproducentes. O mao missionario prègou a revolta, e o Böer foi atacado. Houve guerra cruenta, e para a Europa fôram relatados os factos horrosos praticados pêlos Böers, contra os bons, innocentes, e pacìficos indìgenas!! ¡Não nos ceguemos, nos nossos bem intencionados sentimentos, a ponto de admitirmos absurdos, de sonharmos chimeras! ¡Eu ja li em alguma parte, que o Böer era muito inferior ao nêgro!! ¡Outra asserção que ja ouvi affirmar tambem, foi, que o Böer era refractario ao progresso! ¡Outro absurdo, outra aleivosia, sahida da mesma fonte! Não é o missionario o homem que hade levar o adiantamento ao Böer, e a razão d'isso é o meu principal argumento contra a obra de muitas missões, contra o caminho errado que seguem em Àfrica. Ja tive occasião de falar em missionarios bem intencionados, mas que erravam na sua missão querendo ensinar as abstracções da theologia aos prêtos. Esta verdade revela-se no nada que elles obtẽm junto aos Böers. O Böer sabe tanta theologia como o missionario, se não sabe mais do que muitos, bebida na Biblia, ùnico livro que elle lê e estuda. O missionario que julga o seu trabalho ser ensinar a Biblia, nada tem que ensinar ao Böer, e deixa-o no estado em que o encontrou. ¡Depois grita, que o Böer é refractario ao progresso! Sim! elle não adiantou um passo, porque o não soubéram fazer avançar. A culpa não está no discìpulo, está no mestre. Outra aleivosia levantada contra os fazendeiros do Transvaal, é o ferrête de cobardes que lhes querem imprimir na fronte altiva. Eu tive occasião de avaliar a coragem dos Böers; mas, se a não tivesse, bastava-me a historia das guerras vencidas por elles contra Zulos, Cafres e Basutos, para os soppôr bravos. Deos queira que elles não mostrem ainda o seu valor, de modo a fazer calar os aleivosos. Hôje que escrêvo estas linhas, chegam á Europa rumôres de uma tentativa de sublevação Böer; será ella uma calamidade á Àfrica Austral, que tôda a Europa deve lastimar; será esmagada, como ninguem o pode duvidar; mas virá trazer um desmentido formal áquelles que chamam cobardes aos Böers. O que restava da expedição.] CAPÌTULO VII. NO TRANSVAAL ( continuação ). Era em Pretoria, ja cidade Ingleza e capital da provincia Transvaaliana, que eu entrava na manhã de 12 de Fevereiro de 1879. Encontrei logo o thesoureiro do Govêrno, Mr. Swart, que me fez os mais cordiaes offerecimentos, mas que me disse, não me convidar para seu hòspede, porque não tinha na pequena casa que habitava um quarto a offerecer-me. Fomos aos hoteis. Nem um quarto, nem uma cama! Voluntarios, que de tôdas as partes corriam a alistar-se nos corpos que se organizavam ali, attrahidos por uma paga de cinco xelins por dia, enchiam tudo, e criavam-me um embaraço enorme. Eu, que até ali tinha tido cama, desde Benguella, comecei, na primeira cidade civilizada que encontrava, a não ter onde me deitar! Emfim, depois de muitas buscas e de me terem provado que as conveniencias sociaes (eu ja me tinha esquècido das conveniencias sociaes) me não permittiam dormir na praça pùblica, onde eu ficaria optimamente nas minhas pelles de leopardo, pude obter um canto, no Café Europêo, onde me metti, com a promessa de um quarto em poucos dias. Estava arrumado, mas começáram novas difficuldades para acommodar a minha gente. Mandei chamar o Böer Low, que precisava de tratar a mão esmagada pêlo vagom, mas preveni Verissimo, que se deixasse ficar acampado fora da cidade até nova ordem. O portador voltou com Low e Verissimo, que me veio dizer, que a minha gente tinha fome, e era preciso dinheiro para lhe dar de comer. Fiquei espantado ao ouvir aquillo. Eu ja me havia esquècido de que o dinheiro era absolutamente necessario em paiz civilizado, e não tinha nenhum. Contudo comprehendi que era preciso havel-o, e fui pedil-o ao meu hospedeiro Mr. Turner, que logo m'o prontificou. Mandei Low a um mèdico, e eu dirigi-me a casa de Mr. Swart, que me convidara a jantar. Mr. Swart tinha feito convites e programma. Eu que sube isso, fiz tambem grande toilet . Os meus calções, que da fazenda primitiva ja pouco tinham, e onde os remendos deitados por mim (que nunca tive grande geito para alfaiate) se sobrepunham, fôram cuidadosamente escovados do pó e da lama de vinte differentes paizes. Achei um par de meias, que tinham sido repassadas com grande pericia por Madame Coillard, e que faziam vista. As minhas botas ferradas, essa obra prima de Tissier de Paris, fôram pêla primeira vez engraixadas, e não tinham má apparencia. O casaco dàva-me mais cuidados, porque tinha uns bolços de couro, que haviam sido outrora prêtos, mas que então haviam tomado uma côr exquisita. Lembrei-me do tinteiro de Mr. Turner, e com uma penna de gallinha procedi á pintura d'elles, que tomáram um prêto baço, talvez ainda peior do que a côr que tinham. Depois de bem penteada a longa barba e os mais longos cabellos, fui para casa do Thesoureiro do Transvaal. Ao passar os umbraes da porta do salão, fiquei deslumbrado. As damas em toilet, os homens de casaca, os leques, as vistosas e brilhantes côres das sêdas, os tapêtes, os espêlhos, tudo aquillo que eu ja tinha esquècido em tantos mêzes de vida rude e selvagem, produzíram-me uma impressão que não pode ser avaliada. Eu em Pretoria. (De uma photographia de Mr. Gross.)] Deve sentir cousa semelhante o cego, a quem o bisturi ligeiro do mèdico levantou a cataracta que o tinha sepultado nas trevas, e que depois de muitos mêzes de escuridão vê a luz. Eu estava perturbado, e sôbre tudo as mãos incommodàvam-me muito. Não sabia que fazer d'ellas, e buscava de balde em que as occupar. Faltàva-me o pêso da carabina, que eu procurava instinctivamente, em vão. Fomos para a mêsa. Eu conduzi pêlo braço a dona da casa, e ao chegar os meus andrajos ás sêdas que a cobriam, comecei a perceber que estava muito mal vestido. Á mêsa experimentei novas sorprêsas. Os cristaes, as porcelanas, os vinhos rutilando nas jarras lapidadas, confundiam-me, e sôbre tudo o menu exquisito, escrito em elegantes cartões, intrigàva-me. Commetti de certo desatinos, mas não posso bem avaliar tôda a extensão dos meus disparates, tão inconsciente estava. Terminado o jantar, voltámos á sala, onde continuava a minha confusão, até que uma dama se sentou ao piano. Os seus dêdos corrêram ligeiros sôbre as teclas, fazendo vibrar n'as cordas em harmoniôso concêrto, um dos Nocturnos de Chopin. A impressão que me causou aquella mùsica, aquelle piano, cujos sons me penetravam na alma como uma sensação nova, acabáram de perturbar o meu espìrito, fraco para poder resistir a tantos abalos. Foi quasi em dilirio que voltei ao Café Europêo, onde n'um canto de uma sala me haviam improvisado um leito, leito que tinha colchões, travesseiros e lençoes. Ia para me deitar como de costume, quando percebi que me deveria despir para isso. Passei uma noute de insomnia, produzida pêlas impressões do dia e pêlos lençoes da cama. Ao amanhecer eu estava a pé e vestido, porque na sala, em que podia ter dormido, começou um labutar de criadagem. Comecei a pensar no modo de accommodar a minha gente, o que não me parecia facil, e vi que sôbre tudo precisava de obter dinheiro. Estava fazendo os meus planos, quando me chamáram para o almôço. Fui para a mêsa. Um criado Indio, um d'esses culis que ja chegáram até Pretoria, collocou diante de mim um prato de espigas de milho, cuidadosamente assadas, e um pires de manteiga. Ao encarar com o milho assado, lancei ao pobre criado um olhar tão feroz, que elle recuou espavorido. ¡Milho a mim! ¡a mim que so matava a fome com milho havia um anno! ¡Ah! que vontade que tive de empalar aquelle Indio, o cozinheiro e o dono da casa! Fiz um gesto tão expressivo e enèrgico, que as espigas desapparecêram da mêsa, levadas pêlo veloz criado. Pouco depois, chegava-se solìcito a mim Mr. Turner, a perguntar-me o que eu queria para almoçar. ¿O que eu queria para almoçar? Mas eu queria tudo, queria perdizes com trufas, queria foie gras , queria gelados, queria vinhos das melhores colheitas de Burgonha, queria, queria... nem eu sei o que queria. O dono do Café Europêo julgou que lhe havia cahido em casa um d'esses gastrònomos famosos, que pensam sempre em elevar uma estàtua ao cèlebre Brillat-Savarin, e que se ainda a não erigíram foi por não acharem materia prima apropriada ao monumento, que fôsse, á semelhança da columna Vendome construida com os bronzes dos canhões conquistados, uma recordação permanente do homem que ensinou á humanidade que no mundo não se come so para viver. Effectivamente, pêla primeira vez na minha vida, eu era gastrònomo. Pêla primeira vez na minha vida, comecei a pensar que o paladar era um sentido como os outros, e que se Mozart, Rossini, Meyerbeer, Verdi e Gounod, o chilrear das aves e sussurrar do arroio, fôram creados para nos deliciar o ouvido; se Raphael, Rubens, Van-Dyck, Velasquez e Murillo, as paisagens e as bellezas, nascêram para nos recrear a vista; se Atkinson, Rimmel, Lubin, Piesse, e as flôres existem para nos deleitar o olfato; tambem Brillat-Savarin, Vatel, as trufas e os cogumelos não viéram ao mundo sem uma missão especial. Comecei a comprehender isto, tendo chegado a Pretoria depois de um anno de milho, massango, e carne assada sem sal. Creio que tôdos os paizes do orbe comprehenderám que eu devêsse ser gastrònomo ao chegar a Pretoria, excepto a Inglaterra, porque essa, infelizmente para ella, nunca comprehendeu nem comprehenderá Brillat-Savarin. Felizmente para mim, eu estava n'uma terra Ingleza, mas Ingleza de frêsco, onde o roast beef e o plum pudding não haviam tomado um ascendente notavel sôbre a cozinha dos paizes meridionaes. Mr. Turner não me deu um almôço como m'o daria o Matta, o Central, o Silva ou o Augusto em Lisboa, o Ledoyen ou o Café Riche em Paris; mas deu-me cousa muito soffrivel. Não quero dizer bôa, porque começava a ser muito difficil em gastronomia. Depois do almôço, em uma larga conversa que tive com Mr. Turner, fiquei desenganado de que não tinha onde accommodar a minha gente na cidade. Isto preoccupàva-me, porque não podia reter por muito tempo o vagom que elles habitavam. Eu estava sendo uma especie de urso que tôdos queriam ver, e a curiosidade dos importunos começava a desgostar-me. Sôbre tudo uma cousa que aborrecia era ver os espantos que se faziam da minha pequena estatura e da minha apparencia debil. Este facto repetio-se na Europa, e em Lisboa, Paris e Londres, ouvi por vêzes expressar aos que me viam a desillusão que experimentavam, por me julgarem um brutamontes, um Golias de talhe hippopotàmico. Mas se, nas circunstancias em que eu estava em Pretoria, muitos eram importunos e me torturavam, muitos outros procuravam por tôdos os modos servir-me e obsequiar-me. No nùmero dos ùltimos, contei n'esse dia quatro, que fôram o Major Tyler,[14] Capitão Saunders do 80, Mr. Fred. Jeppe e D_or. Risseck; e recebi dois convites, um para jantar, de Mr. Osborn, Secretario Colonial e Governador interino do Transvaal, e outro do D_or. Risseck para a um sarau; mas nada d'isto me adiantava sôbre a maneira de arrumar os meus prêtos. Pegando na minha carteira para procurar um resto de bilhêtes de visita, encontrei n'ella uma carta de Mr. Coillard dirigida ao missionario Hollandez Mr. Gruneberger. Aproveitei o ensejo que me offerecia aquella carta para fugir aos massadores, e fui entregal-a. Mandei aparelhar Fly e parti. A casa de Mr. Gruneberger é em Pretoria, mas um pouco afastada do centro da cidade. Chegado que fui, encontrei o missionario, homem muito nôvo, que me recebeu muito bem. Apresentei-lhe a carta de Mr. Coillard, e logo que elle a leu, offereceu-me o seu prèstimo. Falei-lhe no embaraço em que estava para accommodar a minha gente, e elle prontificou-se a resolvel-o, offerecendo-me o quintal da sua casa, e a sala da escola, para elles dormirem á noute. Aceitei pressuroso, e voltei ao Café Europêo, para mandar ordem ao Verissimo de ir com o vagom a casa do missionario. Aceitando o offerecimento do Rev. Mr. Gruneberger, fiz-lhe instantes recommendações sôbre o modo de tratar os meus prêtos, pedindo-lhe sôbre tudo, que os não trata-se de igual para igual; porque lhe fiz ver que elles eram um pouco selvagens, e isso poderia trazer consequencias graves. Elle rio-se muito das minhas recommendações, e disse-me modestamente, que o seu mistér era tratar com tal gente, e por isso sabia do seu officio. N'essa noute ja os prêtos dormíram na sala da escola, e o vagom descarregado ficou livre para voltar ao Marico logo que a ferida de Low lhe permittisse pôr-se a caminho. Fui ao jantar do Secretario Colonial e ao sarau do D_or. Risseck, e se da casa de Mr. Osborn sahi penhoradissimo das suas attenções, e muito contente, por ter resolvido um dos maiores embaraços da occasião, a questão financeira, porque o governador interino do Transvaal, em nome do govêrno Inglez, poz á minha disposição o dinheiro de que eu carecêsse, em casa do distincto mèdico Hollandez não me esperavam momentos menos apreciaveis, porque passei ali uma das melhores noutes que tenho passado em sociedade. É verdade que o D_or. , recebendo em sua casa, apresenta aos convivas uma maravilha, que os thesouros dos nababos e o poder dos autòcratas não podem apresentar. É Mademoiselle Risseck, é sua filha, deliciosa criança, que acabava de deixar os trajes da infancia, e na qual o espìrito e educação esmerada disputam primazias a uma belleza sem igual. O D_or. Hollandez redobrou de instancias comigo para que fôsse ser seu hòspede, e eu de certo teria aceitado hospitalidade tão franca e cordialmente offerecida, se não tivera uma promessa de Mr. Turner, de ter um quarto para mim no dia immediato. N'esse dia, 14 de Fevereiro, e terceiro de estada em Pretoria, acabavam de se resolver as minhas difficuldades. O telègrapho tinha levado longe a noticia da minha chegada áquella cidade, e o telegrapho tinha trazido ordens, de Sir Bartle Frere, de Sir Theophilus Shepstone e do Consul Portuguez no Cabo, Mr. Carvalho, a meu respeito. Tinha a maior assistencia do govêrno Inglez; e o Portuguez, representado pêlo Consul do Cabo, ia àlém do estrangeiro. A minha gente disse-me estar optimamente em casa do Rev. Gruneberger, e Mr. Turner dàva-me um quarto. Verdadeiramente não era um quarto, era uma casa tôda e independente, pròximo do Café Europêo. Comecei a respirar e a achar-me á vontade, mas tinha ainda um ponto nêgro, um pesadêlo que me perseguia sempre, e era não saber o que fazer das mãos. Andava sempre a procurar a carabina, e tal era a fôrça do hàbito, que mais de uma vez cheguei a sahir á rua com ella, com grande espanto dos transeuntes. N'esse dia remunerei Low e o endiabrado Christophe, que resolvêram partir no dia immediato, apesar de a mão de Low não apresentar sensiveis melhoras. Mandei por Low uns pequenos presentes a sua avó, a velha megera do acampamento Böer, e a suas irmãs, as duas bonitas raparigas que cosinhavam cebôlas. Retribui e despedi tambem o Betjuana Farelan, que tão bons serviços me prestou de Soul's Port a Pretoria, e por elle escrevi a Mr. Gonin, o bom missionario Francez do Piland's Berg. Fui em seguida ao Cape Colonial Bank , onde depositei a somma do meu dèbito a Mr. Taylor de Shoshong, que, continuando as suas delicadezas para comigo, ainda a esse tempo não tinha feito apresentar a lêtra para o aceite. Em seguida a estes passos, fui para minha casa, d'onde escrevi ao Governador de Moçambique, participando-lhe a minha chegada a Pretoria, e pedindo-lhe para mandar expedir de Aden um telegramma que lhe enviei, dirigido ao Govêrno de Portugal. Continuavam os favôres que não cessavam de dispensar-me as principaes pessoas de Pretoria, e eu quasi não tinha occasião para comer no Café Europêo, tantos convites recebia. A 15 de Fevereiro, tive uma larga conversação com Mr. Fred. Jeppe, o sabio geògrapho Transvaaliano, e pêlas informações que elle me deu, combinadas com o que me havia dito o Governador interino e Mr. Swart, vi que a guerra dos Zulos era um embaraço á continuação da minha viagem. Èra-me quasi impossivel ir a Lourenço Marques, como eu queria, e mesmo o caminho da costa Ingleza estava difficil, porque depois da derrota de Isandhlwana, os Zulos estavam apenas contidos por o bravo Coronel E. Wood,[15] entrincheirado em Utrecht, e tôdas as communicações se faziam pêlo Estado Livre do Orange, por Harrismith, triplicando o caminho e as difficuldades. Logo que estudei a questão, decidi mandar a minha gente para Natal pêlo caminho de Harrismith com as bagagens, incorporada na primeira caravana que largasse Pretoria, e eu sòzinho e escoteiro ir em linha recta pêlo theatro da guerra. Dispuz pois as coisas n'esse sentido, e fiquei esperando o ensejo desejado. O dia 16 foi tôdo consagrado a Mr. Fred. Jeppe e em sua casa fiz as observações para determinar as coordenadas de Pretoria. Mr. Turner tinha a meu pedido fabricado um grande bloco de gêlo, com o qual pude verificar os zeros dos meus thermòmetros e hypsòmetros. D'essas observações, so existem as hypsomètricas, porque as astronòmicas perdêram-se não sei como. Sei que as não encontrei registradas em Maritzburg quando as quiz calcular, e lembra-me que calculei a latitude mesmo em casa de Mr. Fred. Jeppe, e que encontrei para ella o mesmo nùmero que vem no almanach do mesmo S^nr., creio que do anno de 1878, determinada por um official da marinha Ingleza. Fui n'esse dia procurado por um homem que se devia unir áquelles que na cidade Transvaaliana se execedêram nos favôres que me dispensáram. Foi elle Mr. Kish, membro da Sociedade Real de Geographia de Londres. Madame Kish, Madame Imink e a Baroneza Van-Levetzow enchiam-me de favores, e nunca lhes poderei agradecer tudo o que por mim fizéram. No dia 19 recebi um convite para jantar, dos officiaes do regimento 80. Não posso deixar de narrar um episòdio d'este jantar, que me commoveu em extremo. Eu continuava a usar os mesmos trajes, e apenas tinha feito uma absoluta reforma de roupa branca. Eu não possuia dinheiro meu, e aquelle que saquei sôbre o govêrno era destinado ás despêsas necessarias da expedição, e não ás minhas necessidades particulares; por isso não comprava roupa por não ter com que a comprar, e só o fiz em Durban quando encontrei quem me emprestasse dinheiro a mim como particular. Por esta razão os meus andrajos continuavam a cobrir-me, e n'aquelle jantar destoavam completamente dos brilhantes e esplendidos uniformes que vestiam os officiaes do 80 e os convidados. O jantar correu alegre como entre officiaes que estam em campanha devia ser. Eu estava de excellente humor, e ria de uma ou outra anecdota picante, quando umas duzias de estalos vieram mostrar que os criados faziam saltar as rôlhas do espumante champagne. Enchêram-se os copos, esses pires de cristal sustentados por um problemàtico pe perfurado, d'onde sobe sem cessar uma fervura gelada, tão grata á vista como é grato ao paladar o lìquido dourado em que ella se forma. O Major Tyler, que presidia á mêsa, levantou-se, e tomando o copo, pronunciou essa palavra, que, nos mais ruidosos jantares Inglezes, impõe o mais profundo silencio. Major Tyler disse, com a sua voz forte e sonora: "Gentlemen!" "Gentlemen, a Sua Magestade El-Rei de Portugal." Nós tôdos de pe ìamos corresponder á saúde, quando a mùsica do regimento rompeu o hymno d'El-Rei D. Luiz, que foi escutado de pe no meio do maior silencio. Não é possivel pintar as sensações que experimentei ao ouvir aquella mùsica, aquelle hymno patriòtico tocado em terra estranha, aquella homenagem prestada ao meu paiz na pessôa do seu soberano. Se devi muitos favôres e muita amizade ao Major Tyler, agradêço-lhe acima de tudo a sorprêsa que me deu n'aquelle momento. A affinidade de vida levàva-me tôdos os dias ao acampamento das tropas Inglezas, onde eu, se não jantava, almoçava, prendendo-me verdadeira amizade a muitos dos officiaes, um dos quaes se tornou meu inseparavel. Era elle o bravo Capitão Allan Saunders. Da mesma idade e encontrando um no outro idènticas inclinações e gôstos, o tempo que eu não passava com Saunders passava-o elle comigo. Tôdas as tardes ás 4 horas nos encontràvamos em casa da Baroneza Van-Levetzow, onde apparecia tambem ás vezes o Major Tyler, e onde se reunia uma distincta sociedade de elegantes e formosas damas. A Baroneza dàva-nos um òptimo e exquisito café, que era servido por sua filha, uma encantadôra criança loura e azougada. Sabendo-se da minha ligação com Saunders, ja eu não recebia convite sem que elle fôsse convidado tambem, e assim passámos muitas horas deliciosas em casa de Madame Kish e de Madame Imink e outras. Aquillo era um ceo aberto, e em quanto eu não tinha mais que fazer do que esperar os acontecimentos, so pensava em passar o tempo o mais agradavelmente que podia. ¡Se eu tinha trabalhado e soffrido tanto!! Fui avisado de que um comboio de vagons deveria partir para a cidade de Durban no dia 22, e tratei de contratar com os conductôres o transporte da minha gente e bagagens. Este comboio devia gastar de 35 a 40 dias no caminho, e por isso deixàva-me largas para me demorar ainda em Pretoria algumas semanas, porque eu calculava gastar apenas seis dias para alcançar o mar. No dia 21, estava eu preparando umas caixas em que deviam ir uns pàssaros, que eu trouxera e que tinham sido cuidadosamente arranjados por Mr. Turner, em que deviam ser acondicionadas as pelles, despojos das minhas caçadas, e uns insectos que pude aproveitar, porque dos muitos que apanhei ao sul do Zambeze, so chegáram a Pretoria pernas, cabêças e corpos separados, sendo impossivel ao mais versado entomològico dizer a que cabeças pertenciam aquelles corpos, a que corpos pertenciam aquellas pernas. Estava eu arranjando aquillo, estupefacto com o prêço que me custava cada bocadinho de tàbua, que é o gènero mais caro que encontrei em Pretoria, onde tudo é caro; quando me viéram chamar a tôda a pressa, dizendo-me, que tudo em casa do Rev. Gruneberger andava n'uma poeira, com a minha gente, que ja havia mortos e feridos e não sei que horrôres mais. Corri a casa do Missionario. Houvera e havia um caso grave de insubordinação contra o dono da casa, que eu reprimi n'um momento, mas desgraças creio que apenas os queixos de um criado partidos com um bofetão de Augusto. Eu tinha sempre tido um presentimento que alguma cousa aconteceria se se desse a confiança que se deu a prêtos d'aquelles. Mr. Gruneberger mostrou-me que era inconveniente continuarem em sua casa, e muita razão tinha elle n'isso, depois dos disturbios que elles ali fizéram. Como deveriam partir no dia immediato, pouco cuidado me deu este incidente; mas desgostou-me em extremo, pêlo que elles fizéram n'uma casa em que tinham sido tão bem acolhidos. No dia immediato, sube que os vagons so partiam no dia 26, e por isso accommodei os prêtos o melhor que pude na casa que habitava. Mr. Swart, o Thesoureiro do Transvaal, continuava a obsequiar-me e eu ia repetidas vêzes a sua casa, onde sentia um prazer immenso em brincar com as suas filhas, duas formosas crianças. Eu nunca gostei muito de pequenos. Sempre os achei importunos e pouco interessantes; mas depois da minha viagem, comecei a sentir uma verdadeira paixão por crianças louras e bonitas, e em Pretoria eu passava horas com as filhas de Mr. Swart, ou com as de Mr. Kish. Talvez a lembrança de uma filha de quem eu estava separado produzisse em mim aquelle gôsto de brincar com as innocentes creaturas. Talvez a vida rude e severa que eu tive n'uma tão fadigosa jornada, precisasse de uma antìthese, que eu encontrava nas caricias da pequenada. Ia assim passando a vida em Pretoria, quando um dia fui procurado por um homem que trazia uma carta para mim. Recebi o desconhecido, que tinha ares de sertanejo Inglez. Era um rapaz ainda nôvo, de mediana estatura, sympàthico e de physionomia enèrgica, vestido de uma camisa grosseira, e umas calças prêsas com um forte cinto de couro. Dirigio-me a palavra em Francez, d'aquelle que se fala no Boulevard dos Italianos, e apresentou-me a carta. Conheci pêla letra do sobrescripto que era de Mr. Coillard. Abri-a pressuroso, e vi que era carta de apresentação do portador. Não era preciso a recommendação de Mr. Coillard para eu cortejar com respeito e estender a mão com sympathia áquelle homem. O seu nome, bem conhecido nos sertões da Àfrica do Sul, era recommendação bastante. Era Mr. Selous, o atrevido viajante e ousado caçador Inglez. Mr. Selous esteve tres dias em Pretoria, e conversámos muito sôbre a Àfrica. Elle havia entrado ao Norte do Zambeze em uma direcção parallela ao Cafuque, e a leste d'elle, e fez-me d'esse paiz as mais interessantes descripções. Ali encontrou muitos Portuguezes, entrados por Quilimane, e entre outros citou-me um Joaquim Mendonça, que tinha como seus empregados três antigos soldados do Batalhão da Zambezia, chamados Manuel Diogo, Joaquim da Costa, e Antonio Simões. Pêlo que elle me disse, e combinando as datas, penso que seriam estes os Muzungos de que tanto se falava no Barôze durante a minha estada em Lialui. Mr. Selous deu-me um esbôço grosseiro da sua viagem ao norte do Zambeze, de que eu me não servi na minha carta de Àfrica Tropical Austral, por não me julgar autorizado a isso sem a sua prèvia licença, que me olvidei de pedir. Eu dei-lhe as indicações que elle desejava para uma nova expedição venatoria nos arredores de Linianti, e fiquei de lhe mandar um esbôço do paiz, que depois lhe enviei para Shoshong. No dia 23 fui almoçar com Monseigneur Jolivet, o illustrado Bispo de Natal, que então se achava em Pretoria, dirigindo as construcções do importante estabelecimento Cathòlico que ali se ergeu depois da dominação Ingleza; que é de certo a mais importante escola de educação do Transvaal, e onde muitos Protestantes, Mr. Swart por exemplo, e outros, enviam as suas filhas. Monseigneur Jolivet, homem sabio e de respeitabilissimo caracter, conversou muito comigo, e percebi que não era muito affecto aos Portuguezes. Pensa elle, que nós não somos muito bons Cathòlicos. Procurei demonstrar-lhe o contrario, mas creio que o fiz de balde, porque Monseigneur vinha sempre com a historia de um padre, o Rev. Bompart, que tendo ido a Lourenço Marques, não lhe foi permittido ali celebrar, apesar de todas as instancias que fez. Não o pude convencer de que, se o Rev. Bompart se apresentou sem auctorização legal, era natural não lhe deixarem exercer o seu mister; assim como não o pude convencer, de que quem governava na Igreja do Oriente era o Arcebispo Primaz das Indias. O honesto Bispo, tinha tão profundamente arraigadas no espìrito opiniões e malquerenças contra nós, que ficou na sua, dizendo-me sempre que nós somos os peiores dos pedreiros livres do mundo. Uma tia velha que eu tive, tambem dizia o mesmo depois da exstincção das corporações religiosas. Ora o facto verdadeiro é que Portugal é um dos paizes mais religiosos que eu conheço, que é muito bom Catholico, mas entende que religião e alta politica sam duas cousas differentes, aprendeu esta heresia com o Marquez de Pombal, e desde então se os padres misturam religião com politica, zanga-se com elles. Monseigneur Jolivet que me perdôe, se ainda continúo a insistir em que somos dos melhores Cathòlicos do mundo, e que ainda o seriamos se nos levantassemos forte e energicamente contra os ministros da nossa religião, que traindo os deveres sacrosantos da sua missão nobre e sagrada, fossem fazer propaganda polìtica em deterimento nosso e em favor de estrangeiros na terra da Patria, que terra da Patria é tôda a terra onde se hastea a bandeira de Ourique, seja qual fôr o ponto do glôbo em que ella tremule. É tempo de dizer duas palavras de Pretoria, tal como eu a vi em Fevereiro e Março de 1879. Começarei por descrever a cidade pêlo seu lado material. Pretoria era uma cidade nascente, á qual a dominação Ingleza não tinha imprimido ainda o seu cunho nacional. As ruas largas e espaçosas dão accesso ás casas, pêla maior parte terreas, mas bem construidas e elegantes. Abundam ali os jardins, e em algumas ruas as casas elevam-se no meio d'elles. A cidade assenta sobre um plano inclinado que na parte mais elevada tem abundantes nascentes de àgua que a banham. Esta àgua, ao tempo que ali vivi, corria nas ruas em valêtas lateraes profundas e descobertas, que a escuridão da noute convertia em verdadeiros precipicios. Recòrdo-me de mais de uma vez ter cahido n'ellas, chegando a casa completamente molhado. Em alguns quintaes e jardins ha àrvores muito grandes e frondosas. As ruas estavam por calçar, e com as chuvas eram incòmmodos atoleiros. Tem alguns templos decentes, uma modesta casa de tribunal, e muitos estabelecimentos commerciaes onde é facil encontrar tôdo o necessario, e mesmo o supèrfluo, que ja ali ha luxo. Na parte elevada estàvam-se construindo os vastos quartéis para as tropas, que então estavam em grande parte acampadas em barracas, em tôrno de três casernas ainda mal acabadas. O caminho da cidade para os quartéis era medonho, e perigôso de noute, porque as chuvas cavavam rêgos profundos, e produziam atoleiros enormes, onde nos enterràvamos, e onde por vêzes arrisquei quebrar as pernas. Ha na cidade alguns pontos muito bonitos, como é o chamado as fontes , e uma das sahidas coberta por chorões enormes, e onde uma azenha dá um cunho pintorêsco á paizagem. Os arredores sam despidos de arvorêdo, e um pouco monòtonos, havendo apenas aqui e àlém uma ou outra fazenda de Böers a quebrar a monotonia natural. Pretoria deve ser um dia uma das mais bellas cidades da Àfrica do Sul, e tal como eu a vi ja apresentava um aspecto geral agradavel e buliçôso. Como em todas as terras, de nôvo occupadas pêla Inglaterra, Pretoria estava cheia de gente nova, que vinha procurar fortuna, e que não a encontrando facil, se alistava nos regimentos de voluntarios, onde como soldados tinham uma paga de cinco xelins diarios. O meu amigo Allan Saunders era o chefe da secretaria dos corpos voluntarios, e não lhe sobejava o tempo para fazer alistamentos. Os negociantes sam Hollandezes ou Inglezes, e como a cidade em si mesma ja tem necessidades, não é so o tràfico com o interior, e com o indìgena que ali representa uma parte importante no movimento commercial. Disse-me o D_or. Risseck, que o clima é bom, ainda que em certas èpochas do anno não é isento de febres de caracter benigno. Sendo os arredores de Pretoria abundantes em forragens, é facil ter ali cavallos, e quasi tôdos os moradores tẽm um dog-cart ou uma victoria , em que passeiam ou vam tratar os seus negocios. Betjuanas. (De uma photographia de Mr. Gross.)] Tal era Pretoria quando la passei algumas semanas em 1879. Um facto que me produzio uma certa impressão foi ver que muitas mulheres gentias dos arredores vinham á cidade vender os seus gèneros, cobertas com os trajes gentìlicos, isto é quasi nuas, assim como as representa a gravura junta a esta pàgina; gravura cuja historia vou contar, porque ella representa uma lição áquelles que na Europa se afiguram ser facil realizar em Àfrica cousas facìlimas no velho mundo. Ha em Pretoria um magnìfico photògrapho Suisso, Mr. Gross. Eu travei conhecimento e tinha em breve relações de amizade com elle. Um dia, vendo um grupo de mulheres que vinham vender capata, chamei-as e propuz-lhes comprar toda a capata que ellas traziam se se deixassem photographar. As mulheres hesitáram, e eu comecei a fazer-lhes as mais bellas offertas. Tentadas pelas minhas promessas, seguíram-me a casa de Mr. Gross. Deixei-as á porta e entrei. Logo que expuz ao photògrapho o meu intento, elle fechou as mãos na cabêça e disse-me que, não fazìamos nada, porque muitas vêzes tentara em vão a mesma cousa. Insisti, e Mr. Gross para condescender comigo, pôz mãos á obra. Introduzi as mulheres no atelier , não sem gastar n'isso bôa meia hora, porque, chegado o momento de entrarem em casa do photògrapho, augmentou a sua hesitação. Ahi estam ellas no atelier , mas recrescem as difficuldades ao collocal-as em posição defronte da màchina. Estam em foco, e quando o photògrapho vai introduzir na corrediça a chapa sensibilizada, duas ou tres fogem espavoridas e outras deitam-se de cara no chão. Nôvo trabalho de paciencia e outra meia hora perdida e uma chapa inutilizada. A mesma scena ainda se repete, até que em fim se pôde obter um negativo, em que tôdas mexêram tanto, que nos deixa em dùvida se sam macacos ou bonzos as imagens reveladas. Outras tentativas tẽm o mesmo resultado, e perdido o dia e gasta a paciencia, ellas vam-se. Eu, apesar d'isso, sempre teimoso em querer a photographia das prêtas, cumpri o contrato indo àlém das promessas feitas. Ellas tambem me promettêram voltarem, e d'ahi a dois dias estavam á minha porta. La vamos para casa de Mr. Gross, que ja tremia de me ver com as prêtas. Eu lembrei-me de me pôr ao lado da màchina e de lhes dizer que olhasem para mim, ellas assim fizéram, e eu encarei-as tão fito, com um olhar tão pertinaz, que ellas perturbáram-se, tivéram esse momento de fascinação que produz a immobilidade, Mr. Gross descubrio a objectiva, e o grupo estava apanhado. Quizémos ainda tirar outro, mas o encanto tinha-se quebrado, e não foi possivel obter mais nada d'ellas. Assim essa photographia custou-nos dois dias de trabalho, uma avultada quantia, e uma incalculavel paciencia. No grupo, as mulheres que tẽm uma franja por tanga sam solteiras; aquellas que tẽm uma pelle, casadas. No dia 25 de Fevereiro, vèspera do dia em que deviam partir os meus prêtos e as minhas bagagens, para Durban, seriam 4 horas da tarde, quando eu me dirigi a casa da Baronesa Van-Levetzow, a pedir-lhe uma chàvena d'esse òptimo café que ella tão delicadamente offerecia aos seus amigos; quando em caminho me sorprendeu um movimento desusado na cidade. Perguntei a um transeunte, o que havia de nôvo? e elle respondeu-me, que os Zulos estavam ás portas de Pretoria, e que dentro em pouco a cidade seria saqueada. Corri ás informações, e para ir a bôa fonte, fui á casa do govêrno. Ali soube que, de facto, os Zulos não estavam ainda em Pretoria, mas muito perto, e a cidade seria atacada dentro de poucas horas. As informações eram officiaes e certas. Indaguei em que ponto elles estavam e voltei a casa. Mandei logo Verissimo, Augusto e Camutombo á descoberta. Fiquei a pensar no caso, e, com o meu conhecimento de Àfrica e de prêtos, concluí que tudo aquillo era um absurdo disparate. Sahi a visitar vàrias pessôas, e se algumas encontrei possuidas do pànico geral, outras estavam descançadas e não acreditavam como eu no ataque dos Zulos. Algumas damas tinham-se ido refugiar no acampamento das tropas. Eu fui prevenir Monseigneur Jolivet do caso, dizendo-lhe o que havia, que não acreditava, mas que ás vêzes as cousas mais absurdas aconteciam, e por isso era bom estar prevenido para pôr a salvo as Irmãs de Caridade. Voltei a casa, e ao cahir da noute chegavam, com pequenos intervallos os meus três enviados, afiançando-me, que no logar designado não havia um so Zulo, nem d'elles havia noticia no Transvaal. Eu, que me fiava mais nas informações de Verissimo, Augusto e Camutombo do que em tôdos os relatorios officiaes, deixei os prêtos em casa, e fui ver o que faziam os meus amigos Major Tyler e Capitão Saunders. Ao chegar ao acampamento, um terrivel e desusado "Quem vem la?" de uma sentinella, provou-me que ali estavam em pe de guerra. Respondi, "Amigo," e pude entrar. No campo havia grande reboliço. Fortificavam-se e entrincheiravam-se com os vagons. Não me foi difficil encontrar o commandante militar de Pretoria, o Major Tyler. Vestido com o esmero e luxo que sempre usa, as mãos calçadas em apuradas luvas brancas sem a menor sombra, o pé mettido em elegante botina, tal em fim como entra nas salas em que é tão querido, o bravo commandante do regimento 80 estava com tôda a placidez e socêgo, dando acertadas ordens, e pondo o campo em estado de defêsa formidavel. Cheguei-me a elle e disse-lhe que o ataque esperado era uma verdadeira comèdia. Elle respondeu-me, que sempre assim o havia pensado; mas que, tendo recebido communicações officiaes, não podia deixar de fazer o que estava fazendo; e que àlém d'isso, não desgostava d'aquelle rebate, para avaliar o que eram os seus homens, e saber com o que poderia contar n'um caso sèrio. Dei razão ao elegante official, e fui-me em busca do seu immediato, o meu amigo Saunders. Andava elle de outro lado dirigindo as manobras, rindo sempre, sempre contente. Saunders pareceu-me acreditar nos Zulos, o que lhe não tirava nada do seu bom humor habitual. Foi-me logo mostrar duas metralhadôras, para as quaes estava a olhar pasmado um alferes qualquér a quem as haviam entregado. Depois d'isto disse-me elle, que estavam muitas damas recolhidas no campo, e convidou-me a ir vel-as. Fomos passar uma minuciosa revista, e vimos que o Major Tyler, como melhor relacionado com o bello sexo, tinha cedido o seu quarto pêlo menos a duzia e meia. O quarto de Saunders tambem não estava vazio, mas deve dizer-se, em abono da verdade, que aquelles eram os dois ùnicos quartos do quartel, vivendo o resto dos officiaes em barracas. Saunders lembrou, que em tempo de guerra era bom beber qualquer cousa, e fomos á sala dos officiaes. Na sala estava so um homem. Fardado, e armado, estava sentado n'uma poltrona com tôda a commodidade, tendo diante de si um copo de brandy e soda. Era o tenente Cameron do regimento, que disse a Saunders: "Meu capitão, eu cá estou á espera dos Zulos, e em quanto elles não vẽm, vou bebendo." Era realmente admiravel ver esses bravos officiaes Inglezes, que morriam rindo e descuidosos n'uma guerra ingloriosa, tão tranquillos e socegados em frente de um perigo qualquer, como se os esperasse um baile ou uma festa. Nós dissémos ao tenente Cameron que não havia Zulos, e elle recebeu a noticia com certa tristeza. ¿Quem sabe se elle, com a confiança da mocidade, não tinha sonhado n'esse momento com os gallões de um posto superior? Pouco depois reunio-se a nós o Major Tyler, e disse-nos, que ia ver o que faziam os voluntarios na cidade. Eu e Saunders acompanhàmol-o. Era meia noute e havia escuridão profunda, a chuva cahia a torrentes, e eu apenas pude apanhar metade do impermeavel de Saunders, que levou só o cabeção, dando-me o resto. Tropeçando aqui e cahindo àlém, chegámos á praça, onde na igreja parochial deviam estar os voluntarios. Entrámos no templo, que estava cheio de soldados, e logo que o Major Tyler deu as suas ordens, fomos tôdos três para minha casa. Estàvamos muito molhados, e o meu primeiro cuidado foi abrir uma garrafa de vinho velho. Bebendo e conversando passámos ali uma parte da noute, rindo eu e Saunders a bom rir, da seriedade do Major Tyler, que estava indignado por ter o seu quarto cheio, não de damas, que elle é muito galante para se queixar d'isso, ¡mas de meninos!--de meninos que choravam! Pêla madrugada, o Major Tyler e o Capitão Saunders retiráram, e eu fui-me metter na cama. Eis como acabou um dos episodios còmicos, da tràgica guerra dos Zulos, episòdio que ficaria no esquècimento se eu o não trouxesse a pùblico. No dia immediato têve logar um acontecimento importante para mim. A minha gente e as minhas bagens seguíram para Durban, pêlo caminho seguro de Harrismith. CAPÌTULO VIII. O FIM DA VIAGEM. Andava tudo em reboliço. Nunca em Pretoria se tinham feito tantos gastos de toilettes , nunca os lojistas vendêram tantas fitas e tantas rendas! Os homens escovavam e preparavam os uniformes, porque tôdos mais ou menos tinham uniformes, e os que os não tinham inventàvam-n-os. Se tudo estava em guerra! Cavallos e carruagens soffriam tratos de limpezas desusadas. Tudo luzia e brilhava. O enthusiasmo era geral e chegava mesmo aos Hollandezes. As damas trabalhavam com afan, e davam tratos ao miôlo, contido nas cabecinhas louras e encantadoras, para melhór pregarem um lacinho, para melhór fazerem realçar a belleza delicada. Os homens, elles , diziam "É C.B. [16] e tem a Victoria Cross ,[17] é o heroe da guerra dos Ashantis, é um homem de grande energia, é um dos mais notaveis officiaes do exèrcito Inglez." Ellas , ellas diziam: "Tem 36 annos o coronel, e dizem que é alto, nobre e bonito!" Que enthusiasmo! Eu nunca vi coisa assim! O meu cavallo ja estava emprestado a uma dama, que queria mostrar tôda a sua elegancia de amazona. Outras mais infelizes procuravam debalde um meio de transporte. So eu, creio, que estava frio no meio daquella effervescencia de delirio. Eu ca, não ia esperar o nôvo governador, e contentar-me-hia de o ir visitar á sua chegada. ¿Mas quem pode dispor dos seus sentimentos, e contar com o seu espìrito no meio da effervescencia geral? No dia 2 de Março, comecei a sentir que a febre do nôvo governador se apossava de mim, e sahindo enthusiasmado de casa, fui comprar um chapéo nôvo! Era uma reforma importante no meu traje. Aquelle homem por quem se faziam tantos trabalhos de recepção aguçàva-me a curiosidade. Os homens pareciam temel-o, as mulheres pareciam adoral-o; e ser temido dos homens e adorado das mulheres é ter attingido a meta da felicidade para qualquer creatura màscula. No dia 3 devia elle chegar, e o ponto da entrevista era a nove milhas da cidade. Levantei-me sem mêsmo pensar em la ir, até porque, se quizesse ir, não tinha em quê, tendo emprestado o meu cavallo. Ás nove horas sahi de casa, mas não encontrei ninguem. Fui almoçar, e não encontrei ninguem. Fui a casa de alguns amigos, e não encontrei ninguem em casa. Comecei a dar ao diabo o nôvo governador. Eu ja começava a perder o hàbito de viver sòzinho, e queria companhia. Voltei ao Café Europêo e deparei com Mr. Turner. Dirigi-me logo a elle e sem mais preàmbulos pedi-lhe um cavallo. Mr. Turner julgou que eu não estava bom de cabêça. Pedir um cavallo n'aquelle dia e áquella hora so um inconsciente o faria. Eu insisti em querer um cavallo, e a difficuldade que se levantava era apenas incentivo para exacerbar o meu desejo. Depois de muito pensar, Mr. Turner têve uma lembrança. Elle tinha um pôtro, ainda não montado, bravio, diabòlico. Se eu quizesse o pôtro, elle emprestàva-m'-o. Fomos logo á cavallariça. Para apparelhar foi uma campanha, para montar outra. Depois de varias teimas, em que tivéram razão umas esporas enormes que me tinha dado Mr. Clark em Shoshong, consegui endireitar no caminho do acampamento. Por uma questão de hàbito eu queria ver o Major Tyler e o Capitão Saunders, antes de ir esperar o governador. Foi uma infeliz lembrança. O regimento 80 estava formado em revista, e acabada ella pude falar aos meus amigos, mas de repente a mùsica começou a tocar, e o cavallo, espantado com o zabumba, começou a fazer taes e taes desconcêrtos que tive de largar d'ali a tôda a pressa, atropellando as barracas de lona do campo e fazendo até fugir de uma d'ellas alguem que la estava. Pude ver-me a final em campo livre, e o pôtro pagou caro os seus atrevimentos de momentos antes. Ás duas horas eu alcançava as cavalgadas e estava entre os meus amigos, mas estava em lastimoso estado de fadiga e cansaço. Pouco depois, uma carruagem escoltada por alguns voluntarios de cavallaria, chegava em sentido opposto, e apeava-se d'ella o nôvo governador do Transvaal. O Coronel Sir William Owen Lanyon, K.C.B., correspondia á espectativa geral. Era nôvo e bello, e do peito da sobrecasaca pendia-lhe a Victoria Cross . Tôdos estavam contentes, e os frenèticos hurrahs! que lhe levantáram, eram d'isso prova. Seguímos para a cidade. O meu cavallo, no meio dos vivas e dos outros cavallos, estava insopportavel e custàva-me a conter. De repente espantou-se com uma carruagem, deu um enorme salto e partio. O meu chapéo nôvo, o chapéo comprado na vèspera, cahio por terra, em quanto eu era levado com uma velocidade enorme, n'um correr desenfreado. Passei e em breve perdi de vista carruagens e cavalleiros. O terreno era bom e eu deixava correr o endiabrado, que a final havia de parar em alguma parte. Apesar de muito distanciado da comitiva do governador, pareceu-me que sentia um outro correr de cavallo, perto de mim, e voltando-me na sella percebi que era seguido e ia ser alcançado em poucos momentos. Uma gentil amazona, muito melhor montada do que eu, porque montava o meu Fly, ria a bandeiras despregadas das minhas tribulações, e em breve emparelhando comigo estendia-me o pobre chapéo que eu tinha perdido, e que ella, com essa pericia de tôdas as damas das colonias do sul d'Àfrica, que sam as primeiras cavalleiras do mundo, tinha apanhado do chão e me vinha trazer, mofando de um cavalleiro que perdia o chapéo e o deixava apanhar por uma dama. Eu estava envergonhado, e sem me lembrar de que era impossivel fugir ás pernas vigorosas e ligeiras de Fly, tentei instigar o meu cavallo a uma fuga, a que elle ja se recusava, apresentando uma fadiga bem motivada. Entrei em Pretoria sempre perseguido pêlos chascos da amazona azougada, e depois de ir entregar o pôtro a seu dono, fui a pé para o Palacio, onde esperei a chegada da festival comitiva. Chegáram elles, sempre dando mostras do mais enthusiàstico contentamento. O Coronel Lanyon estava installado, e depois de um bem servido lunch , retiràmo-nos. O valente e sympàthico coronel tinha càptado tôdas as sympathias, e desde a sua chegada, esquèceu o episòdio do ataque dos Zulos, narrado no anterior capìtulo, para so se falar d'elle Governador. Nos dias seguintes houvéram recepções, saraus, e matinées dançantes, a que eu não assisti, preoccupado ja com a minha sahida para Durban. No dia 5, fui eu a uma lègua de Pretoria ver uma curiosidade em que Inglezes e Hollandezes me falavam muito. Era o Wanderboom , a àrvore sagrada. Effectivamente, é digno de ver-se esse gigante vegetal, que os Böers mostram com admiração, e que, deitando dos altos troncos novas raizes que viéram procurar a terra e se convertêram ellas mesmas em caules, forma por si so uma espêssa mata. Finalmente, depois das mais cordiaes despedidas aos muitos amigos que tanto me obsequiáram em Pretoria, parti, no dia 8, para Heidelberg, onde cheguei por noute fora. Decidi demorar-me alguns dias n'aquella bonita villa, para fazer as minhas ùltimas observações e fechar os meus trabalhos. N'um jantar em Pretoria, em casa de Madame Kish, fiz eu conhecimento com um sujeito chamado Goodliffe, que sabia não ser de Pretoria, mas que não pensava tambem ir encontrar em Heidelberg. Mr. Goodliffe convidou-me para sua casa e fêz-me os maiores favôres. No dia immediato ao da minha chegada, depois de fazer as observações da manhã, fui dar sòzinho um passeio nos arredores, e comecei a trepar montanhas e montanhas, até que, d'um pico muito elevado, consegui dominar a paizagem. Pareceu-me que devia estar a uma grande altitude, porque dominava tôdas as cumiadas do Zuikerbosch-Rang. Olhei para o meu baròmetro aneroide de algibeira, e vi que elle marcava dois mil metros! Decidi logo voltar la no dia immediato a fazer observações mais seguras, e effectivamente assim o fiz. Era na verdade aquella a maior altura a que eu tinha estado na minha viagem, e não deixei de fazer especial menção d'ella. No dia 11 de Março, depois de ter concluido tôdas as observações e fechado os meus trabalhos, parti de Heidelberg, ás 8 horas da manhã, em um dog-cart , que precisa de uma breve descripção pêla sua originalidade. Era um d'êsses carros de fàbrica Americana, ligeiros e fortes, montado sobre duas rodas altissimas, e que, em logar de varaes, tẽm uma forte lança, onde se atrella uma parêlha em troncos, e d'onde partem os tirantes para umas sotas sôltas. Tem dois assentos costas com costas, que podem admittir quatro pessôas. Bagagens nenhumas pode conduzir, e apenas uns pequenos volumes na exigua caixa. O meu cocheiro era um mulato, creio que Gricua, chamado Joaquim Eliazar. Os meus companheiros eram o Tenente Barker, do 5^o Regimento de West York, e o seu impedido Dupuis. Logo á sahida de Heidelberg, tivémos de atravessar o ribeiro que corre ali, cujas margens quasi a pique dam difficil passagem a um carro. A primeira foi passada sem difficuldade, mas na segunda o dog-cart tombou-se, e o Tenente Barker cahio sôbre Dupuis e eu sôbre Barker. Levantàmo-nos sem a menor contusão e rindo do caso. Dupuis, que tinha um nome Francez, mas cuja nacionalidade eu nunca pude entender bem, porque elle falava indifferentemente tôdas as lìnguas, e servia indifferentemente tôdos os paizes, começou logo a contar varios casos de quedas e carros tombados, que lhe haviam succedido em França, na Russia, na Amèrica e na China. Dupuis era homem de 55 a 60 annos, baixo, espadaüdo e robusto. Tinha servido no exèrcito Francez na Crimea, e contava com enthusiasmo a carga de Balaklava. Tinha servido no exèrcito Inglez na guerra da China; na Amèrica servio os Federaes, bateu-se depois na França pêla Allemanha, em 1870. Conheceu na India o Major Cavagnari, e vinha de la bater-se contra os Zulos. O seu desideratum era ser soldado enfermeiro nas ambulancias do exèrcito Inglez; mas, em quanto o não conseguia, ia sendo camarada do Tenente Barker. Barker era um d'esses jovens Inglezes, loiro, olhos azues, tal em fim como os vemos, encontramos e conhecemos em tôda a parte do mundo. Ia cheio de enthusiasmo encontrar a columna de Sir Evelyn Wood, e bater-se contra os nêgros de Catjuaio. Trabalhámos tôdos quatro rudemente para pôr o carro em estado de seguir, e uma hora depois voàvamos por sôbre a planicie, puxados por quatro ligeiros e robustos cavallos do paiz. Choveu bastante durante o dia, e ás 2 horas encontràvamos o rio Waterfalls a transbordar. Era um embaraço. Alguns vagons de Böers estavam parados junto d'elle sem se atreverem a transpol-o. A profundidade màxima era de dois metros. Um dos vagons de Böers estava carregado de lenha, e apresentava do tope da carga ao chão uma altura de mais de três metros. Offereci ao Böer seu dono cinco xelins se elle quizesse transpor o rio, e me deixasse ir com os meus papéis encarapitado no alto da carga. O homem aceitou, e eu, Barker, Dupuis e os nossos pequenos havêres, armas e cartuxos, acommodàmo-nos sôbre a lenha. Oito juntas de possantes bôis fôram jungidos ao vagom, que, poucos momentos depois, estava na margem opposta. Joaquim Eliazar em pe sobre os assentos do dog-cart, com àgua pêla cintura, e segurando as guias com destreza de um cocheiro consummado, tambem transpoz o rio sem accidente. Pouco depois, tomàvamos pêla quarta vez cavallos frêscos da posta, e continuàvamos essa carreira vertiginosa em direcção ao vao de Standerton, onde devìamos passar o Vaal. Ás 8 da noute, ja com uma fome desabrida, entràvamos em uma modesta estalagem de Standerton, onde tìnhamos uma pèssima ceia, e não melhor cama. De Heidelberg a Standerton o paiz é planicie enorme, a perder de vista, onde não cresce uma so àrvore, e onde uma herva não muito alta serve de pasto a milhares de antìlopes, pêla maior parte bodes saltadôres (Springboks). Sôbre tudo nas margens do rio Waterfalls vi innùmeros, mas muito esquivos. No dia immediato deixámos Standerton, ás 7 da manhã, depois de um almôço, que nos fez lembrar, que poderiamos ter almoçado se tivèssemos quê. Pêla tarde d'esse dia ja começàvamos a encontrar falta de cavallos nas casas de posta, saqueadas ou abandonadas por causa da guerra. Ao mesmo tempo recresciam as difficuldades do caminho, porque nos embrenhàvanos nos desfiladeiros do Drakensberg. Não se pode fazer muito idéa do que seja viajar por montes e valles, sem caminho nem carreiro, em um dog-cart puxado a quatro sôltas. Ao entrar-mos nos desvios da serra, uma temerosa tempestade cahio sôbre nós, e uma chuva copiosa alagou a terra e o carro. Veio a noute, e uma noute medonha. Os relàmpagos alumiavam as trevas para as tornar mais nêgras e densas. So a muita pràtica do cocheiro podia guiar o carro por aquelles alcantis n'um correr desenfreado. De vez em quando, uma cova, uma rocha, um precipicio, era nas trevas mais adivinhado do que visto, e um sonoro All fast (tôdos firmes) pronunciado por Joaquim Eliazar pùnha-nos de prevenção. E a chuva a cahir, o trovão e o relàmpago a espantar os cavallos, e aquelle carro sempre a correr nas vertentes este da alta cordilheira. Tinha alguma cousa de fantàstico o quadro, e se tivesse sido visto por outros que não nós deveria causar-lhes impressão profunda. Dupuis tinha sempre uma historia a contar a cada solavanco do ligeiro vehìculo. Umas vêzes era na China, outras na Amèrica, outras na Russia, que o caso se tinha passado. Depois Dupuis cantava, e era, ja uma canção Americana, Franceza, Chineza, ou Hùngara, que vinha perder-se no estrepitôso rodar do carro, ou no cem vêzes repetido echo dos trovões. Seriam 8 da noute, quando um clarão fixo e distante me chamou a attenção. Endireitámos para elle. O caso não era muito seguro, mas continuar o caminho assim era peior do que encontrar os Zulos. Parámos a distancia da fogueira, e eu dirige-me a ella. Ao aproximar-me, vi que entre uns vagons, debaixo de um alpendre improvisado com pannos de lona, estavam sentados três officiaes Inglezes. Entrei ràpidamente na zona de luz, para ser logo reconhecido e não levar algum tiro. Os três sujeitos olháram para mim sem o menor espanto, e disséram-me polidamente: Good evening, sir . Estavam tomando chá, e eu sentei-me sem ceremonia ao lado d'elles. "¿Toma uma chàvena de chá? me perguntou um d'elles." "Aceito reconhecido, e até aceitava de comer, porque tenho fome." "De comer! mas nós tambem não temos nada que comer, e so chá e um pouco de assucar possuimos." Tomei uma grande tijela de chá, e tôdo molhado deitei-me junto á fogueira, onde dormi tôda a noute. No dia immediato, parti logo de madrugada e so á noute pude matar a fome em casa de um Böer, que me leu três pàginas da Biblia, mas que em seguida me deu bôa ceia. Passou sem incidentes o resto da viagem até perto de Newcastle. Ali encontrámos o rio Newcastle a transbordar, e tivémos um verdadeiro trabalho para o transpor, sendo preciso nadar, e molhando-se tudo o que trazìamos. Chegado á povoação de Newcastle, o meu primeiro cuidado foi almoçar, com uma fome de 24 horas. Eu em Pretoria ja tinha desaprendido a ter fome, e começava a impacientar-me quando a sentia. Installei-me em um hotel, onde não se estava bem nem mal, e tratei logo de enxugar os meus papéis, e de tomar um logar na diligencia que fazia o serviço d'aquelle ponto a Pietermaritzburg. Separei-me ali do meu tenente Inglez, que se dirigia com o seu camarada ao theatro da guerra; e eu, um dia depois, tomava logar na diligencia, e partia para o meu destino. Èramos nove no carro, oito homens e uma dama, e haviam ali so dois logares supportaveis ao lado do cocheiro. Um foi cedido á dama e eu quiz o outro. Èra-me elle disputado por um tenente de voluntarios, que trazia umas esporas enormes e um uniforme esplandecente. Cada um de nós apresentava os seus respectivos direitos ao logar, ante o cocheiro, àrbitro supremo n'aquelle litigio. Uma meia-libra subtilmente escorregada na mão do mulato, prevaleceu sôbre uns poucos xelins dados pêlo tenente, dizendo o cocheiro bem alto, que elle não era homem que se vendêsse, e por isso entregava ao tenente uns três xelins que elle tinha feito a offensa de lhe querer dar, e dizendo-me, que tomasse o logar cubiçado, em quanto o voluntario mavorte subia para o interior, furioso e iracundo, o honrado cocheiro punha as rédias em ordem e fazia estalar o chicote. Se o tenente estava furioso, não o estava menos a dama, que podendo ter a seu lado um elegante official, tinha por companheiro um maltrapilho como eu. Achegou a si o vestido para não roçar pêlos meus esfarrapados calções, e apesar de irritada contra o cocheiro, preferio encostar-se a elle para evitar o menor contacto comigo. Na primeira muda, eu quiz ver se derretia aquelle gêlo, se quebrava aquella malquerença que me affligia, e tendo encontrado uns frascos de amendoas cobertas, comprei pressuroso um, pensando, na minha inexperiencia em assumptos feminis, que uma dama joven e formosa devia gostar de dôce, e ser vencida com bôlos. Ao dirigir-me ao carro, eu ja via aquella ruga formada entre os sobrolhos desfazer-se, ja via aquelles labios pregados em gesto irado entreabrirem-se em sorriso benevolente, ja via um principio de conversação; e foi com a maior confiança que lhe estendi o meu talisman, o frasco dos confeitos. A joven dama, sem mesmo me dar a confiança de olhar para mim, disse-me sêcamente, "Não tenho a honra de o conhecer." N'um ataque repentino de despeito, atirei com o frasco fora, e elle foi partir-se sôbre uma rocha, entornando as espheras coloridas que roláram em todas as direcções. Estavam abertas as hostilidades entre nós. Á hora de jantar parámos em Sunday's River, onde me déram um magnìfico serviço por dois xelins e meio. A dama e o tenente de cavallos ligeiros, á mêsa, muito unidos lançavam-me olhares furiosos, e de certo me rogavam tantas pragas quantas as que cahíram sôbre o Egypto com a sua obra de destruição. Ao subir para o carro, ignorando quem eu era, e avaliando-me so pêlos meus andrajos e pêla minha barba desgrenhada, a joven Ingleza disse ao filho de marte, "que a gente ordinaria ja se dava uns taes ares que irritavam." Isto encheu-me as medidas, e eu prometti vingar-me logo que a occasião se apresentasse. Não tardou ella em apparecer. N'essa noute chegámos, ás 7 horas, a Ladysmith, onde devìamos pernoitar. A villa estava cheia de gente, e transportávam-se ali os feridos e os doentes. Não havia uma cama, não havia um canto onde nos mettermos. Em uma hospedaria encontrámos quasi vazia a sala de visitas, e digo quasi vazia, porque so la estava estabelecido um cabo de esquadra, que, deitado no sofá, não fez muito caso do tenente de voluntarios. A dama sentou-se em uma cadeira e o tenente sahio. Eu travei conversa com o cabo de esquadra, e offereci-lhe de beber. A perspectiva de uma bôa garrafa de vinho fez mais effeito no marcial guerreiro do que os confeitos tinham feito na loura Ingleza, e o meu homem sentou-se e travou logo conhecimento comigo. Eu sentei-me ao lado d'elle no sofá, promettendo a mim mesmo ja não sahir d'ali. Depois propuz ao soldado ir elle buscar a garrafa de vinho, para o que lhe dei meia-libra. O homem sahio, e eu deitei-me no appetecido movel. Pouco tempo depois voltava elle com a garrafa, dois copos e cinco xelins de trôco. Estendeu-me o trôco, que eu, com um gesto de soberano desdem, não aceitei e que elle fez desapparecer na profunda algibeira. Eu bebi um copo, elle bebeu sete, quando me ia a levantar, fingindo que lhe queria offerecer a sua conquistada propriedade, elle recusou-se terminantemente a isso, e eu estendi-me commodamente, envolvendo os meus pes n'um pelludo cobertor e preparando-me para dormir. O cabo, meio embriagado, sahio da sala, e não sei o que foi feito d'elle, porque não mais o vi. Pouco depois, entrou o tenente, que disse á dama, não ter podido encontrar melhor logar que aquelle para passarem a noute. Olhou para mim e eu olhei para elle. O seu olhar parecia dizer-me, "Tenha dó d'esta dama, cêda-lhe o sofá." O meu respondia-lhe: "Sou homem muito ordinario para ter d'essas delicadezas." Resignados, chegáram as cadeiras uma para junto da outra e poséram-se a conversar. Eu que pouco me importava de ouvir arrulhos de pombos, fechei os olhos e dormi como um justo até as 3 horas, hora a que me viéram chamar para partir. Ás 6 chegàvamos a Colenso, onde passàvamos o rio Tuguela em um magnìfico fluctuador, e ás 3 da tarde paràvamos na bonita aldea de Howick, onde uma demora de duas horas me permittio ir ver a formosa cataracta que a torna cèlebre. Effectivamente, é uma das mais bellas paizagens que tenho contemplado, aquella. Partímos, e pouco depois eu fazia parar a diligencia, para falar á minha gente, que encontrei nos vagons em que tinham sahido de Pretoria, e que rodavam pesadamente no caminho de Durban. Informado de que estavam tôdos bons e que sobejavam os vìveres, segui, dando-lhe um ponto de reunião em Maritzburg. Eram dez da noute quando chegava á capital da Natalia e me ia estabelecer no Royal Hotel , o melhor da terra, em um soffrivel quarto. No dia seguinte, passáram os vagons com as minhas bagagens e os meus prêtos, com quem falei e a quem prometti esperar em Durban. Depois d'isto, fui procurar Madame Saunders, a espôsa do meu amigo Capitão Saunders, para quem era portadôr de cartas de seu marido. Em casa d'ella fiquei encantado com uma criança, a filha de Saunders, em que elle muitas vêzes me tinha falado e que era encantadôra. Quando sahi de casa d'ella ja èramos amigos, e eu promettia á pequena Didi de voltar a Maritzburg, se não encontrasse logo um transporte para a Europa em Durban. No dia 19 de Março, depois de ter feito uma jornada de 23 milhas em um ligeiro dog-cart, tomava a ferrovia, e corria sôbre os rails puidos em direcção a Durban. ¡Que impressão profunda me não causou o ouvir o sibilar da locomotiva! Os postes telegràphicos, armados de pára-raios, como o sam ali casas e construcções quaesquer, faziam-me outra vez lembrar da civilização da Europa, do progresso do nosso sèculo, da grande evolução da humanidade, e mil idéas confusas se me baralhavam no cèrebro, quando ás 6 horas chegava a Durban. Corri sem parar até onde podesse ver o mar, e foi com làgrimas a marejar nos olhos, que fiquei extàtico diante d'essa mole immensa de àguas azuladas que se confundiam ao longe, para este, com o azul dos ceos. N'êsse momento não pude deixar de dizer a mim mesmo, com certo orgulho: "Atravessei a Àfrica, este é o mar Ìndico." Voltei á realidade depois de alguns minutos de abstracção, e percebi que devia ir procurar um hotel. Eu ja sabia, que em tôdas as cidades da Àfrica Ingleza ha sempre um Royal Hotel , e pedi que m'o indicassem. Depois de vàrias consultas entre o estalejadeiro e sua espôsa, foi decidido que me dariam um quarto no fundo de um pàteo. Tomei posse d'elle, e quando estava a fazer o meu toilette para o jantar, viéram dizer-me, que me procurava o General. Eu ja por vêzes tinha ouvido falar no general, quando o meu hospedeiro combinava com a mulhér sôbre que quarto me daria, e percebi então, que o general occupava uma grande parte do Hotel, e que era preciso não o incommodar. Recebi o general, que era um homem ainda nôvo e sympàthico, e me disse, que tendo sabido da minha chegada, me vinha convidar a jantar. Era elle o General Strickland, commissario em chefe do exèrcito Inglez. Fui jantar á sua sala particular, onde conheci á mêsa um exército de reporters , enviados por os jornaes Inglezes, Francezes e Americanos, para darem noticias da guerra. Foi ali que conheci alguns d'esses homens, que, simples correspondentes de jornaes, tẽm sabido fazer conhecer o seu nome no mundo inteiro; foi ali que conheci os S_nrs. Forbes, Francis-Francis e outros, que se tẽm immortalizado como o seu collega Stanley, que, antes de ser o primeiro dos exploradores Africanos, foi o primeiro dos reporters Americanos. O general Strickland dispensou-me as maiores attenções e finezas, e fui seu conviva em quanto estive em Durban. No dia seguinte, fui procurar o Consul Portuguez, Mr. Snell, que têve para comigo muitas attenções, arranjando-me logo local, em sua propria casa, onde eu podesse accommodar os meus prêtos e as minhas bagagens. Contudo, de casa do Consul Portuguez sahi muito triste, por uma noticia que elle me deu. O paquête para a Europa tinha partido n'esse dia! Era um mez! era um mez que eu tinha de esperar n'aquella terra, onde nada me prendia; era um mez que eu tinha a esperar mais para poder abraçar os meus, para poder ver o meu Portugal. Resignei-me, e no dia immediato pude assistir á chegada dos meus prêtos, das minhas bagagens, do meu papagaio e da minha cabrinha. Installei-os em casa do Consul Portuguez, Mr. Snell, que continuou a dispensar-me os maiores favôres. Depois d'isto comecei a esperar que passasse um mez! Os meus trabalhos, sempre em dia, não me deixavam ao menos o recurso de trabalhar. Nos primeiros dias encontrei em que passar as manhãs sem sahir de casa. A casa de banho do Royal Hotel era do outro lado da rua, e os hòspedes tinham de fazer uma caminhada para irem a ella. O Hotel estava cheio de officiaes, que chegavam tôdos os dias de Inglaterra. Logo de manhã começava uma procissão, entre a casa de banho e o hotel, de homens de tôdas as idades e feitios, em trages muito ligeiros, levando cada um uma toalha e uma esponja enorme. Divertio-me aquella scena burlêsca por dois dias, mas aquillo durava apenas uma hora de manhã, e eu não sabia que fazer no resto do dia. Comecei a aborrecer-me muito, e acirrado pêla contrariedade que me causava a demora, comecei a soffrer. Sentia em mim um vazio enorme. Habituado a um trabalho de ferro, a uma vida tão activa, a uma tensão de espìrito constante, á idéa de alcançar um fim, tinha chegado á meta, e sentia uma falta que não podia superar. Adoeci, e pêla primeira vez na minha vida tive mêdo de morrer. A guerra preoccupava tôdos os espìritos, e no meio d'aquelle mundo em que vivia não tinha uma so affeição. Um dia, no leito onde me tinha prostrado a doença, e onde nem uma amizade me vinha trazer uma palavra de confôrto, tinha so na idéa a saudade de uma espôsa adorada e de uma filha estremecida, quando me veio á lembrança essa criança que eu tinha visto em Maritzburg e que tanta impressão me tinha feito--a filha do Capitão Allan Saunders. Em miseravel estado de saude, sahi de casa, tomei o caminho de ferro, e segui para a capital da Natalia. Logo que me estabeleci no Royal Hotel, parti para casa de Madame Saunders. Fui recebido com a maior affabilidade por aquella dama, e com muitos beijos pêla pequena Didi, que eu levei a jantar comigo ao hotel. Eu ja tinha dinheiro meu, que me tinha sido emprestado sôbre a minha assignatura particular, e ja comprara um vestuario decente. Uma boneca e uma caixa de amèndoas fizéram de Didi minha amiga ìntima, e sôbre tudo uma tartaruga enorme que me déram no hotel e que eu lhe dei, tornara aquella amizade em verdadeira paixão. Outro motivo não era de certo estranho ao amor d'aquella criança. Madama Saunders, para me ser agradavel, deixàva-me a sua filha ja em sua casa, ja na minha, e Didi encontrava n'esta liberdade o meio de nunca ir á mestra. Esta consideração devia pesar tanto como a tartaruga e a boneca, na sua affeição por mim. Ao mesmo tempo, Mr. e Madama Furze, o Coronel Mitchell, o Coronel Baker, o Capitão Whalley e outros, faziam-me encontrar n'elles verdadeiros amigos, que me enchiam de favôres; mas Didi, aquella linda criança de nove annos, preenchia um vàcuo na minha existencia de então, com as suas meiguices, e ás vêzes com os seus amuos e perrices. Sem esta criança, eu teria talvez succumbido ao tèdio que me ganhou e que me prostou ao comêço em perigosa doença. Pietermaritzburg é uma bonita cidade, tem magnìficas casas e sobêrbos templos, em um dos quaes ouvi por vêzes a palavra eloquente, arrebatada e cheia de fôgo, do sabio Bispo Colenso. Ha ali formosos jardins e mimosissimas flôres, sendo as damas de Natal muito dadas á floricultura, e concorrendo muitas vêzes a certames nas exposições locaes. Tem um magnìfico parque, onde á tarde circulam muitas e brilhantes equipagens. No tempo que ali passei, apresentava a cidade um aspecto desusado e um movimento consideravel, consequencias da guerra dos Zulos. Os hotéis estavam cheios de militares, os quartéis regorgitavam de soldados, e muitos acampavam fora d'elles. No Royal Hotel , que diziam ser o melhor, o serviço era mao, devido isso talvez ao excesso de hòspedes que ali havia. Havia tambem, em geral, um grande abuso nos prêços de tudo, e isso era consequencia de o govêrno pagar sem regatear. O estabelecimento Cathòlico de Maritzburg é muito importante, e tido com a maior ordem, goza de grande crèdito na colonia. O Consul Portuguez, Mr. Snell, escreveu-me, que tinha chegado o paquête 'Danúbio', da Union Steamship Company , que devia seguir para Moçambique e Zanzibar no dia 19 de Abril. Parti, por isso, de Pietermaritzburg a 14, depois de ter feito saudosas despedidas aos amigos que ali deixava. Dirigi-me ao Royal Hotel , e não pude obter um quarto. Então Mr. Snell tratou de me arranjar alojamento, e pôde obter um quarto de banho no Club de Durban, onde me fizéram uma cama no chão. Os officiaes que chegavam, cada dia, não tendo onde se metter, armavam barracas de campanha nos pàteos e nas ruas em volta dos hotéis e do Club. Por o mesmo paquête em que eu devia partir para o Norte tinha chegado o infeliz prìncipe Napoleão, que tão caro devia pagar a sua ousadia e coragem. Conheci-o, e não pude deixar de me afeiçoar, no curto convìvio que tivémos, a esse joven sympàthico, intelligente e illustrado, a quem uma morte ingloria e estùpida cortou tão prematuramente uma existencia brilhante. Quantas vêzes eu lhe repeti o meu principio fundamental da vida Africana, "de desconfiar em Àfrica de tôdos e de tudo, até que provas irrefutaveis não nos fizessem confiar em alguem ou em alguma cousa." A sua natureza ardente, a inexperiencia dos seus poucos annos, a sua coragem leonina, e esse descuido peculiar á juventude cheia de illusões e crenças, causáram a sua perda. Só quem o não conheceu o não lastimará; que n'elle havia o germem de um grande homem, havia uma attracção indefinivel para captar tôdos os corações. Estranho á polìtica da França, n'estas poucas linhas lavro um testemunho de saudade ao mancêbo desterrado que foi meu amigo, e não ao prìncipe que representava um principio, e faço-o tanto mais desassombradamente, que vi os seus proprios adversarios lastimarem aquella grande catàstrophe. Nas vèsperas da partida, travei relações com Mr. e Madame Du Val, e recebi d'elles muitos favôres, e finalmente, a 19 de Abril, embarcava com os meus prêtos e as minhas bagagens n'um pequeno vapor que me devia conduzir ao Danubio , ancorado fora, porque em Durban ha apenas uma pequena enseada, fundeando os grandes vapôres na costa limpa. O mar estava um pouco picado e custou a atracar ao Danubio . Mr. e Madame Du Val iam comigo, porque Mr. Du Val, chefe da Companhia Hollandeza em Àfrica Oriental, ia passar em revista as feitorias de Moçambique. A passagem das bagagens do pequeno vapor para o Danubio foi difficil, pêlo mao estado do mar, e uma das minhas caixas cahio, sendo esmagada e desfeita entre os dois vapôres. Caixa e conteúdo fôram ao mar, mas o Commandante Draper fez arrear logo um escalér, e pôde conseguir salvar algumas das cousas que ella continha e que fluctuavam, outras afundáram e estavam irremediavelmente perdidas. Deixámos Durban, e não foi sem uma sensação de infinito prazer que eu senti o espadanar das àguas em tôrno do èlice poderoso, que a cada rotação me impellia no caminho da Patria. Em Lourenço Marques foi pouco o tempo para receber favôres, e a maior parte d'elle foi passada com o meu velho amigo Augusto de Castilho, e com os meus amigos Machado, Maia e Fonceca. A bordo, o Commandante Draper não cessava de me obsequiar. Cheguei finalmente a Moçambique, onde fui encontrar tôdas as autoridades na cama. O Governador Cunha, o seu secretario e os seus ajudantes, estavam abrasados em febre. Fui logo visitar o Governador, ao seu quarto de cama, e apesar do seu melindroso estado de saude e do cuidado que lhe dava o estado de sua espôsa, prostrada pêla febre tambem, Sua Excellencia deu as mais terminantes ordens para facilitar o meu regresso á Patria com a gente que me acompanhava, fazendo-me os mais subidos favôres. Fui d'ali procurar um velho amigo da guerra da Zambezia, o Coronel Torrezão, em cuja casa me hospedei, com os meus amigos Du Val. Dois dias depois, partia para Zanzibar, onde esperava encontrar Stanley, mas com o qual me desencontrei, tendo partido na vèspera da minha chegada. O D_or. Kirk, Consul Inglez em Zanzibar, deu-me um jantar, e subidos fôram os favôres que recebi d'elle e de sua espôsa. Tôdos os Europêos porfiavam em me obsequiar, distinguindo-se os officiaes da guarnição do London . O Commandante Draper, logo que soube que o vapor de Aden só partiria dentro de oito dias, não consentio que eu fôsse para terra, dizendo-me (com razão) que as hospedarias ali eram pèssimas, e por isso fiquei vivendo a bôrdo, sempre com um escalér ás minhas ordens. Travei ali relações com um joven Suisso, T. Widmar, que devia ser meu companheiro de viagem para a Europa. Depois de uma semana de demora, em que cada dia foi assignalado por novos favôres de Mr. Du Val e do Commandante Draper, deixei Zanzibar n'um pequeno vapôr, do British India , onde recebi muitos favôres do seu Commandante Allen. Em Aden, como a carreira do British India tivesse uma demora de oito dias, eu e Widmar tomámos passagem a bôrdo de um vapor da Lloyd Austriaca que nos conduzio a Suez, seguindo d'ali no primeiro trem para o Cairo. Eu tinha adoecido gravemente, e foi Widmar o meu enfermeiro, tendo por mim cuidados de um velho amigo. Ainda convalescente, fui ás piràmides com elle. Eu tinha visto o Zaire e o Zambeze; não queria voltar á Europa, sem saudar a velho Nilo; e do alto do sarcòphago do rei Cheops, d'esse monstruoso monumento levantado ha quatro mil annos pêlo orgulho dos Pharaós, eu vi-o correr plàcido e sereno, banhando as ruinas da outrora sobêrba Memphis. Pouco depois, deixava o Cairo, sobêrba e ardente, cidade de ouro e de miseria, e ia em Alexandria fazer novos amigos e receber novos favôres. O Conde e a Condêssa de Caprara acima de tôdos, fizéram-me taes obsèquios, que mais pareciam amigos de annos do que conhecidos de dias. O Consul geral de Portugal, o Conde de Zogueb, tambem me fez offerecimentos na vèspera da minha partida, quando soube que o Crédit Lyonnais de Paris me tinha aberto um crèdito no Egypto, com dinheiro meu, mandado de Lisboa pêlo meu amigo Luciano Cordeiro. Esquècia-me dizer, que por um mal-entendido das ordens do govêrno de Portugal, eu estive no Egypto sem dinheiro, gastando da bôlça de Widmar e da do Conde de Caprara, e podendo gastar de outras muitas estranhas que se me offereciam, e que não pensavam que eu fôsse um cavalheiro de industria; porque não ignoravam que Portugal tivesse enviado á Àfrica a expedição de 1877, e que d'essa expedição o Major Serpa Pinto voltava á Europa pêlo mar Ìndico. Segui de Alexandria para Nàpoles, e d'ali por terra para Bordeos, onde fui altamente obsequiado pêlo nosso Consul, o Barão de Mendonça. A 5 de Junho, deixava Pauillac, e a 9, em Lisboa, pisava a terra de Portugal, no meio dos amigos mais dilectos que eu tantas vêzes pensei não mais ver. Na vèspera haviam chegado os meus prêtos, e o meu papagaio. Estavam pois a salvo os trabalhos, e os restos de um dos ramos da expedição Portugueza ao interior da Àfrica Austral, em 1877 . *FIM*. *Notas*: [1] Noticias do Lui que ja recebi na Europa, umas mandadas por o D_or. Bradshaw, outras vindas do Bihé, dizem-me, que os Luinas, depois da minha estada entre elles, sofréram um cruel ataque de umas tribus do N.E., que o D_or. Bradshaw chama Ma Kupi-Kupi. Depois d'isso, Lobossi mandara matar o Gambela, Machauana, e o joven Munutumueno, filho do rei Chipopa. Corria ha pouco no Bihé, que o rei Lobossi tinha sido assassinado, e ja ali havia outro soberano, que as ùltimas noticias do sertão, de fonte pouco segura, diziam ser o proprio Manuanino. [2] Esta expedição Luina mandada por mim, chegou a Benguella, onde foi muito bem recebida pêlo Governador Pereira de Mello, e pêlo côrpo commercial da cidade, sôbre tudo por Silva Porto, que empregáram tôdos os esfôrços para os animarem a voltar ali em viagens de tràfico. Esta tentativa minha, a que em Benguella déram alguma importancia, passou quasi desapercebida na Metròpoli. É contudo, se é importante que o Europeo vá levar o commercio aos paizes do interior, é mais importante ainda, para o tràfico e para a civilização, fazer com que o indìgena venha negociar ás feitorias da costa. [3] Silva Porto, em 1849. [4] Fui mao propheta. Monotumueno foi assassinado pêlo rei Lobossi em Dezembro de 1879. [5] Esta bala e algumas garras da enorme fera, fôram offerecidas a Sua Magestade El-Rei, o Senhor D. Luiz 1^o. [6] Quatro jardas de fazenda ali valem 8 xelins, pois sam reputadas a 2 xelins a jarda. [7] Mabelli é massambala, ou Sorghum . [8] Consta hoje que Lo-Bengula esposou uma irmã de Muzila, e que por esse facto se tornáram alliados. Esta alliança pode trazer graves complicações ao futuro desenvolvimento colonial da Àfrica do Sul. [9] O autor, n'este perìodo, refere-se a um trecho de poesia do Poema "D. Jayme," de Thomas Ribeiro, intitulado " As Flôres d'Alma ," e particularmente ás tres seguintes quadras: "Embora ao êrmo, a divagar sòzinho, Côrra o mesquinho por amor trahido; Quando o remorso lhe não turbe a calma, Nas flôres d'alma hade encontrar olvido. Naufrago, lasso, a sossobrar nas vagas, Sem ver as plagas, ônde almeja um pôrto, Embora o matem cruciantes dôres, D' alma nas flôres achará confôrto. O pobre monje, que de pé descalço De um mundo falso os areáes percorre, Quando lhe entregam do martyrio a palma, Ás flôres d'alma se encomenda e morre." [10] Os Matebelles sam Zulos. [11] Effectivamente, a maior parte das pelles da innùmera caça que matei então, chegou a Portugal, e só perdi algumas que cahiram ao mar, em Durban. [12] Muitas d'estas pennas fôram offerecidas por o autôr a Sua Magestade El-Rei D. Luiz. [13] Sempre que o autôr fala em Hollandezes, entende por isso os filhos da Hollanda, e não os Böers de qualquer dos Estados. [14] Hôje Coronel Tyler, que vive no seu palacio de Lynstead, em Sittingbourne (Kent). [15] Hôje General Sir Evelyn Wood, K.C.B. [16] C.B. Cavalheiro do Banho. [17] A Victoria Cross é a mais nobre condecoração da Inglaterra, e so é dada por uma acção de extremado valor em campo de batalha.