CAPITULO LV COMO NOS PARTIMOS DESTA ILHA DOS LADRÕES PARA O PORTO DE LIAMPOO, E DO QUE PASSÁMOS ATÉ CHEGARMOS A UM RIO QUE SE DIZIA XINGRAU. Despois de sermos todos recolhidos na lanteá e seguros de nos poderem os chins empecer em cousa alguma, nos pusemos a comer muito descansadamente o seu jantar que um velho lhe tinha aparelhado, o qual era dois tachos de arroz com adens e toucinho picado, que então nos foi a todos de muito gosto, segundo o apetite que todos lhe tínhamos. Despois que acabámos de jantar e demos graças a Deus pela mercê que nos fizera, se buscou a fazenda que vinha na lanteá, e se achou nela seda, retrós, cetins, damascos e três boiões grandes de almíscar, e tudo foi avaliado em quatro mil cruzados, afora uma boa matalotagem de arroz, açúcar, lacões, e duas capoeiras de galinhas, que então se estimaram mais que tudo para convalescerem os doentes, de que ainda havia muitos. E começando uns e outros a cortar pelas peças sem medo, nos provemos de toda a falta que então tínhamos. António de Faria vendo um minino que também ali estava, de doze até treze anos, muito alvo e bem-assombrado, lhe preguntou donde vinha aquela lanteá, ou por que causa viera ali ter, cuja era, e para onde ia. O qual lhe respondeu: — Era do sem-ventura de meu pai, a quem caio em sorte triste e desaventurada tomardes-lhe vós outros em menos de fia hora o que ele ganhou em mais de trinta anos. O qual vinha de um lugar que se chama Quoamão, onde a troco de prata comprou toda esta fazenda que aí tendes, para a ir vender aos juncos de Sião que estão no porto de Comhay. E porque lhe faltava a água quis sua triste fortuna que a viesse tomar aqui para vós lhe tomardes sua fazenda, sem nenhum temor da justiça do Céu. António de Faria lhe disse que não chorasse e o afagou quanto pôde, prometendo-lhe que o trataria como filho, porque nessa conta o tinha e o teria sempre. A que o moço, olhando para ele, respondeu com um sorriso, a modo de escárnio: — Não cuides de mim, inda que me vejas minino, que sou tão parvo que possa cuidar de ti que roubando-me meu pai me hajas a mim de tratar como filho. E se és esse que dizes, eu te peço muito, muito, muito, por amor do teu Deus, que me deixes botar a nado a essa triste terra onde fica quem me gerou, porque esse é o meu pai verdadeiro, com o qual quero antes morrer ali naquele mato, onde o vejo estar-me chorando, que viver entre gente tão má como vós outros sois. Alguns dos que ali estavam o reprenderam, e lhe disseram que não dissesse aquilo, porque não era bem dito. A que ele respondeu: — Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi louvar a Deus despois de fartos, com as mãos alevantadas e c’os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao Céu, sem satisfazer o que têm roubado. Pois entendei que o Senhor da mão poderosa, não nos obriga tanto a bulir c’os beiços quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dois pecados tão graves quanto despois de mortos conhecereis no rigoroso castigo de sua divina justiça. Espantado António de Faria das rezões deste moço, lhe disse se queria ser cristão. A que o moço, pondo os olhos nele, respondeu: — Não entendo isso que dizes, nem sei quê cousa é essa que me cometes. Declara-mo primeiro, e então te responderei a propósito. E declarando-lho António de Faria por palavras discretas ao seu modo, lhe não respondeu o moço a elas, mas pondo os olhos no céu, com as mãos alevantadas disse chorando: — Bendita seja, Senhor, a tua paciência, que sofre haver na terra gente que fale tão bem de Ti, e use tão pouco da tua lei, como estes miseráveis e cegos, que cuidam que furtar e pregar te pode satisfazer como aos príncipes tiranos que reinam na terra. E não querendo mais responder a pregunta nenhuma, se foi pôr a um canto a chorar, sem em três dias querer comer cousa nenhuma de quantas lhe davam. Tomando-se então conselho sobre o caminho que dali se faria ou que rota se seguiria, se para o norte, se para o sul, houve sobre isto alguns pareceres bem diferentes, por fim dos quais se assentou que nos fôssemos a Liampoo, que era um porto adiante dali para o norte duzentas e sessenta léguas, porque poderia ser que ao longo da costa nos melhoraríamos doutra embarcação maior e mais acomodada a nosso propósito, porque aquela era muito pequena para tão comprida viagem, e com receios de tantas tempestades quantas causam as lumas novas na costa da China, onde continuamente se perdiam muitos navios. Com esta determinação demos a vela já quase sol-posto daqui desta ilha, ficando os chins na praia como pasmados, e corremos aquela noite com a proa a lés-nordeste. E sendo já quase menhã houvemos vista de um ilhéu que se dizia Guintoo, no qual tomámos uma barcaça de pescadores com muita soma de peixe fresco, da qual tomámos o necessário, com mais oito homens de doze que nela achámos, para nos marearem a lanteá, porque a nossa gente não estava para o poder fazer, por vir muito fraca e debilitada dos trabalhos passados. E perguntados estes oito pescadores que portos havia por aquela costa até o Chincheo, onde nos parecia que podíamos achar alguma nau de Malaca, nos disseram que dali a dezoito léguas estava um rio muito bom e de bom surgidouro, que se dizia Xinguau, onde continuamente havia muitos juncos que carregavam de sal, de pedra hume, de azeite, de mostarda e de gergelim, no qual bem largamente nos podíamos aparelhar e prover de tudo o de que tivéssemos necessidade. Na entrada do qual estava uma aldeia pequena que se chamava Xamoy, povoada de pescadores e de gente pobre, mas que dali a três léguas pelo rio acima estava a cidade, onde havia muita seda, almizcre, porcelanas, e outras sortes de fazendas que de veniaga se levavam para diversas partes. Com esta informação nos fomos demandar este rio, onde chegámos ao outro dia à tarde, e surgimos defronte dele obra de uma légua ao mar, por arrecearmos que nossos pecados nos trouxessem aqui alguma desaventura como as passadas. Aquela noite seguinte tomámos um paraó de pescadores, e lhe perguntámos que juncos estavam dentro, quantos eram e que gente tinham, e outras cousas que faziam a nosso caso. A que responderam que lá em cima na cidade haveria obra de duzentos juncos somente, porque os mais eram já partidos para Ainão e Sumbor e Lailoo e outros portos de Cauchenchina, mas que ali na povoação de Xamoy podíamos estar seguros, onde nos venderiam todo o mantimento que houvéssemos mister. Com isto entrámos para dentro do rio, e surgindo junto da aldeia nos deixámos assim estar obra de meia hora; e seria isto então a meia-noite pouco mais ou menos. E vendo António de Faria que a lanteá em que vínhamos não era embarcação suficiente para irmos dali a Liampoo, onde tínhamos determinado de ir invernar, assentou com parecer dos mais companheiros e soldados de se prover de outra melhor; e ainda que naquele tempo não estávamos para cometer cousa alguma, todavia a necessidade nos obrigou a fazermos mais do que nossas forças requeriam. Estava então naquele porto surto um junco pequeno, só e sem haver outro nenhum, o qual tinha pouca gente, e esses que eram estavam então todos dormindo. E vendo António de Faria que era esta boa ocasião para efeituar seu intento, fez logo arriar da amarra, e se igualou com ele, e escolhendo dos vinte e sete soldados que levava os quinze, com mais oito moços, se subiu acima ao convés do junco, sem até então ser sentido de ninguém. E achando nele dormindo seis ou sete chins marinheiros, os mandou atar de pés e de mãos, ameaçando-os que se bradassem os havia de matar a todos, pelo que nenhum deles com medo ousou de falar. E cortando-lhe ambas as amarras com que estava surto, o mais depressa que pôde se fez à vela para fora do rio, e velejando tudo o que restava da noite, sempre co’a proa no mar, foi amanhecer junto de uma ilha que se chamava Pullo Quirim, nove léguas donde tinha partido. E ajudando-nos Deus com vento fresco de velas cheias, fomos dali a três dias surgir a uma ilha chamada Luxitay, na qual foi necessário para convalescença dos doentes determo-nos quinze dias, assim por ela ser muito sadia e de boas águas, como por algum refresco que pescadores ali nos traziam a troco de arroz. Ali foi buscado todo o junco, e não se achou nele mais fazenda que arroz somente, que ali no porto de Xamoy se estava vendendo, de que a maior parte se lançou no mar, por ficar o junco mais boiante e menos perigoso para a nossa viagem. E baldeando o fato da lanteá dentro no junco, a varámos em terra para a espalmarmos, por nos ser necessária para fazermos aguadas nos portos onde entrássemos. Nisto gastámos, como já disse, quinze dias nesta ilha, nos quais os enfermos convalesceram de todo. E nos partimos na via do reino de Liampoo, onde tínhamos por novas que havia muita gente portuguesa, que aí era vinda de Malaca, de Çunda, de Sião e de Patane, a qual toda naquele tempo ali costumava de vir invernar.