CAPITULO XIV DO QUE MAIS PASSOU NESTE CASO ATÉ PERO DE FARIA ME MANDAR A ESTE REI BATA, E DO QUE VI NO CAMINHO Pero de Faria despois que leu esta carta do rei dos Batas e entendeu do seu embaixador o negócio a que vinha, o fez agasalhar o mais honradamente que então foi possível. E passados dezassete dias despois que chegara a Malaca, o despediu bem despachado e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhe pedira, como foram cem panelas de pólvora e rocas e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza que, chorando de prazer, um dia, perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, corno quem falava com Deus, disse publicamente: — Prometo em nome do meu rei a ti, Senhor, poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro de tuas riquezas, que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano Achem, para que de novo lhe tornemos a ganhar o que ele com tamanha treição e tanta perfídia nos tomou nos dois lugares de Jacur e Lingau, de sempre com muita lealdade e agradecimento te conhecermos na lei portuguesa da tua santa verdade, em que consiste o bem dos nascidos, e de novo te edificarmos em nossa terra casas limpas de cheiros suaves, onde todos os vivos te adorem com as mãos alevantadas, assim como na terra do grande Portugal se fez sempre até gora. E assim te prometo e juro, com toda a firmeza de bom e leal, que meu rei não tenha nunca outro rei senão este grande português, que agora é senhor de Malaca. E embarcando-se logo na lânchara em que viera, se partiu, e o foram acompanhando dez ou doze balões até à ilha de Upe que estava dali pouco mais de meia légua, onde o Bendara de Malaca, que é o supremo no mando, na honra e na justiça dos mouros, por mandado de Pero de Faria lhe deu um grande banquete ao seu modo, festejado com charamelas, trombetas e atabales, e com músicas de boas falas à portuguesa, com harpas e doçainas e violas d’arco, que lhe fez meter o dedo na boca, que entre eles é sinal de grandíssimo espanto. Vinte dias despois da partida deste embaixador, cobiçando Pero de Faria o muito proveito que alguns mouros lhe diziam que naquele reino podia fazer-se em fazendas da índia se as lá mandasse, e o muito mais que poderia tirar do retorno delas, armou uma embarcação das que naquela terra se chamam jurupangos, que são do tamanho de uma caravela pequena, em que por então não quis arriscar mais que sós dez mil cruzados de emprego, com os quais mandou um mouro natural daí de Malaca para os beneficiar. E cometeu-me se queria eu lá ir, porque levaria nisso muito gosto, para sô color de embaixador ir visitar de sua parte o rei dos Batas, e ir também com ele ao Achem, para onde então se estava fazendo prestes, porque quiçá me montaria isso algum pedaço de proveito, e para que de tudo o que visse naquela terra lhe desse verdadeira informação, e se ouvia também lá praticar na Ilha do Ouro porque determinava de escrever a Sua Alteza o que nisso passasse. Não me pude eu então escusar de fazer o que me ele pedia, inda que algum tanto arreceava a ida, assim por ser terra nova e de gente atraiçoada, como porque inda então não tinha mais de meu que sós cem cruzados, por onde não esperava fazer lá proveito. Mas em fim me embarquei na companhia do mouro que levava a fazenda. E atravessando o piloto daqui de Malaca ao porto de Surotilau, que é na costa do reino de Aarú, velejou ao longo da ilha Samatra por esta parte do mar mediterrâneo, até um rio que se dizia Hicanduré. E navegando mais cinco dias por esta derrota, chegou a uma fermosa baía, nove léguas do reino Peedir, em altura de onze graus, por nome Minhatoley. Daqui cortou toda a travessa da terra (a qual já aqui nesta paragem não é de mais largura que sós vinte e três léguas) até vermos o mar da outra banda do oceano. E navegando por ele quatro dias com tempos bonanças, foi surgir num rio pequeno de sete braças de fundo, que se dizia Guateamgim, pelo qual velejou seis ou sete léguas adiante, vendo por entre o arvoredo do mato muito grande quantidade de cobras e de bichos de tão admiráveis grandezas e feições que é muito para se arrecear contá-lo, ao menos a gente que viu pouco do mundo, porque esta, como viu pouco, também costuma a dar pouco crédito ao muito que outros viram. Em todo este rio, que não era muito largo, havia muita, quantidade de lagartos, aos quais com mais próprio nome pudera chamar serpentes, por serem alguns do tamanho de uma boa almadia, conchados por cima do lombo, com as bocas de mais de dois palmos, e tão soltos e atrevidos no cometer, segundo aqui nos afirmaram os naturais da terra, que muitas vezes arremetiam a uma almadia quando não levava mais que três, quatro negros, e a soçobravam c’o rabo, e um, e um os comiam a todos, e sem os espedaçarem os engoliam inteiros. Vimos aqui também uma muito nova maneira e estranha feição de bichos, a que os naturais da terra chamam «caquesseitão», do tamanho de uma grande pata, muito pretos, conchados pelas costas, com uma ordem de espinhos pelo fio do lombo do comprimento de uma pena de escrever, e com asas da feição das do morcego, c’o pescoço de cobra, e uma unha a modo de esporão de galo na testa, c’o rabo muito comprido pintado de verde e preto, como são os lagartos desta terra. Estes bichos, de voo a modo de salto, caçam os bugios e bichos por cima das árvores, dos quais se mantêm. Vimos também aqui grande soma de cobras de capelo, da grossura da coxa de um homem, e tão peçonhentas em tanto estremo que diziam os negros que, se chegavam com a baba da boca a qualquer cousa viva, logo em proviso caía morta em terra, sem haver contra-peçonha, nem remédio algum que lhe aproveitasse. Vimos mais outras cobras que não são de capelo, nem tão peçonhentas como estas, mas muito mais compridas e grossas, e com as cabeças do tamanho de uma vitela. Estas nos diziam eles que caçavam também de rapina no chão, por esta maneira: sobem-se em cima das árvores silvestres, de que toda a terra é assaz povoada, e enroscando a ponta do rabo em um ramo se descem abaixo, deixando sempre a presa feita em cima; e posta a cabeça no mato, e com orelha por escuta pregada no chão, sentem com a calada da noite toda a cousa que bole, e em prepassando o boi, o porco, o veado ou qualquer outro animal, o ferram com a boca, e como já tem feita a presa c’o rabo lá em cima no ramo, em nenhuma cousa pregam que a não tragam a si, de maneira que cousa viva lhe não escapa. Vimos aqui também muito grande quantidade de monos pardos e pretos, do tamanho de grandes rafeiros, dos quais os negros têm muito maior medo que de todos estoutros animais, porque cometem com tanto atrevimento que ninguém lhe pode resistir.