|:| Title: Perigrinação |:| Author: Pinto, Fernão Mendes CAPÍTULO I. DO QUE PASSEI EM MINHA MOCIDADE NESTE REINO ATÉ QUE ME EMBARQUEI PARA A ÍNDIA ] Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram , começados no princípio da minha primeira idade , e continuados pela maior parte , e melhor tempo da minha vida , acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me , e maltratar-me , como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome , e de grande glória , porque vejo que não contente de me pôr na minha pátria logo no começo da minha mocidade , em tal estado que nela vivi sempre em misérias , e em pobreza , e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida me quis também levar às partes da Índia , onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas , me foram crescendo com a idade os trabalhos , e os perigos . Mas por outra parte quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre em salvo , e pôr-me em seguro , acho que não tenho tanta razão de me queixar por todos os males passados , quanta de lhe dar graças por este só bem presente , pois me quis conservar a vida , para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura , que por herança deixo a meus filhos ( porque só para eles é minha tenção escrevê-la ) para que eles vejam nela estes meus trabalhos , e perigos da vida que passei no decurso de vinte e um anos em que fui treze vezes cativo , e dezessete vendido , nas partes da Índia , Etiópia , Arábia Feliz , China , Tartária , Macassar , Samatra , e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago , dos confins da Ásia , a que os escritores Chins , Siameses , Gueos , Eléquios , nomeiam nas suas geografias por pestana do mundo , como ao diante espero tratar muito particular , e muito difusamente , e daqui por uma parte tomem os homens motivo de se não desanimarem cos trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem , porque não há nenhuns , por grandes que sejam , com que não possa a natureza humana , ajudada do favor divino e por outra me ajudem a dar graças ao Senhor onipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia , a pesar de todos meus pecados , porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram . E dela as forças , e o ânimo para os poder passar , e escapar deles com vida . E tomando por princípio desta minha peregrinação o que passei neste reino , digo que depois que passei a vida até idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor o velho , um tio meu , parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna , me trouxe a cidade de Lisboa , e me pôs no serviço de uma senhora de geração assaz nobre , e de parentes assaz ilustres , parecendo-lhe que pela valia assim dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim . E isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de El-rei Dom Manoel da gloriosa memória , que foi em dia de Santa Luzia treze dias do mês de dezembro do ano de 1521 , de que eu sou bem lembrado , e doutra coisa mais antiga deste reino me não lembro . Atenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava , antes o teve muito diferente , porque havendo ano e meio pouco mais ou menos que eu estava no serviço desta senhora , me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco , que para a poder salvar me foi forçado sair-me naquela mesma hora de casa , fugindo com a maior pressa que pude , e indo eu assim tão desatinado com grande medo que levava , que não sabia por onde ia , como quem vira a morte diante dos olhos , e a cada passo cuidava que a tinha comigo , fui ter ao Cais da Pedra onde achei uma caravela de Alfama , que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal , onde naquele tempo estava El-rei João o terceiro que santa glória haja com toda a corte , por causa da peste que então havia em muitos lugares do reino : nesta caravela me embarquei eu , e ela se partiu logo , e ao outro dia pela manhã sendo nós tanto avante como Sesimbra nos cometeu um francês corsário , e abalroando conosco quinze ou vinte homens , os quais sem resistência , nem contradição dos nossos , se senhorearam do navio , e depois que o despojaram de tudo quanto acharam nele , que valia mais de seis mil cruzados , o meteram no fundo , e a dezessete que escapamos com vida , atados de pés e de mãos nos meteram no seu navio , com fundamento de nos levarem a vender a Larache , para onde se dizia que iam carregados de armas que de veniaga levavam aos mouros , e trazendo-nos com esta determinação mais treze dias , banqueteados cada hora de muitos açoutes , quis sua boa fortuna que no cabo deles ao pôr-do-sol , houveram vista de uma vela , e seguindo-a aquela noite marcados pela sua esteira , como oficiais velhos práticos naquela arte , foram com ela antes do quarto da modorra rendido , e dando-lhe três surriadas de artilharia a abalroaram muito esforçadamente , e ainda que na defesa houve da parte dos nossos alguma resistência , nem isso bastou para os inimigos deixarem de a entrar , com morte de seis portugueses , e dez ou doze escravos . Era este navio uma formosa nau de um mercador de Vila de Conde que se chamava Silvestre Godinho , que outros mercadores de Lisboa traziam fretada de São Tomé , com muitos açúcares , e escravaria , a qual os pobres roubados , que lamentavam sua desaventura , punham em valia de quarenta mil cruzados . Tanto que estes corsários se viram com presa tão rica , mudando o propósito que antes traziam , se fizeram na volta de França , e levaram consigo alguns dos nossos para serviço da mareação da nau que tinham tomado . E aos outros mandaram uma noite lançar na praia de Melides , nus , e descalços , e alguns com muitas chagas dos açoutes que tinham levado , os quais desta maneira foram ao outro dia ter a Santiago do Cacém , no qual lugar todos foram muito bem providos do necessário pela gente da terra , e principalmente por uma senhora que aí estava , por nome dona Beatriz filha do conde de Vila Nova , e mulher de Alonso Perez Pantoja , comendador e alcaide-mor da mesma vila . E depois que os feridos e os doentes foram convalescidos , cada um se foi para onde lhe pareceu que teria o remédio mais certo , e o pobre de mim com outros seis ou sete tão desamparados como eu , fomos ter a Setúbal , onde me caiu em sorte lançar mão de mim um fidalgo do mestre de Santiago por nome Francisco de Faria , ao qual servi quatro anos , em satisfação dos quais me deu ao mesmo mestre de Santiago por seu moço de câmara , a quem servi um ano e meio . E porque a moradia que então era costume dar-se nas casas dos príncipes , me não bastava para minha sustentação , determinei embarcar-me para a Índia , ainda que com pouco remédio , já oferecido a toda ventura ou má ou boa , que me sucedesse . CAPÍTULO II. COMO DESTE REINO ME PARTI PARA A ÍNDIA , E DO SUCESSO QUE TEVE A ARMADA EM QUE FUI ] Aos onze dias do mês de março do ano de mil e quinhentos e trinta e sete parti deste reino em uma armada de cinco naus , em que não foi capitão-mor os capitães particulares das naus , os quais eram , na nau rainha , Dom Pedro da Silva , que de alcunha se chamava o Galo , filho do conde almirante Dom Vasco da Gama , na qual trouxe a ossada de seu pai , que El-rei Dom João que então estava em Lisboa , mandou receber com mor aparato e pompa fúnebre que até hoje se recebeu nenhuma que não fosse de rei : e na nau São Dom Fernando de Lima filho de Diogo Lopez de Lima alcaide-mor de Guimarães , que logo no ano seguinte de 1538 faleceu em Ormuz sendo capitão da fortaleza ; e na nau Santa Bárbara , seu primo Jorge de Lima , que ia provido em capitão de Chaul ; e na nau Flor de la Mar , Lopo Vaz Vogado capitão ordinário de viagem ; e na nau galega que foi a em que se perdeu depois Pero Lopez de Sousa ; um Martim de Freitas natural da ilha da Madeira , que aquele ano mataram em Damão com mais trinta e cinco homens que levava consigo . E velejando todas estas naus por sua derrota prouve a Nosso Senhor que chegaram a salvamento a Moçambique , onde achamos de invernada a nau São Miguel de que era capitão e senhorio um armador que se chamava Duarte Tristão , a qual partindo depois para o reino muito rica , desapareceu , sem até hoje se saberem novas dela , como por nossos pecados a outras algumas tem acontecido nesta carreira da Índia . Depois de estas cinco naus serem todas aviadas e prestes para se partirem de Moçambique , o capitão da fortaleza , que era Vicente Pegado , apresentou aos capitães delas uma provisão do governador Nuno da Cunha , em que mandava que todas as naus que aquele ano deste reino ali fossem ter , fossem a Diu , e deixassem a gente na fortaleza , pela suspeita que se tinha da armada do turco , porque se então esperava na Índia , por causa da morte do sultão Bandur rei de Cambaia , que o governador tinha morto o verão passado . Este negócio foi logo posto em conselho , e se determinou por todos que as três naus que eram de El-rei fossem a Diu como a provisão mandava , e as duas de mercadores fossem a Goa , por alguns requerimentos e protestos de encampação que seus procuradores sobre este caso já tinham feitos . Partidas as três naus de El-rei para Diu , e as duas de mercadores para Goa , prouve a Nosso Senhor levá-las todas a salvamento . E surgindo as três na barra de Diu a cinco de setembro do mesmo ano de 1538 . António da Silveira , irmão do conde de Sortelha Luís da Silveira , que então aí estava por capitão , as festejou e recebeu com assaz de alegria , gastando largamente com todas de sua fazenda , assim em dar de comer a mais de setecentos homens , como em outras mercês de dinheiro e esmolas que fazia continuamente . E vendo a gente desta armada tanta largueza e abastança , e que a fora isto lhe pagavam soldos e mantimento , se deixou ali ficar quase toda por sua própria vontade , sem ser necessário para isso nenhum rigor nem pena de justiça , como sempre se costumou nas fortalezas em que havia suspeita de cerco . As três naus , depois de venderem ali bem suas fazendas , se foram para Goa com só os oficiais delas , e a gente do mar , onde estiveram mais alguns dias , até que o governador acabou de as despachar para Cochin , e daí , tomada a carga , se tornaram todas cinco para o reino , onde chegaram a salvamento , levando também consigo em companhia outra nau nova que se fizera na Índia , por nome São Pedro , de que veio por capitão Manoel de Macedo que trouxe o basilisco , a que cá chamaram o tiro de Diu , por se tomar aí na morte do sultão Bandur rei de Cambaia , com mais outros dois do mesmo teor , os quais foram dos quinze que o Rumecão capitão-mor da armada do turco trouxe de Suez no ano de 1534 quando deste reino foi Dom Pedro de Castelo Branco nas doze caravelas do socorro que partiram em novembro . CAPÍTULO III. COMO DE DIU ME EMBARQUEI PARA O ESTREITO DE MECA , E DO QUE PASSEI NESTA VIAGEM ] Havendo só dezessete dias que eu era chegado a esta fortaleza de Diu , fazendo-se nela prestes duas fustas para irem ao estreito de Meca , a saberem a certeza da armada dos turcos , de que já na Índia havia algum receio , me embarquei em uma delas de que ia por capitão um meu amigo , por me ele fazer grandes encarecimentos da sua amizade naquela viagem , fazendo-me muito fácil sair eu dela muito rico em pouco tempo , que era o que eu então mais pretendia que tudo . Confiado eu nesta promessa , e enganado com esta esperança , sem pôr diante dos olhos quão caro muitas vezes isto custa , e quão arriscada eu então levava a vida , assim por ser fora de tempo , como pelo que depois sucedeu por pecados meus e de todos os que nela fomos , me embarquei com este meu amigo numa fusta que se chamava a Silveira . Partidas ambas estas duas fustas desta fortaleza de Diu , e navegando juntas em uma conserva com tempo assaz forte , na despedida do inverno , com grandes chuveiros , e contra monção , houvemos vista das ilhas de Curia , Muria , e Abedelcuria , nas quais estivemos de todo perdidos , sem nenhuma esperança de vida ; e tornando-nos , por não haver outro remédio , na volta do sudoeste , prouve a Nosso Senhor que ferramos a ponta da ilha Socotorá , uma légua abaixo donde esteve a nossa fortaleza que Dom Francisco de Almeida primeiro vice-rei da Índia fez , quando no ano de 1507 foi deste reino , e ali fizemos nossa aguada , e houvemos algum refresco , que por nosso resgate compramos aos cristãos da terra , que descendem daqueles que antigamente o apóstolo São Tomé converteu nas partes da Índia , e Coromandel . Desta ilha nos partimos com fundamento de abocarmos as portas do estreito , e em nove dias de tempo bonança nos pusemos na altura de Massuaa , onde ao pôr-do-sol houvemos vista de uma vela , a qual seguimos com tanta pressa , que ao quarto da prima rendido chegamos a ela . E querendo nós por via de boa amizade haver fala do capitão dela , para nos informarmos dele do que pretendíamos saber da armada do turco , se era já partido de Suez , ou que novas havia dela ; a reposta dos da nau foi tão fora do que esperávamos , que sem falarem palavra nos assombraram com doze pelouros , dos quais os cinco eram de falcões , e roqueiros , e os sete de berços , a fora muitas arcabuzadas que também nos tiraram , como gente que nos não tinha em conta . E de quando em quando nos davam muitas gritas e apupadas , e capeando-nos com bandeiras e toucas , nos mostravam de cima do capitéu de popa muitos terçados nus , esgrimindo com eles no ar , para que nos chegássemos a eles . Com a primeira vista destas suas fanfarrices ficamos nós algum tanto embaraçados . E praticando os capitães ambos e os outros companheiros sobre o que se faria neste caso , se concluiu por parecer dos mais , que os inimigos se não fossem tanto a seu salvo , mas que se trabalhasse tudo o possível pelos irmos gastando com a artilharia até que fosse manhã , porque então nos ficaria mais fácil e menos perigoso o abalroá-los , o que assim se fez . E dando-lhe caça todo o mais que restava da noite , prouve a Nosso Senhor que já quase manhã ela mesma se rendeu por si com morte de sessenta e quatro homens dos oitenta que nela vinham , e os que ficaram vivos quase todos se lançaram ao mar , tendo este por melhor partido que morrerem queimados das panelas de pólvora que lhe nós lançávamos . Assim que de todos os oitenta não escaparam mais que só cinco muito feridos , dos quais um foi o capitão da nau , o qual metido a tormento confessou que vinha de Iudaa donde era natural , e que a armada do turco era já partida de Suez , com tenção de vir tomar Adém , e fazer aí fortaleza primeiro que cometesse a Índia , porque assim o trazia o baxá do Cairo , que nela vinha por capitão-mor , num dos capítulos do seu regimento que o turco lhe mandara de Constantinopla . E disse também outras muitas coisas particulares muito importantes a nosso propósito . E entre algumas que nos disse , nos veio a confessar que era cristão renegado , malhorquy de nação , natural de Sardenha , filho de um mercador que se chamava Paulo Andrés , e que não havia mais que só quatro anos que se tornara mouro por amor de uma grega moura com que era casado . Os capitães ambos lhe cometeram então se se queria tornar a fé , e fazer-se cristão , a que ele respondeu tão duro e tão fora de toda a razão , como se nascera e se criara sempre naquela maldita seita . Os capitães ambos vendo quão cego e desatinado estava este mal-aventurado no conhecimento da santa e católica verdade de que lhe tratavam , havendo ainda tão pouco tempo que fora cristão , como tinha confessado , crescendo-lhe a cólera , com um zêlo santo da honra de Deus o mandaram atar de pés e de mãos , e vivo foi lançado ao mar com um grande penedo ao pescoço , donde o diabo o levou a participar dos tormentos de mafamede em que tão crente estava , e a nau com os mais foi metida no fundo , por ser a fazenda fardos de tintas como cá é o pastel , que nos não servia então para nada , tirando algumas peças de chamalote que os soldados tomaram para se vestirem . CAPÍTULO IIII. COMO DAQUI FOMOS A MASSUAA , E DAÍ POR TERRA A MÃE DO PRESTE JOÃO , A FORTALEZA DE GILEITOR ] Daqui desta paragem nos partimos para Arquico , terra do preste João , a dar um carta que António da Silveira mandava a um Henrique Barbosa feitor seu , que lá andava havia três anos por mandado do governador Nuno da Cunha , o qual com quarenta homens que trazia consigo escapara do alevantamento de Xael , onde cativaram Dom Manoel de Meneses , com mais cento e sessenta portugueses , e tomaram quatrocentos mil cruzados , e seis naus portuguesas , que foram as que Soleimão baxá vice-rei do Cairo levou cos mantimentos e munições da sua armada , quando no ano de mil , quinhentos e trinta e oito veio pôr cerco à fortaleza de Diu , por lhas o rei de Xael mandar ao Cairo com sessenta portugueses de presente , e dos mais fez esmola ao seu mafamede , como cuido que as histórias que tratam da governança de Nuno da Cunha dirão largamente . Chegando nós a Gotor uma légua abaixo do porto de Massuaa , fomos todos bem recebidos da gente da terra , e de um português que aí achamos , por nome Vasco Martins de Seixas natural da vila de Óbidos , que por mandado de Henrique Barbosa havia um mês que ali estava , esperando por algum navio de portugueses , com uma carta do mesmo Henrique Barbosa que deu aos capitães , em que lhe dava as novas que tinha sabido dos turcos , e lhe pedia que em todo caso se fossem ver alguns portugueses com ele , porque importava muito ao serviço de Deus e de El-rei , e que ele os não podia ir buscar , porque estava naquela fortaleza de Gileitor em guarda da princesa de Tigremahom mãe do preste com quarenta portugueses que aí tinha consigo . Os capitães ambos puseram esta ida em conselho cos mais que para isso foram chamados , e se assentou por parecer de todos que quatro soldados o fossem ver em companhia do Vasco Martins , e lhe levassem a carta que António da Silveira lhe mandava , o que assim se fez . E , partidos os quatro , dos quais eu fui um , logo ao outro dia seguinte , caminhamos por terra em boas cavalgadas de mulas que o Tiquaxy capitão da terra nos mandou dar por uma provisão da princesa mãe do preste , que o Vasco Martins trouxera para isso , com mais seis abexins que nos acompanharam . E aquele mesmo dia fomos dormir a um mosteiro de oficinas nobres e ricas que se dizia Satilgão , e como ao outro dia foi manhã , caminhamos ao longo de um rio mais cinco léguas , até um lugar que se chamava Bitonto , no qual nos agasalhamos aquela noite em um bom mosteiro de religiosos que se chamava São Miguel , com muita festa e gasalhado do prior e sacerdotes que nele estavam , onde nos veio ver um filho do Barnagais governador deste império de Etiópia , moço de idade de dezessete anos , e muito bem disposto , acompanhado de trinta de mulas , e ele somente vinha em um cavalo ajaezado à portuguesa , com um arreio de veludo roxo franjado de ouro , que da Índia lhe mandara o governador Nuno da Cunha havia dois anos , por um Lopo Chanoca , que depois foi cativo no Cairo , ao qual este príncipe mandava resgatar por um mercador judeu natural de Azebibe , porém quando este lá chegou , o achou já morto , de que dizem que mostrou muito sentimento , e nos afirmou o Vasco Martins , que ali naquele mosteiro de São Miguel lhe mandara fazer o mais honrado saimento que ele nunca vira em sua vida , no qual se ajuntaram quatro mil sacerdotes , a fora outra mor cópia de noviços a que eles chamam santileus . E sabendo que fora casado em Goa , e que tinha três filhas moças pequenas , e muito pobres , lhe mandara de esmola trezentas oqueas de ouro , que da nossa moeda tem cada oquea doze cruzados . Ao outro dia nos partimos deste mosteiro em boas cavalgadas que este príncipe nos mandou dar , com quatro homens seus que nos acompanhassem , os quais nos foram agasalhando por todo o caminho esplendidíssimamente , e fomos dormir a umas casas grandes que se diziam Betenigus , que quer dizer casas de rei , cercadas em distância de mais de três léguas de arvoredo muito alto de ciprestes , e cedros , e palmeiras de dátiles e cocos como na Índia . E continuando daqui por nossas jornadas de cinco léguas por dia por campinas de trigo muito grandes e muito formosas , e chegamos a uma serra que se dizia Vangaleu , povoada de judeus , gente branca , e bem proporcionada , mas muito pobre , segundo o que nos pareceu dela . E daí a dois dias e meio chegamos a uma boa povoação que se chamava Fumbau , duas léguas da fortaleza de Gileitor , onde achamos Henrique Barbosa cos quarenta portugueses , os quais nos receberam com muita alegria , acompanhada de grande cópia de lágrimas , porque ainda que ( como nos eles diziam ) ali estivessem muito à sua vontade , sendo em tudo senhores absolutos de toda a terra , contudo se não haviam por satisfeitos nela , por ser aquilo desterro e não pátria sua . E porque já ao tempo que aqui chegamos era muito noite , não pareceu a Henrique Barbosa saber a princesa da nossa chegada . E ao outro dia pela manhã que era um domingo quatro dias de outubro nos fomos com ele e cos quarenta portugueses ao aposento onde a princesa vivia , a qual tanto que soube que éramos chegados , nos mandou entrar na capela onde já então estava para ouvir missa , e pondo-nos em joelhos diante dela , lhe beijamos o abano que tinha na mão , com mais outras cerimónias de cortesia ao seu uso que os portugueses nos tinham ensinado . Ela nos recebeu com muita alegria , e nos disse : a vinda de vós outros , verdadeiros cristãos , é ante mim agora tão agradável , e foi sempre tão desejada , e o é todas as horas destes meus olhos que tenho no rosto , como o fresco jardim deseja o borrifo da noite , venhais embora , venhais embora , e seja em tão boa hora a vossa entrada nesta minha casa , como a da rainha Helena na terra santa de Jerusalém . E mandando-nos assentar em umas esteiras , quatro ou cinco passos afastados de si , nos esteve perguntando com a boca cheia de riso , por algumas coisas novas e curiosas , a que diziam que sempre fora muito inclinada , pelo papa , como se chamava , quantos reis havia na Cristandade , se fora já algum de nós à casa santa , e porque se descuidavam tanto os príncipes cristãos na destruição do turco , e o poder que El-rei Portugal tinha na Índia se era grande , e quantas fortalezas havia nela , e em que terras estavam , e outras muitas coisas desta maneira . E das repostas que os nossos lhe davam mostrava ficar satisfeita . E com isto nos despedimos dela , e nos recolhemos ao nosso aposento . E depois de haver já nove dias que aqui estávamos , nos fomos despedir dela , e beijando-lhe a mão nos disse : certo que me pesa de vós irdes tão cedo , mas já que é forçado ser assim , ide-vos muito embora , e seja em tão boa hora a vossa tornada à Índia , que quando lá chegardes vos recebam os vossos como o antigo Salomão recebeu a nossa rainha Sabaa na casa admirável de sua grandeza . A todos quatro nos mandou dar vinte oqueas de ouro , que são duzentos e quarenta cruzados , e mandou também um naique com vinte abexins que nos veio guardando dos ladrões , e provendo-nos de mantimento e cavalgadas até o porto de Arquico onde as nossas fustas estavam , e o Vasco Martins de Seixas trouxe um presente rico de muitas peças de ouro para o governador da Índia , o qual se perdeu no caminho , como logo se dirá . CAPÍTULO V. COMO NOS PARTIMOS DO PORTO DE ARQUICO , E DO QUE NOS SUCEDEU COM TRÊS VELAS DE TURCOS QUE TOPAMOS ] Tornados nós ao porto de Arquico onde achamos os nossos companheiros , depois de estarmos ali mais nove dias acabando de espalmar as fustas , e provê-las do necessário , nos partimos uma quarta-feira seis dias do mês de novembro do ano de 1537 . E levamos conosco Vasco Martins de Seixas com presente e carta que a mãe do preste João mandava ao governador , e levamos também um bispo abexim , que vinha para vir a este reino , e daqui ir a Santiago da Galiza , e a Roma , e daí a Veneza , para daí se passar a Jerusalém . E velejando desde uma hora ante manhã , que saímos do porto , fomos com ventos bonanças ao longo da costa até quase a véspera , e sendo já tanto avante como a ponta de Gocão , antes de chegarmos ao ilhéu do arrecife , vimos três velas surtas , e parecendo-nos que seriam gelbas , ou tarradas da outra costa , fomos guinando a elas a vela , e a remo , porque já neste tempo o vento nos ia acalmando , e com tudo porfiamos tanto nesta ida , que em espaço de quase duas horas nos chegamos tão perto delas que lhe enxergamos toda a apelação dos remos , e conhecemos que eram galeotas de turcos , pelo qual nos tornamos a fazer na volta da terra com a mor pressa que pudemos , como quem desejava de fugir do perigo em que já estava metido . Os turcos entendendo , ou suspeitando nossa determinação , deram uma grande grita , e em menos de um credo se fizeram todos à vela , e bordejando por nossa esteira com as velas quarteadas de cores , e muitas bandeiras de seda ; como o vento lhes ficava mais largo , foram logo senhores do barlavento , com que sem nenhum trabalho vieram arribando sobre nós , e tanto que foram a tiro de berço , dispararam em nós toda sua artilharia , e nos mataram logo nove homens e feriram vinte e seis , e ficando com isto as nossas fustas de todo mancas , porque a mais esquipação se lançou toda ao mar , os turcos se chegaram tanto a nós que das suas popas nos feriam a bote de lança . Dos nossos a este tempo ainda havia quarenta e dois que podiam pelejar , estes vedo que só no seu braço estava a sua salvação , com tanto ímpeto e esforço cometeram a capitania das três , em que vinha Soleimão Dragut , capitão-mor da frota , que a axoraram logo toda de popa a proa , com morte de vinte e sete ianiçaros , porém acudindo-lhe então as outras duas , que estavam mais afastadas um pouco atrás , lhe lançaram dentro quarenta turcos , com o qual socorro os nossos ficaram de todo rendidos , e de tal maneira foram tratados , que do número dos cinquenta e quatro que eram por todos , só onze ficaram com vida , dos quais ao outro dia faleceram dois , que os turcos fizeram em quartos , e para triunfo os levaram pendurados nas pontas das vergas até a cidade de Mocaa , cujo capitão era sogro deste Soleimão Dragut que nos tomara ; e ao tempo que ali chegamos , estava já na praia com todo o povo para receber o genro , e dar-lhe os parabéns da vitória , e tinha consigo um caciz seu Moulana que eles tinham por santo , por haver poucos dias que viera da casa do seu Mafoma , o qual em um carro toldado de seda com grandes bençãos e celás provocava os ouvintes a darem muitos louvores a mafamede pela vitória que dera contra nós aquele turco . Ali desembarcamos os nove que ficamos vivos , todos presos em uma corrente , e conosco também o bispo abexim , o qual ia tão ferido que ao outro dia faleceu com mostras de muito bom cristão , o que a todos nos animou , e nos consolou muito . A gente do povo vendo-nos vir assim presos , e conhecendo que éramos os cristãos cativos , foram tantas as bofetadas que nos deram que em verdade afirmo que nunca cuidei que escapássemos dali com vida , que haviam , pelo que o caciz dizia , que ganhavam indulgência plenária em nos vituperarem , e maltratarem . Desta maneira fomos levados por toda a cidade a modo de triunfo , com grandes gritas e tangeres , onde até as mulheres encerradas , e os moços e meninos nos lançavam das janelas muitas panelas de urina por vitupério e desprezo do nome cristão . E já quase sol posto nos meteram em uma masmorra que estava debaixo do chão , na qual estivemos dezessete dias com assaz de desaventura e de trabalho , sem em todos eles nos darem mais que uma pouca de farinha de cevada para todo o dia , e algumas vezes grãos crus molhados em água sem mais outra coisa nenhuma . CAPÍTULO VI. DE UM MOTIM QUE HOUVE NESTA CIDADE : E DA CAUSA ; E DO SUCESSO DELE , E PORQUE VIA EU FUI DAQUI LEVADO PERA ORMUZ ] Como os mais dos miseráveis de nós vínhamos maltratados das feridas , que eram grandes e perigosas , ajuntando-se a isto a desumanidade com que naquela triste prisão fomos tratados , quando veio ao outro dia pela manhã , dois do conto dos nove amanheceram mortos , um por nome Nuno Delgado , e outro André Borges , ambos de boa geração e homens esforçados , porque como estes ambos vinham feridos nas cabeças das feridas penetrantes , e ali não tiveram benefício de cura , ou de outro remédio algum , isso foi causa de eles acabarem tão depressa . O mocadão da masmorra que era o carcereiro daquela prisão , tanto que os viu mortos deu logo rebate disso ao guazil da justiça , que entre eles é como corregedor entre nós , o qual veio em pessoa acompanhado de muitos ministros de justiça com um grande e temeroso fausto , e lhes mandou tirar os grilhões e as algemas com que ambos estavam presos , e mandando-os atar com cada um sua corda pelos pés , os tiraram fora a rasto , e assim foram levados por toda a cidade , com grande soma de moços que os iam apedrejando , até os lançarem no mar . Ao outro dia a tarde os sete que ficamos vivos fomos postos em leilão em uma praça , onde todo o povo da cidade estava junto , e o primeiro que o porteiro tomou pela mão para fazer seu ofício , foi o pobre de mim , e começando a dar o primeiro pregão , o caciz Moulana que já aí era chegado com mais outros dez ou doze seus inferiores também cacizes da maldita seita , requereu ao Heredim Sofo capitão da cidade , que nos mandasse de esmola a casa de Meca para onde ele estava de caminho , para que em nome daquele povo fizesse aquela romaria , porque não era razão , nem tão pouco honra do mesmo capitão , mandar visitar o corpo do profeta Noby com as mãos vazias , e sem levar coisa em que o Rajaa Dato Moulana maior da cidade de Medina pudesse pôr os olhos , porque o não quereria ver nem conceder-lhe perdão nenhum que lhe ele pedisse para os moradores daquela cidade que tão necessitados estavam dos favores de Deus por seus pecados : a que o capitão respondeu que não tinha poder naquela presa para dispensar nela tão largo como lhe ele pedia , mas que falasse ele ao Soleimão Dragut seu genro , porque ele o faria de muito boa vontade . O caciz lhe replicou dizendo , que as coisas de Deus , e das esmolas pedidas em seu nome , não haviam de ser joeiradas por tantas mãos como ele dizia , se não somente pelas daqueles a quem se pedissem . E que pois ele só era capitão daquela cidade , e daquele povo que ali estava junto , que a ele só pertencia condescender em petitório tão justo e tão santo , e tão agradável ao profeta Noby mafamede , pois ele só fora o que dera a vitória daquela presa a seu genro , e não o esforço dos seus soldados como ele dizia . O que ouvindo um Ianiçaro capitão de uma das três galeotas , homem honrado , e de muito ser e valia entre eles , por nome Coja Geinal , lhe respondeu quase merencório do que tinha ouvido em desprezo seu , e dos mais que foram na nossa tomada : mas quanto melhor vos fora para salvação da vossa alma partirdes cos pobres soldados do vosso que vos sobeja , que com palavras de hipocrisia quererdes lhe roubar o seu , como tendes por ofício fazer continuamente , e se quereis não levar as mãos vazias como dizeis , para por vosso interesse peitardes os cacizes de Meca , seja com património que vosso pai vos deixou , e não cos cativos que custaram muitas vidas dos que já estão enterrados , e a nós os que estamos vivos muito infindo sangue ; de que vós eu não vejo a vossa cabaia tão tinta , como me vós podeis ver a minha , e as destes pobres soldados que estão presentes . A qual resposta dada tão livremente por este capitão em favor dos soldados , o Moulana caciz tomou tão mal , e falou tão soberbo , e com umas palavras tão mal concertadas , que afrontado o capitão Geinal delas , e os mais soldados turcos e mouros que estavam à roda , uns e os outros fizeram uma tão grande união com a gente do povo que o Moulana tinha por si , e com cuja afouteza falava tão solto , que durou todo aquele espaço que restava do dia sem se poder pacificar , nem o Heredim Sofo capitão da cidade ser poderoso para isso , de maneira que por evitar prolixidade , e não me deter nas particularidades deste caso , que seriam muito largas de contar ; desta união se veio a travar entre eles uma briga tão áspera , e tão acesa ; que veio a parar em mais de seiscentos mortos de ambas as partes , e em ser saqueada mais de meia cidade , e roubada a casa do Moulana , e ele feito em quartos , e lançado no mar com sete mulheres suas , e nove filhos , e toda a mais gente da sua família que os soldados tomaram naquele fragante , sem a nenhum quererem dar a vida . E nós os sete portugueses que a este tempo , como já disse , estávamos na praça para nos venderem em leilão , tomamos por remédio mais certo de nossa salvação tornarmo-nos a meter na masmorra , sem que ministro algum de justiça ou outra pessoa nos levasse , ou fosse conosco houvemos que em o mocadão carcereiro dela nos meter das portas a dentro , nos não fazia pequena mercê . Esta tão áspera e tão perigosa revolta se veio enfim pôr em paz pelo meio e autoridade do Soleimão Dragut capitão das galeotas , o qual quis tomar este negócio a seu cargo , porque o Heredim Sofo seu sogro , e capitão da cidade estava a este tempo na cama maltratado de um braço que lhe cortaram na briga , e dali a treze dias em que a coisa acabou de estar de todo quieta , nos puseram outra vez em leilão com toda a mais presa , assim de fato como de artilharia que se tomou nas fustas , de que por então se fez bom barato . E ao pobre de mim quiçá como menos ditoso coube em sorte comprar-me um grego renegado , de que eu arrenegarei enquanto viver , porque me tratou de maneira em só três meses que fui seu cativo , que por sete ou oito vezes estive tentado para me matar com peçonha ( se Nosso Senhor me não fizera mercê de me ter na sua mão ) para lhe fazer perder o que por mim tinha dado , porque era o mais desumano , e cruel inimigo que nunca se viu no mundo . No cabo dos três meses prove a Nosso Senhor que receoso ele que por ser insofrível perdesse o que dera por mim , como alguns seus vizinhos lhe tinham já dito , me vendeu a troco de tâmaras por preço de doze mil réis a um judeu por nome Abrão Muça , natural da cidade do Toro , duas léguas e meia do monte Sinai , o qual em uma cáfila de mercadores que partiu de Babilônia para Cayxem me levou a Ormuz , e me apresentou a Dom Fernando de Lima que então aí estava por capitão da fortaleza , e ao doutor Pero Fernandes ouvidor geral da Índia , que de poucos dias aí era vindo por mandado do governador Nuno da Cunha a fazer algumas coisas de serviço de El-rei , e eles ambos por esmolas que tiraram pela terra , e pelo que também deram de suas casas , ajuntaram duzentos pardais , que deram por mim ao judeu ; com que se ele houve por muito bem pago . CAPÍTULO VII. DO QUE PASSEI DEPOIS QUE ME EMBARQUEI EM ORMUZ ATÉ CHEGAR A ÍNDIA ] Havendo já dezesseis dias que eu era chegado a Ormuz , e livre pela misericórdia de Nosso Senhor dos trabalhos que tenho contado , me embarquei para a Índia em uma nau de um Jorge Fernandes Taborda , que ia com cavalos para Goa , e velejando por nossa derrota com vento bonança de mouchão tendente , em dezessete dias de boa viagem houvemos vista da fortaleza de Diu , e chegando-nos bem a terra com determinação de sabermos aí algumas novas , enxergamos de noite por toda a costa uma grande quantidade de fogos , e de quando em quando tom de artilharia , e lançando nossos juízos sobre o que isto poderia ser , pairamos com pouca vela o que restava da noite até que de todo foi manhã , em que claramente vimos a fortaleza cercada de uma grande quantidade de velas latinas . Embaraçados nós todos com esta novidade tão desacostumada , houve sobre ela muitas altercações , e diversidade de pareceres , porque os mais diziam que era o governador que novamente chegara de Goa a fazer as pazes da morte do sultão Bandur rei de Cambaia , que os dias passados ele tinha morto : outros afirmavam com grandes apostas , que era o infante Dom Luís , irmão de El-rei Dom João o terceiro , que então chegara deste reino , e que o grande número de velas latinas que víamos , eram as caravelas em que ele viera , porque assim se tinha então em toda a Índia por nova certa . Outros diziam que era o Patemarcaa , com as cem fustas do samorim rei de Calicute , outros todavia diziam que eram turcos , e assim o afimavam por razões muito claras e evidentes . Estando nós nesta confusão e variedade de suspeitas , com assaz de arreceio do que tínhamos diante , nos saíram do meio de toda a frota cinco galés muito grandes , com seus bastardos quarteados de verde e roxo , e muitas bandeiras por cima dos toldos , e nos calceses dos mastros estandartes muito compridos , que quase tocavam com as pontas na água ; e pondo todas cinco as proas em nós , se vieram à orça senhoreando do balravento , pelo que então acabamos de entender que eram turcos : nós tanto que as conhecemos , diferimos com muita pressa a vela grande , que já tínhamos de verga de alto , e nos fizemos na volta do mar com bem grande arreceio que por nossos pecados nos acontecesse ali outro desastre semelhante ao de que atrás tenho tratado . Os inimigos seguindo-nos sempre por nossa esteira até quase a noite , prouve a Nosso Senhor que se tornaram a fazer na volta da terra , a demandar o posto donde tinham saído . A nossa nau bem contente de se ver livre de tamanho perigo , chegou dali a dois dias a Chaul , onde o capitão dela , cos mercadores que nela vinham , se foram logo ver com Simão Guedez capitão da fortaleza , a quem deram conta de tudo o que lhe sucedera na sua viagem , ao que ele respondeu : certo que tendes todos muita razão de dardes graças a Deus por vos livrar de tamanho perigo . E então lhes disse que havia já vinte dias que António da Silveira estava cercado de uma grossa armada de turcos , de que era capitão-mor Soleimão baxá vice-rei do Cairo , e que a grande quantidade das velas que tínhamos visto , eram cinquenta e oito galés reais e bastardas , que tiravam cinco peças por proa , e algumas delas passamuros , e leões , e esperas , e oito naus grossas em que vinham muitos turcos de sobressalente para refeição dos que morressem . E que também traziam muitos mantimentos e munições , em que se afirmava que vinham trezentas peças de bater , em que entravam doze basiliscos ; com a qual nova ficamos todos assaz confusos , e espantados , e demos muitos louvores a Nosso Senhor pela mercê que nos fizera em nos livrar de tamanho perigo . CAPÍTULO VIII. DO QUE NOS SUCEDEU NA VIAGEM DE CHAUL PARA GOA , E DO QUE EU PASSEI DEPOIS QUE CHEGUEI A ELA ] Logo ao outro dia nos partimos daqui de Chaul na volta de Goa , e sendo quase tanto avante como o rio de Carapatão , encontramos Fernão de Morais capitão de três fustas , que por mandado do vice-rei Dom Garcia de Noronha , que então chegara do reino , ia para D'abul a ver se podia tomar ou queimar uma nau de turcos que estava aí no porto carregando de mantimentos por mandado do baxá . O qual Fernão de Morais tanto que conheceu a nossa nau , requereu ao capitão dela que de vinte homens que levava consigo lhe desse os quinze , por quanto vinha muito falto de gente pela muita pressa com que o vice-rei o mandara embarcar , por assim ser necessário ao serviço de Deus e de sua alteza . E depois de haver sobre isto muitos desgostos de ambas as partes , de que não trato por encurtar razões , enfim vieram a concertar que o capitão da nossa nau lhe desse doze homens dos quinze que Fernão de Morais lhe pedia , de que ele ficou satisfeito , e destes fui eu também um , por ser sempre o mais enjeitado , e com isto ficaram ambos avindos . Partida a nau para Goa , Fernão de Morais com as suas três fustas seguiu sua viagem na volta do porto de Dabul onde chegou ao outro dia às nove horas , e tomando nele um paguel de malavares , que no meio da angra estava surto , carregado de algodão , e de pimenta , pôs logo a tormento o capitão e o piloto dele , os quais confessaram que os dias atrás viera ali ter uma nau do baxá a buscar mantimentos , e trouxera um embaixador que levava uma cabaia muito rica para o idalcão , a qual ele não quisera aceitar , por não ficar vassalo do turco , visto não ser costume entre os mouros mandarem-se estas cabaias , senão do senhor ao vassalo , pela qual desavença a nau se tornara sem mantimentos , nem outra coisa alguma . E que o idalcão respondera por palavra aos oferecimentos que o baxá lhe mandara fazer em nome do turco , que antes queria a amizade de El-rei de Portugal , com lhe ter tomado Goa , que a sua , com lhe prometer a restituição dela : e que só dois dias havia que a nau era partida , e que o capitão dela que se chamava Cide Ale , deixara apregoada guerra com idalcão , jurando que como a fortaleza de Diu fosse tomada ( o qual não tardaria oito dias , segundo o estado em que já ficava posta ) o idalcão perderia o reino e a vida , e então conheceria quão pouco lhe podiam aproveitar os portugueses . Fernão de Morais vendo que já não tinha ali que fazer , se tornou para Goa , a dar conta ao vice-rei do que passava , onde chegou dali a dois dias , e achamos nela surto Gonçalo Vaz Coutinho , que com cinco fustas ia para Onor , a pedir à rainha da terra uma galé das da armada do Soleimão , que com tempo esgarrão ali fora ter . E porque um dos capitães destas fustas era muito meu amigo , e me via vir tão desbaratado , desejando de me poder ajudar em alguma coisa , me cometeu que me embarcasse com ele , e que me faria ali logo pagar cinco cruzados , o que eu aceitei de boa vontade , parecendo-me também que lá me poderia Deus abrir algum caminho com que me provesse de outra melhor capa que a que então trazia , já que de meu não tinha mais que o que pretendia alcançar por minhas mãos . E acudindo-me então os soldados da fusta com alguns petrechos necessários , de que eu vinha falto , fiquei feito assim de pedaços como qualquer dos outros meus companheiros que iam na armada , tão necessitados como eu . Ao outro dia pela manhã , que foi um sábado , partimos da barra de Bardees , e à segunda-feira seguinte surgimos no porto de Onor , com grande estrondo de artilharia , e as vergas ao modo de guerra em torno de espada , e grande vozaria de pífaros e tambores , para que a gente da terra nestas mostras exteriores lhe parecesse que não tínhamos nós os turcos em conta . CAPÍTULO IX. DO QUE GONÇALO VAZ COUTINHO PASSOU COM A RAINHA DE ONOR ] Depois que a armada foi surta , e se fez no porto a salva que disse , o capitão Gonçalo Vaz Coutinho mandou logo à rainha uma carta que lhe levava do vice-rei , por um Bento Castanho homem discreto , e bem criado , pelo qual lhe mandou dizer o para que ali era vindo , e que pois sua alteza era amiga de El-rei de Portugal , e tinha com ele pazes e amizade havia tanto tempo , que como recolhia no seu porto turcos , que eram nossos capitais inimigos ? ao que ela respondeu , que sua mercê fosse muito bem-vindo com toda a sua companhia , que quanto ao que lhe mandava dizer das pazes que tinha com El-rei de Portugal , e cos seus governadores , era muita verdade , e assim as teria em quanto vivesse , porém quanto aos turcos em que lhe apontava , que só Deus , a quem ela tomava por juiz neste caso , sabia quanto contra seu gosto eles ali eram vindos , e que pois sua mercê trazia forças para os poder lançar fora , o fizesse , que ela lhe daria para isso todo o favor quanto lhe fosse possível , que para mais bem sabia ele que não era ela poderosa , nem se atrevia a pelejar com tamanha força , e que lhe jurava pelas alparcas douradas do seu pagode , que tanto folgaria com a vitória que Deus lhe desse contra eles , como que o rei de Narsinga , cuja escrava ela era , a assentasse à mesa com sua mulher . Ouvindo Gonçalo Vaz a eficácia deste recado , e os cumprimentos que a rainha lhe fazia , ainda que isto era menos do que ele esperara dela , todavia o dissimulou com prudência , e informando-se da gente da terra do que os turcos determinavam , onde estavam , e o que faziam , depois de consultado o negócio , e tratada muito devagar a importância dele , enfim assentou por parecer de todos os que se nisso acharam , que por honra daquela bandeira de El-rei Nosso Senhor , a galé se cometesse , a ver se se podia tomar , e quando não se trabalhasse todo o possível por se queimar , porque Deus , Nosso Senhor por quem pelejávamos , nos ajudaria contra aqueles inimigos da sua santa fé . Assentado isto assim e jurado , e feito disso um assento em que os mais assinaram , o capitão-mor se levou mais para dentro do rio , distância de dois tiros de falcão , e antes que surgisse chegou à sua fusta uma almadia de terra , na qual vinha um brâmene que falava muito bem português , o qual deu ao capitão-mor recado da rainha em que lhe mandava pedir muito , e requeria da parte do senhor vice-rei , que por nenhum caso ele pelejasse cos turcos , porque tinha sabido por espias que sobre isto trazia , que estavam muito fortes em uma tranqueira junto da fossa em que tinham metida a sua galé , pelo que lhe parecia que havia mister muito mor poder que o que trouxera para tamanho feito , e que a Deus tomava por testemunha da grande dor e sentimento que tinha pelo receio em que estava de lhe acontecer algum desastre . A que o capitão-mor respondeu com palavras prudentes e de cortesia , dizendo que beijava as mãos a sua alteza por tamanha mercê , e tão bom conselho , mas que quanto a cometer os turcos , por nenhum caso deixaria de fazer porque não era costume de portugueses deixarem de pelejar por medo dos inimigos serem muitos nem poucos , porque quantos mais fossem , tanto maior seria a sua perda deles , e com esta resposta foi o brâmene despedido , a quem o capitão-mor deu uma peça de chamalote verde , e um chapéu forrado de cetim carmesim , com que foi muito contente . CAPÍTULO X. COMO O CAPITÃO-MOR COMETEU QUEIMAR A GALÉ DOS TURCOS , E DO QUE SOBRE ISSO PASSOU ] Despedido o brâmene , o capitão-mor Gonçalo Vaz Coutinho se determinou de todo em pelejar cos turcos , mas primeiro teve aviso , por espias que nisso trazia , do modo que conosco ter , e de como aquela noite , com favor da rainha , segundo se dizia , meteram a galé em uma fossa , junto da qual tinham feita uma tranqueira de valos muito altos , e plantadas nela vinte e seis peças de artilharia . O capitão-mor com tudo se abalou para onde os inimigos estavam , e desembarcou obra de um tiro de berço afastado deles com oitenta homens consigo , porque o restante da gente que trouxera de Goa para este efeito , que foram cem homens , deixou no rio em guarda das fustas . E feitos todos num corpo com boa ordenança começou de marchar para os inimigos , os quais vendo a nossa determinação , se determinaram também como homens esforçados , e saindo a receber os nossos obra de vinte e cinco ou trinta passos fora da sua tranqueira , se travou a briga entre uns e outros tão áspera , e com tanto ímpeto , que em pouco mais de dois credos ficaram no campo quarenta e cinco mortos , dos quais só os oito foram nossos , e todos os mais da parte contrária , e apertando o capitão-mor outra vez de novo com eles , prouve a Nosso Senhor que viraram as costas , e se recolheram com muita desordem , como gente já vencida , o que vendo os nossos , os seguiram até dentro da sua tranqueira , onde eles de novo nos tornaram a fazer rosto , e aqui andamos todos tão baralhados uns cos outros , que cos punhos das espadas se feriam alguns nos rostos . Neste tempo chegaram as nossas fustas que vinham remando ao longo da praia , as quais com grande grita dispararam neles toda a artilharia , com que lhe derrubaram dez ou doze ianiçaros de carapuções de veludo verde , que entre os turcos é divisa de gente fidalga , com a morte dos quais todos os outros desacoroçoaram , e de todo largaram o campo . O nosso capitão-mor cometeu então queimar-lhe a galé , e lhe lançou dentro cinco panelas de pólvora , e começando-se já de atear o fogo no toldo , eles , como homens muito esforçados o tornaram a apagar em muito pouco espaço . E porfiando ainda os nossos por entrarem na fossa , os inimigos deram fogo a uma peça grossa , que segundo a forma do pelouro , parecia ser camelo de marca maior , o qual disparando com uma roca de pedra , nos matou logo seis homens , um dos quais foi Diogo Vaz Coutinho filho do capitão-mor , e feriu mais quinze ou dezesseis , com que de todo ficamos desbaratados . Os inimigos entendendo o dano que nos tinham feito , deram uma grande grita em sinal de vitória , chamando por mafamede , porém o nosso capitão-mor , vendo por quem eles chamavam , esforçando os seus lhes disse : Ah senhores e cristãos , já que estes cães chamam pelo diabo que seja com eles , chamemos nós por Jesus Cristo que seja conosco : e arremetendo com estas palavras outra vez à tranqueira , os inimigos voltaram logo as costas , e fugiram manhosamente para onde estava a galé , com determinação de se fazerem nela fortes , porém alguns dos nossos que seja conosco : e arremetendo com estas palavras outra vez à tranqueira , e dando eles então fogo a uma mina que tinham junto da porta , ficaram ali logo mortos seis portugueses e oito escravos , a fora outros que ficaram muito queimados , com uma fumaça tamanha , que nós não víamos uns aos outros . Receando então o capitão que pudesse haver ainda outra perda tal como cada uma destas , se veio retirando para a praia , e assim fechado em boa ordenança , cos feridos e mortos no meio em colos de outros , chegou a onde às suas fustas estavam , onde depois de embarcado , se veio a remo até a calheta donde tinha partido , na qual com assaz de dor e lágrimas enterrou os defuntos , e entendeu na cura dos feridos e dos queimados , de que houve uma grande quantidade . CAPÍTULO XI. DO QUE MAIS SUCEDEU ATÉ O OUTRO DIA , QUE GONÇALO VAZ SE PARTIU PARA GOA ] Naquele mesmo dia , que para os nossos foi bem triste , se fez alardo da gente para se saber o que tinha custado o cometimento da tranqueira , e se acharam dos oitenta soldados os quinze mortos , e cinquenta e quatro feridos , dos quais os nove ficaram depois aleijados . E tudo o mais que restava do dia e da noite seguinte , se passou com assaz de trabalho , e com boa vigia . Tanto que foi manhã a rainha mandou visitar o capitão-mor com um grande saguate de muitas galinhas , e frangões , e ovos , que ele não quis aceitar , mas mostrando-se muito colérico contra ela , soltou algumas palavras quiçá mais ásperas do que parecia razão , e disse que o senhor vice-rei saberia muito cedo quão servidora ela era de El-rei de Portugal , e quanto ele lhe devia por isso , para lho pagar a seu tempo , e que para ela ficar certa que havia de ser assim isto que lhe dizia , lhe deixava ali em penhor seu filho morto , com todos os mais que ela manhosamente fizera matar , com favor e ajuda que dera aos turcos , e então lhe daria as graças por aquele presente que lhe mandava para dissimulação do que tinha feito . Despedido o mensageiro com esta reposta , e quase assombrado dos feros e juramentos com que o capitão-mor retificou algumas vezes isto que lhe dissera , chegou onde a rainha estava , e lhe encareceu a resposta que trazia de tal maneira , que a fez ter para si que por causa desta galé sem dúvida perderia muito cedo o seu reino , pelo qual lhe era muito necessário trabalhar todo o possível , por não ficar de quebra com capitão-mor . E tomando sobre este caso conselho cos seus , lhe tornou a mandar outro recado por um brâmene muito seu parente , e homem já de dias , e de aspecto grave e autorizado , o qual foi bem recebido do capitão-mor , e depois de fazerem suas cerimónias de honra e cortesia lhe disse o brâmene . Se me deres , senhor , licença para que fale , abrirei minha boca diante de tua presença , e da parte da rainha minha senhora te direi o a que venho . O capitão-mor lhe respondeu que os embaixadores tinham seguro para suas pessoas , e licença para dizerem livremente o a que eram mandados , pelo que sem nenhum receio podia falar o que quisesse . O brâmene lhe deu por isso seus agradecimentos , e lhe disse . Dizer-te senhor capitão quão agastada e triste está a rainha pela morte de teu filho , e dos mais portugueses que na peleja de ontem morreram , será coisa impossível , porque afirmadamente te juro por vida sua , e por esta linha de brâmene que professei de pequeno , que tão afrontada ficou quando soube do teu desastre , e desaventurado sucesso , como se o dia de hoje lhe fizeram comer carne de vaca na porta principal do pagode onde seu pai jaz enterrado , e por aqui senhor julgarás quanta parte tem no teu nojo , mas já que no feito não pode haver o remédio que ela deseja , te pede e roga , que de novo lhe confirmes as pazes que os governadores passados lhe concederam , pois trazes poder do senhor vice-rei para isso , e que ela te fica , e te dá sua palavra de mandar logo queimar a galé , e aos turcos que se vão fora da sua terra , porque para o mais , como tu sabes , não é ela poderosa , e isto logo em termo de só quatro dias , que para isso te pede de espaço . O capitão-mor entendendo quão importante coisa esta era , lhe aceitou a promessa , e lhe concedeu de novo as pazes , as quais juradas ali logo e confirmadas de ambas as partes com as cerimónias costumadas entre aqueles gentios , a rainha buscou todos os meios possíveis para cumprir a sua palavra , mas por se não poder esperar o termo dos quatro dias que a rainha pedira , pelo perigo dos muitos feridos que havia na armada , o capitão-mor se partiu logo neste mesmo dia à tarde , e deixou aí na terra um Jorge Nogueira , para que de tudo o que neste caso mais sucedesse , trouxesse recado ao vice-rei por lho pedir assim a rainha . CAPÍTULO XII. DO QUE PASSOU NESTE TEMPO ATÉ PERO DE FARIA CHEGAR A MALACA ] O capitão-mor Gonçalo Vaz Coutinho chegou ao outro dia com a sua armada a Goa , onde foi bem recebido pelo vice-rei , e lhe deu conta de tudo o que sucedera na viagem , e do que deixara concertado com a rainha de Onor , assim de queimar a galé , como de lançar os turcos fora do reino , de que o vice-rei então se houve por satisfeito . Passados vinte e três dias depois que chegamos a esta cidade , em que eu acabei de convalescer de duas feridas que trouxe da briga da tranqueira , vendo-me sem nenhum remédio de vida , me fui , por conselho de um padre meu amigo , oferecer a um fidalgo honrado por nome Pero de Faria , que então estava provido de capitão de Malaca , e que neste tempo dava mesa a todo o homem que a queria aceitar dele , o qual aceitou o meu oferecimento , e me prometeu que ao diante na sua capitania , me faria toda a amizade que pudesse , pois o eu queria acompanhar naquela jornada em que ia com vice-rei . Neste tempo se fazia prestes o vice-rei Dom Garcia de Noronha para ir socorrer a fortaleza de Diu , da qual tinha recado que estava em grande aperto , pela cerco que lhe tinham posto os turcos , para o qual ajuntou então uma assaz grossa e formosa armada ; em que haveria duzentas e vinte e cinco velas , de que só as oitenta e três eram de alto bordo entre naus e galeões e caravelas , e as mais eram galés , e bergantins e fustas , em que se afirmava que iriam dez mil homens limpos , e trinta mil de chusma , e do serviço da mareação , e escravaria cristã . Desta poderosa armada era o baxá avisado todos os dias por cartas do idalcão , e do samorim rei de Calicute , pelo Inezamaluco , e pelo acedecão , e por outros muitos príncipes gentios e mouros , que aqui nesta cidade traziam suas espias secretas . E sendo o tempo chegado , e a armada já de todo prestes e aparelhada de todo o necessário , o vice-rei se embarcou nela um sábado catorze dias do mês de novembro do ano de 1538 onde esteve embarcado cinco dias esperando que se acabasse de recolher nela a gente que era muita , no fim dos quais lhe chegou um catur de Diu com cartas de António da Silveira capitão da fortaleza , em que lhe dava novas que o cerco era já levantado , e os turcos idos , o que causou em toda a gente da armada uma notável tristeza , pelo desejo que todos tinham de se verem com estes inimigos da nossa santa fé . E detendo-se ainda o vice-rei aqui mais outros cinco dias provendo algumas coisas necessárias ao estado da Índia , despediu dali donde estava surto duas naus para o reino , das quais eram capitães Martim Afonso de Sousa , e Vicente Pegado , e mandou nelas o doutor Fernão Rodrigues de Castelo Branco veador da fazenda , para lhes fazer em Cochin a carga da pimenta , e aviar o governador passado Nuno da Cunha , que já lá estava havia dias na nau santa Cruz , mal disposto , e algum tanto descontente por se lhe não ter o respeito que ele esperava , e que tinha para si que merecia por seus serviços . Depois de isto assim ordenado , se partiu o vice-rei desta barra de Goa uma quinta-feira pela manhã , seis dias do mês de dezembro , e ao quarto dia de sua viagem surgiu em Chaul , onde se deteve três dias assentando algumas coisas com Inezemaluco importantes ao bem e segurança da fortaleza , e provendo algumas velas das que vinham na armada de algumas coisas de que vinham faltas , principalmente de mantimentos , e de chusma , e partindo daqui para Diu , sendo tanto avante como os picos de Daanuu , na travessa de meio golfão lhe deu um temporal tão rijo , que lhe dividiu a armada em muitas partes , de que se perderam algumas velas , em que entrou a galé bastarda na barra de Dabul , de que ia por capitão Dom Álvaro de Noronha filho do vice-rei , e capitão-mor do mar , e no golfão , a galé Espinheiro cujo capitão era João de Sousa que chamavam d'alcunha o Rates , por ser filho do prior de um lugar que chamam Rates , da qual galé Dom Cristóvão da Gama filho do conde almirante , que depois os turcos mataram no preste João , salvou a maior parte da gente , por se achar junto dela no tempo que o mar soçobrou . E assim se perderam mais outros sete navios , de cujos nomes não sou lembrado . De maneira que primeiro que o vice-rei se tornasse a refazer do que perdera , e ajuntar o que a tormenta lhe espalhara por diversas partes , se passou mais de um mês . E chegando enfim a Diu aos dezesseis de janeiro do ano de 1539 entendeu logo em tornar a edificar de novo a fortaleza , porque os turcos deixaram a mor parte dela posta por terra ; de maneira que o salvar-se pareceu que fora mais por milagre que por força humana . E repartindo esta reedificação da fortaleza pelos capitães da armada , deu ao Pero de Faria , por ter muita gente , o baluarte do mar com a couraça da banda da terra , que em vinte e seis dias com só trezentos soldados pôs em muito melhor estado do que antes estava . E porque já neste tempo eram catorze de março , e a monção de Malaca era já chegada ; se partiu Pero de Faria para Goa , onde por provisões do vice-rei que levava , se acabou de prover de tudo o necessário muito abastadamente , e se partiu de Goa a treze dias de abril , com uma frota de oito naus , e quatro fustas , e uma galé em que levava seiscentos homens , e com tempo feito de boa monção chegou a Malaca a cinco dias de junho do mesmo ano de 1539 . CAPÍTULO XIII. COMO PERO DE FARIA FOI VISITADO POR UM EMBAIXADOR DO REI DOS BATAS , E DO QUE PASSOU COM ELES ] Ao tempo que Pero de Faria chegou a esta fortaleza de Malaca , estava nela por capitão Dom Estêvão da Gama , e esteve ainda alguns dias até acabar o seu tempo , porém como Pero de Faria era capitão chegado de novo , e que ainda então começava o seu tempo , depois de haver alguns dias que era chegado à fortaleza , os reis comarcãos dela o mandaram visitar por seus embaixadores , e dar-lhe os parabéns da sua capitania , com oferecimentos de muita amizade e conservação de pazes com El-rei de Portugal , entre os quais veio um de El-rei dos batas , que habita na ilha Samatra da parte do oceano , onde se presume que jaz a ilha do ouro que El-rei Dom João o terceiro algumas vezes tentou mandar descobrir , por informações que destas partes alguns capitães lhe escreveram . Este embaixador , que era cunhado do mesmo rei dos batas , e se chamava Aquarem Dabolay , trouxe um rico presente de paus de águila e calamba , e cinco quintais de beijoim de boninas , e uma carta escrita em folha de palmeira , a qual dizia assim . Cobiçoso mais que todos os homens do serviço do Leão coroado no trono espantoso das águas do mar , assentado por poderio incrível no assopro de todos os ventos , príncipe rico do grande Portugal teu senhor e meu , ao qual em ti varam de coluna de aço Pero de Faria , novamente obedeço por verdadeira e santa amizade , para de hoje em diante me render por seu súdito , com toda a limpeza e amor que um bom vassalo deve fazer , eu Angeessiry , Timorraja rei dos batas , desejando agora de novo tua amizade , para cos frutos desta minha terra enriquecer os teus súditos , me ofereço por novo trato de ouro , pimenta , cânfora , águila , e beijoim encher essa alfândega do teu rei e meu , contanto que na firmeza de tua verdade me mandes um cartaz de tua letra para minhas lancharas e jurupangos navegarem seguros com todos os ventos . E te peço mais de nova amizade , que dos esquecidos de teus armazéns me socorras com pelouros e pólvora , de que ao presente me acho muito falto , para com a ajuda e favor deste primeiro saguate de tua amizade , castigar os perjuros achéns , inimigos cruéis desta tua antiga Malaca ; com os quais te juro de enquanto viver nunca ter paz nem amizade , até não tomar vingança do sangue de três filhos meus que de contínuo ma pedem com as lágrimas derramadas pela nobre mãe que os concebeu , e os criou a seus peitos , que este cruel tirano achém me tem mortos nas povoações de Iacur e Lingau , como mais particularmente em nome de minha pessoa to dirá Aquarem Dabolay irmão da triste mãe destes filhos , que de mim te envio por nova amizade , para que senhor contigo trate o mais que lhe parecer serviço de Deus , e bem do do teu povo . De Panaji , aos cinco mamocos da oitava lua . Este embaixador foi bem recebido de Pero de Faria , e com as honras e cerimónias feitas ao seu modo , e depois que lhe deu a carta ( a qual foi logo trasladada da língua malaia em que vinha escrita em português ) lhe disse por um intérprete a causa da desavença deste tirano achém com rei dos batas , a qual foi , que havia alguns dias que este inimigo cometera a este rei bata , que era gentio , que tomasse a lei de mafamede , e que o casaria com uma sua irmã , contanto que largasse de si a mulher com que estava casado havia vinte e seis anos , por ser também gentia como ele . E porque o bata lhe não concedera isto que lhe pedira , incitado o tirano achém por um seu caciz , veio com ele a rompimento de guerra , e ajuntando cada um deles seu campo , tiveram uma batalha assaz travada , a qual depois de durar três horas , conhecendo o achém a melhoria dos batas , por ter perdida muita parte da sua gente , se veio retirando para uma serra que se dizia Carregendão , onde o bata o teve cercado vinte e três dias , e por lhe neste tempo adoecer muita gente , e o campo da parte contrária estar também muito falto de mantimentos , fizeram ambos pazes entre si , com tal condição que o achém desse logo ao bata cinco bares de ouro , que fazem da nossa moeda duzentos mil cruzados , para pagar a gente estrangeira que tinha consigo , e que o bata casaria o seu filho mais velho com a irmã do achém , sobre que tiveram a diferença . E satisfeito este concerto por ambas as partes , a bata se tornou para sua terra , onde desfez logo o seu campo , e despediu toda a gente . Durou a quietação desta paz por tempo de só dois meses e meio , em que ao achém vieram trezentos turcos , porque esperava do estreito de Meca em quatro naus de pimenta que lá tinha mandado , e muitos caixões de espingardas e armas , com algumas peças de artilharia de bronze , e ferro coado , com os quais o achém , e com outra mais gente que ainda tinha consigo , fingindo ir a Pacém prender um capitão que se lhe levantara , veio sobre dois lugares do bata , que se chamavam Iacur e Lingau , e como os achou descuidados pelas pazes que eram feitas havia tão poucos dias , os tomou muito facilmente , com morte de três filhos do bata , e setecentos ourobalões , que é a melhor gente , e a mais fidalga de todo o reino . O rei bata sentindo em extremo esta tamanha traição , fez juramento na cabeça do principal ídolo da sua gentílica seita , por nome Quiay Hocombinor , Deus da justiça , de não comer fruta , nem sal , nem coisa que lhe fizesse sabor na boca até não vingar a morte de seus filhos , e se satisfazer do que lhe tomaram , ou morrer na demanda . E querendo agora este rei bata pôr por obra o que tinha determinado , ajuntou um campo de quinze mil homens , assim naturais como estrangeiros , em que alguns príncipes seus amigos o ajudaram , e não contente com isto se quis também valer do nosso favor , e por isso cometeu Pero de Faria com esta nova amizade que atrás disse , a qual lhe ele aceitou de muito boa vontade , porque entendia quão importante ela era ao serviço de El-rei , e à segurança daquela fortaleza , e quanto com ela crescia o rendimento da alfândega , e o proveito seu dele , e dos portugueses que naquelas partes do sul tinham seus tratos , e faziam suas fazendas . CAPÍTULO XIIII. DO QUE MAIS PASSOU NESTE CASO ATÉ PERO DE FARIA ME MANDAR A ESTE REI BATA , E DO QUE VI NO CAMINHO ] Pero de Faria depois que leu esta carta do rei dos batas , e entendeu do seu embaixador o negócio a que vinha , o fez agasalhar o mais honradamente que então foi possível . E passados dezessete dias depois que chegara a Malaca , o despediu bem despachado , e satisfeito do que viera buscar , porque lhe deu ainda algumas coisas além das que lhe pedira , como foram cem panelas de pólvora , e rocas , e bombas de fogo , com que se partiu tão contente desta fortaleza , que chorando de prazer , um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja , virando-se para a porta principal dela , com as mãos levantadas , como quem falava com Deus , disse publicamente . Prometo em nome do meu rei a ti Senhor poderoso , que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro de tuas riquezas , que são os espíritos formados da tua vontade , que se te praz dar-nos vitória contra este tirano achém , para que de novo lhe tornemos a ganhar o que ele com tamanha traição e tanta perfídia nos tomou nós dois lugares de Iacur e Lingau , de sempre com muita lealdade e agradecimento te conhecermos na lei portuguesa da tua santa verdade , em que consiste o bem dos nascidos , e de novo te edificarmos em nossa terra casas limpas de cheiros suaves , onde todos os vivos te adorem com as mãos alevantadas , assim como na terra do grande Portugal se fez sempre até agora . E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal , que meu rei não tenha nunca outro rei se não este grande português , que agora é senhor de Malaca . E embarcando-se logo na lanchara em que viera , se partiu , e o foram acompanhando dez ou doze balões até a ilha de Upe que estava dali pouco mais de meia légua , onde o Bendara de Malaca , que é o supremo no mando , na honra , e na justiça dos mouros , por mandado de Pero de Faria lhe deu um grande banquete ao seu modo , festejado com charamelas , trombetas , e atabales , e com músicas de boas falas à portuguesa , com harpas , e doçainas , e violas d'arco , que lhe fez meter o dedo na boca , que entre eles é sinal de grandíssimo espanto . Vinte dias depois da partida deste embaixador , cobiçando Pero de Faria o muito proveito que alguns mouros lhe diziam que naquele reino podia fazer-se em fazendas da Índia se as lá mandasse , e o muito mais que poderia tirar do retorno delas , armou uma embarcação das que naquela terra se chamam jurupangos , que são do tamanho de uma caravela pequena , em que por então não quis arriscar mais que só dez mil cruzados de emprego , com os quais mandou um mouro natural daí de Malaca para os beneficiar . E cometeu-me se queria eu lá ir , porque levaria nisso muito gosto , para só color de embaixador ir visitar de sua parte o rei dos batas , e ir também com ele ao achém , para onde então se estava fazendo prestes , porque quiçá me montaria isso algum pedaço de proveito , e para que de tudo o que visse naquela terra lhe desse verdadeira informação , e se ouvia também lá praticar na ilha do ouro , porque determinava de escrever a sua alteza o que nisso passasse . Não me pude eu então de escusar de fazer o que me ele pedia , ainda que algum tanto arreceava a ida , assim por ser terra nova , e de gente atraiçoada , como porque ainda então não tinha mais de meu que só cem cruzados , por onde não esperava fazer lá proveito . Mas enfim me embarquei na companhia do mouro que levava a fazenda . E atravessando o piloto daqui de Malaca ao porto de Surotilau , que é na costa do reino de Aarù , velejou ao longo da ilha Samatra por esta parte do mar mediterrâneo , até um rio que se dizia Hicanduré , e navegando mais cinco dias por esta derrota , chegou a uma formosa baía nove léguas do reino Peedir em altura de onze graus , por nome Minhatoley , daqui cortou toda a travessa da terra ( a qual já aqui nesta paragem não é de mais largura que de só vinte e três léguas ) até vermos o mar da outra banda do oceano , e navegando por ele quatro dias com tempos bonanças , foi surgir num rio pequeno de sete braças de fundo , que se dizia Guateamgim , pelo qual velejou seis ou sete léguas adiante , vendo por entre o arvoredo do mato muito grande quantidade de cobras , e de bichos de tão admiráveis grandezas e feições , que é muito para se arrecear contá-lo , ao menos a gente que viu pouco do mundo , porque esta como viu pouco , também costuma a dar pouco crédito ao muito que outros viram . Em todo este rio , que não era muito largo , havia muita quantidade de lagartos , aos quais com mais próprio nome poderia chamar serpentes , por serem alguns do tamanho de uma boa almadia , conchados por cima do lombo , com as bocas de mais de dois palmos , e tão soltos e atrevidos no cometer , segundo aqui nos afirmaram os naturais da terra , que muitas vezes remetiam a uma almadia quando não levava mais que três quatro negros , e soçobravam com rabo , e um e um os comiam a todos , e sem os despedaçarem os engoliam inteiros . Vimos aqui também uma muito nova maneira , e estranha feição de bichos , a que os naturais da terra chamam Caquesseitão , do tamanho de uma grande pata , muito pretos , conchados pelas costas , com uma ordem de espinhos pelo fio do lombo do comprimento de uma pena de escrever , e com asas da feição das do morcego , com pescoço de cobra , e uma unha a modo de esporão de galo na testa , com rabo muito comprido pintado de verde e preto , como são os lagartos desta terra . Estes bichos de vôo , a modo de salto , caçam os bugios , e bichos por cima das árvores , dos quais se mantém . Vimos também aqui grande soma de cobras de capelo , da grossura da coxa de um homem , e tão peçonhentas em tanto extremo , que diziam os negros que se chegavam com a baba da boca a qualquer coisa viva , logo em proviso caía morta em terra , sem haver contrapeçonha , nem remédio algum que lhe aproveitasse . Vimos mais outras cobras que não são de capelo , nem tão peçonhentas como estas , mas muito mais compridas e grossas , e com as cabeças do tamanho de uma vitela , estas nos diziam eles , que caçavam também de rapina no chão , por esta maneira sobem-se em cima das árvores silvestres , de que toda a terra é assaz povoada , e enroscando a ponta do rabo em um ramo se descem abaixo , deixando sempre a presa feita em cima , e posta a cabeça no mato , e com orelha por escuta pregada no chão , sentem com a calada da noite toda a coisa que bole , e em perpassando o boi , o porco , o veado , ou qualquer outro animal , o ferrão com a boca , e como já tem feita a presa com rabo lá em cima no ramo , em nenhuma coisa pregão que a não tragam a si , de maneira que coisa viva lhe não escapa . Vimos aqui também muito grande quantidade de monos pardos e pretos , do tamanho de grandes rafeiros , dos quais os negros tem muito maior medo que de todos estes outros animais , porque cometem com tanto atrevimento , que ninguém lhe pode resistir . CAPÍTULO XV. DO QUE EM PANAAJU PASSEI COM REI DOS BATAS , ANTES QUE SE PARTISSE PARA O ACHEM ] Indo nós por este rio acima espaço de sete ou oito léguas , chegamos a uma povoação pequena que se dizia Batorrendão , que em nossa linguagem quer dizer pedra frita , distante obra de um quarto de légua da cidade de Panaji , onde então o rei dos batas se estava fazendo prestes para ir sobre o achém , o qual tanto que soube do presente e carta que lhe eu levava do capitão de Malaca , me mandou receber pelo Xabandar , que é o que governa com mando supremo todas as coisas tocantes ao meneio das armadas ; o qual com cinco lancharas , e doze balões me veio buscar a aquele porto onde eu estava surto , e me levou com grande estrondo de atabaques e sinos e grita da chusma , até um cais da cidade , que se dizia Campalator , onde o Bendara , governador do reino me estava esperando , acompanhado de muitos ourobalões , e amborrajas , que é a mais nobre gente da corte , porém os mais deles , ou quase todos pobríssimos no trato de suas pessoas , e nos seus vestidos , por onde entendi que não era esta terra tão rica como em Malaca se cuidava . Chegando eu às casas de El-rei , passei pelo primeiro pátio delas , e na primeira porta do segundo estava uma mulher velha acompanhada de outra gente muito mais nobre , e melhor tratada que a que vinha comigo . Esta velha me acenou com a mão como me mandava que entrasse , e com aspecto grave e severo me disse , tua vinda , homem de Malaca , a esta terra de El-rei meu senhor , é tão agradável à sua vontade , como a chuva em tempo seco na lavoura dos nossos arrozes , entra seguro e sem receio de nada , por que já todos , pela bondade de Deus , somos como vós outros , e assim esperamos nele que seja até o derradeiro bocejo do mundo , e metendo-me dentro na casa onde El-rei estava , lhe fiz meu acatamento , pondo três vezes o joelho no chão , e assim lhe dei a carta e o presente que levava , com que ele mostrou que folgava muito , e me perguntou a a que vinha , a que respondi conforme ao regimento que levava , dizendo , que a servir sua alteza naquela jornada , e ver pelos olhos a cidade do achém , e a fortificação dela , e que braças de fundo tinha o rio , para saber se podiam entrar nela naus grossas e galeões , porque o capitão de Malaca tinha determinado , tanto que a gente viesse da Índia , vir ajudar sua alteza , para lhe entregar aquele inimigo achém em sua mão , o que o pobre rei , por quão conforme isto era ao seu desejo , creu muito de verdade , e erguendo-se do baileu , que era a tribuna em que estava assentado , se pôs em joelhos diante de uma caveira de vaca , que numa coisa como prateleiro ou cantareira estava posta muito enramada de muitas ervas cheirosas , cos cornos ambos dourados , e levantando as mãos para ela , disse quase chorando . Tu que sem obrigação de amor maternal , a que a natureza te obrigasse , recreas continuamente todos aqueles que querem o teu leite , como faz a própria mãe ao que pariu , não participando por ajuntamento de carne dos trabalhos , e misérias de que participam aquelas de que todos nascemos , eu te peço de coração , que nesses prados do sol onde com a grande paga e galardão que recebes estás satisfeita do bem que cá fizeste , conserves comigo a nova amizade deste bom capitão , para que ponha por obra isto que agora tenho ouvido , a que todos os seus com uma grande grita , e com as mãos alevantadas responderam , dizendo três vezes , pachy parau tinacor , que quer dizer , ó quem o visse e logo morresse . E ficando logo todos em um silêncio triste , se virou El-rei para mim , e alimpando os olhos das lágrimas que a eficácia da oração que fizera , lhe tinha feito derramar , me esteve perguntando por algumas particularidades da Índia , e de Malaca , em que gastou um pequeno espaço até que me despediu com boas palavras , e promessa de boa veniaga à fazenda que o mouro trazia do capitão , que era o que eu então mais pretendia que tudo . E porque já neste tempo que aqui cheguei , El-rei estava de caminho para o achém , e não entendia em outra coisa , senão no que convinha para este efeito , passados nove dias depois que cheguei a esta cidade de Panaji , metrópole deste reino bata , se partiu com toda a gente que aí tinha consigo , para um lugar que se chamava Turbão , dali cinco léguas , onde a maior parte da gente o estava já esperando , ao qual chegou com uma hora de sol , sem estrondo nem regozijo algum , pelo sentimento da morte dos três filhos , que sempre com mostras de muita tristeza , se enxergou neles . [ title: CAPÍTULO XVI. ] COMO ESTE REI BATA PARTIU DE TURBÃO PARA O ACHÉM , E DO QUE FEZ DEPOIS QUE SE VIU COM ELES ] Logo ao outro dia partiu El-rei lugar de Turbão para o achém , que eram dezoito léguas , e levava em sua companhia quinze mil homens , de que só os oito mil eram batas , e os mais Menancabos , lusões , Andraguires , Iambes , e bornéos , que os príncipes destas nações lhe mandaram de socorro , e quarenta elefantes , e doze carretas de artilharia miúda de falcões e berços , em que entravam dois camelos , e uma meia espera de bronze com as armas de França , que se houve de uma nau que no ano de 1526 governando o estado da Índia Lopo Vaz de Sampaio , foi ali ter com franceses , de que era capitão e piloto um português natural de Vila de Conde , que se chamava o Rosado . Caminhando este rei bata por suas jornadas ordinárias de cinco léguas por dia , chegou a um rio que se dizia Quilem , onde por algumas espias do achém que aí se tomaram soube que o rei o esperava em Tondacur , duas léguas da cidade , para aí se ver no campo com ele , e que tinha muita gente forasteira , em que entravam alguns turcos e guzarates , e malavares da costa da Índia . O bata pondo este negócio nos pareceres dos seus capitães foi aconselhado que desse no inimigo antes que se refizesse de mor poder , e abalando logo deste rio com esta determinação , caminhou um pouco mais apressado , e perto das dez horas da noite chegou ao pé de uma serra meia légua donde o campo da parte contrária estava alojado , na qual repousou pouco mais de três horas , e tornou logo a caminhar com muito boa ordenança , com seu campo repartido em quatro batalhas . E dobrando um cotovelo que a mesma serra fazia , já quase no cabo descobriu uma grande várzea de arrozes onde os inimigos estavam fechados em duas grossas batalhas , e tanto que foram à vista uns dos outros , ao som de suas trombetas , atambores , e sinos , com vozes e gritas incríveis se cometeram como homens muito esforçados , e travando-se a briga entre eles , depois de se arremessarem muitas bombas e flechas , e mais munições de fogo que traziam , começaram entre si a peleja de mais perto , com tanto ímpeto , tanto ânimo e esforço , que só a vista me fazia tremer as carnes . E durando assim a fúria desta batalha por espaço de pouco mais de uma hora sem se enxergar melhoria em nenhuma das partes , vendo o achém que os seus de cansados e muito feridos começavam a perder alguma parte do campo , se foi retirando para um cabeço que para a parte do sul estava mais adiante obra de um tiro de espera , com tenção de se fazer ali forte nuns valos que no topo do morro estavam feitos como coisa de horta , ou herdade de arrozes , porém um irmão de El-rei de Andraguire lhe atalhou a este seu desenho , que com dois mil homens se lhe pôs diante , pelo qual a briga tornou ao primeiro estado , travando-se de novo entre eles com tanta fúria , e ferindo-se uns aos outros tanto sem piedade , que não lhe fazem vantagem outras nenhumas nações , porque antes que o achém cobrasse os valos , perdeu mais de mil e quinhentos dos seus , no conto dos quais entraram os cento e sessenta turcos , que poucos dias antes lhe eram vindos do estreito de Meca , e duzentos mouros malavares , com alguns abexins , que era a melhor gente que trazia consigo . E por já neste tempo ser quase meio-dia , e a calma muito grande , o bata se recolheu para a serra , na qual esteve tudo o que restava do dia até quase a noite , em que houve assaz que fazer em curar os feridos , e prover no enterramento dos mortos . E não ousando a se determinar , até ver o que o inimigo fazia de si , se deixou estar toda aquela noite com boa vigia , e como a manhã foi clara , a cerca dos valos onde o achém estivera o dia dantes , apareceu sem gente nenhuma , donde entendeu o bata que o inimigo ia muito desfeito , e por isso determinou seguir a vitória , e despedindo logo dali toda a gente ferida que não estava para pelejar , se partiu em seu alcance , direito à cidade , à qual chegou com duas horas de sol . E antes que alojasse o campo , para fazer naquele dia alguma coisa em que os inimigos entendessem que não vinha ele desfeito da batalha passada , queimou duas povoações muito grandes , que a maneira de arrabaldes estavam fora dos muros , e quatro naus , e dois galeões , que estavam varados em terra , em que os turcos tinham vindo do estreito de Meca . E ateando-se o fogo a estas seis velas com grandíssima força e ímpeto sem os inimigos ousarem a sair da cidade , o rei bata em pessoa , como homem que se sintia favorecido da fortuna , e que em nenhuma coisa queria perder a ocasião , tentou cometer uma força que com doze peças grossas varejava a entrada do rio , que se chamava Penacão , e assaltando-a à escala vista com obra de setenta ou oitenta escadas , a entrou sem perder dos seus mais que só trinta e sete ; e todos quantos achou dentro meteu à espada , sem a nenhum querer dar a vida , que seriam até setecentas pessoas . De maneira que neste primeiro dia que chegou fez estes três feitos muito notáveis , de que os seus todos ficaram tão animados , e com tamanha ousadia , que quiseram logo naquela noite cometer a cidade , se o rei para isso lhes dera licença , mas por ser o escuro grande , e a gente estar muito cansada , se contentou com que tinha feito , dando por isso muitas graças a Deus . CAPÍTULO XVII. DO MAIS QUE O REI BATA FEZ DEPOIS DO SUCESSO DESTE DIA ] O rei bata teve cercada esta cidade por espaço de vinte e três dias , dentro dos quais fizeram os inimigos duas saídas , e numa delas não houve coisa notável que se possa contar , que não houve mais que dez ou doze mortos de ambas as partes ; mas como as vitórias , e os bons sucessos das guerras tem por costume darem ânimo e ousadia aos vitoriosos , algumas vezes se acontece fazerem-se os fracos com isto tão ousados que de todo perdem o receio , e não duvidam cometer coisas que de si são árduas e dificultosas , e ainda que levam algumas avante ; havia em algumas também se perdem . Isto se conhece bem claro no que eu ali vi nesta gente , porque vendo os batas que o achém se lhe viera retirando com mostras de vencido , cresceu neles tanto o ânimo e a ufania , que tinham para si que era impossível ter-lhe ninguém o rosto direito , e confiados nesta vã e cega opinião , estiveram por duas vezes em risco de se perderem de todo com coisas temerárias que cometeram . Porque na segunda saída que os de dentro fizeram os cometeram os batas por duas partes com muito ânimo , e depois de andar a briga um pouco travada ; fingindo os achéns fraqueza se lhes vieram retirando para a tranqueira onde os dias atrás o rei bata lhe tomara as doze peças de artilharia , e seguindo-os um capitão dos batas desmandadamente , e , sem ordem , por lhe parecer que já tinha a vitória certa , os meteu por dentro dos valos , porém os inimigos lhe tornaram ali a fazer rosto , e se defendiam valorosamente . E estando assim todos travados , uns por entrarem , e outros por defenderem a entrada , os achéns deram fogo a uma grande mina que tinham feita , a qual arrebentando por junto do repuxo , que era de pedra em choça , rafinou para o ar o capitão bata com mais de trezentos dos seus , feitos todos em pedaços , com um estrondo e fumaça tão espantosa que parecia um retrato do inferno . Os inimigos deram com isto uma grandíssima grita , e o rei achém saiu logo em pessoa da cidade com mais de cinco mil amoucos , e deu nos batas com muito ímpeto , e como a fumaça da pólvora ainda então era tamanha que não se viam uns aos outros , tiveram entre si uma confusa , mas crudelíssima peleja , de maneira que por me não atrever a dizer particularmente o como isto passou , direi assim em soma que em pouco mais de um quarto de hora que durou esta briga , ficaram estirados no campo mais de quatro mil de uns e dos outros , dos quais o rei bata perdeu a maior parte , o qual se retirou logo com todo o mais peso da sua gente para um morro que se dizia Minacaleu , e proveu na cura dos feridos , que segundo se disse , passaram de dois mil , a fora os mortos , que por se não poderem enterrar , se lançaram todos pelo rio abaixo . E ficando com isto ambos quietos mais quatro dias , apareceu uma manhã no meio do rio contra a parte do Penacâo uma armada de oitenta e seis velas , com grande regozijo de tangeres e festas , e com muitos estandartes e bandeiras de seda , que aos batas meteu em grande confusão , por não saberem o que era , porém as suas espias tomaram aquela noite cinco pescadores , os quais metidos a tormento confessaram que era a armada que o rei achém havia dois meses tinha mandado a Tanauçarim , porque tinha guerra com Sornau rei de Sião , na qual disseram que vinham cinco mil homens lusões , e bornéos , gente toda escolhida , e por capitão-mor deles um turco por nome Hametecão , sobrinho do baxá do Cairo . O rei bata pondo em conselho isto que lhe tinham dito estes pescadores , lhe aconselharam os seus que em todo caso se devia de tornar , visto não estar o tempo para ele poder esperar mais uma hora , assim porque o poder do inimigo era já então muito maior que o seu , como pelo socorro que ainda esperava de Peedir , e de Paacem , em que se afirmava que vinham dez naus de gente estrangeira . Determinado El-rei parecer , se partiu logo aquela noite seguinte , bem triste e descontente , pelo mau sucesso daquela empresa , e por levar menos dos seus passante de três mil e quinhentos homens , a fora outros tantos feridos , e queimados da mina . E chegando dali a cinco dias a Panaji , despediu toda a gente assim natural como estrangeira , e se foi pelo rio acima em uma lanchara pequena , sem querer levar consigo mais que dois ou três homens , e foi ter a um lugar que se dizia Pachissarù , no qual esteve encerrado catorze dias , a modo de novenas , em um pagode de um ídolo que se chamava Guinasseroo , deus da tristeza , e tornado para Panaji , me mandou chamar , e ao mouro que feitorizava a fazenda de Pero de Faria , ao qual esteve miudamente perguntando pela venda dela , e se lhe ficavam devendo alguma coisa , porque lho mandaria logo pagar , a que o mouro e eu respondemos que com as mercês e favores de sua alteza tudo se nos fizera muito bem feito , e que os mercadores tinham já pago tudo , sem ficarem devendo nada , e que o capitão lhe serviria aquela mercê com muito cedo o vingar daquele inimigo achém , e lhe restituir as terras que lhe ele tinha tomado : ao que El-rei depois de estar um pouco pensativo com que me ouvira , respondeu , Ah português , português , rogo-te que não faças de mim tão néscio , já que queres que te responda , que cuide que quem em trinta anos se não pode vingar a si , me possa socorrer a mim , porque como o rei de vós outros , e os seus governadores , não castigaram este inimigo , quando vos tomou a fortaleza de Paacem , e a galé que ia para Maluco , e as três naus em Quedá , e o galeão de Malaca em tempo de Garcia de Sá , e as quatro fustas em Salangor , com as duas naus que vinham de Bengala , e o junco , e o navio de Lopo chanoca , e outras muitas embarcações que agora me não vem à memória , em que me afirmaram que matara mais de mil de vós outros , afora a presa riquíssima que tomou nelas , logo foi para ele me destruir a mim , e eu ter muito poucas esperanças em vossas palavras , basta-me ficar como fico , com três filhos mortos , e a maior parte do meu reino tomada , e vós na vossa Malaca não muito seguros . Da qual reposta , dita com tanto sentimento , confesso que fiquei tão corrido e embaraçado , que entendi que falava verdade , que nunca mais lhe falei em socorro , nem ousei a lhe retificar as promessas que antes lhe fazia , por nossa a honra . CAPÍTULO XVIII. DO MAIS QUE PASSEI COM REI BATA ATÉ QUE ME PARTI PARA MALACA ] Tornados o mouro e eu para a casa onde ambos pousávamos , estivemos mais quatro dias , acabando de embarcar uns cem bares de estanho , e trinta de beijoim que ainda tínhamos em terra , e como de todo estivemos satisfeitos dos devedores para nos podermos ir , me fui ao passeivão das casas de El-rei , e lhe dei conta de como estava já de todo aviado , e prestes para me partir , se sua alteza me desse licença , ao que ele , fazendo-me gasalhado , me respondeu , folguei com que ontem me disse o meu Xabandar , que a fazenda do capitão ia bem negociada , mas porque pode ser que nisso não pretenderia , tanto dizer-me a verdade , como falar-me à vontade pelo desejo e gosto que ele sempre viu que eu tinha disso , te rogo muito que me digas se é assim , e se vai contente esse mouro que trouxe a fazenda , porque não queria que à custa da minha honra se praguejasse em Malaca dos mercadores de Panaji , que não tem verdade no que tratam , nem há aí rei que os constranja a pagarem o que devem , porque te afirmo a lei de bom gentio que será isso tamanha afronta para minha condição , como se agora sem me vingar fizera pazes com inimigo tirano , e perjuro achém , ao que eu respondi , que sem falta uma tudo ia muito bem feito , e a fazenda toda paga , sem se ficar devendo dela nada . E ele me tornou dizendo , folgo de ser assim , e já que não tens mais que fazer , razão será que te vás , e que não percas tempo , assim por ser já fim da monção , como pelas calmarias que podes achar no golfão , que muitas vezes são causa de alguns navios irem ter a Paacem , donde te Deus guarde , porque te afirmo que se por mofina lá fosses ter , que vivo te comessem os achéns aos bocados , e o próprio rei mais que todos , porque a honra de que agora mais se preza , e que traz por timbre de todos os seus títulos , é bebedor do turvo sangue estrangeiro dos malditos cafres , sem lei , do cabo do mundo , usurpadores , por sumo grau de tirania , de reinos alheios nas terras da Índia , e ilhas do mar , de que os seus todos fazem grande caso . O qual título lhe veio este ano da casa de Meca , pelo presente das lâmpadas de ouro que lá mandou de esmola ao alcorão do seu mafamede , como costuma fazer todos os anos . E assim te digo que digas de minha parte ao capitão de Malaca , ainda que já lho tenho escrito , que se vigie continuamente deste inimigo achém , porque em nenhuma outra coisa imagina , se não em como vos há de lançar fora da Índia , e meter nela o turco , de quem dizem que para isso pretende grande socorro , mas Deus por quem é proverá de maneira , que todas as maliciosas astúcias sucedam muito ao revés de seus pensamentos . E com isto me deu uma carta em resposta da embaixada que lhe eu trouxe , com um presente de seis azagaias cos alvados de ouro , e doze cates de calambuco , com uma boceta de tartaruga , guarnecida de ouro cheia de aljofre grosso , e dezesseis pérolas de bom tamanho . E a mim fez mercê de dois cates de ouro , e um terçado pequeno guarnecido do mesmo . E despedindo-me dele com muita sobejidão de honras , como sempre me fizera , mostrando ser de sua parte muito fixa esta nova amizade que tomara conosco , me vim embarcar , acompanhado do mesmo Aquarem Dabolay seu cunhado , que fora por embaixador a Malaca , como atrás já fica dito . E partidos deste porto de Panaji , chegamos com duas horas de noite a um ilhéu , que se dizia Apefingau , obra de uma légua e meia da barra , povoado de gente pobre , que vive pela pescaria dos sáveis , de que , por falta de sal não aproveitam mais que só as ovas das fêmeas , como nos rios de Aarù , e Siaca , nesta outra costa do mar mediterrâneo . CAPÍTULO XIX. DO QUE PASSEI ATÉ CHEGAR AO REINO DE QUEDÁ , NA COSTA DA TERRA FIRME DE MALACA , E DO QUE AÍ ME ACONTECEU ] Ao outro dia seguinte pela manhã nos partimos deste ilhéu de Fingau , e corremos a costa do mar oceano em distância de vinte e seis léguas , até abocar o estreito de Minhagaruu , por onde tínhamos entrado , e passados à contra costa deste outro mar mediterrâneo , seguimos nossa derrota ao longo dela até junto de Pulo Bugay , donde atravessamos a terra firme , e aferrando o porto de Iunçalão , corremos com ventos bonanças dois dias e meio , e fomos surgir no rio de Parlès do reino de Quedá , no qual estivemos cinco dias surtos , por nos não servir o vento , e neles o mouro e eu , por conselho de alguns mercadores da terra fomos ver o rei , com uma odiá ou presente ( como lhe nós cá chamamos ) de algumas peças suficientes a nosso propósito , o qual nos recebeu com mostras de bom gasalhado . Neste tempo que aqui chegamos estava El-rei celebrando com grande aparato e pompa fúnebre de tangeres , bailos , gritas , e de muitos pobres a que dava de comer , as exéquias da morte de seu pai , que ele matara às punhaladas para se casar com sua mãe , que estava já prenhe dele , e por evitar as murmurações que sobre este horrendo e nefandíssimo caso havia no povo , mandou lançar pregão , que só pena de gravíssimas mortes ninguém falasse no que já era feito , por razão do qual , nos disseram aí , que por outro novo modo de tirania tinha já mortos os principais senhores do reino , e outra grande soma de mercadores , cujas fazendas mandou que fossem tomadas para o fisco , o que lhe importou mais de dois contos de ouro , e com isto era já neste tempo que aqui cheguei , tamanho o medo em todo o povo , povo , que não havia pessoa que ousasse soltar palavra pela boca . E porque este mouro Coja Ale que vinha comigo , era de sua natureza solto da língua , e muito atrevido em falar o que lhe vinha à vontade , parecendo-lhe que por ser estrangeiro , e com nome de feitor do capitão de Malaca , poderia ter mais liberdade para isso que os naturais , e que o rei lho não acoimaria a ele como fazia aos seus , sendo um dia convidado doutro mouro que se havia por seu parente , mercador estrangeiro natural de Patane , parece ser segundo me depois contaram , que estando eles no meio do banquete , já bem fartos , vieram os convidados a falar neste feito tão publicamente , que ao rei , pelas muitas escutas que nisso trazia , lhe deram logo rebate , o qual sabendo o que passava , mandou cercar a casa dos convidados , e tomando-os a todos , que eram dezessete , lhos trouxeram atados . Ele , em os vendo , sem lhes guardar mais ordem de justiça , nem os querer ouvir de sua boa ou má razão , os mandou matar a todos com uma morte crudelíssima , a que eles chamam de gregoge , que foi , serrarem-nos vivos pelos pés , e pelas mãos , e pelos pescoços , e por derradeiro pelos peitos até o fio do lombo , como os eu vi depois a todos . E temendo-se El-rei que pudesse o capitão tomar mal mandar-lhe ele matar o seu feitor na volta dos condenados , e que por isso lhe mandasse lançar mão por alguma fazenda sua que lá tinha em Malaca , me mandou logo naquela noite seguinte chamar ao jurupango onde então estava dormindo , sem até aquela hora eu saber alguma coisa do que passava . E chegando eu já depois da meia-noite ao primeiro terreiro das casas , vi nele muita gente armada com terçados , e cofos , e lanças , a qual vista , sendo para mim coisa assaz nova , me pôs em muito grande confusão , e suspeitando eu que poderia ser alguma traição das que já em outros tempos nesta terra houve , me quisera logo tornar , o que os que me levavam não consentiram dizendo , que não houvesse medo de coisa que visse , por que aquilo era gente que El-rei mandava para fora a prender um ladrão , da qual resposta confesso que não fiquei satisfeito , e começando eu já neste tempo a tartamelear , sem poder quase pronunciar palavra que se me entendesse , lhes pedi assim como pude , que me deixassem tornar ao jurupango em busca de umas chaves que me lá ficaram por esquecimento , e que lhes daria por isso quarenta cruzados logo em ouro , a que eles todos sete responderam , nem que nos dês quanto dinheiro há em Malaca , porque se tal fizermos , nos mandara El-rei cortar as cabeças . Neste tempo me cercaram já outros quinze ou vinte daqueles armados , e me tiveram todos fechados no meio : até que a manhã começou a esclarecer , que fizeram saber a El-rei que estava eu ali , o qual me mandou logo entrar , e só Deus sabe como o pobre de mim então ia , que era mais morto que vivo . E chegando ao outro terreiro de dentro , o achei em cima de um elefante , acompanhado de mais de cem homens , a fora a gente da guarda , que era em muito mor quantidade , o qual quando me viu da maneira que vinha , me disse por duas vezes , jangão tacor , não ajas medo , vem para cá , e saberás o para que te mandei chamar , e acenando com a mão , fez afastar dez ou doze daqueles que ali estavam , e a mim me acenou que olhasse para ali , eu então olhando para onde ele me acenava , vi jazer de bruços no chão muitos corpos mortos , todos metidos num charco de sangue ; um dos quais conheci que era o mouro Coja Ale feitor do capitão que eu trouxera comigo , da qual vista fiquei tão pasmado e confuso , que como homem desatinado me arremessei aos pés do elefante em que El-rei estava , e lhe disse chorando , peço-te senhor que antes me tomes por teu cativo , que mandares-me matar como a esses que aí jazem , porque te juro a lei de cristão que o não mereço , e lembro-te que sou sobrinho do capitão de Malaca , que te dará por mim quanto dinheiro quiseres , e aí tens o jurupango com muita fazenda , que também podes tomar se fores servido ; a que ele respondeu , valha-me Deus , como ? Tão mau homem sou eu que isso faça ? Não ajas medo de coisa nenhuma , assenta-te e descansarás , que bem vejo que estás afrontado e depois que estiveres mais em ti te direi o porque mandei matar esse mouro que trouxeste contigo , porque se fora português , ou cristão , eu te juro em minha lei que o não fizera , ainda que me matara um filho ; então me mandou trazer uma panela com água , de que bebi uma grande quantidade , e me mandou também abanar com um abano , em que se gastou mais de uma grande hora . E conhecendo ele então que estava eu já fora do sobressalto , e que podia responder a propósito , me disse , muito bem sei português que já te diriam como os dias passados matara eu meu pai , o qual fiz que sabia que me queria ele matar a mim , por mexericos que homens maus lhe fizeram , certificando-lhe que minha mãe era prenhe de mim , coisa que eu nunca imaginei ; mas já que com tanta sem razão ele tinha crido isto , e por isso tinha determinado de me dar a morte , quis-lha eu dar primeiro a ele , e sabe Deus quanto contra minha vontade , porque sempre lhe fui muito bom filho , em tanto , que por minha mãe não ficar como ficam outras muito vivas , pobres , e desamparadas , a tomei por mulher , e enjeitei outras muitas com que dantes fui cometido , assim em Patane , como em Berdio , Tanauçarim , Siaca , Iambé , e Andaguiré , irmãs e filhas de reis , com que me puderam dar muito dote . E por evitar mumurações de maldizentes que falam sem medo quanto lhe vem à boca , mandei lançar pregão que ninguém falasse mais neste caso . E porque esse teu mouro que aí jaz , ontem estando bêbado , em companhia de outros cães tais como ele , disse de mim tantos males que hei vergonha de tos dizer , dizendo publicamente em altas vozes , que eu era porco , e pior que porco , e minha mãe cadela saída , me foi forçado por minha honra mandar fazer justiça dele , e de esses outros perros tão maus como ele . Pelo que te rogo muito como amigo , que te não pareça mal isto que fiz , porque te afirmo que me magoaras muito nisso , e se por ventura cuidas que o fiz para tomar a fazenda do capitão de Malaca , crê de mim que nunca tal imaginei , e assim lho podes certificar com verdade , porque assim te juro em minha lei , porque sempre fui muito amigo de portugueses , e assim o serei enquanto viver . Eu então ficando algum tanto mais desassombrado , conquanto não estava ainda de todo em mim , lhe respondi que sua alteza em mandar matar aquele mouro , fizera muito grande amizade ao capitão de Malaca seu irmão , porque lhe tinha roubado toda sua fazenda , e a mim por isso já por duas vezes me quisera matar com peçonha , só por lhe eu não poder dizer as embrulhadas que tinha feitas , porque era tão mau perro que continuamente andava bêbado , falando quanto lhe vinha à vontade , como cão que ladrava a quantos via passar pela rua . Desta minha resposta , assim tosca , e sem saber o que dizia , ficou El-rei tão satisfeito e contente , que chamando-me para junto de si me disse , certo que nessa tua resposta conheço eu seres muito bom homem , e muito meu amigo , porque de o seres te vem não te parecerem mal as minhas coisas , como a esses perros cães que aí jazem , e tirando da cinta um cris que trazia guarnecido de ouro , mo deu , e uma carta para Pero de Faria de muito ruins desculpas do que tinha feito . E despedindo-me então dele pelo melhor modo que pude , e com lhe dizer que havia ainda ali de estar dez ou doze dias , me vim logo embarcar , e tanto que fui dentro ao jurupango , sem esperar mais um momento , larguei a amarra por mão , e me fiz à vela muito depressa , parecendo-me ainda que vinha toda a terra após mim , pelo grande medo , e risco da morte em que me vira havia tão poucas horas . CAPÍTULO XX. DO QUE PASSEI DEPOIS QUE ME PARTI DESTE RIO PARLÈS ATÉ CHEGAR A MALACA , E DA INFORMAÇÃO QUE DEI A PERO DE FARIA DE ALGUMAS COISAS ] Partido eu com a pressa que digo deste rio Parlês , um sábado quase sol posto , continuei por minha derrota até a terça-feira ao meio-dia , em que prouve a Nosso Senhor que cheguei às ilhas de Pulo Sambilão , primeira terra da costa do Malaio , onde achei três naus portuguesas , duas que vinham de Bengala , e uma de Pegù , de que era capitão e senhorio um Tristão de Gaa , aio que fora de Dom Lourenço filho do vice-rei Dom Francisco de Almeida , que Miroocem matou na barra de Chaul , de que as histórias do descobrimento da Índia fazem larga menção . Este Tristão de Gaa me proveu logo de muitas coisas de que vinha falto , como foram amarras , e marinheiros , e dois soldados , e um piloto , e ele com as outras duas naus me deram sempre guarda em todo o caminho , até surgir no porto de Malaca . Onde desembarcando em terra , me fui logo à fortaleza ver o capitão , e lhe dei conta de tudo o que sucedera na viagem , e lhe tratei miudamente do descobrimento dos rios , portos , e angras que novamente achara na ilha Samatra , assim da parte do mar Mediterrâneo , como do oceano , e da comutação do trato da gente que neles habitava , que até então não tivera conosco nenhum comércio . E toda esta costa , e portos , e rios trouxe por graduação arrumados em suas alturas , com seus nomes , e medição dos fundos , conforme ao regimento que levava . E também trouxe informação da baía onde se perdera o Rosado capitão da nau francesa , e Matalote do Brigas capitão da outra nau , que por caso de tempo esgarrão foi ter a Diu no ano de 1529 sendo ainda vivo sultão Baudur rei de Cambaia , que a todos os franceses dela fez mouros , que eram oitenta e dois , os quais depois sendo Elches , levou no ano de 1533 por bombardeiros , na guerra que teve com rei dos Mogores , onde todos morreram , sem um só ficar vivo . E também o informei do surgidouro da baía de Pulo Botum , onde antigamente estivera a nau Biscainha , que diziam que fora do Magalhães , que depois se perdeu no boqueirão da çunda , querendo atravessar a ilha da Iaoa . Dei-lhe também conta das muitas e várias nações de gentes que habitam ao longo daquele oceano , e do rio Lampom , donde o ouro de Menancabo vai ter ao reino de Campar pelos rios de Iambee e Broteo , no qual os naturais desta terra afirmam , pelo que lêem nas suas crônicas , que estivera uma casa de contrato da rainha Sabá , donde alguns presume que um seu feitor por nome Nausem lhe mandara uma grande soma de ouro , que ela depois levou para o templo de Jerusalém , quando foi ver a El-rei Salomão , donde dizem que veio prenhe de um filho , que depois sucedeu por imperador da Etiópia , a que cá o vulgar chama preste João , e de que esta nação abexim se honra muito . Também o informei da pescaria do aljofre , que está entre Pulo Tiquòs , e Pulo Quenim , donde os batas o levavam antigamente a Pacém , e Peedir , que os turcos do estreito de Meca , e as naus de Iudaa aí lhes compravam a troco de outras mercadorias que traziam do Cairo , e dos portos de toda a Arábia Feliz . E assim mais lhe dei relação de outras muitas coisas que soube do rei dos batas , e de mercadores da cidade de Panaajù . E lhe trouxe também por escrito a informação da ilha do ouro , que me ele muito encomendara , a qual , segundo todos dizem , jaz ao mar deste rio de Calandor em cinco graus da parte do sul , cercada de muitos baixos , e de grandes correntes , e que pode distar desta ponta da ilha Samatra , até cento e sessenta léguas pouco mais ou menos . E desta informação , de que Pero de Faria foi certificado , assim pelo que lhe eu disse , como pelo que o rei dos batas lhe escreveu por mim , deu aquele ano conta a El-rei Dom João o terceiro que santa glória aja : o qual logo no outro ano seguinte proveu na capitania do descobrimento dela a um Francisco de Almeida , cavaleiro de sua casa , homem de muitas partes , e bem suficiente para aquele cargo , e que já de muitos dias o pedia , em satisfação de muitos serviços que tinha feitos nas ilhas de Banda , Maluco , Ternate , e Geilolo , o qual Francisco de Almeida indo da Índia para lá faleceu de febres nas ilhas de Nicubar . E sendo sua alteza certificado da sua morte , proveu segunda vez na mesma capitania a um Diogo Cabral da ilha da Madeira , a quem Martim Afonso de Sousa a tirou por justiça , por se dizer que praguejara dele sendo governador , e a deu a um Jerônimo de Figueiredo fidalgo do duque de Bragança , que no ano de 1542 partiu de Goa com duas fustas , e uma caravela em que levava oitenta soldados e oficiais da mareação , e não teve efeito a sua ida , porque parece , segundo o que depois se viu , que desejando ele de ser rico mais depressa do que o esperava ser pela via que levava , se passou à costa de Tanauçarim , onde tomou algumas naus que vinham do estreito de Meca , de Adem , de Alcosser , de Iudaa , e de outros lugares da costa da Pérsia , e por se lá dar mal cos soldados , e não partir com eles do que tomara , conforme ao que de direito lhes vinha , se levantaram contra ele , e depois de outras muitas coisas , que me pareceu razão não se escreverem , o ataram de pés e mãos , e o levaram à ilha de Ceilão , onde o lançaram em terra no porto de Gale , e a caravela e fustas levaram ao governador Dom João de Castro , que lhes deu perdão do que tinham feito , por irem d'armada com ele a Diu a socorro de Dom João Mascarenhas , que então estava cercado dos capitães de El-rei de Cambaia , e de então para cá se não tratou mais deste descobrimento , que tão proveitoso parece que será para o bem comum destes reinos , se Nosso Senhor fosse servido que esta ilha se viesse a descobrir . CAPÍTULO XXI. COMO CHEGOU A FORTALEZA DE MALACA UM EMBAIXADOR DE EL-REI DE AARÛ , E DO QUE PASSOU NELA ] Havendo só vinte e seis dias que eu era chegado a Malaca com esta resposta do rei dos batas de que tenho tratado , sendo ainda neste tempo Dom Estêvão da Gama capitão da fortaleza , chegou a ela um embaixador do rei de Aarù , que é nesta ilha Samatra , e o negócio a que vinha , era pedir socorro de gente , e algumas munições de pelouros e pólvora , para se defender de uma grossa frota que o rei do achém mandava sobre ele para lhe tomar o reino , a fim de ficar mais nosso vizinho , e daí continuar com suas armadas sobre Malaca , por lhe serem chegados novamente trezentos turcos do estreito de Meca . O que visto por Pero de Faria , e quão importante negócio este era ao serviço de El-rei , e à segurança daquela fortaleza , deu conta disso a Dom Estêvão , que ainda depois disto foi capitão mês e meio , o qual se lhe escusou de tratar deste socorro , com dizer que já acabava o seu tempo , e que a ele pertencia isso mais , pois ficava na terra , e havia de passar por esse trabalho de que se arreceava . A que Pero de Faria respondeu , que lhe desse ele comissão para mandar nos armazéns , e que logo proveria no socorro que entendia ser necessário . E por abreviar razões não contarei por extenso o que sobre isto ambos passaram , somente direi que o embaixador foi excluído de ambos , de um com dizer que já acabava , e do outro que ainda não entrava . E assim se partiu sem levar coisa nenhuma do que vinha pedir . E magoado desta tamanha sem razão que lhe parecia que com seu rei se usara , uma manhã querendo-se embarcar , estando estes capitães ambos à porta da fortaleza , lhes disse publicamente quase chorando : o Deus que vive reinando por poderio e majestade suprema no mais alto céu de todos os céus tomo , com suspiros arrancados do interior da minha alma , por juiz neste caso , da razão e justiça que tenho em fazer a vossas mercês ambos senhores capitães este requerimento em nome do meu rei , vassalo leal por homenagem jurada , que seus antepassados fizeram nas mãos do antigo Albuquerque , leão do bramido espantoso nas ondas do mar , ao poderoso rei das nações e povos da Índia , e terra da grão Portugal , o qual então nos prometeu que não quebrando os reis deste reino esta homenagem de leais vassalos , se lhes obrigava a os defender a todos de seus inimigos como senhor poderoso que era . E já que nós até agora nunca quebramos esta homenagem , qual será senhores a razão , porque não cumprireis com esta obrigação , e verdade do vosso rei , sabendo que por seu respeito nos toma este inimigo achém a nossa terra , dando por razão que é o meu rei tão português , e tão cristão como se nascera em Portugal ? E mandando vós agora pedir que lhes valhais nesta afronta , como verdadeiros amigos , vós escusais de o fazerdes com razões de muito pouca força , não montando mais o cabedal deste socorro todo , para satisfação de nosso desejo , e segurança de nós estes inimigos não tomarem o reino , que só até quarenta ou cinquenta portugueses com suas espingardas e armas , para nos ensinarem , e nos animarem em nossos trabalhos , e quatro jarras de pólvora , com duzentos pelouros de berço , e com este pouco , que é bem pouco em comparação do muito que vos fica , nos haveremos por muito satisfeitos da vossa amizade , e o nosso rei vos ficará por isso muito obrigado , para que sempre com muita lealdade sirva como escravo cativo ao príncipe do grande Portugal , vosso e nosso senhor e rei , da parte do qual , e em nome do meu vos requeiro senhores a ambos uma e duas e cem vezes , que não deixeis de cumprir com que deveis , pois a importância disto que aqui publicamente vos peço , é terdes o reino de Aarù por vosso , e esta fortaleza de Malaca segura para a não senhorear este inimigo achém , como determina fazer , pelos meios que já para isso tem procurado , com se valer de muitas nações de gentes estranhas , que continuamente recolhe em sua terra para este efeito . E porque esta nossa lhe importa a ele mais que todas as outras para este seu danado propósito , nola manda agora tomar , a fim de continuar neste estreito com suas armadas , até que de todo ( como os seus publicamente já dizem ) vos tolha o comércio da droga de Banda , e Maluco , e o trato da navegação dos mares da China , Sunda , Bornéo , Timor , e Japão , como temos sabido pelo contrato que agora novamente tem feito com turco , por meio do baxá do Cairo , que para isto tomou por seu valedor , o qual tem dado grandes esperanças de ajuda , como pelas cartas que eu trouxe tereis já sabido . E lembro-vos este requerimento que em nome do meu rei hoje vos faço , pelo que cumpre ao serviço do vosso , da parte do qual vos torno outra vez de novo a requerer , que pois agora podeis atalhar a este mal , que tão perto está de parir o que , tem concebido , o façais , e não vós escuseis um com dizer que já acaba , e outro que ainda não entra , entendendo ambos que tanta obrigação tem para o fazer um como o outro . Acabado este requerimento , que por então lhe aproveitou bem pouco , tomou duas pedras do chão , e batendo por cerimónia com elas ambas numa bombarda , disse quase chorando . O Senhor que nos criou nos defenderá . E com isto se foi embarcar , e se partiu logo , e bem descontente pelo mau recado que levava . Havendo já cinco dias que era partido não faltou quem disse a Pero de Faria , que se murmuraua muito por fora do pouco respeito que assim ele como Dom Estêvão tiveram a este rei tanto nosso amigo , e que tantas amizades tinha feitas a aquela fortaleza , por respeito da qual lhe tomavam agora o seu reino . Ele então alcançado , ou por ventura corrido deste descuido , ainda que por sua parte dava algumas desculpas , o mandou socorrer com três quintais de pólvora de bombarda , e duas arrobas da de espingarda , e cem alcanzias de fogo , e cem pelouros de berço , e cinquenta de falcão , e doze espingardas , e quarenta rocas de pedra , e sessenta murrões , e uma coura de lâminas de cetim carmesim com cravação dourada para sua pessoa , e outras peças de vestir , com uma corja de saraças , e panos malaios para sua mulher e filhas , que é o comum trajo daquela terra . E embarcando tudo isto em uma lanchara de remo , me pediu que o quisesse levar a este rei , porque importava muito ao serviço de sua alteza , e que quando tornasse me prometia de me fazer mercê , assim de soldo , como de viagem para onde eu quisesse ; o que eu por meus pecados aceitei de boa vontade , e digo isto pelo que adiante sucedeu . E embarcando-me uma terça-feira pela manhã cinco dias de outubro do ano de 1539 continuei meu caminho até o domingo seguinte que cheguei ao rio de Puneticão , onde está situada a cidade de Aarù . CAPÍTULO XXII. COMO ME FUI VER COM EL-REI DE AARÙ , E DAR-LHE O QUE PERO DE FARIA LHE MANDAVA , E DO QUE PASSEI COM ELES ] Chegado eu a este rio de Puneticão , desembarquei logo em terra , e me fui à tranqueira que naquele tempo El-rei fazia na entrada do rio para defender a desembarcação aos inimigos ; o qual me recebeu com bom gasalhado , e mostras de muita alegria : e lhe dei uma carta que Pero de Faria lhe mandava , fundada toda em esperanças de mais ao longe o ir socorrer em pessoa se lhe cumprisse , e outros muitos cumprimentos que custam pouco , de que toda ela ia bem cheia , os quais El-rei estimou muito , porque creu que tudo aquilo podia ser assim . E depois que viu todo o presente , e a pólvora , e as mais munições , abraçando-me , disse muito alegre , afirmo-te meu bom amigo que toda esta noite sonhava que dessa fortaleza de El-rei de Portugal meu senhor me vinha todo este bem que agora tenho diante de meus olhos , com o qual espero em Deus de defender minha terra , para lhe fazer sempre com ela muitos serviços como fiz até agora , de que os capitães passados de Malaca serão boas testemunhas . E depois de me perguntar algumas coisas que quis saber , assim da Índia como deste reino , encomendando aos seus a obra que ia fazendo da fortificação da tranqueira , em que todos com muito fervor andavam ocupados , me tomou pela mão , e assim a pé , com seis ou sete moços fidalgos dos que ali tinha consigo , sem outra mais companhia , me levou à cidade , que estaria dali quase um quarto de légua , onde me banqueteou em sua casa , com mostras de muito gasalhado , e me mostrou sua mulher , que é coisa que naquelas partes muito raramente se costuma , e me disse com muitas lágrimas , vês aqui português porque sinto a vinda destes inimigos , que se não fora verme eu preso desta necessidade , e tão penhorado pelo que a honra nisto me obriga que faça , eu te juro a lei de bom mouro que o que ele agora determina de me fazer , eu lho fizera primeiro , sem meter nisso mais cabedal que só os meus com minha pessoa , porque muitos dias há que sei quem é este falso achém , e a quanto se estende seu poder , mas val lhe que tem muito ouro com que encobre a fraqueza dos seus , adquirindo com ele muita gente estrangeira de que se ajuda . E para que acabes de entender quão vil e baixa é a triste e aborrecida pobreza , e quanto mal faz aos reis pobres como eu sou , vem por aqui e mostrar-te-ei neste pouco que agora verás quão escassa foi para mim a fortuna . Então me levou a umas terecenas cobertas de colmo que eram os seus armazéns , e me andou mostrando o que tinha neles , que era tão pouco , que com razão se podia dizer que era nada em comparação do muito que havia mister para se defender da força de cento e trinta velas cheias de gente tão belicosa como são achéns , com mistura de turcos e malavares . E dando-me então conta com assaz de tristeza , como quem desabafava comigo do grande trabalho em que estava , e da grandíssima afronta em que se via , me disse que tinha já cinco mil homens aarûs , sem mais socorro doutra gente nenhuma , com quarenta peças de artilharia miúda , entre falcões e berços , em que entrava uma meia espera de metal , que antigamente lhe vendera um português que fora almoxarife da fortaleza de Paacem , por nome António Garcia , o qual depois Jorge de Albuquerque mandou esquartejar em Malaca , por se cartear com El-rei de Bintão num certo modo de traição que cometia . Disse-me também que tinha quarenta espingardas , e vinte e seis elefantes , e cinquenta de cavalo para guardarem a terra , e dez ou doze milheiros de paus tostados , que eles chamam Saligues , ervados com peçonha , e obra de cinquenta lanças , e uma boa quantidade de padeses almagrados , para defesa dos que pelejassem na tranqueira , e mil panelas de cal virgem em pó , para no abalroar lhe servirem em lugar de alcanzias de fogo , e obra de três ou quatro batéis de calhão , e outras misérias e pobrezas tanto atrás do que convinha para remédio daquele aperto em que estava , que por elas mesmas , em as eu vendo , logo entendi quão pouco trabalho os inimigos teriam em lhe tomarem o reino : e perguntando-me o que me parecia desta abundância de munições que tinha naqueles armazéns , e se bastavam para receber aqueles hóspedes que esperava , lhe respondi eu , que sobejamente tinha com que os banquetear , a que ele , depois de estar um pouco pensativo , bulindo com a cabeça , me disse : certo que se o rei de vós outros portugueses agora soubesse quanto ganhava em me eu não perder , ou quanto perdia em os achéns me tomarem Aarù , ele castigaria o antigo descuido de seus capitães , que cegos , e atolados em suas cubiças e interesses , deixaram criar a este inimigo tanta força , e tanto poder , que temo que já quando quiser refreá-lo , não possa , e se puder que há de ser com lhe custar muito do seu . E querendo-lhe eu responder a isto que com tanta mágoa me dizia , me desfez todas as minhas razões com umas verdades tão claras , que dali por diante não me atrevi a lhe responder mais coisa nenhuma , porque entendi que não tinham contradição suas queixas , porque me apontou em algumas coisas assaz feias e criminosas em que culpava algumas pessoas particulares , de que aqui não trato , porque não faz a meu propósito , e porque não é minha tenção descobrir faltas alheias , e o remate desta prática foi remocar-me o pouco castigo que por estas coisas se dera aos culpados , e as grandes mercês que vira fazer a quem as não merecia , e por derradeiro ajuntou que o rei que queria cumprir inteiramente com a obrigação do ofício que tinha , e que por armas havia de conquistar e conservar povos tão apartados da sua terra , tão necessário lhe era castigar os maus , como premiar os bons , porém se ele acertava de ser tal que ao descuido e frouxidão que tinha no dar do castigo , punha nome de clemência , se os seus lhe conheciam esta natureza , logo punham os pés sem medo por onde queriam , o que depois pelo tempo em diante vinha , ou podia vir a ser causa de porem as forças das suas conquistas no estado em que Malaca agora se via . Com isto se recolheu para dentro de uma casa , e me mandou agasalhar em outra de um mercador gentio natural do reino de Andraguiree , o qual em cinco dias que eu aqui estive me banqueteou sempre esplendidamente , ainda que naquele tempo tomara eu antes qualquer ruim iguaria em outra parte onde me houvera por mais seguro , pelos muitos repiques e rebates de inimigos que ali havia cada hora . Porque logo ao outro dia , depois que cheguei , foi El-rei certificado que os achéns eram já partidos de sua terra , e que não tardariam oito dias , com a qual nova se deu ele muito maior pressa , assim em prover as coisas que ainda não tinha providas , como em mandar despejar a cidade de todas as mulheres , e de toda a mais gente que não era para pelejar , a qual toda mandou meter pelo mato dentro , quatro e cinco léguas , cuja miséria e desamparo , pela desordem e desmancho com que se isto fazia , era uma tão piedosa coisa de ver , que eu andava como pasmado , e sabe Deus quão arrependido de ter ali vindo . A rainha ia em cima de uma elefanta , com só quarenta ou cinquenta homens velhos consigo , e todos tão cortados do medo , que aqui acabei de entender de todo que os inimigos tomariam sem falta nenhuma aquela terra com muito pouco custo . Passados cinco dias depois de eu ser ali chegado , me mandou El-rei chamar , e me perguntou quando me queria ir , e eu lhe respondi , que quando sua alteza me mandasse , mas que folgaria que fosse logo , porque me havia o capitão de mandar à China com sua fazenda : a que ele respondeu , tem muita razão , e tirando do braço duas jóias de ouro , que são manilhas maciças tiradas pela fieira , que pesavam ambas oitenta cruzados , mas deu , dizendo-me , rogo-te que me não tenhas por escasso por te dar tão pouco , porque te afirmo que meus pensamentos são agora , e foram sempre , desejar ter muito para poder dar muito . E esta carta com este diamante darás ao capitão , e dize-lhe , que o mais que entendo que lhe devo pelo amor que me mostrou no socorro das munições que me mandou por ti , deixo para lho levar por mim quando com mais descanso do que agora tenho me vir livre destes inimigos . CAPÍTULO XXIII. DO QUE ME ACONTECEU DESPOIS QUE ME PARTI DESTE REINO DE AARÛ ] Despedido eu de todo de El-rei , me embarquei logo , e me parti já quase sol posto , e me vim a remo pelo rio abaixo , até uma aldeia que está junto da barra , que terá obra de quinze ou vinte casas de palha , e de gente muito pobre que naquela terra se não sustenta de outra coisa se não de matar lagartos , e fazer dos fígados deles peçonha para ervar as flechas com que pelejam , e a peçonha deste reino de Aarù , e principalmente a deste lugar , que se chama Pocausilim , tem eles que é a melhor de todas aquelas partes , porque nenhum remédio nem defensivo se acha que aproveite para os feridos delas . Logo ao outro dia pela manhã nos partimos desta aldeia , e fomos velejando ao longo da costa com ventos terrenhos até depois da véspera que dobramos os ilheus de Anchepisão , e servindo-nos ainda o vento sudeste , ainda que algum tanto ponteiro , nos fizemos no bordo do mar o que mais estava do dia , e alguma parte da noite , e sendo já passado pouco mais de meio quarto da prima , nos deu uma trovoada de noroeste ( que são os temporais que comumente a mor parte do ano cursam nesta ilha Samatra ) que de todo nos teve soçobrados , e ficando a lanchara a árvore seca , sem mastro , nem velas , porque tudo o vento nos fez em pedaços , e com três rombos por junto da quilha , nos fomos logo a pique subitamente ao fundo , sem podermos salvar coisa nenhuma , e muito poucos as vidas , porque de vinte e oito pessoas que nela íamos , as vinte e três se afogaram em menos de um credo , e os cinco que escapamos somente pela misericórdia de Nosso Senhor , e assaz feridos , passamos o mais que restava da noite postos sobre os penedos , lamentando com bem de lágrimas o triste sucesso da nossa perdição , e porque então nós não soubemos dar a conselho , nem determinar-nos no que fizéssemos de nós , nem que caminho tomássemos , por ser a terra toda alagadiça , e fechada de mato tão basto que nenhum pássaro por muito pequeno que fosse podia passar por entre os espinhos , de que o arvoredo silvestre era tecido , estivemos ali três dias postos assim em cócoras sobre uns penedos , sem comermos em todos eles mais que os limos do mar que na babugem da água achávamos . Passado este tempo com assaz de confusão e pena , sem sabermos determinar o que fosse de nós , caminhamos ao longo da ilha Samatra , atolados na vaza até a cinta aquele dia , e já quase sol posto chegamos à boca de um rio pequeno , de pouco mais de um tiro de besta em largo , que por ser muito fundo , e nos virmos muito cansados , nos não atrevemos ao passar . Ali nos agasalhamos aquela noite metidos na água até o pescoço , e a passamos com assaz de tormento e trabalho , por parte dos tavões , e mosquitos do mato que nos atanazavam de tal maneira que não havia nenhum de nós que não estivesse banhado em sangue . E como a manhã foi clara , perguntei aos quatro marinheiros que iam comigo se conheciam aquela terra , e se havia ali por derredor alguma povoação , a que um deles homem já de dias , e casado em Malaca , me respondeu chorando , a povoação senhor que tu e eu agora temos mais perto , se Deus milagrosamente nos não socorre , é a morte penosa que temos diante dos olhos , e a conta dos pecados que antes de muito poucas horas havemos de dar , para o qual nos é necessário fazermo-nos prestes muito depressa , como quem forçadamente há de passar outro muito mor trago que este em que nós agora vemos , tomando com paciência isto que da mão de Deus nos é dado , e não te desconsoles por coisa que vejas , e que o temor te ponha diante , porque considerado bem tudo , pouco vai em ser mais hoje que a manhã . E abraçando-se comigo muito apertadamente , me pediu com muitas lágrimas que logo o fizesse cristão , porque entendia , e assim o confessava que só com o ser se podia salvar , e não na triste seita de mafamede , em que até então vivera , de que pedia a Deus perdão . E em acabando de dizer isto expirou logo , porque como ele estava muito fraco , e trazia a cabeça aberta cos miolos todos pisados , quase podres , por não ser curado , e juntamente a ferida cheia de água salgada , e muito mordida dos tavões , e mosquitos , parece que aquilo foi causa de acabar tão depressa , ao qual eu por meus pecados nunca pude ser bom , assim por a brevidade do tempo me não dar lugar , como por estar eu também já tão fraco que a cada passo caía na água , do esvaecimento da cabeça , e do muito sangue que se me tinha ido das feridas , e das chagas que trazia nas costas . Com tudo ele foi enterrado na vasa o melhor que então pode ser , e nós , os três marinheiros , e eu nos determinamos em passarmos o rio da outra banda , com tenção de dormirmos numas árvores altas que estavam aparecendo da outra parte com medo dos tigres e reimões , de que toda a terra era muito povoada , a fora outras muitas diversidades de animais peçonhentos que nela havia , com infinidade de cobras de capelo , e outras de sardas , verdes , e pretas , tão peçonhentas que com bafo somente matam . Determinados todos quatro nisto , roguei eu aos dois deles que fossem diante , e ao outro que fosse junto comigo para me ajudar a sustentar , porque ia já muito fraco , dos dois se lançou logo um ao rio , e após ele o outro , dizendo-me ambos que os seguisse , e não houvesse medo , e em chegando eles a pouco mais de meio rio , arremeteram a eles dois lagartos muito grandes , e em muito pequeno espaço fizeram a cada um deles em quatro pedaços , ficando toda a água cheia de sangue , e assim os levaram ao fundo , da qual vista fiquei eu tão assombrado que nem gritar pude , nem sei quem me tirou fora , nem como escapei , porque neste tempo estava metido na água até os peitos com outro negro que me tinha pela mão , o qual estava tão cheio de medo que não sabia parte de si . CAPÍTULO XXIIII. DO QUE MAIS PASSEI ATÉ SER LEVADO A CIDADE DE SIACA , E DO QUE NELA ME SUCEDEU ] Ficando eu ( como já disse ) tão pasmado , e tão fora de mim que nem falar , nem chorar pude por espaço de mais de três horas , nor tornamos o outro marinheiro e eu a meter no mar até pela manhã , que vimos vir uma barcaça demandar a boca do rio , e tanto que emparelhou conosco , nos tiramos da água , e postos assim nus em joelhos , e com as mãos alevantadas lhe pedimos que nos quisessem tomar . Os que vinham na barcaça , em nos vendo levaram remo , e depois de estarem um pouco quedos , vendo o triste e miserável estado em que estávamos , e entendendo que éramos gente perdida no mar , se chegaram mais perto , e nos perguntaram o que queríamos , nós lhe respondemos que éramos cristãos naturais de Malaca , e que vindo de Aarù nos perdêramos havia já nove dias , pelo que lhe pedíamos pelo amor de Deus que nos quisessem levar consigo para onde quer que fossem . A que um que parecia ser o principal deles respondeu , não estais vós de maneira , segundo vejo em vossas disposições , que possais merecer o que nos comerdes , pelo que seria bom , se tendes algum dinheiro escondido dardes-no-lo , e então usaremos conosco dessa proximidade que vossas lágrimas nos pedem , porque doutra maneira não tendes remédio . E fazendo com isto mostra de se quererem tornar , lhe tornamos a pedir chorando que nos tomassem por seus cativos , e nos fossem vender onde quisessem , porque por mim que era português , e muito parente do capitão de Malaca lhe dariam em toda a parte o que pedisse : ao que eles responderam , somos contentes com condição que se assim não for como dizeis , vos havemos de matar com açoutes , e atados de pés e de mãos , vos havemos de lançar vivos ao mar , e nós lhe dissemos que assim o fizessem . E saltando logo quatro deles em terra , nos meteram na embarcação , porque a este tempo estávamos nós tais que nem bulir-nos podíamos . Depois de nos terem dentro , parecendo-lhes que com feros e açoutes confessaríamos onde tínhamos escondido algum dinheiro , que sempre cuidaram que lhe déssemos , nos ataram a ambos ao pé do mastro , e com duas rotas dobradas nos sangraram muito sem piedade , e por eu já então estar quase morto , me não deram uma certa beberagem como deram ao pobre do meu companheiro , que foi um certo modo de cal delida em urina , com que logo lhe fizeram vomitar os fígados , de que morreu dali a uma hora , e como não lhe acharam no que vomitara ouro nenhum como tinham para si , quis Nosso Senhor que isso foi causa para me não fazerem a mim outro tanto , mas ensalmourando-me com a mesma beberagem as feridas dos açoutes , por não morrer delas , foi a dor em mim tão excessiva , que de todo estive à morte . Partidos nós daqui deste rio que se chamava Arissumhee , fomos ao outro dia à véspera surgir defronte de uma grande povoação de casas palhaças , chamada Siaca , do reino de Iambee , onde me tiveram vinte e sete dias , em que prouve a Nosso Senhor que convalesci dos açoutes . Vendo então os que tinham parte em mim , que eram sete , que lhes não servia eu para o ofício que tinham , que era andarem sempre metidos na água pescando , me puseram em leilão por três vezes , sem em todas elas haver quem quisesse fazer lanço em mim , pelo que desconfiados de acharem quem me comprasse , me lançaram fora de casa , por me não darem de comer , pois lhe não podia prestar para nada . E havendo já trinta e seis dias que estava fora do seu poder , deitado ao almarge , como sendeiro sem dono , pedindo de porta em porta alguma fraca esmola que muito raramente me davam , por ser pobríssima toda a gente daquela terra ; permitiu Nosso Senhor que jazendo eu um dia lançado na praia ao sol , lamentando minhas desaventuras , acertou de passar um mouro natural da ilha de Palimbão , que já por algumas vezes tinha ido a Malaca , e conversado com portugueses . Este vendo-me jazer assim despido na área , me perguntou se era português , e que lhe não negasse a verdade , a que eu respondi que sim , e de parentes muito ricos , e que por mim lhe poderiam dar quanto pedisse , se me levasse a Malaca , porque era sobrinho do capitão da fortaleza , filho de uma sua irmã ; a que ele respondeu : pois , se és esse que dizes , que pecado foi o teu por onde vieste a tão triste estado como esse em que te vejo ? Eu então lhe dei conta miudamente da minha perdição , e da maneira que os sete pescadores ali me trouxeram , e como já me tinham lançado fora de casa , por não acharem quem me comprasse . Ele dando mostras de grandíssimo espanto , depois de estar algum espaço pensativo , me disse . Eu ( como podes saber ) sou um mercador pobre , e tão pobre , que por minha possibilidade não chegar a mais que a cem pardais , me meti neste trato das ovas dos sáveis , cuidando que por esta via pudesse ter melhor remédio de vida , o que por minha mofina não pude , e porque agora tenho sabido que em Malaca posso fazer algum proveito , se o capitão e os oficiais da alfândega me não fizerem os agravos de que tenho ouvido queixar a muitos que lhe fazem nesta fortaleza nas fazendas que a ela levam , folgaria de ir lá : e se te parecer que por teu respeito posso eu lá ir seguro de receber opressão ou agravo , entenderei em te comprar a os pescadores de que me dizes que és cativo . Eu lhe respondi com assaz de lágrimas , que muito bem via que não estava eu de maneira para que se ele fiasse do que lhe eu dissesse , assim pelo baixo estado em que me via , como porque lhe poderia parecer que eu , por desejar de me ver livre de tão triste cativeiro , lhe podia fazer mais caso de mim do que lá em Malaca podia achar , mas que se ele se quisesse fiar em meu juramento , já que então não tinha outro penhor que lhe desse , que eu lhe juraria , e lhe daria um escrito meu que se me levasse a Malaca , que o capitão lhe faria por isso muita honra , e lhe não tomariam de sua fazenda coisa nenhuma , e lhe pagariam dez vezes dobrado tudo o que por mim desse . O mouro me respondeu : ora sou contente de te comprar , e levar-te a Malaca , contanto que não digas nada disto que agora passei contigo , porque me não alevantem o preço tão alto que te não possa ser bom ainda que queira . E jurando-lhe eu então que assim o faria , com todas as abastanças que por então me pareceu que eram necessárias a meu propósito , se fiou ele delas bem levemente . CAPÍTULO XXV. DO QUE MAIS ME SUCEDEU COM ESTE MERCADOR MOURO ] Passados quatro dias depois deste concerto que fiz com este mouro , ele por meio de outro natural aí da terra , tratou dissimuladamente com os sete pescadores sobre o preço , os quais como estavam já enfadados de mim , assim por eu ser muito doente , como por lhe não servir , nem prestar para nada , e haver já perto de um mês que me tinham lançado fora , serem sete os que tinham parte em mim , e estarem já diferentes na praçaria e conformidade que antes tinham , e outras muitas coisas que Deus permitiu que fossem parte para me não terem em conta , eles todos por meio deste terceiro que o mouro meteu por corretor , se avieram com mercador em preço de sete mazes de ouro , que de nossa moeda fazem quantia de mil e quatrocentos réis , a meio cruzado por maz , os quais ele pagou logo , e me trouxe para sua casa . E havendo já cinco dias que eu estava fora do poder dos outros , e algum tanto melhorado no cativeiro , pelo bom tratamento que tive dali por diante no poder deste meu amo novo , ele se passou para outro lugar dali cinco léguas , por nome Sorobaia , onde acabou de carregar a embarcação da mercadoria em que tratava , que como já disse , eram ovas de sáveis , os quais nestes rios são tantos em tanta quantidade , que lhe não aproveitam mais que só as ovas das fêmeas , de que carregam todos os anos passante de duas mil embarcações , e cada embarcação leva cento e cinquenta , duzentas jarras , e cada jarra um milheiro , por ser impossível poder-se aproveitar o mais . Acabando o mercador de carregar a lanchara , que era a embarcação em que levava esta mercadoria , se partiu para Malaca , onde chegou dali a três dias , e se foi logo à fortaleza ver o capitão , e me levou consigo , a quem deu conta do que tinha passado comigo . Pero de Faria em me vendo da maneira que vinha , ficou como pasmado , e me disse com as lágrimas nos olhos , que falasse alto , para saber se era eu aquele , já que na dessemelhança e disformidade do rosto , e dos membros lho não parecia . E como havia já mais de três meses que não sabiam novas de mim , e me tinham por morto , acudiu tanta gente a me ver , que não cabia na fortaleza , perguntando-me todos com as lágrimas nos olhos pela causa da desaventura em que me viam , e dando-lhes eu conta muito miudamente de todo o sucesso da minha viagem , e do infortúnio que nela passara , ficaram todos tão admirados , que sem falarem , nem responderem coisa alguma se saíam benzendo do que me tinham ouvido . E provendo-me então os mais deles com suas esmolas , como naquele tempo se costumava , fiquei muito mais rico do que antes era . Ao mercador que me trouxe mandou Pero de Faria dar sessenta cruzados , e duas peças de damasco da China , e lhe mandou em nome de El-rei quitar os direitos de sua fazenda que devia na alfândega , que seria quase outro tanto , e em coisa nenhuma lhe foi feito nenhum agravo , de que ele ficou muito satisfeito e contente , e se deu por bem pago da veniaga que comigo fizera . A mim me mandou o capitão agasalhar em casa de um escrivão da feitoria , por ser casado na terra , e lhe parecer que aí seria melhor provido que em outra nenhuma parte , como na verdade fui . E ali estive na cama passante de um mês que prouve a Nosso Senhor que de todo recebi perfeita saúde . CAPÍTULO XXVI. DA ARMADA QUE O ACHÉM MANDOU CONTRA EL-REI DE AARÛ , E DO QUE LHE SUCEDEU CHEGANDO AO RIO DE PANETICÃO ] Passado este tempo da minha infirmidade , Pero de Faria me mandou logo chamar à fortaleza , e me perguntou pelo que passara com El-rei de Aarù , e como , e onde me perdera , e eu lhe relatei por extenso todo o sucesso da minha viagem e perdição , de que ele ficou assaz espantado . Porém antes que trate de outra coisa me pareceu necessário dar relação do fim que teve esta guerra dos achéns , e em que parou o aparato da sua armada , para que fique entendida a razão do prognóstico , e do receio em que tantas vezes com gemidos e suspiros tenho apontado por parte da nossa Malaca , tão importante ao estado da Índia , quanto ( ao que parece ) esquecida daqueles de quem com razão devera ser mais lembrada , porque entendo que por via de razão , de duas há de ser uma , ou destruir-se este achém , ou por seu respeito virmos nós a perder toda a banda do sul , como é Malaca , Banda , Maluco , Çunda , Bornéo , e Timor , a fora no norte , a China , Japão , Léquios , e outras muitas terras e portos em que a nação portuguesa , por seus tratos e comércios tem o mais importante e mais certo remédio de vida que em todas as outras quantas são descobertas do cabo de boa esperança para diante , cuja grandeza é tamanha que se estende a terra por costa em distância de mais de três mil léguas , como se poderá ver nos mapas e cartas que disso tratam , se sua graduação estiver na verdade . E também nesta perda ( que Deus por sua infinita misericórdia nunca permitirá que aja , por mais descuidos e pecados que aja em nós ) se arrisca perder-se a alfândega do Mandouim da cidade de Goa , que é a melhor coisa que temos na Índia , por que nos portos e ilhas atrás nomeadas consiste a maior parte do seu rendimento , a fora a droga de cravo , noz , e maçã , que de lá se traz para este reino . E do mais que pudera dizer a cerca disto , como testemunha de vista , não quero tratar aqui mais , porque isto somente me parece que basta para se entender a grande importância deste negócio , e entendida , não duvido que se lhe dará o remédio que parecer necessário . E com isto me torno a meu propósito . Este tirano achém foi aconselhado pelos seus , que se queria tomar Malaca , por nenhuma maneira o poderia fazer cometendo-a de mar em fora , como já por seis vezes tinha tentado no tempo de Dom Estêvão da Gama , e de outros capitães atrás passados , senão com se fazer primeiro senhor deste reino de Aarù , e se fortificar no rio de Paneticão , donde as suas armadas podiam continuar de mais perto a guerra que lhe pretendia fazer , porque então ficava muito pouco custoso fechar os estreitos de Cingapura e de Sabaom , e tolher que as nossas naus passassem ao mar da China , e Çunda , e Banda , e Maluco , por cujo respeito poderia também facilmente haver à mão toda a drogaria daquele arquipélago , para ficar assim efetuado o novo contrato que por meio do baxá do Cairo tinha assentado com turco . Este conselho pareceu tão bom a El-rei , que aprovando-o pelo melhor e mais acertado , mandou aperceber uma frota de cento e sessenta velas , de que a maior parte eram lancharas , e galeotas de remo , com alguns calaluzes da Iaoa , e quinze navios de alto bordo , com mantimentos e munições , e nestas embarcações meteu dezessete mil homens , os doze mil de peleja , e os mais , gastadores e chusma : e nos de peleja entravam quatro mil estrangeiros , turcos , abexins , malavares , guzarates , e lusões da ilha de Bornéo , e por general do campo ia um Heredim mafamede , cunhado do mesmo rei , casado com uma sua irmã , e governador do reino de Baarrós . Esta frota chegou toda a salvamento ao rio de Puneticão , onde então El-rei de Aarù estava fortificando a tranqueira , de que já atrás fiz menção , na qual tinha consigo seis mil homens aarùs , sem mais outra mistura de gente , assim por ele ser muito pobre , como por a terra não ter mantimentos , de que se pudessem sustentar . Os achéns logo em chegando começaram a bater a cidade , e a bateram por espaço de seis dias com muitas peças de artilharia , porém os de dentro a defenderam valorosamente , ainda que foi com algum sangue , assim de uma parte como da outra , pelo que foi forçado ao Heredim mafamede mandar desembarcar toda a gente em terra , e assestando doze peças grossas de camelos e esperas , lhe deram com elas três baterias muito grandes , nas quais lhe derrubaram um dos dois baluartes que defendiam a entrada do rio , e por ele , com balas de algodão que levavam diante , o cometeram uma antemanhã , sendo capitão deste assalto um abexim por nome Mamedecão , que viera de Iudà havia menos de um mês assentar e jurar a nova liga e contrato que o baxá do Cairo em nome do turco tinha assentado com rei do achém , no qual lhe ele dava casa de feitoria no porto de Paacem . Este abexim com sessenta turcos , e quarenta ianiçaros , e alguns outros mouros malavares se senhorearam do baluarte , e puseram nele cinco bandeiras , com outros muito guiões . El-rei de Aarû , animando então os seus com palavras , e promessas , quais naquele tempo se requeriam , eles com ímpeto determinado deram nos inimigos , e se tornaram a senhorear do baluarte , com morte do capitão abexim , e de todos os mais que já estavam dentro . E querendo El-rei aproveitar-se da boa fortuna deste sucesso , como homem desejoso da vitória , mandou abrir logo com muita presteza as portas da tranqueira , e saindo ao campo com alguma parte dos seus , pelejou cos inimigos tão esforçadamente , que os pôs a todos em desbarato , e das doze peças grossas lhe tomou as oito , e recolhendo-se com isto a seu salvo , se fortaleceu por então o melhor que pôde para o mais que ao diante esperava . CAPÍTULO XXVII. DA MORTE DE EL-REI DE AARÛ , E DA CRUEL JUSTIÇA QUE SE FEZ DELE DEPOIS DE MORTO ] Vendo o achém o mau sucesso daquele dia , sentindo mais a morte do capitão abexim , e a perda das oito peças de artilharia , que toda a outra gente que lhe fora morta , tomou conselho cos seus sobre o que se devia fazer , e se assentou por parecer de todos os capitães que o cerco se continuasse , e a tranqueira se cometesse por todas as partes , o que logo se pôs por obra com muita diligência . E em dezessete dias que ali mais estiveram , cometeram a tranqueira com tantas invenções e artifícios de guerra , que um turco engenheiro que consigo traziam , lhes inventava , que a mor parte dela foi rasa com chão , derrubando-lhe as principais duas forças da banda do sul , e um lanço de terra pleno que a modo de couraça sgurava a entrada do rio . E sempre os de dentro lhe resistiram com tanto ânimo , que os inimigos perderam dos seus dois mil e quinhentos , todos consumidos a ferro e a fogo , a fora os feridos e queimados , que eram em maior quantidade , que depois morreram ao desamparo . E dos aarùs morreram só quatrocentos . Mas como estes eram poucos , e os inimigos muitos , e melhor armados , no derradeiro assalto , que foi dado aos treze dias da lua , se acabou tudo de consumir , porque saindo El-rei fora da cidade por conselho de um seu caciz de que muito se ficava o qual por peita de um bar de ouro , que valia quarenta mil cruzados , que os inimigos lhe deram , o moveu a isso , arremeteu aos inimigos , e travou com eles uma áspera briga , na qual andando com melhoria muito conhecida , o perro do caciz , que ficava por capitão na tranqueira , fingindo querê-lo ir ajudar a continuar aquele bom princípio , saiu fora com obra de quinhentos homens que tinha consigo , o que vendo um capitão dos inimigos mouro malavar , por nome Cutiale Marcaa , o qual tinha em sua companhia seiscentos mouros guzarates e malavares , arremetendo às portas , que o caciz não quis defender pela peita que tinha tomada , foi logo senhor da tranqueira sem nenhuma resistência , e matou quantos doentes e feridos achou nela , que segundo se disse , passaram de mil e quinhentos , sem a nenhum dar a vida . O desaventurado rei , vendo a tranqueira entrada , sem até então ter nenhum sentimento da traição do caciz , querendo-lhe socorrer , por ser o mais importante , lhe foi forçado largar o campo , e vindo-se retirando para os valos da cava que estavam mais perto , nesta volta que fez , quis a fortuna que o matasse um turco de uma arcabuzada que lhe deu pelos peitos , com cuja morte se acabou tudo de perder , pela grandíssima desordem e desarranjo que ela causou a todos os seus . Os inimigos tomando o triste rei que jazia morto no campo , lhe tiraram as tripas , e salgado o meteram em uma arca , e o levaram ao achém , o qual o mandou publicamente e com grandes cerimónias de justiça serrar em pedaços , e cozer numa caldeira de breu e azeite , com um espantoso pregão , que dizia assim . Esta é a justiça que manda fazer sultão Alaradim , rei da terra de ambos os mares , pivete das lâmpadas de ouro da capela do profeta Nobi , que quer e lhe praz , que assim serrado e cozido em fogo padeça a alma deste mouro , por ser transgressor da lei do Alcorão , e da perfeita crença dos massoleimões da casa de Meca , que sendo justo por doutrina santa do livro das flores , se fez nas obras intemente a Deus , com mandar continuamente avisos dos segredos deste reino aos malditos cães do cabo do mundo , que por tirania de ofensa grave , e por pecados de nosso descuido senhoream Malaca , a que todo o povo , com um espantoso tumulto de vozes respondia , pequeno castigo , para tamanho crime . E desta maneira , que assim passou realmente na verdade , se perdeu este reino de Aarù com morte deste pobre rei tanto nosso amigo , ao qual me parece que pudéramos valer com muito pouco custo e cabedal que puséramos de nossa parte , se no princípio desta guerra , lhe acudiram com que ele pediu pelo seu embaixador , mas de quem teve a culpa disto ( se aí houve alguma ) não quero eu ser juiz , sejam a quem lhe pertence por direito . CAPÍTULO XXVIII. DO QUE PASSOU NO REINO DE AARÛ DEPOIS DA MORTE DE EL-REI , E DE COMO A RAINHA FOI A MALACA ] Morto este desaventurado rei de Aarù da maneira que tenho dito , e toda a sua gente desbaratada , logo a cidade e o reino todo foi tomado muito facilmente , e o Heredim mafamede general da frota , reparou , e fortificou a tranqueira de todo o necessário à segurança do mais que tinha ganhado . E deixando nela oitocentos homens dos melhores da armada , e por capitão deles um mouro lusão , por nome Çapetù de Raja , se partiu com todo o mais peso da gente para o achém , onde se disse que o tirano rei lhe fizera muito sobejas honras , pelo bom sucesso de aquela empresa , porque sendo antes ( como já se disse ) somente governador e Bendara de reino de Baarròs , lhe deu o título de rei , e se chamou dali por diante sultão de Baarròs que é o próprio nome de rei entre os mouros . A rainha de Aarù ( que todo este tempo estivera metida no mato dali sete léguas , para onde se recolhera , como atrás fica dito ) sendo dali a alguns dias certificada da morte de El-rei seu marido , e de tudo o mais que sucedera neste triste caso , se quisera logo ali queimar , porque assim lho tinha prometido em vida , e confirmado com juramento , porém os seus lho não consentiram , persuadindo-lhe com muitas razões que o não fizesse , ao que ela , depois de conceder no que lhe pediam , respondeu , afirmo-vos em lei de verdade , que nem essas razões que me dais , nem o que com elas me pondes diante , nem essas boas palavras com que enfeitais esse bom zêlo de leais vassalos , puderam ser bastantes para me desviarem de tão santo propósito como este que a meu rei e senhor tinha prometido , se Deus nesta alma me não dera a sentir que com minha vida havia de vingar a sua morte , pelo sangue do qual juro diante de todos vós outros , que enquanto eu for viva buscarei sempre todos os meios possíveis para o fazer e por esta causa chegarei a tanto extremo , que mil vezes me farei cristã se for necessário para alcançar em minha vida isto que tanto desejo . Com este fervor , sem fazer mais detenção , se pôs em um elefante , e acompanhada de trezentos dos seus que ali tinha consigo para sua guarda ; e de outros muitos que depois se lhe ajuntaram , com que fez um corpo de setecentos homens , se veio com eles para a cidade , com determinação de lhe pôr o fogo , porque os inimigos a não lograssem , e achando nela obra de quatrocentos achéns ocupados no despojo de algum pouco fato que ainda nela havia , incitando os seus a se fazerem amoucos , e trazendo-lhes à memória com muitas lágrimas , a obrigação que para isso tinham , cometeu os inimigos tão esforçadamente , que dos quatrocentos se afirmou depois em Malaca que não escapara nenhum . E vendo ela que para o mais que desejava de fazer não era poderosa , se tornou a recolher ao mato , donde em só vinte dias que aí mais esteve lhe fez tanta guerra , e os salteou por tantas vezes no tomar da água e lenha , e outras coisas de que tinham necessidade , que não ousavam já nenhuns a sair fora , nem se proverem do necessário , e se fora possível continuar-lhe esta guerra mais outros vinte dias , a fome os houvera de fazer entregar ainda que não quiseram , mas como as chuvas eram contínuas por causa do clima , e a terra em si era brejosa e alagadiça , e as frutas do mato de que se sustentavam eram já todas podres , e a maior parte da gente estava doente e sem remédio , lhe foi forçado à rainha passar-se para um rio que estava dali cinco léguas , que se chamava Minhaçumbaa , no qual se embarcou em dezesseis embarcações de remo que aí pode ajuntar , em que havia alguns paroos de pescadores , e nelas se veio ter a Malaca , parecendo-lhe que vindo ela em pessoa , se lhe não negaria coisa de quantas pedisse . CAPÍTULO XXIX. DO RECEBIMENTO QUE EM MALACA SE FEZ À RAINHA DE AARÛ , E DO QUE PASSOU COM PERO DE FARIA CAPITÃO DA FORTALEZA ] Sendo Pero de Faria certificado da vinda da rainha a mandou receber por Álvaro de Faria seu filho , e capitão-mor do mar , o qual em uma galé , e cinco fustas , e dois catures , e vinte balões , acompanhado de trezentos homens , a fora outra muita gente da terra a trouxe à fortaleza , na qual se lhe fez uma nobre salva de artilharia que durou por espaço de mais de uma hora . E desembarcando em terra , depois que se lhe mostraram algumas coisas que Pero de Faria quis que ela visse por fazerem em nosso caso , como foram os armazéns , a ribeira , a armada , a feitoria , a alfândega , a casa da pólvora , e outras coisas que já para isso estavam preparadas , ela foi agasalhada em umas boas casas , e a sua gente , que podiam ser até seiscentas pessoas , no campo de Ilher , em cabanas e tendas o melhor que por então se pôde fazer , e em todo o tempo que ela aqui esteve , que seriam quatro ou cinco meses , continuou sempre no requerimento que trazia , que era buscar favor para vingar a morte de seu marido , com razões lícitas e bastantes para se lhe não negar o que pedia , no fim do qual tempo , entendendo quão pouco lhe podíamos fazer , e que tudo o nosso para com ela era um entretenimento de palavras , de que não via nenhum fruto , determinou de se declarar com Pero de Faria , e saber dele o que determinava de fazer no que lhe tinha prometido . E esperando-o um domingo à porta da fortaleza , em tempo que o terreiro estava todo cheio de gente , e ele saía para ir ouvir missa , o foi demandar , e depois de se fazerem entre ambos as devidas cortesias lhe disse . Nobre e esforçado senhor capitão , peço-vos muito pela realidade da vossa progênie , que me não cerreis as orelhas em este pequeno espaço que vos quero falar , e que olheis que ainda que sou moura , e cega por meus pecados no claro conhecimento da vossa santa lei , todavia por ser mulher , e porque já fui rainha , me deveis de ter algum respeito , pondo piedosamente os olhos de homem cristão em meu desamparo . Ao que Pero de Faria parou , e com barrete na mão lhe fez uma grande cortesia . E estando ambos calados por um pequeno espaço , a rainha , depois de fazer um grande acatamento para a porta da igreja que estava defronte , disse contra Pero de Faria . Foram sempre tamanhos os desejos que tive de vingar a morte de El-rei meu marido , que determinei de buscar todos os meios que me fossem possíveis para o poder fazer , já que por minha feminil fraqueza a fortuna me negou vestir as armas . E tendo eu para mim que este de que primeiro lancei mão , podia ser o mais certo , fiz mais conta dele que de todos os outros . E confiada na antiga amizade que tenho convosco , e na grande obrigação que me tem esta fortaleza por tantos respeitos quantos vós senhor muito bem sabeis , me vim agora a ela a pedir-vos com lágrimas , que em nome do sereníssimo rei de Portugal meu senhor , cujo súdito e leal vassalo sempre foi meu marido , me quisésseis valer , e socorrer-me em meu desamparo , a a que em público me foi respondido por vossa boca diante de muitos nobres que então aí estavam , que assim o faríeis sem falta nenhuma , e agora no fim desta promessa , tão retificada no tesouro de vossa verdade , em vez de ser , assim me dizeis , ou dais por escusa que tendes sobre isso escrito ao senhor vice-rei , não tendo eu necessidade de tanto socorro quanto me vós dizeis que para este feito de lá me pode vir , porque com menos de cem homens , e com a minha gente que anda fugida pela terra , esperando que eu vá de cá , me atrevo assim mulher como sou , a em menos de um mês tornar a tomar todo o meu senhorio , e vingar a morte de El-rei meu marido , que é o que aqui mais pretendo que tudo , ajudando-me Deus que é poderoso , da parte do qual vos peço e requeiro por serviço , e honra do sereníssimo rei de Portugal meu senhor , amparo e escudo de minha orfandade , que pois podeis o façais , e com brevidade , porque nela está a maior importância de todo este negócio , e com o fazerdes assim atalhareis o efeito da tenção deste inimigo , fundada somente na destruição desta fortaleza , como pelos meios que para isso procura , tereis bem entendido ; e se determinais de me dar este socorro que peço , esperarei , e se não , desenganai-me , porque tamanho mal me fazeis em me fazerdes esperar sem me dardes remédio , pelo tempo que nisso perco , como em me negardes isto que com tanta eficácia vos tenho pedido , e em lei cristã me deveis , como o senhor todo poderoso , Deus do céu e da terra , a quem tomo por juiz neste requerimento , muito bem sabe . CAPÍTULO XXX. COMO ESTA RAINHA DE AARÛ SE PARTIU DE MALACA PARA BINTÃO , E DO QUE PASSOU COM EL-REI DO IANTANA ] Ouvindo Pero de Faria o que esta desconsolada rainha publicamente lhe disse , a qual lhe trouxe ali também à memória as obrigações que tinha para lhe fazer o que lhe pedia , alcançado ele de seu descuido , e quase corrido por esta falta em que tinha caído , lhe respondeu , que em lei de cristão , e em sua verdade lhe afirmava , que já sobre este caso tinha escrito duas vezes ao vice-rei , e que sem falta nenhuma esperava aquela monção por gente e armada , se na Índia não houvesse trabalho que o estorvasse , pelo que lhe aconselhava , e pedia muito por mercê , que por em tanto se deixasse estar ali em Malaca , até que este pouco tempo lhe mostrasse aquela verdade . E replicando ela sobre a incerteza de poder ou não poder vir este socorro , quase que se agastou Pero de Faria , por lhe parecer que desconfiava ela da sua verdade , e soltando com esta cólera algumas palavras mais secas do que era razão , a desconsolada rainha se lhe arrasaram os olhos de água , e com as mãos levantadas para o céu , e os olhos postos na porta da igreja , que estava um pouco defronte , com tantos soluços que quase não podia falar , disse . Fonte limpa é o Deus que naquela casa se adora , de cuja boca procede toda a verdade , mas os homens da terra são charcos de água turva , em que por natureza continuamente moram desvarios e faltas , pelo que se deve de haver por maldito o que confia no bocejo dos seus beiços . Porque vos afirmo senhor capitão que desde que me entendi até agora , nenhuma outra coisa tenho visto , nem ouvido , se não que quanto os desaventurados como meu marido e eu mais fazem por vós os portugueses , tanto menos fazeis por eles , e quanto mais deveis , menos pagais , pelo que inferindo daqui , o que claramente se pode afirmar , é , que o galardão da nação portuguesa mais consiste , e mais pende da aderência que do merecimento da pessoa . E provera a Deus que o que eu agora conheço de vós por meus pecados , conhecera El-rei meu marido agora há vinte e nove anos , porque nem ele vivera tão enganado convosco como viveu , nem enfim se viera a perder por vossa causa , como se perdeu . Mas já que isto assim é , uma só coisa me resta agora para consolação de minhas queixas , que é ver muitos tão escandalizados da vossa amizade quanto a pobre de mim agora se vê . E se vós não atrevíeis , ou não queríeis dar-me este socorro , para que vós penhoráveis tão levemente com esta desconsolada mulher tão órfã do que pretendia , e do que lhe pareceu que achasse em vós , quão enganada agora se acha com a liberalidade das vossas promessas . Após estas palavras virou logo as costas ao capitão , e sem o querer mais ouvir , se tornou para sua casa . E mandando logo fazer prestes as suas embarcações , se partiu ao outro dia para Bintão , onde naquele tempo estava El-rei do Iantana , o qual , segundo se disse depois em Malaca , lhe fez muito grandes honras , e ela lhe deu conta do que passara com Pero de Faria , e de quão perdidas trazia as esperanças da nossa amizade , e lhe relatou por extenso todo o processo , e o sucesso do negócio . A que El-rei dizem que lhe respondeu , que quanto ao que dizia da pouco verdade que achara em nós , se não espantava , nem ela se espantasse , porque em muitas coisas o tínhamos mostrado ao mundo , e para confirmação disto lhe trouxe então alguns exemplos particulares de coisas que ele disse que passaram por nós , os quais ainda que à primeira vista parecia que faziam a seu propósito , todavia como ele era mouro , trabalhou por afear as nossas coisas de tal maneira , que as fez parecer muito mais feias e muito mais graves do que elas eram . E depois de lhe contar muitas coisas nossas muito mal feitas , a que chamava mentiras , roubos , tiranias , e lhe punha outros muitos muito maus nomes , sem tratar das razões e desculpas que aquelas coisas podiam ter por si , ainda que realmente foram tão abomináveis como as ele fazia , lhe veio enfim a dizer , que ele lhe prometia , a lei de bom rei e de mouro , que ela se visse muito cedo por seu meio dele restituída a todo seu reino , sem lhe faltar um só palmo de terra . E que para ela estar certa , e segura nisto que lhe prometia , ele era contente de a receber por mulher , se ela quisesse , porque desta maneira lhe ficava a ele ação e justiça contra o rei do achém , com o qual era forçado vir por seu respeito dela a rompimento de guerra , se livremente não quisesse desistir do que tinha tomado , ao que ela respondeu , que ainda que a honra do que lhe cometia era muito grande para ela , a não aceitaria se em dote e arras lhe não prometesse a vingança da morte de El-rei seu marido , porque lhe afirmava que isso era somente o que pretendia . El-rei , por conselho dos seus , lhe aceitou esta condição , e lha prometeu com juramento solene , tomado num livro da sua seita em que pôs a cabeça para retificação da promessa que lhe fazia . CAPÍTULO XXXI. DA NOTIFICAÇÃO QUE EL-REI DO IANTANA MANDOU FAZER AO REI DO ACHÉM SOBRE O REINO DE AARÛ , E DO QUE LHE ELE RESPONDEU ] Depois que El-rei fez este juramento nas mãos do seu caciz maior , por nome Raja Moulana , em um dia da festa do seu Ramadão , se passou à ilha Campar , onde depois de se celebrarem as festas das suas vodas , teve conselho sobre o que se devia de fazer neste negócio em que se metera , porque bem entendia que era assaz dificultoso , por quanto lhe era forçado aventurar nele muito do seu . E a última resolução que se tomou nele , por parecer de todos os seus , foi , que antes de entender em coisa alguma , mandasse notificar ao rei do achém o direito que tinha novamente no reino de Aarû , por parte do casamento com a rainha dele sua nova mulher , e que segundo lhe ele respondesse , assim se determinaria . El-rei parecendo-lhe bem este conselho , ordenou logo um embaixador com um rico presente de peças de ouro , e de panos de seda , pelo qual escreveu uma carta ao rei do achém que dizia assim . Siribi laya quendou pracamaa de raja , direito rei por sucessão de património da minha cativa Malaca , usurpada por jugo tirânico de força de braço na injustiça dos infiéis , rei do Iantana , e de Bintão , e dos súditos reis de Andraguiree , e de Lingaa a ti Siry sultão Alaradim rei do achém , e de toda a mais terra de ambos os mares , meu verdadeiro irmão pela antiga amizade de nossos avós favorecido por selo dourado da santa casa de Meca por bom e fiel Daroez , como os datos moulanas que por honra do profeta Noby peregrinaram com estéril vida os cansados dias desta miséria . Eu teu conjunto na carne e sangue te faço saber por meu embaixador , que os dias passados da sétima lua deste novo ano em que agora vivemos , veio a mim com grande afronta e trabalho a nobre viúva Anchenisy rainha de Aarû , e com rosto triste , e olhos chorosos , prostrada por terra me disse , rasgando as faces com suas unhas , que teus capitães lhe tinham tomado seu reino , com ambos os rios de Laue , e Puneticão , e morto Alibomcar seu marido , com mais cinco mil amborrajas , e ourobalões , gente principal que consigo tinha , e cativas três mil crianças que nunca pecaram , as quais cingidas com cordas , e com as mãos atadas continuamente açoitavam muito sem piedade , como que foram filhos de mais infiéis , pelo qual movido eu teu irmão à proximidade , que o santo Alcorão nos ensina e nos obriga , a recebi debaixo do amparo de minha verdade , para assim mais seguro me poder informar da razão ou justiça que para isso podias ter , e achando eu em seu juramento não teres nenhuma , a recebi por mulher , para que assim livremente lhe possa alegar com direito sua ação diante de Deus . Pelo qual te peço e rogo como teu verdadeiro irmão , que mandes como bom mouro largar-lhe o que lhe tomaste , e de tudo lhe faças restituição franca e boa , pois na lei professada da nossa verdade a isso és obrigado , e quanto ao modo que se há de ter na entrega disto , que peço se fará pela forma do regimento que Siribicão meu embaixador te mostrará , e não o fazendo assim , conforme ao que por lei de justiça te peço , me hei por declarado contigo por parte desta senhora , à qual por dote me obriguei com juramento solene a defender a causa de seu desamparo . Chegado este embaixador ao achém , ele o mandou receber honradamente , e lhe tomou a carta que lhe trazia , porém depois que a mandou ler e viu o que vinha nela , o quisera logo mandar matar , se alguns dos seus lhe não foram à mão , dizendo-lhe que se o fizesse seria infâmia sua muito grande . E despedindo-o logo sem lhe querer tomar o presente em sinal de desprezo , lhe respondeu por estas palavras . Eu o sultão Alaradim rei do achém , de Baarrós , de Peedir , de Paacem , e dos senhorios de Dayaa , e batas , príncipe de toda a terra de ambos os mares Mediterrâneo e oceano , e das minas de Menamcabo , e do novo reino de Aarû , com justa causa agora tomado , a ti rei cheio de festa com desejo de duvidosa herança , vi tua carta escrita em mesa de voda , e pelas inconsideradas palavras dela conheci a bebedice dos teus conselheiros , à qual não quisera responder , se mo não pediram os meus , pelo que te digo que me não desculpes diante de ti , que te confesso que tal louvor não quero , e quanto ao reino de Aarû não fales nele , se queres ter vida , basta mandá-lo eu tomar , e ser meu , como muito cedo será esse teu . E se casaste com Anchesiny tua mulher à conta de com isso te justificares no direito do reino que já não é seu , com ela te ficarás como ficam os outros casados com suas mulheres , que cultivando a terra se sustentam , do trabalho de suas mãos . Toma primeiro Malaca , pois que foi tua , e então entenderás no que nunca foi teu , e eu te favorecerei como a vassalo , mas não como a irmão por que te nomeias . Desta minha grande casa do rico achém , ao primeiro dia da chegada desse teu homem , que logo de mim despedi , sem o querer mais ver , nem ouvir , como te ele dirá . CAPÍTULO XXXII. DO QUE MAIS PASSOU ENTRE EL-REI DO IANTANA , E O DO ACHÉM SOBRE O NEGÓCIO DESTA EMBAIXADA ] Despedido o embaixador de El-rei do Iantana com esta resposta no mesmo dia que foi ouvido , que entre eles costuma a ser um notável desprezo , tornando a levar consigo o presente , que também lhe não quis aceitar , para mais abatimento e afronta do mesmo embaixador que o trazia , chegou a Campar , onde naquele tempo estava o rei do Iantana , o qual quando soube todas estas coisas , dizem que ficou tão colérico que afirmavam os seus que por algumas vezes o viram chorar em segredo , como homem que sentira muito o pouco caso que o tirano achém fizera dele . E tornando outra vez a haver conselho sobre a determinação deste negócio , se assentou que por todas as vias lhe fizesse guerra como a inimigo capital , e se entendesse logo primeiro que tudo em se tomar o reino de Aarù , e a fortaleza de Puneticão , antes que o achém o fortificasse mais . E para efeito disto fez logo El-rei prestes com a mor presteza que foi possível uma grossa armada de duzentas velas de remo , de que a maior parte eram lancharas , joangas , e calaluzes , e quinze juncos de alto bordo , com mantimentos e munições , e as mais coisas necessárias para esta empresa , e pôs nela por capitão-mor o grande Laque Xemena seu almirante , de quem as histórias da Índia fazem muitas vezes menção , ao qual deu para ela dez mil homens de peleja , e quatro mil de chusma , gente muito escolhida e exercitada na guerra . O almirante se partiu logo com toda esta frota , e chegando ao rio de Puneticão , onde estava a fortaleza dos inimigos , acometeu por cinco vezes à escala vista com trezentas escadas , ajuntando a isto muitas invenções de artifícios de fogo , e não a podendo assim tomar a começou a bater com quarenta peças de artilharia grossa , que nunca cessaram de tirar de dia nem de noite , de maneira que a cabo de sete dias que continuou a bataria , a maior parte da fortaleza foi posta por terra , e dando logo os inimigos o assalto , a entraram muito valorosamente , com morte de mil e quatrocentos achéns , de que a maior parte era chegada um dia antes que esta frota chegasse , com um capitão turco sobrinho do baxá do Cairo , por nome Morado Arraiz , o qual também ali ficou morto com duzentos turcos que tinha consigo , sem o Laque Xemene querer que se desse vida a nenhum deles . E com tanta pressa tornou logo a reparar o que caíra , com estacadas , e entulhos de pedra em choça ; em que a maior parte da gente trabalhava , que em doze dias tornou a fortaleza a ficar no estado primeiro , e com dois baluartes mais de vantagem . As novas desta frota que El-rei do Iantana fazia nos portos de Bintão e Campar chegaram logo ao tirano rei achém , o qual temendo perder o que tinha ganhado , fez logo aparelhar outra de cento e oitenta velas , fustas , lancharas , e galeotas , e quinze galés de vinte e cinco bancos , na qual fez embarcar quinze mil homens , os doze mil de peleja , a que eles chamam de baileu , e os mais chusma do remo , e por general desta frota mandou o mesmo Heredim mafamede que antes tomara este reino , como atrás fica dito , pelo ter por homem de grandes espíritos , e bem afortunado na guerra , o qual se partiu com toda esta frota , e chegando a um lugar que se dizia Aapessumhee , quatro léguas do rio de Puneticão , soube por alguns pescadores que aí tomou , tudo o que na fortaleza , e no reino era passado , e como Laque Xemene estava apoderado , assim da terra como do mar esperando por ele , com a qual nova dizem que o Heredim mafamede ficou muito embaraçado , porque na verdade nunca lhe pareceu que os inimigos fizessem tanto em tão pouco tempo . Tomando então conselho sobre o que se devia de fazer , se afirmou que o voto dos mais fora , que já que a fortaleza e o reino eram tomados , e toda a gente morta , e os inimigos estavam tão poderosos no mar , e na terra , que em todo caso se devia de tornar , visto não estar o tempo conforme ao que eles cuidavam . Porém o Heredim mafamede foi muito contra isso , dizendo que antes queria morrer como homem , que viver em desonra como mulher , porque já que seu rei o escolhera para aquele feito , não quisesse Deus que ele perdesse ponto da opinião que todos tinham dele , pelo que prometia e jurava pelos ossos de mafamede , e por quantas lâmpadas continuamente ardiam na sua capela , de matar por traidor todo o que fosse contra este seu parecer , e o mandar cozer vivo numa caldeira de breu , como também havia de fazer ao mesmo Laque Xemena : e com este fervor e alvoroço se abalou dali donde se estava surto , com grandes gritas , e grande vozaria de instrumentos , e tambores , e sinos , como em semelhantes tempos costumam , e cometeu à vela e a remo a entrada do rio , e chegando à vista da armada do Laque Xemena , ele que já a este tempo estava prestes , e reformado de muita e boa gente que de novo lhe acudira de Pera , Bintão , Siaca , e de outros lugares aí comarcãos , abalou logo do lugar onde estava , e o veio receber ao meio do rio , e depois de se fazerem de ambas as partes as salvas acostumadas de artilharia , arremeteram de voga arrancada uns aos outros , e como iam desejosos de se chegarem , a briga se travou entre eles de maneira , que por espaço de quase hora e meia , se não enxergou melhoria em nenhuma das partes , até que o Heredim mafamede general dos achéns foi morto de uma bomba de fogo , que lhe deu nos peitos , que logo o fez em dois pedaços , com cuja morte os seus desacoroçoaram de tal maneira , que querendo voltar para uma ponta a que chamavam Batoquirim , com tenção de aí feitos todos em um corpo , se fazerem fortes até vir a noite , em que determinavam de se acolherem , o não puderam fazer , porque a corrente de água , que era muito grande , os dividiu em muitas partes . E desta maneira a armada do tirano achém ficou toda em poder do Laque Xemena , sem escaparem dela mais que só quatorze velas , e as cento e sessenta e seis foram tomadas , e mortos treze mil e quinhentos homens , afora os mil e quatrocentos que morreram na tranqueira . Chegadas estas quatorze velas ao achém , lhe deram conta de tudo o que passava , de que dizem que ficou tão triste , que vinte dias o não viu pessoa nenhuma , no fim dos quais mandou cortar as cabeças aos capitães das quatorze velas , e a todos os mais que nelas vinham mandou rapar as barbas , e que só pena de serem serrados vivos dali por diante andassem sempre vestidos como mulheres , tangendo com adufes por onde quer que fossem , e que quando jurassem sobre alguma coisa , fosse , assim me Deus traga meu marido , ou assim eu veja prazer dos que pari . E estes homens vendo-se constrangidos a um castigo tão afrontoso , quase todos se desterraram , e muitos tomaram a morte com suas próprias mãos , uns com peçonha , outros enforcando-se , e alguns deles a ferro . E desta maneira que tenho contado , e que pontualmente assim passou na verdade , ficou o reino de Aarù livre deste tirano achém , e em poder do rei Iantana , até o ano de mil e quinhentos sessenta e quatro , que o mesmo achém com uma frota de duzentas velas , fingindo ir sobre Patane , deu manhosamente uma noite no Iantana , onde o rei então estava , e o tomou às mãos com suas mulheres e filhos , e outra muita gente , e os levou cativos para sua terra , onde de todos , sem perdoar a nenhum , mandou fazer cruéis justiças , e ao rei com um pau muito grosso fez botar os miolos fora , e tornou de novo a senhorear o reino de Aarù , de que logo intitulou por rei o seu filho mais velho , que foi o que depois mataram em Malaca vindo-a ele cercar , sendo capitão da fortaleza Dom Lionis Pereira filho do conde da Feira , que lha defendeu com tanto esforço , que pareceu mais milagre que obra natural , por ser então tamanho o poder deste inimigo , e os nossos tão poucos em sua comparação , que bem se pudera dizer com verdade que eram duzentos mouros para cada cristão . CAPÍTULO XXXIII. COMO INDO EU DE MALACA PARA O REINO DE PÃO ACHEI VINTE TRÊS CRISTÃOS PERDIDOS NO MAR ] Agora me quero tornar ao propósito de que ia tratando . Sendo eu , como já atrás tenho dito , convalescido da doença que trouxe do cativeiro de Siaca , Pero de Faria desejando de me abrir algum caminho por onde eu viesse a ter alguma coisa de meu , me mandou em uma lanchara de remo ao reino de Pão , com dez mil cruzados de sua fazenda , para os entregar a um seu feitor que lá residia , por nome Tomé Lobo , e daí me passar a Patane , que era outras cem léguas avante , com uma carta e um presente para o rei , e tratar com ele a liberdade de uns cinco portugueses que no reino de Sião estavam cativos do Monteo de Banchà seu cunhado . Partindo eu de Malaca com este desenho , aos sete dias da minha viagem , sendo uma noite tanto avante como a ilha de Pulo Timão , que pode ser noventa léguas de Malaca , e dez ou doze da barra de Pão , quase meio quarto de alva passado , ouvimos por duas vezes uma grande grita no mar , e não vendo nada por causa do grande escuro que ainda fazia , ficamos todos muito suspensos , porque não sabíamos atinar com que aquilo seria , e mareando as velas , fomos guinando para onde tínhamos ouvido o tom da grita , vigiando cos rostos baixos , para vermos se podíamos divisar o que aquilo fosse . E continuando nesta confusão obra de uma hora enxergamos muito ao longe uma coisa preta e rasa , sem vulto nenhum , e não sabendo determinar o que seria , tornamos de novo a haver conselho sobre o que nisso faríamos , e conquanto na lanchara não éramos mais que quatro portugueses , os pareceres foram muitos e muito diferentes uns dos outros , em que houve requererem-me que não quisesse saber o que me não relevava , e me fosse para onde me mandava Pero de Faria , porque perder uma só hora daquele tempo , era pôr a viagem em ventura , e a fazenda em risco , e eu ficar dando má conta de mim se me acontecesse algum desastre . A que eu respondi , que por nenhuma coisa que sucedesse havia de deixar de saber o que aquilo era , porque se eu errasse nisso , como eles diziam , só a Pero de Faria , cuja era a lanchara e a fazenda , havia de dar a conta , e não a eles que não tinham ali mais que suas pessoas somente , em que ia tão pouco como na minha . E enquanto duraram estas altercações , quis Deus que esclareceu a manhã , em que distintamente vimos que era gente que se perdera no mar , que andava sobre paus , então lhe pusemos afoutamente a proa a vela e a remo , e chegando-nos bem a eles para que nos conhecessem , gritaram muito alto por seis ou sete vezes , sem dizerem outra coisa , senão , Senhor Deus misericórdia , com a qual novidade ficamos todos tão confusos , e pasmados que quase ficamos como fora de nós , e mandando muito depressa lançar os remeiros da lanchara ao mar , os metemos todos dentro , que eram vinte e três pessoas , quatorze portugueses , e nove escravos , os quais todos vinham tão disformes nas figuras dos rostos que metiam medo , e tão fracos que nem a fala podiam bem lançar pela boca . E depois de serem recolhidos e agasalhados o melhor que então foi possível , lhe perguntamos pela causa da sua desaventura : a que um deles respondeu com assaz de lágrimas , senhores a mim me chamam Fernão Gil Porcalho , e este olho que me vedes menos , me quebraram os achéns na tranqueira de Malaca , quando da segunda vez vieram sobre Dom Estêvão da Gama , o qual desejando de me fazer mercê , por me ver tão pobre como era naquele tempo , me deu licença que fosse a Maluco , onde provera a Deus que não fora , já que tal sucesso havia de ter a minha ida , porque depois que parti do porto de Talãgame , que é o surgidouro da nossa fortaleza Ternate , havendo já vinte e três dias que navegamos com tempos bonanças , e bem contentes de nós , em um junco que trazia mil bares de cravo , que valiam mais de cem mil cruzados , quis a minha triste ventura por muitos pecados que contra Deus cometi , que sendo noroeste sudeste com a ponta de Surobaya , na ilha da Iaoa , nos deu um tempo de norte tão rijo , que com a vaga dos mares cruzados , e com grande escarcéu que o mar levantou , nos abriu o junco pela roda de proa ; pelo qual nos foi forçado alijar o convés , e correndo assim aquela noite a árvore seca , sem mostrar ao vento um só palmo de vela , por serem insofríveis as refregas que a miúdo o tempo de si lançava , viemos com assaz de trabalho até meio quarto de alva rendido , em que subitamente se nos foi o junco ao fundo , sem dele se salvarem mais que estas vinte e três pessoas que nos aqui vedes , de cento e quarenta e sete que nele vínhamos . E já há quatorze dias que andamos sobre estes paus , sem em todos eles comermos mais que um cafre meu que nos faleceu , com que todos nos sustentamos oito dias , e ainda esta noite nos faleceram dois portugueses que não quisemos comer , tendo disso bem de necessidade , porque sem dúvida nos pareceu que hoje até a manhã acabássemos com a vida estes miseráveis trabalhos em que nos víamos . CAPÍTULO XXXIIII. COMO CHEGUEI AO REINO DE PÃO COM ESTES PERDIDOS , E DO MAIS QUE AÍ PASSEI ] Assaz suspensos e pasmados ficamos todos com que ouvimos a este homem , vendo o triste e miserável estado a que chegaram ele e seus companheiros , e não deixou também de nos espantar muito ver o meio por onde Nosso Senhor por sua misericórdia os quis salvar tão milagrosamente , e lhe demos todos por isso muitos louvores , e os novos hóspedes consolamos , e animamos fazendo-lhe aquelas cristãs lembranças que a nossa pobre capacidade então nos ensinou . E também partimos com eles dos vestidos que tínhamos , com que eles ficaram algum tanto reparados naquela falta , e deitando-os nas camas em que dormíamos , lhes fizemos os remédios que nos pareceu que lhes poderiam aproveitar para repousarem , porque eles , parece que por não dormirem havia tanto tempo , vinham tão arvoados das cabeças que caíam no chão com uns estremecimentos de maneira que por uma grande hora não tornavam em si . Daqui desta paragem nos fomos demandar a barra de Pão , onde chegamos quase à meia noite que surgimos na boca da barra defronte de uma povoação pequena que se dizia Campalarau , e como a manhã foi clara , nos fomos a remo pelo rio acima até a cidade , que seria dali pouco mais de uma légua , onde achamos o Tomé Lobo , que , como disse , aí residia por feitor do capitão de Malaca , a quem entreguei a fazenda que levava . E neste dia nos faleceram três portugueses dos quatorze que achamos perdidos , um dos quais foi o Fernão Gil Porcalho capitão do junco , e cinco moços cristãos , os quais todos lançamos de noite ao mar , com penedos atados nos pés e nos pescoços para que se fossem ao fundo , porque na cidade no-los não quiseram deixar enterrar , conquanto Tomé Lobo lhe dava por isso quarenta cruzados , dando por razão que ficaria a terra maldita , e incapaz de poder criar coisa alguma , porquanto aqueles defuntos não iam lavados do muito porco que tinham comido , que era o mais grave e enorme pecado que quantos na vida se podiam imaginar : aos outros destes perdidos que ficaram vivos , agasalhou o Tomé Lobo , e os proveu a todos muito abastadamente de tudo o que lhes foi necessário até convalescerem , e se irem para Malaca . Dali a alguns dias querendo eu seguir minha viagem para onde levava determinado , que era até Patane , o Tomé Lobo mo não consentiu , pedindo-me muito que o não fizesse , porque me afirmava que se não havia por seguro naquela terra , por lhe dizerem que um Tuão Xerrafaõ , homem muito principal nela , tinha jurado de lhe pôr o fogo à casa , para o queimar dentro com quanta fazenda nela estivesse , por dizer que em Malaca lhe tomara um feitor do capitão cinco mil cruzados em beijoim , e seda , e águila , a muito menos preço do que valia , e lhos pagara em roupa podre a como quisera , pelo que dos cinco mil cruzados de emprego , que em Malaca valiam mais de dez mil , a fora o retorno de boas fazendas que de lá pudera trazer em que montaria quase outro tanto de ganho , não tirara mais que só setecentos cruzados . E que já por duas vezes o tinham tentado com arruído feitiço , só a fim de ele sair fora , e o matarem na briga , pelo qual sendo caso que sucedesse alguma coisa daquelas de que se temia , não seria mau achar-me eu ali para salvar a fazenda que ali tinha , porque se não perdesse à míngua , a que eu , depois de lhe dar algumas razões por minha parte , que me ele não quis aceitar , dando-me sempre outras em contrário das que eu lhe dava , lhe vim enfim a dizer , que sendo caso que o matassem , como ele dizia , a fim de lhe roubarem aquela fazenda , que onde poderia eu escapar que me não fizessem o mesmo ? E que se tinha aquela nova por tão certa como me afirmava , que porque deixava ir aqueles onze portugueses , ou porque não se embarcava com eles para Malaca ? a que respondeu : Sabe Deus quão arrependido eu estou disso , mas já que o eu não fiz como dizeis , fazei vos agora isto que vos eu peço e requeiro da parte do senhor capitão , a a quem logo hei de escrever , e dar conta de todas estas coisas que passei convosco , e ele vos não há de ter a bem deixardes-me aqui só com sua fazenda , que não é tão pouca que não passe de trinta mil cruzados de emprego , e meus quase outros tantos . Eu , vendo-me assim confuso entre o requerimento que me ele fazia para ficar , e o perigo que eu corria se ficasse , não me sabia determinar a qual destes dois extremos me inclinasse , pelo qual , depois de lançar minhas cotas , me foi forçado por melhor remédio , vir a concerto com ele por esta maneira , que se dentro de quinze dias se não aviasse para se embarcar comigo naquela lanchara para Patane , com a fazenda feita em ouro e pedraria , de que então havia na terra muita quantidade , assim de uma coisa como de outra , que eu me pudesse ir livremente para onde levava minha derrota , o que ele aceitou , e desta maneira ficamos ambos bem avindos . CAPÍTULO XXXV. COMO EL-REI DE PÃO FOI MORTO , E QUEM O MATOU , E A RAZÃO PORQUE , E DO QUE ENTÃO NOS SUCEDEU A TOMÉ LOBO E A MIM ] Tomé Lobo se deu tanta pressa em vender a fazenda , como quem se temia do que lhe tinham certificado , e fez tão bom barato dela , que em menos de oito dias as casas estavam despejadas de toda a roupa , e não querendo tomar pimenta , nem cravo , nem outra droga nenhuma que pudesse fazer pejo , a trocou somente por ouro de Menancabo , e por diamantes que aí tinham vindo nos jurupangos de Laue , e de Tanjampura , e por algumas pérolas de Bornéo e Solor . E tendo já quase tudo arrecadado , com tenção de nos embarcarmos ao outro dia , ordenou o demónio que aquela noite logo seguinte acontecesse um caso assaz espantoso , o qual foi que um Coja Geinal embaixador de El-rei de Bornéo que havia já três ou quatro anos que residia na corte de El-rei de Pão , e era homem muito rico , matou a El-rei , pelo achar com sua mulher , pela qual causa foi tamanha a revolta na cidade , e em todo o povo , que não parecia coisa de homens , se não de todo o inferno junto ; vendo então alguns vadios e gente ociosa , desejosa de tais sucessos como aqueles , que o tempo e a ocasião era muito acomodada para fazerem o que antes com temor do rei não ousavam , se ajuntaram numa grande companhia quase quinhentos ou seiscentos destes , e em três quadrilhas se vieram à feitoria onde pousava o Tomé Lobo , e abalroando as casas por seis ou sete partes , nelas entraram por força , por mais que as nós defendemos , e na defesa delas foram mortas da nossa parte onze pessoas , entre as quais foram os três portugueses que eu trouxera comigo de Malaca , e o Tomé Lobo escapou com seis cutiladas , de uma das quais lhe derrubaram a face direita até o pescoço , de que esteve à morte , pelo que a ambos nos foi forçado largarmos-lhe a pousada com toda a fazenda que nela havia , e recolhermo-nos à lanchara , na qual prouve a Deus que escapamos com mais cinco moços , e oito marinheiros , porém da fazenda não escapou nada , a qual só em ouro e pedraria passava de cinquenta mil cruzados . Na lanchara nos deixamos estar até que foi manhã com assaz de aflição , porém com boa vigia , para vermos o em que parava a grande união que geralmente havia em todo o povo , e vendo que ia o negócio cada vez para pior , houvemos por melhor conselho passarmo-nos dali para Patane , que pormo-nos a risco de nos acabarem ali de matar , como fizeram a mais de quatro mil pessoas . E partindo-nos logo dali , dentro de seis dias chegamos a Patane , onde fomos bem recebidos dos portugueses que havia na terra , aos quais demos conta de tudo o que acontecera em Pão , e do mau estado em que ficava a miserável cidade , de que todos mostraram pesar-lhes muito , e querendo fazer sobre isto alguma coisa , movidos somente do zêlo de bons portugueses , se foram todos a casa de El-rei , e se lhe queixaram muito da sem-razão que se fizera ao capitão de Malaca , e lhe pediram licença para se entregarem da fazenda que lhe era tomada , o que El-rei lhes concedeu levemente , dizendo : Razão é que façais como vos fazem , e que roubeis quem vos rouba , quanto mais ao capitão de Malaca , a quem todos sois tão obrigados . Os portugueses todos lhe deram muitas graças por aquela mercê ; e tornando-se para suas casas , assentaram que se fizesse represa em toda a coisa que achassem ser do reino de Pão , até que de todo se satisfizesse aquela perda . E dali a nove dias sendo avisados que no rio de Calantão , que era dali dezoito léguas , estavam três juncos da China muito ricos , de mercadores mouros naturais do reino de Pão , que com tempo contrário se vieram ali meter , ordenaram logo de armarem sobre eles . E embarcando-se oitenta portugueses dos trezentos que então havia na terra , em duas fustas , e um navio redondo , bem aparelhados de todas as coisas necessárias à empresa que levavam , se partiram dali a três dias com grande pressa , por se temerem que se fossem sentidos pelos mouros da terra dessem aviso aos outros mouros que eles iam buscar . Destas três embarcações era capitão-mor um João Fernandes D'Abreu , natural da ilha da Madeira , filho do amo de El-rei Dom João , que ia no navio redondo , e levava consigo quarenta soldados , e das duas fustas , eram capitães Lourenço de Góes , e Vasco Sermento seu primo , ambos naturais da cidade de Bragança , e todos muito esforçados e práticos na milícia naval . Ao outro dia seguinte chegaram estes nossos navios ao rio de Calantão , e vendo que estavam surtos nele os três juncos de que tiveram novas , os cometeram muito esforçadamente , e conquanto os de dentro trabalharam quanto puderam pelos defenderem , enfim não lhes aproveitou nada , porque em menos de uma hora foram todos rendidos com morte de setenta e quatro deles e dos nossos três somente , mas houve muitos feridos . E não trato de particularizar aqui o que uns e outros fizeram , por me parecer desnecessário , somente direi o que me parece que faz mais ao caso . Rendidos e tomados os três juncos , os nossos se fizeram à vela , e se saíram do rio , levando os juncos consigo , porque já neste tempo toda a terra estava amotinada , e navegando dali para Patane com bom vento , chegaram lá ao outro dia quase à véspera , e surtos , salvaram o porto com grande festa e estrondo de artilharia , a que os mouros da terra não tinham paciência . E conquanto eram de pazes e se davam por nossos amigos , todavia trabalharam quanto foi possível , com peitas que deram aos regedores , e aos privados de El-rei , para que fizessem com ele que nos acoimasse o feito e nos lançasse fora da terra , o que El-rei não quis fazer , dizendo , que por nenhum caso havia de quebrar as pazes que seus antepassados tinham feitas com Malaca , mas querendo - se fazer terceiro , e meter a mão entre nós e os tomados , nos pediu que satisfazendo os três Necodás senhorios dos juncos o que em Pão se tomara ao capitão de Malaca , lhes largassem livremente as suas embarcações , o que João Fernandes D'Abreu , e os mais portugueses outorgaram pelo muito desejo que viram que El-rei tinha disso , de que se ele mostrou muito contente , e lhes agradeceu aquela boa vontade com muitas palavras . E desta maneira se cobraram os cinquenta mil cruzados que Pero de Faria e Tomé Lobo tinham perdidos , e os portugueses ficaram na terra com crédito e nome honroso , e muito temidos dos mouros . E estes três juncos que então se tomaram , se afirmou por dito dos que vinham neles , que só em prata traziam duzentos mil taéis , que são da nossa moeda trezentos mil cruzados , a fora outra muita fazenda , de que vinham bem carregados . CAPÍTULO XXXVI. DE UM TRISTE CASO QUE NA BARRA DE LUGOR NOS ACONTECEU ] Havendo já vinte e seis dias que eu estava aqui em Patane acabando de aviar uma pouca de fazenda que viera da China para me tornar logo , chegou uma fusta de Malaca , de que vinha por capitão um António de Faria de Sousa , o qual , por mandado de Pero de Faria , vinha a fazer ali certo negócio com El-rei , e assentar com ele de novo as pazes antigas que tinha com Malaca , e agradecer-lhe o bom tratamento que no seu reino fazia aos portugueses , e outras coisas a este modo de boa amizade , importantes ao tempo , e ao interesse da mercância , que na verdade era o que mais se pretendia que tudo , porém esta tenção vinha rebuçada com uma carta a modo de embaixada , acompanhada de um presente de boas peças , mandadas em nome de El-rei Nosso Senhor , e à custa de sua fazenda , como é costume fazerem os capitães todos naquelas partes . Este António de Faria trazia uns dez ou doze mil cruzados em roupas da Índia que em Malaca lhe emprestaram , as quais eram de tão má digestão naquela terra , que não havia pessoa que lhe prometesse nada por elas , pelo que vendo-se ele de todo desesperado de as poder gastar , determinou de invernar ali até lhe buscar expediente por qualquer via que fosse possível , e foi aconselhado por alguns homens mais antigos na terra que a mandasse a Lugor , que era uma cidade do reino de Sião mais abaixo para o norte cem léguas , por ser porto rico , e de grande escala , em que havia grande soma de juncos da ilha da Iaoa , dos portos de Laue , Tanjampura , Iapara , Demaa , Panaruca , Sidayo , Passaruão , Solor , e Bornéo , que a troco de pedraria e ouro costumavam a comprar bem aquelas fazendas . António de Faria parecendo-lhe bem este conselho , determinou de o fazer assim , e ordenando logo aí na terra uma embarcação para a mandar , porque a fusta em que viera não estava para isso , fez seu feitor um Cristóvão Borralho homem bem entendido no negócio da mercância , com o qual foram dezesseis homens chatins , e soldados com suas fazendas , parecendo-lhes que pelo menos fariam de um seis ou sete , assim no que levassem como no que trouxessem , na qual ida , o pobre de mim acertou de ser um dos desta companhia . Partidos daqui um sábado pela manhã , e navegando sempre ao longo da costa com ventos bonanças , chegamos à barra de Lugor à quinta-feira seguinte pela manhã . E surgindo na boca do rio , nos deixamos aí estar todo aquele dia , informando-nos muito miudamente do que convinha , assim para a mercância , como para a segurança de nossas pessoas . E as novas que aí achamos foram tão boas , que na veniaga esperávamos de dobrar o dinheiro quase seis vezes , e no mais havia segurança para todos , com liberdade e franquia por todo aquele mês de setembro , conforme ao estatuto do rei de Sião , por ser o mês das zumbaias dos reis . E para que se isto melhor entenda , é necessário saber-se que em toda esta costa do malaio , e por dentro do sertão domina um grande rei , que por título famoso sobre todos os outros se chama Prechau Saleu imperador de todo o Sornau , que é uma província de treze reinos a que vulgarmente chamamos Sião , ao qual são sujeitos , e pagam páreas cada ano catorze reis pequenos , os quais por costume antigo eram obrigados a irem pessoalmente todos os anos à cidade Odiaa metrópole deste império Sornau , e reino Sião , levar estas páreas que eram obrigados pagar , e fazerem-lhe a zumbaia , que era beijarem-lhe o terçado que tinha na cinta . E porque esta cidade está cinquenta léguas pela terra dentro , e as correntes do rio são muito grandes , pela qual razão se acontecia invernarem lá estes reis muitas vezes , com muita despesa de suas fazendas , informado o Prechau rei de Sião disto por petição que todos os catorze reis lhe fizeram , houve por bem mudar-lhe esta sujeição tão grave noutra mais leve , e ordenou que dali por diante houvesse nesta cidade de Lugor um vice-rei , a que em sua língua chamam , Poypho , ao qual estes catorze reis de três em três anos viessem pessoalmente dar obediência , como antes costumavam dar a El-rei , e pagassem então por junto todas as páreas que cada um devesse de todos três anos , e que naquele mês em que eles viessem dar aquela obediência , os franqueava em suas fazendas , e a todos os mais mercadores que naquele mês entrassem e saíssem , assim naturais como estrangeiros . E porque na conjunção em que aqui chegamos , como atrás disse , era o tempo desta franquia , eram tantos os mercadores que vinham de todas as partes , que se afirmava serem entradas nesta cidade passante de mil e quinhentas embarcações de diversas partes com infinidade de fazendas ricas . E esta é a nova que achamos quando surgimos na boca do rio , com a qual ficamos todos bem alvoroçados e contentes e determinamos que tanto que viesse a viração entrarmos para dentro , porém quis a desaventura por nossos pecados , que não víssemos isto que tanto desejávamos , porque sendo quase às dez horas , estando já para jantar , e com a amarra a pique para em acabando nos fazermos à vela , vimos vir de dentro do rio um junco muito grande só com traquete , e mezena , e em emparelhando conosco surgiu , um pouco a barlavento donde nós estávamos , e tanto que foi surto , conhecendo que éramos portugueses , e muito poucos , e nos viu a embarcação tão pequena , arriando da amarra , se deixou descair sobre nós , e igualando-se com a nossa proa pela banda do astribordo nos lançou dois arpéus talingados em duas cadeias de ferro muito compridas com que nos atracou a bordo . E como a sua embarcação era muito grande , e a nossa muito pequena , lhe ficamos metidos debaixo da gorja dos escovéns de proa . Saindo então da tolda , onde até então estiveram escondidos , obra de setenta ou oitenta mouros , entre os quais havia alguns turcos de mistura , deram uma grande grita , e após ela foram tantas as pedras , os zargunchos , as lanças , e as chuças de arremesso sobre nós , que parecia chuva que caía do céu , com que logo em menos de um credo , dos dezesseis portugueses que éramos , os doze foram mortos com mais trinta e seis moços e marinheiros . Os quatro que escapamos nos lançamos ao mar , onde se afogou logo um deles , e os três fomos ter a terra bem escalavrados , e saindo por uma vasa onde atolávamos até a cinta , nos metemos pelo mato . Os mouros do Iunco , entrando logo na nossa embarcação , acabaram ainda de matar uns seis ou sete moços que no convés acharam feridos , sem a nenhum quererem dar vida . E metendo no junco com a maior pressa que puderam toda a fazenda quanta acharam na embarcação , lhe fizeram um rombo , com que a meteram no fundo . E largando a amarra e os arpéus da abalroa com que nos atracaram se fizeram logo à vela , porque arrecearam poderem ser conhecidos . CAPÍTULO XXXVII. DO QUE PASSAMOS OS TRÊS COMPANHEIROS DEPOIS QUE NOS METEMOS PELO MATO DENTRO ] Os três companheiros que escapamos daquela desaventura , vendo-nos assim feridos , e sem remédio nenhum , nos pusemos todos a chorar , e darmos muitas bofetadas em nós , como homens desassisados , e pasmados , do que tínhamos visto havia menos de meia hora , e desta maneira passamos aquele triste dia . E vendo que a terra ali era alagadiça , e cheia de muitos lagartos e cobras , houvemos que o melhor conselho era deixarmo-nos ali ficar também aquela noite , a qual passamos atolados na vasa até os peitos , e ao outro dia , sendo já manhã clara nos fomos ao longo do rio até um esteiro pequeno , que nos não atrevemos a passar , assim por ser muito fundo , como pela grande soma de lagartos que nele vimos : e ali passamos também a noite com assaz de trabalho , no qual continuamos mais cinco dias , sem podermos ir atrás nem adiante , por seu tudo apaulado , e cheio de grandes ervaçais , e neste tempo nos faleceu um dos companheiros , por nome Bastião Henriques homem muito honrado e rico , e que na lanchara perdera oito mil cruzados . Os outros dois que ficamos somente , que éramos Cristóvão Borralho e eu , nos pusemos a chorar à borda do rio em cima do morto mal enterrado , e já neste tempo tão fracos que nem falar podíamos , e com determinação de acabarmos ali essas poucas horas que cuidávamos que nos ficavam de vida . Ao outro dia , que era o sétimo de nossa desaventura , já quase sol posto vimos vir a remo pelo rio acima uma barcaça carregada de sal , e perlongando de junto de nós , pedimos de joelhos aos remeiros que nos quisessem tomar , eles quando nos viram , pararam um pouco , cos olhos postos em nós , como espantados de nos verem da maneira que estávamos em joelhos , e com as mãos levantadas , como quem fazia oração , e sem nos responderem , fizeram mostra de quererem seguir seu caminho , a que ambos gritando em altas vozes , tornamos a pedir com muitas lágrimas que nos não deixassem ali morrer . Ao tom destes nossos brados saiu de debaixo do toldo uma mulher já de dias , que no aspecto e na gravidade de sua pessoa mostrava bem ser quem depois soubemos que era , a qual em nos vendo da maneira que estávamos , como quem se apiedava de nós , e se condoía de nossa desaventura , e das feridas que lhe mostramos , tomando um pau na mão , fez chegar a barcaça a terra , e por três ou quatro vezes deu nos marinheiros com ele , porque refusavam . E saltando seis deles em terra nos tomaram às costas , e nos meteram dentro . Esta honrada mulher em nos vendo assim feridos , e com as camisas e calções envoltos em lama e em sangue , nos mandou logo lavar com muitos baldes de água , e dar a cada um seu pano com que por então nos cobrimos , e fazendo-nos assentar junto de si , nos mandou trazer de comer , e ela mesma no-lo pôs diante por sua mão , e nos disse , comei vos outros pobres estrangeiros , e não vos desconsoleis por vós verdes dessa maneira ; porque aqui estou eu , que sou mulher e não tão velha que passe de cinquenta anos , e há menos de seis que me vi cativa e roubada de mais de cem mil cruzados que tinha de meu , e com três filhos mortos , e um marido a quem queria mais que aos olhos com que o via , e todos assim pai como filhos , e dois irmãos , e um genro vi despedaçados nas trombas dos elefantes de El-rei de Sião , e com vida cansada e triste coei todos estes males e desgostos , e outros quase tamanhos , quais foram ver pela mesma maneira três filhas donzelas , e minha mãe , e meu pai , e trinta e dois parentes meus sobrinhos e primos , metidos em fornos acesos , dando tamanhos gritos que rompiam o céu , para que Deus os valesse tormento tão insofrível , mas foram meus pecados tamanhos que cerraram as orelhas à clemência infinita do Senhor de todos os senhores , para que não ouvisse esta petição que a mim parecia ser justa , mas na verdade o que ele ordena isso é o melhor . A isto lhe respondemos nós que por pecados nossos permitira Deus vermo-nos daquela maneira : a que ela , também com muitas lágrimas , que lhe não faltavam então assim como a nós , disse , bom é sempre em vossas adversidades justificardes os toques da mão do Senhor , porque nessa verdade confessada de boca , e crida de coração , com constância firme e limpa , está muitas vezes o prêmio de nossos trabalhos . E discorrendo assim por sua prática , nos perguntou pela causa da nossa desaventura , e de que maneira viéramos ter a aquele miserável estado : nós lhe contamos então tudo o como passara , mas que não conhecêramos que gente era a que nos fizera aquilo , nem sabíamos a razão porque no-lo fizera . A isto responderam os seus , que aquele junco grande que dizíamos era de um mouro Guzarate por nome Coja Acem , que aquela manhã saíra do rio , e que ia carregado de Brasil para a ilha de Ainão . A honrada dona , batendo então nos peitos por sinal de grande espanto , disse , que me matem , se assim não é , porque esse mouro que vós outros dizeis se gabava publicamente a quem o queria ouvir , que da geração destes homens de Malaca tinha mortos por algumas vezes uma grande soma , e que lhe queria tamanho mal que tinha prometido ao seu mafamede de matar ainda outros tantos . Nós , espantados de uma coisa tão nova , lhe respondemos , que lhe pedíamos que nos dissesse que homem era aquele , ou porque dizia que nos queria tamanho mal : a que ela disse , que do porque não sabia mais que dizer ele que um nosso grande capitão por nome Eitor da Silveira , lhe matara seu pai , e dois irmãos , em uma nau que lhe tomara no estreito de Meca , vindo de Iudaa para Dabul . E por todo o caminho nos foi contando outras muitas particularidades do grande ódio que nos tinha aquele mouro , e do que em nosso vitupério contava de nós . CAPÍTULO XXXVIII. QUEM ERA ESTA MULHER COM QUEM ÍAMOS , E COMO NOS MANDOU PARA PATANE , E DO QUE FEZ ANTÔNIO DE FARIA SABIDA A NOVA DA NOSSA PERDIÇÃO , E DA FAZENDA QUE LHE TOMARAM ] Partida esta honrada mulher daqui deste lugar onde nos achara , se foi à vela e a remo pelo rio acima obra de duas léguas , até chegar a uma aldeia pequena , onde dormiu aquela noite , e como ao outro dia foi manhã se partiu para a cidade de Lugor que era adiante cinco léguas , à qual chegou quase ao meio-dia , e desembarcando em terra se foi para sua casa , e nos levou consigo , e com ela estivemos vinte e três dias muito bem curados , e providos de tudo o necessário com muita abastança . Esta mulher era viúva , e da geração honrada ; e segundo depois soubemos , fora mulher do Xabandar de Preuedim , que o Pate de Lasaparà rei de Quaijuão na ilha da Iaoa matara na cidade de Banchâ no ano de 1538 e ao tempo que nos achou da maneira que tenho cotado , vinha de um junco seu que estava na barra carregado de sal , e por ser grande , e não poder passar o banco , o descarregava pouco a pouco naquela barcaça . Passados os vinte e três dias que disse , em que prouve a Nosso Senhor que de todo convalescemos , e nos achamos em disposição para caminhar , nos encomendou ela a um mercador seu parente que ia para Patane , que era dali oitenta e cinco léguas , o qual nos meteu consigo num calaluz de remo em que ele mesmo ia . E navegando por um grande rio de água doce , que se dizia Sumheehitão , chegamos dali a sete dias a Patane . E como António de Faria estava cos olhos longos esperando por nós , ou por recado da sua fazenda , tanto que nos viu , e lhe contamos o que se passava , ficou todo trespassado sem nos poder falar , por espaço de mais de meia hora . E já neste tempo os portugueses eram tantos que não cabiam nas casas , porque da maior parte deles levava fazenda a triste da lanchara ; e assim o cabedal que ela levou passava de sessenta mil cruzados , de que a maior parte era em prata amoedada para se comprar com ela ouro . António de Faria vendo-se sem nenhum remédio , e cos seus doze mil cruzados que em Malaca lhe emprestaram roubados , querendo-o alguns consolar nesta perda , lhes respondeu , que lhes confessava que se não atrevia tornar a Malaca a ver o rosto aos seus credores , porque arreceava que o quisessem eles obrigar pelas escrituras que lhes tinha feito a lhes pagar o que lhes devia , o que ele então por nenhuma via podia fazer . Pelo que lhe parecia ser mais razão ir buscar quem lhe tomara o seu , que deixar de pagar a quem lho emprestara . E logo publicamente perante todos fez juramento nos santos evangelhos , e disse , que além do que jurava , prometia também a Deus de ir logo dali em busca de quem lhe tomara sua fazenda ; o qual lha havia de pagar ao galarim , ou por bem , ou por mal , ainda que por bem já entendia que não podia ser por nenhuma via , porque quem lhe matara dezesseis portugueses , e trinta e seis moços e marinheiros cristãos , não era razão que passasse tão levemente sem algum castigo , porque se assim não fosse , cada dia nos fariam uma , e outra , e cento semelhantes a esta . Os circunstantes todos lhe louvaram muito aquela determinação , e se lhe ofereceram para aquela empresa muitos homens mancebos , e bons soldados , e outros com empréstimo , de dinheiro para se armar , e se prover do necessário . Ele aceitou então de seus amigos estes oferecimentos que lhe fizeram , e com a maior brevidade que pôde se fez prestes , e dentro de dezoito dias ajuntou cinquenta e cinco soldados . Nesta ida foi também necessário ir o pobre de mim , por me ver sem um só vintém de meu , nem quem mo desse nem emprestasse , e dever em Malaca mais de quinhentos cruzados que alguns amigos me tinham emprestado , os quais , com mais outros tantos que tinha de meu , todos por meus pecados o perro me levou na volta dos outros de que tenho contado , sem salvar de tudo quanto tinha de meu mais que a pobre pessoa , com três zargunchadas , e uma pedrada na cabeça , de que estive à morte por três ou quatro vezes , e ainda aqui em Patane me tiraram um osso antes que acabasse de sarar dela . E Cristóvão Borralho meu companheiro esteve ainda muito pior que eu , de outras tantas feridas que também lhe deram em pago de dois mil e quinhentos cruzados que na volta dos outros ali lhe roubaram . CAPÍTULO XXXIX. COMO ANTÔNIO DE FARIA SE PARTIU PARA A ILHA DE AINÃO EM BUSCA DO MOURO COJA ACEM , E DO QUE ACHOU ANTES QUE CHEGASSE A ELA ] Tanto que António de Faria esteve de todo prestes , se partiu daqui de Patane um sábado nove de maio do ano de 1540 e fez seu caminho ao nor-noroeste via do reino de Champaa , com determinação de descobrir nele os portos e angras daquela costa , e aí por qualquer via , de boa pilhagem se reformar de algumas coisas de que vinha falto , porque como a sua saída de Patane foi um pouco apressada , não vinha tão bem provido do necessário que não houvesse mister refazer-se de muitas coisas , principalmente de mantimentos , e munições , e de pólvora . E havendo já sete dias que velejávamos por nossa derrota , houvemos vista de uma ilha que se dizia Pulo Condor em altura de oito graus e um terço da parte do norte , e quase noroeste sudeste com a barra de Camboja , e rodeando-a por todas as partes , descobrimos ao rumo de leste um bom surgidouro que se chamava Bralapisão , que demorava da terra firme pouco mais de seis léguas , no qual achamos um junco de Léquios que ia para o reino de Sião , com um embaixador do Nautaquim de Lindau , príncipe da ilha de Tosa , em altura de trinta e seis graus , o qual em nos vendo se fez logo à vela . António de Faria lhe mandou pelo piloto Chim que levava um recado de muitos cumprimentos , de boa amizade , a que responderam , que tempo viria em que eles se comunicariam conosco por amizade da lei verdadeira do Deus da clemência sem termo , que com sua morte dera vida a todos os homens com herança perpétua na casa dos bons , porque assim o tinham que havia de ser passado o meio do meio dos tempos . E com esta resposta lhe mandaram um terçado rico , com punho e bainha de ouro , com mais vinte e seis pérolas numa boceta do mesmo feita como saleiro pequeno , de que António de Faria ficou assaz magoado , por lhe não poder contribuir com que era razão , porque já ao tempo que o Chim tornou com recado iam emarados em distância de mais de uma légua . Desembarcando nos aqui nesta ilha , estivemos nela três dias fazendo nossa aguada , e pescando infinidade de sargos e corvinas que nela havia , no fim dos quais fomos demandar a costa da terra firme , em busca de um rio que se chamava Pulo Cambim , que divide o senhorio de Camboja do reino de Champaa em altura de nove graus , e chegando a ele um domingo derradeiro dia de maio , foi o piloto surgir três léguas por ele dentro , defronte de uma povoação grande , que se chamava Catimparù , na qual pacificamente , e por concerto de boa amizade estivemos doze dias , em que nos provemos abastadamente de todo o necessário . E como António de Faria de sua natureza era muito curioso , trabalhou por saber desta gente que nações habitavam o sertão daquela terra , e donde procedia a origem daquele grande rio , e eles lhe disseram que a origem do rio procedia de um lago que se chamava Pinator , que demorava a leste daquele mar duzentas e sessenta léguas , no reino de Quitirvão , o qual lago estava cercado de grandes serranias , e no pé delas ao longo da água havia trinta e oito povoações , das quais as treze somente eram grandes , e todas as mais muito pequenas , mas que só em uma destas grandes por nome Xincaleu havia uma tamanha mina de ouro , que se afirmava pelo dito dos moradores da terra , que se tirava cada dia dela um bar e meio de ouro , que pela valia da nossa moeda vem a ser por ano vinte e dois milhões de ouro , na qual mina quatro senhores tinham parte , tão cobiçosos em tanta maneira , que continuamente andavam em guerras uns cos outros , sobre qual deles a havia de senhorear toda , e que um destes por nome Rajahitau tinha no pátio das suas casas em jarras metidas na terra até o gargalo seiscentos bares de ouro em pó , como o de Menancabo da ilha Samatra , e que se trezentos homens dos da nossa nação o cometessem com cem espingardas , que sem dúvida nenhuma seriam senhores dele . E que também em outra daquelas povoações por nome Buaquirim havia uma pedreira de que se tiravam muitos diamantes naifes , de roca velha , de muito mor preço que os de Laue , e de Tanjampura na ilha de Iaoa . E fazendo-lhe António de Faria outras muitas preguntas de coisas particulares , lhe disseram outras muitas coisas das abastanças e fertilidade da terra que havia por este rio acima tanto para cobiçar , quão fáceis e pouco custosas parece que serão de conquistar . CAPÍTULO XXXX. COMO DAQUI NOS PARTIMOS PARA A ILHA DE AINÃO , ONDE HAVIA NOVAS QUE ESTAVA O CORSÁRIO COJA ACEM , E DO QUE NOS ACONTECEU NO CAMINHO ] Partidos nós deste rio de Pulo Cambim , navegamos ao longo da costa do reino de Champaa até uma baía que se chamava Saleyjacau , dezessete léguas adiante para o norte , na qual entramos , e por não vermos aí coisa de que lançar mão , nos tornamos a sair já quase sol posto , sem fazermos mais que ver e contar os lugares que estavam ao longo da água , que por todos eram seis , cinco pequenos como aldeias , e um que parecia de mais de mil casas , cercado de grande arvoredo , com muitas ribeiras de água doce que desciam do alto da serra , a qual lhe ficava nas costas da banda do sul a modo de muro , e não tratamos então de subir a ela , por não amotinarmos a terra . Ao outro dia pela manhã chegamos a um rio que se chamava Toobafoy , onde António de Faria surgiu da banda de fora , por o piloto se não atrever a entrar dentro , dizendo que nunca ali fora , nem sabia o fundo que tinha . E estando nós com tudo debatendo sobre entrar ou não entrar neste rio , houvemos vista de uma grande vela que de mar em fora vinha demandar o porto : e alvoroçados nós para a recebermos , com todas as coisas necessárias a nosso ofício e bom propósito , a esperamos assim surtos naquele lugar onde estávamos , e perlongando ela por junto de nós , a salvamos à Charachina ( como naquelas partes dizem ) com nossa bandeira de veniaga , que são as mostras e sinais de amizade que entre esta gente se costumam fazer em semelhantes tempos . Os da nau em vez de nos responderem pelo mesmo modo , como estava em razão , parece que conhecendo que éramos portugueses , a quem não tinham boa vontade , nos mostraram de cima do capitéu , falando com pouca cortesia , o traseiro de um cafre , e sobre isso com muitos tangeres de trombetas e tambores e sinos deram uma grande grita e apupada a modo de desprezo e escárnio , como na verdade então faziam de nós , de que António de Faria se mostrou assaz afrontado . E mandando-lhe tirar com um berço , para ver se falavam mais a propósito , lhe responderam com cinco pelouros , três de falcão , e os dois de camelo , de que ele e todos os mais ficaram embaraçados . E tomando conselho sobre o que neste caso se faria , se assentou que por então nos deixássemos estar assim surtos ali onde estávamos , porque não era siso cometer coisa tão duvidosa , mas que como fosse manhã se saberia que gente era , e que forças trazia , e que conforme ao que víssemos nos determinaríamos , o qual conselho pareceu bem assim a António de Faria como a todos os mais . E pondo recado e boa vigia no que convinha , nos deixamos estar esperando pela manhã ; e às duas horas depois da meia-noite enxergamos ao horizonte do mar três coisas pretas rentes com a água , e chamamos logo o capitão que a este tempo estava no convés deitado em cima de uma capoeira , e lhe mostramos o que víamos , o qual tanto que o viu também , se determinou muito depressa , e bradou por três ou quatro vezes , armas , armas , a que logo se satisfez em muito breve espaço . E tornando-se a retificar no que ainda então duvidosamente tínhamos visto , enxergamos claramente serem navios de remo que vinham a nós . A gente se pôs logo toda em armas , e o capitão a repartiu pelas estâncias mais importantes , e parecendo-nos na calada do remo que podiam ser os inimigos do dia passado , por ali na terra não haver coisa de que se pudesse ter receio , disse aos soldados , isto , senhores e irmãos meus é ladrão que nos vem cometer , por lhe parecer que não podemos ser mais que seis ou sete , como ordinariamente costumamos a andar nestas lorchas , e porque com nome de Cristo , possamos a nosso salvo , fazer alguma coisa , que seja boa , todos se agachem porque não enxerguem eles de longe pessoa nenhuma , e então veremos o que eles determinam ou querem conosco , e as panelas de pólvora estejam muito prestes , porque com elas e às cutiladas me parece que se há isto de averiguar , e cada um esconda bem o murrão porque não vejam fogo , e lhes pareça que dormimos todos , o que tudo se pôs por obra assim como ele o ordenou com muita prudência e acordo . Chegadas as três embarcações a pouco mais de tiro de besta da nossa lorcha , nos rodearam por popa e por proa , e depois de a terem muito bem vista se tornaram a ajuntar como que de novo faziam conselho , em que gastaram pouco mais ou menos um quarto de hora , e após isto se dividiram em duas partes , as duas embarcações mais pequenas por popa , e a sampana , que era maior , e trazia quase toda a força da gente , pela banda do astribordo . Os inimigos então subindo todos juntamente a grande pressa , cada um pela parte que lhe cabia , em menos de um credo foram mais de quarenta dentro da nossa lorcha . António de Faria saiu então do toldo onde estava com obra de quarenta soldados , e bradando por Santiago , deu neles com tanto ímpeto e esforço , que em muito pequeno espaço foram quase todos mortos , e acudindo com muitas panelas de pólvora sobre os que estavam a bordo nas três embarcações , os acabaram de açorar de todo , e lançá-los todos ao mar , e saltando com este alvoroço alguns dos nossos soldados nas suas embarcações , lhas tomaram todas três , de maneira que prouve a Nosso Senhor que tudo a nosso salvo nos ficou nas mãos . Dos inimigos que se lançaram na água , se tomaram cinco que estavam ainda vivos , dos quais foi um o cafre que nos mostrara o traseiro , e os outros eram um turco , e dois achéns , e o capitão do junco que se chamava Similau , grande corsário , e inimigo nosso , os quais António de Faria mandou logo meter a tormento , para saber deles que gente eram , e donde vinham , ou que nos queriam ; os achéns e o turco responderam muito fora de toda a razão , e querendo também guindar o cafre para lhe darem tratos , que já neste tempo estava atado , ele chorando com grandes urros disse que lhe não fizessem mal que era cristão , como qualquer de nós , e que sem tratos diria toda a verdade . António de Faria o mandou então desatar e o chegou para junto de si , e lhe mandou dar uma costa de biscoito e uma vez de vinho . E afagando-o com palavras brandas lhe rogou que lhe descobrisse toda a verdade pois era cristão como dizia , a que ele respondeu , se o eu não disser a vossa mercê , não aja que sou esse que disse . A mim senhor me chamam Bastião , e fui cativo de Gaspar de Melo , que esse perro que aí está atado matou agora faz dois anos em Liãpoo com mais vinte e seis portugueses que ele trazia consigo na sua nau . António de Faria dando a isto um grande grito a modo de espanto , disse , tá , tá , tá , não quero saber mais , esse é o perro do Similau que matou teu senhor ? Sim , respondeu ele , o que também agora quisera fazer a vossa mercê , porque lhe pareceu que não poderíeis ser mais que até seis ou sete , e por isso se embarcou assim tão depressa , com determinação , como ele dizia , de vos tomar a todos às mãos , e vivos vos mandar lançar os miolos fora com uma tranca , como fizera a meu senhor , mas permitiu Deus que pagasse o que tinha feito . António de Faria , vendo o que lhe disse este moço cafre , o qual lhe afirmara por muitas vezes que toda a gente de peleja o perro ali trouxera consigo , e que no junco não ficaram mais que quarenta marinheiros chins , determinou de se aproveitar daquele bom sucesso . E depois de fazer dar a morte ao Similau e aos outros seus companheiros , que foi com lhes mandar lançar os miolos fora com uma tranca , assim como ele fizera em Liampoo a Gaspar de Melo e aos outros portugueses , se embarcou logo com trinta soldados no batel e nas manchuas em que os inimigos vieram , e com conjunção de maré e de bom vento , em menos de uma hora chegou ao junco que estava surto dentro no rio uma légua adiante donde nós estávamos , e arremetendo a ele sem estrondo de grita nenhuma se senhoreou do capitéu de popa , donde com só quatro panelas de pólvora que lhe lançou no convés , onde a canalha estava deitada , os fez lançar todos ao mar , de que morreram dez ou doze , e os mais por andarem bradando na água que se afogavam , mandou António de Faria que os recolhessem , por serem necessários para a mareação do junco que era muito grande , e muito alteroso . E por toda esta via , que assim passou na verdade , prouve a Nosso Senhor por justo juizo de sua divina justiça que a soberba deste Perro fosse o ministro que nele fizesse a execução do castigo de seus males , para que a mãos de portugueses pagasse o que lhes tinha feito . Ia quando isto acabou de se concluir era quase manhã , e fazendo-se então inventário de toda a presa , se acharam trinta e seis mil taéis em prata de Japão , que da nossa moeda a razão de seis tostões por tael fazem cinquenta e quatro mil cruzados , a fora outra muita sorte de boas fazendas , a que então se não pôs preço por não dar o tempo lugar para haver ali mais detenção , por estar já a terra toda amotinada , e apercebida de muitas jangadas de fogo , pelo que foi necessário sair-se logo António de Faria dali donde estava , e fazer-se à vela , e partir-se com muita pressa . CAPÍTULO XXXXI. COMO ANTÔNIO DE FARIA CHEGOU AO RIO DE TINACOREU , A QUE OS NOSSOS CHAMAM VARELA , E DA INFORMAÇÃO QUE DAQUELE REINO LHE DERAM UNS MERCADORES ] Deste rio de Toobasoy se partiu António de Faria uma quarta-feira pela manhã véspera do corpo de Deus do ano de 1540 . E fez seu caminho ao longo da costa do reino Champaa , pela não esgarrar cos ventos lestes , que o mais do tempo cursam naquele clima muito tempestuosos , principalmente nas conjunções das luas novas e cheias ; e logo à sexta-feira seguinte sendo tanto avante como o rio a que os naturais da terra chamam Tinacoreu , e os nossos a Varela , lhe pareceu bem por conselho de alguns entrar dentro nele , para aí tomar informação de algumas coisas que desejava saber , e para também ver se havia aí novas do Coja Acem que ia buscar , porque todos os juncos de Sião , e de toda a costa do malaio que navegavam para a China , costumavam fazer suas escalas neste rio e às vezes vendem bem suas fazendas a troco de ouro , e Calambaa , e marfim , de que em todo este reino há muito grande quantidade . E surgindo da barra para dentro defronte de uma povoação pequena que se dizia Taiquilleu , nos vieram logo muitos paraoos de refresco a bordo , os quais vendo que éramos gente nova que eles ali nunca tinham visto , ficaram muito espantados , dizendo uns para os outros , grande novidade deve ser esta com que nos Deus agora visita , e queira ele por sua bondade que não seja esta nação barbada daqueles que por seu proveito e interesse espiam a terra como mercadores , e depois a salteiam como ladrões , acolhamo-nos ao mato , antes que as faíscas destes tições branqueados no rosto com a alvura da cinza que trazem por cima , queimem as casas em que vivemos , e abrasem os campos de nossas lavouras , como tem por costume nas terras alheias , a que outros responderam , não seja assim já que por nossos pecados os temos das portas a dentro , não entendam de nós que como inimigos nos receamos deles , porque mais depressa se declararam conosco , mas com semblante alegre , e palavras brandas lhe perguntemos o que querem , porque sabida a verdade deles a escrevamos logo ao Hoyaa Paquir a Congrau onde agora está . António de Faria , fingindo que os não entendia , ainda que na embarcação havia muitos intérpretes , os recebeu com bom gasalhado , e comprando-lhe o refresco que traziam , lho mandou pagar a como eles quiseram , de que se eles mostraram muito satisfeitos . E perguntando-lhe eles donde era , ou o que queria , lhe disse ele , que era do reino de Sião do bairro dos estrangeiros de Tanauçarim , e que ia de veniaga como mercador que era para a ilha dos Léquios a fazer sua fazenda , e que não entrara ali a mais que a saber de um mercador seu amigo que se chamava Coja Acem que também para lá ia , se era já passado adiante , pelo que logo se queria tornar , assim por não perder a mouchão , como por também ter entendido que não podia ali vender o que levava . Ao que eles responderam , dizes verdade , porque aqui nesta aldeia não ia mais que redes e paraos de pescar , com que pobremente nos sustentamos , porém se tu fores por este rio acima à cidade de Pilaucacem onde está El-rei , nós te segurávamos que em menos de cinco dias venderas dez juncos desses carregados de todas as fazendas que trouxeras por muito ricas que foram , porque há lá mercadores muito grossos que tratam por cáfilas de elefantes , e de bois , e de camelos para toda a terra dos Lauhòs , e Pafuaas , e Gueos , que são povos de gentes muito ricas . Vendo António de Faria a matéria disposta para se informar do que desejava saber , os esteve inquirindo muito miudamente , a que alguns deles , que pareciam de mais autoridade , responderam muito a propósito , dizendo , este rio em que agora estás surto se chama Tinacoreu , a que já alguns antigamente chamaram Taraulachim , que quer dizer , massa farta , nome que com muita razão lhe foi posto , segundo os antigos ainda agora nos contam , o qual assim , como o vês deste próprio fundo e largura , chega até Moncalor , que é uma serra daqui oitenta léguas , e daí para diante é muito mais largo , mas tem menos fundo , e em algumas partes tem campos baixos e alagadiços , nos quais há infinidade de aves que cobrem toda a terra , e são em tanta quantidade , que por respeito delas se despovoou agora faz quarenta e dois anos todo o reino dos Chintaleuhos , que era de oito dias de caminho . Mas passada esta terra das aves , se entra em outra muito mais agreste , e de grandes serranias , onde há outros muitos animais muito piores ainda que as aves , como são elefantes , badas , leões , porcos , búfalos , e gado vacum em tanta quantidade , que coisa nenhuma que os homens cultivem para remédio de sua vida lhe deixam em pé , sem se lhe poder tolher por nenhuma via . E no meio de toda esta terra , ou reino , como já foi antigamente , está um grande lago , a que os naturais da terra chamam Cunebetee , e outros o nomeiam por do Chiammay , do qual procede este rio com outros três mais que regam muito grande quantidade desta terra , o qual lago , segundo afirmam os que escreveram dele , tem em roda sessenta jãos , de três léguas cada jão , ao longo do qual há muitas minas de prata , cobre , estanho , e chumbo , de que continuamente se tira muita quantidade destes metais que de veniaga , levam mercadores em cáfilas de elefantes e badas aos reinos de Sornau , que é o de Sião , Passiloco , Sauady , Tangù , Prom , Calaminhan , e outras províncias que pelo sertão desta costa de dois e três meses de caminho estão divididas em senhorios e reinos de gentes brancas , de baças , e de outras mais pretas . E em retorno destas fazendas se traz muito ouro , e diamantes , e rubis . E perguntados se tinham estas gentes armas , responderam que não tinham outras senão somente paus tostados , e crises de dois palmos de corte ; e também disseram que se podia lá ir por aquele rio em dois meses até dois e meio de caminho , e isto por respeito das águas que desciam com muito ímpeto a maior parte do ano , porém que à vinda se vinha em oito até dez dias . E após estas preguntas lhe fez António de Faria outras muitas , a que eles responderam muitas coisas daquela terra , assaz merecedoras de qualquer grande espírito desejar de se empregar nelas , e quiçá de muito mor proveito e menos custo , assim de sangue como de tudo o mais , do que é tudo o da Índia , em que tanto cabedal se tem metido até agora . CAPÍTULO XXXXII. DO CAMINHO QUE ANTÔNIO DE FARIA FEZ INDO DEMANDAR A IHA DE AINÃO , E DO QUE LHE ACONTECEU NELE ] A quarta-feira seguinte nos saímos logo deste rio da Varela por nome Tinaçoreu , e ao piloto pareceu bem ir demandar Pulo Champeiloo , que é uma ilha despovoada que está na boca da enseada da Cauchenchina em quatorze graus e um terço da banda do norte . E chegando a ela ancoramos em uma angra de bom surgidouro , onde depois que estivemos três dias fazendo-nos prestes , e pondo a artilharia no modo conveniente a nosso propósito , nos partimos via da ilha de Ainão , parecendo a António de Faria que aí achasse o Coja Acem que andava buscando . E chegando à vista do morro de Pulo Capás , que é a primeira mostra da ponta da ilha , não fez neste dia mais que chegar-se bem à terra para divisar os rios e portos daquela costa , e ver que entradas tinham . E tanto que foi noite , porque a lorcha em que viera de Patane fazia muita água , ordenou por parecer de todos os soldados , que antes de bulir em outra nenhuma coisa se passasse a outra melhor embarcação , o que logo foi feito . E chegando a um rio que ao pôr-do-sol vimos ao rumo de leste , mandou surgir uma légua ao mar dele , porque o junco em que vinha era grande , e demandava muito fundo , e se temia dos muitos baixos que todo aquele dia tínhamos visto , e mandou a Cristóvão Borralho que fosse na lorcha cos seus quatorze soldados por dentro do rio , e visse que fogos eram os que defronte apareciam , o qual se partiu logo sem mais detença , e indo já mais de uma légua pelo rio dentro , foi dar de rosto com uma companhia de quarenta juncos muito grandes e alterosos de duas e três gáveas cada um , e por se temer que fossem da armada do Mandarim , de que já tínhamos algumas atoardas , surgiu um pouco à terra deles , e como a maré começou a encher , que seria já quase meia-noite , levou a amarra muito caladamente , e passou adiante para onde tinha vistos os fogos , de que a maior parte já neste tempo eram apagados , e não havia mais que dois ou três que de quando em quando apareciam os quais lhe serviam de guia . E continuando por esta ordem seu caminho , foi dar numa grandíssima quantidade de navios grandes e pequenos , que segundo o esmo de alguns , seriam mais de duas mil velas , e passando com a calada do remo por entre eles , chegou ao lugar , que era uma povoação de mais de dez mil vizinhos , cercada de muro de tijolo com suas torres e baluartes ao nosso modo , com barbacam , e duas cavas de água ao redor . Aqui dos quatorze soldados que iam na lorcha , desembarcaram os cinco em terra , com mais dois chins da esquipação que deixaram em reféns suas mulheres no junco , e correram o lugar todo por fora em roda , em que gastaram quase três horas , sem haver nunca sentimento deles , e tornando-se a embarcar , se saíram a remo e à vela , sem rumor ou rebuliço algum , por se temerem que se aí quisessem bulir com alguma coisa , nenhum deles escaparia . Saídos do rio acharam na barra um junco surto que lhes pareceu ser vela da outra costa , a qual havia pouco que tinha surgido , e chegados onde António de Faria estava , o informaram do que tinham visto , e da grossa armada que estava dentro no rio , e do junco que acharam surto na barra , dizendo-lhe muitas vezes que quiçá poderia ser aquele o perro do Coja Acem que ele havia , com a qual nova ele ficou tão alvoroçado , que sem mais esperar um momento , largando a amarra com que estava surto , se fez à vela , dizendo que o seu coração lhe dizia que sem dúvida nenhuma era aquele , e que a isso poria a cabeça , e que sendo aquele , nos certificava , que haveria por bem empregado morrer na demanda a troco de se vingar de quem tanto mal lhe fizera , e que à lei de bom homem jurava que o não dizia pelos seus doze mil cruzados , que já lhe não lembravam , se não só pelos quatorze portugueses que o perro lhe tinha mortos . E chegando à vista do junco , mandou que a lorcha se passasse da outra banda , que abalroassem ambos juntamente , e que ninguém disparasse nenhum tiro de fogo , porque não sentissem os juncos da armada que estavam dentro do rio o tom de artilharia , porque acudiriam a ver o que era . Tanto que as nossas embarcações chegaram ao lugar onde estava surto o junco , ele foi logo abalroado sem nenhuma detenção , e saltando dentro vinte soldados se senhorearam dele sem contradição alguma , e a mor parte da gente dele se lançou ao mar . Alguns dos inimigos que eram de mais ânimo , depois de tornarem em si , quiseram fazer rosto aos nossos , porém António de Faria se lançou logo dentro muito depressa com mais outros vinte soldados que tinha consigo , e dando santiago neles , lhes derrubou mais de trinta , e os que ficaram vivos que se tinham lançado ao mar , mandou que os tomassem , porque lhe eram necessários para a esquipação . E desejando saber que gente era , e donde vinham , mandou meter uns quatro deles a tormento , dos quais os dois se deixaram morrer emperradamente , sem quererem confessar nenhuma coisa . E tomando um moço pequeno para lhe fazerem o mesmo , um velho que jazia aí deitado que era seu pai , bradou rijo chorando que o ouvissem antes que fizessem mal aquele moço , António de Faria mandou então parar os ministros da execução , e lhe disse que dissesse o que quisesse , mas que fosse verdade , porque se lhe mentisse , soubesse certo que a ele e ao filho havia de mandar lançar vivos ao mar , e se lhe falasse verdade lhe prometia de os mandar pôr a ambos em terra livremente , com toda a fazenda que por seu juramento dissesse que era sua . A que o mouro respondeu , aceito senhor essa promessa sobre tua palavra , ainda que este ofício em que agora andas , não é muito conforme à lei cristã que no batismo professaste , de que António de Faria ficou tão atalhado que não soube que lhe respondesse , e mandando-o chegar para junto de si o inquiriu com brandura e afabilidade , e sem nenhum ameaço . CAPÍTULO XXXXIII. DO QUE ESTE HOMEM RESPONDEU ÀS PERGUNTAS QUE LHE FEZ ANTÔNIO DE FARIA , E DO MAIS QUE AÍ ACONTECEU ] Chegado este homem junto de António de Faria , vendo ele que era branco como qualquer de nós , lhe perguntou se era turco ou persa , ao que ele respondeu que não , mas que era cristão , natural de Monte Sinai , onde estava o corpo da bem-aventurada Santa Catarina , a isto lhe replicou António de Faria , que pois era cristão como dizia , como não andava entre cristãos , a que ele respondeu que era mercador , e de boa progênie , por nome Tome Mostangue , e que estando surto com uma nau sua no porto de Iudaa no ano de 1538 o Soleimão baxá vice-rei do Cairo lha mandara tomar , como fizera a mais outras sete , para trazerem mantimentos e munições para fornimento da armada das sessenta galés em que vinha por mandado do turco , para restituir o sultão Bandur no reino de Cambaia , de que o Mogor naquele tempo o tinha desapossado , e lançar os portugueses fora da Índia , e que vindo ele na mesma nau para a beneficiar e arrecadar o seu frete que lhe tinham prometido , os turcos , além de lhe mentirem em tudo como sempre costumam , lhe tomaram sua mulher , e uma filha pequena que trazia consigo , e perante ele as desonraram publicamente , e porque um filho seu , chorando se lhes queixou deste grande mal , lho lançaram vivo ao mar , atado de pés e de mãos , e a ele meteram em ferros , e lhe davam todos os dias muitos açoites , e lhe tomaram sua fazenda , que eram mais de seis mil cruzados , dizendo , que não era lícito lograr bens de Deus senão os massoleimões , justos e santos assim como eles ; e porque neste meio tempo lhe faleceram a mulher e a filha , como desesperado se lançara uma noite ao mar na barra de Diu , com aquele moço seu filho , donde por terra fora ter a Surrate , e daí se viera ter a Malaca em uma nau de Garcia de Sá capitão de Baçaim , donde por mandado de Dom Estêvão da Gama fora à China com Cristóvão Sardinha , que fora feitor de Maluco , o qual estando uma noite surto em Cingapura , o Quiay Taijão senhor daquele junco matara com mais vinte e seis portugueses , e que a ele por ser bombardeiro dera a vida , e o trazia consigo por seu condestável . A que António de Faria , dando um grande brado , e batendo com a mão na testa , a modo de espanto , disse , ó valha-me Deus , ó valha-me Deus , parece que é sonho isto que ouço , e virando-se para os soldados que estavam à roda , lhes contou todo o discurso da vida daquele Quiay Taijão , e lhe afirmou que por algumas vezes tinha mortos em embarcações desencaminhadas que achara pelo mar , e com pouca força , mais de cem portugueses , e roubados passante de cem mil cruzados , e que ainda que o seu nome era o que aquele armênio dizia Quiay Taijão , depois que em Cingapura matara Cristóvão Sardinha , se nomeava , por vanglória do que fizera , o capitão Sardinha , e perguntando ao armênio por ele , ou onde estava , disse que estava escondido na proa do junco no paiol das amarras , muito ferido , com mais outros seis ou sete . António de Faria se levantou logo com muita pressa , e se foi ao lugar onde o perro estava , e os mais soldados se foram trás ele , e abrindo o escotilhão do paiol para ver se era verdade o que o armênio dissera , o perro com seis que com ele estavam se saíram por outro escotilhão que estava mais abaixo , e feitos a amoucos arremeteram aos nossos , que passavam de trinta , a fora outros quarenta moços , e de novo se tornou a travar a briga de tal maneira que em pouco mais de três credos que os nossos os acabaram de matar , eles nos mataram dois portugueses , e sete moços , e feriram mais de vinte , e o capitão António de Faria ficou com duas cutiladas na cabeça , e uma num braço de que esteve muito maltratado . Acabado este destroço , e depois de serem curados todos os feridos , que seria já quase às dez horas , se mandou fazer à vela por se temer dos quarenta juncos da armada que estavam dentro no rio , e afastando-nos bem da terra , fomos surgir já quase noite na outra costa da Conchinchina , onde se fez inventário do que trazia o junco deste ladrão e se acharam quinhentos bares de pimenta , de cinquenta quintais o bar , e sessenta de sândalos , e quarenta de noz e maça , e oitenta de estanho , e trinta de marfim , e doze de cera , e cinco de aguila fina , o que tudo , pela valia da terra , podia montar até sessenta mil cruzados , a fora um camelo , e quatro falcões , e treze berços de metal , da qual artilharia a maior parte fora nossa , que este mouro tinha roubado na nau de Cristóvão Sardinha , e no junco de João de Oliveira , e no navio de Bartolomeu de Matos . E acharam-se mais três arcas encouradas , com muitas colchas e vestidos de portugueses , e um prato de prata de água às mãos , dourado , com seu gomil e saleiro da mesma maneira , e vinte e duas colheres , e três castiçais , e cinco copos dourados , e cinquenta e oito espingardas , e sessenta e duas corjas de roupa de Bengala , o qual móvel todo fora de portugueses , e dezoito quintais de pólvora , e nove crianças de seis até oito anos , todos com bragas nas pernas , e algemas nas mãos , e tais que era lástima vê-los da maneira que estavam , porque não traziam mais que as peles somente pegadas nos ossos .