Camilo Castelo Branco O que fazem mulheres Índice A todos os que lerem A alguns dos que lerem Capítulo avulso O que Fazem Mulheres Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII Capítulo VIII Capítulo IX Capítulo X Capítulo XI Capítulo XII Capítulo XIII Capítulo XIV Cinco páginas que é melhor não ler Capítulo XV Capítulo XVI Capítulo XVII Conclusão Suplemento A todos os que lerem É uma história que faz arrepiar os cabelos. Há aqui bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios. É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juízo! Isto sim que é romance. Não é romance; é soalheiro, mas trágico, mas horrível, soalheiro em que o sol esconde a cara, Como da seva mesa de Tiestes Quando os filhos por mão de Atreu comia. Escreve-se esta crónica enquanto as imagens dos algozes e vítimas me cruzam por diante da fantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote dum fantasma. Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripúdio infernal! Coisa só semelhante a uma novela pavorosa das que aterram um editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros imóveis. Há aí almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asfalto? Que venham para cá. Aqui há cebola para todos os olhos; Broca para todas as almas; Cadinhos de fundição metalúrgica para todos os peitos. Não se resiste a isto. Há-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos peixes, como o padre Vieira, este miserando conto. Os dias actuais são melancólicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, séria e sisuda, se compra um romance, é para dar tréguas às despoetizadas e pecas realidades da vida. Sei-o demais. Eu também compro os livros dos meus amigos, para espairecer de meditações sorumbáticas em que me anda trabalhado o espírito. Sei quanto devo, e que favores impagáveis me deveria, leitor bilioso, se eu lhe encurtasse as horas com páginas galhofeiras, pitorescas, salitrosas, travando bem à malagueta, nos beiços de toda a gente, afora os seus. Tenha paciência: há-de chorar ainda que lhe custe. Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está aí adiante uma, ou duas são elas as cenas das que não levam ao cabo, sem destilar em lágrimas todos os líquidos da economia animal. Este romance foi escrito num subterrâneo, ao bruxulear sinistro duma lâmpada. Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, às escuras, em vinte dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes? E outros não se espertaram com todos os estímulos imagináveis de terror? Menos o do subterrâneo... este é meu, se dão licença. Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lôbregos lamentos. No fim de cada capítulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigénio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo. Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcáçar nos astros, e nos antros lúgubres da terra; não entendem este fadário do “génio”, que eles chamam “excentricidade”, como se não houvesse um nome português que dar a isto. O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar dum cáustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagelos da inspiração corrosiva, como duas onças de sublimado? Se não sabe o que isto é, estude farmácia, abra um expositor de química mineral, e verá. Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao autor basta-lhe a inspiração, que é uma coisa que dispensa tudo, até o siso e a gramática. O leitor, esse precisa mais alguma coisa: inteligência; e, se não bastar esta, valha-se da resignação. Ora, está dito tudo. Leiam isto, que é verdadeiro como o “Agiológio” de Ribadaneira, como as “Peregrinações” de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a geração com o sinete da crença universal. A alguns dos que lerem Não será uma acção meritória emoldurar em formas verosímeis a virtude, que os pessimistas acoimam de impraticável neste mundo? Hão-de só crer nas façanhas do crime, nas hipérboles da maldade humana, e negar as perfeições do espírito, descrer o que ultrapassa as balizas duma certa virtude convencional, que não custa dores a quem a usa? Se os espanta as excelências da mulher que vou debuxar, antes de mas impugnarem, afiram-nas pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano imaculado da sua consciência. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o belo; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do hálito puro da divindade. Se a mulher assim fosse impossível, o romancista que a inventou, seria mais que Deus. Capítulo Avulso Para ser colocado onde o leitor quiser Francisco Nunes... Que nome tão peco e charro! Francisco Nunes! Pois se o homem chamava-se assim!? Deus sabe que tristezas eram as dele por causa deste Nunes. O rapaz tinha talento demais para escrever folhetins líricos, e outras coisas. Pois nunca escreveu, porque não queria assinar-se Nunes. Há apelidos que parecem os epitáfios dos talentos. Um escritor Nunes morre ao nascer. Bem o sabia ele. Houve em Portugal um escritor chamado António José. Se a inquisição o não queima, ninguém se lembrava hoje dele. Francisco Nunes só poderia viver na memória da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reacender as fogueiras nos subterrâneos do teatro de D. Maria. Outros lá sofrem tratos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comédia... Não escrevia nada; mas falava muito, e, quase sempre, sozinho, em casa e na rua. Não incomodava ninguém; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se Francisco Nunes. Ele aí vai, faz agora três anos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguém o escuta, senão eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha. Esta rua, por um lado, tem raros edifícios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintais que pertencem às casas da rua paralela. Nunes, de tempo a tempo, sustém o monólogo, para puxar com sorvos sibilantes o vapor dum charuto. Depois, faz um trejeito iracundo, bate o pé com sanha, e prorrompe na imprecação interrompida, do seguinte teor: “Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha deste charuto! “A chuva candente de Sodoma e Gomorra tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu! “Frieiras, gota, paralisia, e morte tolham os dedos que te colheram! “O sol, que te secou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui! “As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se como as das múmias de Mênfis. “E para vós, contratadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contrato do tabaco, para vós o inferno ilimitado, a região tenebrosa dos condenados, onde há o ranger dos dentes, e o sempiterno horror! “Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França (1). “Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, enegrecem as substâncias orgânicas, como o ácido sulfúrico. “São amargos e cáusticos como o ácido nítrico. “Calcinam os beiços como o ácido hidroclórico. “Queimam a laringe como o ácido fosfórico. “Laceram o esófago como o acetato de chumbo. “Fulminam e despedaçam como o ácido hidrociânico. Enquanto ele repuxava o vapor do incombustível rolo de erva-santa (que blasfémia!... santa!) façamos tremendas reflexões: Um “manual de química para uso dos leitores de romances” é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio, desde que a novela é um estendal da ciência humana; e esta pode, sem imodéstia, graduar-se assim. Quando se escreviam bacamartes para as gerações sofredoras, que os leram, o sábio repunha aí em azedo vómito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliotecas. O in-fólio era uma crença, uma religião, uma faculdade daquelas gordas almas, que ressumavam pingue chorume por três mil páginas em tipo-breviário. Não vos faz melancolia ver a lombada desses enormes volumes aprumados numa estante? Não há naquele aspeito triste alguma coisa que vos faz crer que o in-fólio chora pelo frade? Agora não se escreve daquilo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigílias de dois séculos laboriosos. Reina o romancista, que é o sucessor do frade, na ordem das inteligências produtivas. Ora, o romancista há-de, por força da sua natureza científica, despejar no romance a ciência que lhe traz entumecido o estômago intelectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrução pública não organizar os estudos de modo que as ciências transcendentes, em consórcio com as da natureza física, desbravem o espírito-charneca de muito leitor sandio, que não pode entender a iracúndia química de Francisco Nunes. O qual continuou assim: “Há cinco séculos que a raça proscrita de Israel sofreu em Paris uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre lavaredas, porque a calúnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentara envenenar as fontes e poços de França. “E vós, judeus cristianizados, caixas do tabaco, derramais o veneno à luz do meio-dia; abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carruagens a droga homicida; matais a mocidade duma nação, que asfixia às mãos dos velhos; a vós, que alimentais o vício alheio com o crime próprio, quem vos castiga, quem vos queima, quem vos enforca, quem vos obriga a fumar um charuto de vintém? “Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de ciências, as obras-primas da arte, os dinheiros extorquidos à pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inofensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de oiro, aos envenenadores públicos, aos sicários de charuto, que te desentranham a alma num rolode fumo negro. “Que é dos vestígios da civilização cristã? Que é da égide que protege o fraco dos afrontamentos do forte? Em que lápide está escrita a lei que assegura a vida do homem? “A Roma pagã era o santuário da justiça. Aí os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arrancá-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. “Lucius Cornelius Syla, a tua lei de suplício para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura desta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diários, por cabeça. “Aqui, há o morrer sem recurso de revista, o expirar em vómitos negros, o tossir ríspido da bronquite, as asmas ofegantes, o ronco profundo da pieira laríngea, os delíquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorragias de sangue apostemado: - há tudo isto, debaixo deste céu impassível, na presença do código criminal num país, onde trabalha a electricidade por arames, onde se comem omelettes sucrées e souflés, e donde se mandam rapazes para o estrangeiro estudar BENEFICÊNCIA. “Mentira! Mentira e escárnio! “Se quereis beneficiar este país, não mandeis lá fora, ó parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fora estudar o processo de bem-fazer. “Vede-me este moço, que tem apenas vinte e dois anos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cútis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescência, adere aos ossos, desmedulados e cariados, uma tosse violenta lhe retesa os músculos do pescoço, expedindo das glândulas salivares um pus granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intelectuais estão entorpecidas nesse mancebo. Estimulando-se com cognac e absinto, esta espécie de cretino, bestificado por uma enfermidade incurável, apenas consegue dizer três tolices acerca de Donizetti, sentado num mocho de botequim, encostando o corpo enervado à banca dos licores incitantes. “Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento? “Foi o charuto! “O contrato do tabaco empeçonhara a seiva desse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magistério do folhetim, máximo esforço de inteligência, numa época, e num país, cujo amor às letras não vale a correspondência de uma local bem poética como a do baile do senhor fulano. “Voltai para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso ânimo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos! Chamai a juízo os vampiros que sugaram o soro desse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo. “Fazei a autópsia dum charuto como este - prosseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rolo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada - charuto como este, e vereis que há aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha seca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e três grãozitos excrementícios de rato ou coelho. “Horrível, e sujamente infernal! “Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo! (2) “As nações tiranizadas, quando a opressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino. “Os envenenadores congregaram-se em conciliábulo de abutres, e criaram o charuto de vintém, a pitada do meio-grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha: Cadafalso para os envenenadores! “O conselho de saúde, bandeado neste tripúdio de canibais, forma o cortejo científico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho! “Não há tifos, nem cólera, nem febre-amarela, senhores deputados! Há charutos, há o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está nestes canudos, por onde os contratadores cospem afronta e morte na face do povo! “Que eles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente! “Na hora do trespasse, a alma deles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, donde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vai-te, infame!” E, assim rugindo, numa como imprecação de moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal. 1 - É para espantar a memória de Francisco Nunes, em crise de tamanha angústia! Aquela nesga de história destoava da virulência da apóstrofe; mas foi dita com sanhudo entono. 2 - É ordinário este estilo; aqui não há unidade; o ímpeto afrouxa, e descai na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a vê-los lutar com as águias; e, quando mal se precata, vê-os cair, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco Nunes tem lastimáveis desigualdades nesta apóstrofe. O que fazem mulheres Capítulo I - Ludovina, já pensaste a resposta que hás-de dar a teu pai? Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta anos, ainda frescal, chamada Angélica, e casada com o Sr. Melchior Pimenta, empregado na alfândega do Porto. Ludovina respondeu: - Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem? - E um homem como os outros - replicou D. Angélica -; são todos o mesmo, menina. Teu pai sabe bem o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se ele te disse que achou um bom marido, não pode enganar-se. - Ora essa, mãe! E se eu antipatizar com ele? - Deves casar, como se simpatizasses. - Bravo!... e depois? - E depois, virá a simpatia. Imaginas lá com que repugnância eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque era uma criança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os teatros do Porto. Depois, teu pai... teu pai adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porquê, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguém. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a diferença que os fazia superiores a teu pai, e, contudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, e o crime da infidelidade (3), Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não há homem nenhum que seja indigno da estima duma mulher. - Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem. - Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as páginas... (não te inquietes, que eu sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-família, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quiseres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependência, quando o amor obedecer à razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quiseres prendê-lo com eles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quisesses exemplos, dava-tos. Tens ouvido censurar duas ou três amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabelos brancos? - Ainda ontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela “fortuna” de estúpidas criaturas... - Leste? De quem era o folhetim? Se o autor for rico, e tiver quarenta anos, o autor é insuspeito, e, nesse caso, digo-te que sujeites o teu destino à determinação do folhetim. Escreve uma carta ao autor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excelentes jóias de espírito. Oferece-lhe o teu coração, e promete que hás-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se ele te vier buscar, peso-te a oiro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo oferecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como ele. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa nesta casa... “Aprende, criança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam aí ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no teatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda à custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação se te depara o nome que ontem leste... Talvez ainda não reparasses noutra injustiça que se faz às mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não há por aí rapazes com grandes patrimónios? Recebem eles, porventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalizam menos a vida honesta da noiva, que o número de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem disto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegância procuram. “Olha, filha, se te não fosse penosa a experiência, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um de glacé. Os tais censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge de sua pena: “Pobre rapariga, fez um casamento infeliz!” Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço dum velho com quem a casaram as conveniências. Os mesmos censores diriam: “Que mal empregada mulher em semelhante alarve!” Já vês que o estímulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estímulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda. - Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração? - Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião pública, Ludovina, não é a consciência de cada um. O agente principal do espírito duma mulher é a modista. Se há casadas que envelhecem disputando às netas a melhor eleição dum talhe de vestido, que farão as solteiras? “Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não podes casar com esse homem sem desgostar teus pais, e granjear para ti o infortúnio, e para ele o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquecê-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pai: temos podido manter a decência e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, oponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra. - Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga. - Pois teus pais aceitam a responsabilidade, Ludovina. O diálogo rematara assim, quando se fez anunciar Ricardo de Sá. D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse à mãe que não podia ir à sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angélica receber a visita. Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimónia dum visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estilo da França, coisa que ele vira fazer a quatro ou cinco viajantes distintos do Porto, que tinham conhecido, em Paris, a “mesa-redonda” dos hotéis onde estiveram. Aí vão à pressa dois traços deste Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho doutro bacharel que faz requerimentos, enquanto o filho, reserva do para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra inglesa, e timbra em comprar no Moré os mais anilados envelopes, e o melhor papel-cetim de fímbria doirada. Lê, e empresta os romances aos namoros; comenta-os na margem das páginas, e adiciona-lhes apêndices manuscritos de lavra sua, quando a catástrofe merece ser corrigida. Além disto, o bacharel tem três bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais mbrincada é uma Susana a sair do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juízes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam para ele às onze horas, dividindo os cabelos em delgados fascículos, e lustrando cada um deles com um cilindro de cera. Aguça, quanto possível, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pêra com um óleo contido no décimo nono frasco da terceira série. Depois, o laço da gravata, e a colocação simétrica do pseudo camafeu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do Trovador, a ária válida do Rigoleto, e o acto final da Lúcia. De seguida, a compostura airosa das lapelas do fraque, a última demão de escova, e o aprumo do chapéu, onde não há um fio eriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar. O bacharel nutre-se de ar puro, e dalguns escrópulos de carne de boi. O pai, homem roliço e respeitador das imunidades do estômago, supõe que seu filho desbarata a pequena mesada nas casas de pasto, e não se assusta da inapetência. Ricardo crê que o seu estômago destacou tecidos para o coração, reservando para o funcionalismo alimentício um estômago-miniatura, o quantum satis das compleições silfidicas. Convicto da excrescência espiritual, crê-se dotado de fluidos nérveos, magnetismo, electricidade, eterização. Julga-se enfim anestésico, espasmódico, dinâmico, enfim tudo o mais que não se entende. Não ama as mulheres, pranteia-as como vítimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abismar. Outras, exerce a crueza da experiência, fitando-as com o olho carregado de electricidade, fala-lhes com um timbre magnético que ele sabe, e, não há que ver, o sonambulismo é pronto, a atracção é irresistível como a da cobra-cascavel do Canadá após o tangedor de flauta. Crê tudo isto o bacharel, e há velhacos que lho ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de cáusticos. D. Ludovina Pimenta é uma das suas sonâmbulas, e a menos vítima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desiludida não tente contra a existência. Vai vê-la todos os dias, conversa literatura com a mãe, toma uma chávena de chá sem açúcar, e despede-se às onze horas, dizendo que vai esperar no quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada: O SÉCULO PERANTE A CIÊNCIA. É o que podemos esquadrinhar acerca do bacharel Ricardo de Sá. Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comédia desde Aristófanes até Molière. O original anda por aqui. Tenho-lhe assestado três vezes a máquina fotográfica, de rosto; saiu-me sempre aquilo. 3 - Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz... Capítulo II - Ludovina fica hoje no quarto - disse D. Angélica, respondendo à pergunta admirada do bacharel. - Doente? - Sim, passageiramente doente; mas é tão débil a pequena, tão melindrosa... - E um corpo que não pode com o espírito... Eu compreendo o que são esses desfalecimentos de alma. A filha de V. Exª tem uma organização muito semelhante à minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, esterismos, letargias, procedentes das fadigas intelectuais, ou dos anseios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora? - Oh! infelicíssimas, decerto... - Se, todavia, V. Exª tivesse a bondade de dizer a sua filha que fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma medicina toda espiritual... - A curasse?... talvez... - Sorriso de incredulidade, não é assim? V. Exª é sobejamente espirituosa para desconhecer a influência que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magnéticas... - Não lhe dá tréguas a sua paixão magnética, Sr. Sá!... A Ludovinazinha queixa-se de enxaqueca... Eu voto, desta vez, por medicamentos caseiros... Talvez que uns sinapismos... - prosseguiu ela, rindo, sem ferir o órgão maníaco do bacharel - dispensem uma descarga eléctrica. - V. Exª não quis entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição das minhas convicções. - É claríssimo sempre, Sr. Sá; mas desconfio da ineficácia da sua vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ela esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito dela. Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indiferente a V. Exª. - Decerto, não. - Pode dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a afeição que Ludovina lhe merece? - Voto a Sr. D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso... - Só? - Uma afeição nobre e desinteressada... - Amor? - Decerto... amor... reflectido, e bem-intencionado... - Uma paixão verdadeira, não é verdade? - Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto é possível apaixonar-se um homem de vinte e oito anos, apalpado já pelas desilusões, e esterilizado tanto ou quanto pelos ventos contrários dos reveses da alma... D. Angélica fez um jeito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra simulação, dizendo: - Minha filha tocou a campainha... As criadas não a ouvem decerto, eu volto já... Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monólogo: “D. Angélica vai propor-me o casamento da filha. Eis-me entalado numa crise imprevista! Está explicado o enigma da carta que Ludovina me escreveu hoje. Receia que eu me esquive à proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta mulher está abaixo dos meus cálculos. Lisonjeia um amante, mas não pode satisfazer as complicadas necessidades dum marido... E horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma vítima... decerto a mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...” O monólogo continuava, quando Ludovina, conduzida maquinalmente por sua mãe, se colocava atrás duma vidraça da alcova imediata à sala. D. Angélica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquência persuasiva com que ela abalou o coração da filha; já disse, de si para si, que, com tal mãe, não há filha que rejeite o casamento dum brasileiro rico; já leu as páginas que aí ficam à mãezinha para que ela saiba os argumentos com que se vence a desobediência das filhas, em casos idênticos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angélica, há-de também admirar-lhe as obras. D. Angélica viu o mais secreto do ânimo do bacharel; previu o desenvolvimento da conversação, e quis dar à filha o mais rude, mas também o mais proveitoso desengano. - Nada era... ou era muito... Queria saber como V. Ex.ª estava - disse a matreira esposa do Sr. Pimenta. - E ela como está agora? - Sofre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha corou... Era talvez o clarão da descarga eléctrica, seria? - V. Exª sempre “fazendo espírito” com os axiomas da ciência... Há-de convencer-se... A experiência lhe apontará as evidências... - A mim? ora essa! Terá V. Exª a infausta ideia de me magnetizar? Adormecer-me... isso é fácil; bastam os livros que tratam da ciência, não é precisa a acção... Não “faço mais espírito” como V. Exª diz... Vamos à nossa prática interrompida que é muito séria: “Disse o Sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente respeitador, uma afeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem-intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, porquanto desilusões, reveses, et coetera, lhe haviam... não me recordo... - Esterilizado a alma... - Foi isso... Em toda a sua resposta só há de desagradável essa esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma há-de sempre florescer e frutificar, quando a cultura for confiada a uma mulher de bom coração, meiga, dócil, maviosa, enfim, a uma que não inveje as boas qualidades de minha filha. - Decerto... assim o penso, minha senhora - balbuciou o bacharel, forçado pelo silêncio interrogador de D. Angélica. - Minha filha ama-o, Sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer ser sua ou da sepultura, não aceita admoestações nem esperanças tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, senão... diz que, mais tarde, será vítima da sua paixão. Sabia V. Sª que era tamanho o seu domínio naquela inocente alma? - Sabia.,. desgraçadamente sabia. - Desgraçadamente!... essa palavra traz tristeza! Pois nem sequer o orgulho de ser assim amado o alegra? - Sim, minha senhora - tartamudeou o bacharel, afagando as guias do bigode - tenho orgulho de ser assim amado... Desgraçadamente disse eu, porque me doem os sofrimentos da Srª D. Ludovina... - Estando na sua vontade o mais fácil e desejado remédio deles? é singular! - Ainda assim... há situações na vida... - Sei o que quer dizer - atalhou a zombeteira senhora - há situações em que quiséramos imediatamente felicitar as pessoas que sofrem por nossa causa. Isso e assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade da nossa Ludovina. Minha filha, como V. Sª sabe, não tem dote. E pobre, suposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em riquezas de espírito é milionária. Nas do coração, sabemos nós o que ela é. A “fortuna” porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira felicidade, não é assim? - Decerto minha senhora... - V. Sª tem uma habilitação, tem uma vasta inteligência, sobram-lhe expedientes para granjear o suficiente para duas almas venturosas; agoiro a ambos uma felicidade duradoira. Entrego-lhe a minha filha, na certeza de que nunca me será turvado o prazer deste instante de expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a considerá-lo meu filho. - Minha senhora - disse o enfiado bacharel, estendendo a mão a D. Angélica – eu estou cordialmente penhorado pela confiança que mereço a V. Exª. Cumpre, porém, reflectir num passo tão momentoso. Eu amo em extremo a Srª D. Ludovina, toda a minha ambição é identificá-la ao meu destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispor da parte de obediência que devo a meu velho e respeitável pai, sem consultá-lo, porque dependo dele, enquanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto V. Exª imagina que pode proporcionar-me a inteligência. - Pensa mui judiciosamente - redarguiu D. Angélica formando com a prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um trejeito de mui sisuda aprovação - e qual conjectura V. Sª que seja a resposta de seu pai? - Não sei, minha prezada senhora... - Se for negativa? - E for negativa... - Obedece? - Como filho dependente; mas os dias da minha existência serão poucos, e atribulados... - Mas isso é horrível, Sr. Sá! Minha pobre filha sucumbe... V. Sª mata a mulher que mais o amou, a única neste mundo que o compreendeu, um anjo que não viu outro homem digno dela... Que diz a uma mãe consternada, Sr. Sá? - Minha senhora... a nossa posição é desgraçadíssima. - Remedeie-a, que pode. Se seu pai o não aceitar casado, tem a casa de sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não ama Ludovina! - Se a não amo! Isso mata-me, Srª D. Angélica! - V. Sª é que mata uma santa, uma mártir... - Segui-la-ei na morte... - Pois o melhor é viverem ambos! - disse D. Angélica, desafivelando a máscara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que imaginardes, leitores fantasiosos. - V. Sª tem sido logrado desapiedadamente, Sr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma pessoa como V. Sª não deve morrer, enquanto a tristeza, que foge ao riso, andar por este mundo. Sr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta nossa cena cómica, e acredite que o magnetismo não operou a aproximação. Eu comecei a falar-lhe em minha filha para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vai esposar um homem que seu pai lhe escolheu. V. Sª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão inapreciável, e voltou as minhas ideiaspara o lado oposto. Fui buscar minha filha para assistir ao espectáculo do coração de V. Sª, e dei-lhe um belo espectáculo. Sr. Sá, a sua posição é desagradável, e faz-me pena, por não dizer tédio. Um homem como V. Sª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta. D. Angélica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do trono. O autor possível do SÉCULO PERANTE A CIÊNCIA, emergindo do estupor momentâneo, procurou a bengalinha de Susana a sair do banho, e caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito desconhecido ao bacharel. - Olé, por cá, Sr. Sá? - É verdade, Sr. Pimenta. - Ninguém lhe falou?! estava sozinho?! - Saiu da sala, neste instante, a Srª D. Angélica. - E Ludovina? - Está de cama, creio eu. - De cama!? ela ficou boa quando eu saí.,. Alguma dor de cabeça... - Creio que sim... Dá-me as suas ordens, Sr. Pimenta? - Saúde, meu amigo, apareça à noite, que lhe quero dar o conhecimento deste meu amigo, que será proximamente o marido da minha filha... - Sim!... estimo muito conhecer... às suas ordens, meus senhores. Saiu; e o Sr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pai da esposa prometida: - Que diabo de coisa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquilo não for um patarata! - É um pobre diabo que lê novelas, e não é mau rapaz - respondeu o Sr. Melchior, limpando o suor da testa. - Novelas!... hum! - este hum do Sr. João José Dias é uma coisa semelhante a um ruído roufenho; aquele hum é a tese duma dissertação que ele, em tempo oportuno, há-de fazer contra a leitura imoral dos romances. - A sua filha lê novelas, Sr. Melchior? - continuou ele pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado. - Entretém-se com a mãe, às vezes, nessa leitura; mas lê somente as que a mãe já tem lido. - Pois não faz bem. As novelas são a perdição das mulheres. Lá no Rio está aquilo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que era aquilo, pus-me a ler uma novela, chamada... chamada... não me lembra... era dum tal... dum tal Kocles, ou Koques, e, meu amiguinho, era maroteira de ferver bicho. A Srª D. Angélica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra os romances. - Aqui to apresento - disse Melchior. D. Angélica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortesia. No rosto expressivo da simpática senhora, liam-se estas dolorosas palavras: Minha pobre filha, que impressão vais receber! Capítulo III João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco anos. Era de estatura menos que meã, adiposa, sem proeminências angulares, essencialmente pançuda, porque João José tinha uma série descendente de panças, desde a papeira cor-de-rosa até às buchas das canelas ventrudas. Nas faldas duma testa estreita, chata, e rugosa, como um élitro da concha dum cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As pálpebras, túmidas e pilosas como a casca da fava, enviesavam-se para dentro, formando à raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base, nem ossos, nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falópio e de Bichat: rompiam-lhe de entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada, e as asas convexas, dilatando-se até às alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores: nacarinos no centro e roxos para as extremidades quase invisíveis sob os refegos relaxados dos músculos limítrofes. João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de comum acordo as saliências irregulares dum pedaço de cristal bruto. Os dentes laniares ou caninos tinham uma crusta de cárie, e algumas luras chumbadas. Os vinte malares estavam no gozo das suas funções triturantes, conquanto amarelados de sais térreos, e regurgitamentos do bolo indigesto. João José não tinha pescoço: as espáduas ladeavam-lhe os bócios da garganta, alteando-se ao nível das orelhas escarlates, com bolbos da mesma cor, e não sei que excrescências no lóbulo, simulando pingentes de coral. Disse-se que era todo barriga o homem, já que Bufon e Cuvier asseveram que é homem, feito à imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasfémia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto o campo onde fora o pescoço. As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esfera armilar. Tão curtas eram elas, e tão desmesurados os pés, que me não seria dificultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da porção de matéria, destinada para a perna e pé, duas partes iguais, juntou-as, e o ponto de junção denominou-o calcanhar. As botas de João José tinham incríveis expansões de couro: eram um oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um arquipélago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma loisa de merceeiro. Deram-se uns longes para auxiliar a fantasia de quem não conhece o Sr. João José Dias. Para os que o viram, a pintura vai tacanha e inábil, aqui o confesso, envergonhado do meu descrédito. Vamos à biografia da pessoa, e veremos que boa alma se anichou neste hediondo invólucro. João foi cachopo para o Brasil, e estreou-se numa loja de molhados, onde granjeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma tanha de azeite de três almudes, e aguentava com ela do armazém para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso de três arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava à boca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço texto na asa. Isto constou na Rua dos Pescadores, e, ao terceiro ano, João era aliciado por vários patrões, que se disputavam o lanço. Não pertencem à alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos à sua cobiça de melhores ordenados, repeliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O aumento de ordenado vinha sempre espontâneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos. Os pais de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do único cevado e duma vitela para pagarem a passagem do rapaz. João não esqueceu estes sacrifícios, nem as lágrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em oiro embrulhado em seis camadas de papel. Os lucros dos três primeiros anos foram quase todos enviados a seus pais, e, daí em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lhos devolviam em roupas brancas. João José, morrendo um sócio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negócio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descansado na pátria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade. Veio a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca dum convento, e, deixando o usufruto aos pais para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou falida a sua casa comercial, e comprometida a compra que fizera na terra. Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem. Aconselharam-no que intentasse acção judiciária contra os sócios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Aceitou os enormes créditos que lhe ofereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze anos pagou as dívidas de seus sócios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quais, diz ele, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos desonrosamente. Chegou a Portugal em 1848. O pai era morto, e a mãe octogenária estava entrevadinha, pedindo ao Senhor que a não remisse das penas deste mundo sem ver seu filho. João José Dias assistiu seis anos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lágrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ela, já que Deus lhe dera a riqueza. Passado o luto, o capitalista veio ao Porto, e conheceu casualmente, na alfândega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade duns despachos. Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfândega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia imediato foi à praça, e colheu dalguns negociantes informações acerca da filha de Melchior. Todos à uma lhe disseram que a menina gozava de excelente opinião; mas tinha só o defeito de querer ombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores acrescentou que os tafetás, as rendas, e as peliças da filha do empregado da alfândega não pagavam direitos. Esta mordedura dos malévolos não magoou João José Dias. Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito fácil de realizá-la. Replicou o brasileiro pedindo que lhe indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza duma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a coisa, a escolhida era a filha do senhor Melchior Pimenta, que não cabia num sino. - Isto é um modo de falar... - observou João José. - Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá à moda dos janotas, como por aí dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ela, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quiser; se ela quis, muito bem; se não quis, ficamos amiguinhos como dantes. - A minha filha é dócil e ajuizada: há-de querer o que eu quiser. Foi educada por uma mãe, que teve melhores princípios que eu, e faz com que ela lhe obedeça, tratando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina. É este o resumo do grande diálogo que precedeu a apresentação do Sr. João José Dias a D. Angélica. Não querendo eu, nem por sombras, indispor contra os meus fiéis escritos o império do Brasil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epílogo deste capítulo: João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna. Foi bom filho. Levou a honra comercial ao primor de embolsar credores roubados pelos sócios que o roubaram a ele. Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o também, na opulência, como o último dos seus servos. Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e deu-lhes uma cama onde o último instante da vida lhes fosse o primeiro de bem-estar. Que mais virtudes querem, ou maiores encómios a um bom carácter? Se pintei João José Dias feio, não é dele a culpa, nem minha. João José Dias era realmente muito feio. Do Brasil vem muita gente galante. Tenho na pasta um esboço de romance onde figuram quatro brasileiros bonitos. Hão-de ver com que isenção de ânimo se escreve nesta província das letras. Acabou-se o epílogo, e preveniu-se uma crise literária no Brasil. Capítulo IV - Então a pequena está incomodada? - perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do Sr. João José Dias. - Um pouco incomodada. - Vais dizer-lhe que venha à sala, menina? - Irei. - Estou boa, papá - disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hóspede, que ela conhecera de o ter visto outra vez. - Tema bondade de sentar-se, Sr. Dias? - disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um “criado de vossa senhoria” que corrigiu bruscamente em “vossa excelência”. - Minha filha, quando ontem te disse que a Providência me deparara para ti um digno marido, era deste senhor que te falava. - Tenho muito prazer em conhecê-lo - atalhou Ludovina com uma afabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pai, e lisonjeou o noivo. - Para satisfazer a uma exigência deste cavalheiro - continuou Melchior - é preciso que tu digas se aceitas livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o senhor Dias. - Aceito muito de minha livre vontade - respondeu com firmeza D. Ludovina. - Não lhe resta escrúpulos? - tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro. - Não, senhor - disse ele. - Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e... - Não espero tal desgraça... - interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro. - Da minha parte, hei-de fazer o possível por não lhe dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguém, até hoje, se deu mal comigo. Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angélica entendeu-a, e seguiu-a, pouco depois. Foi encontrá-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito. - Que é isto, filha? - Nada, minha mãe... - É muito, Ludovina; que tens? - Precisão de desabafar assim. Estas lágrimas não fazem mal a ninguém. É uma vítima que se entrega ao sacrifício, mas deixem-na chorar... Que vida, que futuro, meu Deus! - Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pai te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com ele, menina. - Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnância ou horror... Choro como vítima, mas não dele! é do outro que me matou. - Isso é que é covardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miserável! - Fez, fez; mais que nojo... É preciso que ele se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possível. - Casar por vingança?... Isso é um desforço desgraçado... - Não caso por vingança, que ele não vale o ódio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia amá-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridículo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calúnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam à riqueza. O que nunca ninguém dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como ele é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu-me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem disse... palavras de tanta aflição como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desoprimida... vê? já não choro. D. Angélica abraçou com veemência a filha, beijou-a como beijaria criancinha de peito, e saiu, enxugando as lágrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os Srs. João José Dias e Melchior Pimenta: - Gostou dos modos da pequena, Sr. Dias? - Gostei muito; mas, a falar-lhe verdade, parece-me que ela não olhava direita para mim! - Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural? - Isso sim; mas dava aquelas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim simpatia de mais tempo... - Minha filha tem muito juízo, Sr. Dias... - Não duvido. - E então quis desde logo agradar a seu pai e a seu futuro marido. - Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversazita? - Pois não, Sr. Dias! todas as vezes que quiser. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ela o não merece. Eu vou mandá-la. - Faça-me esse favor. Melchior procurou a filha, reparou nos indícios das lágrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse à sala, acrescentou: - Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua família. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independência numa sociedade onde a formosura se estima, como um meio de alcançar “fortuna”, e a “fortuna” como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha? - Entendi, meu pai. Ludovina entrou jovialmente na sala. - Minha senhora - disse o brasileiro, gaguejando -, eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as coisas assim como elas me vêm à ideia. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida? - Sim, senhor, disse ainda há pouco que sim. - É verdade que disse; mas pode ser que o dissesse para contentar seu pai, e lá no interior sentisse outra coisa. - Disse o que sentia, e repito o que disse. - Quem sabe se a senhora tinha alguma simpatia por aí, e que lá por eu ter alguns vinténs seu pai a fizesse voltar-se para outro lado? - Não, senhor, eu não tenho afeição a alguém. - Porque depois éramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado neste mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguém lhe pôs o dedo sujo; e seria mais fácil, eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito ano para a conservar, cheguei até esta idade sem ser ofendido, e assim destes cabelos brancos que me vê, se alguém me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco anos. A menina entende-me? - Creio que entendi, e sinto que V. Sª me esteja ofendendo com as suas suposições injuriosas. - Isto é um modo de falar, Srª D. Ludovina e perdoará se a ofendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se há-de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as coisas de modo que seu pai se queixe de mim, e não da senhora. - Já disse a V. Sª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei-de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe. - Diga lá, seja o que for. - Desejava que ficássemos na companhia de meus pais. - Ficaremos; e quando formos passar algum tempo à nossa casa de Celorico, a nossa família irá connosco. Era só isso? - Não tenho outra ambição. - Isso pouco é... Há-de se fazer tudo que a menina quiser: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quiser dizer a seu pai que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico à espera dele e de sua mãezinha para me despedir, até à noite. D. Ludovina chamou o pai, sem sair da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando ele se despedia. João José disse que jantara três horas antes, e jantaria segunda vez com tão amável companhia. Estava inspirado! E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o último, e mais solene que fez foi o seguinte: A saúde de quem de hoje a um ano há-de ser meu compadre, e minha comadre! Melchior Pimenta agradeceu. D. Angélica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o cálice aos lábios. D. Ludovina corou até às orelhas. A leitora faça o que quiser. Eu não ri, nem corei; deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto. Capítulo V Inventou-se uma lua para os casados. Os irracionais têm uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, à força, os casados, é uma ideia ingrata à decência, feia, e desonesta. Uma senhora inocente que diz: “lua de mel” suja os lábios, se preza a pureza deles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o mel da lua, desdenha o pudor, e despreza-se. Os noticiaristas das gazetas aforaram a frase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diários do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento: Ontem às nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimónio o Il.mo Sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, com a Ex.ma Srª D. Ludovina da Glória Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O Sr. Dias deve à fortuna a escolha duma noiva tão rica de prendas morais como de formosura angélica. À gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo imensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL à sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram ontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o Sr. Dias vai mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residência. Damos os parabéns à cidade invicta por tão valiosa aquisição. A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquela LUA DE MEL indigna-me. Se querem que haja por força uma lua para os que casam, façamos umas poucas de luas: Lua de mel; Lua de cicuta; Lua de láudano Lua de tártaro emético; Lua de mostarda inglesa; Lua de óleo de rícino; Lua de fel da terra; Lua de salsaparrilha; Lua de raspa de veado; Lua de jalapa. Luas tónicas, luas antiflogísticas, luas irritantes, luas vómitas, luas drásticas, etc. Convém, de seguida, observar, que a lua não influi por igual nos dois noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão recíproca. Tal marido é aluado em ovos moles, e sua mulher em jalapa. Tal noiva saboreia-se nos dulcíssimos favos da colmeia lunar, e o homem enjoa um cozimento salobre de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe lembra, por causa das virtudes medicinais, e outras causas. Qual dessas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da Glória? Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciária. Conto os factos, e deixo as luas ao arbítrio do leitor. Fez-se o casamento, e efectivamente partiram os cônjuges para Celorico de Basto. D. Angélica também foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e contratar o arquitecto e alvenéis que deviam fazer o palacete, a toda a pressa. Os cavalheiros de Basto receberam cartão de casamento. Esta usança das famílias de bem, desconhecida a João José Dias, fora lembrança da previdente D. Angélica: o fim era relacionar sua filha com as famílias mais tratáveis de Basto, para que estas, visitando-a, segundo o cerimonial, a distraíssem das melancolias do noivado. Tudo lhe saiu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circunvizinha não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado às senhoras dizia: D. ANGÉLICA TEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS Tem a honra de participar a V. Exª o casamento de sua filha A Ex.ma Srª D. LUDOVINA DA GLÓRIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS Com o Il.mo Sr. JOÃO JOSÉ DIAS Os apelidos heráldicos abalaram os espíritos pechosos daquela fidalguia de travessão que por ali enxameia. Devia ser filha segunda de casa muito distinta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chã de Cima: diziam-no assim os que daquele modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos. Consentiram algumas famílias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedência genealógica de D. Angélica, descobriu que um seu tio-bisavô saíra da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilíssima família dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiolo, donde era oriunda a avó de D. Angélica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso. João José Dias também era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se à socapa da parentela. A língua não se lhe ajeitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes, aos do Reguengo, aos da Capela, e outros que frequentavam mais do que ele queria a casa e o espírito atraente de sua sogra, espanto das fidalgas analfabetas. Sem embargo, o capitalista simulava afectuosa estima aos hóspedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas. D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessário para projectarem passeios, romarias, e saraus, por aquelas redondezas. Anuía o cônjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma criança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação doméstica. Bem via ele a inocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ela aceitava as louvaminhas dos primos. D. Angélica entendia o que seu genro calava; conhecia a violência que ele fazia ao génio e aos anos ronceiros, para andar naquela lufa-lufa de visita em visita, bifurcado num macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciência rebentasse enfim por algum dito menos delicado à mulher, quis ela prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez à filha: - Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os anos estranham esta transição. - Que quer a mãe que eu faça? - Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com ele algumas horas mais de convivência. - Que hei-de eu dizer-lhe?! - O que hás-de tu dizer-lhe?!... - Sim, mamã. Temos ocasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos três palavras. Sou amiga dele; mas não sei como hei-de mostrar-lho doutro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se ele ainda me não disse nada, porque há-de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-ma! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento diante de meu marido? - Não creio que te devas extasiar, mas também não aprovo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tratada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerece aos olhos desta gente, que lhe chama parente? - E a felicidade é isso, mãe?! - A felicidade não é coisa nenhuma desta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá à consciência da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido. - Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe? - Não tas aplico, Ludovina: respondi à tua pergunta. A felicidade no amor é uma criancice dos quinze anos, e as vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as idades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, daqui a três meses, hás-de amá-lo como se ama um amigo. O outro, daqui a três meses, amá-lo-ias com o aflitivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros meses de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortúnios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, compreendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o desprezo dos maridos, aceitando a adoração doutros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só delas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recomendo paciência, Ludovina, porque ninguém te dá causa de sofrimento; recomendo-te juízo. Este homem há-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor afeição, da que mais dura neste mundo; terás o bem que raras vezes fica dum amor ardente. Estas e outras palavras modificaram a força motriz de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo à míngua de estímulo, e as massas amolecidas do Sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gáudio do velho macho que as caminhadas traziam desmedrado e manhoso. Estava já a lua-de-mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, enquanto não alugavam casa provisória, onde esperassem que o palacete se fizesse. João José Dias foi agradavelmente surpreendido em casa de seu sogro. Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosíssimos recamos de brilhantes, que seu marido lhe dera na véspera do casamento, João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto numa bandeja, viu uma comenda pregada nela, e sobre uma salva de prata um colar com a cruz da ordem de Cristo, pendente dum vistoso laço de fita. - Que diabo é isto? - disse ele ao criado, no requinte do pasmo. - É um presente que faz a V. Exª o Sr. Melchior. - Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros - dizendo isto, o comendador lançou à salva... setecentos e vinte. Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em sucessos de me-nor estímulo à munificência, sei doutros arrojos de liberalidade, que desbancam João José Dias. Aí vão, de passagem, dois exemplos: Um visconde, opulentado pelos dons duma bestial fortuna que o ama como a coisa sua, com pra um quarto de bilhete da lotaria espanhola. O rapaz que, à custa de muito teimar, lho vendera, vai dar-lhe a nova de que a cautela fora premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alvissareiro moço, e traz-lhe umas calças de cotim sem fundilhos. Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge à tona de água resfolegando, e pedindo socorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro, que, em risco de morte, consegue salvá-lo. Vai levá-lo à família, mandam-no esperar à porta da rua, e recebe, como salvador duma vida cara aos seus, uma vida que os jornais pranteariam com tarjas da grossura dum dedo, e vinhetas das mais fúnebres da tipografia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre. Isto é público e notório; mas não estava em crónica. Receio magoar a modéstia dos generosos cavalheiros, por isso ressalvo os nomes. Na quinta edição deste livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseráveis sovinas, e estímulo à profusão da presente raça. O comendador não era fona. Esse cainho feio não desluz os bizarros presentes que fazia à esposa, e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do teatro lírico, um vestido não visto, só comparável aos que trajara antes, e sempre inferior aos que trazia depois. Os “leões” sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores duma glória tão produtiva, que faz lembrar a dos domínios da Coroa portuguesa na Etiópia, Arábia, e Pérsia, os leões honoríficos do Porto, se assestavam pertinazes os óculos na peregrina esposa do comendador, o mais que conseguiam era realizar o anexim nacional: - “viam-na por um óculo”. João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria ele homem bastante para realizar, já não com um, mas com todos, a fábula do leão espinotado pelo orelhudo. O comendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era acessível ao ciúme sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha sossego, nem poro que não estilasse o suor da apoquentação. As afabilidades mais triviais e inocentes de cortesia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrório, o menor gesto de atenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do comendador. Num desses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circunferência, apareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a véspera da sua derrota. Audacioso até ao desatino, teve a petulância de aprumar-se diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angélica pediu o braço a uma amiga e saiu daquela para outra sala. O comendador não fora estranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os berloques do relógio, e trejeitando o habitual sorriso do homem trágico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante delas, e montou a luneta. D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. A cabeça do comendador subiu um repuxo de sangue, e os lóbulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas. D. Angélica, que espiava o sucesso da sala próxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz: - O senhor é um miserável tolo, que incomoda. Se se estima alguma coisa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder às suas provocações. - Mude de sexo como Teresias, e fale-me depois - disse Ricardo, dando à perna direita o costumado repuxão dos elegantes. O comendador veio ao encontro de D. Angélia, e disse-lhe: - Aquele sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui? - É. - Que diabo anda ele a prantar-se diante de Ludovina? - Já reparei nessa acção repetida. Eu lhe conto: dê um passeio comigo. – E tomando-lhe o braço, D. Angélica continuou: - Este homem foi uma afeição inocente de minha filha, e é hoje um ente desprezível para ela e para mim. - Escreviam cartas um ao outro? - interrompeu o comendador, bufando. - Escreveram, sim... - Porque me não disse isso a senhora?! - Porque não merecia a pena dizer-lho. Que é escreverem-se cartas? - Não é pouco, acho eu... E como acabou isso? - Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa. - E que quer ele agora? - Vingar-se da única maneira que pode: afligir minha filha... Ela aí vem... não falemos nisto. D. Ludovina disse afectuosamente ao marido: - Vamos embora? eu estou incomodada. - Vamos - disse a mãe. - Nesse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho já - disse o comendador. As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em ânsias, e falava aceleradamente a sua mãe. Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovelo direito apoiado na mão esquerda. Foi ao pé dele e disse-lhe: - O senhor sabe quem eu sou? - Creio que já o vi em alguma parte. - Faz favor de vir aqui que lhe quero falar? Ricardo seguiu-o maquinalmente, atravessou um corredor, e parou num patamar deserto: - Eu sou o marido daquela senhora que vossemecê insultou lá dentro. - Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma! - Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a senhora D. Ludovina tem um marido de quarenta e tantos anos, isso é verdade, mas capaz de pegar numa orelha dos pandilhas como vossemecê, e dar-lhe com a cabeça numa esquina, tem percebido? O comendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas. Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O comendador não lhes disse palavra com referência ao desforço solene que tirara do bacharel. Isto, se eu o não contasse, era coisa que morria ignorada, porque o autor embrionário do SÉCULO PERANTE A CIÉNCIA nunca a diria. Capítulo VI Esta inquietação danificou a vida menos má do comendador, e o sossego, aparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade pressagiosa de trovoada. O marido recebia os convites para bailes, e queimava, à sorrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das famílias, e o rastilho de pólvora que espera uma faísca. Ao teatro iam raras vezes. O comendador adoecendo quase sempre no dia da récita, suportou no estômago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflamação intestinal. D. Angélica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar auso à filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sozinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa aparição dum neto que a irritação de entranhas do capitalista. Acabara-se o palacete, e fez-se a mudança. O comendador não convidava os sogros para viverem com ele. Ludovina, reagindo contra a tirania simulada, disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus pais. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro. Ludovina queixava-se à mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tédio; perguntava se era aquela a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferíveis ao gozo de cinquenta vestidos que se traçavam no guarda-roupa, e da luxuosa mobília que ninguém admirava. D. Angélica, já aborrecida também, prometeu à filha entender-se com o genro, e mudá-lo por meios suaves. - Que motivo há, Sr. comendador - disse D. Angélica - para se encerrar nesta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava? - Eu vivo assim melhor. - Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte... - Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflamação de entranhas não me deixa. A saúde está em primeiro lugar. - Tem razão; mas neste mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma à outra. O senhor é casado com uma menina habituada aos inocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-ei que não consentiria um casamento entre génios tão contrários, se previsse o que está acontecendo. - Então que é? - É que minha filha não pode assim viver contente. - Agora não! ela não se queixa: a senhora é que toma as dores por ela. - Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma santa. O pior será quando ela se queixar... Isto assim vai mal, Sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de ofender a sua dignidade. - Não duvido; mas estou melhor assim, e ela também não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam à pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda ali com a cara ao pé da dela. Nada de bailes, Srª D. Angélica. Minha mulher, se quer passear, tem aí uma carruagem, e eu estou pronto a acompanhá-la para toda a parte. - Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações de nossa casa. Ludovina tem amigas, que estranham muito a vida encarcerada que ela passa. Porque não há-de sua mulher visitar, e receber as visitas das suas amigas? - E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem coisa boa. O melhor é cada um em sua casa. - Que razão essa tão... tão singular! - Afinal de contas, Srª D. Angélica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em aparecer. O mundo está uma pouca-vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por aí. Não quero que minha mulher ande nas bocas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde apareceu o tal namorado que ela teve, não tínhamos todos a zanga com que saímos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor. - Então não me responsabilizo pelas consequências, Sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ela desconfiar que v. s. a encerra em casa, por suspeitar da lealdade dela, teremos grandes desordens, e não terei poder para acomodá-las. - Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se. O diálogo ficou aqui; mas há aí duas linhas que fazem honra à inteligência equívoca de João José. Merecem ter segunda edição em versaletes: EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM. Isto é uma grande ideia, das quatro ideias grandes, que aparecem em cada século, e que, por engano, entrou na cabeça inóspita do comendador. Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores deste livro são elas. O marido, que me está lendo, se tem cinquenta anos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiência lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciúme, alguma coisa que possa ler-se em letra redonda. A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não há-de o ciúme fazer as prosas toleráveis dos maridos? A ideia de João José, se fosse minha, ninguém me aturava a vaidade. Rogo aos escritores contemporâneos, e aos futuros sábios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte máxima: Há maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem; escrevam por baixo - O Comendador JOÃO JOSÉ DIAS. As pessoas, que melhores ideias engendraram, não têm sido as mais felizes. O comendador pertence ao martirológio dos grandes pensadores. Os fados, os estúpidos fados hão-de castigá-lo por essas poucas palavras com que ele arranjou um nicho, podre de barato, no templo da memória. O castigo começa. Capítulo VII Ludovina disse um dia a sua mãe: - Estou casada há treze meses, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como criança, a minha mãe, a meu pai, e a esse homem, que entrou na nossa família com certa autoridade que me intimidava. Eu fui sempre dócil, dócil até à pusilanimidade. Se a violência não fosse tamanha, este homem, que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não pode ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de criança; envelheceram-me com os desgostos contínuos, e por isso hão-de sofrer-me agora emancipada. - Que vem tudo isso a dizer, Ludovina? - Que quero a minha liberdade, que hei-de passar por cima da opressão à custa de tudo. - Ludovina! que linguagem é essa? - É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das minhas amigas, e dos recreios, donde a minha reputação saiu sempre sem mancha. - A quem o perguntas, a mim? - Sim, à mãe, ao pai, e depois perguntá-lo-ei ao dono desta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço dessas coisas, deixo-lhas, e peço a meu pai a subsistência que me dava dantes. Se ma negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto há-de decidir-se hoje. Ninguém sofria tanto tempo, por amor-próprio, ou pela virtude da paciência. - Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes. - E se ele, por maldade ou por ignorância, suspeitar da pureza das minhas intenções? - Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi-lo-ás. Veio o comendador cortar o colóquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrara a lerda fisionomia do personagem. Nessa ocasião, o achaque intestinal era verídico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o Sr. Dias! D. Angélica, instada por um gesto da filha, deixara-os sós. - É a primeira vez - disse Ludovina, sentada numa cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada à palma da mão direita, e uma perna sobre a outra baloiçando-se, deixando ver o pé de fada, através do rendilhado da saia que a velava. - E a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pai desses com quem se não tem muita confiança. O Sr. Dias abriu a boca para entender melhor. D. Ludovina prosseguiu: - Poucas filhas há tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo o que há nesta casa, Sr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa estranha, sujeita à sua generosidade. A sua vontade é o móvel das minhas acções. Enquanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus pais me concediam, aceitei-a, sem lha agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossível o contrário. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz às pessoas incapazes de viverem nela, aceitei também, sem me queixar, o cativeiro, e suportei-o seis meses como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciência muda. O Sr. Dias, sem saber o que fez, expôs sua mulher aos comentários ofensivos que a sociedade há-de ter feito à minha ausência repentina. Deu um escândalo, sem necessidade de evitar outro. Disse à sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde há o bom e o mau. - Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguém - interrompeu o comendador, que andou às aranhas muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estilo sentencioso da filha e discípula de D. Angélica. - Não disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o teatro, de receber as minhas amigas de colégio, e as relações de minha família, o que diria a sociedade? - Lá o que ela quiser, menina... - O que ela quiser, não, Sr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo desta separação injusta a que me força. - Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te meteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: “Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.” - Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela boca de minha mãe; o meu silêncio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor-próprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, Sr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade? - Não, já disse que não. A coisa é outra... - Qual é essa outra coisa? - As boas pagam pelas más, e não há mulher honrada para certa gente que vai aos bailes e aos teatros. - Pois eu não estou disposta a sacrificar-me às mulheres indignas. A minha consciência é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim. - Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti? - Que se diz, Sr. Dias? - Não sei; mas... eles lá sabem o que dizem. - Eles quem? acuse-me sem piedade; repita as afrontas que me fazem; tenha a coragem de caluniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes. - Tu estás fora de ti, Ludovina! Isso não é assim. Aí anda espírito santo de orelha... O teu génio não é esse... - O meu génio é a minha dignidade, neste caso. Responda-me: ofendi a sua honra? - Não, já disse duas vezes que não. - Faltei aos meus deveres de esposa? - E ela a dar-lhe! - Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis meses da nossa união. Quero ir ao teatro, aos bailes, às visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como prémio do meu procedimento para consigo. Quero... - Então isto, pelos modos, é “nós, el-rei, e justiça de Fafe!” Aqui não há rei nem roque nesta casa? é quero, e mais nada? - Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, Sr. Dias, meus pais têm uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente dessas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração, rejeito, porque não aceito o preço por que fui vendida. Ludovina, já de pé, com o rosto inflamado e os belos olhos coruscantes de cólera, saiu dum ímpeto, deixando o comendador atónito na mais palerma imobilidade. D. Angélica ouvira tudo. - Excedeste-te, Ludovina - disse ela -, mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Aceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ela qual for. João José Dias nem palavra naquele dia e no seguinte. Ao terceiro havia teatro lírico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Às sete horas e meia mandou pôr os cavalos à sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao teatro. O comendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as pálpebras quanto pôde, e pasmou os olhos suínos na atitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no colo as martas. - Vem, ou não? - repetiu ela. - Espera, que eu visto-me - disse o comendador, tomado duma espécie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corolário de demorados raciocínios. Fez impressão o aparecimento de Ludovina. Acharam-na mais donosa os amadores do pálido. O viço da florescência tinha murchado ao lento dessecar da melancolia. Ficara a pele acetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o vívido fulgor dos olhos negros, assombrados da cor violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os analistas que os tecidos celulares do comendador estavam cada vez mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, acerca das medranças deles, pilhérias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos. Estes colóquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre froixos de riso, nos camarotes, onde estava a própria virtude, com cabelos à Stuart, e despeitorada à Aspásia. Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do Trovador, e aguçando-lhe a compunção nas lamentações finais da Ponti, que o comendador denominava uma “comediante de mão-cheia”. O ar de felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicência desapontada. Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, desta vez, no escritório do comendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflamação deu tréguas às entranhas de João José Dias. Era para ver como ele se tornava, sadio e durázio, aos prazeres do mundo. Mas o interior de João José? Era um incêndio para que a filosofia humana não inventou ainda bomba eficaz! Era o inferno do moiro de Veneza churriscando aquele humano torresmo! Que via ele para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças aceitava. Os cavalheiros, que se avizinhavam dela, com liberdade, eram os amigos de seu pai, ou de seu marido. Os outros, repelidos pela sisudez e gravidade com que os ela recebia, denominavam-na uma virtuosa grosseira, e apostavam que andava ali influência de capelão incógnito. Que sandeus ciúmes eram, pois, os do comendador, que a fortuna poupava à sorte de pessoas tão conspícuas, e bem ajeitadas de corpo e alma? Batei nesta sáfara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do íntimo dos predestinados e minotauros, e Sganarellos ao alcance da ciência humana. Cansar-vos-ei sem achar a razão da coisa. O axioma foi proferido há quatro anos, e já tem três edições com esta: Há maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para que os outros não desconfiem. O comendador JOÃO JOSÉ DIAS (passim). Capítulo VIII Raivando contra si próprio, o barão de Celorico... O barão de Celorico! Personagem novo no conto? Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados às urgências do estado, e seiscentos mil réis ao oficial maior de secretaria onde se fabricam os barões, e cinquenta moedas ao agente secreto das urgências do estado, e das urgências dos estadistas? Se não leram isto já, perderam-se na tipografia quatro tiras de composição a mais rendilhada a buril clássico, a mais puritana de linguagem, com recheio de ideias substanciosas, e gordura de pensamentos! Finalizava o capítulo VII por um baile de regozijo, que o novo titular estimado pelo sogro, resolvera dar aos seus colegas, e mais amigos, que o felicitaram da mercê. Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico. Ao cair da noite, recebera ele uma carta anónima, da qual não pude haver cópia, e, podendo inventar uma, não o faço, que mo veda o propósito de fidelidade. É certo, porém, que o conteúdo dessa carta entendia com Ludovina, meiga criatura, organização melindrosa, que tanto a pesar meu hei-de nomear baronesa de Celorico. Não se pode aferir o grau de calúnia dessa carta pelas carantonhas do barão, que a lia. Em carantonha perene estava ele sempre, lastimoso Anfitrião, desde que a sombra dum Júpiter de casaca lhe assombrava os encantos da inocente Alcmena. Qual seria o espírito rasteiro que se quisesse vazar nas formas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ela, com tantos mimos e promessas de delícias, vos faria a vós, leitores sedentos, aceitar a transfiguração hedionda. O barão tragou a afronta enquanto o bojo o comportava; depois, rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta. D. Angélica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; convenceu-o de que o despeito duma alma vil devia vir àquela infâmia; apelou da calúnia para a consciência do barão; obrigou-o a confessar que nunca sua mulher saíra de casa sem ele; fez, finalmente, resolver o pestilencial tumor que ameaçava, naquela noite, uma supuração escandalosa. Raivando contra si próprio (cá estamos na cabeça do capítulo) o barão de Celorico, não podia transigir com as razões da sogra. Terminado o baile, duas ou três vezes amachucara a carta na mão convulsa, para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço. - Que tem, meu amiguinho? - disse ela, que o vira, no espelho, fazendo esgares com os beiços -, parece-me que está agitado! - Estou bom, muito obrigado, estou como se quer. - Que modo é esse de responder? - tornou ela, voltando-se de súbito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com achavascada impetuosidade. - Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro como uma castanha. - O senhor está disparatando! explique-se. - Foi o diabo o nosso casamento, Srª D. Ludovina! - Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso? - É os meus pecados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não pode dar boa conta de si. - Vamos aos factos; aplique... diga a que vem isso? - Aí tem o que é. E arremessou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma péla. A baronesa abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem sinal de inquietar-se. - Diz-se aqui que eu tenho um amante - disse ela sorrindo - que se corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor: crê que eu tenho um amante? - Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra sofre com isso. - Como sofreria com a verdade do aviso? - Que é? não entendi. - Se as suspeitas condissessem com este aviso, não sofreria mais? - Matava-a, Srª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de homem honrado, que a matava, e tiraria os fígados pela boca ao próprio diabo do inferno, e tinha alma de meter uma faca no peito para morrer ao pé de si! Esta rajada sacudiu todas as febras bambas do barão. Não teve remédio senão sentar-se, a ressumar camarinhas de suor, impando, e arfando como fole de forja. Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra enxugou-lhe a face. - Sofre porque me não ama, porque me não crê... - disse ela. - Não faças caso disto, não é nada... não é nada - regougou ele. - Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve é um miserável inferior ao meu desprezo. - Já sei tudo... não falemos nisso mais. Deite-se, que eu preciso de tomar ar. - Onde vai? - Vou ao jardim. - Eu vou consigo... espere um bocadinho. - Não venhas cá; deita-te, que está fria a madrugada. Foi. Eram três horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A neblina do mar serpenteava por entre as ribas marginais do Douro. O clarão da luz ia-se descorando ao arraiar do crepúsculo. Era a hora menos poética das vinte e quatro da rotação deste planeta, onde, às três horas e meia da manhã, dorme toda a gente que tem juízo, e sabe um pouco de higiene. O barão de Celorico não dava fé das belezas matutinas que o rodeavam. Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até parar no muro, que o estremava de outra rua. Esta rua é justamente aquela por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafais contra o charuto incombustível. Nesse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu maquinalmente a janela, e viu aproximar-se dela um vulto embuçado, que lhe disse: - Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa? - O que é - exclamou o barão atordoado. O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rápido, desapareceu na meia escuridade. Longo tempo agarrado às grades, o barão de Celorico parecia ter perdido a memória, a sensibilidade, o senso íntimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, vendo aquele imóvel espectáculo, através das grades, imaginou primeiro se seria estátua do jardim; reparando atentativamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava ali um homem. - Olá! - disse um soldado. - Que é? - respondeu o barão, espertando da letargia. - É daí dessa casa? - Sou o dono dela. - Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque há-de haver cinco dias que vimos sair às quatro horas da manhã um encapotado daquela porta que ali está abaixo, chamámo-lo, ele deu à canela, e sumiu-se-nos lá em baixo na travessa. - Desta porta que está na parede deste jardim? - exclamou o barão. - É como diz. - A que horas? - A estas horas, pouco mais ou menos. - Um homem de capote? - Tal e qual. - E não viram mais ninguém? - Pareceu-me que vi aí nessa grade uma figura de mulher, com um lenço branco na cabeça. - Obrigado, camarada, muito obrigado, e boas noites. O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos à cabeça, atirou-se com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cai em cheio, vê ao pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projéctil fatal, o charuto que Francisco Nunes, na véspera, arrojara para dentro. O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido fremente, apertando-o, rábido e sanhudo. - Eis a prova da minha desonra! - exclama, e ergue-se vacilante e cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através dum passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariado, grita que há ladrões em casa. Afluem os criados, buscam, e rebuscam todos os cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos braços de dois criados, com um ataque nervoso. Ministram-lhe socorros, conduzem-no à cama, querem ver o que ele fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada dum charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquilo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angústia, responde: - É a nossa morte! Instam na explicação das respostas, e ele troveja. - Não quero aqui ninguém! Pasmam, e retiram-se, atemorizados. - Estará ele doido, meu pai? - dizia a baronesa, trémula de medo, apoiando-se nos braços do espavorido Melchior. - Parece que sim, minha filha. Chamem-se médicos já. Este homem deve ter demasiado sangue. E ameaça de doidice, não pode ser outra coisa. - Que sorte a minha! - disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito de seu marido. - Se se verificar a demência - dizia Melchior a D. Angélica, de modo que só todos nós podemos ouvir - a administração da casa passa imediatamente para Ludovina, e Rilhafoles com ele. Este homem saiu muito outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o lugar da alfândega, nem me ofereceu um empréstimo com que eu possa tentar demanda contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma criatura tão perfeita como a nossa Ludovina! D. Angélica não respondeu. - Ainda te dói a cabeça, Angélica? - Bastante. - Já estavas a dormir, quando o barão gritou!.36 - Dormitava. - Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá! - Tinha corrido sobressaltada. - Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida... - E verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes. - Porque me não chamaste, filha? - Não quis incomodar-te. - Ora essa!... - Até logo, filho, vou ver se descanso um instante. - Vai, vai, menina. .... .... .... Há reticências que não dizem nada. A literatura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras de reticências, as quais correspondem aos pesos roubados da mercearia. Eu abri loja, e vou com os outros. Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão neste painel de bons costumes. A Srª D. Angélica é excelente mãe, no meu conceito; e, no conceito do Sr. Melchior Pimenta, é excelente esposa. Pode morrer, que o necrológio já não coxeia. Capítulo IX Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois médicos chamados às sete horas da manhã para examinarem a suposta demência, a pedido de Melchior Pimenta, disse-me que encontrara o barão febricitante, mas sem o menos suspeito sintoma de loucura. Acrescentou que o enfermo lhes dissera, que bebessem eles a tisana que receitaram; e lhes mandara pagar a visita, com recomendação de o darem por curado. Às nove horas já o barão tinha saído, sem dizer a Ludovina o seu destino, nem aceitar o almoço. Saíra pela porta principal, e entrara na rua para onde olhava a janela do jardim. Em frente dessa janela, na margem esquerda da rua, estava com escritos uma casa térrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietário da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave. Dali foi ao Largo de S. Bento. Entrou numa loja de ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, noutra parte, as munições de fogo. Tornou a casa ao meio-dia, pediu o almoço, e comeu a tripa-forra. A baronesa e D. Angélica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe três palavras. Quem o servia era um negro, que o acompanhara do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse-lhe em segredo: - Esta chave é daquela casa baixa que tem o número doze, defronte da janela do jardim. Vai à loja de ferragem no Largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguém cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois. O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espírito em meditabundas reflexões. Poucos dias antes, tinha ele ouvido uma história que toda a gente sabe. Era aquele conto duma mulher adúltera, que o marido inexorável matara sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, à ceia, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta história entalhara-se na memória do barão com indeléveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a vítima, mas reprovou a fereza de verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que “a honra dum homem só assim se vingava”. Ludovina fitou-o com espanto, e acreditou que o ciúme seria capaz de desenvolver os instintos ferozes de seu marido. Era aquela história o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de três horas. Desta longa e dolorosa incubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiária, da medonha expiação da adúltera. Chamaram-no para jantar: disse que jantaria em mesa à parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baronesa, e perguntou-lhe a causa de tal esquisitice. - Não dou satisfações - respondeu. - Quero jantar, e almoçar sozinho consigo. - Isso é o mesmo que... - Não me replique! tenho dito. Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as ventas fumegavam soluçando; testa e pálpebras tinham o escarlate da penca do peru assanhado. Ludovina estava aterrada, e julgou-se em risco, ali, sozinha. Recuara para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse: - Olhe, senhora! A baronesa voltou-se, e viu o braço do barão erguido em atitude profética, e lá em cima no cocuruto da mão sebácea... O CHARUTO!... - Que é isso?! - perguntou ela com mais curiosidade que espanto. - Não sabe o que isto é? chegue-se cá! Ludovina, indo receosa, disse: - É um charuto... pois não é?! - É um charuto! é um charuto! é um charuto! mulher traidora! - ululou o bordalengo com a grenha eriçada. Ludovina recuou três passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ela, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as fúrias dum doido, e chamou com aflitivo grito a mãe. Acudiu D. Angélica, já quando o barão, metendo as mãos nas portinholas da japona, à laia de ídolo chinês, voltava as costas a sua mulher. - Isto que é?! - exclamou D. Angélica. - Está doido rematado, minha mãe! - disse, a meia voz, a baronesa. - Vai-se chamar teu pai, que chegou agora. Nós não podemos viver com um demente... - Janta-se, ou não se janta? - disse o barão, caminhando para elas com sossegado semblante. - Que desordem foi esta, Sr. barão? - Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem nenhuma... Foi sua filha que viu uma coisa que a fez gritar... A culpa é dela. - Que viste, Ludovina? - Eu vi um charuto na mão deste senhor; mas gritei porque ele me deu berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores. - Deixe-a falar, Srª D. Angélica - replicou o barão, sorrindo dum modo que confirmava a demência. - A coisa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos à mesma mesa. Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angélica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse dum doido furioso. Sentaram-se à mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, estender o braço por sobre a mesa, e deixar cair, ao pé do prato da baronesa, o charuto. Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo: - Olhem que porcaria! - E voltando-se para o criado que servia a sopa: - Atire isto lá fora! - Não atires! - bradou o barão. - Porque não há-de atirar?! - disse Melchior Pimenta. - Porque não quero! e porque sou dono desta casa! e porque quero despicar a minha honra! e... porque vai tudo com mil diabos! ouviu? Os talheres, os cálices, as bandejas, e os pratos, ressaltaram duas polegadas acima da superfície: tamanho fora o murro que o barão deixara sobre a mesa. Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angélica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarelo, sem gota de sangue, antevendo um violento embate da sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudência. O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe: - Senta-te aí, Simão; janta ao pé de mim, que és o único amigo que eu tenho. Há, neste lance, motivo para nos condoermos. O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descai o rosto, coberto de lágrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousara sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte anos, chora também, e pergunta a medo a causa daquela aflição. Responde-lhe em gemidos o benfeitor, e ergue-se extenuado, e vacilante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéu e sai. As angústias deste homem condenam Ludovina? Não. Ludovina é inocente como os anjos. A peçonha mortal, que espedaça o coração deste homem, tem-na ele na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes. Capítulo X É meia-noite e um quarto no relógio da Lapa. A casta lua dá a sua luz poética a muitas impudicícias, e tolera o escândalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epíteto. Só ela seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a tem salvado a distância que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a distância, é a impertinência das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, têm sido salvas pelo mesmo teor. Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da pútrida impureza. Se todos fizéssemos versos, e nos amássemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este Globo era um viveiro de anjos. A teoria de Hobbes seria uma calúnia, e a de Maltus um absurdo. Não andaríamos travados em permanente luta, nem a exuberância da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cisne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra à prosa que inventou os cereais, o boi cozido, as acções do banco, e a troca dum romance por quinhentos réis. Isto ocorreu naturalmente da castidade da lua. Era, pois, meia-noite e um quarto no relógio da Lapa, e fazia luar como de dia. Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa nº12, da rua... um vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha uma janela tosca de madeira, que se abriu coisa de meio palmo, depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio de luz, caindo sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido duma cidra avelada. Soara o quarto depois da meia-noite, quando a janela interior da grade do jardim se abriu cautelosamente. Um objecto branco sobressaía na sombra: devia ser o lenço duma mulher. Cinco minutos depois, numa extrema da rua apareceu um vulto encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janela desapareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta duma chave. Era a porta do jardim que se abria, ao avizinhar-se o vulto. A distância de três passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruído duma janela que se abria, e parou, voltando-se para a janela. O que ele viu foi o lampejo da detonação dum tiro, e levou a mão ao ombro esquerdo. Seguiu-se um pulo incrível do barão fora da janela, a fuga precipitada do vulto, e um segundo tiro, que redobrou a força motriz do fugitivo. Apitara uma patrulha ao cabo da rua, duas, três, vinte patrulhas apitaram. A cem passos de distância do local dos tiros, encontraram um homem estendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira: - parece que está morto. O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta à chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contíguos à casa, perpassar um vulto, e sumir-se. Abriu outra vez a janela da grade, ao tempo que as janelas das casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados dali, e mostrava-se uma bucha ainda fumegando, no meio da rua. - Quem está aí nessa janela? - bradou um soldado ao barão, que estivera calado. - Sou eu, o dono desta casa. - E quem é o senhor? - É o senhor barão - responderam os vizinhos. - Não, dali decerto não foi. - Os tiros? - perguntou o barão. - Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora. - Eu também os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguém, ou foi patuscada? - Não foi má a patuscada! Está ali adiante um sujeito estendido nas pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta. - Quem é? conhecem? - Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor duma casa rica, chamado... lembras-te, 38? - Acho que ele disse... Almeida. - É isso, Almeida. O Sr. barão conhece-o? - Não me lembro desse nome. Ele ainda lá está? Eu vou ver se o conheço... O barão seguiu a patrulha, até parar num grupo de soldados e paisanos, que rodeavam uma cadeira, onde estava sentado o ferido. Era coragem de cínico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciúme! - Eu conheço este sujeito - disse o barão com admirável placidez. - E ele também me há-de conhecer, se estiver vivo. Olé, Sr. doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me? O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno afirmativo. - Eu oferecia-lhe a minha casa, mas a dele é perto daqui, acho eu. - Nós sabemos - disseram os soldados. - Pobre homem! - prosseguiu o barão em tom compadecido. - Ainda a noite passada ele esteve num baile que eu dei... Aglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo. Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandíbulas alvares uma gargalhada estrondosa. A baronesa acordou, sentou-se no leito estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via. O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lho ao pé dos olhos, e bradou: - O tal patife não fuma outro. - Que diz? - exclamou Ludovina. - Faz-te de novas, mulher perdida! reza-lhe por alma, que a minha honra está vingada. Agora que digam o que quiserem. E saiu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou num terceiro ataque de loucura. Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe. Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda-cama, com a face caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé dela, chamou-a, ergueu-a, agitou-a com a força da aflição, e caiu com ela sobre a cama. D. Angélica abrira os olhos pávidos, e vendo a filha, escondeu a face nas mãos, exclamando: - Jesus, meu Deus! - Que teve, mãezinha, isto que foi? - Nada, infeliz; foi um acidente... - Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquele homem me disse. - Não, minha pobre mártir... imagino o que te diria... Oh... deixa-me ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que nos oiçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo da tua reputação infamada... - Eu não a entendo, minha mãe! - Não podes entender-me, Ludovina, não podes... ai! deixa-me respirar, que eu não vivo uma hora assim... A baronesa amparou a mãe até à janela, que abriu. D. Angélica rasgava com as mãos os espartilhos compressores do colete, e fincava entre os cabelos os dedos com vertiginoso desespero. Neste frenesi, susteve-se, comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contígua ao muro do jardim. Uma dizia: - Ia morto. Outra: - A bala entrou-lhe no peito. Outra: - Pobre família, que bocado tão amargo! - Aquilo que é? - perguntou D. Angélica espavorida. - Eu não sei, mãe! - Esse malvado que te disse? - Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife não fumava outro; e que lhe rezasse por alma... D. Angélica expediu um grito, um ai vibrante, duns que o seio arremessa de si, como se nesse esforço expelisse um espinho arrancado ao coração. Ao grito de Angélica sucedeu o terror confuso de Ludovina. Neste intervalo de silêncio a lastimável mãe concebeu um desígnio atroz. Deu um salto para precipitar-se da janela, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia socorro, a altos brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da angústia. Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou: - Entre quem é. Abriu-se a porta, e surgiu o barão. D. Angélica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, dum repelão, aos braços da filha; correu para ele com a sanha duma possessa, e atirou-o fora do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando: - Assassino! Assassino! Ninguém me soube dizer a qual género do sublime truanesco pertencia, neste conflito, o barão de Celorico. Eu também não me cansei em averiguações, porque o resultado delas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de angústias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dizê-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não aparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas dum sono do qual só podia emergir, quando a última molécula de três grãos de morfina se perdesse através dos filtros nervosos. O dormir do sonolento empregado da alfândega explica-se com as vigílias aturadas de D. Angélica. Vá sem reticências. Para nós é mais compreensível o espanto da baronesa do que estava sendo para ela o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demência do marido era contagiosa, tinha desculpa. Tamanha aflição, descompostura tal de contorções, de gemidos, de arremessos para a janela, chamando a morte, não podia ser procedente do amor maternal exaltado até à ira da leoa. Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possível de efeitos tão extraordinários no carácter inalterável, e quase duro, de sua mãe. Instava, suplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angélica apertava-a contra o seio com arrebatada e insólita ternura. Prometia dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua última palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o crédito de sua filha. Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angélica reparasse na palidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dor, que até ali fora remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser mãe, e afrontou os deveres de esposa. A baronesa mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé da mãe, logo que meia luz do enigma lhe aclarou o entendimento. - A mãe precisa descansar - disse ela com afectado gesto de carinho. - Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama. - Não, filha; eu não tenho descanso neste mundo, nem no outro. Se ainda tenho algum direito à tua obediência, deixa-me só; preciso de chorar lágrimas que nunca Deus permita o teu coração as chore. Não podes respeitar esta agonia, porque a não compreendes, inocente mártir. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres depois. - Sei, mãe. - Que sabes tu, Ludovina?! - exclamou Angélica, abrançando-a convulsivamente. - O meu silêncio responde-lhe, mãe... Não sofra por causa da minha desonra. Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providência fará ver a verdade a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pai. Eu sinto-me com forças para não vergar a um peso de infamação que me não cai sobre a consciência. Se o meu amor a pode consolar, não diga o seu segredo a ninguém; não diga, porque eu não sei qual dos dois descréditos é mais aflitivo para mim... D. Angélica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés. Ludovina ajoelhou com ela, e neste momento abriu-se a porta. Era o barão de Celorico. - Ouvi tudo - exclamou ele. - Perdoa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de Cristo. E foge dessa mulher, que é a causa de eu ser um matador. - Tem razão; vai, minha filha - disse D. Angélica, afastando-a de si. - Sr. barão - disse Ludovina - eu não deixo uma mãe culpada para seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lha para que o senhor caiba nela com o seu remorso. Matou um homem, Sr. barão, um homem que não conhecia; matou-o a sangue-frio, e será .capaz agora de praticar uma crueldade menor matando-me a mim. D. Angélica arrancou-se aos braços da filha com furioso ímpeto e postou-se terrível diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e trémula: - Com que direito assassinou um homem, celerado carniceiro? O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo. - Responda à amante do homem que matou; à mulher que aceita voluntariamente a infâmia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao assassino de António de Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar em minha filha, miserável algoz, que és tão estúpido como sanguinário! Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que parecia, ao passo que ela falava, ir-se petrificando. A veemência da ira descaiu subitamente em síncope. D. Angélica encostou a face desfalecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no leito. E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido acusava os pungimentos do remorso, a baronesa, em tom de cólera mal reprimida, disse: - O senhor não há-de ser mais feliz que as pessoas a quem deu a morte, e a eterna vida de lágrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que ontem me expôs na presença dos seus criados. Tudo lhe perdoei, enquanto o supus demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos, pode matar-me, que o não chamarei à presença de Deus para ser julgado. - Ludovina - balbuciou o barão, com o rosto coberto de lágrimas - eu matei esse homem cuidando que era ele o teu amante... - Era a mim que devia matar-me, senhor. - Não podia ainda que quisesse, porque a minha tenção era matar-me e deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já me não visses neste mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; pode ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés dele e pedir-lhe perdão, e, se tu quiseres, pedirei também perdão a tua mãe. - Não fale nessa infeliz a ninguém, Sr. Dias, a ninguém. Aqui a desonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de António de Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçoe, diga que esse homem era o meu amante; mas não fale em minha pobre mãe... - Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui desonrado por ti? - Desonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quis matar por uma suspeita um vulto desconhecido... - Ele vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janela... - Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama... - Não estava, Ludovina... - Estava, Sr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas palavras em toda a parte. - Então quem estava na janela, senão tua mãe? - Era eu; já lhe disse que a desonrada sou eu; esse homem que matou era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu a causa de meu amante ser um cadáver, e meu marido um assassino. Sou, portanto, uma infame mulher que deve sair debaixo destas telhas. Amanhã, amanhã há-de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente desafrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão-de admirar os brios do Sr. barão que matou o rival, e não desceu à cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalterável; acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infâmia, o escândalo que vai fazer dos nossos nomes um espectáculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me aceitar metade da responsabilidade... D. Angélica sentou-se no leito, afastou, como em delírio, os cabelos que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota de água, com suplicante instância, proferindo os nomes das criadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a água, que ela repeliu com ira. Permaneceu estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois caiu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras ininteligíveis. O barão tinha saído imperceptível. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em lágrimas, sobre o leito. Melchior Pimenta, no quarto imediato, espreguiçando-se fazia com os abrimentos de boca uma toada em falsete, ríspida como o uivar do mastim. Abençoados quatro grãos de morfina que lhe povoastes o sono de deleitosas visões! Melchior Pimenta, eu, quando quero fantasiar um marido bem-aventurado, lembras-me tu. Se vejo algum, desconcertado com as veleidades da metade que se despega, para entrar com excrescência no complemento de outras existências, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a morfina. Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros. Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra deste paraíso terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama de alta estirpe, onde se lhe censura o burguês despique de pecadilho tão corrente em gente fina. O marido aceitara a correcção e a mulher incorrigível. Melchior ria até cair. Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto carrancudo da mulher, e no aguado dos molhos, os desvios do amante: inventa pretextos para aproximá-los, e ameiga os arrufos com um jantar campestre. Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a ele, e mais dez exemplares que Brantome não arquivou (4), todos porfiando em delícias sublunares. Mas o ditosíssimo, o que vive e morre sem sentir na consciência o toque despertador, o momento da predestinação cumprida, esse é um só no meu catálogo. Melchior Pimenta, se quiseres um dia erigir estátuas aos deuses tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no ópio a morfina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção. Sem a morfina, não serias mais feliz que Octávio, que Cícero, que Domiciano, e tantos grandes e sábios do paganismo que podem, sem vergonha, aparecer diante de outros não menos sábios, e grandes senhores da cristandade. Nasceste num fole, Melchior Pimenta! 4 - Veja Vies des dammes galantes, por le Seigneur de Brantome - D iscours premier.. Capítulo XI Mulheres são os melhores juízes de mulheres. Disseram filósofos e moralistas, uns grandes santos como S. Paulo, e outros grandes ateus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocínio. Daí vem o denegarem-lhe acesso às ciências abstractas, às políticas, aos parlamentos, ao magistério, às regiões intelectivas do maquinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca. Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento. A injustiça é flagrante e odiosa. Privam-nas de razão para as excluírem das funções que a requerem; sentenciam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ela. Isto é uma tirania, uma inquisição, uma crueza turca. A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudais da razão. A nossa alçada respira a prepotência do braço e cutelo. Estamos em insurreição permanente contra o santíssimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher. Não podemos superintender no foro do coração, porque a nossa jurisprudência é toda de cabeça, e o nosso código em pleitos de alma é estúpido ou hipócrita. Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abismo, onde a lançou o amor, ao abismo do opróbrio. É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignomínia na face onde imprimira o beijo da perdição. O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a asa onde ela se dá em holocausto. Pecadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céus e céus de alegria e glória, abrimos-lhes nós o inferno dos desenganos, e o suplício extremo do descrédito. O mundo não as exija, mas afronta-as; o coração não as incrimina, mas agoniza na horrível soledade para onde a razão o desterra. E somos nós os juízes, porque entramos numa herança usurpada pela força primeiro, e legalizada depois pelo sofisma escrito. A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral. Quando o homem chamou a ciência a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espírito. Ainda assim, o tirano, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorância, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o germe que a reabilitasse. Pegou da formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma réstia reanimadora. Esta maquinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociais. Os fautores, e ainda os mártires da igualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gota de sangue para o resgate moral da mulher. O Filho de Maria disse que a mulher era igual ao homem, e levou para o céu o segredo da sua emancipação. Ficámos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e neles demarcamos aprofunda raia que estrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para elas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insofrida, condenamos a mulher pela culpa de se deixar perder na obscuridade, à míngua duma lâmpada que lhe negáramos. *** Não sei se rasgue estas cinco páginas do manuscrito. Se alguém me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o número das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil há duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saúde e graça para servir a Deus, não rasgo as páginas, embora os homens me mandem, em portuguesíssima frase, bugiar. Quando comecei o capítulo, tinha de olho dizer, à quarta linha, que, acerca de culpas de mulheres, jamais consulto homens. Mulheres são os melhores juízes de mulheres. A respeito de D. Angélica, consultei uma sua amiga de infância, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa - não me afiram lá a palavra pelo elucidário caseiro - virtuosa amando, amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, travancados pela impostura. Disse-me ela o seguinte: - D. Angélica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um título ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dor. - Ao respeito! - atalhei eu, com fumos de juiz, vício do sexo ingrato, onde por desventura me encontro. - Sim, ao respeito, porque D. Angélica amando vinte anos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciência quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciência. - Vinte anos! pois era amor de vinte anos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcabuzou? - Mais seria, talvez. Angélica era filha segunda dum fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lázaro. Passava as festas do ano em casa dum doutor, que tinha duas filhas, e um filho que se formava nesse tempo. Esse filho era o António de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angélica amou desde os quinze anos, com o amor imenso das simpatias contrariadas. “O doutor descobriu a afeição do filho, e impôs-lhe um violento termo, proibindo-o de vir ao Porto nos dois últimos anos de formatura. “As cartas de António de Almeida recebia-as eu, e Angélica relia-as, ao cabo de dois anos de ausência, com paixão cada vez mais entranhada. “O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo dum cónego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento. “Angélica saiu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentara três anos. “Quando o coração reviveu do letargo, a indiscreta menina escreveu ao pai de António de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pai para casar com seu filho. Que inocência! Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração. “O doutor, se ela lhe conviesse tê-la-ia. Angélica era pobre. Melchior Pimenta não respondeu à carta, nem diminuiu as instâncias. “O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denúncia, e acelerou o desfecho.“ Angélica não soltou um gemido na presença do pai; sei que apenas lhe disse: “A história de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.” Disse, e pôs a cabeça no altar do sacrifício. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta dela... “Participei a Almeida o casamento de Angélica. Respondeu-me ele que não acreditava a infâmia enquanto a pérfida não tivesse o cinismo de lha dizer. Modifiquei as palavras desta carta, contando-as à minha amiga. Ela soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com veemente resolução: “Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e oferecer-lhe a minha casa.” - “Que fazes tu, menina?”, repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: “Faço à prepotência de meu pai o sacrifício da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.” “Julguei-a desvairada pela angústia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco anos, já palpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe. “Efectivamente, António de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu património. “Deixei de ser a confidente de Angélica, meses depois. As suas cartas não eram confidências: eram lágrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciência que só a morte podia cicatrizar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhara à beira do abismo. Disse-lhe que mandasse a consciência ao pai, e que ficasse ela com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortúnio de Angélica, não havia que ver com coisas sobre-humanas. “O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realizar. António de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediência. Choveram maldições às dúzias, abriram-se os cancelos do inferno aos pés do obstinado moço. Pior que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações prontas para ganhá-lo. “Angélica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilizava pela desgraça do filho. Vendeu algumas jóias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do produto, como dádiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as jóias paravam. Aceitou o dinheiro, comprou as jóias, e pediu-me que as entregasse a Angélica. “Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do crime, quando as virtudes do sacrifício recíproco chegam a esquecer-se da sua má origem. “António de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama. “Melchior Pimenta, ao cabo de quatro anos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. António de Almeida cortou às suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angélica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo. “Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e teatros, resumiu-se a vida de Angélica ao amor a sua filha, à adoração mais íntima do amante, e aos respeitos afectuosos por seu marido. “António de Almeida acatou o melindre de Angélica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ela não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfândega, comprando o despacho por alto preço. “Nem este mesmo sacrifício desconheceu Angélica. Os jornais anunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recomendação para o despacho. “Sabe agora a vida de Angélica? “Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta história, acrescente que D. Angélica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lágrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angélica farto de a esperar na sala, e já receoso de algum sucesso triste, procurando-a, ia encontrá-la ajoelhada ao pé desse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de criança afeita a mimos e carinhos, o rosto de Angélica incendiava-se de pejo, como se o afecto e a virgindade do coração travassem peleja. “Em resumo, Sr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma máxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do comendador João José Dias: HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR. D. Angélica está julgada, e punida ......................................................................... Entretanto foi Jesus para o monte Olivete: Então lhe trouxeram os escribas e os fariseus uma mulher que fora apanhada em adultério: e a puseram no meio. E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério. E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas tais. Que dizes tu logo? Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra. E, como eles teimavam em interrogá-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhe: O que de entre vós está sem pecado seja o primeiro a apedrejá-la. E, tornando a curvar-se, escrevia na terra. Eles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no melo, de pé. Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? ninguém te condenou? Ninguém, Senhor - respondeu ela. Então, disse Jesus: Nem eu tão-pouco te condenarei: vai e não peques mais. O SANTO EVANGELHO DE JESUS CRISTO, SEGUNDO S. JOÃO – Capítulo VIII. Capítulo XII Enquanto D. Angélica dormita os sonos curtos e sobressaltados da febre, a baronesa despertou o pai, chamando-o à antecâmara. Melchior Pimenta, estremunhado e como ébrio dos aturdimentos da morfina, estranhou à filha a extraordinária madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura. - Não podemos continuar a existir nesta casa, meu pai - disse Ludovina, sem saber ainda como sair-se bem de lance tão perigoso para sua mãe. - Então que houve? esse alarve que fez? será necessário amarrá-lo? - O necessário é sairmos; mas a mãe está muito incomodada... - Que tem ela?! - Os meus desgostos afligiram-na a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se. - Vamos vê-la. - Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um médico é o mais urgente agora. Veja-a; se ela estiver descansando, não a desperte, e vá dispor as coisas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pai? - Mas que fez o bruto?! A gente há-de sair daqui sem dar uma satisfação à opinião pública? Não vês que esta saída precipitada autoriza a maledicência a caluniar-te como o barão te calunia? - Não tratemos agora da opinião pública, nem do barão. O pai saberá tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim? Melchior Pimenta entrou na câmara de sua mulher. Tacteou-lhe a testa que transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabelos dos olhos, e murmurou: - Isto é doença séria, Ludovina!... - Talvez não, meu pai... São aflições que se curam com o sossego da nossa casa. Não se demore. Vá por casa do médico, e mande-o já. Se vir o barão, não lhe diga nada, promete-me? - Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não codilhou. Tu tens escritura de dote. Quando quiseres, levantas vinte contos de réis... - Pois sim, meu pai, esses negócios não são para agora. O que eu quero é a saúde de minha mãe. Vamo-nos daqui embora, que eu torno a ser feliz... Se é meu amigo, não se demore: tire-nos deste purgatório. Melchior Pimenta ia cismando no divórcio, e nos vinte contos, quando o barão lhe surgiu na extremidade do corredor. - Bons dias, Sr. Melchior. - Bons dias, Sr. barão. - Isso hoje foi madrugar! - Assim é preciso. - Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra. - Não posso, Sr. barão, vou com pressa. - Olhe cá, Sr. Melchior, é preciso que nos entendamos. - A que respeito? - A respeito destas poucas-vergonhas que aqui vão. - Que chama o senhor poucas-vergonhas? - Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, saiba-o, e tome tento na sua vida. - O Sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada. - Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, Sr. Melchior. Entre cá, e há-de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra. - A minha honra não pode ser ofendida nem vingada pelo Sr. barão. - Estou a ter pena do Sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe tudo. - Que me há-de o senhor contar?! - disse Melchior entrando na sala. – Quer contar-me a história do charuto? - O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá se o quer, que eu dou-lho de boa vontade. - E para isso que me chama, Sr. barão? De que me serve a mim esse ridículo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o papel de doido?! - Doido quer o senhor fazer-me, mas há-de-lhe custar... digo-lhe eu... Sente-se aí, e dê-me atenção, que o caso é muito sério... Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico prosseguiu, cerrando a porta da sala: - O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu. - O quê? - Tenha mão, não se atrigue, Sr. Melchior. As desgraças são para os homens, e o remédio é aturá-las quando elas chegam. Sua mulher não lhe tem sido fiel. - O senhor está doido, e, se não está doido, é um infame malvado! – exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento. - Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem meto a fala no bucho. Oiça, e faça o que quiser; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro nesse homem cuidando que era o amante de minha mulher. - O Sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juízo, desdiga-se da afronta que fez à minha honra. - Afronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o afronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece doido! Acredite o que lhe digo, Sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria. - Quem, Sr. barão? diga quem, quando não um de nós há-de morrer. Ludovina entrou precipitadamente na sala. - Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher - repetiu Melchior, enquanto a baronesa cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido. - Que indecentes palavras escuto, meu pai! - Primeiro as ouvi eu a este miserável que mas disse! - A meu marido? Desculpe-o que ele tem o juízo perturbado. O Sr. barão não disse tais palavras com intenção de ofender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calúnia foi um desatino, uma irreflexão, não foi, meu amigo? Dê uma satisfação a meu pai, que está aflito como vê, ou então crave-me um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada. - Tens razão, Ludovina - murmurou o barão, com as lágrimas nos olhos. – Eu estou doido; o que disse é uma mentira; se for necessário, eu peço perdão ao Sr. Melchior, e à Srª D. Angélica. - Ouviu, meu pai? Vá agora, vá. Assim fez o que lhe pedi? - Foi ele que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, Sr. barão? O senhor o que deve fazer é recolher-se a um hospital, antes que as autoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame às suas faculdades intelectuais... - Meu pai! - murmurou aflitivamente Ludovina - pelo amor de Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cair aqui morta. - Eu vou, menina. E saiu, reatando a meditação no divórcio e nos vinte contos. - Não lhe disse eu já, Sr. Dias - continuou Ludovina, baixando a voz com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente - não lhe disse eu já que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janela do jardim era eu? que a culpada, a adúltera, a infame, a digna de morte ou do seu desprezo é sua mulher? - Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto. - Que importa o que o senhor ouviu? Tudo o que meu marido disser contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de certificá-lo com o meu silêncio, e com o meu divórcio. Tudo o que o senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti-lo em público, pondo em mim as nódoas que o senhor puser na reputação dela. De maneira que meu marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escárnio do público. Vê quais são as minhas tenções, meu amigo? - Tu não fazes isso, Ludovina! - rugiu iracundo o deplorável homem. - Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal... - Que se há-de seguir? - Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brasil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina. Era feio o espectáculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, apiedada ou aborrecida da atitude, pôs-lhe as mãos nas espáduas, pedindo-lhe, afectuosa, que não estivesse assim. E continuou: - Entre nós há só uma reconciliação possível. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a aceita, retiro-me contente de sair por um contrato; se a não aceita, vou de sua casa como fugitiva. O Sr. Dias não dirá a alguém que deu um tiro em António de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indício que António de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim desta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contrato que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenha a minha mãe é incomparável ao simples respeito que o senhor Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguém desconfie de que o senhor me surpreendeu com um amante. Autorizo e quero que meu marido diga às pessoas admiradas da nossa separação que o meu génio era intratável, que a minha educação era péssima, que as minhas impertinências de rapariga eram insofríveis. Diga tudo o que lhe lembrar em meu desabono, que eu com O meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo desta casa o valor dum ceitil. Os meus baús irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos duma mulher que o há-de infalivelmente flagelar. Essa mulher sou eu, Sr. Dias, porque o não amo, nem sequer estimo. Respeito-o, temo-o, daqui a pouco hei-de odiá-lo. O homem que o senhor feriu ou matou criou-me nos braços, foi o primeiro rosto estranho que vi ao pé do meu berço, há quinze anos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e mágoas da minha família, não ia grande distância. Eu choro esse homem, Sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ela era amante dele, eu, como filha, não tenho direito a censurá-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao senhor Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse? - Não é preciso... entendi bem... - Qual é a sua resposta? - E preciso pensar, Ludovina. - Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair daqui logo que meu pai volte. - Nesse caso faz o que quiseres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que António de Almeida era o amante de tua mãe. - E eu direi que era o meu amante; darei em público quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira desse homem, se ele não tiver morrido. O Sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridículo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adúltera sua sogra, para que se suponha que os seus merecimentos não podia ser vencidos por um rival. - Tu és uma serpente, mulher! - bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as asas dum alambique - És um dragão! foste o demónio que me apareceste em corpo e alma! Vai-te para as profundas do inferno, e nunca descanso tenhas noite e dia enquanto me não vieres pedir perdão de quereres desonrar teu marido, que te deu palácios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vai-te para onde quiseres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doido vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um moiro! Ludovina voltara as costas ao berreiro virulento de João José Dias. Entrou no quarto de sua mãe, que não ressurgira ainda do terror febril. A criada, que lhe assistia, entregou à baronesa uma carta, subscritada a D. Angélica. Era-lhe conhecida a letra de António de Almeida. Alvoroçada com a aprazível certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel “Angélica”, simplesmente “Angélica”, estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe lê-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrúpulos duma virtude intempestiva. Leu o seguinte: “Angélica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim dessa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salvá-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jamais. Sacrificámo-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervalo. Adeus, até ao céu dos desgraçados. - A. de A.” Ludovina rompeu em gemidos, e caiu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste neste mundo que o espectáculo daquele quarto! Não é preciso grande coração e poder de fantasia para aceitar um quinhão de tamanha angústia. A alma de pedra estala de encontro a este conflito que esmorece na pintura. Cada lágrima ardente de Ludovina bastaria a reacender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este imenso horto de agonia? Na previsão de todos os infortúnios, concebeu alguém as torturas daquela mãe, e da filha que aceita a desonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrai alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os suplícios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lhos todos, menos o cálice de Angélica, e Ludovina, porque há aí o suco de todos os venenos provados neste inferno da vida, obra-prima duma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a criação dos astros, do mar, e do homem. A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condenação é este inferno. O outro... é inferior à Omnipotência que deixou, no seio da criatura, aberta a garganta do abismo, onde a alma se despenha a devorar-se. Capítulo XIII Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capítulos dos meus romances, com adorável modéstia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preâmbulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hipérboles desgrenhadas, me desbastem as excrescências da tamarelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da forma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosímil. Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus árbitros, que raro de entre eles se Desac edita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam do bico da pena, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se encalha em elegância que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho de pascácios, e nem sequer desagravo o meu talento ofendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não há aí que ver mais lhano e brando do que eu sou à opinião cordata dos meus amigos, que me fazem o obséquio de trazer da rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pábulo vou dar-lhes à sua admiração faminta. Há pouco acabei eu de ler os doze capítulos passados a quatro luzeiros do orbe literário, e um deles, acabada a girândola dos elogios, teve a descocada impertinência de me dizer uma coisa assim: - Os teus romances do meio em diante adivinham-se. - Ora essa! - Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o invento da surpresa. A concatenação lógica e natural dos sucessos danifica a peripécia, e aguarenta a curiosidade do leitor. - O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem assaralhopada. Tu calunias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo órgão da opinião pública, o órgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bom siso dos consumidores escolhe o romance verosímil, amalgamado com arte e discernimento, escrito de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de per si reflectir também na sociedade, amoldurando-se nas formas costumeiras e exequíveis. - Enfreia lá os ímpetos, modesto escritor! não soltes a parlenda inexorável. Concordo com o bom senso público. O natural e o reflectido da vida apraz e cativa o leitor; mas a previdência dos capítulos advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade. - Aceito a correcção, e tu aceita a aposta. Se adivinhares o enredo dos capítulos subsequentes, eu prescindo dos meus títulos de Henri Heine, Alphonse Karr português, e escrevo repertórios de hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma crítica literária em que hás-de provar aos incrédulos basbaques que eu alojo na cabeça um desses lobinhos cerebrais que chamam “génio” os galiparlas da nossa terra. - Aceito, e aí vai o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciais: D. Angélica pode morrer duma congestão cerebral, ou dum tifo. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e fazes pedir, na hora derradeira, perdão do escândalo à filha, e da traição ao marido. António de Almeida já nos disse que morria, e ele que o diz é porque o sabe, e tu já o sabias antes dele. D. Ludovina vai para a casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudais do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apóstrofes sem gramática ao espectro de António de Almeida, pega-lhe a febre sócia predilecta dos romancistas patológicos, solta quatro urros estrídulos ao despegar-se-lhe a alma do sebo corporal, e vê-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao Hospital do Terço, nem as Velhas da Cordoaria! A tua crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrológio na gazeta, ignomínia póstuma com que rematarás a biografia dum homem que teve o infortúnio de ser cevado de enxúndias, enquanto tu espirras ossos por todos os poros. D. Ludovina toma conta da herança, e... - E, sabendo que tu és um portento de esperteza - atalhei eu - digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para tomar chá às quartas-feiras; namora-te, casa contigo, e o autor é padrinho do primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro oficio. Desquito-te da promessa do elogio; já nem “génio” quero ser à custa do teu estilo assoprado. Eu já disse em mais dum livro que não escrevo de fantasia. A verdade e a observação dispõem-me as situações como tu as não inventas. A natureza, que tu conheces, é tola, meu amigo. Disse. Capítulo XIV António de Almeida esperava em ânsias o aparecimento de D. Angélica. Não lhe pedira, como vimos, essa derradeira e aflitíssima prova dum amor de vinte e dois anos; mas vê-la, apertar-lhe a mão, expiar nos braços dela, igualar o escândalo ao flagelo de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espírito, atraindo-lho para a única visão aprazível e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte. As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passara, excepto o ferimento mortal de seu irmão. A denúncia do barão de Celorico fora segredada ao enfermo pelo proprietário da casa, seu antigo criado. A polícia devassara do crime e nada averiguara das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as atribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicídio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre para ocultar a fraqueza, e obviar a presunções nocivas à honra de alguém, e à sua própria memória. Nestas conjecturas, anunciou-se o barão de Celorico de Basto. Almeida recebeu a parte desta visita com excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa. - Não é - disse ele -; que entre, e venha só, porque é necessário assim. Entrou o lívido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e estacou silencioso, com os olhos rasos de lágrimas. Esteve assim instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra. - Que é isso, senhor? - disse Almeida. - É um desgraçado que vem pedir perdão, Sr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha mulher me era infiel, e me desonrava. Tive uma carta em que me avisavam disso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu quintal saíra um homem fora de horas. Tentou-me o demónio a tirar vingança de quem me desonrava. Vi-o a V. Sª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está inocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar à justiça, aqui estou, Sr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a minha confissão. - Levante-se, Sr. barão - atalhou Almeida. - Não diga a ninguém que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei com ele, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que o meu assassino fora o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ela um dia precisar dos seus favores, faça-lhos como os faria à viúva do homem que matou. Agora, vá em paz. O barão retirou, enxugando as lágrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Saiu com o preto, e montou a cavalo à porta dum alquilador. A carta, que escrevera, era subscritada à baronesa; da qual carta se dá o texto viciado com as imperdoáveis infidelidades da correcção ortográfica: “Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Cristo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica nesta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao António de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé dele. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz que ela me perdoe o mal que lhe fiz. Não tive ânimo de ir onde a ela, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquele honrado homem que Deus permita não morra. Adeus, Ludovina, desgraçada Ludovina!!! Para sempre, adeus! Não me tenhas ódio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lágrimas, e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!” Afora a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez sinais simbólicos da dor indizível do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara nessa carta é a simplicidade, a mudez, a frase chã duma verdadeira angústia. Em lance idêntico, um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria coisa mais patética e pungitiva. Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que automaticamente se deixava vestir para ser transportada numa cadeirinha, nem ela sabia para onde. Melchior Pimenta trouxera de fora a notícia do perigoso ferimento de António de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e cismou no caso alguns minutos. Uma ideia, entre muitas ideias (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas ideias) o incomodava. Seria António de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequência, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preocupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança naquele dia porque a receava perigosa para sua mãe. - Vem cá, Ludovina - disse o Sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados -, falemos de espaço, e desembrulha-me este novelo. O barão disse-me, há pouco, que dera esta noite um tiro num homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que António de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me o que teu marido me disse... Quero explicações deste mistério. - São muito dolorosas para mim as explicações, meu pai. - Como dolorosas?! - E muito, meu pai; vergonhosas até para que uma filha se atreva a dizê-las. Queira ignorar tudo, meu pai, ou tudo saber doutra pessoa que não seja eu... - Porque não hás-de ser tu? - Porque sou criminosa. - Criminosa! mas o barão disse que estavas inocente. - Foi a minha querida mãe que me salvou à custa da sua dignidade. - Não entendo... - Entende, meu pai. A amante de António de Almeida era eu. - Tu, pois tu!... - Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casa-ram com este homem; obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrifício. - E António de Almeida, meu amigo de vinte anos, que te viu nascer, teve a ingratidão e a infâmia de te fazer a corte, sendo tu casada!? Foi bem dado o tiro! Bem hajas, barão, que me desafrontaste, e procedeste como homem de bem! - Isso é impróprio da sua nobre alma, meu pai. A culpa é minha só. Amei desde criança António de Almeida, era amiga dele até o julgar superior a todos os homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só ele podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-ei mais que, na posição em que estou, considero-me responsável das minhas acções más perante Deus e meu marido. O pai perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de António de Almeida era ela. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não pôde sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de vitimar a sua honra à minha salvação, sucumbiu à vergonha de si, e à dor, talvez, de me ver indigna dela. Basta de explicações, meu pai. Estas palavras têm-me custado anos de vida. Se a minha desonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de António de Almeida. Mereço isto à sua compaixão? - Não falarei mais nesse homem por minha honra própria. - Assim o deve à sua dignidade. Ludovina foi chamada com urgência ao quarto de D. Angélica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira. - Onde quer ir, minha mãe? - Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar... - Não há-de sair daqui; suplico-lhe que não saia, minha mãe. - Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa... Ludovina fez sair a criada, que testemunhava este diálogo. - Não quer ser mãe nem esposa? - Não. Sou amante dum homem que está moribundo ou morto. Quero que todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não há para mim deveres nem respeitos agora. Se ele está vivo, quero dar-lhe os meus últimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadáver. - Fale baixo, por misericórdia, minha mãe! - Podem todos ouvir-me, não me escondo de alguém, agradeço as afrontas, os desprezos, as injúrias, agradeço tudo que for martirizarem-me, contanto que me matem depressa. - Mas, minha mãe, atenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me escuta... Sente-se, e oiça-me... - Diz, anjo, diz... - António de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma carta em que se despede de mim, e me recomenda que lhe peça o perdão para ele. Nesta casa ignora-se tudo. Meu pai está convencido que sou eu a amante de António de Almeida... - Jesus! - exclamou D. Angélica. - Como tu me castigas, Ludovina! - Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me ser boa para o seu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas deste meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, e Deus que me dá em consolações do céu as amarguras, que o mundo me possa dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora duma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa! não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar. Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angélica. Choravam ambas, com os rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angústias sufocantes naquele pranto. O da filha fortalecia-se de ânimo para arcar com a ignomínia do seu descrédito. D. Angélica recaiu no entorpecimento. Ludovina chamou criadas para lhe assistirem, e executarem as prescrições dos médicos. Melchior Pimenta esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do leito da enferma, tacteando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epítetos do carinho. Angélica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía na sonolência. Ludovina entrou na carruagem, deu ordens ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos daí, morava António de Almeida. Velando o rosto com um véu negro impenetrável à vista, a baronesa de Celorico, sozinha, subiu as escadas do amante de sua mãe. Descia um médico ao qual ela perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de salvá-lo. A notícia feliz alvoroçou-a. Receberam-na as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quase desfez o aparelho do curativo, e chamou-a com ânsia. Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira às amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lágrimas, e murmurou balbuciante: - É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração. A baronesa ficou muda e convulsa. Filha do meu coração foram palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudara em sensação de íntima doçura. Passados minutos de mudo anseio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse: - A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lha entreguei, li-a eu, e ocultei-lha para a não matar. - O barão denunciou tudo? - Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ela o estima tanto como eu. E necessário que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar alívio. Tem esperanças, não tem? - Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer... - Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá. António de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse soluçando: - Será o beijo dum moribundo? - Não diga tal, Sr. Almeida. - Se for... - e desentalando a voz dos gemidos que lha embargavam, prosseguiu: - se for... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu último beijo... teu pai. A baronesa tremeu uma sezão de instantes. Quis sair, mas o abalo quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfalecimento, e a perda quase dos sentidos. Almeida tocou a campainha, e disse à irmã que primeiro chegou: - O ar deste quarto fez mal a esta senhora: levem-na para a sala, e vá uma das manas acompanhá-la. Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na Lapa. Cinco páginas que é melhor não lerem Este capítulo mira a alvo transcendental. Nem mais nem menos, quer provar que o Código do imperador Justiniano – corpo de leis que uma falsa piedade chama “Digesto”, sendo ele a causa indigesta de muitas gastralgias intelectuais - provar, digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz uma lei de tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado: Pater is est quem nuptiae demonstrant. Em português comezinho: O pai é aquele que se diz pai no assento do baptismo. A versão é de cristão católico, entenda-se. Aquela regra de jurisprudência pagã não fala em assento baptismal. Se o legislador fosse baptizado, como estes de agora, a lei não saía assim. Contra a qual lei temos a articular: 1º Que o pai é uma entidade muito mais nobre, eficiente, categórica, e circunspecta. E demonstra-se: Quem leu a fisiologia da geração sabe que há cinco fenómenos característicos dessa função de misteriosa origem. O primeiro desses fenómenos, cuja confusa teoria os imperitos podem ler nas fontes respectivas, é influído pela acção dum ser directo e imediato, que os gregos (ciência de Callepino) denominam patër e os latinos pater, os ingleses a father, os alemães watter, os franceses père, os espanhóis padre e nós, com mais suavidade que todos os outros idiomas, pai. Pai quer dizer “produtor, gerador”. Parens qui aliquem genuit - isto, a meu ver, é claro como tudo o que se diz em latim. Conclusão: Pai é aquele que é pai. 2º Há pais postiços, pais contra-natura, pais testas de... ferro, pais in mente legis, na presunção da lei, e na da fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça dum sacramento. Os homens, reconhecendo a inconveniência de aceitar a natureza feia como ela às vezes se apresenta, deliberaram, de comum concerto, pôr-lhe máscara. E como a natureza paterna era uma das que mais a miúdo saía à gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões dessa natureza, inventando o pai civil, o pai do assento baptismal, o pai da árvore de geração escrita em pergaminho, o pai que transmite os bens e os apelidos, o pai, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pai. Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou deturpa a humanidade, e oprime agremente os corações dos indivíduos virtuosos. Todavia, a máscara foi necessária, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje aceita-se o remédio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos afazem-se à peçonha, e estômago há aí de pai postiço, que disputa a Mitridates a invulnerabilidade. Eu não aplaudo a Sandice como Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso teólogo chamava “sandice” o que nós cá, gente bem-aventurada da civilização, denominamos “Cultura”. Erasmus não deu pela teoria das máscaras. Pasmado da bonacheirona paz dalguns pais impossíveis, exclama o mestre de Bolonha: “Grande Júpiter! O que aí não iria de divórcios, e pior do que divórcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacência, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de antemão esquadrinhasse os brinquedos da inocentinha noiva! Que rompimentos conjugais, se o descuido ou a inépcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os trejeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixá-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem às mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vínculos da aliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascácio dão nomes feios, que se lhe dá ele disso? Vê-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lágrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser as sim bom, ou andar atormentado pelas fúrias do ciúme?” É boa a pergunta do teólogo! O melhor é ser assim bom, ser assim ilustrado, ser assim desbravá-lo das velharias pundonorosas que obrigaram Cícero e Sulpício Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exílio, outro porque a dele teve a impudicícia de sair um dia, sem coifa, à rua. Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem. Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam In terris... Já quando o génio tutelar do himeneu andava corrido das pseudo paternidades que se enxertavam, à sombra dele, nos ilustres troncos de Roma: Antiquum et vetus est alienum, Postume lectum. Concutere, atque sacri genium contemnere fulcri. “Ó Póstumo! - exclama o poeta - pois tu eras, até aqui, escorreito e atilado, e vais casar Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!” Por esses tempos, a balbuciante civilização dos espíritos engendrou a lei contra a qual se escreve este capítulo. As núpcias indicavam o pai: pater is est quem nuptiae demonstrant. Agora, em pleno século de luz, somos mais romanos que os próprios romanos, tresandamos ao paganismo fétido, e dificultamos o divórcio para selar o escândalo com cunho sacramental da lei nova. Como quer que seja, pai é aquele que é pai, apesar do Direito Romano, e das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha. Não se aduzem os 3º, 4º e 5º artigos da refutação, porque ninguém suporta um embrechado arrepiante de textos latinos; e o autor, conquanto assim granjeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas por três ou quatro mestres de latinidade. Corolário Melchior Pimenta era um dos pais presumidos na intenção do Digesto, na lei citada, do L. 5º de in jus voc, e C. da Rocha no cap. Paternidade e filiação legítima. Capítulo XV D. Angélica, aflita com a longa ausência de Ludovina, pedira ao marido que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os criados, que francamente lhe disseram que a senhora baronesa saíra na sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao ínfimo grau da desenvoltura, visitando o amante à hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos terríveis juízos da sociedade. Com as mãos agarradas à cabeça, entrou o consternado pai no quarto da mulher, abafando de vergonha, como ele dizia. D. Angélica, receosa de que tudo já fosse notório a seu marido, apavorou-se, e quis fugir do quarto. - Que queres tu fazer agora, santa mulher? - exclamou ele, sustendo-a com meiga brandura. - Deixá-la perder-se de todo, já que ela assim o quer... Aí tens como Ludovina te paga o sacrifício que fizeste da tua dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que o procedimento dela te há-de desmentir, Angélica... - Que dizes? - atalhou a perplexa senhora. - Que digo?! Pois eu não sei já tudo? Não me contou ela o que tu fizeste para capacitar o barão de que António de Almeida era teu amante, e não dessa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias fazê-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato de que o escândalo era coisa tua, a minha honra sofria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatório há-de acabar como acabam todos os escândalos, quando os faladores se cansarem. Mas, Ludovina! Ludovina! Onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá? - Estou aqui, meu pai - disse a baronesa com angélica serenidade, e sorris o de meiguice para sua mãe. - Minha filha, minha santa filha, minha providência! - exclamou D. Angélica abraçando-a com arrebatamento. - Isso não é assim, Angélica! - disse carrancudo Melchior Pimenta. - Pergunta-lhe donde vem, e repreende-a, já que tão boa moral lhe ensinaste em solteira. - Silêncio, meu amigo. Vai... - atalhou com azedume D. Angélica - vai, e deixa-nos sós. - Não tem jeito nenhum! - acrescentou o austero pai. -É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e pedir-lhe perdão, antes que a sociedade saiba que ele te abandonou. - Irei, meu pai. - Irás; mas entretanto sais de carruagem, e não dizes onde vais... Onde foste tu, diz? Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu. - Vês, Angélica? - prosseguiu com virulência Melchior. - Não respondeu; já sabes donde ela vem... Já se viu no mundo um descaramento assim? - Nem mais uma palavra a minha filha! - exclamou com impetuosa arrogância D. Angélica. - Nem mais uma palavra, porque senão, Melchior... - Senão, o quê? - interrompeu ele. - Minha mãe, pelo seu amor lhe peço... - murmurou a baronesa, apertando-a ao seio, como se quisesse comprimir-lhe as palavras no coração. Pimenta saiu, como entrara, com as mãos agarradas à cabeça. D. Angélica, beijando sôfrega a face da filha, dizia, soluçando: - Ao que eu te expus, minha querida vítima! Ao que tu quiseste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua inocência difamada que o meu próprio descrédito. Não, filha, isto não pode continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe, e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que todo o mundo me culpe, mas perdoa-me tu, filha! - Mãe, por piedade... não me turve a satisfação desta pequena virtude. Olhe que não é heroísmo isto, não; é a crença, a esperança de que a felicidade há-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por onde eu a busco... - Para todos nós, filha! Que inocência, que ilusão a tua! Desta queda ninguém mais se ergue, e menos eu. - Ergue, mãe. Verá que o desenlace deste desgraçado enredo não há-de ser o que a mãe espera. - Oh, filha! Tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram... - Ninguém morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do Sr. Almeida; escreveu-a ele com o próprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que ele diz... D. Angélica abriu a carta com fervente sofreguidão, e leu o seguinte: “Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a notícia do triste acontecimento, que ontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença desta verdade, para me ser mais suave a cura. De V. Exª amigo verdadeiro - António de Almeida.” - Isto é verdade, Ludovina? - exclamou ela erguendo as mãos, e apertando a carta ao coração. - Isto é verdade, minha filha? - E, juro-lhe que e... - Como podes tu jurá-lo? Quem o viu? - Eu, mãe. - Tu! Viste-o Ludovina? Sem repugnância, minha filha? Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impelia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar numa influência divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por compaixão, que o visitaste? - Foi por amor de minha mãe que o visitei. - E ele? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, aumentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossível entre nós, filha. Que te disse? responde... - Nada, minha mãe... - balbuciou a baronesa. - Nada? - Que poderia ele dizer-me... para aumentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos anos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordar-me dos afagos que ele me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações afectuosas com que aliviava as minhas mágoas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estímulo à minha pena. E, depois, ver quanto a mãe sofria... porque o prezava tanto como eu o estimava... - Basta, minha filha, eu mortifico-te... Há-de custar-te amarguras terríveis essa delicadeza... Compreendo-te, minha amiga. Agora vais tu dizer-me por que meio hás-de restaurar o teu crédito perante teu marido... Não me atrevo aconselhar-te, Ludovina, porque há em ti fortaleza de juízo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quiseres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; aceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda. - Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrário, suplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciência me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a inocência e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel connosco; seja, muito embora; nós suportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juízos. Minha mãe há-de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicência, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que há-de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei-de a este respeito consultar o nosso amigo António de Almeida. Capítulo XVI Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos meus leitores o barão de Celorico de Basto. Como este homem captou a benevolência pública, mormente a dos maridos, isso não sei eu. Caprichos. Comiseração, lástima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos desta lúgubre história, mais duma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade deste marido, se o confronto com outros “minotaurizados” iniquamente. Não transijo com o estúpido acaso que travou as relações de João José Dias e Melchior Pimenta. Rebelo-me contra a Providência, se me dizem que a Providência entregara de mão beijada a rara jóia de entre as mulheres a João José Dias. Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo latrocínio, pelo talismã do buril, pelo fornecimento dos açougues humanos na América, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, criaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incrédulo, e ateu; ou remontado em assomos de espiritualismo, confesso a Providência, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas deste ponto do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a silfídica Ludovina. Não vou de encontro às crenças de ninguém; Deus me livre. Todavia, raciocinemos, enquanto a razão, de si apoucada, não contender com os dogmas indisputáveis da fé. Saibamos, pois, o que é feito da simpática personagem do barão de Celorico de Basto. Pesquisei miudamente o itinerário de S. Exª e colhi as seguintes informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades intelectuais de muitos barões, no primeiro período do seu desmancho. Sei que chegou a Baltar bifurcado num garrano, e o preto noutro. Apeou-se aí para reanimar o ânimo quebrantado da ensoada cavalgadura, cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Valongo. Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da terra, e, sabendo qual era o prato favorito dele, frigiu quatro ovos com rodelas de cebola, e pôs-lhe diante a fritada provocante, cuidando que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancólico barão. Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassível. Reparou o preto, enquanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno: - Foste a minha desgraça, tição negro do inferno! E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira. - Que diabo é isso, senhor? - perguntara timidamente o preto. - Não vês? é um charuto, que me há-de matar! - Pois V. Exª fuma isso? Bote-o fora, que tem má cara esse demónio! Nestas e noutras práticas sensaboronas, que não prestam para a tragédia, nem para a farsa, chegaram à vila do Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta, entre muitos outros períodos lamuriantes, dizia que não lhe era possível fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angélica, e rogava a sua mulher que tornasse a suplicar em nome dele o perdão de António de Almeida. Outrossim, pedia à baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma dele testador, quando Deus fosse servido chamá-los à sua presença. O principal da carta guardava as formas testamentárias: faltava-lhe, porém, a condicional prescrita do “perfeito juízo e claro entendimento”, posse de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-no em conta de possesso, e, se o barão não sai, era filado pelo padre Anacleto da Sacra Família, egresso arrábido, que a piedade da estalajadeira chamara para rezar os exorcismos ao demoníaco. O barão foi pernoitar na vila chamada Arco: (notem a paciência dum romancista que sabe do seu ofício). O cirurgião da vila, chamado por deliberação do preto para ver o amo, receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de óleo de amêndoas na circunferência do abdómen. O barão mandou-o à fava com louvável discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que subscritou a sua mulher. O conteúdo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso duma cabeça febril, apavorada de visões sanguentas, que o forçavam a estropiar a sintaxe dum modo lastimável, e a desbancar o método do imaginoso Castilho no invento de ortografia. No dia seguinte, às onze horas da manhã, chegou o barão à sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades noutro tempo. A entrada do proprietário nos seus domínios foi assinalada pelo primeiro acesso de loucura formal. À entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu hábito venerando. O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o fantasma de António de Almeida. A lógica do preto foi insuficiente para convencê-lo de que o fantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquele em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, a fim de convencê-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados de alma, com os quais o paciente preto também viu fantasmas luminosos. Os primos circunvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angélica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía duma conversação atilada para a história do fantasma infesto, que aparecia na casa que fora convento. Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maníaco recitava monólogos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre à baila nas apóstrofes descompostas, e recebia epítetos que esqueceram a Francisco Nunes. Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos berros, e comeu porções incríveis de carneiro guisado com batatas, facilitando o trânsito destas com emborcados pichéis do verdasco, predilecto seu. Emergindo duma espécie de letargia de leão sazonático, o barão urrava como dantes, recuando ao fantasma, que já não era S. Francisco somente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como ele a denominava. O próprio preto, se lhe assomava de repente à porta do quarto, ou por entre as árvores da quinta, fugia espavorido à gritaria rouquenha de seu amo. Os facultativos chamados pela parentela compadecida capitularam de demência a coisa, e receitaram as sangrias e os vesicatórios. Os meios persuasivos para o levarem à cama nada conseguiram; os da força seriam inúteis, porque o preto, espadaúdo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça contra o projecto da violência. Ninguém se queria arriscar ao perigo certo dum murro seco do barão. Contava ele a toda a gente a história do charuto, que já trazia meio desenrolado num canudo de papel. Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não acabava o conto. A história, como ele a contava, fazia rir os ouvintes. Aquele charuto fora-lhe enviado pelo diabo, em troca da sua alma. O charuto infernal obedecia à sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em consequência do que, ele barão, matara um homem desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a história, entravam as larvas a rodeá-lo, e ele a esconder-se de cócoras atrás dos circunstantes. Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doido à sua família, e avisaram a baronesa, lembrando-lhe a conveniência de o passarem a Rilhafoles, antes que a demência se tornasse incurável. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a desorganização mental de seu marido, tinha partido para Celorico de Basto. Melchior Pimenta e D. Angélica julgavam temerária a ida de Ludovina. O pai (Pater is est etc.) queria acompanhá-la, receoso de que a presença dela enfurecesse o doido. A baronesa recusou a protecção do pai, e respondeu à mãe com palavras que a fizeram corar, posto que adoçadas pelo respeito filial. - Quando me casaram com este homem - disse ela - não se estipulou a condição de que eu o desampararia, se ele enlouquecesse. Aumentam os meus deveres, agora que ele mais precisa duma amiga. A consciência da minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer à sua consciência, para ser cada vez mais digna do seu coração. Capítulo XVII Ao cabo de três semanas, António de Almeida ergueu-se convalescente. As melhoras de D. Angélica aumentavam por igual com as dele; mas uma outra qualidade de sofrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anseio de falar-lhe, a necessidade de recompensá-lo dos perigos da morte com as suas lágrimas. Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor não sucumbira à terrível catástrofe, que a sua amizade de vinte e dois anos, a amizade, ao menos, venceria todos os estorvos. “Que mal te fiz? Diz D. Angélica numa carta que lhe escreve. “Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida. “A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, queres tu que eu to pague com a minha? A morte repele-me. “Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer, se ainda posso deixar-te demim uma lembrança triste, meu amigo! “Este teu silêncio dói-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não podes vir a esta casa, à casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, Almeida? “Pois é possível este desfecho duma paixão que tantas lágrimas me há custado! Sofrer vinte e dois anos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu infortúnio? “Oh meu amigo, que infortúnios seriam necessários, que flagelos inventaria o inferno para me fazer deixar-te! “Eu tinha dantes noites desveladas de contínuos remorsos - se tinha!... vós o sabeis, Deus meu! - e, ao cabo desse martírio, sondando-me, Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma! “Conspirassem todas as forças deste mundo contra mim, fosse eu chamada para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, oferecendo o rosto para todos os ferretes da ignomínia. Isto assim era amor, amor insensato de mulher que faz da sua desonra um heroísmo! “E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo? Adivinhas que em três semanas os meus cabelos se fizeram brancos? Assusta-te a presunção de que a minha face envelheceu? Não podes já ver em mim sinais desvanecidos da Angélica dos dezoito anos? Tens razão, Almeida; estou velha; mas o coração, única beleza que eu tinha, único dote que fazia a minha vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois anos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste dele, aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o há-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto fel! “Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quis; aceita-me na velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para a tua felicidade. Diz-me só que o teu silêncio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me à horrível morte que me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua comiseração. Imploro-a de joelhos. Amor, esse sei eu que se não suplica; mas engana-me, Almeida, engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos anos não pode acabar com o desprezo.” Ingrato homem! é a exclamação natural com que as leitoras sensíveis exprimem o seu dó. Pois decidem de leve, e acusam com a costumada injustiça. António de Almeida é tão digno de lástima como Angélica. Ora, vejam a seguinte carta que Ludovina lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico: “Lembra-me que, sendo eu criancinha, sentava-me no colo do meu amigo, anediava-lhe os cabelos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astúcia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer coisa que o meu amiguinho me não sabia negar. “A criança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta vem de eu me esquecer das maviosas e cândidas palavras que sabia então. O coração é bom como era, a afeição maior e mais entranhada, a confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais sólida: o que me falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice sedutora da inocência. “Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor imenso; empenho para alcançá-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes que vamos vivendo. “Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não tiver para cumprir uma súplica que vou fazer-lhe em poucas palavras. “Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ela cai, sustente-a. Trabalhe comigo para que o segredo daquela noite horrível se não descubra à curiosidade infamadora do público. Não peço que lhe dê consolações frívolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo seu amigo. A razão está longe do coração. Penso que minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os seus conselhos. “Conhece bem a situação de minha mãe, Sr. Almeida? Siga o que a sua honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho feito por ela, e medite na extensão da minha dor se tudo o que fiz e faço for perdido. “Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais confusamente que é possível o meu pensamento. Lá está o seu nobre espírito para aclarar a obscuridade dessas palavras. “É necessário grande ânimo para me obedecer? Sofra, meu amigo, sofra comigo. Olhe que me há-de abençoar, e gloriar-se de seu sacrifício. “Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajudá-lo a combater os remorsos que o têm levado ao infortúnio da demência. “Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciência, e para o heroísmo. Adeus. Sua amiga Ludovina.” Esta carta explica o silêncio de António de Almeida. Compreendeu-a com o juízo prudencial dos quarenta anos. Meditou-a com tanto respeito como admiração. Recolheu as palavras dela com religiosa austeridade, e violentou a alma a aceitar o juramento da observância, com pena de desonra e vilania, se rescindisse alguma vez a aliança que fizera com a que ele, no íntimo do seu coração, chamava filha. Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa escola, não costumam assim acomodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas coisas, como aí se contam, são naturais e observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradáveis, em novela, onde o bom é o inverosímil, e o que mais cativa é o que mais repele o coração bem formado. Estes amores de António de Almeida e D. Angélica, tratados por imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a vê-lo a ele, pelo prisma fantástico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros nas algibeiras, entrar, de cabelos hirtos e rosto lívido, no quarto de Angélica, e semidesfalecido nos braços dela, dar largas à parlenda, e vociferar, por entre amorosas frases, esconjúrios odientos contra o género humano, contra a instituição do matrimónio, e contra os deveres conjugais! Agora se me afigura ver Melchior Pimenta no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Há gritos, injúrias, investidas, até que alfim, levados à puridade para um recanto da casa, aí combinam um duelo de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me avulta agora na imaginação de empréstimo. Melchior Pimenta, após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio, que espirra golfos de sangue, põe os olhos anuviados no céu impassível, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro hálito, nos braços dos padrinhos. Quantos capítulos desgrenhados cuida o leitor que dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas páginas, agora o subsídio das reticências, que, na minha opinião doutro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e, na minha opinião de agora, inventou-as o primeiro literatiço oco de ideias. Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na última jornada desta história. Conclusão O barão de Celorico parecia uma criança atemorizada ao pé de Ludovina. Se a perdia um momento, davam os espectros com ele, e lá ia o pobre homem gritando, até se acocorar ao pé dela, escondendo-se com a roda do vestido. Bastava a presença de Ludovina para sossegar-lhe os acessos de loucura, manifestados em exclamações desatadas, quase sempre seguidas da aparição do charuto, cuja história ele contava a sua mulher, pelo teor ridículo que já lhe ouvimos. Acudia Ludovina com o inútil remédio da razão, despersuadindo-o da morte de Almeida. O barão abria a boca atenciosa, parecia dar mostras de entender e acreditar; o desfecho, porém, do silêncio sereno com que a escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do ombro da mulher. Os primos, compadecidos, e os facultativos aconselhavam à baronesa o emprego dos meios violentos para o curarem. A grande ideia terapêutica era o cáustico e a sangria. A contristada senhora anuiu. Por sua parte fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia à mulher que o não deixasse morrer às mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa. Resolveram empregar a força. Dois robustos campónios tomaram a peito a árdua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propício. O oficioso abade da freguesia encarregara-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O juiz ordinário pegava na bacia. Vários primos formavam o corpo de reserva, e a baronesa fugira para não presenciar os estrebuchamentos do infeliz. - Agora! - disse o facultativo. À palavra agora o barão estava entalado entre quatro braços cabeludos, e o abade, à retaguarda do preso, lançava o lenço com mão certeira. O barão arquejava, sem contudo barafustar entre os membrudos braços. Tudo prometia um propício resultado, quando o antigo hércules da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultâneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abade, o proprietário infeliz das outras ventas era o juiz ordinário. Investiram de novo contra ele os atletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um chuveiro de socos tremebundos, indo um deles, por engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abade, o juiz, os homens de pega, parte dos primos, o cirurgião coaram-se cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropelada. Nesse conflito apareceu Ludovina. O doido baixou as armas contundentes, os braços inteiriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu para ela, como a pedir-lhe socorro ; ouviu-lhe as repreensões com o tremor do medo, e caiu prostrado da luta sobre uma cadeira, apegando-se à saia da baronesa. Aqui está o viver da deplorável senhora, no es paço dum mês, em Celorico de Basto. Aquela vida, e as dores profundas de outras causas, eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, a invejava. O barão desmedrara a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o arcabouço proeminente de ângulos ósseos. A panda fisionomia, tão rúbida de nediez chorumenta, chupara-se, entanguira-se, coisa de fazer lástima. Diziam todos que a baronesa, um mês depois, seria uma formosa e rica viúva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabéns à baronesa. As que ousaram feri-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa. A ideia que dominava o barão era a morte de António de Almeida. Ludovina perdera a esperança de afugentar o fantasma, empregando razões tão convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas dele, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, precursor de nova berraria. A última que Ludovina lera, quase certa de que seu marido não a percebia, foi a seguinte: “Minha amiga. É já bastante o número dos infelizes que põem os olhos lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da esperança e da alegria. Daqui até ao fim da vida é sofrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lágrimas: é preciso que o coração as verta, e as absorva; é necessário sufocar os gemidos, e entreter as dores, cavando a sepultura. Curta será a minha existência. Quarenta e quatro anos, e a saúde alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agoiro, não é? Mas, para Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte anos, minha amiga; vejo-a na aresta do precipício, a contemplar-lhe a profundeza, e aí se lhe hão-de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe vaticinaria há dez anos este infortúnio? A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião dos desgraçados, ensina que o prémio das grandes virtudes não pode ser dado neste mundo porque não há mãos puras que possam tecer a coroa do martírio. Espere, Ludovina, com os olhos no céu, e a mão sobre o seio para esmagar os ímpetos do coração, que tem acessos de raiva blasfema. Obedeci-lhe, Ludovina. Comprimi, abafei, matei a essência da minha vida, o sentir que ma fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memória. Dela tenho só o nome escrito no coração, como o epitáfio do afecto que aí morreu recalcado. Deu-me um cálice, Ludovina. Bebi-o dum trago. Se tem outro, ofereça-me; tomá-lo-ei de joelhos. Pergunta-me qual é o meu viver? É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação aflitiva me embaraça o ânimo. Em redor, todos os meus horizontes são tenebrosos. A mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de todos os náufragos deste horroroso pego. Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação cansada de sofrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gélida imobilidade de duas estátuas. Parou a vida externa nesses dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e à morte. Ao pé deles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado nela, alimenta aí a lâmpada da esperança. Adeus, minha santa amiga.” Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não traduzisse a singelo o que aí se esconde no figurado da linguagem. A aliança de António de Almeida e Ludovina, sobre um contrato de honra tão melindrosa, não podia ser tratada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o melancólico debuxo que atribulava o espírito de Almeida. Angélica era a companheira desse homem que lhe dava as mãos à borda da sepultura. A lâmpada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o fito da morte donde ambos não desfitavam os olhos, como a náufragos sucede, se no horizonte se lhes recorta um rochedo salvador. Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lágrimas essa carta lhe desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. Pediu-lhe que fosse aliviar-lhe o peso da cruz à qual já não bastavam seus ombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer desvairado, a mais acerba de todas as mortes. D. Angélica, fechada em seu quarto, realizava a imagem que a fantasia de Almeida adivinhara. Sombria, inerte, reconcentrada, impassível a cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a morte, e repelia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse. Nunca mais escrevera a Almeida, e à filha eram mais as lágrimas que as letras. Não era a sua uma dessas dores que desabafam. Sentia-se tomada de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não ódio, quando o marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frívolas de quem não comparte as penas. À saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angélica respondera que já não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Suplicava a Ludovina que lhe perdoasse a ela como causa dos seus tormentos, e lhe aceitasse como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração fibra por fibra. No entanto, disseram os médicos à baronesa que a aparição desse homem, que o barão julgava sua vítima, poderia recobrar-lhe a razão, desoprimindo-a de fantasmas e remorsos, causas principais da demência. Ludovina comunicou a Almeida as esperanças dos médicos, sem pedir-lhe o sacrifício de se verem. Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baronesa Melchior Pimenta. Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pai o sobressalto em que a pusera a aparição do amante. Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe a pertinácia da infâmia, e ameaçando-o com a morte, se ele não saísse imediatamente daquela casa. Ludovina, cobrando forças, disse que só ela tinha direito de expulsar alguém daquela casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injúrias contra a filha, e provocações ao hóspede silencioso, e saiu escandecido de raiva. Almeida quis segui-lo, com sereno gesto, sem assomos de cólera, nem propósito de vingança. Impediu-o Ludovina com lágrimas e gemidos que irritavam as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pai; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta. Este conflito atalhou-o o barão. Seguiu-se uma cena de efeito dramático. O barão recuava diante de Almeida que lhe estendia a mão. Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que aceitasse a reconciliação que Almeida lhe oferecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da passada ofensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina. O leitor já sabe como no teatro se recupera o juízo. Se é mulher a doida, rigorosamente desgrenhada, esfrega os olhos, atira com as madeixas para trás, e dá fricções secas às frontes com frenesi; se homem, abre a boca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juízo, capaz de casar, que é quase sempre a pior das doidices em que os autores fazem cair os seus doidos, restaurados para a razão. Pois o barão de Celorico não se curou por esse teor. Os áditos da razão estavam cerrados de modo que levou longo tempo a desempeçá-los. A contínua assistência de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de Ludovina, conseguiram reabilitar-lhe o juízo, mas vagarosamente. O barão parecia emergir dum pesadelo atroz quando reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atrás, secundum artem. Lágrimas, sim, as da baronesa, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda nas suas ânsias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demência fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida quis despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos suplicantes pedindo-lhe que o não deixasse. Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escândalo que presenciara. Repetiu contra Ludovina as injúrias que lhe dissera em face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que depusessem no processo da sua honra, e impôs, com autoridade, a sua mulher a saída imediata da casa da adúltera. D. Angélica ergueu-se impetuosa e terrível, exclamando: - A adúltera sou eu! - Que dizes, Angélica?! - bradou Melchior. - Adúltera sou eu. Ludovina encobriu a minha desonra com a sua virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e vê-los-ás estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-mo do seio! E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os ombros, oferecendo o peito. - Endoideceste, minha querida Angélica? - exclamou Pimenta. - Faltava-nos esta desgraça! Estás doida! maldita seja tua filha que te levou a esta situação! - Não estou doida, Melchior! não estou doida! Estou moribunda, e não quero deixar infamada a teus olhos a minha filha. Se eu te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias? - Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angélica! Diz o que quiseres para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que ela te está pagando com o amante ao pé de si. - Melchior! - disse Angélica com firmeza e gravidade. -A tua filha está inocente; a amante de António de Almeida sou eu! Não me perdoes, vinga em mim a tua desonra, porque o perdão não to peço. Sabias, quando me aceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Colocaste ao meu lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo à tua comiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vai pedir perdão àquela santa que quis poupar também a tua dignidade. Melchior Pimenta saiu do quarto de sua mulher. Para se armar do punhal de D. Jaime de Bragança, e do infante D. João? Para se dar um tiro no ouvido? Para mergulhar da ponte pênsil, ou despenhar-se dos Arcos das Virtudes? Para cismar e endoidecer? Não, senhores. Melchior Pimenta foi para a alfândega, jantou no hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até às onze horas na Assembleia Portuense. No dia imediato, visitou sua mulher, e recomendou-lhe que desse um passeio no jardim que estava o dia agradável. As três horas procurou-a para jantar ao pé dela. Disseram-lhe que a senhora tinha saído numa cadeirinha, e deixara uma carta para seu marido. Não vi esta carta; mas infiro o conteúdo pelos sucessos subsequentes. D. Angélica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para entrar num convento, situado num ermo do Minho. Daí escreveu a sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava às suas pequenas necessidades. Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido, e deixou-a com a certeza de a trazer consigo passados dias. São decorridos dois anos. A baronesa de Celorico ainda não saiu do convento. O barão sofre resignado a certeza de que sua mulher não sairá jamais. A opinião pública diz que Ludovina merece louvores por não ter o descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo pecado; e declara a alta virtude de D. Angélica, mãe amorosa que deixa a sociedade para se enclausurar com a filha desamparada. Melchior Pimenta está bom, e é comensal do barão. António de Almeida encetou, há dois anos, uma longa viagem donde não voltou ainda. O bacharel Ricardo de Sá comprou mais três bengalinhas, e dá a última demão ao seu SÉCULO PERANTE A CIENCIA. São hoje 15 de Fevereiro de 1858. O único personagem morto desta história é Francisco Nunes. Expirou ao cabo duma violenta apóstrofe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o epíteto mais fulminante que a sua cólera lhe sugerira. Matou-o o contrato do tabaco. Suplemento Prefácio O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalara com a leitura dessas duzentas páginas, haviam asseverado, com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um desses, cujo voto muito respeito pela massa de conhecimentos que amassou em Frederic Soulié e Alexandre Dumas, acrescentou que o romance “O que fazem mulheres” era a flor do meu talento. Cheio de encantadora modéstia, perguntei se a virtude da minha heroína precisaria de mais três ou quatro capítulos para ser vista a toda a luz celestial com que a Providência lhe irradiara o espírito. Disseram-me, à uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse à perspicácia das leitoras o desvelarem mistérios do coração, que não saberia iluminar sem profaná-los, que deixasse às lágrimas das almas sensíveis o fecho desta história, que esperasse, finalmente, alguns anos para então escrever a segunda parte da biografia da baronesa de Celorico de Basto, que talvez os colégios de meninas adoptassem para uso das educandas. Convenci-me disto, e mandei ao meu editor o romance, com a profecia de ser este um livro cuja décima edição apenas bastaria para aquietar as ânsias dum terço do país. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em duzentas páginas por quinhentos réis era pequena de mais para o comprador que prefere um vício em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre lógico e moral, que a unidade da acção era inatacável no romance: Item: que o estirar uma ideia para avolumar a lombada dum livro era chatinar a mercancia literária. Item: que muitas capacidades largas e agudas, às quais eu submetera o meu manuscrito, se comprometiam a dizerem que este livro era a quinta-essência de tudo que se tem escrito acerca das mulheres virtuosas desde Santa Ágata até às Virgens do Tirol. Chamei em meu abono Aristóteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu não conhecia, para convencer o intérprete do público de que as raias do meu trabalho de cronista não podiam transpor as da realidade. Porquanto: Não é inventada esta história; Não quadram os incidentes imaginados com o essencial dum conto verdadeiro Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe à credulidade enfadonhas narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a atenção benévola. Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscrito, que êu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao acordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas, exuberância de reticências, e alguns juízos críticos dos meus amigos, que serviriam de indigitar ao leitor em que páginas estão as belezas que ele não viu. Concertados assim, estava o tipógrafo com a última página, quando eu fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me contara o contexto deste romance, nos últimos dias do mês de Janeiro próximo passado. A nossa conversação de algumas horas vai ser trasladada em páginas suplementares. Antes, porém, de entrar nessa tarefa que realmente me dói, seja-me permitido verter uma lágrima no degrau do altar onde eu colocara Ludovina, onde ela se colocara, e donde se me afigura que... Não dou ansa a juízos temerários do leitor. Leiam, e decidam se a virtude perfeita não é uma utopia impossível num livro que tiver mais de duzentas páginas. Cumpre dizer quem é a pessoa destinada pela Providência dos romances a figurar neste suplemento. V. Ex.as decerto a conhecem. Viram-na já muitas vezes no teatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clérigos, na do Carmo, em todas as missas clássicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e a missa. Eu dou os sinais do homem. Tem uma bela cabeça, uns belos cabelos, uns belos olhos... Já conheceram? De vinte leitoras, dez estão na dúvida. Se V. Exª é uma das dez perplexas, desperte as suas reminiscências com os seguintes traços: O nariz é a feição mais característica deste homem. Na base tem um promontório, no centro uma protuberância, na ponta uma recurva como o bico dum pássaro. Chamam- se estes narizes Bourbons. Agora conhecem-no todas. Na escola dos fisionomistas, este nariz tem significações espantosas. E um nariz que individualiza um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é, em suma, uma biografia. Foi o que me aproximou deste homem. Se a natureza lhe desse a ele um nariz vulgar, o leitor não se deliciaria na leitura deste romance. Vejam donde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte duelos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes. Fascinou-me, e fui eu que me ofereci à sua amizade. Achei-o um homem raro, sabendo profundamente a vida de V. Exª, quero dizer, todas as virtudes que V. Ex.as escondem, todas as perfeições que a sociedade não vê, sem lhas explicarem. É provinciano o Sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas vezes cada ano, uma no Carnaval, outra na estação do teatro italiano. Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até à demência, no Carnaval, quase sempre lhe esquece na Páscoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas natais, apenas dão fé que Marcos está no teatro das suas façanhas pelo estrupido extraordinário do cavalo, que ele atira em arremetidas e sacões pelas ruas mais sonoras da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos Leite seria presa dos dentes do remorso há muito tempo. Não há uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais íntimo do peito um amor eterno... de três semanas. Algumas possuem cartas duma paixão tão frenética, que as exclamações de Werther, comparadas com elas, são frias e chatas como um rol de roupa suja. Foi, pois, este cavalheiro, respeitável em todos os sentidos, que me contou o essencial da história do barão de Celorico, acrescentando que tinha visto duas vezes de relance, numa grade dum mosteiro do Minho, próximo ao seu solar, a figura celestial da baronesa, e a simpática e ainda juvenil fisionomia de D. Angélica. Por essa ocasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede à virtude heróica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em cujo assalto era forçoso triunfar, ou morrer. Acrescentou que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal convento, ele se animava a revelar a Ludovina uma afeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa. Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar aquele coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão duma virtude exaltada? Decorreram quatro meses, e, como disse no prefácio, fui, há dias, surpreendido no Senhor do Monte por Marcos. Conhecem aquele saudosíssimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e aquela fresca alameda que está tapetando a entrada para a mãe-d'água? Foi ali que o encontrei, encostado à mesa de pedra, lendo “Les Rêveries” de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que precisam idealizar um mundo médio entre o asquerosamente lorpa em que vivemos, e o absurdamente ininteligível que nos prometem as religiões. Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando: - O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me aparecessem aqui, menos tu, e ela... - Temos ELA! - E tu vieste para este sítio com o coração vazio?! - Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, válvulas, ventrículos, veias, artérias, nervos, sangue, etc. O meu coração está funcionando com a mais fisiológica das regularidades. Respiro desafogadamente, e completo a digestão duns suculentos pedaços de boi, que triturei sub tegmine fagi. - Se vens assim, melhor fora que não viesses. Eu queria que me entendesses, como creio que me entendem, há três dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o eco esvaído dum mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céu há só três coisas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasfémia! Esse sorriso ofende, e é um sacrilégio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a fresquidão destas sombras, o murmúrio destas árvores, o azul do céu, lá em baixo a melancolia poética do vale, o som do campanário rural que repercute na alma... Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha índole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, e recolhi à alma as seguintes linhas: La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La vie était bonne. et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et servant, elle-même l'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée pure. - Que é isto? - perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escrito a lápis. - Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta creio que é o menos metrificador. - Pode saber-se que anjo te roçou a fronte com a asa? - Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Há uma só mulher neste mundo. - A baronesa? - Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina... - Lê os versos. Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte poesia: A Ludovina Quem há por aí que possa o cálice De meus lábios apartar? Quem, nesta vida de penas, Poderá mudar as cenas Que ninguém pôde mudar? Depois, no mundo, cercado, Só de angústias, divaguei De um abismo a outro abismo Pedindo ao louco cinismo O prazer que não achei. Tristes correram meus anos Na infâmia que em todos é Bela de crenças e amores, Terna de risos e flores, Santa de esp'rança e de fé. Assim negra me era a vida Quando, ó luz de alma, te vi Baixar do céu, onde, outrora, Te busquei mão redentora Procurando amparo em ti. Serás tu a mão piedosa, Que se estende entre escarcéus Ao perdido naufragado? Serás tu, ser adorado, Um prémio vindo dos céus? E eu mereço-te, que imenso Tem já sido o meu quinhão De torturas não sabidas, Com resignação sofridas Nos seios do coração. Que ternura e amor e afagos Toda a vida te darei! Com que júbilo e delírio, Nova dor, novo martírio, De ti vindo, aceitarei! Se na terra um céu desejas Como o céu que eu tanto quis, Se dum anjo a glória queres, Serás anjo, se fizeres, Contra o destino, um feliz. Faz que eu veja nestas trevas Um relâmpago de amor, Que eu não morra sem que diga: “Tive no mundo uma amiga. “Que entendeu a minha dor. “Deu-me ela o estro grande “Das memoráveis canções; “Acendeu-me a extinta chama “Da inspiração que inflama “Regelados corações. “Os segredos dos afectos “Que mais puros Deus nos deu, “Ensinou-mos ela um dia “Que dentre arcanjos descia “Com linguagem do céu. “Os mimosos pensamentos “Que, de mim, soberbo, leio, “Inspirou-mos, deu-mos ela “Recostando a fronte bela “Sobre o meu ardente seio. “Morta estava a fantasia “Que o gelo de alma esfriou; “Tinha o espírito dormente, “Só no peito um fogo ardente, “Quando o céu ma deparou. Agora morro no gozo “Duma saudade imortal. “Foi ditosa a minha sorte; “Amei, vivi: venha a morte, “Que morte ou vida é-me igual. “Igual, sim, que o amor profundo, “Como foi na terra o meu, “Não expira, é sempre vivo, “Sempre ardente, e progressivo “Em perpétuo amor do céu.” Assim, querida, meus lábios, Já moribundos, dirão, Nas agonias supremas, Essas palavras extremas Do meu ao teu coração. Sabes quem é, neste mundo, Quase igual ao Redentor? É quem diz: “Sou adorada “Pela alma resgatada, “Por mim, das ânsias da dor.” - Por ora, vejo que suplicas amor - disse eu. - A tua poesia é um requerimento que pode ficar esperado muito tempo no gabinete de despacho. - Fala doutra maneira... Eu sofro de mais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence. - Por consequência, tens tudo... Enganei o público... - Como enganaste o público? - Pus em romance a história que me contaste, e disse que a baronesa era uma rocha inabalável de virtude. - E receias mentir?! - Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno tipo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se ele não estivesse já no prelo, e o dinheiro dele transformado num cavalo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingénuo ou palerma, que anda neste mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá saíram. - Pois que esperavas tu de Ludovina? - Que morresse abraçada à sua cruz, que desse o exemplo da esposa mártir, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que saísse apenas da sua cela para recobrar paciência aos pés do altar, que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profaná-la. - Estás a fazer a alta comédia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciência de romancista, e deixa falar a do ente pensante e racional; e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baronesa, crês que um outro, caído das nuvens determinantemente por ela, a absolveria do crime horrível de ter coração? - O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que a faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ela do amor dos homens? Estragou uma bela biografia essa mulher! Talvez fosse única, e apontada à posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em vício vulgar. A minha heroína fez bancarrota, faliu, e deixou-me em hipoteca a palavra que eu dei a páginas 170, pouco mais ou menos, de que eram sólidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em créditos desta mulher inimitável, típica, e bíblica, deixa-me dizer assim, porque ela merecia todos os epítetos levantados e grandiosos. - Mas que fez a pobre senhora para descrédito tamanho? - O que fez?! é boa! autorizou-te a cantá-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és vazaria a inspiração em versos hendecassílabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrível, e imoral! - Bem! Ainda agora te compreendi. Estás zombando com ela e comigo, e não sei se com o público, a quem prometeste uma virtude enfadonha e monótona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rápida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excelência de Ludovina. - Qual virtude? - A de me receber dez cartas, escritas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma. - Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence. - E tenho. - Não respondendo às tuas cartas!? Não entendo. - Não me respondeu a dez cartas... - Bem. - Mas eu escrevi-lhe vinte, e ela respondeu à última. - Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a segurança de seres o proprietário do coração da baronesa?... - Queres ver a resposta?... Franqueza e confiança. - Lê lá. Era um bilhete, que rezava assim: “Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me V. Exª o nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. Hoje, porém, que V. Exª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe. Com verdadeira estima, atenciosa veneradora de V. Exª - Ludovina Pimenta.” - Isto é lisonjeiro! - disse eu sorrindo. - Com um documento destes, é indisputável a posse que tomaste do coração da baronesa. Eu creio que podia ser assim o proprietário mais abastado do género... - Espera lá... Ainda tenho outros títulos da propriedade. Já agora hás-de examiná-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que estilo! que dez cáusticos para fazerem supurar um coração! - Deixas ver a resposta? - A resposta foram dez cartas. - Incendiárias? - Que dúvida! Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram! - E teimaste?! Seria necessário muito despejo e indignidade! - Não teimei: caí doente, tive febre, assustei a minha família, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuais da baronesa. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía à cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baronesa mandou saber de mim duas vezes num dia. - Oh! isso é muito! No dia imediato foste agradecer-lhe o cuidado... - Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação, a ponto de delirar. Durante um curto intervalo de tranquilidade de espírito, escrevi à baronesa uma dúzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada à cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ela ao Senhor, se a glória celestial me fosse dada como prémio do muito que sofrera, e da muita paciência com que sofrera na terra os rigores duma alma que não quis compreender-me; perdoava-lhe com a mais evangélica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade. - Isso devia fundir em lágrimas de remorso a pobre senhora. - Estás ludibriando a minha angústia? - interrogou Marcos Leite com irónico enfado. - Não ludibrio a tua angústia, faço a apologia da tua astúcia. Tu não tinhas febre, nem vias a morte à cabeceira do teu leito, fala a verdade. - Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e, se me persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em lavaredas. Tenho tido vinte e tantos destes tifos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale é ser rápida e segura a convalescença. - Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu... - Um triunfo! - Como um triunfo?! - Uma glória imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora me salta o coração no peito. - Guarda os êxtases para o fim, e vamos ao ponto. - Mandou-me visitar por um médico do Porto, que fora de propósito medicar D. Angélica. - Consiste nisso o triunfo?! - Que mais querias tu! - Mais nada... A um doente a maior prova de estima que pode dar-se é mandar-lhe um médico. - O pior foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginária. Mandou-me dar longos passeios a cavalo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciais, e dormir o máximo número de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o médico matreiro que, verificando-se a morte desta víscera, entregasse ao estômago o exercício das atribuições do coração. “Não sei o que ele foi dizer à baronesa: é certo que os cuidados da parte dela não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito... - Da agonia, ou da dor para variar... - Nada de chacota. Daqui em diante fala-se sério. Logo que saí fui ao convento. Era por uma bela tarde de Maio. Soprava de leste uma viração suavíssima, que, sacudindo as urnas das flores, embalsamava a atmosfera de fragrantes aromas. No horizonte... - Se me pudesses dispensar do idílio!... Guarda as reminiscências bucólicas para o Inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que fantasies não deslumbras a realidade do belo espectáculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descrições, e diz o que passaste no convento com a baronesa. - Estás materialmente estúpido, homem! Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpelo sanguinário da análise, tornam-se áridos, brutais, e famulentos de sensações rijas... - É assim; todavia, prefiro a descrição da tarde de Maio à catilinária insolente que vais disparar-me. - Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baronesa mandou-me entrar numa grade, e apareceu sozinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angélica. - Esse facto é profundamente significativo! Vou gozar o prazer de ouvir um diálogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me... - Saberás tu o que se passou?! - Se sei o que se passou!? - Sim... dizes com tão irónica zombaria o prospecto do diálogo... - Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu entusiasmo, e o estilo principia a aquecer também. - Aí vai lealmente a cena final do definitivo triunfo. Eu tinha posto grandes esperanças na minha palidez. Três semanas de cama seriam capazes de fazer amarelo um camarão cozido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baronesa: - Ninguém dirá que esteve doente, Sr. Marcos! A vida sossegada de três semanas deu-lhe um colorido de saúde, que dantes não tinha. - Como assim, Srª baronesa! Pois a minha palidez... - Está enganado; pelo contrário, está cor-de-rosa, acredite. Eu chamo suas primas, e verá se elas não dizem o mesmo. - Não chame minhas primas, Srª baronesa. Eu preciso que V. Exª me escute. Este é o momento solene da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço suspendeu-a; o seu braço há-de afastá-la de sobre o peito, que me esmaga, ou deixá-la abafar o meu derradeiro gemido. - Que linguagem, Sr. Marcos! - disse ela. - Pelo amor de Deus faça-me a justiça de me não julgar criança. O infortúnio emancipou-me. Não posso ser iludida, nem iludir-me. Tenho aquela dolorosa penetração que adquire o espírito à medida que a boa-fé do coração se perde. Com que fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me? - Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor. - A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, Sr. Leite; mas o amor não pode dar-me felicidade. Imagino que ele possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou crédito a tudo o que se diz de sublime e celeste acerca desse sentimento, o mais mavioso de todos; mas sem coração essa flor não pode dar perfumes duma hora. O meu coração desfez-se em lágrimas, cuja história não é nova para o Sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar num amigo. Quadra-lhe esta afeição? quer-me para sua amiga? está decidido a aceitar deveras este oferecimento que tantas vezes aceitou, e outras tantas desprezou? - Desprezei!? - Sim; pois que outro nome se deve dar às suas cartas escritas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me prometia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortúnios, e acolher-me à sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres duma verdadeira amizade podem suavizar? Não é meu amigo, Sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso dalguma grande desgraça, e quis parti-la. - Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga? - Mais alguma coisa: disse V. Exª que me não amava; agora diga-me que me despreza. - Não posso. Sou sua amiga: não há neste mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só. O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o diálogo com a esposa de João José Dias, fixou-me dum modo que parecia perguntar-me a razão por que eu me não ria. - Esses triunfos são parecidos com as minhas derrotas - disse-lhe eu. - É que tu não sabes nada do coração humano! - replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido enfatuamento tolo por quem não conhecesse a inteligência clara de Marcos Leite. - Vais agora ver que todos estes atalhos conduzem à estrada real da terra da promissão - prosseguiu ele. - Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da aniquilação vai soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possíveis no romance, e impossíveis na vida qual ela é, e como bom é que ela seja para que este mundo se suporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas águas do oceano... Deleitei-me com esta nesga de estilo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices eufónicas!... Vou concluir. - Já?! - Achas que é cedo? - Parece-me que o triunfo está muito longe ainda para concluíres tão depressa. - Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma coisa do coração, dando como infalível a minha vitória. Comecei a ler com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina: “Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava nele paz, esquecimento, anseios para Deus, bálsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ela, e um acabar a vida melhor que o princípio. “Gozei alguns meses, se não a realidade, ao menos a esperança destes bens. Por que infortúnio estava confiada ao Sr. Marcos a missão de inquietar-me até me afligir com a mortificação das suas instâncias impertinentes, perdoe-me a clareza da ideia...? - Que amabilidade! - disse eu, interrompendo a leitura. - Lê, e não comentes por ora. Prossegui, lendo: “Muito egoístas são os homens, santo Deus! Há uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o Sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por V. Sª que me oferece o seu amor. Respondo-lhe que o não posso aceitar, porque a infelicidade me tomou dura e insensível aos prazeres dos afectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquele desabafo e confidência que forma as amizades imorredoiras. V. Sª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dor é para si tão respeitável que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossíveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora dum amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insuportável. “Egoísmo e tirania! “Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, Sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufrágio. Eu tenho a inocência de crer que o mortifico, que o incomodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande afecto de amiga que lhe dou. “Que futuro me queria dar, Sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei num caminho de amarguras voluntárias donde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorso a consciência das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me também ser egoísta das minhas virtudes, porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para sofrer o pouco de vida que me resta. “Eu avalio o seu coração. Confesso que, há três anos, o encontrarmo-nos seria um desígnio da Providência divina. Creio que seríamos felizes; que teríamos a bem-aventurança na terra. “Agora, porém, não há futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo. “São as últimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga, Ludovina.” - Que esperas agora, Marcos? - perguntei eu. - Espero que ela se compadeça da minha humildade. - Humildade!? não entendo... - Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar à aresta do abismo. A baronesa é mulher. - Já sei. - Cuidei que não sabias, e decerto não sabes o que é uma mulher. - Então já não aprendo. - Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina. - Escuto, sem respirar. - A baronesa ama-me. - Isso é bem positivo e claro? Vê lá... - Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem que a subjuga. - E depois? - Se esse homem aceita humildemente a revolta, é ela mesma a que se revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensível. - É pelos modos uma enfiada de revoltas, de bernardas do coração... - Estás hoje intratável! - Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ela te mande chamar à grade do mosteiro para assistires à queima desta carta na pira do amor? - Talvez... Tu és uma criança velha. Não sabes nada. Morres ignorante dos segredos do coração feminino... Que lástima! - Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisá-la que te vinhas suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Há um Waterloo para cada Napoleão destas conquistas incruentas. O teu é a baronesa de Celorico de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor-próprio? Esquece-a. - E a omnipotência da vontade, o que é? Hei-de triunfar, ou Ludovina é uma natureza superior à humanidade... Saí de Braga. O meu amigo ficou à espera da segunda “revolta” rimando a quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos duma elegia que ele intitulava o seu epitáfio. Um mês depois encontrei no Porto Marcos Leite. - Então? - exclamei eu a custo, com as costelas apertadas num abraço homicida. - A baronesa? - Sim... diz-me alguma coisa da última “revolta”. - A baronesa... caiu miseravelmente. - Caiu?! - Não o sabias? Que estúpida espionagem tu trazes nas casas alheias! - Venceste, pois, Marcos! Oh minha pobre Ludovina!! onde eu te havia posto! O que dirá o público! Despenhou-se aquele anjo! Quando encontrarei eu outro para o trono que ficou vago?! - E em que lodaçal ela caiu - Creio... - Esse creio é uma afronta... - A ela... - Querem ver o romancista com ciúmes!... - É compaixão dela, e de ti... - De mim! - tornou ele soltando uma estridente risada - de mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitui-me a minha inocência na incrível torpeza que ela praticou. - Depressa... que fez ela? - Caiu nos braços asquerosos de... - De quem? - Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto! - Por consequência está coroada a virtude da minha heroína com o extremo suplício. - Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulário equivale a baixeza de alma! São tantas as mártires que sorriem à socapa da tua compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho dum espírito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias! - Cala-te, ímpio! Não cuspas na face da mártir. Conta-me os pormenores dessa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortúnio... - Qual? Adivinha lá... - A morte de D. Angélica. - Justamente: morreu há três semanas. - Atormentada de saudades... pobre mulher! - Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um retrato no seio, ainda embaciado pelo último respiro que ela exalou. Devia ser o retrato de António de Almeida. Também me disseram que viram ajoelhar Ludovina ao pé do cadáver, e lhe ouviram dizer: “A sua memória fica sem mancha, minha pobre mãe!” - Isso é triste, Marcos! Compreendes tu a santidade dessas palavras? - Compreendo; mas abomino a melancolia. O mundo aceita estes heroísmos como esquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom no coração, e quero ter grande partilha no cinismo que ele dá em paga. - Não importa. Ludovina contínua a ser um anjo, confessa. - Parece-me que o seria, se não saísse de ao pé do túmulo de sua mãe. Se João José Dias avilta uma criatura que é só humana, com o seu contacto, como há-de ele sustentar as qualidades dum anjo? - E se Ludovina aceita as torturas da convivência com tal homem como provocações à morte? - Morrerá estupidamente. Será indigna dum necrológio, e terá apenas uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funerais. Deixemos falar este homem sem alma, leitoras! Ludovina continua a ser a flor da criação, o espelho de infelizes, o elo que prende a criatura ao Criador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem deste desterro.