O Mistério da Estrada de Sintra PREFÁCIO CARTA AO EDITOR DO «MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA» Há catorze anos, numa noite de Verão, no Passeio Público, em frente de duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de sono ao som de um soluçante pot-pourri dos Dois Foscaris, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinado à Baixa das alturas do Diário de Notícias. Para esse fim, sem plano, sem método, sem escola, sem documentos, sem estilo, recolhidos à simples «torre de cristal da Imaginação», des fechámos a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audácia. Parece que Lisboa efectivamente despertou, pela simpatia ou pela curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do Diário de Notícias, o Mistério da Estrada de Sintra, o comprou ainda numa edição em livro; e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o que pensamos da obra escrita nesses velhos tempos, que recordamos com saudade... Havia já então terminado o feliz rei nado do Senhor» João Vi. Falecera o simpático Garção, Tolentino o jucundo, e o sempre chorado Quita. Além do Passeio Público, já nessa época evacuado como o resto do país pelas tropas de Junot, encarregava-se também de falar às imaginações o Sr. Octave Feuillet. O nome de FIaubert não era familiar aos folhetinistas. Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornais e das bibliotecas económicas. O Sr. Jules Claretie publicava um livro intitulado... (ninguém hoje se lembra do título) do qual diziam comovidamente os críticos: Eis a (uma obra que há-de ficar!... Nós, enfim, éramos novos. O que pensamos hoje do romance que escrevemos há catorze anos?... Pensamos simplesmente louvores a Deus! que ele é execrável; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu pior inimigo, um livro igual. Porque nele há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar Poupemo-lo para o não agravar fazendo-o em três volumes à enumeração de todas as suas deformidades? Corramos um véu discreto sobre os seus mascarados de diversas alturas, sobre os seus médicos misteriosos, sobre os seus louros capitães ingleses, sobre as suas condessas fatais, sobre os seus tigres, sobre os seus elefantes, sobre os seus iates em que se arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda, sobre os seus sinistros copos de ópio, sobre os seus cadáveres elegantes, sobre as suas toilettes românticas, sobre os seus cavalos esporeados por cavaleiros de capas alvadias desaparecendo envoltos no pó das fantásticas aventuras pela Porcalhota fora!... Todas estas coisas, aliás simpáticas, comoventes por vezes sempre sinceras, desgostam todavia velhos escritores, que há muito desviaram os seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua. Como permitimos pois que ser e publique um livro que, sendo todo de imaginação, cismado e não observado. desmente toda a campanha que temos feito pela arte de análise e de certeza objectiva? Consentimo-lo porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer envergonhar-se do seu trabalho. Conta-se que Murat, sendo rei de Nápoles, mandara pendurar na sala do trono o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o ceptro, mostrava depois o açoite, gostando de repetir: Comecei por ali. Esta gloriosa história confirma o nosso parecer, sem com isto querermos dizer que ela se aplique às nossas pessoas. Como trono temos ainda a mesma velha cadeira em que escrevíamos há quinze anos; não temos dossel que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem não se cingem por enquanto de coroa alguma, nem de louros, nem de Nápoles. Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só dia desde aquele em que datámos este livro até o instante em que ele nos reaparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante aninho de triunfo que, à fé de Deus, não lhe vai mal! Então, como agora, escrevíamos honestamente isto é o melhor que podíamos desse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio talvez a simpatia do público ao livro da nossa mocidade. Há mais duas razões, para autorizar esta reedição. A primeira é que a publicação deste livro, fora de todos os moldes até o seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a receber, uma tal lição de independência. A mocidade que nos sucedeu, em vez de ser inventiva, audaz, revolucionária, destruidora de ídolos, parece-nos servil, imitadora, copista, curvada de mais diante dos mestres. Os novos escritores não avançam um pé que não pousem na pegada que deixaram outros. Esta pusilanimidade torna as obras trôpegas, dá-lhes uma expressão estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o efeito de sair velha do berço e de entrar na arte de muletas. Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámo-los há muito, os das nossas extravagâncias de espírito desejamos que fiquem. Aos vinte anos é preciso que alguém seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite. Para se ser ponderado, correcto e imóvel há tempo de sobra na velhice. Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistência às correntes da tradição, é indispensável para a revivescência da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artística. Ai das literaturas em que não há mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, não haverá nelas que lembrar Além de que, para os que na idade madura foram arrancados pelo dever às facilidades da improvisação e entraram nesta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em lugar do esplendor dos heroísmos e da beleza das paixões. só há a pequenez dos caracteres e a miséria dos sentimentos, seria doce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da Prima vera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a dourada abelha da fantasia A última razão que nos leva a não repudiar este livro, é que ele é ainda o testemunho da íntima confraternidade de dois antigos homens de letras, resistindo a vinte anos de provação nos contactos de uma sociedade que por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triunfo para o nosso espírito, é para o nosso coração uma suave alegria. Lisboa, 14 de Dezembro de 1884. De V. Antigos amigos, EÇA DE QUEIRÓS RAMALHO ORTIGÃO EXPOSIÇÃO DO DOUTOR *** I Sr. Redactor do Diário de Notícias: Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário, em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substância, pelo menos, do que vou expor. Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantíssima como chave única para a desencerração de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele senão um só acto e ignore inteiramente quais foram as cenas precedentes e quais tenham de ser as últimas. Há três dias que eu vinha dos subúrbios de Sintra em companhia de F..., um amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo. Montávamos dois cavalos que F... tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos a Sintra por um criado que viera na véspera para Lisboa. Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A melancolia do lugar e da hora tinha-se-nos comunicado, e vínhamos silenciosos, abstraídos na paisagem, caminhando a passo. A cerca talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacém, num ponto a que não sei o nome porque tenho transitado pouco naquela estrada, sítio deserto como todo o caminho através da charneca, estava parada uma carruagem. Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha cor de castanha. O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavalos. Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estrada por onde tínhamos de passar, e pareciam ocupados em examinar atentamente o jogo da carruagem. Um quarto indivíduo, igualmente de costas para nós, estava perto do valado, do outro lado do caminho, procurando alguma coisa, talvez uma pedra para calçar o trem. É o resultado das sob-rodas que tem a estrada observou o meu amigo. eixo partido ou alguma roda desembuxada. Passávamos a este tempo pelo meio dos três vultos a que me referi, e F... tinha tido apenas tempo de concluir a frase que proferira, quando o cavalo que eu montava deu repentinamente meia volta rápida, violenta, e caiu de chapa. O homem que estava junto do valado, ao qual eu não dava atenção porque ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente e com a máxima força as rédeas que ficavam para o lado dele e impelindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para o lado oposto. O cavalo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das pernas e tombou ao dar a volta rápida e precipitada a que o tinham constrangido. O desconhecido fez levantar o cavalo segurando-lhe as rédeas, e, ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna que ficara debaixo do cavalo. Este indivíduo tinha na voz a entoação especial dos homens bem-educados. A mão que me ofereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma máscara de cetim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapéu. Era um homem ágil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair o cavalo. Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara luta entre o meu companheiro e os outros dois indivíduos que fingiam examinar o trem e que tinham a cara coberta como aquele de que já falei. Puro Ponson du Terrail! dirá o Sr. Redactor. Evidentemente. Parece que a vida, mesmo no caminho de Sintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verosimilhança artística. Mas eu não faço arte, narro factos unicamente. F..., vendo o seu cavalo subitamente seguro pelas cambas do freio, tinha obrigado a largá-lo um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregara uma pancada como cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo depois arrancar-lho da mão. Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha, no entanto, tirado da algibeira a chave de uma porta da casa de Sintra, e esporeava o cavalo estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça daquele que o tinha seguro. O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do cavalo empinado, apontou com a outra em revólver ã cabeça do meu amigo e disse-lhe com serenidade: Menos fúria! Menos fúria! O que levara com o chicote na cabeça e ficara por um momento encostado à portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma trança de cima, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça o chapéu que lhe caíra. A este tempo o que me derribara o cavalo e me ajudara a levantar tinha-me deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, daquelas a que chamam em França coups de poing e que varam uma porta a trinta passos de distância. Depois do que, me ofereceu delicadamente o braço, dizendo-me com afabilidade: Parece-me mais cómodo aceitar um lugar que lhe ofereço na carruagem do que montar outra vez a cavalo ou ter de arrastar a pé daqui à farmácia da Porcalhota a sua perna magoada. Não sou dos que se amedrontam mais prontamente com a ameaça feita com armas. Sei que há um abismo entre prometer um tiro e desfechá-lo. Eu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavalo possante; somos ambos robustos; poderíamos talvez resistir por dez minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais provável, em estrada tão frequentada como a de Sintra nesta quadra, do que aparecerem passageiros que nos prestassem auxílio Todavia, confesso que me sentia atraído para o imprevisto de uma tão estranha aventura. Nenhum caso anterior, nenhuma circunstância da nossa vida nos permitia suspeitar que alguém pudesse ter interesse em exercer connosco pressão ou violência alguma. Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia também que as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um homicídio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me pessoas de bom mundo. Agora que de espirito sossegado penso no acontecido, vejo que a minha conjectura se baseava em várias circunstâncias dispersas, nas quais, ainda que de relance, eu atentara, mesmo sem propósito de análise. Lembro-me, por exemplo, que era de cetim alvadio o forro do chapéu do que levara a pancada na cabeça. O que apontara o revólver a F... trazia calçada uma luva cor de chumbo apertada com dois botões. O que me ajudara a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas: as calças, de casimira cor de avelã, eram muito justas e de presilhas. Trazia esporas. Não obstante a disposição em que me achava de ceder da luta e de entrar no trem, perguntei em alemão ao meu amigo se ele era de opinião que resistíssemos ou que nos rendêssemos.. Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! disse gravemente um dos desconhecidos Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes saímos ao caminho, mascarados. Damos-lhe a nossa palavra de que amanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavalos ficarão em Sintra daqui a duas horas. Depois de uma breve relutância, que eu contribuí para desvanecer, o meu companheiro apeou-se e entrou no coupé. Eu segui-o. Cederam-nos os melhores lugares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavalos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; os outros dois entraram connosco e sentaram-se nos lugares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os estores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem. No momento de partirmos, o que ia a guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fora uma charuteira de palha de Java. Pela fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a máscara que tinha no rosto e partimos a galope. Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um ónibus, talvez uma sege. Se me não iludi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavalos, um dos quais é ruço e o outro castanho, e poderão talvez dar notícia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro, O coupé era, como já disse, verde e preto. Os estores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz. Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contara horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna. Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo por que lhe oculto o meu nome e o nome do meu amigo. II Julho, 24 de 1870. Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por V. no lugar destinado ao folhetim do seu periódico. Em vista da colocação dada ao meu escrito procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal. Por esquecimento não datei acarta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia em que fomos surpreendidos na estrada de Sintra. Foi quarta-feira, 20 do corrente mês de Julho. Passo de pronto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o diálogo que travámos, tanto quanto me seja possível, com as mesmas palavras que nele se empregaram. A carruagem partiu na direcção de Sintra. Presumo, porém, que deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não pressentiram pela intercadência da velocidade no passo dos cavalos. Levaram-me a supô-lo, em primeiro lugar as diferenças de declive no nível do terreno, conquanto estivéssemos rodando sempre em uma estrada macadamizada e lisa; em segundo lugar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do coupé coada de seda verde, o que me indicava que o trem passava por encontradas exposições com relação ao Sol que se escondia no horizonte. Havia, evidentemente, o desígnio de nos desorientar no rumo definitivo que tomássemos. É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria absolutamente impossível decidir se ia de Lisboa para Sintra ou se vinha de Sintra para Lisboa. Na carruagem havia uma claridade baça e ténue, que todavia nos permitia distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relógio. Eram sete e um quarto. O desconhecido que ia defronte de mim examinou também as horas. O relógio, que ele não introduziu bem na algibeira do colete e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relógio singular que se não confunde facilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da notícia que dou dele, pelas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado oposto ao mostrador era de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido. Havia poucos momentos que caminhávamos, quando o indivíduo sentado defronte de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhássemos, nos disse: Eu julgo inútil asseverar-lhes que devem tranquilizar-se inteiramente quanto à segurança das suas pessoas... Está visto que sim respondeu o meu amigo , nós estamos perfeitamente sossegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têm coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão criança que se apavore com o aspecto das suas máscaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal; nós devemos pela nossa parte anunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tomar-se-nos desagradável, nada nos seria mais fácil do que arrancar-lhes as máscaras, arrombar os estores, convidá-los perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxá-los em seguida aos cuidados policiais do regedor da primeira paróquia que atravessássemos. Parece-me, portanto, justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. Doutro modo ficaríamos todos grotescos: os senhores terríveis, e nós assustados. Conquanto estas coisas fossem ditas por F... com um ar de bondade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvi-lo. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovelo num joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para trás e como se mudasse de resolução: No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez que eu fizesse e dissesse o mesmo no seu lugar. E, tendo meditado um momento, continuou: Que diriam, porém, os senhores se eu lhes provasse que esta máscara em que querem ver apenas um sintoma burlesco é em vez disso a confirmação da seriedade do caso que nos trouxe aqui F... Queiram imaginar por um momento um desses romances como há muitos: uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja há um ano. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está grávida. Que deliberação há-de tomar? Houve um silêncio. Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude daquele problema e respondi: Enviar ao marido uma escritura de separação em regra. Depois, se ética, ir com o amante para a América ou para a Suíça; se é pobre, comprar uma máquina de costura e trabalhar para fora numa água-furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa nessas condições, num cottage à beira do lago de Genebra ou num quarto de oito tostões ao mês na Rua dos Vinagres. Morre-se igualmente, de tísica ou de tédio, nos esfalfamento do trabalho ou no enjoo do idílio. E o filho? O filho, desde que está fora da família e fora da lei, é um desgraçado cujo infortúnio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pai clandestino. Se os pais fazem como a legislação, e mandam buscar gente à estrada de Sintra para perguntar o que se há-de fazer, o melhor para o filho é deitá-lo à roda. O doutor discorre muito bem como filósofo distinto. Como puro médico, esquece-lhe talvez que na conjuntura de que se trata, antes de deitar o filho à roda há uma pequena formalidade a cumprir, que é deitá-lo ao mundo. Isso é com os especialistas. Creio que não é nessa qualidade que estou aqui. Engana-se. É precisamente como médico, é nessa qualidade que aqui está e é por esse título que viemos buscá-lo de surpresa à estrada de Sintra e o levamos a ocultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa dele. Mas eu não faço clínica. É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir nesta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma tese de cirurgia que despertou a atenção e mereceu o elogio da Faculdade. Queira fazer de conta que vai assistir a um parto. O meu amigo F... pôs-se a rir e observou: Mas eu que não tenho o curso médico nem tese alguma de que me acuse na minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer? Quer saber o motivo por que se encontra aqui?... Eu lho digo. Neste momento, porém, a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros, sobressaltados, ergueram-se. III Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir sucessivamente as duas lanternas e raspar um fósforo na roda. Senti depois estalar a mola que comprime a portinha que se fecha depois de acender as velas, e rangerem nos anéis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando. Não compreendi logo a razão por que nos tivéssemos detido para semelhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho. Isto, porém, explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos servia de cocheiro não quereria parar em lugar onde houvesse gente. Se tivéssemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a acender-se e que nós veríamos através da cortina ou das fendas dos estores, poderiam dar-nos alguma ideia do sítio em que nos achássemos. Por esta forma esse meio de investigação desaparecia. Ao passarmos entre prédios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão dessa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessávamos uma aldeia ou uma rua iluminada. Logo que a carruagem começou a rodar depois de acesas as lanternas, aquele dos nossos companheiros que Prometera explicar a F... a razão por que ele nos acompanhava, prosseguiu: O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente neste mundo três amigos meu; amigos íntimos, companheiros de infância, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente pronto a prestar aos outros os derradeiros sacrifícios que pode impor a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um médico. Era mister obtê-lo e era ao mesmo tempo indispensável que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora, O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou amanhã pela manhã; não devendo saber ninguém quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indício vir a suspeitar um dia quem ela seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem fala, e qual é a casa em que vai entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma máscara; eis o motivo por que os senhores nos hão-de permitir que continuemos a ter cerrada esta carruagem e que lhes vendemos os olhos, antes de os apearmos defronte do prédio a que vão subir. Agora compreende continuou ele dirigindo-se a F... a razão por que nos acompanha. Era-nos impossível evitar que o senhor viesse hoje de Sintra com o seu amigo, era-nos impossível adiar esta visita, e era-nos impossível também deixá-lo no ponto da estrada em que tomámos o doutor, O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos. A lembrança notei eu é engenhosa mas não é lisonjeira para a minha discrição. A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence. F... achava-se inteiramente de acordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando0 espírito da aventura romanesca dos mascarados. As palavras de F..., acentuadas com sinceridade e com afecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surpreendia desagradavelmente esse corte imprevisto. Ele, que tinha a réplica pronta e a palavra fácil, não achou que retorquir à confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silêncio que devia pesar à suas tendências expansivas e discursadoras. É verdade que pouco depois deste diá0 trem deixou a estrada de macadame em que até aí rodara e entrou num caminho vicinal ou num atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrépito dos estores embatendo nos caixilhos mal permitiram conversar. Tornámos por fim a entrar numa estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo: Lá vou! Voltou pouco depois, e eu ouvi alguém que dizia: Vão com raparigas para Lisboa. O trem prosseguiu. Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-ia com os meus companheiros a frase que eu ouvira? Não posso dizê-lo com certeza. A carruagem entrou logo depois num pavimento lajeado e daí a dois ou três minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse: Chegámos. O mascarado, que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma comoção: Tenham paciência! Perdoem-mo... Assim é preciso! F... aproximou o rosto, e ele vendeu-lhe os olhos. Eu fui igualmente vendado pelo que estava em frente de mim. Apeámo-nos em seguida e entrámos num corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontrámos e demos passagem a alguém que saía. Levo o trem? A voz do que nos guiara respondeu: Leva. Demorámo-nos um momento. A porta por onde havíamos entrado foi fechada à chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo: Vamos! Demos alguns passes, subimos dois degraus de pedra, tomámos à direita e entrámos na escada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e arredondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar húmido, impregnado de exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e parámos num primeiro andar. Ninguém Unha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre neste silêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza. Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma opressão, uma espécie de sobressalto pueril. Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado. Podem tirar os lenços disse-nos um dos nossos companheiros. Descobri os olhos. Era noite. Um dos mascarados raspou um fósforo, acendeu cinco velas numa serpentina de bronze, pegou na serpentina, aproximou-se de um móvel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta. Não pude conter a comoção que senti, e soltei um grito de horror. O que eu tinha diante de mim era o cadáver de um homem. IV Escrevo-lhe hoje fatigado e nervoso. Todo este obscuro negócio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para compreender a secreta verdade desta aventura, os hábitos da minha vida repousada subitamente exaltados tudo isto me dá um estado de irritação mórbida que me aniquila. Logo que vi o cadáver perguntei violentamente: Que quer isto dizer, meus senhores? Um dos mascarados, o mais alto, respondeu: Não há tempo para explicações. Perdoem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Que tem? Está morto? Está adormecido com algum narcótico? Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogadora que eu, dominado pelo imprevisto daquela situação, aproximei-me do cadáver, e examinei-o. Estava deitado numa chaise-longue, com a cabeça pousada numa almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descansando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha sinais de congestão, nem vestígios de estrangulação. A expressão da fisionomia não denotava sofrimento, contracção ou dor. Os olhos cerrados frouxamente, eram como num sono leve. Estava frio e lívido. Não quem aqui fazer a história do que encontrei no cadáver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações científicas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a análise ou a autópsia, pareceu-me que aquele homem estava sob a influência já mortal de um narcótico, que não era tempo de dominar. Que bebeu ele? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente médica. Não pensava então em crime nem na misteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma história progressiva dos fados que tinham determinado a narcotização. Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da chaise-longue sobre uma cadeira de estofo. Não sei disse ele , talvez aquilo. O que havia no copo era evidentemente ópio. Este homem está morto disse eu. Morto! repetiu um deles, tremendo. Ergui as pálpebras do cadáver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrível. Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente: Ignoro o motivo por que vim aqui; como médico de um doente sou inútil; como testemunha posso ser perigoso. Um dos mascarados veio para mim e com uma voz insinuante e grave: Escute, crê, em sua consciência, que esse homem esteja morto? Decerto. E qual pensa que fosse a causa da morte? O ópio; mas creio que devem sabê-lo melhor do que eu os que andam mascarados surpreendendo gente pela estrada de Sintra. Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação. Perdão disse um , e há que tempo supõe que esse homem esteja morto? Não respondi, pus o chapéu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F... junto da janela, batia o pé impaciente. Houve um silêncio. Aquele quarto pesado de estofos, o cadáver estendido com reflexos lívidos na face, os vultos mascarados, o sossego lúgubre do lugar, as luzes claras, tudo dava àquele momento um aspecto profundamente sinistro. Meus senhores disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem , compreendem perfeitamente, que se nós tivéssemos morto este homem sabíamos bem que um médico era inútil, e uma testemunha importuna! Desconfiávamos, é claro, que estava sob a acção de um narcótico, mas queríamos adquirir a certeza da morte. Por isso o trouxemos. A respeito do crime, estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso à polida, se cercámos de mistério e de violência a sua visita a esta casa, se lhes vendamos os olhos, é porque receávamos que as indagações que se pudessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cúmplice, alguém que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações... Essas explicações são absurdas! gritou F... Aqui há um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitária, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circunstâncias têm um mistério tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntária assistência, ser parte neste negócio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquela porta. Com a violência dos seus gestos, um dos mascarados riu. Ah! Os senhores escarnecem! gritou F... E arremessando-se violentamente contra a janela, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre ele, curvaram-no, arrastaram-no até uma poltrona, e deixaram-no cair, ofegante, trémulo de desespero. Eu tinha ficado sentado e impassível. Meus senhores observei , notem que enquanto o meu amigo protesta pela cólera, eu protesto pelo tédio. E acendi um charuto. Mas, com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a máscara, tiro-a eu! É necessário que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por um assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem. E fez um gesto furioso. Neste movimento, a máscara desapertou-se, descaindo. Ele voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instintivo, irreflectido, de desesperação. Os outros cercaram-no, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassível. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silêncio. Os mascarados, a um canto, falavam baixo. Eu, no entanto, examinava a sala. Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete mole, espesso, bom para correr com os pés nus. O estofo dos móveis era de seda vermelha com uma barra verde, única e transversal, como têm na antiga heráldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janelas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tépido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de marechala. O homem que estava morto era moço, de perfil simpático e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e colete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de pérolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma cor clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos. Pela fisionomia, pela construção, pelo corte e cor do cabelo, aquele homem parecia inglês. Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, de um aroma que andava no ar uma sensação tépida que dão todos os lugares onde ordinariamente se está, se fala e se vive, aquele quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas caídas, alguma destas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviais. F... tinha-se aproximado de mim. Conheceste aquele a quem caiu a máscara? perguntei. Não. Conheceste? Também não. Há um que ainda não falou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista. Um dos mascarados aproximou-se, perguntando: Quanto tempo pode ficar o corpo assim nesta chaise-longue? Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colérico, mas conteve-se. Neste momento o mascarado mais alto, que tinha saído, entrara, dizendo para os outros: Pronto!... Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pêndula e os passos de F..., que passeava agitado, como sobrolho duro, torcendo o bigode. Meus senhores continuou voltando-se para nós o mascarado , damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este sucesso. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quiserem. Imaginem que estão aqui pela violência, pela corrupção, pela astúcia, ou pela força da lei... como entenderem! o facto é que ficam até amanhã. O seu quarto disse-me é naquela alcova, e o seu apontou para F... lá dentro. Eu fico consigo, doutor, neste sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Amanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte à polícia ou escrever para os jornais. Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquilidade. Não respondemos. Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. Numa das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto de uma poltrona, uma coisa branca semelhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caído. Era efectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma coroa. Neste momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F... Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessário vendar-lhe os olhos. F... tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu ele mesmo os olhos, e saíram. Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz simpática e atraente. Perguntou-me se queria jantar. Conquanto lhe respondesse negativamente, ele abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo de água. Ele comeu. Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quase em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silêncio pesava-me. Ele era instruído, tinha viajado e tinha lido. De repente, pouco depois da uma da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguém tocar na porta do quarto onde estávamos, O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobressaltados, O cadáver achava-se coberto, O mascarado apagou as luzes. Eu estava aterrado, O silêncio era profundo; ouvia-se apenas o ruído da chave que a pessoa que estava fora às escuras procurava introduzir na fechadura. Nós, imóveis, não respirávamos. Finalmente a porta abriu-se, alguém entrou, fechou-a, acendeu um fósforo, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, imóvel, com os braços estendidos. Amanhã, mais sossegado e claro de recordações, direi o que se seguiu. P. S. Uma circunstância que pode esclarecer sobre a rua e o sítio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia-noite, O que cantava dizia esta quadra: «Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração ofendido...» Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notável esclarecimento dizendo em que rua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquelas rimas populares. V Hoje, mais sossegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nítido, nos diálogos e nos olhares, o que se seguiu à entrada imprevista daquela pessoa no quarto onde estava o morto. O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de toilette. Voltou a si, e, ainda trémulo e pálido, o seu primeiro movimento instintivo foi correr para a janela! O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violência para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme: Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo-lhe o coração! Vá, vá disse eu. Breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui? Ele não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia maquinalmente: Está perdido tudo! Está tudo perdido! Fale disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço. Que veio fazer aqui? Que é isto? Como soube?... A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o cetim negro da máscara. Que veio fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos ombros e sacudindo-o como um vime. Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me... Não sei. Parece que já cá estava a polida... queria saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações... Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços. Eu estava surpreendido: aquele homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadáver! Só ele o sabia, porque deviam ser decerto absolutamente ignorados aqueles sucessos lúgubres. Por consequência quem sabia onde estava o cadáver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao lugar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surpreendido, estava positivamente envolvido no crime... Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado. O homem calou-se. Quem lhe falou nisto? Calou-se. Que vinha fazer, de noite, às escondidas, a esta casa? Calou-se. Mas como sabia deste absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?... E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptível do expediente que ia tomar, acrescentou: ...nós e o senhor comissário. O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletó e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martelo e um maço de pregos. Para que era isto? Trazia naturalmente isso, queria consertar não sei quê, em casa... um caixote... O mascarado tomou a luz, aproximou-se do morto, e por um movimento rápido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a lívida face do cadáver. Conhece este homem? O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e atento. Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistência implacável nos olhos dele, dominei-o, disse-lhe baixo, apertando-lhe a mão: Porque o matou? Eu? gritou ele. Está doido! Era uma resposta clara, franca, natural, inocente. Mas porque veio aqui? observou o mascarado. Como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martelo? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou daqui a uma hora está no segredo, e daqui a um mês nas galés. Chame os outros disse ele para mim. Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido. Esperámos; mas retraindo a voz, e com um a entoação demorada, como quem dita: A verdade prosseguiu é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, número tantos... Eu tive um movimento ávido, curioso, interrogador. Ia enfim saber onde estava! Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôs-lhe a mão aberta sobre aboca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível: Se diz onde estamos, mato-o. O homem fitou-nos: compreendeu evidentemente que eu também estava ali, sem saber onde, por um mistério; que os motivos da nossa presença eram também suspeitos, e que por consequência não éramos empregados da polícia. Esteve um momento calado e acrescentou: Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui? Está preso gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o assassino. Esperem, esperem gritou ele. Não compreendo! Quem são os senhores? Supus que eram da polícia... São talvez.., disfarçam para me surpreender! Eu não conheço aquele homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça! Este miserável há-de falar, ele tem o segredo! bradava o mascarado. Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentara doçura, a astúcia. Ele tinha serenado, falava com inteligência e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Viseu. O mascarado escutava-nos, silencioso e atento. Eu, falando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Ele pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era fácil surpreender a verdade dos seus actos. Com um modo íntimo, confidencial, fiz-lhe perguntas aparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de análise. Ele, com uma boa-fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava. Ora disse-lhe eu , uma coisa me admira em tudo isto. Qual? E que não tivesse deixado sinais o arsénico... Foi ópio interrompeu ele, com uma simplicidade infantil. Ergui-me de salto. Aquele homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime. Sabe tudo disse eu ao mascarado. Foi ele confirmou o mascarado convencido. Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples: A comédia acabou, meu amigo, tire a sua máscara, apertemo-nos a mão, dêmos parte à polícia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que ver neste negócio. Decerto que não. Este homem é o assassino. E voltando-se para ele com um olhar terrível, que flamejava debaixo da máscara: E porque o matou? Matei-o... respondeu o homem. Matou-o disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou para lhe roubar 2300 libras em bank-notes, que aquele homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas letras de prata, que eram as iniciais do seu nome. Eu!... para o roubar! Que infâmia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei! Que malditas contradições! gritou o mascarado exaltado. A. M. C. objectou lentamente: O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o único amigo que ele conhecia em Lisboa? Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. Fale, diga. Por motivos que devo ocultar continuou o homem sabia que este sujeito, que é estrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou há poucas semanas, vinha a esta casa... É verdade atalhou o mascarado. Que se encontrava aqui com alguém... É verdade disse o mascarado. Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das ideias perturbada, via aparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicável. Além disso continuou o homem desconhecido há-de saber também que um grande segredo ocupava a vida deste infeliz... É verdade, é verdade dizia o mascarado absorto. Pois bem, ontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava... Nós esperávamos, petrificados, o fim daquelas confissões. Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel. E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada. Leia disse ele ao mascarado. Este aproximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados. Ergui o papel, li: I declare that I have killed myself with opium. (Declaro que me matei com ópio). Fiquei petrificado. O mascarado dizia com a voz absorta como num sonho: Não é possível. Mas é a letra dele, é! Ah! que mistério, que mistério! Vinha a amanhecer. Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até amanhã. VI Peço-lhe agora toda a sua atenção para o que tenho de contar-lhe. A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruídos da povoação que desperta. A rua não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Também não era uma rua larga, porque o eco das carroças era profundo, cheio e próximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens. O mascarado tinha ficado numa prostração extrema, sentado, imóvel, com a cabeça apoiada nas mãos. O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido. Eu abri as portas da janela: era dia. Os transparentes e as persianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candeeiros. Entrava uma luz lúgubre, esverdeada. Meu amigo disse eu ao mascarado , é dia. Coragem! É necessário fazer o exame do quarto, móvel por móvel. Ele ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e à cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um pano de veludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um adredão de cetim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fofo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vazio e uma jarra com flores murchas. Havia um lavatório, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava uma bengala grossa com estoque. Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade significativa. O exame dela dava na verdade a persuasão de que se estava numa casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um lugar de entrevistas, e não um interior regular. A casaca e o colete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se no chão, ao pé da chaise-longue; o chapéu achava-se sobre o tapete, a um canto, como arremessado. O paletó estava caído ao pé da cama. Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do colete estava o relógio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha de ouro, com dinheiro miúdo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de forno ópio; não apareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira dificuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicídio. Perguntei se não havia na casa outros quartos que comunicassem com aquele aposento e que devêssemos visitar. Há disse o mascarado , mas este prédio tem duas entradas e duas escadas. Ora aquela porta, que comunica com os demais quartos, encontrámo-la fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu desta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto. Como tinha então trazido o ópio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer invólucro que contivesse o narcótico devia aparecer. Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto da água opiada, ali estava. Um indício mais grave parecia destruir a hipótese do suicídio: não se encontrou a gravata do morto. Não era natural que ele a tivesse tirado, que a tivesse destruído ou lançado fora. Não era também racional que tendo vindo àquele quarto esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguém, pois, tinha estado naquela casa, ou pouco antes da morte ou ao tempo dela. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gravata do morto. Ora a presença de alguém naquele quarto, coincidindo com a estada do suposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicídio e dava presunções ao crime. Aproximámo-nos da janela, examinámos detidamente o papel em que estava escrita a declaração do suicida: A letra é dele, parece-me indubitável que é disse o mascarado mas, na verdade, não sei porquê, não lhe acho a feição usual da sua escrita! Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. Notei logo no alto da página a impressão muito apagada, muito indistinta, de uma firma e de uma coroa, que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era, portanto, papel marcado. Fiz notar esta circunstância ao mascarado; ele ficou surpreendido e confuso. No quarto não havia papel, nem tinteiro, nem penas. A declaração, pois, tinha sido escrita e preparada fora. Eu conheço o papel de que ele usava em casa disse o mascarado , não é deste; não tinha firma, não tinha coroa. Não podia usar doutro. A impressão da marca não era bastante distinta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a coma. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escrita nem em casa dele, onde não havia daquele papel, nem naquele quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um buvard, um lápis. Teria sido escrita fora, na rua, ao acaso? Em casa de alguém? Não, porque ele não tinha em Lisboa, nem relações íntimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com coroa. Teria sido feita numa loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem coroas. Seria a declaração escrita em alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia também natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o envelope. Demais a folha tinha um aroma de pós de marechala, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estávamos. Além disso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestígio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou húmido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e acetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente eficaz e seguro. Este homem notou ele tinha o costume invariável, mecânico, de escrever, abreviando-a, a palavra that; deste modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só dele, original, desconhecida. Nesta declaração, aliás pouco inglesa, a palavra that acha-se escrita por inteiro. Voltando-se para M. C.: Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta declaração foi falsificada. Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobressalto ou com surpresa. Falsificada; feita para encobrir o assassinato; tem todos os indícios disso. Mas o grande, o forte, o positivo indício é este: onde estão as 2300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso? M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho. Não aparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete. Senhor observou gravemente A. M. C. , fala-me em 2300 libras: dou-lhe a minha palavra de honra que não sei a que se quer referir. Eu então disse lentamente, pondo os olhos com uma perscrutação demorada sobre as feições do mancebo: Esta declaração é falsa, evidentemente; não percebo o que quer dizer este novo negócio das 2300 libras, de que só agora se fala; o que vejo é que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cúmplice é uma mulher. Não pode ser, doutor! gritou o mascarado. É uma suposição absurda. Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, iluminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés daquela volteriana aquele tapete feito de uma pele de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestígio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?... Ou a qualquer outro fim E este papel? Este papel de marca pequeníssima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz? Muitos homens o usam! Mas não o cobrem como este foi coberto, com um sachet em que havia o mesmo aroma que se respira no ambiente desta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que ele encerra, que assistiu a ela, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os dedos húmidos, deixando no papel um vestígio tão claro... O mascarado calava-se. E um ramo de flores murchas, que está ali dentro? Um ramo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho... E o vestígio flagrante que deixou no veludo um gancho de segurar o cabelo! Esse ramo podiam ter-lho dado, podia tê-lo trazido ele mesmo de fora. E este lenço que encontrei ontem debaixo de uma cadeira? E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou nele avidamente, examinou-o e guardou-o. M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquilado pela dura lógica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com uma voz humilde, quase suplicante: Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indícios não provam. Este lenço, de mulher indubitavelmente estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço? E não se lembra também que não lhe encontrámos gravata? O mascarado calou-se sucumbido. No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte exclamei eu. Deploro vivamente esta morte, e falo nisto unicamente pelo pesar e pelo horror que ela me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caísse às mãos de uma mulher ou às mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não pode ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair. Tem razão, vai sair já cortou o mascarado. E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me: Um momento! Eu volto já! E saíram ambos pela porta que comunicava como interior da casa, fechando-a à chave pelo outro lado. Fiquei só, passeando agitadamente. A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos daqueles que me haviam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem senão no silêncio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do Sol. Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro. Maquinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro. Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com estranha comoção, sobre a alvura do travesseiro, preso num botão de madrepérola, um longo cabelo louro, um cabelo de mulher. Não me atrevi logo a tocar-lhe. Pus-me a contemplá-lo, ávida e longamente. « Era então certo! Aí estás, pois! Encontro-me finalmente... Pobre cabelo! Apieda-me a simplicidade inocente com que te ficaste aí, patente, descuidado, preguiçoso, lânguido! Podes ter maldade, podes ter malvadez, mas não tens malícia, não tens astúcia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não coras; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no entanto, ténue, exígua, quase microscópica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ela autora do crime? É inteiramente inocente? É apenas cúmplice? Não sei, nem tu mo poderás dizer?» De repente, tendo continuado a considerar o cabelo, por um processo de espírito inexplicável, pareceu-me reconhecer de súbito aquele fio louro, reconhecê-lo em tudo: na sua cor, na sua nuance especial, no seu aspecto! Lembrou-me, apareceu-me então a mulher a quem aquele cabelo pertencia! Mas quando o nome dela me veio insensivelmente aos lábios, disse comigo: «Ora! Por um cabelo! Que loucura! E não pude deixar de rir. Esta carta vai já demasiadamente longa. Continuarei amanhã. VII Contei-lhe ontem como inesperadamente havia encontrado à cabeceira da cama um cabelo louro. Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo luminoso, languidamente enrolado, quase casto, era o indício de um assassinato, de uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido. A pessoa a quem ele pertencia era loura, clara, decerto, pequena, mignonne, porque o fio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação ténue, delicadamente organizada. O carácter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta. Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos. Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Alemanha, porque o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, hábito das mulheres do Norte, completamente estranho às meridionais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura natural. Isto eram apenas conjecturas, deduções da fantasia, que nem constituem uma verdade científica, nem uma prova judicial. Esta mulher, que eu reconstruía assim pelo exame de um cabelo, e que me aparecia doce, simples, distinta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astúcia daquela oculta tragédia? Mas conhecemos nós, porventura, a secreta lógica das paixões? Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cúmplice. Aquele homem não se tinha suicidado. Não estava decerto sé, no momento em que bebera o ópio. O narcótico tinha-lhe sido dado, sem violência evidentemente, por ardil ou engano, num copo de água. A ausência do lenço, o desaparecimento da gravata, a colocação do fato, aquele cabelo louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença de alguém naquela casa durante a noite da catástrofe. Por consequência: impossibilidade de suicídio, verosimilhança de crime. O lenço achado, o cabelo, a disposição da casa (evidentemente destinada a entrevistas íntimas), aquele luxo da sala, aquela escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte dela naquela aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cúmplice, o ocultador do cadáver? Não sei. M. C. não podia ser estranho a essa mulher. Não era decerto um cúmplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar ópio num copo de água não é necessário chamar um assassino assalariado. Tinham por consequência um interesse comum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E acudia-me à memória aquela inesperada referência a 2300 libras que de repente me tinha aparecido como um novo mistério. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei-de repetir eu todas as ideias que se formavam e que se desmanchavam no meu cérebro, como nuvens num véu varrido pelo vento? Há decerto na minha hipótese ambiguidades, contradições e fraquezas, há nos indícios que colhi lacunas e incoerências: muitas coisas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memória, mas eu estava num estado mórbido de perturbação, inteiramente desorganizado por aquela aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mistérios, se instalara na minha vida. O senhor redactor, que julga de ânimo frio, os leitores, que sossegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deduções mais certas, e melhor aproximar-se pela indução e pela lógica da verdade oculta. Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapéu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia. Vamos disse ele. Tomei calado o meu chapéu. Uma palavra antes disse ele. Em primeiro lugar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora à carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie. Dei a minha palavra. Bem! continuou. Agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu carácter, a sua delicadeza. Ser-me-ia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdém, ou necessidades de vingança. Por isso afirmo-lhe: sou perfeitamente estranho a este sucesso. Mais tarde talvez entregue este caso à polícia. Por ora sou eu polícia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um cárcere. Vejo que o doutor leva daqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu neste crime: não o suponha, não podia ser. No entanto, se alguma vez lá fora falar, a respeito deste caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnância, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia. E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos. Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os estores fechados. Não pude ver quem guiava os cavalos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pele era fina, pálida, o cabelo castanho, levemente anelado. A carruagem seguiu um caminho, que pelos acidentes da estrada, pela diferença de velocidade indicando aclives e declives, pelas alternativas de macadame e de calçada, me parecia o mesmo que tínhamos seguido na véspera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga. Ah, doutor! dizia o mascarado com desenfado. Sabe o que me aflige? É que o vou deixar na estrada, só a pé! Não se pôde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacém fica a dois passos, e aí encontra facilmente condução para Lisboa. E ofereceu-me charutos. Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou. Chegámos disse o mascarado. Adeus, doutor. E abriu por dentro a portinhola. Obrigado! acrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permita Deus que ambos tenhamos no aplauso das nossas consciências e no prazer que dão cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da cena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus! Apertámos a mão, eu saltei. Ele fechou a portinhola, abriu os estores e estendendo-me para fora um pequeno cartão: Guarde essa lembrança disse. É o meu retrato. Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a fotografia avidamente, olhei. O retrato estava também mascarado! É um capricho do ano passado, depois de um baile de máscaras! gritou ele, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote. Via-a afastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapéu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto. Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquele trem levava consigo um segredo inexplicável. Nunca mais veria aquele homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sofá, que lhe servia de sarcófago. Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancólica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponês apareceu vindo do lado oposto àquele por onde ele desaparecia. Onde fica o Cacém? De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de légua. A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Sintra. Cheguei ao Cacém fatigado. Mandei um homem a Sintra, à quinta de F..., saber se tinham chegado os cavalos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janela, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as árvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavalo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quase indistinto do cavaleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia. Tomei informações a respeito da carruagem que passara na véspera connosco. Havia contradições sobre a cor dos cavalos. Voltou de Sintra o homem que eu ali mandara, dizendo que na quinta de F... tinham sido entregues os cavalos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores, ao pé do Cacém, tinham encontrado um amigo que os levara consigo em uma caleche para Lisboa. Daí a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F... O criado tinha recebido este bilhete a lápis: Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid. Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F... estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido. Entregar à polícia este negócio, tão vago e tão incompleto como ele é, seria tornar-me o denunciante de uma quimera. Sei que, em resultado das primeiras notícias que lhe dei, o Governador Civil de Lisboa oficiou ao administrador de Sintra convidando-o a meter o esforço da sua polícia no descobrimento deste crime. Foram inúteis estas providências. Assim devia ser. O sucesso que constitui o assunto destas cartas está por sua natureza fora da alçada das pesquisas policiais. Nunca me dirigi às autoridades, quis simplesmente valer-me do público, escolhendo para isso as colunas populares do seu periódico. Resolvi homiziar-me, receando ser vítima de uma emboscada. São óbvias, depois disto, as razões por que lhe o meu nome: assinar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero. Do meu impenetrável retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do Sol nascente através das minhas gelosias. Ouço os pregões dos vendedores matinais, os chocalhos das vacas, o rodar das carruagens, o murmúrio alegre da povoação que se levanta depois de um sono despreocupado e feliz... Invejo aqueles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, mourejam na rua. Eu pobre de mim! estou encarcerado por um mistério, guardado por um segredo! P. S. Acabo de receber uma longa carta de F... Esta carta, escrita há dias, só hoje me veio à mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Aí tem, senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte dessa carta, da qual depois de amanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento neste obscuro sucesso; é um vestígio luminoso e profundo. F... é um escritor público, e descobrir pelo estilo um homem é muito mais fácil do que reconstruir sobre um cabelo a figura de uma mulher. É gravíssima a situação do meu amigo. Eu, aflito, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me à decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autógrafo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem.. se puderem. Adeus! INTERVENÇÃO DE Z. Nota do Diário de Notícias. No original da carta publicada ontem havia algumas palavras a lápis, nas quais só fizemos reparo depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação: A fotografia do mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, Rua das Chagas, Lisboa. Talvez aí possa haver noticia do sujeito fotografado. Antes de darmos à estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos foi ontem enviada pelo médico, é dever tornar conhecida uma outra importantíssima que recebemos pela posta interna, assinada com a inicial Z, e que temos em nosso poder há já três dias. Esta carta, que tão estreitamente vem prender-se na história dos sucessos que constituem o assunto desta narrativa, é a seguinte: Senhor redactor do Diário de Notícias. Lisboa, 30 de Julho de 1870. Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quase toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anónimo conta o caso que essa redacção intitulou O Mistério da Estrada de Sintra. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreocupada que se liga a um canard fabricado com engenho, a um romance à semelhança dos Thugs e de alguns outros do mesmo género com que a veia imaginosa dos fantasistas franceses e americanos vem de quando em quando acordar a atenção da Europa para um sucesso estupendo. A narração do seu periódico tinha sobre as demais que tenho lido o mérito original de se passarem os sucessos ao tempo que se vão lendo, de serem anónimas as personagens e de estar tão secretamente encoberta amola principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamente romanesco, que o autor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o tipo mais acabado do roman feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciais de um nome de homem A. M. C. acrescentando-se que a pessoa designada por estas letras é estudante de medicina e natural de Viseu. Eu tenho um amigo querido com aquelas iniciais no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Viseu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia, portanto, o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamíssima. Isto não é lícito a romancista nenhum. A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tédio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periódico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr- me à sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir, quanto antes, à redacção do Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo. Em casa do meu amigo acabo, porém, de saber, cheio de confusão e de surpresa, que ele desapareceu e que é ignorado o seu destino! Este desaparecimento e a coincidência achada na carta do doutor levam-me desgraçadamente a acreditar que por estranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente envolvido neste tenebroso negócio. A data do desaparecimento dele condiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu correspondente. É claro que há, pois, em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição. Serei tristemente obrigado a ter por verídica, no todo ou em parte, a notícia que leio na sua folha? Julgo do meu dever assegurar o seguinte: Não seio que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa desconhecida, tendo uma chave dela, martelo e pregos. Não sei porque se declarou autor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a íntima verdade destas contradições. Mas o que sei, aquilo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato ele esteve, até quase de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja. Saiu talvez às três horas da noite. Declaro também, e isto pode ser igualmente apoiado por seguras testemunhas: que às nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto dele. Ainda dormia, acordou sobressaltado à minha voz, e tornou a adormecer enquanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine. As donas da casa que o hospedam disseram-me que ele entrara pela madrugada. Ali pela volta das três e meia conjecturavam elas. Ora da minha casa, de onde saiu às três, até casa dele, onde entrou às três e meia, o caminho que é longo, ocupa justamente este espaço de tempo. Por consequência, respondam: quando cometeu ele o crime? O emprego do seu tempo está todo justificado: das nove da noite até madrugada em minha casa, numa conversa jovial e íntima; da madrugada até às nove, num sono pacífico em sua própria casa. Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não há testemunhas. É crível que em meia hora pudesse ir alguém a essa casa, preparar ópio, fazê-lo beber a um homem, falsificar uma declaração e vir sossegadamente dormir? Tem isto lógica? Demais o crime foi cometido numa casa, o ópio foi deitado num copo de água, dado traiçoeiramente. O cadáver estava meio despido. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha talvez calor, pôs-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedotas, e num momento de sede, o ópio foi dado num copo de água. E tudo isto só faz em meia hora! Em meia hora! Devendo, meus senhores, descontar-se desta meia hora o tempo que vai de minha casa à casa do crime, e daí a casa de A. M. C.! Pode isto ser? Agora outro argumento: eu conheço A. M. C.; o seu carácter é digno, impecável; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe nela nem mistério, nem aventura, nem patético: estava para casar, sem romance, trivialmente. Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia estrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado há pouco tempo em Portugal! Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossível. Se o homem foi encontrado estendido num sofá, morto com ópio! Poderia M. C. ter sido assalariado para cometer este crime? Que loucura! Um homem da sua inteligência, do seu carácter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente retribuído como uma função pública, não existe nos costumes. Pode-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até o momento decisivo distraído, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E que depois vá sossegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chávena de chá e um livro de história? E dê-se isto com um homem de carácter tímido, de hábitos modestos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notável franqueza de impressões! Se me perguntarem, porém, porque aparece M. C. de noite naquela casa com um martelo, com pregos, e se declara assassino isso não o sei explicar. Suspeito que haja uma grande influência que pesa sobre ele, alguém que com promessas extraordinárias, com seduções indizíveis, o obriga a apresentar-se como autor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorância de que estas dedicações são sempre desapreciadas perante o trabalho da polícia, quer expiar o crime de outro; perde-se para salvar alguém. Com que interesse? Por que seduções? Não sei explicar. Ele, tão indiferente ao dinheiro! tão rígido de costumes e de sensações! Pois bem! M. C. pode sacrificar-se; pode-o fazer. Nós, seus amigos, é que não podemos consenti-lo. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente, pode dá-lo à infecção de um cárcere ou ao peso de uma grilheta. Mas o seu carácter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence também aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendê-la corajosamente. Não! M. C. não foi o assassino. Di-lo a evidência, a fatal lógica dos factos, a terrível matemática do tempo, o conhecimento do seu carácter, e a coerência dos temperamentos, que é uma verdade nas ciências fisiológicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, mente. Digo-lhe claramente, em frente, diante dos seus próprios olhos fitos sobre os meus: Se te declaras o autor desse crime, mentes! Ele tem decerto o senso moral transviado. Se me deixassem falar-lhe!... Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquela razão cheia de escuras nuvens da paixão e da dor! Isto é aflitivo! Honra, amor, família, esperança, tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só neste mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da província, sua mãe, suas irmãs, sabem já que ele está aqui apontado como assassino! Que se lembre da terrível desonra, do seu futuro perdido, das horas solitárias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatório público, e do eco profundo que faz na alma humana o ruído sinistro dos ferros da grilheta. Não ponho no fim desta carta o meu nome, porque pressinto vagamente neste grupo de sucessos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a passagem misteriosa e fatal de um crime que vai poderosamente na direcção do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu não quero que a publicidade do meu nome leve os cúmplices no atentado de que se trata, ou, porventura, a polícia, a aniquilar ou a embaraçar de qualquer modo a intervenção espontânea que eu próprio vou ter no descobrimento dos réus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os pôr em prática de toda a minha liberdade. Creia-me, senhor redactor, etc. Z. DE F... AO MÉDICO I Julho 21, à 1 hora da noite. Meu querido amigo. Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se continuas, como eu, permanecendo aqui em cárcere privado. Em qualquer dos casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão encenando para aquele de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa das horas mais extraordinárias da nossa vida. Escrevo mais para coordenar e fixar na memória estes momentos do que para empregar noutro destino puramente hipotético esta carta. Será uma página das minhas confidências que entregarei à discrição ou ao acaso da posta, reservando-me o direito de lhe pedir que mas restitua a seu tempo. Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos ontem à noite, pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadáver. O mascarado que se encarregara de me conduzir ao quarto onde me acho, deu-me o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua e o número de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da casa em que ela mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui dizer serenamente: Não o compreendo. Este indivíduo era o mesmo que na carruagem se conservara sempre calado, o mesmo que na sala me observava com atenção e desconfiança. Aquela estatura, aquela fala, aquela voz, posto que apenas perceptível ao meu ouvido, não eram novas para mim. Ele respondeu falando-me ainda mais baixo: Não poderá sair daqui antes de dois ou três dias. Veja se precisa de escrever uma carta ou de mandar um recado. Passou-me pela mente uma ideia a respeito daquele homem... Se fosse... Ocorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relógio; bastar-me-ia apalpá-lo, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caindo relógio teria lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão. Escreverei duas linhas disse eu , quererá dar-me um lápis? Tínhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo em que ele safa prometendo trazer-me o necessário para escrever. O indivíduo que voltou com papel e penas: não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a ocasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma dúvida. Em todo ocaso escrevi duas linhas ao meu criado serenando-o: com relação ao meu desaparecimento. Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete. Nada mais. Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever directamente à pessoa a quem o mascarado se referira. Fecharam a porta e fiquei só. Achei-me num quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janela. A um lado havia um lavatório; sobrepostas a um canto três malas de viagem, de couro de Varsóvia com pregos de aço, estrela tias com senhas de caminho-de-ferro, de hotéis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes letras pretas sobre uma tira de papel este dístico: Grand-Hotel-Paris; uma das senhas era dos paquetes ingleses da carreira da Índia. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição deste aposento um sofá forrado de marroquim verde, colocado n meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha ceia à luz fulgurante de um grande candeeiro com largo abat-jour. Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquele recolhi mento, aquele sossego, aquela solidão, depois da grande sobre-excitação em que me tinha achado! Estirei-me no sofá, pus-me a olhar maquinalmente para o círculo da luz trepidante projectada pelo candeeiro e contornada n tecto pela abertura do abat-jour, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos espasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação, ocupada num trabalho inconsciente semelhante ao dos sonhos, ia tirando, no entanto, do caso que eu presenciara as ramificações mais ilógicas e mais fantásticas. Os sucessos por que passámos desde a estrada de Sintra até à minha entrada neste quarto apareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impelidos pelos pontapés de diabinhos sarcásticos, que se riam para mim e me deitavam de fora as linguazinhas em brasa. Fui caindo molemente num despego lânguido, fecharam-se-me os olhos, adormeci. Ao acordar, depois de um sono breve mas sossegado e reparador, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos. Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma terrinazinha de foie gras, uma perdiz, uma fatia de queijo e três garrafas de vinho de Borgonha, lacradas de verde; junto destas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o saca-rolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um eixo de charutos cor de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se colocado o instrumento destinado a abri-la. O copo era de cristal finíssimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madrepérola, os pratos de porcelana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sofá, senti a fome encavalar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estômago vazio os acicates da gula. Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descamada e trémula com um gesto proibitivo e solene. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um breve diálogo semelhante àqueles que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a besta, na sua viagem à volta do quarto. Havia uma voz pausada e grave que dizia: Atenta no que fazes, temerário! Abre teus olhos, inconsiderado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e pérfido está lourejando a teus olhos; foi apimentada com arsénico. Aquele Chambertin, que te espera como uma onda dá lagoa Estígia, emboscada por detrás daquele letreiro envernizado, aparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade tenebroso e fatal como o dístico do festim de Baltasar, aquele vinho, que te oferece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com ácido prússico. As trufas, lúbricas, venais, devassas, envoltas nesses fígados de pato, estão empapadas nos temperos letais da cozinha dos Bórgias! A outra voz, insinuante e meiga, dizia numa vaga melodia de Sereia: Come, se tens fome, estúpido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os olhos nesse lacre: não será um penhor seguro da pureza do líquido que ele tapa a marca desse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiais lavores a lata dessas sardinhas pescadas nas costas de França e cozinhadas há seis meses em Marselha? Não vês religiosamente grudada e selada com as etiquetas insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de foie gras? Supões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inútil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-te conversando depois contigo e repousando-te no seio tépido da melancolia, dessa deliciosa fada que só aparece evocada pelos namorados e pelos solitários, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã gâtée, a irmã feliz! Eu, no entanto, havia cortado a caixa das sardinhas, desgrudado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturara num copo. Pus-me, por fim, a comer caiu apetite, com valor, com delícia, com uma espécie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espíritos benéficos do cárcere que bafejaram as prisões de Sílvio Pélico. É singular isto: achava-me bem! Depois da ceia acendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo: Visitemos o país! Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada à parede em que se achava esta porta e abri-a. Era um armário na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia altura por um prateleiro espaçoso e sólido. Ocorreu-me que ao fundo do armário haveria talvez um tabique delgado através do qual me seria possível escutar o que se passasse na casa contígua. Penetrei no armário, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruído volumoso e maciço. Parecia que se estava arrastando um móvel pesado e grande. O fundo do armário era efectivamente formado por um tapamento franzino. Era possível que tivesse havido primitivamente uma porta no lugar em que se fizera o armário. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via diante de mim um pedaço de ripa atravessado diagonalmente e descamado da cal. Peguei no saca-rolhas e no lugar indicado fui esburacando devagarinho e progressivamente o cimento do muro, até operar um orifício imperceptível, pelo qual me era dado ver a luz e ouvir distintamente o que se dizia do outro lado. Eis aqui o que às onze horas e meia da noite se estava passando no quarto contíguo àquele que me serve de prisão: II Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do lugar em que ele estava para ao pé da parede que divide a casa em que eu me acho daquela em que se passava a cena que descrevo, e exactamente para junto do lugar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de orelha. Um desses homens dizia assim: Será o que muito bem quiser, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos trambolhões com os móveis à hora da meia-noite. Há-de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para me ajudar, quero saber se não é melhor isto do que estar lá em baixo estendido ao pé da manjedoura, à espera que chegue o trem para ir tratar dos cavalos, a enfastiar-se, sem ganhar vintém. Aquele que dizia estas palavras, conquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronúncia que distinguem o estrangeiro que fala português. Pela aspiração especial de certas vogais e pela contracção labial com que pronunciava os aa, era por certo alemão. O que primeiramente falara, prosseguiu: É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a ouro! Para mudar uma cama! Não é pela cama, é por ser a casa que é! Ora adeus! que tem a casa?!... Não tem nada! É uma graça! Ela é de tal casta que o senhorio teve-a quatro anos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A última gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se daqui tolhida com as coisas que lhe apareceram e com as trapalhadas que ouvia. Cruzes, demónio! cruzes, diabo! Petas! histórias da vida! O senhor! Não me diga a mim que são petas! Pois eu não vi a família!... Não estive com eles!? Fugiram de noite, fugiram à segunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo. Então que viram eles? Eles não viram nada. Então aí tem. Não viram, mas ouviram. Haviam de ouvir boas coisas! Ouviram, sim, senhor, ouviram. E não foi só a eles que sucedeu isso, foi a todos quantos cá moravam. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ela perdida! Então que ouviam eles? O senhor bem o sabe!.., O que eles ouviam? Ouviam pancadas nas portas, quando ninguém batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exactamente como se estivessem abanando à fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um pássaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-no arquejar e bufar aproximando-se cada vez mais dos que estavam deitados, pairando tão rente das camas que se sentia o estremecer das penas, o calor de lume que ele deitava do bico e ao mesmo tempo o frio de neve que fazia a mover as asas! Ora adeus! tinham ouvido falar nisso e pareceu-lhes que sentiam o tal pássaro, de que já falavam os inquilinos anteriores, os quais também tinham ouvi do falar nele, não havendo no fim de contas ninguém que verdadeiramente o tivesse ouvido. Então o senhor não sabe porque foi que eles fugiram, os últimos que estiveram cá, faz agora quatro anos? Ouvi falar nisso, mas por alto, não me deram pormenores. Eis aí está por que o senhor não acredita! A coisa foi esta: Eles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis anos. Para o que desse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita, a quem eles não contavam nada por causa do medo, estava numa caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam cansadíssimos à noite, lá pegavam no sono apesar do barulho das faúlhas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vai senão quando, à segunda noite que passavam cá, acordam aos gritos da criança. Tinha-se apagado a luz. Acenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janelas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguém. Mas a roupa da cama da criança estava caída a dois ou três passos de distância do berço em que ela dormia, e a pequenita, nua, transida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a fala, que teve perdida por um bocado, que sentira umas coisas como os pés de uma galinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que metiam medo e que ela não entendia, enquanto um peito coberto de penas se lhe roçava pelo seio nu. A mãe então vestiu-lhe à pressa uns fatinhos, embrulhou-a num xaile, estreitou-a nos braços, pôs-se a dar-lhe beijos e a acalentá-la com o bafo, e saiu para ama aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, metendo-se por todos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não apareceu ninguém! Ninguém podia ter saído! Ninguém podia ter entrado. No dia seguinte foi levar a chave do prédio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para ele mesmo a deitar abaixo a picão e a machado, para lançar o fogo a quanto pudesse arder, e calcar depois aos pés e salgar o monte de cinzas, que ficasse no chão. Pois senhor, eu nenhuma dessas coisas tenho ouvido, e é esta a segunda noite que durmo aqui. Gabo-lhe o gosto! E não tem medo? Nenhum. Por isso por aí dizem do senhor o que dizem! Então o que dizem por aí de mim? Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um alemão da Mourama e que tem partes com o demónio. Mais um bocadinho para trás, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, mudando de tom. Isto assim? Ainda mais... um quase nada.., até ficar a cabeceira unida à ombreira da porta.. Basta! Não quer mais nada? Mais nada. Aqui tem a sua libra, e leve dali uma daquelas velas para que o avejão não apeteça na escada ao apanhá-lo às escuras. Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta... A falar-lhe a verdade, gosto! Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja se passa aí para a casa que fica ao lado! Bem me queria a mim parecer que a casa do lado também tem... Se tem! Essa então é o diabo, é o próprio diabo que lá mora! O homem que viera ajudar à mudança da cama acendeu a luz e desceu a escada. O alemão ficou só, fechou a porta, e principiou a despir-se para se deitar. O diálogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse. Sem procurar directamente indagar coisa alguma, começava a entrar pelo modo mais estranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorância, explicariam decerto o desfecho a que viemos assistir e a presença do cadáver na sala em que o fomos encontrar. Agora nós, meu interessante e precioso vizinho! III A cama do alemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação. O meu vizinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou às escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ajeitava para dormir. Ah! Tu amas o murmúrio dos espíritos invisíveis?... exclamei eu dirigindo-me mentalmente ao filósofo que me ficava do outro lado do muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moléculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro misterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoercíveis, que ligam o mundo das coisas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas as tuas faculdades de médium... E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede três pancadinhas secas, metodicamente espaçadas, como as dos sinais maçónicos. Senti roçar a mão dele pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum sinal do rumor que ouvira. Entrei então a repetir com sucessiva frequência o rebate que lhe dera percorrendo diferentes pontos da parede que servia de fundo ao armário. Percebi que ele se sentava na cama. Ouvi estalar um fósforo. Acendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e imóvel. O meu vizinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho: e repetidamente como primeiro fizera. Ele, tendo escutado por algum tempo às escuras, acendeu outra vez a vela e começou a examinar detidamente o espaço da parede, junto do qual lhe ficava a cama. No momento em que a chama da vela perpassava na mão dele por defronte do meu braço, soprei-lhe de repente e apaguei a luz. O alemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de tenor, conquanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fora o baque do corpo dele caindo da cama abaixo. Logo depois ouvi a voz do vizinho perguntando com decisão e firmeza: Quem está aí? Respondi-lhe: Sou eu. Quem és tu? E tu quem és? Frederico Friedlann, cidadão prussiano. Ah! disse eu. Viajo por conta da primeira fábrica de produtos químicos de Budapeste, dos quais sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriais da Europa. Bem! observei. Ele continuou impassivelmente: Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa três prédios de que ele tinha notícia, os quais se achavam abandonados depois de algum tempo por terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar sucessivamente nas casas que ele me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo? Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e ocupando-me de quando em quando com a política ou com a literatura, quando não tenho outra coisa menos insípida e menos inútil em que agitar a minha ociosidade e o meu tédio. Não sou espiritista. Pois faz mal! O espiritismo é um sistema e pode bem suceder que venha ainda a ser uma religião. Puff. exclamei rindo. O quê! continuou ele. O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das ciências físicas e naturais e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporâneos e pela depressão sucessiva e assustadora da moral, vai comendo no campo da filosofia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão sucessivamente substituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, desse atractivo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela ciência futura, a teoria de uma tal ou qual sobrevivência que o lisonjeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aqueles que os precederam e com os que se lhe hão-de seguir. Os espiritistas de hoje serão, de entre todos os filósofos contemporâneos que não querem aceitar em absoluto o dogma estéril desconsolador da matéria omnipotente, os únicos que hão-de colaborar na filosofia do futuro. Ora há-de dar-me licença que lhe pergunte uma coisa... Tem-me às suas ordens. Sem com isto querer fazer agravo ao seu juízo! Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza dela. Acredita em alguma das coisas em que esteve aí falando o homem que veio ajudá-lo a mudar a cama? Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava falando com um doido, com um visionário, com um monomaníaco, ou simplesmente com um homem de espírito extravagante, com um excêntrico. Eu não creio nem também descreio de coisa alguma que ouço responde-me ele. É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar ç duvidar de tudo aquilo que me apresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de há pouco, tem uma parte da história desta casa. Neguei quanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei como senhorio do prédio a desvanecer com as minhas informações o anátema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distintamente há duas noites consecutivas um rumor insistente e prolongado semelhante aos estalidos que produz, ao atear-se, uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se move, sem que ninguém lhe toque, do centro da mesa em que o coloquei para uma das extremidades dela. O pó aglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vai deixando sucessivamente sobre a superfície da mesa o vestígio desse movimento vagaroso, lento, quase imperceptível, mas progressivo e constante. Nesta porta, ao pé da qual coloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por duas ora por três vezes, uma argolada perfeitamente clara e distinta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazê-lo do modo mais rápido), fica sempre inexplicável para mim a razão por que se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta! Todas estas coisas eram asseveradas pelo prussiano com a ênfase da sinceridade e da convicção mais profunda! E desta casa de cá observei-lhe eu que tem ouvido? O que sabe? Que lhe consta? Eu lhe digo... Sinceramente! Por mim pessoalmente nada tenho ouvido, O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silêncio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar de risadas e o tilintar de dinheiro. Alguns vizinhos têm visto entrar vultos misteriosos. Tudo isto, porém, se explica do modo mais natural deste mundo. Qual é então o seu juízo, vejamos? É evidentemente... Diga! Diga! Presumo eu, pelo menos... Vamos! Sem rodeios, francamente! De duas uma: ou uma loja maçónica, ou uma casa de jogo. IV As palavras do alemão acabavam de lançar no meu espírito a luz súbita de uma revelação que me obrigava a meditar. O que se passava por mim, o mistério que me cercava, o cadáver que vira, a presunção ainda que vaga da concorrência de um ou mais amigos meus envolvidos neste acontecimento, tudo isto era tão extraordinário e tão grave que eu não ousava referi-lo ao homem desconhecido que o acaso me deparava por vizinho. Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava: não me ocorria, porém, um pretexto plausível para levar o alemão a dizer-mo, sem que eu o interrogasse de um modo ambíguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas comprometidas neste negócio. Contentei-me, pois, em alegar o incómodo a que me obrigava aposição em que estava, e dei as boas-noites ao meu vizinho. Ele despediu-se batendo no muro três pancadas espaçadas por pausas iguais às daquelas com que eu primeiro lhe despertara a atenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquele homem, e que nas circunstâncias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de juramentos recíprocos e de compromissos comuns. Dei-lhe então uma letra, ele respondeu-me com outra e assim construímos sucessivamente a palavra da senha: Salut, mon frère! exclamou ele. Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me dera. Fechei em seguida o armário, cheguei a cama para o lugar de onde a tinha removido, e deitei-me vestido. Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer. Nesta casa, debaixo destes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e belo, que entrara aqui, cheio talvez de esperanças, de alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre envenenado por mão misteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da família que o acarinhou em pequeno, longe dos lugares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pai angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira bênção. Desventurado rapaz! Quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o teu corpo inerte, impassível, mudo como a interrogação de um enigma posto anonimamente no meio de uma página branca? Quem sabe os pensamentos que a morte imobilizou no teu cérebro? Quem sabe os afectos que ela enregelou no teu coração, onde há pouco tempo ainda golfava abundantemente a fecunda seiva dessa mocidade esterilizada e extinta agora para sempre? Pobre moço! Tão digno de lástima como és, merecedor talvez de profundas saudades, aí estás adormecido no teu sono eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado num sofá, insensível para sempre às alegria se às amarguras desta vida miserável; e não haverá, porventura, uma só lágrima que comemore, na história breve da tua passagem na terra, este prazo tão pungentemente melancólico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade pode dispensar àqueles que mais preza e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento! Os olhos daqueles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo sono tranquilo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão, porventura, fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a última valsa que o baile te deixou no ouvido, ver-te finalmente aparecer, descuidado, risonho e feliz. Coitados!... Os passos daquele que ainda hoje talvez se despediu de vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais à voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus lábios não voltarão outra vez a aproximar-se dos lábios que se colavam nos dele! Eu não choro a tua memória, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dor que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, enquanto alguém te espera vivo no mundo. Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas páginas, que decerto estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem diferente daquela em que ambos nos achamos hoje. Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silêncio que me envolvia, cortado apenas pelo frémito da minha pena no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados falando baixo no aposento que atravessei antes de entrar naquele em que estou. Tinha terminado o parágrafo anterior a este, quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Aproximei-me da porta e colei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam às escuras, é provável que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquele em que eu me acho e o quarto próximo em que eles falam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distintamente estas palavras: Mas as notas de banco, 2300 libras em notas! Não as trazia ele? Sei que as trazia dizia outra voz. É atroz, então! Estas palavras, únicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular! É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas de amor, como eu primeiro supus. Das hipóteses do prussiano é absolutamente necessário aceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçónica. Assim o provam convincentemente os ruídos que se ouviam na morada contígua. Num retiro de paixões temas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que tilinta nas mesas. A referência dos vultos misteriosos feita pela vizinhança permite a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do boudoir em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia. As palavras que há pouco ouvi sugerem-me sobre estas suposições a mais tenebrosa suspeita. O desgraçado que jaz aí dentro podia ter sido vítima de um homicídio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que ele trazia consigo. Ocorre uma contradição: na sugerida hipótese para que foram buscar um médico? Explicam-no as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado ópio à sua vítima com o intuito de a roubarem, encontram iludido este projecto com o desaparecimento das notas que lhe supunham na algibeira. Nesta conjuntura sobrevém-lhes, naturalmente, a ideia de tentar um recurso extremo: procurar um médico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o ópio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua inocência, afastar de si a presunção do crime, e criar as dificuldades de um mistério! É possível que eu não atinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitável, porém, é que o desaparecimento já constatado da soma que o assassinado trazia consigo não pode adunar-se dentro desta casa com a probidade e com a honra. Depois disto, é quase escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu vizinho prussiano é um homem um tanto fantástico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, sobrescritá-la e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto dele. Se conseguir arrombar completamente, sem que me pressintam, o tapamento que serve de fundo ao armário, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrário, apenas se abrir aquela porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciência delibera passar por cima de meia dúzia de miseráveis. Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos amanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, posta restante, Lisboa. Ele te procurará no lugar que lhe indicares e te dirá onde estou. Adeus. F... NOTA Juntamente com a carta publicada ontem achavam-se as seguintes folhas de papel escritas pela mesma letra das cartas do médico, anteriormente publicadas nesta folha: F... não apareceu. No mesmo dia, dois dias e três noites depois de haver recebido a extensa carta que ele me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter notícias dele. Foram inúteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprazava uma entrevista. Estou vivamente inquieto, sobressaltado, cuidadoso. F... é um homem arrebatado, irascível, pundonoroso até o delírio. Receio do seu carácter e da violência das suas determinações. uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal. Apresso-me, porém, a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo completamente da opinião dele quanto à qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadáver. O mascarado alto, com quem tive ocasião de falar por mais tempo, não pode ser um assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo connosco, não pôde atentar nos indivíduos que o rodeavam. Ouviu apenas uma frase, que para mim próprio é ainda inexplicável e terrível, e baseou nela a sua indignação e o seu ódio. Eu tratei apenas com um desses homens o mais alto mas com este falei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da fisionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, cintilantes. Ouvia-lhe a voz metálica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos. Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquérito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com simpatia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, fácil, despresumida, espontânea, original, pitoresca sem literatismo, eloquente sem propósitos oratórios límpido espelho de uma alma enérgica, integra, perspicaz e sensível. Tinha arrebatamentos, indignações convictas, concentrações melancólicas, que se via provirem desse fundo de lágrimas, que todas as naturezas privilegiadamente boas e honestas têm no Intimo da sua essência. Pareceu-me, finalmente, um coração leal e honrado, e não é fácil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquela em que nos achámos, um homem com a minha experiência do mundo e a minha prática dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principais considerações que do princípio logo me impediram de tornar público o nome do meu amigo violentamente retido em cárcere privado. F.. é um homem conhecido, é quase um homem célebre; em Lisboa ninguém há que não conheça o seu nome entre os escritores mais aplaudidos, ninguém que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos teatros. Se eu comunicasse à polícia o desaparecimento do meu amigo, é quase seguro que ela encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto denunciar simultaneamente como criminosos O mascarado alto e os seus companheiros, que eu todavia considero inocentes? A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desaparecimento das 2300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho. Na carta de F... encontra-se o seguinte período: «Ocorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efectivamente ou se não era um amigo íntimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relógio: bastar-me-ia apalpá-lo, ainda como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caixa do relógio teria a lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão.» Ora o relógio a que nestas linhas se alude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periódico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fora da algibeira do colete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que ele se acha preso, é efectivamente um amigo dele, intimo e particular. Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar à polícia uma particularidade, um nome, uma circunstância positiva, que a ponha no encalço deste crime e no descobrimento das pessoas, inocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno dele? As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anónimo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões a religião do carácter? Mas podia também calar-me? Ficar mudo, impassível, inerte, neutro, diante deste sucesso obscuro mas tremendo? Podia acaso aceitar na impassibilidade e no silêncio a responsabilidade terrível de um homicídio tenebroso, do qual sou eu a única testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de acção?... Decidam-no as pessoas que por um momento quiserem imaginar-se nas circunstâncias excepcionais e únicas em que eu estou. Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstáculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um único momento que perder, uma só coisa me ocorreu, possível, clara, solvente: publicar anonimamente o que me sucedera, entregar por este modo à sociedade a história da minha situação e esperar dos outros, do público, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim. Nem uma palavra de conselho, de análise, de crítica! Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de ar, de espaço, de liberdade. Não posso ficar eternamente imóvel, como um condenado, como pesado fuzil de um segredo soldado a um pé. Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fora do país. As ambulâncias do exército francês precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu país dispensa-me, e eu, como todo um homem na presença dos infortúnios irremediáveis, sinto a doce necessidade de ser útil. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome. Despedindo-me seguramente para sempre dos seus leitores, cuja atenção tenho largamente prendido com a narrativa deste caso lúgubre, seja-me permitido acrescentar uma derradeira palavra: A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso nesta página, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrário quis alegar o amigo dele que sob a letra Z. veio defendê-lo neste mesmo lugar, A. M. C., quaisquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circunstâncias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar. Se estas linhas chegarem aos olhos desse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão estranho sucesso. Procure no correio uma carta que lhe dirijo nesta mesma data. Nessa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou ver-me e falar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquilidade da sua família, a incompetência da sua autoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até à última das suas consequências, arrancando a tal mistério a secreta verdade que ele envolve, dirija-se a mim, colaboraremos juntos nessa obra, que tenho por meritória e por honrada. Eu aceitarei clara e abertamente para todas as consequências e para todos os efeitos a responsabilidade que daí provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule. Quanto a ti, meu querido e meu honrado F.., não creio que seja vítima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu único perigo está, a meu ver, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrúpulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio. Que te matassem cobardemente no cárcere clandestino que há pouco tempo ainda tu iluminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não pode ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desagravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus misteriosos comensais, isso acho lógico, e é possível. Punge-me não sei que vago e triste pressentimento... Meu pobre F...! Se estará destinado que não nos tornemos a ver! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Sintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortúnios, terá acaso de ser o último dessa doce convivência que por tanto tempo nos juntou!... E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos num turbilhão implacável e terrível da crua solidariedade humana! Que remédio?! Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avante! Aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz! SEGUNDA CARTA DE Z. Senhor redactor. Acabo de ver publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor ***, com uma insistência malévola, torna a inculcar, como cúmplice no atentado de que ele se fez o historiador voluntário, o meu pobre amigo A. M. C. Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia, com o auxílio único da minha coragem e da minha astúcia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e dssfiar a tenebrosa história que, há mais de uma semana, vem todos os dias sucessivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar diante de um público atónito um quadro misterioso e lúgubre. Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatórios, visitas aos lugares, tudo foi inútil. A história perde-se cada vez mais numa névoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá esta ainda não sei se num retiro voluntário, se numa sequestração forçada. Na impossibilidade de descobrir, fisicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi vir buscá-la às mesmas cartas do doutor. Analisei-as, decompu-las palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados. O Mistério da Estrada de Sintra é uma invenção: não uma invenção literária, como ao princípio supus, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos desta invenção: Há um crime; é indubitável; é claro. Um dos cúmplices deste crime é o doutor *** Ele está envolvido no anónimo; não tenho por isso dúvida em apresentar esta acusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assinadas, eu, só com provas judiciárias, me atreveria a escrever esta grave afirmativa. Sim, o doutor *** é o cúmplice de um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recair as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham ajuntar-se. Este crime, que existe, aparece-nos envolvido nas roupas literárias de um mistério de teatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos. É possível que numa cidade pequena como Lisboa, em que todos são vizinhos, amigos de tu, e parentes, o doutor ***, que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo nela, frequentando as suas salas e os seus teatros, não conhecesse nenhum destes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma música nos mesmos salões e nos mesmos teatros? Uma máscara de veludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabelo, o seu olhar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as sus mãos, a sua toilette, são bastantes para revelar, trair o indivíduo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão elegantes, tão distintos, governam tão bem as suas parelhas, falam tão bem as línguas, pareciam tão ricos, e o doutor um médico, um homem relacionado, um velho diletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, nesta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F... tem um amigo íntimo entre os mascarados, diante de si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pelo corpo, pelo silêncio até. Comédia! E o menos conhecido, o menos célebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no Carnaval de turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mefistófeles, de Ci-devant, ou de melão, e não há ninguém que, no salão de S. Carlos, não diga ao passar por ele: Lá vai fulano! E é de noite, às luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distraídos, e não estamos numa estrada, de dia, surpreendidos e violentados! Tanto nos conhecemos todos! Comédia! Comédia! E aqueles mascarados são tão inocentes, tão ingénuos, que vão procurar, num momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua inteligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer. Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquele homem? Se lhes era indiferente, para que se mascararam? E depois, para que era um médico? Era para verificar a morte? Para acudir? Para salvar? Nesse caso então que homens são esses que, em lugar de irem à botica mais próxima, a casa do primeiro médico rapidamente, avidamente, logo, logo vão, em sossego, mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepúsculo, para uma charneca, a duas léguas de distância, representar os velhos episódios de floresta dos dramas de Soulié? Supunham, porventura, que ele estava morto? Para que era então um médico, uma testemunha? E se não receavam as testemunhas, para que punham nos seus rostos uma máscara, e nos olhos dos surpreendidos um lenço de cambraia? Comédia! Comédia sempre! Veja-se o doutor *** diante do cadáver; não há ali uma palavra que seja científica: desde a serenidade das feições até à dilatação das pupilas, tudo é falso naquela descrição sintomática. E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F..., que na rua de uma cidade, dentro de uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelas máscaras? Como é que, sendo generosos e altivos, suportam certas violências humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, aceitam pela sua atitude condescendente uma parte da cumplicidade? E A. M. C.! Como o representam, ali, pueril, nervoso, tímido, imbecil e coacto! Ele de uma tão grande força de temperamento! De uma tão enérgica coragem! De um tão altivo sangue-frio! Como se pode acreditar naquela astúcia infantil, com que o doutor *** o envolve? O que admira é que não deixasse vestígios o arsénico! Mas foi o ópio! responde M. C., segundo conta o doutor *** Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lorpa? E, enfim, que mulher é aquela, que aí se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar? Que roubo é aquele de 2300 libras? Sejamos lógicos: dado o tipo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que ele, vendo que o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar? Se ele suspeita que o crime cometido por essa mulher teve por móbil a paixão, como explica o roubo? Demais, se desconfiava que ela estivesse envolvida naquele facto, se estava tão ligado com ela que a queria salvar, porque a não procurou logo, porque a não interrogou, em lugar de ir surpreender gente para as estradas, e vir fazer tableau em volta de um cadáver? Ah! Como toda esta história é artificial, postiça, pobremente inventada! Aquelas carruagens como galopam misteriosamente pelas ruas de Lisboa! Aqueles mascarados, fumando num caminho, ao crepúsculo, aquelas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavaleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministério Villele. Não falo nas cartas de F... que não explicam nada, nada revelam, nada significam a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa oca, nas colunas de um jornal honesto. Dedução: o doutor *** foi cúmplice de um crime; sabe que há alguém que possui esse segredo, pressente que tudo se vai espalhar, receia a polícia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e enquanto lança a perturbação no público, faz as suas malas, vai ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui! O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o. Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosímeis invenções. Z. NARRATIVA DO MASCARADO I Senhor redactor. A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que nessa aventura da estrada de Sintra, popularizada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha máscara de cetim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido com interesse a sucessiva aparição destes segredos singulares: eu era nas cartas do doutor *** designado pelo mascarado mais alto Sou eu. Nunca supus que me veria na necessidade lamentável de vir ao seu jornal trazer também a minha parte de revelações! Mas desde que vi as acusações improvisadas, sem análise e sem lógica, contra o doutor *** e contra mim, eu devia ao respeito da minha personalidade e à consideração que me merece a impecável probidade do doutor *** o vir afastar todas as contradições hipotéticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacável, indiscutível. Detinha-me o mais forte escrúpulo que pode dominar um carácter altivo: era necessário falar numa mulher, e arrastar pelas páginas de um jornal, o que há no ser feminino de mais verdadeiro e de mais profundo: a história do coração. Hoje não me retêm essas considerações; tenho aqui, diante da página branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre: «Vi as acusações contra si e os seus amigos, e contra aquele dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornais. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem às suas análises, nem aos seus juízos. Se não fizer isto, denuncio-me à polícia.» Apesar, porém, destas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquele infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlace passado numa alcova solitária, numa casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes dessa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periódicos a história das dores mais profundas de um coração que estimo. Senhor redactor, há três anos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, aquela em que tinha sempre o meu talher e a minha carta de whist, onde ria as minhas alegrias e fazia confidências das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima. Era uma mulher singularmente atraente: não era linda, era pior: tinha a graça. Eram admiráveis os seus cabelos louros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos de uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabelo que se tomasse, que se estendesse, como a corda num instrumento, de encontro à claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do Sol. Os seus olhos eram de um azul profundo como o da água do Mediterrâneo. Havia neles bastante império para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mistério, para que a alma fizesse o estranho sonho de se afogar naqueles olhos. Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não pudesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquela ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias. De resto, simples e espirituosa. Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio, seria de um estranho orgulho. Tive, sim, nos primeiros tempos em que fui àquela casa, um amor indefinido, uma fantasia delicada, um. desejo transcendente por aquela doce criatura. Disse-lho até; ela riu, eu ri também; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos nessa noite o écarté; e ela terminou por fazer numa folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais reparei que ela fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dívidas, as minhas tristezas; ela sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e definitiva, o encanto consolador. Depois, também, ela contava-me os seus estados de espírito nervosos, ou melancólicos. Estou hoje com os meus blue devils dizia ela. Fazíamos então chá, falávamos ao fogão. Ela não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca ortografia. Mas os seus defeitos não eram excepcionais, nem destacavam. Lorde Grenley dizia dele admirado: Que homem! Não tem espírito, não tem mão de rédea, não tem ar, não tem gramática, não tem toilette, e, todavia, não é desagradável. Mas a natureza fina, aristocrática, da condessa, tinha ocultas repugnâncias, com a presença desta pessoa trivial e monótona. Ele, no entanto, estimava-a, dava-lhe jóias, trazia-lhe às vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indiferentemente, como guiava o seu dog-cart. O conde tinha por mim um entusiasmo singular achava-me o mais simpático, o mais inteligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava as minhas audácias imitava as minhas gravatas. Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os médicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cádis, a Nápoles, a uma cidade do Mediterrâneo. Um amigo da casa, que voltava da Índia, onde tinha sido secretário-geral, falou com grande admiração de Malta. O paquete da Índia havia sofrido um transtorno; ele tinha estado retido cinco dias em Malta, e adorava as suas ruas, a beleza da pequena enseada, o aspecto heróico dos palácios, e a animação petulante das maltesas de grandes olhos árabes... Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher. Vou a toda aparte; mas, não sei porquê, simpatizo com Malta. Vamos a Malta. Venha também primo. Está claro que vem! gritou o conde. E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava num navio, e que me deixava seu herdeiro. Cedi. A condessa estava encantada com a viagem: queria ter uma tempestade, queria ir depois a Alexandria, à Grécia, e beber água? do Nilo; havíamos de caçar os chacais, ir a Meca disfarçados mil planos incoerentes que nos faziam rir... Partimos num vapor francês para Gibraltar, onde devíamos tomar o paquete da Índia. Passámos no Cabo de São Vicente com um luar admirável, que se erguia por trás do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos ásperos ângulos daquela ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta água como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada numa cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descansados, as mãos imóveis, uma sensação feliz na atitude e no rosto. Sabe? disse ela de repente, baixo, com a voz lenta. Estou com uma sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos... E mais baixo: ...e de vago amor... Sabe explicar-me isto? Estávamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa ondulação de água arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnético calor da África. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe num segredo: Sabe que está linda! Oh! primo! interrompeu ela rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está doido! O que é falar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti, inexplicável como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguém que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Aí está! Como o luar é traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha! Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distância, na bruma nocturna: o capitão aproximou-se: Conhecem aquela luz? Nunca viajei neste mar, capitão respondi. São portugueses, não F... Aquela luz é o farol de Ceuta. Era uma luz melancólica e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta. Daí a momentos descemos à câmara. Eu estava surpreendido, nunca tinha ouvido à condessa palavras que caracterizassem tanto o estado do seu coração. Achava-se naquele período em que um amor pode apoderar-se para sempre de uma existência. Que sucederia se lhe aparecesse um homem belo, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como há pouco, as coisas infinitas da paixão? Na manhã seguinte avistámos o morro de Gibraltar. Desembarcámos. Numa praça, à entrada, um regimento inglês, de uniformes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum. Detesto os Ingleses disse a condessa. O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os Ingleses! Detestas os Ingleses? E voltando-se para mim, com uma atitude profundamente pasmada e abatida Detesta os Ingleses, menino! II Senhor redactor. Em Gibraltar fomos para o Club House-Hotel, Os quartos abriam sobre a muralha do lado do mar; víamos defronte, afogada numa luz admirável, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas brumas esbatidas, a terra de África. Fomos passear logo num daqueles canos de Gibraltar que são dois bancos paralelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, puxados por um cavalo inglês robusto, rápido, e tendo já adquirido nas convivências espanholas um espírito teimoso. O belo passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima da cidade, contorna a montanha, e é orlada de cottages, de jardins, de pomares, cheios já das estranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloés, nopais, cactos e palmeiras; e vê-se sempre, através da folhagem, lá no fundo, a azul imobilidade luminosa do Mediterrâneo. A condessa estava encantada; aquela luz ampla e magnífica, a água pesada pelo sol, o silêncio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e roxas das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava àquela pobre alma contraída uma expansão inesperada. Ria, queria correr, tinha verve, e uma luz bailava-lhe nos olhos. Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores Ingleses artilharam-no talvez um pouco demais. Não há fontes, mas há estátuas de generais; as pirâmides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e a estúpida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnólias. Mas, que serenidade! Que silêncio abstracto e divino! Que ar imortal! Parece que as coisas, os seres vegetais, a terra, a luz, tudo está parado, absorto numa contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em baixo está o Mediterrâneo, liso como um cetim, delicado, coberto de luz. Mais longe, vaporizadas, docemente esbatidas nas névoas azuis, as duras formas do monte Atlas. Nada se move: apenas as vezes uma pomba passa, voando com uma serenidade inefável. Um momento veio-nos debaixo, onde passava um regimento de Highlanders, o som das cornemuses que tocavam as árias melancólicas das montanhas da Escócia. E os sons chegavam-nos doces, etéreos, como se fossem habitantes sonoros do ar. A condessa tinha ficado sentada, e imóvel, calada, penetrada daquela admirável serenidade das coisas, da beleza da luz, do sono da água, dos vivos aromas. Não é verdade disse que dá vontade de morrer, aqui, brandamente, só... Só? perguntei eu. Ela sorriu, com os olhos perdidos na bela decoração do horizonte luminoso. Só... disse ela não! Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se cismando assim vagamente, vem um pequeno sonho bem inocente, acampa no nosso coração, começa a cavá-lo, e depois, querida prima, e depois... E depois vai-se jantar disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, radiante por ter apertado a mão de um coronel inglês, e colhido um cacto vermelho. Descemos ao hotel. À noite passeávamos no Martillo. Era a hora de recolher; uma fanfarra inglesa tocava uma melopeia melancólica. Ouviu-se no mar um tiro de peça. Chegou o paquete da Índia disse o nosso guia. E no alto do morro um canhão respondeu com um eco cheio e poderoso. Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei. Os militares quase sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com licença do governador. Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeado ao luar nas esplanadas, sentimos na sala de Club-House, ruído, vozes alegres, estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Oficiais ingleses que vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham desembarcado, e ceavam. Nós tínhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive ocasião de aproximar de um dos oficiais ingleses que estava próximo de mim, o frasco da mostarda. O frasco caiu, sujou-me, ele sorriu com polidez, eu ri alegremente, conversámos, e ao fim da noite passávamos ambos pelo braço, na esplanada que ficava defronte das janelas do hotel e que está sobre o mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualizava a decoração admirável das montanhas, a vasta água imóvel. Eu tinha simpatizado com aquele oficial, já pelo seu perfil altivo e delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade triste que havia na sua atitude. Era moço, capitão do artilharia, e batera-se na Índia. Era louro e branco; mas o sol do Indostão tinha amadurecido aquela carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, e dado aos cabelos uma cor fulva e ardente. Passeávamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, se abriu uma janela, e uma mulher com um penteado branco apoiou-se levemente na varanda, e ficou olhando o horizonte luminoso, a melancolia da água. Era a condessa. O luar envolvia-a, empalidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava à sua forma toda a espiritualização de uma figura de antiga legenda: o seu penteador caía largamente ao redor dela, em grandes pregas quebradas. Que linda! disse o oficial parando, com um olhar admirado e profundo. Quem será? Somos um pouco primos disse eu rindo. É casada. É a condessa de W. Parte para Malta amanhã no paquete. A bordo levar-lhe-ei o meu amigo para a entreter contando-lhe histórias da Índia. Adora o romanesco, aquela pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o há, Caçou o tigre, capitão? Um pouco. Fala o inglês sua prima? Como uma portuguesa, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre. Separámo-nos. Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima disse eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando: um romance onde se caçam tigres com rajás, onde há bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglesas e elefantes... Ah! como se chama? Chama-se Captain Rytmel, oficial de artilharia, 28 anos, em viagem para Malta, bigode louro, um pouco da Indianos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito gentleman. Um bebedor de cerveja! disse ela, desfolhando a flor de cactos. Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma indignação cómica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-me cabelos brancos! Estimo os Ingleses e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço daquela perfeição!... murmurava ele, fazendo ranger a pena. Ao outro dia subíamos para bordo do paquete da Índia: o Ceilão. Eram 7 horas da manhã. O morro de Gibraltar, mal acordado, tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e oficiais sobre a tolda. O chão estava húmido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fruta, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se à cabina para dormir um pouco. Às 9 horas quase todos os passageiros que tinham entrado em Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor fumegava, os escaleres afastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma cor rosada às casas brancas de Algeciras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores. A condessa, sentada numa cadeira indiana, olhava para as pequenas povoações espanholas que assentam na baía. O oficial inglês, Captain Rytmel, conversava a distância com o conde, que adorava já a sua figura cativante e altiva, as suas aventuras da Índia, e a excêntrica forma do seu chapéu, que ele trazia com uma graça distinta e audaz. O capitão tinha na mão um álbum e um lápis. Captain disse-lhe eu tomando-lhe o braço , vou levá-lo a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ela é implacável e faz caricaturas. A condessa estendeu ao inglês uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Diepa. Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil histórias da Índia para me contar. Já lhe digo que lhe não perdoo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! Adoro a Índia, a dos Índios, já se vê, não a dos senhores Ingleses. Já esteve em Malta? É bonita? Malta, condessa, é um pouco de Itália e um pouco do Oriente. Surpreende por isso. Tem um encanto estranho, singular. De resto é um rochedo. Demora-se em Malta? perguntou a condessa. Uma semana. A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no oficial, tossiu brandamente, e com um movimento rápido: Ah! Vai deixar-me ver o seu álbum. Mas, condessa, está branco, quase branco; tem apenas desenhos lineares, apontamentos topográficos. Não creio; deve ter paisagens da Índia, há-de haver aí um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma boyadera! E, com um gesto de graça vitoriosa, tomou o álbum da mão do oficial. O capitão fez-se todo vermelho. Ela folheou o livro e de repente deu um pequeno grito, corou, e ficou com o álbum aberto, os olhos húmidos, risonhos, os lábios entreabertos. Olhei: na página estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janela, tendo defronte um horizonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Ele tinha-a visto assim na véspera, ao luar, à janela do Club-House. O conde tinha-se, aproximado. Como! Como! És tu, Luísa! Mas que talento! É um homem adorável, capitão. Que desenho! Que verdade! Oh! Não! Não! disse o capitão. Ontem estava no meu quarto, em Club-House; instintivamente tinha o álbum aberto, e o lápis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lápis que deve ser castigado! O quê! gritou o conde. É um lápis encantado. Capitão, está decidido que vai jantar comigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Há-de ser o nosso cicerone em Malta. Mas que talento! Que verdade! E falando em português para a condessa: É um bebedor de cerveja, hem? Nesse momento uma sineta tocou: era o almoço. III Talvez estranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paisagem, o diálogo, o gesto, toda a vida palpável do momento. Não se admire. Nem tenho uma memória excepcional, nem faço uma invenção fantasista. Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar num livro branco os factos, as ideias, as imaginações, os diálogos, tudo aquilo que no dia o meu cérebro cria ou a minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui. A mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso lugar era ao pé do capitão. O comandante do Ceilão era um homem magro, esguio, com uma pele muito vermelha, de onde saíam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas suíças brancas. Ao seu lado sentavam-se duas excêntricas personalidades de bordo: o Purser, que é o comissário que vela pela instalação dos viajantes e pelos regulamentos de serviço, e Mr. Colney, empregado do correio de Londres. O Purser era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens robustos metidos e apertados numa farda de marinha mercante. Mr. Colney era alto e seco com um imenso nariz agudo e enristado em cuja ponta repousava pedagogicamente o arco de ouro dos seus óculos burocráticos. O Purser tinha uma fraqueza que o dominava era o desejo de falar bem brasileiro. Tinha viajado no Brasil, admirava o Maranhão, o Pará, os grandes recursos do Império. A todo o momento se aproximava de mim para me perguntar certas subtilezas da pronúncia brasileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas cómicas. Os outros passageiros eram oficiais, que iam tomar serviço na Índia, algumas misses alegre e louras, um clergyman com doze filhos, e duas velhas filantrópicas, pertencentes à Sociedade educadora dos pequenos patagónicos. Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fila, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou: Viva Dios! É Captain Rytmel! Eh! Querido! Mil abraços! Está gordo, hombre, está mais gordo! Envolvia-o nos abraços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpresa, em que se fez pálido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bela, que estava sentada ao pé daquele homem guloso e expansivo, o qual era um espanhol, negociante de sedas, e se chamava Nicazio Puebla. A senhora, que se chamava Cármen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; era alta, deformas magníficas, com uma carnação que fazia lembrar um mármore pálido, uns olhos pretos que pareciam cetim negro coberto de água, e cabelos anelados, abundantes, desses a que Baudelaire chamava tenebrosos. Vestia de seda preta e com mantilha. Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel. Em Cádis, meu caro disse D. Nicazio. Viemos ontem. Vamos a Malta. Volta para a Índia? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcutá! Lembra-se, hem? Captain Rytmel disse sorrindo friamente Cármen esquece depressa, e bem! No entanto, nós olhávamos curiosamente para Cármen Puebla. O conde achava-a sublime. Eu, admirado também, disse baixo à condessa: Que formosa criatura! Sim! Tem ares de uma estátua malcriada respondeu ela secam ente Olhei para a condessa, ri: Ó prima! É uma mulher adorável, que devia ser em miniatura para se poder trazer nos berloques do relógio; uma mulher que decerto vou roubar, aqui no alto mar, num escaler; uma mulher cujos movimentos parecem música condensada! Ó prima! Confesse que é perfeita... Menino! acrescentei para o conde passa-me depressa a soda, preciso calmantes... No entanto, Captain Rytmel, sentado junto de Cármen, falava da Índia, de velhos amigos de Calcutá, de recordações de viagens. A condessa não comia, parecia nervosa. Vou para cima disse ela de repente ; mandem-me chá. Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde: Está incomodada a condessa? Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, fale-lhe da Índia. Eu, não posso deixar este caril... Eu tinha interesse em ficar à mesa defronte da luminosa Cármen; concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu excêntrico chapéu índio, orlado de véus brancos. Ao vê-lo seguir a condessa, a espanhola empalideceu. Momentos depois ergueu-se também, tomou uma larga capa de seda à maneira árabe de um bournous, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada numa alta bengala de castão de marfim. O almoço tinha acabado. Falava-se da Índia, do teatro de Malta, de Lord Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao comandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar. A condessa estava sentada num banco à popa; ao pé dela o capitão Rytmel, num pliant de vime. Cármen passeava rapidamente ao comprido da tolda; às vezes, firmando-se nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, enquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma aparência ondeada e balançada, que a assemelhavam Aquelas divindades que os escultores antigos enroscavam no flanco dos galeões! IV D. Nicazio Puebla, que o Purser me apresentara já, viera fumar para o pé de mim. Esteve na Índia, Cabellero? perguntei-lhe eu. Dois anos, em Calcutá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. Convivíamos muito. Jantávamos sempre juntos. Fui à caça do tigre com ele. Cacei o tigre. Deve ir a Calcutá! Que palácios! Que fábricas! O capitão é um valente oficial. É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida. Nalguma caçada? Eu lhe conto. Tínhamo-nos aproximado da popa, falando. Neste momento vi eu a espanhola encaminhar-se para o lugar em que a condessa falava com Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe: Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra? A condessa fez-se muito pálida. O capitão teve um movimento colérico, mas ergueu-se e seguiu a espanhola. Eu aproximei-me da condessa. Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ela toda trémula. Eu sosseguei-a e dirigi-me a D. Nicazio. Viu aquele movimento de sua mulher? Vi. É inconveniente: o cavalheiro responde decerto pelas fantasias ou pelos hábitos daquela senhora... Eu! gritou o espanhol. Eu não respondo por coisa alguma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me dela, se pode! Olhe: quere-a o senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer destas cenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma fúria, usa punhal! Esta mulher fui eu dizer à condessa é uma criatura sem consideração e parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a pressinta. Se houver outra inconveniência eu dirige-me ao comandante, como se ela fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda! A espanhola, no entanto, junto da amurada, falava violentamente ao capitão Rytmel, que a escutava frio, impassível, com os olhos no chão. O conde subiu neste momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo do boi... Eu aproximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importância: Então esta sua senhora dá-lhe desgostos? É sempre aquilo como capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer que lhe conte?... Diga lá. Sentei-me na tenda onde se fuma, acendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, embalado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos. Um dia em Calcutá começou o espanhol , dia de grande calor... Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta história a saiba do próprio capitão. Aí tem a tradução fiel de uma das mais vivas páginas de um dos seus álbuns de impressões de viagem. «...Sabes escrevia ele a um amigo que o sonho de todo o negociante que chega à Índia é caçar um tigre. D. Nicazio Puebla quis caçar o tigre. Sua mulher Cármen decidiu acompanhá-lo. Essa, sim; que tinha a coragem, a violência, a necessidade de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquela família. Combinámos uma caçada com alguns oficiais meus amigos, então em Calcutá. A duas léguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo saltado, havia duas noite, uma paliçada de bambus, na propriedade de um doutor inglês, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado. Partimos de madrugada, a cavalo. Um elefante, com um palanquim, levava Cármen. Um boi conduzia água em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns oficiais de artilharia, sipaios, três malaios e um velho caçador experimentado, antigo brâmane, degenerado e devasso, que vivia em Calcutá das esmolas dos nababos e dos oficiais ingleses. Era destemido, meio louco, cantava estranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormia sempre em cima de uma palmeira. Nós levávamos espingardas excelentes, punhais recurvados, espadas de dois gumes, curtas, à maneira dos gládios romanos, e o terrível tridente de ferro que é a melhor arma para a luta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e destra, da confiança dos malaios. Às 11 horas do dia penetrávamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado numa clareira conhecida. Íamos calados, vergando ao peso implacável do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, num ar sufocado, cheio de aromas acres. Toda aquela natureza estava entorpecida pela calma: os pássaros, silenciosos, tinham um voo pesado; as suas penas coloridas, vermelhas, negras, roxas, douradas, resplandeciam sobre o verde-negro da folhagem. O céu mostrava uma cor de cobre ardente; os cavalos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a água mugia lamentavelmente; só o elefante caminhava na sua pompa impassível, enquanto os malaios, para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monótona e lenta, cantigas de Bombaim. Estávamos ainda distantes do tigre: nem os cavalos tinham rinchado, nem o elefante soltara o seu grito melancólico e doce. Todavia, achávamo-nos próximo da clareira. Eu cheguei-me ao palanquim de Cármen e bati nas cortinas. Cármen entreabriu-as: estava pálida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Ansiava pela luta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de conhaque e água... Eu, desde que a conhecia, tinha muitas vezes olhado Cármen com insistência, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me respondendo ao meu. Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que, num terraço em Calcutá, olhávamos as poderosas constelações da Índia, o céu pulverizado de luz, ela tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua beleza perturbava-me como um vinho muito forte. E ali, naquela floresta, sob um céu afogueado, entre os aromas de magnólias, Cármen aparecia-me com uma beleza prestigiosa, cheia de tentações a que se não foge. Ah, Cármen! disse eu. Quem sabe os que voltarão a Calcutá! Está rindo, capitão... Na caçada do tigre pode-se pensar nisto: o tigre é astuto; tem o instinto do inimigo mais bravo e do que mais lamentado. Ninguém hoje seria mais lamentado que o capitão. Só hoje. Sempre, e bem sabe porquê. De repente o meu cavalo estacou. O tigre! O tigre! gritaram os malaios. Os cavalos da frente recuaram; os sipaios entraram nas fileiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturais, e o elefante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solene e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens. Estávamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pálido e inquieto D. Nicazio! Dê o primeiro tiro, o sinal de alarme! D. Nicazio picou rapidamente o cavalo para mim, murmurou com uma voz sufocada: Quero subir para o elefante. Cármen não deve estar só, pode haver perigo... Falei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe ao dorso dos elefantes. O cornaca dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremessou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho faiscante e medroso. Mas então foi Cármen que não quis ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavalo, sentir o cheiro à fera. Tirem-me daqui, tirem-me daqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro de uma gaiola... Não havia sela em que mulher montasse, nem cavalo bastante fiel; não se podia consentir que Cármen descesse. Mas eu tive uma ideia estranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pô-la à garupa do meu cavalo. Disse-lho. Ela teve um gesto de alegria, quase se deixou escorregar, agarrando-se às cordas do palanquim, pelo ventre do elefante; correu, pôs o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se à garupa. Os oficiais exclamavam que era uma imprudência. Ela queria, instava, e apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam dali... Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Cármen à garupa, tinha-me colocado atrás do grupo, cerrado, com os pés firmes no estribo, atento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos. Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem. Cármen apertava-me exaltada. Vá! Vá! pediu-me ela baixo. O tigre, o tigre! Dê o sinal! Ergui um revólver, e disparei. O eco foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lúgubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar... Que ninguém se alargue! disse o velho brâmane, que tinha trepado a uma palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava. Todos conservaram a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o salto do tigre. Eu dera uma cuchilla a Cármen, tinha na mão da rédea um forte revólver e na outra um punhal curvo... De repente os arbustos estremeceram, as altas ervas curvaram-se, sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veio cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado e imóvel. Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça óssea, os olhos fulvos, ferozes, num movimento perpétuo e convulsivo; e a língua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fora da boca. Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhais com a cauda. Depois, com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pele espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despedaçados. E no instante em que a fera, tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnífica e de cabeça alta, o brâmane fez um sinal. Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido. Imediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente eos punhais enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas lâminas agudas. Prendera, porém, um malaio entre as ganas, e rasgava-lhe o peito. À uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e ele, sucumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio. Nada de bala! Nada de bala! gritava o brâmane. Eu estava fascinado. Cármen convulsivamente apertada a mim, com os olhos chamejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos de excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequena contracção dos músculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Cármen. Com uma determinação súbita, disparei um tiro do meu revólver no ouvido do cavalo que montávamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distância, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a ele, cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rápido, que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em forma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Cármen. Hurra gritaram todos, e o eco deste grito estendeu-se pela floresta. Cármen tinha-se aproximado do tigre morto, acariciava-lhe a pele aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria. Hurra! Hurra! continuavam gritando os caçadores. Cármen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com entusiasmo, dizendo alto: Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!... E mais baixo, murmurou-me ao ouvido: Amo-te. A tarde caía. Sentíamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a dirigir-nos para Calcutá. Descansámos numa plantação de índigo. E ao começar da noite, com archotes acesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, num caminho conhecido e seguro. As luzes davam à ramagem atitudes fantásticas; pássaros acordando esvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacais. Era como a volta de uma caçada bárbara, das velhas legendas da Índia. Cármen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, ao lado dela, o cavalo do malaio morto. Ela inclinou-se para mim e com a voz abafada: Juro-te disse-me que te amo, como só no nosso país se ama. Juro-te que em todas as circunstâncias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tua criatura, e só te peço uma coisa. O quê? E que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres um pouco de mim. O momento, o sitio, os perfumes acres, as fantásticas sombras da floresta, a luz dos archotes, a beleza maravilhosa e fatal de Cármen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavalos, os gritos dos chacais, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a lógica, disse-lhe: Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires que te esqueço, quero que me mates! Ele segurou a mão que lhe estendi, e com uma carícia humilde, com um gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e beijou-me os dedos. A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrelas cintilantes..» V Ao terceiro dia de viagem do Ceilão, um dia antes de avistarmos Malta, um oficial inglês, ao almoço, lembrou que naquele dia fazia 28 anos o príncipe de Gales. Quase todos os oficiais que estavam abordo conheciam o príncipe, estimavam o seu carácter, o seu temperamento eminentemente byroniano. Resolveram, com a cedência do comandante, celebrar a data e valsar à noite, na tolda, à luz de um punch colossal. O jantar foi já ruidoso; o champanhe resplandeceu como opala liquida nas taças facetadas; a pesada pale ale espumou; o xerez ferveu na soda water. Cármen, pela sua beleza e pela estranha verve da sua agitação, foi a alegria daquele pesado e longo banquete de anos reais. Houve toasts, à rainha e aos príncipes ingleses, ao lorde-almirante, à companhia P. and O.; e um inglês rico fez um speech aos estrangeiros: The count and countess of W. Peço um toast disse Cármen, de repente. Os copos tiniram, estalaram as rolhas. A caçada do tigre! Aos palanquins de cortinas brancas! Aos caçadores que salvam as damas que têm à garupa! A maior parte não compreendeu, alguns riram, mas como o toast era excêntrico, foi escoltado de aplausos. Oh! shocking! disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo amplo ventre do Purser uma fascinação concentrada. Not at all, Madam! disse eu. É apenas o sangue meridional. Aquela viveza, aqueles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ela agora quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue meridional... A inglesa escutava, como quem se instrui. ...Se ela tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete contra um rochedo, era o sangue meridional; se ela ousasse arrancar com mãos ímpias os seus óculos, milady... Ouh! gritou ela. ...era ainda o sangue meridional! Oh! Very shocking the sangue meridional! Os oficiais ingleses, esses, estavam entusiasmados com Cármen. No entanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntara-se um grupo de bebedores convictos e sérios. Serviu-se o conhaque e os álcoois. Cármen ficara entre os homens, bebendo licor, rindo e fumando cigarrettes. A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel. D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adorna--do de mostarda, de salada, de vinagre, de sal, de rábanos e de um leve pó apimentado de Ceilão. Não sei como, falou-se de mulheres, e de caracteres femininos. Eu disse logo Cármen compreendo a gravidade devota das misses: como senhoras inglesas é sua educação; nasceram para serem hirtas, louras, frias e leitoras da Revista de Edimburgo. Estão na verdade do seu carácter: um pouco menos vivas seriam de biscuit, um pouco mais seriam shockings. Mas o que eu detesto, são as canduras alemães, os modos virginais de criaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu país, pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma espanhola, uma italiana, uma portuguesa, caindo no missismo e dando-se ares vaporosos, hipócritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não serve para esconder dois. Aquelas palavras eram, evidentemente, uma alusão sanguinolenta às maneiras reservadas da condessa, que, sendo loura, discreta, suave, contrastava poderosamente com aquela trigueira e ruidosa espanhola. Perdão, señora disse-lhe eu em espanhol , hoje as verdadeiras maneiras não são o salero, são a gravidade. O salero pode ser bom no teatro, na zarzuela, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem à Espanha, mas é de todo o ponto inconveniente numa sala. Ela empalideceu levemente, e fitou-me: Caballero perguntou , és usted pedante de rhetorica? Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo toast. Mr. Cokney, que escutava a espanhola, tinha atendido às nossas palavras, tinha achado um som pitoresco e estranho naquele dizer pedante de rhetorica, e exclamava para os outros ingleses, rindo: Oh yes, Pedant de Rhetoric, it is very phantastic! Entretanto, a noite caía. Eu senti-me pesado, recolhi à cabina, adormeci ligeiramente. Pelas nove horas subi à tolda. Fiquei surpreendido. Não havia luar, nem estrelas, nem vento. Ao fim da tolda ardia opunch. Era enorme, a sua chama larga, azulada, fantástica, subia, palpitava, fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos lugares escuros safam risadas de flirtations. Havia uma flauta e uma rabeca. E já um ou outro par valsava em roda da clarabóia da tolda. A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do punch, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satã. Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando no círculo da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas numa claridade fosfórica, os vestidos brancos tomavam tons espectrais, os cabelos louros luziam comum encanto morto, havia em tudo aquilo como uns longes de dança macabra... Cármen estava possuída da mesma agitação da chama do punch, travava do braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha réplicas, batia o leque. D. Nicazio, esse ressonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe punch pela boca: ele abria uma fresta do olho: Thank you, caballeros e adormecia. Onde está Captain Rytmel? disse de repente Cármen. Tragam-no... Quero valsar com ele. Rytmel conversava com a condessa sossegadamente, longe da luz. Rytmel! Rytmel! chamaram várias vozes. Vimo-lo aproximar-se contrariado, mas rindo. Uma valsa! gritou-lhe a espanhola) A flauta começou: ela tomou os ombros do capitão, e despediram em grandes círculos; os vestidos de Cármen enchiam-se de ar, os seus cabelos desmanchavam-se; a luz do punch tremia; ao compasso rápido, os giros vertiginosos, enlaçados, pareciam voos, lembravam a valsa do diabo cantada por Byron. Ela vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os olhos cerrados, os beiços entreabertos e húmidos. Bravo! Bravo! gritavam os ingleses em roda. A luz do punch erguia-se, balançava-se, valsava também. Cármen e Rytmel passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos idealizadores da chama azul. O som frenético da flauta perseguia-os; parecia que eles iam voar, desaparecer entre as cordagens, dissipar-se na noite. Os ingleses gritavam, erguendo os chapéus. Hip! Hip! Hip! Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação; estava observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. Apenas a valsa findou, ela tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer numa voz grave e repreensiva: Não dance mais. Fiquei surpreendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva, tão casta, tão tímida! Aproximei-me dela. Prima, é tarde. Não quer descer?. Ela olhou-me serenamente, sorrindo. Não. Porquê? E afastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se fumava, e agora deserta e quase escura. Eu, maquinalmente, fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado oposto, e quase sem querer ouvi. O capitão dizia-lhe: Mas porque duvida? Eu desprezo aquela mulher. A nossa amizade nada perde, e nada sofre. Ela foi para mim um capricho, e historia de um momento. Agora nem uma recordação é... Continuaram falando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um momento à amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar... Onde se some aquele capitão Rytmel? Desapareceu outra vez com a condessa, não viram? Vamos procurá-los. Compreendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, à tenda fumoir, entrei, sentei-me num banco, conversando alto, ao acaso. A tenda estava apenas alumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me aparecer assim tão bruscamente, fizera-se pálida de cólera. Mas, nesse momento, chegavam alguns oficiais, gritando: Rytmel! Rytmel! Eu adiantei-me, dizendo: Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais... Os oficiais afastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, profundamente. Desça, condessa, desça segredei-lhe eu. Ela disse com um sorriso melancólico a Rytmel: Está frio, adeus! Rytmel e eu voltámos para o grupo dos oficiais. Eu queria vingar-me de Cármen; lembrou-me o torná-la o centro de ruído e de orgia. Señorita! disse-lhe eu. Cante-nos uma seguidilla ou uma habanera! Faz um belo efeito no alto mar. Estão aqui gentlemen que nunca ouviram a música dos nossos países. Sim, sim gritaram todos. Uma seguidilla!... Ela queria recusar-se, descer ao beliche. Não, não, cante, milady, cante! Os pedidos eram instantes e ruidosos. Ela cedeu, ergueu a voz, no meio do silêncio, acompanhada pelo monótono ruído do vapor e pelo vento crescente, e cantou com uma voz forte e lânguida: A la puerta de mi casa Hay una piedra mui larga... Os ingleses estavam extáticos. No fim os aplausos estalaram como foguetes, encheram-se os copos, um gritou: Pela señorita Cármen! Hip! Hip! Hurra! Os aplausos ecoaram no mar. Ela estava extremamente embaraçada, compreendia que só, no meio daquelas aclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada. Ora vejam! disse eu então, com uma bonomia mefistofélica. É pena que as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na pândega. Cármen deitou-me um vivo olhar de ódio: eu estava vingado. Um dos ingleses, no entanto, Mr. Redor, continuava erguendo o copo, cheio de punch: A Cármen Puebla! Hip! hip! hip! Hurra! responderam os outros entusiasmados. E o eco triste do mar, repetiu: Hurra! Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram-se as luzes. Quase todos desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio crescia. Navegávamos então à vista da terra de África. Quando a tolda ficou deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a grande pancada do mar. De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancólica do marinheiro de vigia, dizia, pausadamente: All is well. Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava naquela confusa penumbra que não é o sono, nem a vigília, mas um vago sonho vivo que se sente e que se domina; via a condessa passar numa nuvem com Rytmel, alegre, bebendo cerveja; via Cármen vestida de monge, dançando sobre a corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater da hélice. De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou um grande grito. VI Dei um salto, corri à porta do beliche: Stewart! Stewart! O Stewart 1 apareceu esguedelhado, quase nu. Que é? Estamos perdidos? Batemos num rochedo? Não sei. Não há-de ser nada, o navio é seguro. Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz num perigo. «Estamos perdidos», pensei eu, vestindo-me com uma precipitação angustiada. A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda pesada entrar, alagar a cabina. Corri à tolda. Giravam lanternas. Quase todos tinham subido: os vestidos brancos, os penteados das mulheres, davam aos grupos um vago mais lúgubre. A oficialidade estava impassível. Que foi? Que foi? perguntei a alguém. Não se sabe, quebrou-se a máquina. Mas temos sobre nós um terrível vendaval... Estamos perdidos! O navio é seguro respondeu o outro. Ao lado diziam: O capitão devia deitar as lanchas ao mar. O céu estava limpo: luziam estrelas. O vento assobiava mais forte. O navio tinha aquela oscilação lúgubre de bombordo a estibordo, que têm os grandes peixes mortos quando bóiam ao cimo da água. Olhei os astros, o céu impassível, a água negra e senti um imenso desprezo pela vida. Em rodado mim a cada instante ouviam-se versões contraditórias. Uns diziam que ficaríamos à capa, esperando firmemente o mau tempo; outros que o navio estava perdido... Um oficial disse ao passar; Oh, senhores! Isto não vale nada: conserta-se; já me aconteceu duas vezes de Adem a Bombaim. Não havia a menor confusão; tudo continuava tão sereno e regular, como se caminhássemos num largo rio, à clara luz do Sol. O comandante, enfim, apareceu: Meus senhores disse ele , é apenas um contratempo. Houve um desarranjo grave na máquina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas com o vento que vem sobre nós, é caso para um atraso de quatro ou cinco dias. No entanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma. Ouvia-se no horizonte um ruído surdo, como o marchar de mil batalhões. A maior parte dos ingleses, pesados de sono e de vinho, tinham voltado para as cabinas, indiferentes ao perigo. Algumas ladies, transidas, mas graves, ficaram no convés. Em baixo, os engenheiros e os maquinistas trabalhavam poderosamente, e sem cessar. Captain Rytmel aproximou-se de mim. É um perigo, e é um perigo sem luta. Este imbecil deste comandante navegou de mais para sul. Estamos perto da costa de África. Se o vendaval nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia, o nosso engenheiro de bordo, Persnester, é um homem de génio. Onde está a condessa? Descemos à sala comum. A condessa lá estava encostada, à mesa, serena e pálida. Suba, prima, suba disse eu. Ao menos em cima vê-se o céu, a água e o perigo! Viemos encostar-nos à amurada, agarrados às cordagens. As estrelas davam uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma, reluziam sob aquela luz vaga. O vento era terrível. Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos lutava-se, havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a África como uma baleia morta!... Ela quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era necessário encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu dificilmente me equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lúgubre. A sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos. Tinham-se acendido mais faróis no alto dos mastros. O ruído do vento, de temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condenadas. Desci à câmara para beber conhaque, porque o frio era agudo. Cármen, sentada no sofá, no alto da sala, estava ali imóvel, com os olhos vagos, as mãos cruzadas. Morremos, hem? perguntou ela. Tem medo? disse eu. Um pouco, de morrer afogada. De uma bala ou de uma facada, não me custava. Mas aqui, estupidamente, neste antipático elemento, é cruel! Ao menos não morro só! Lá se vai a sua linda prima!... Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo. Eu! De modo algum. Acho-a piegas, detesto aqueles ares sentimentais, desonra a Península. Aí está. Não é isso: é porque supõe que Captain Rytmel se interessa de mais por ela. E que me importa a mim esse cavalheiro? E deu uma curta risada. No entanto, o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi à tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo depreendi, debaixo da tenda. Eu, de pé, através da lona podia escutar, apesar do ruído do vento. Uma curiosidade indomável, a necessidade de compreender a situação de espírito da condessa, a certeza de que estávamos na aflição de um perigo e as acções humanas nesses momentos não se podem sujeitar ao critério da vida trivial , tudo me levou a ir escutar, apesar das repugnâncias do meu carácter. Acerquei-me, fiz ouvido de espião. Rytmel dizia: E custa-lhe morrer? Muito e nada respondia a condessa. Muito porque morre comigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amizade; nada, porque, francamente, sou eu feliz? Se a minha amizade é para si um interesse profundo... A condessa calou-se. Oh! compreendo-a bem disse Rytmel. Sabe porque não é feliz, apesar da minha amizade? E porque não é a minha amizade o que o seu coração precisa. Oh! Deixe-me falar. E o amor profundo, inalterável, omnipotente, que esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as ideias do seu espírito; que viva do prazer e viva do sacrifício; que seja a última razão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que há de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que há de mais elevado prenda a sua alma... Cale-se, cale-se dizia a condessa. É uma loucura falar assim... Vamos passear, vamos ver o mar. O vento agora era terrível. O mar estava como água de sabão a perder de vista. O navio oscilava perdidamente e sem rumo. No entanto, na máquina trabalhava-se sempre. Rytmel continuava falando à condessa. Cale-se, cale-se dizia ela baixo e como vencida. Não; devo dizer-lho: esta palavra «amizade» é falsa. Daqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lhe. Amo-a. Não se erga. O vento levará consigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois destas palavras, o mar é um bom túmulo e o mar lava tudo. Amo-a... Não diga isso. É um engano; é apenas simpatia. Demais, o amor a que nos levaria? Ou ao desprezo ou à tortura... Eu ouvia mal. Eles falavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros somam. Sentiam-se a voz do comando, os martelos, os trabalhos na máquina. Uma vaga entrou, alagou o convés. De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua voz era alta e vibrante: Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer? Penso, condessa. Pois bem, quero dizer-lho então: amo-o! E depois de um momento: Oh! Amo-o repetiu ela com uma explosão de paixão. Já que tenho a certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o. Neste momento um ruído estranho tomou o navio. Percebi uma forte dominação de oscilação, uma resistência contra a vaga. Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ela tinha retomado a sua vitalidade... Então senti a hélice... a hélice! O navio movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela proa. Caminhávamos! Eu saltei para a abertura que desce à máquina. Que é? perguntei a um oficial que subia. Um milagre de Pernester! Todos tinham corrido. Era uma ansiedade. O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da máquina sobe ao pavimento do navio. Estava radiante. Imaginem que Pernester... Sim, sim interrompi , mas então? Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Amanhã estamos em Malta. Bravo, Pernester! Bravo! gritavam todos. O grande homem subiu a escada da máquina, ofegante, impassível, vermelho, grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse num tom suave: Noy, I should enjoy a nice glass of beer... VII No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrelas. A água da baía estava imóvel e negra. Via-se defronte La Valeta, elevada como uma colina, altiva como um castelo, pespontada de luzes. Em redor do paquete as gôndolas corriam silenciosamente tendo à popa, esguia e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silêncio, uma suavidade inefável. Os gondoleiros remavam calados. Aquilo era doce e regular. Sentia-se o mistério italiano e a polida inglesa. Desembarcámos: fomos para Clarence-Hotel, na Strada-Reale, defronte da célebre Igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos oficiais ingleses. D. Nicazio e Cármen vieram para Clarence-Hotel, também. Os três primeiros dias em Malta foram ocupados em percorrer os monumentos: o palácio dos grão-mestres, os palácios chamados Estalagens, e que eram pertencentes às diferentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os arredores de Malta, Civita-Vecchia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calipso, que tem tantos encantos em Homem e que é um rochedo húmido, cheio de cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns oficiais iam jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O ruído, a petulância da mesa, era Cármen. Deixara-se logo seguir sempre por um rapaz francês, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, viajante por tédio, dizia ele. Cármen não se aproximava de Rytmel. Havia entre eles como uma separação combinada e discreta. Rytmel, pelo contrário, não se afastava de nós em todas as excursões ao campo, às fortificações, à baía; todas as noites nos acompanhava ao teatro. O conde tinha ficado logo cativado das grandes tranças louras de uma rapariga que nós víamos sempre na 1ª ordem do teatro, com a tez inglesa e os olhos malteses, de uma frescura de miss e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de Rytmel. Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do oficial não estavam tanto sob o domínio da minha vista. Eu, às vezes, não via a condessa um dia, dois dias, absorto na companhia de alguns oficiais ingleses, em passeios no mar, no campo, em ceias e no jogo. Compreendia, porém, que aquela paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me também perdidamente namorado. Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocínios interiores, que me determinaram a ser indiferente àquela situação. Compreenderá claramente os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me numa discrição completa e delicada. Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tínhamo-nos relacionado com Lorde Grenley, que estava ali passando o Inverno e curando os seus blue devils. Tinha vindo de Inglaterra num lindo iate, chamado The Romantic, que nós víamos todos os dias na baía bordejar, fazendo reluzir ao sol os seus cobres polidos e o seu esbelto costado branco. Lorde Grenley ligara-se muito com o conde. Era também o Intimo de Rytmel. Cármen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no teatro, onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indiferença da condessa. Cármen, irritada, não vivendo nas relações de ladies, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas ásperas ironias, desforrava-se à mesa de Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de alusões e de palavras cáusticas. A sua última táctica era instigar sempre Mr. Perny contra o oficial, arremessá-lo contra todas as ideias, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duelo, se apenas pelo gosto de o ver contrariado... Um dia falava-se da Índia. Rytmel dizia a transformação fecunda que a Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny. Ri-se? disse Rytmel, levemente pálido. Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que transformação fecunda fez a Inglaterra à Índia? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, numa coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na Índia, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores ingleses? A tradução da Índia, poema misterioso, na prosa mercantil do Morning Post Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça índia, mãe do ideal, como cães irlandeses; fazem navegar no divino Ganges paquetes a três xelins por cabeça; fazem beber às bayaderas, pale ale, e ensinam-lhes o jogo do cricket; abrem squares a gás na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, destronam antigos reis, misteriosos, e quase de marfim, e substituem-nos por sujeitos de suíças, crivados de dívidas, rubros de porter, que quando não vão ser forçados em Botany-Bay, vão ser governadores da Índia! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de ros-beef habitada por piratas de colarinhos altos, odres de cerveja! Captain Rytmel ergueu-se risonho, aproximou-se de mim, e disse: Peço-lhe que no fim do jantar pergunte àquele engraçado doido o seu lugar, a sua hora e as suas armas. E foi sentar-se serenamente. Eu, à sobremesa, afastei-me com Perny, e transmiti-lhe as palavras do meu amigo. Perny riu, disse que estimava os Ingleses, que apreciava os seus serviços na Índia, que tinha sido instigado por Cármen a contrariar Rytmel, que o achava um adorável gentleman, que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu lugar era por toda a parte, a sua hora sempre, as suas armas quaisquer... Mas, dadas essas explicações disse eu , nada temos que ver com as armas... Ah! perdão! disse o francês Há ainda uma pequena coisa: é que eu acho que o penteado do Captain Rytmel é profundamente ofensivo do meu carácter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação. Nomearam-se padrinhos nessa noite. Combinou-se que o duelo não fosse em Malta: Rytmel era oficial, e os duelos nas praças de armas têm as mais severas penalidades. Era difícil, porém, estando numa ilha inglesa, não se baterem em território inglês. Resolveu-se então que o duelo fosse no alto mar, a um tiro de canhão da costa inglesa. Lorde Grenley emprestou o seu iate e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. As coisas foram rápidas. Pusemo-nos à capa a 5 milhas de Malta, arriámos o pavilhão inglês, a marinhagem subiu às vergas, e como havia igualdade de nível, um dos adversários foi colocado à popa e outro à proa. O sol dava-nos de estibordo. Eram 7 horas da manhã, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no ar. O duelo era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lorde Grenly deu o sinal, os dois adversários fizeram fogo. Perny deixou cair a pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a clavícula partida. Foi deitado numa cabina preparada. Levantou-se o pavilhão inglês e navegámos para Malta. Vinha caindo a tarde. Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Cármen estava só. Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido. Isso cura-se, eu mesma o curarei, agora o que é sério, é o que se está tramando aqui dentro deste hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio apenas.. Diga ao conde que vigie a condessa! Eu encolhi os ombros, sorri, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, Rytmel e Lorde Grenley. O ferimento de Perny fora declarado sem perigo, o capitão estava tranquilo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma visita à ilha de Gozzo, a oito quilómetros de Malta. Grenley tinha proposto a excursão, e oferecia o seu iate. O conde esquivava-se, dizendo que o mar o incomodava, no estado nervoso em que estava. Menino, é aquela maldita Rize! veio-me ele dizer em voz baixa. Tenho-lhe para amanhã prometido um passeio a Bengama. Mas, então? Acompanha tu a condessa. Vai Grenley e Rytmel. Faz-me isto. Bem vês! Mademoiselle Rize é exigente, mas pobrezinha, dela, tem o sangue maltês! Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veio a mim no corredor e tomou-me pela mão. Escute disse-me uma voz subtil como um sopro. Era Cármen. Se é um homem de honra, cautela amanhã com o passeio a Gozzo. E desapareceu. VIII No outro dia às seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia estado durante a noite sob o domínio de uma extrema agitação nervosa, mas não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lorde Grenley com Rytmel, tomando chá. Pareceu-me pela fadiga das suas fisionomias, que se não tinham deitado: Lorde Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na véspera, e tinha ainda na bontonnière um jasmim-do-cabo, murcho e amarelado. Bonita madrugada! disse Rytmel. Tinham aberto a janela, o ar fresco entrava; nas árvores do jardim cantavam os pássaros. Adorável! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se transtorna o passeio.. Outra coisa: tem um revólver, Rytmel? Para quê? Disseram-me que era muito curioso atirar aos pássaros que se escondem nas cavernas, em Gozzo. Há um eco excêntrico. Precisamos de uma arma. Rytmel deu-me um pequeno revólver marchetado. Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da álbuns e de canetas para tirar desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vai? Porquê? Como assim, Milorde? Um jantar oficial com o governador disse Lorde Grenley ; é horrível. Tenho uma pena imensa... Às sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o cais Marsa-Muscheto. Notei ao entrar no iate que a equipagem estava aumentada e havia um piloto árabe. Largámos com um vento fresco, às oito horas da manhã; as gaivotas voavam em roda das velas, as casas brancas de La Valeta tinham uma cor rosada, ouviam-se as músicas militares, o céu estava de uma pureza encantadora. A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria ávida, para o vasto mar azul, livre, infinito, coberto de luz. O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está encantada por se ver só, com rapazes, num iate, no alto mar. É para ela quase uma aventura! Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. Representar eu ali o marido, a família, o dever, diante de duas criaturas moças, belas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro anos, ardente e apaixonado, o encarregado de fazer a polícia daquele romance simpático! À la grace de Dieu! O mar é largo, o céu profundo, a honra existe, daqui a duas horas estamos em Gozzo, passeámos, rimos, jantámos, e ao anoitecer, quando Deus espalhara seu rebanho de estrelas, voltaremos na viração e na fosforescência, calados, ouvindo o piloto árabe cantar as doces melopeias da Síria, ao ruído lânguido da maresia... Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço, A condessa ficara de pé, à proa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta numa manta escocesa, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda. Costeávamos Malta com vento oeste. Aproximámo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveríamos almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcávamos em Gozzo, na Calle Maggiara; iríamos ver as curiosidades da ilha, tomaríamos a embarcar para tornear Gozzo, e ver as terríveis cavernas, onde o mar se abisma e se perde, e ao anoitecer tocaríamos o cais de La Valeta. O almoço foi muito alegre. Havia champanhe, um rena adorável, um guisado árabe e um piano na câmara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter uma preocupação inexplicável, fez ao piano depois do almoço intermináveis improvisações. Caminhávamos sempre. Casualmente, tirei o relógio, e tive um sobressalto! Havia duas horas e meia que tínhamos descido! Ora quando o almoço começara, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara! Porque seguíamos então? Subi rapidamente à tolda. O piloto árabe estava ao leme. Não se via quase a terra; íamos no mar alto, navegando com uma extraordinária velocidade sob o vento. Onde está Gozzo? gritei ao árabe em inglês, depois em francês, depois em italiano. O árabe nem sequer se dignou olhar-me. Neste momento Rytmel e a condessa subiam. Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel. Há talvez uma bruma respondeu ele vagamente e voltando o rosto. O horizonte, porém, estava limpo, puro, sem mistério, a perder de vista. Ao longe via-se uma sombra indefinida que denunciava 1 a terra; e nós afastávamo-nos dela! Corri à bússola. Navegávamos para oeste. Navegamos para oeste, Captain Rytmel! Afastamo-nos de Malta! Que é isto? Para onde vamos? Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse: Vamos para Alexandria. Num relance compreendi tudo. Rytmel fugia com a condessa!... Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo: Isso é uma infâmia! Ele empalideceu terrivelmente: mas a condessa, interpondo se, com uma voz vibrante: Não! Sou eu! Sou eu que vou para Alexandria. Nesse caso sou eu o infame, prima. Houve um silêncio. Os olhos da condessa estavam húmidos. Correu para mim, tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços: Que quer? Ninguém tem culpa. Amo este homem, fujo com ele. Rytmel tomara-me a outra mão. Agora dizia é impossível voltar. É um passo dado, irreparável. Eu estava sucumbido: aquela situação imprevista deixava-me sem raciocínio, sem voz, sem vontade. Eu, amigo do conde!... Eu, cúmplice daquela fuga! Além disso, ali, no meio daqueles dois amantes encantadores, que me suplicavam apertando-me as mãos, eu sentia-me ridículo e isto aumentava o meu desespero. A condessa, no entanto, continuava: Primo disse ela que importa? Estou desonrada, bem. sei. Mas que queria? Que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, numa mentira perpétua, vivendo alegremente instalada na infâmia? Essa situação nunca! É suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para ele. Captain Rytmel disse eu , então mande deitar uma lancha ao mar. Que quer fazer? gritou a condessa. Eu? Ganhar a terra. Acha que também não é uma infâmia instalar-me neste navio? Está louco disse Rytmel. Há só um escaler a bordo. O vento cresce, o mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos. Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu. Ninguém se mexa! bradou Rytmel. E voltando-se para a condessa: Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem ele? Foi forçado, foi levado. Não responde por nada. Um escaler ao mar! gritava eu. Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo de onde pendia o escaler, cortou as correias de suspensão; o barco caiu na água com um ruído surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como um corpo morto. Eu bati o pé, desesperado. Ah, que infâmia, Captain Rytmel! Que infâmia! E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma coisa de violento, gritei para alguns marinheiros que estavam à proa: Há algum inglês aí que preze a sua bandeira? Todos se voltaram admirados, mas sem compreender. Pois bem! gritei eu. Declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a cumplicidade da desonra, e que é sobre toda a face inglesa que eu cuspo, cuspindo no pavilhão inglês. E, correndo à popa, cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira inglesa. Um dos marujos então decerto compreendeu, porque teve um movimento de ameaça. Ninguém se mova! gritou Rytmel. Eu sou o ofendido, meu amigo disse ele com a voz sufocada , tem razão; desde que abandonei Malta, deixei de ser oficial inglês. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com efeito, não tem que fazer aqui! Adiantou-se, arriou o pavilhão de tope da popa. E numa exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao mar; as ondas envolveram-no, e por um estranho acaso, no encontro das águas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, imóvel, à superfície do mar, até que se afundou. Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou o lenço das mãos da condessa, amarrou-o à corda da bandeira, e içando-o rapidamente, gritou: De ora em diante o nosso pavilhão é este! Eu achava-me no meio de todas aquelas coisas violentas, como entre as incoerências de um sonho. Num movimento que fiz, senti no bolso o revólver: não sei que desvairadas ideias de honra me alucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei: Boa viagem! Jesus! bradou a condessa. IX Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o revólver. Eu murmurei simplesmente: Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos. A condessa então adiantou-se, lívida como a cal, e disse (nunca me esquecerá o som da sua voz): Rytmel, voltemos para Malta. Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus? Eu interpus-me, disse as coisas mais loucas: Rytmel, dê-me esse revólver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão pode retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-te, fugi vós para bem longe... Mas a condessa, que era a única que parecia ter ainda uma luz de razão dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dor oculta: Rytmel, voltemos para Malta. Ele olhou-a um momento: a consciência da nossa odiosa situação pareceu então invadi-lo, subjugá-lo; vergou os ombros, obedeceu, foi dizer algumas palavras ao capitão do iate. Daí a um instante corríamos sobre Malta. Houve um grande silêncio, como o cansaço daquela luta da paixão. Rytmel passeava rapidamente pelo convés, e sob a serenidade do seu rosto, sentia-se a tormenta que lhe ia dentro. Aqui está! disse ele de repente, parando e cruzando os braços, com um estranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos: para Malta. Que mais querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! Íamos a Alexandria; estávamos. salvos, sós, novos, felizes! E agora? Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre ingénuo! Falam-te na honra! Que honra a que me vai matar todos os dias, a que me arranca do meu paraíso, a que me toma o último desditoso! Honra! Que me resta a mim? Uma bala na Índia. Morrer para ali, só, como uni cão. A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar. E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado: Vês tu! Vês isto? Eu sofria tudo por ela: a desonra, a infâmia, o desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o escárnio, tudo por ela. Diz-se a um homem amo-te, vai-se fugir com ele, está-se num navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraíso, quando já se não vê terra, vem um escrúpulo, uma mágoa, uma saudade do marido talvez, uma lembrança de um baile, ou de uma flor que ficava bem e adeus para sempre! E quer-se voltar; e tu, miserável, sofre, chora, arrepela-te, e morre para aí como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a terra!... William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, só tua... tua diante de Deus, tua diante dos homens... Neste momento ouviu-se a voz distante de um sino! Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte. A suavidade da hora era extrema; o ar estava inefavelmente límpido. Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de La Valeta, O Sol descia. Os seus últimos raios oblíquos faziam cintilar os miradouros. Distinguiam-se no cais os vendedores de flores. Duas gôndolas corriam para nós. Houve um grande ruído nas velas, assobios de manobras, o navio parou, e a âncora caiu na água! Tínhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam repicando. X Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, num triste estado de exaltação e de paixão. Cármen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente, perguntou-me: Voltaram? Como foi? Sabia então alguma coisa? interroguei admirado. Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante to. da a noite Rytmel andou fazendo preparativos. Era uma combinação de há três dias. Lorde Grenley sabia. E agora? Agora disse eu tudo terminou. A condessa naturalmente parte no primeiro paquete. Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei, mas que quer? Amo aquele homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, salvou-me a vida. É, sobretudo, uma paixão estúpida que me rói, que me mata. E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para que vivo eu? Vivia desta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me quem o não há-de adorar? Às vezes lembra-me matá-lo!... Conversámos algum tempo. A pobre criatura tinha nos olhos um fulgor febril, na face uma palidez de mármore. Eu procurei calmá-la. Começava a simpatizar com ela... A condessa não saiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ela tivera em Gozzo um susto terrível, porque tínhamos estado em perigo, na visita às cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive quase sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu espírito. Acomodava-se, ainda que com certas repugnâncias, a uma situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana é cheia de conciliações!), ao fim de cinco dias a condessa apareceu no teatro fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus ombros reluzia nas dragonas de ouro de Captain Rytmel! Entrámos então numa vida serena, sem romance e sem luta. Os corações tinham calmado, e falavam baixo. O conde passeava no campo com Mademoiselle Rize; Lorde Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de ópio; eu jogava as armas com os oficiais ingleses; D. Nicazio negociava; Rytmel tinha um ar feliz e misterioso; a condessa recebia, guiava os seus póneis, e todas as noites, no teatro, fazia reluzir ao gás o louro esplendor dos seus cabelos e a palidez preciosa das suas pérolas. Santa paz! O tempo estava adorável. Malta resplandecia, abafa reluzia ao sol, os jardins floresciam, os olhos das maltesas suspiravam. Era o tempo das flores da laranjeira. Só Cármen emagrecia e vivia retirada. Mr. Perny entrava em convalescença; passava o tempo deitado num sofá, de dia compondo uma ópera cómica, à noite jogando com alguns oficiais, e salpicando a gravidade britânica de calemburgos bonapartistas. Uma ocasião, ao sair de casa dele, onde tinha perdido algumas dúzias de libras, recolhia eu a Clarence-Hotel, levemente irritado, e sentindo um prazer excêntrico em cantar o fado pela ruas de Malta, a mil léguas do Bairro Alto. O pavilhão que nós habitávamos em Clarence-Hotel dava sobre um jardim todo escuro de árvores e de moitas de flores. Ordinariamente o conde e eu entrávamos pelo jardim. Tínhamos uma pequena chave que abria a portinhola verde, no muro, todo coberto de musgo e de copas de arbustos orientais. Nessa noite, ao abrir a porta, cantando em voz alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar estava sereno, acendi um fósforo, e àquela luz trémula, entrei na sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu nome. Era Cármen. Que faz aqui? disse eu. Mato-me. Não lhe disse que, sempre que suava de noite, me erguia e vinha apanhar o orvalho? Mas ela estava completamente vestida de seda preta, e tinha até sobre os ombros uma larga capa escura, de forma árabe, com grande capuz! Ah! minha cara disse eu , mata-se, mas é de amores. A esta hora, com essa toilette, neste jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que história me vem contar de orvalhos e de suor?... Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui nesta sombra encontrar alguém?... E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a corte, que lhe dê uma serenata, que suba por uma escada de corda, que a seduza neste jardim... Enquanto eu falava, davam horas na Igreja de S. João, e Cármen mostrava uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim, torcendo freneticamente uma luva descalçada. Eu compreendi que ela esperava alguém. Alguém, isto é, el querido, el precioso, el saleroso, el niño de toda a legítima andaluza. Afastei-me discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura plangente. «É ele», pensei eu. «É o niño. Pobre Cármen! Bebe vinagre, apanha os orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não pode ser superior a vir receber debaixo das laranjeiras algum cabeleireiro francês com voz de tenor, ou algum tenor maltês com bigodes de cabeleireiro.» Subi ao meu quarto, mas não tinha sono; a noite era suave e lânguida, mordia-me uma áspera curiosidade, e com a astúcia de um ladrão napolitano, desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi Cármen. estava só! Extrema surpresa! E el querido? perguntei-lhe eu rindo. Ela voltou-se em sobressalto e perguntou-me com a voz agitada: Qual querido? O que entrou agora? Não entrou ninguém. Eu vi. Conheceu? Não, onde está? Abriu as asas, voou! disse ela rindo-se e afastando-se em direcção aos seus quartos. Diabos! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia! No entanto, tinha a curiosidade excitada. Alguém tinha entrado misteriosamente, com uma chave falsa decerto, porque só o conde e eu tínhamos a chave daquela porta do jardim. Mas onde estava esse alguém? Teria entrado, e saído logo? Nesse caso não era uma entrevista de amor! Mas se não era um segredo de coração, para que era o mistério, a hora escura, o silêncio, a chave falsa? Alguém teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto. Deitei-me preocupado com aquela aventura. No outro dia, ao almoço, um criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno punhal e que o hóspede a quem ele pertencesse o reclamasse em baixo, no office. Era um punhal de forma curva como se usa no Indostão. Tinha sido encontrado numa moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, mas voluntariamente arremessado. Ninguém reclamou o punhal. Tudo isto me causava uma singular curiosidade. Diabo! dizia eu comigo. Estamos em terra italiana, apesar da polícia inglesa, e é provável que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda por aí haja alguma água tofana. Sejamos prudentes. Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado à minha secretária, escrevia para Portugal, quando senti no corredor passos rápidos, e a porta abriu-se violentamente. Abafei um grito de tenor. De pé, à entrada do quarto, lívida, com os cabelos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a condessa. Que foi? bradei. Ela tinha caído num sofá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os dentes trémulos. Eu borrifava-a de água, tomava-lhe as mãos, falava-lhe baixo, e perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar: Que foi, minha querida, que foi? Via-lhe os vestidos cheios de sangue. Feriram-na? Ela fez um gesto negativo. Então? Então? disse eu. A pobre senhora queria falar, erguia-se, sufocava, ansiava, parecia numa agonia. De repente, atirou-se aos meus braços e desatou a chorar. Fale, diga... insistia eu. Mataram-no disse ela. Mataram quem? Rytmel! Como? Onde? No jardim... Vá! XI Corri ao jardim. Os meus passos, instintivamente, apressaram-me para o lado da pequena porta verde aberta no muro. Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no chão, levemente apoiado no cotovelo, vi Rytmel. Então? gritei-lhe, abaixando-me ansiosamente para ele. Só ferido. Como? Onde? Não respondeu, os olhos cerraram-se-lhe e desfaleceu sobre a relva. Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em água, molhei- lhe as faces e as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por baixo da clavícula. Vi que não era mortal. Eu estava numa extrema hesitação. Para onde levar aquele homem? O mais racional era conduzi-lo a um quarto do hotel; mas isso era dar ao facto uma publicidade ruidosa, fazê-lo cair sob o domínio da polícia, arrastar até à acção dos tribunais ingleses o nome da condessa. Porque eu tinha compreendido tudo. Sabia agora, bem, quem na véspera entrara rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem pertencia o punhal índio achado nas moitas de buxo. Compreendia a comoção de Cármen, quando eu a surpreendera ali, no jardim, embuçada num burnous, esperando. E compreendia, desgraçadamente, a que quarto se dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de Clarence-Hotel. Era, pois, necessário encobrir aquela aventura. E Rytmel, apesar dos obscurecimentos do desmaio e da dor, tinha-o pensado também, porque me disse com uma voz expirante: Escondam-me em qualquer parte! Sai logo à rua. Passava um daqueles canos ligeiros, de um só cavalo, que percorrem, com extrema velocidade, e com imensa doçura, as mas inclinadas de La Valeta. O vetturino era italiano. Falei-lhe vagamente num duelo, dei-lhe um punhado de xelins, ameacei-o com os policemen, e pu-lo absolutamente ao serviço do meu segredo. Colocámos Rytmel no cano; com mantas fizemos-lhe uma espécie de ninho, cómodo e mole, e o cavalo trotou, rapidamente, pela Rua de S. Marcos, para casa de Rytmel. Aí grande rumor entre os oficiais ingleses. Eu contei uma incoerente história de assalto ao florete, em que a minha arma, subitamente, se tinha desembolado. A história era inaceitável; mas era fácil compreender que havia por trás dela um segredo delicado, e isto era o bastante para a altiva reserva de gentlemen. Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu. Tudo tinha sido feito em silêncio, despercebidamente. Fui tranquilizar a condessa. Eram três horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o mar nas rochas da baia. Tudo dormia em Clarence-Hotel. Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Cármen. Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Ao princípio não distingui ninguém e ouvi apenas soluçar. Enfim sobre um sofá, deitada, enroscada, sepultada, vi Cármen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de conhaque e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Cármen levantou-se um pouco no sofá. Naquele momento a sua beleza era prodigiosa. Tinha os cabelos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava ver a beleza maravilhosa do seio. Confesso que não foi a ideia da vingança e do castigo que me tomou o espírito diante daquela mulher tão terrivelmente possuída da paixão. Lembraram-me as figuras trágicas da arte, Lady Macbeth e Clitemnestra, e tanta beleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cérebro um vapor de amores pagãos. Ela tinha-se erguido e, com uma voz seca: Que quer? Eu fiquei calado. Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está aí a polida, não? Estou pronta. É pôr um xaile. Ninguém o sabe disse-lhe eu baixo, e, sem saber porquê, comovido. Que me importa? Não o oculto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! Pois quê? Nós outras damos a nossa vida, a nossa paixão, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, pomos nisto toda a nossa existência, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabelos mais louros ou a cinta mais fina, adeus tu, para sempre! Olá, criatura! Desprezo-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a futilidade. Ah! Sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os policemen. Eu disse-lhe então, em voz baixa: Fui encontrá-lo banhado em sangue. Ela olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se sobre o sofá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lágrimas, com um delírio de soluços: Ah, meu Deus, perdoai-me! Perdoai-me, Jesus! Perdoai-me! Fui eu que o matei! Estou doida decerto. Pobre Rytmel! Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o torno a ver, não lhe torno a falar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o que eu sinto na cabeça!... Em Calcutá adorou-me, aquele homem. Ajoelhava aos meus pés, eu queria morrer por ele. Diga-me, escute: enterraram-no? Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? Não, isso não! Vá depressa. Vá buscar a polícia!... Mas, porque me não prendem? Ah, meu pobre Rytmel! Eu morro, eu mono, eu morro! Daqui a pouco começam a tocar os sinos! Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compôs o cabelo com ar desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo negro. Escute disse-lhe eu. Rytmel não morreu. Não morreu? gritou ela. De repente, arrojou-se aos meus braços, que a ampararam, tomou-me a cabeça entre as mãos, e fitando-me com uma grande angústia. Diz-me: não morreu? Está salvo? Está disse eu. Juras? Juro. Quero vê-lo, quero vê-lo já gritou ela. O meu xaile, o meu xaile! Procure-me aí o meu xaile. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo... Positivamente não lho fizeram! Se não lhe acudo! Que diz ele? Chora? Pobrezinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! Maldita seja eu! Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os móveis, arremessava as roupas, falando, gesticulando, e às vezes cantando. Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Ele falou no meu nome? Veio tomar-me o braço: Vamos. Onde? Vê-lo. Quero vê-lo. Quero! Não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amá-lo, servi-lo, ser a sua criada, a sua enfermeira... Parou, e, desprendendo-se do meu braço: E a outra? Não a quero ver lá! Ela está lá? Não quero que ela o trate. Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé dele. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto. Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no chão imóvel. Levantei-a, deitei-a no sofá, borrifei-a de água; e ela com uma voz expirante: Eu morro! Eu morro... Chame um padre. Não lhe tinha dito... Envenenei-me. Envenenou-se? gritei aterrado. Naquele frasco, ali! XII O médico, apressadamente chamado, declarou que não havia perigo. Cármen tinha tomado o veneno num preparado fraco, e numa porção diminuta. Podia, porém, recear-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação do seu espírito, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pelos ais soluçados que se lhe desprendiam do peito. Fui então ver a condessa. Não se tinha deitado. Ficara embrulhada num xaile, sentada aos pés da cama, numa atitude absorta de dor e de inércia que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janelas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de flores. Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flores murchavam. Então? disse ela quando me nu. Então! Ele está curado, e bom num mês. A condessa deve partir dentro de quinze dias. Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não me pode impedir isto: não me impeça, não? De modo algum, prima. Eu mesmo lhe facilito. E ela? Ela, minha prima? Entrei no quarto dela para a arrastar ao primeiro policeman que passasse. Sai jurando que em toda a parte aquela mulher me havia de achar ao seu lado para defender e, se ela o quisesse, para a amar. Tem talvez razão: é uma verdadeira mulher. É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou neste mundo num aspecto divino foi naquela mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade: a lógica. Eu, na realidade, tomara por Cármen uma grande admiração! Eu, que na sua saúde, e na sua beleza feliz, nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora, nas suas horas de dor e doença, o seu fiel cavalliere serviente. Vi-a convalescer sob os meus cuidados. D. Nicazio tinha ido para Sicília. Sustentei és primeiros passes que ela deu no seu quarto, extremamente magra, como olhar quebrado, uma transparência mórbida na fisionomia, e a imaginação doente. Começou logo a entregar-se alongas orações, a leituras piedosas. O seu intento era entrar num convento em Espanha, e ali, matar o seu corpo na penitência e na dor. Passava agora os dias nas igrejas. Estava mudada nos seus hábitos e nas suas maneiras. A sua beleza mesmo tomava uma expressão ascética. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Às vezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento: É triste! Aos vinte e oito anos! Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, ideias de uma redenção pela oração, pele jejum, pelo silêncio e pela contemplação. Naquele espírito visitado por todas as paixões, e sempre numa vibração exaltada, entrava por seu turno e sombrio catolicismo espanhol, e vende o lugar deserto das outras ideias do mundo, acampava lá serenamente. Um dia pediu-me para ir ver Rytmel antes de partir para Espanha. É como irmã da caridade que o quero ver! Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal iluminado pela desmaiada luz de velas de estearina. A palidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seu travesseiro. Cármen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama dele, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava também. Eu tinha-me encostado à parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda e insondável come a noite. Um vizinho, cuja janela abria para o estreito pátio, para onde dava também a janela de Rytmel, tocava nesse momento na sua rabeca, com uma melancolia plangente, a valsa do Baile de Máscaras, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que ideias de festa e de morte, de amor e de claustro. Rytmel queria levantar Cármen, falar-lhe. Mas ela estava prostrada, com o resto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia: Perdoe-me, perdoe-me! Rytmel, por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços, e disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um encanto infinito beijou-a nos olhos. A pobre criatura corou, eu senti renascerem-se as lágrimas. Querido e pobre Rytmel! como ele teve naquele momento a ternura ideal, e o divino encanto do perdão! Ela, com uma simplicidade, em que já se sentia a imensa força interior que lhe dava a fé, falou a Rytmel de Deus, do convento em que queria entrar, da ordem que preferia, com palavras naturais e tocantes, que nos enchiam de mágoa. Por fim beijou a mãe do seu amante. Adeus disse ela. Para sempre! Rezarei por si. E ia sair, devagar, sucumbida, quando de repente, à porta do quarto, parou, voltou-se, olhou-o longamente os olhos encheram-se-lhe de uma luz sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empalideceu, e com os braços abertos, és lábios cheios de beijos, num ímpeto da sua antiga natureza, correu para se atirar aos braços dele com o frenesi das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, caiu de joelhos, e num grande silêncio e num grande recolhimento beijou-lhe castamente os dedos! Depois tomou-me o braço, e saímos. Ao outro dia chamou as criadas, e repartiu por elas todos os seus vestidos, rendas e toilettes. Deu as suas jóias a um padre inglês para as distribuir pelos pobres. Frascos, bijutarias, essências, tudo destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia rezando na igreja de S. João e preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam. A noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse à sua volta da Sicília. Deixava-lhe tudo. Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu imenso cabelo caiu, quase até ao chão, em grossos anéis, esplêndido, forte, imenso, e de uma poesia sensual. Tomou uma tesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquelas tranças admiráveis, que teriam sido uma glória pública no tempo da Grécia. Eu estava absorto pela beleza, magoado como desastre. Parecia-me já aquilo o começo do claustro. Cármen apanhou o cabelo caído, embrulhou-o num lenço, e, entregando-mo, disse: Guarde essa lembrança. É a verdadeira Cármen, a outra, que eu lhe deixo aí. Agora peço-lhe uma derradeira coisa. Prepare tudo e leve-me a Cádis. Amanhã... é possível? Amanhã, não; mas dentro de uma semana, juro-lhe, teremos visto do mar as montanhas de Valência. Ela, no entanto, passava rapidamente as mãos pelos cabelos, dando-lhes uma feição masculina. Era encantadora assim. A sua beleza tomava uma expressão ingénua de um extraordinário mimo. Ela sorria ao espelho, eu olhava-a, e ia, entre as duas luzes, a sua imagem, como num leve vapor azulado e luminoso. Ela, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e compunha o jeito do cabelo. Eu, por trás dela, sorria. Lia, no enlevo do espelho, na surpresa de se achar linda com o cabelo cortado, sorria também. parecia-me ver-lhe as faces tomarem a cor da vida e o seio a ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma coisa doce, chamá-la ao mundo... De repente arremessou o pente, e, curvando a cabeça, foi silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu leito, e sobre a qual agonizava um Cristo com a cabeça pendente, a testa gotejante, os braços distendidos, o peito constelado de chagas! XIII Daí a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da Índia a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rise ficava, e o Chiado esperava-o! Demais, o estar só com a condessa embaraçava-o; as melancolias dela, as suas lágrimas inexplicáveis, a sua palidez apaixonada, toda a incoerência do seu carácter, que aquele excelente libertino explicava pelo nervoso e pelo histerismo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como ele dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada: Rytmel, depois da sua convalescença, iria para a Itália, para aquecer as suas forças ao sol de Nápoles, e mais tarde, em Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns meses livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem de ouro, seda e beijos. Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir uru dever melancólico: acompanhar a Cádis aquela infeliz Cármen, ainda há pouco de uma beleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitências. Lorde Grenley, que ia para Cádis dentro de quatro dias, tinha-nos oferecido, a Cármen e a mim, o seu iate. Aceitei com alegria. Era um transporte cómodo e livre, e Lorde Grenley uma companhia simpática, porque me assustava a ideia de ver, durante uma longa viagem no mar, a debilidade de Cármen estiolar-se ao meu lado. Enfim, uma tarde partimos. Era ao escurecer, o céu estava nublado, quase chuvoso. Cármen ia profundamente doente. Magra, transparente, lívida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quase só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquela exaltação a que faltava a terra procurava febrilmente todos os caminhos do Céu. Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. Nunca mais tornaria a ver aquela branca cidade. Não fora ali feliz. Mas amámos todos aqueles lugares em que por qualquer sentimento ou por qualquer ideia a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado lágrimas minhas. Logo no primeiro dia de viagem, Cármen esteve expirante. Havia um forte balanço. Ornar era grosso, e nós receávamos mau tempo quando nos avizinhássemos das correntes do golfo de Lião. Cármen quase sempre queda estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-se-lhe uma cama; e ali ficava, olhando, cismando, sofrendo, e conversando com o capelão de Lorde Grenley, velho cheio de unção, que tinha um encanto singular falando das coisas do Céu. Aquela cena era profundamente triste sobretudo de tarde; o Sol caía, a imensa sombra começava a cobrir o mar; Cármen falava baixo; nós, em redor, escutávamo-la; ou calados, seguíamos ocorrer da maresia, olhávamos o fim da luz. Um marinheiro escocês vinha às vezes cantar as árias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago. Ao terceiro dia de viagem, Cármen, subitamente, teve um grande acesso de febre e quis confessar-se. O médico disse-nos que ela não chegada a ver as montanhas da Espanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têm, na vasta extensão das águas, as dores humanas! Junta-se-lhes o sentimento da imensidade, e não sei que terrível instinto do irreparável. A confissão de Cármen foi longa. Quando terminou quis falar-me. Adeus disse-me ela. Vou morrer. Disse-lhe que não, quis dar-lhe esperanças efémeras. Não, não respondeu ela , nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame Lorde Grenley. Começou então diante de nós a falar da sua vida. Disse-nos qual fora a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigência das suas paixões, e falou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento quase legítimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdém. As Últimas palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rosário do seio. Veio de Jerusalém disse-me dê-lho a ela. Eu tinha os olhos humedecidos. Cármen, entretanto,