Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano Tomo I ÍNDICE: Advertência da 1ª edição Advertência da 2ª edição O Alcaide de Santarém Arras por Foro de Espanha O Alcaide do Castelo de Faria A Abóbada.2 ADVERTÊNCIA DA 1ª EDIÇÃO (1851) Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram impressos, em épocas mais ou menos remotas, nas duas publicações periódicas O Panorama e A Ilustração, bem como o foram nestes ou em outros jornais os que têm de formar o segundo volume das Lendas e Narrativas, colecção que, se trabalhos mais árduos o consentirem, será continuada com alguns outros, apenas esboçados ou inéditos, no todo ou em parte, que ainda restam entre os manuscritos do autor. Corrigindo-os e publicando-os de novo, para se ajuntarem a composições mais extensas e menos imperfeitas que já viram a luz pública em volumes separados, ele quis apenas preservar do esquecimento, a que por via de regra são. condenados, mais cedo ou mais tarde, os escritos inseridos nas colunas das publicações periódicas, as primeiras tentativas do romance histórico que se fizeram na língua portuguesa. Monumentos dos esforços do autor para introduzir na literatura nacional um género amplamente cultivado nestes nossos tempos em todos os países da Europa, é este o principal ou, talvez, o único merecimento deles; o título de que podem valer-se para não serem entregues de todo ao esquecimento. A singeleza da invenção, a pouca firmeza nos contornos de alguns caracteres, o menos bem travado do diálogo, imperfeições que nem sempre foi possível remediar nesta nova edição, revelam a mão inexperiente. Na história dos progressos literários de Portugal, desde que a liberdade política trouxe a liberdade do pensamento, e que o engenho pôde aparecer à luz do dia sem os anjinhos de uma censura tão absurda na sua índole, como estúpida na sua aplicação e esterilizadora nos seus efeitos; nessa história, dizemos, esta nova edição deve ser julgada principalmente com atenção ao seu motivo; à prioridade das composições nela insertas e à precisão em que, ao escrevê-las, o autor se via de criar a substância e a forma; porque para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domésticos. A crítica para ser justa não há-de, porém, atender só a essas circunstâncias; há-de considerar, também, os resultados de tais tentativas, que, a princípio, é lícito supor inspiraram outras análogas, como por exemplo Os Irmãos Carvajales e O Que Foram Portugueses, do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria dos grandes talentos da nossa literatura a empreenderem composições análogas de mais largas dimensões e melhor delineadas e vestidas. Todos conhecem o Arco de Sant'Ana, cujo primeiro volume acaba de imprimir o primeiro poeta português. deste século 1 , o Um Ano na Corte, do Sr. Corvo, cuja publicação se aproxima do seu termo, e o ódio Velho não Cansa, do Sr. Rebelo da Silva, ensaio que, se as eloquências párvoas e sensabores dos discursos académicos não tivessem tornado indecentes as alusões mitológicas, se poderia comparar ao combate com o leão de Citéron, que revelou à Grécia no moço Hércules o futuro semideus; porque no Ódio Velho começa a manifestar-se o autor da Mocidade de D. João V, romance de que já se imprimiram algumas páginas admiráveis, mas que na parte inédita, que é quase tudo, nos promete um émulo de Walter Scott. Enfim, O Conde de Castela, do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepção, posto que ainda incompleta, foi, porventura, inspirado pelo exemplo destas fracas tentativas e das que, em dimensões maiores, o autor empreendeu no Eurico e no Monge de Cister. Carácter grave e austero, digno dos tempos antigos e que a Providência colocou em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos géneros de corrupções, como condenação muda; homem, sobretudo, de ciência e consciência, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes 1 Almeida Garrett..3 eminentes para o campo do romance histórico, onde ninguém, talvez, como ele poderia fazer a Portugal o serviço que du Monteil fez à França, isto é, popularizar o estudo daquela parte da vida pública e privada dos séculos semibárbaros que não cabe no quadro da história social e política. Tais foram, entre outros, os mais importantes resultados da introdução do género. No meio deste amplo, desenvolvimento de uma literatura nova no País, o auto das seguintes páginas merecerá, talvez, desculpa de, recordar que estes ensaios, inferiores às publicações que se lhes seguiram, foram a sementinha donde proveio a floresta. Seja-lhe, pois, lícito consolar-se na sua inferioridade com haver precedido na ordem dos tempos aqueles que, na afeição do público, devem, provavelmente, fazê-lo esquecer. Persuadido de ter por isso direito à indulgência, resolveu-se a transportar para o livro aquilo que, considerado em si, não mereceria, talvez, sair nunca das colunas do fugitivo jornal, salvando assim, não, escritos cuja apreciação exija largas páginas na história literária, mas um marco humilde e tosco, que, nesta espécie de literatura, indique o ponto donde se partiu..4 ADVERTENCIA DA 2ª EDIÇÃO (1858) A advertência que precedia a anterior edição deste livro e que deixamos reproduzida explica sobejamente porque as primeiras tentativas de um género de escritos que só muito tarde foi cultivado em Portugal se publicaram em volumes, quando, talvez, não devessem sair das colunas dos jornais onde viram a luz pública. Considerámo-los então e consideramo-los agora apenas como balizas no campo da nossa história literária, balizas que nos parecem ainda mais toscas actualmente; porque, ao passo que a reflexão e o tempo nos amaduram o espírito, os defeitos de composição e de estilo cada vez se vão avolumando mais aos olhos da nossa consciência retrospectiva. Reputando-os, todavia, hoje, como há oito anos, simples marcos miliários, a presente edição absolve-se pelos mesmos títulos por que devia ser absolvida a edição anterior. Esperávamos, e dissemo-lo sinceramente, que estas desadornadas tentativas esqueceriam em breve ofuscadas pelas brilhantes composições que começavam a avultar no caminho que havíamos aberto. O público entendeu de outro modo. Sem deixar de apreciar o melhor, não esqueceu estes mal delineados esboços, que ficaram na sua memória, como nos ficam para a saudade os dias do nosso balbuciar infantil. Quinze a vinte anos são decorridos desde que se deu um passo, bem que débil, decisivo, para quebrar as tradições do Alívio de Tristes 2 e do Feliz Independente 3 , tiranos que reinavam sem émulos e sem conspirações na província do romance português. Nestes quinze ou vinte anos criou-se uma literatura, e pode dizer-se que não há ano que não lhe traga um progresso. Desde as Lendas e Narrativas até o livro Onde Está a Felicidade?4 que vasto espaço transposto! E todavia, apesar do imenso talento que se revela nas mais recentes composições, quem sabe se, entre os nomes que despontam apenas nos horizontes literários, não virá em breve algum que ofusque os que nos deixaram para nós somente um bem modesto lugar? Oxalá que assim seja. Os que nos venceram nesta luta gloriosa saberão resignar-se, como nós nos resignámos. Ajuda, Maio de 1858. 2 Do Pe. Mateus Ribeiro. 3 Do Pe. Teodoro de Almeida. 4 De Camilo Castelo Branco..5 O ALCAIDE DE SANTARÉM (950-961) I O Guadamellato é uma ribeira que, descendo das solidões mais agras da serra Morena, vem, através de um território montanhoso e selvático, desaguar no Guadalquivir, pela margem direita, pouco acima de Córdova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma densa população: foi nas eras do domínio sarraceno em Espanha. Desde o governo do amir Abul-Khatar, o distrito de Córdova fora distribuído às tribos árabes do Iémen e da Síria, as mais nobres e mais numerosas entre todas as raças da África e da Ásia que tinham vindo residir na Península, por ocasião da conquista ou depois dela. As famílias que se estabeleceram naquelas encostas meridionais das longas serranias chamadas pelos antigos montes Marianos conservaram por mais tempo os hábitos erradios dos povos pastores. Assim, no meado do décimo século, posto que esse distrito fosse assaz povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao de um deserto; porque nem se descortinavam por aqueles cabeços e vales vestígios alguns de cultura, nem alvejava um único edifício no meio das colinas rasgadas irregularmente pelos algares das torrentes ou cobertas de seivas bravias e escuras. Apenas, um ou outro dia, se enxergava na extrema de algum almargem virente a tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte não se encontraria ali, se, porventura, se buscasse. Havia, contudo, povoações fixas naqueles ermos; havia habitações humanas, porem não de vivos. Os Árabes colocavam os cemitérios nos lugares mais saudosos dessas solidões, nos pendores meridionais dos outeiros, onde o Sol, ao pôr-se, estirasse de soslaio os seus últimos raios pelas lájeas lisas das campas, por entre os raminhos floridos das sarças açoitadas do vento. Era ali que, depois do vaguear incessante de muitos anos, eles vinham deitar-se mansamente uns ao pé dos outros, para dormirem o longo sono sacudido sobre as suas pálpebras das asas do anjo Asrael. A raça árabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra família humana, gostava de espalhar na terra aqueles padrões, mais ou menos sumptuosos, do cativeiro e da imobilidade da morte, talvez para avivar mais o sentimento da sua independência ilimitada durante a vida. No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que subia das margens do Guadamellato para o nordeste, estava assentado um desses cemitérios pertencente à tribo iemenita dos Benu-Homair. Subindo pelo rio, viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas, como vasto estendal, e três únicas palmeiras, plantadas na coroa do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemitério de Al-Tamarah. Transpondo o cabeço para o lado oriental, encontrava-se um desses brincos da natureza, que nem sempre a ciência sabe explicar; era um cubo de granito de desconforme dimensão, que parecia ter sido posto ali pelos esforços de centenares de homens, porque nada o prendia ao solo. Do cimo desta cie de atalaia natural descortinavam-se para todos os lados vastos horizontes. Era um dia à tarde: o Sol descia rapidamente, e já as sombras principiavam do lado de leste a empastar a paisagem ao longe em negrumes confusos. Assentado na da do rochedo quadrangular, um árabe dos Benu-Homair, armado da sua comprida lança, volvia olhos atentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste: depois, sacudia a cabeça com um sinal negativo, inclinando-se para o lado oposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam ali, também assentados em diversas posturas e em silêncio, o.6 qual só era interrompido por algumas palavras rápidas, dirigidas ao da lança, a que ele respondia sempre do mesmo modo com o seu menear de cabeça. - Al-Barr - disse, por fim, um dos sarracenos, cujo trajo e gestos indicavam uma grande superioridade sobre os outros -, parece que o caide de Chantaryn 5 esqueceu a sua injuria, como o váli de Zarkosta 6 a sua ambição de independência. Até os partidários de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por meu pai, não podem acreditar que Abdallah realize as promessas que me induziste a fazer-lhes. - Amir Al-melek 7 - replicou Al-Barr -, ainda não é tarde: os mensageiros podem ter sido retidos por algum sucesso imprevisto. Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente no coração humano. Dize, Al-Athar, não te juraram eles pela santa Caaba 8 que os enviados com a notícia da sua revolta e da entrada dos cristãos chegariam hoje a este lugar aprazado, antes de anoitecer? - Juraram - respondeu Al-Athar -; mas que fé merecem homens que não duvidam de quebrar as promessas solenes feitas ao califa e, além disso, de abrir o caminho aos infiéis para derramarem o sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem as esperanças que pões nos teus ocultos aliados. Oxalá não tivesse de tingir o sangue as ruas de Kórtobha 9 , e não houvera de ser o supedâneo do trono que ambicionas o túmulo de teu irmão! Al-Athar cobriu a cara com as mãos, como se quisesse esconder a sua amargura. Abdallah parecia comovido por, duas paixões opostas. Depois de se conservar algum tempo em silêncio, exclamou: - Se os mensageiros dos levantados não chegarem até o anoitecer, não falemos mais nisso. Meu irmão Al-Hakem acaba de ser reconhecido sucessor do califado:,eu próprio o aceitei por futuro senhor poucas horas antes de vir ter convosco. Se o destino assim o quer, faça-se a vontade de Deus! Al-Barr, imagina que os teus sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh 10 que não soubeste acabar, como aquela que debalde tentaste repetir na presença dos embaixadores do Frandjat 11 , e que foi causa de caíres no desagrado de meu pai e de Al-Hakem e de conceberes esse ódio que alimentas contra eles, o mais terrível ódio deste mundo, o do amor-próprio ofendido. Ahmed Al-Athar e o outro árabe sorriram ao ouvirem estas palavras de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-Barr faiscaram de cólera. - Pagas mal, Abdallah - disse ele com a voz presa na garganta -, os riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais belo e poderoso império do Islão. Pagas com alusões afrontosas aos que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma coroa. És filho de teu pai!... Não importa. Só te. direi que é já tarde para o arrependimento. Pensas, acaso, que uma conspiração sabida de tantos ficará oculta? No ponto a que chegaste, retrocedendo é que hás-de encontrar o abismo! No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza. Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o príncipe da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Al-Hakem. Um grito, porém, do atalaia o interrompeu. Ligeiro como relâmpago, um vulto saíra do cemitério, galgara o cabeço e se aproximara sem ser sentido: vinha envolto num albornoz escuro, cujo capuz quase lhe encobria as feições, 5 Santarém. 6 Governador do distrito de Saragoça. 7 Príncipe real. 8 O famoso templo de Meca. 9 Córdova. 10 Poema de trinta versos, muito usado entre os Árabes, e que correspondia de certo modo às nossas odes. 11 Os reinos cristãos além dos Pirenéus..7 vendo-se-lhe apenas a barba negra e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo e arrancaram as espadas. Ao ver aquele movimento, o que chegara não fez mais do que estender para eles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz: então as espadas abaixaram-se, como se corrente eléctrica tivesse adormecido os braços dos quatro sarracenos. Al-Barr exclamara: Al-Muulin 12 , o profeta! Al-Muulin, o santo!... Poema de trinta versos, muito usado entre os Árabes, e que correspondia de certo modo às nossas odes. - Al-Muulin, o pecador - interrompeu o novo personagem - : Al-Muulin, o pobre faqui 13 penitente e quase cego de chorar as próprias culpas e as culpas dos homens, mas a quem Deus, por isso, ilumina, às vezes, os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição! Sereis satisfeitos! O Senhor pesou na balança dos destinos a ti, Abdallah, e a teu irmão Al-Hakem. Ele foi achado mais leve. A ti o trono; a ele o sepulcro. Está escrito. Vai; não pares na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kórtobha. Entra no teu palácio Merwan; é o palácio dos califas da tua dinastia. Não foi sem mistério que teu pai to deu por morada. Sobe ao sótão 14 da torre. Aí acharás cartas do caide de Chantaryn e delas verás que nem ele, nem o váli de Zarkosta, nem os Benu-Hafsun, faltam ao que te juraram! - Santo faqui - replicou Abdullah, crédulo, como todos os muçulmanos daqueles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado -, creio o que dizes, porque nada para ti é oculto. O passado, o presente, o futuro, domina-los com a tua inteligência sublime. Asseguras-me o triunfo; mas o perdão do crime podes tu assegurá-lo? - Verme, que te crês livre! - atalhou com voz solene o faqui. - Verme, cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frágeis instrumentos nas mãos do destino, e que te crês autor de um crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o guerreiro, pede ela, acaso, a Deus perdão do seu pecado? Átomo varrido pela cólera de cima contra outro átomo, que vais aniquilar, pergunta, antes, se nos tesouros do Misericordioso há perdão para o orgulho insensato! Fez então uma pausa. A noite descia rápida. Ao lusco-fusco ainda se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que apontava para as bandas de Córdova. Nesta postura, a figura do faqui fascinava. Coando pelos lábios as sílabas, ele repetiu três vezes: - Para Merwan! Abdallah abaixou a cabeça e partiu vagarosamente, sem olhar para trás. Os outros sarracenos seguiram-no. Al-Muulin ficou só. Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Córdova; se vivêsseis, porém, naquela época e o perguntásseis nessa cidade de mais de um milhão de habitantes, ninguém vo-lo saberia dizer. Era um mistério a sua pátria, a sua raça, donde viera. Passava a vida pelos cemitérios ou rias mesquitas. Para ele, o ardor da canícula, a neve ou as chuvas do Inverno eram como se não existissem. Raras vezes se via que não fosse lavado em lágrimas. Fugia das mulheres, como de um objecto de horror. O que, porém, o tornava geralmente respeitado ou, antes, temido era o dom de profecia, o qual ninguém lhe disputava. Mas era um profeta terrível, porque as suas predições recaíam unicamente sobre futuros males. No mesmo dia em que nas fronteiras do império os cristãos faziam alguma correria ou destruíam alguma povoação, ele anunciava 12 Al-Muulin significa "o triste". 13 Faqui ou faquir, espécie de frade mendicante entre os Muçulmanos. 14 Sotuho: o andar mais alto. Os nossos escritores tomavam esta palavra num sentido evidentemente errado, servindo-se dela para indicar o aposento inferior ou térreo..8 publicamente o sucesso nas praças de Córdova. Qualquer membro da família numerosa dos Benu-Umeyyas caía debaixo do punhal de um assassino desconhecido, na mais remota província do império, ainda das do Moghreb ou Mauritânia, na mesma hora, no mesmo instante, às vezes, ele o pranteava, redobrando os seus choros habituais. O terror que inspirava era tal que, no meio de um tumulto popular, a sua presença bastava para fazer cair tudo em mortal silêncio. A imaginação exaltada do povo tinha feito dele um santo, santo como o islamismo os concebia; isto é, como um homem cujas palavras e cujo aspecto gelavam de terror. Ao passar por ele, Al-Barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em voz quase imperceptível: - Salvaste-me! O faqui deixou-o afastar e, fazendo um gesto de profundo desprezo, murmurou: - Eu?! Eu teu cúmplice, miserável?! Depois, alevantando ambas as mãos abertas para o ar, começou a agitar os dedos rapidamente e, rindo com um rir sem vontade, exclamou: - Pobres títeres! Quando se fartou de representar com os dedos a ideia de escárnio que lhe sorria lá dentro, dirigiu-se, ao longo do cemitério, também para as bandas de Córdova, mas por diverso atalho. II Nos paços de Azzahrat, o magnífico alcáçar dos califas de Córdova, há muitas horas que cessou o estrépito de uma grande festa. O luar de noite serena de Abril bate pelos jardins que se dilatam desde o alcáçar até o Guad-al-kebir, e alveja trémulo pelas fitas cinzentas dos caminhos tortuosos, em que parecem enredados os bosquezinhos. de arbustos, os maciços de árvores silvestres, as veigas de boninas, os vergéis embalsamados, onde a laranjeira, o limoeiro e as demais árvores frutíferas, trazidas da Pérsia, da Síria e do Catai, espalham os aromas variados das suas flores. Lá ao longe, Córdova, a capital da Espanha muçulmana, repousa da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-Rhaman III, o ilustre califa, vela pela segurança do império. A vasta cidade repousa profundamente, e o ruído mal distinto que parece revoar por cima dela é apenas o respiro lento dos seus largos pulmões, o bater regular das suas robustas artérias. Das almádenas de seiscentas mesquitas não soa uma única voz de almuadem, e os sinos das igrejas moçárabes guardam também silêncio. As ruas, as praças, os azoques ou mercados estão desertos. Somente o murmúrio das novecentas fontes ou banhos públicos, destinados às abluções dos crentes, ajuda o zumbido nocturno da sumptuosa rival de Bagdade. Que festa fora esta que expirara algumas horas antes de nascer a Lua e destingir, com a brancura pálida de sua luz, aqueles dois vultos enormes de Azzahrat e de Córdova, que olham um para o outro, a cinco milhas de distância, como dois fantasmas gigantes envoltos em largos sudários? Na manhã do dia que findara, Al-Hakem, o filho mais velho de Abdu-r-Rahman, fora associado ao trono. Os vális, vazires e catibes da monarquia dos Benu-Umeyyas tinham vindo reconhecê-lo Wali-al-ahdi; isto é, futuro califa do Andaluz e do Moghreb. Era uma ideia, afagada longamente pelo velho príncipe dos crentes, que se realizara, e o júbilo de Abdu-r-Rahman havia-se espraiado numa dessas festas, por assim dizer fabulosas, que só sabia dar no século décimo a corte mais polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno de Espanha. O palácio Merwan, junto dos muros de Córdova, distingue-se à claridade duvidosa da noite pelas suas formas maciças e rectangulares, e a sua cor tisnada, bafo.9 dos séculos que entristece e santifica os monumentos, contrasta com a das cúpulas aéreas e douradas dos edifícios, com a das almádenas esguias e leves das mesquitas e com a dos campanários cristãos, cuja tez docemente pálida suaviza, ainda mais, o brando raio de luzir que se quebra naqueles estreitos panos de pedra branca, donde não se reflecte, mas cai na terra preguiçoso e dormente. Como Azzahrat e como Córdova, calado e aparentemente tranquilo, o palácio Merwan, a antiga morada dos primeiros califas, suscita ideias sinistras, enquanto o aspecto da cidade e da vila imperial unicamente inspiram um sentimento de quietação e paz. Não é só a negridão das suas vastas muralhas a que produz essa apertura do coração que experimenta quem o considera assim solitário e carrancudo; é, também, o clarão avermelhado que ressumbra da mais alta das raras frestas abertas na face exterior da sua torre albarrã, a maior de todas as que o cercam, a que atalaia a campanha. Aquela luz, no ponto mais elevado do grande e escuro vulto da torre, é como um olho de demónio, que contempla colérico a paz profunda do império e que espera ansioso o dia em que renasçam as lutas e as devastações de que por mais de dois séculos fora teatro o solo ensanguentado da Espanha. Alguém vela, talvez no paço de Merwan. No de Azzahrat, posto que nenhuma luz bruxuleie nos centenares de varandas, de miradouros, de pórticos, de balcões, que lhe a rendam o imenso circuito. Alguém vela por certo. A sala denominada do Califa, a mais espaçosa entre tantos aposentos quantos encerra aquele rei dos edifícios, devera a estas horas mortas estar deserta, e não o está. Dois lampadários de muitos lumes pendem dos artesões primorosamente lavrados, que, cruzando-se em ângulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e ouro que reveste as paredes e o tecto. A água de fonte perene murmura, caindo num tanque de mármore construído no centro do aposento, e no topo da sala ergue-se o trono de Abdu-r- Rahman alcatifado dos mais ricos tapetes do, país de Fars. Abdu-r-Rahman está aí sozinho. O califa passeia de um para outro lado, com olhar inquieto, e de instante a instante pára e escuta, como se esperasse ouvir um ruído longínquo. No seu gesto e meneios pinta-se a mais viva ansiedade; porque o único ruído que lhe fere os ouvidos é o dos próprios passos sobre o xadrez variegado que forma o pavimento da imensa quadra. Passado algum tempo, uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do trono, abre-se lentamente e um novo personagem aparece. No rosto de Abdu-r-Rahman, que o vê aproximar, pinta-se inquietação ainda mais viva. O recém-chegado oferecia notável contraste no seu gesto e vestiduras com as pompas do lugar em que se introduzia e com o aspecto majestoso de Abdu-r-Rahman,. ainda belo, apesar dos anos e das cãs que começavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba negra. Os pés do que entrara apenas faziam um rumor sumido no chão de mármore. Vinha descalço. A sua aljarabia ou túnica era de lã grosseiramente tecida, o cinto uma corda de esparto. Divisava-se-lhe, porém, no despejo do andar e na firmeza dos movimentos que nenhum espanto produzia nele aquela magnificência. Não era velho; e, todavia, a sua tez tostada pelas injúrias do tempo estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pé do califa, que ficara imóvel, cruzou os braços e pôs-se a contemplá-lo calado. Abdu-r- Rahman foi o primeiro em romper o silêncio: - Tardaste muito e foste menos pontual do que costumas, quando anuncias a tua vinda a hora fixa, Al-Muulin! Uma visita tua é sempre triste, como o teu nome. Nunca entraste a ocultas em Azzahrat, senão para me saciares de amargura: mas, apesar disso, não deixarei de abençoar a tua presença, porque Al-Ghafir - dizem-no todos e eu o creio - é um homem de Deus. Que vens anunciar-me, ou que pretendes de mim?.10 - Amir Al-muminin 15 que pode pretender de ti um homem cujos dias se passam à sombra dos túmulos, pelos cemitérios, e a cujas noites de oração basta por abrigo o pórtico de um templo; cujos olhos tem queimado o choro, e que não esquece um instante que tudo neste desterro, a dor e o gozo, a morte e a vida, está escrito lá em cima? Que venho anunciar-te?... O mal; porque só mal há na Terra para o homem que vive, como tu, como eu, como todos, entre o apetite e o rancor; entre o mundo e Éblis; isto é, entre os seus eternos e implacáveis inimigos! - Vens, pois, anunciar-me uma desventura?!... Cumpra-se a vontade de Deus. Tenho reinado perto de quarenta anos, sempre poderoso, vencedor e respeitado; todas as minhas ambições têm sido satisfeitas, todos os meus desejos realizados; e, todavia, nesta longa carreira de glória e prosperidade, só fui inteiramente feliz catorze dias da minha vida 16 . Pensava que este fosse o décimo quinto. Devo, acaso, apagá-lo do registo em que conservo a memória deles e em que já o tinha escrito? - Podes apagá-lo - replicou o rude faqui -, podes, até, rasgar todas as folhas brancas que restam no livro. Califa! Vês estas faces sulcadas pelas lágrimas? Vês estas pálpebras requeimadas por elas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se, em breve, as tuas pálpebras e as tuas faces não estão semelhantes às minhas. O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pálido de Abdu-r-Rahman: os seus olhos serenos, como o céu, que imitavam na cor, tomaram a terrível expressão que ele costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que, só por si, fazia recuar os inimigos. O faqui não se moveu e pôs-se também a olhar fito para ele. - Al-Muulin, o herdeiro dos Benu-Umeyyas, pode chorar arrependido de seus erros diante de Deus; mas quem disser que há neste mundo desventura capaz de,,e arrancar uma lágrima, diz-lhe ele que mentiu! Os cantos da boca de Al-Ghafir encresparam-se com um quase imperceptível sorriso. Houve um largo espaço de silêncio. Adbu-r-rahman não o interrompeu; o faqui prosseguiu: - Amir Al-muminin, qual de teus filhos amas tu mais? Al-Hakem, o sucessor do trono, o bom e generoso Al-Hakem, ou Abdallah, o sábio e guerreiro Abdallah, o ídolo do povo de Kórthoba? - Ah - replicou o califa, sorrindo -, já sei o que me queres dizer. Devias prever que a nova viria tarde e que eu havia de sabê-la... Os cristãos passaram a um tempo as fronteiras do Norte e as do Oriente. Meu velho tio Al-modhafer já depôs a espada vitoriosa, e crês necessário expor a vida de um deles aos golpes dos infiéis. Vens profetizar-me a morte do que partir. Não é isto? Faqui, creio em ti, que és aceito ao Senhor; mas ainda creio mais na estrela dos Benu-umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro, não hesitaria na escolha: fora esse que eu mandara não à morte, mas ao triunfo. Se, porém, essas são - as tuas previsões, e elas têm de realizar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha, em Al-djihed 17 contra os infiéis? Al-Ghafir escutou Abdu-r-Rahman sem o menor sinal de impaciência. Quando ele acabou de falar, repetiu tranquilamente a pergunta: - Califa, qual amas tua mais dos teus filhos? - Quando a imagem pura e santa do meu bom Al-Hakem se me representa no espírito, amo mais Al-Hakem; quando com os olhos da alma veio o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e inteligente do meu Abdallah, amo-o mais a ele. Como te posso eu, pois, responder, faqui? 15 Príncipe dos crentes, título correspondente ao de califa. 16 Histórico. 17 Guerra santa..11 - E, todavia, é necessário que escolhas, hoje mesmo, neste momento, entre um e outro. Um deles deve morrer na próxima noite, obscuramente, nestes paços, aqui mesmo, talvez, sem glória, debaixo do cutelo do algoz ou do punhal do assassino. Abdu-r-Rahman recuara ao ouvir estas palavras: o suor começou a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma firmeza fingida, sentira apertar-se-lhe o coração desde que o faqui começara a falar. A reputação de iluminado de que gozava Al-Muulin, o carácter supersticioso do califa e, mais que tudo, o haverem-se.verificado todas as negras profecias que num longo decurso de anos ele lhe fizera, tudo contribuía para aterrar o príncipe dos crentes. Com voz trémula replicou: - Deus é grande e justo. Que lhe fiz eu para me condenar no fim da vida a perpétua aflição, a ver correr o sangue de meus filhos queridos, às mãos da desonra ou da perfídia? - Deus é grande e justo - interrompeu o faqui. - Acaso, nunca fizeste correr injustamente o sangue? Nunca, por ódio brutal, despedaçaste de dor nenhum coração de pai, de irmão, de amigo? Al-Muulin tinha carregado na palavra irmão, com um acento singular. Abdu-r-Rahman, possuído de mal refreado susto, não atentou por isso. - Posso eu acreditar tão estranha, direi antes, tão incrível profecia - exclamou ele por fim - sem que me expliques o modo como se deve realizar esse terrível sucesso? Como há-de o ferro do assassino ou do algoz vir, dentro dos muros de Azzahrat, verter o sangue de um dos seus filhos do califa de Kórthoba, cujo nome, seja-me lícito dizê-lo, é o terror dos cristãos e a glória do islamismo? Al-Muulin tomou um ar imperioso e solene, estendeu a mão para o trono e disse: - Assenta-te, califa, no teu trono e escuta-me; porque, em nome da futura sorte do Andaluz, da paz e da prosperidade do império e das vidas e do repouso dos Muçulmanos, eu venho denunciar-te um grande crime. Que Punas, que perdoes, esse crime tem, de custar-te um filho. Sucessor do Profeta, imã 18 da divina religião do Corão, escuta-me; porque é obrigação tua ouvir-me. O tom inspirado com que Al-Muulin falava, a hora de alta noite, o negro mistério que encerravam as palavras do faqui, tinham subjugado a alma profundamente religiosa de Abdu-r-Rahman. Maquinalmente, subiu ao trono, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que ele rematava e, encostando ao punho o rosto demudado, disse com voz presa: - Podes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-Ghafir! Tomando então uma postura humilde e cruzando os braços sobre o peito, Al-Ghafir, o triste, começou da seguinte maneira a sua narrativa. III - Califa! - começou Al-Muulin - tu és grande; tu és poderoso. Não sabes o que é a afronta ou a injustiça cruel que esmaga o coração nobre e enérgico, se este não pode repeli-la e, sem demora, com o mal ou com a afronta, vingá-la à luz do Sol! Tu não sabes o que então se passa na alma desse homem, cujo inteiro desagravo consiste em deixar fugir alguma lágrima furtiva, e que até, às vezes, é obrigado a beijar a mão que o feriu nos seus mais santos afectos. Não sabes o que isto é; porque todos os teus inimigos têm caído diante do alfange do almogaure ou deixado tombar a cabeça de cima do cepo do algoz. Ignoras, por isso, o que é o ódio; o que são essas solidões tenebrosas por onde o ressentimento que não pode vir ao gesto se dilata e vive, à espera do dia da vingança. Dir-to-ei eu. Nessa noite imensa, em que se envolve o coração chagado, há uma luz 18 Pontífice. Os califas reuniram em si o sumo império e o sumo pontificado..12 sanguinolenta que vem do Inferno e que alumia o espírito vagabundo. Há aí terríveis sonhos, em que o mais rude e ignorante descobre sempre um meio de desagravo. Imagina como será fácil aos altos entendimentos encontrá-lo! É por isso que a vingança, que parecia morta e esquecida, aparece, às vezes, inesperada, tremenda, irresistível, e morde-nos, surgindo debaixo dos pés, como a víbora, ou despedaça-nos, como o leão pulando dentre os juncais. Que lhe importa a ela a majestade do trono, a santidade do templo, a paz doméstica, o ouro do rico, o ferro do guerreiro? Mediu as distâncias, calculou as dificuldades, meditou no silêncio e riu-se de tudo isso! E Al-Ghafir, o triste, desatou a rir ferozmente. Abdu-r-Rahman olhava para ele espantado. - Mas - prosseguiu o faqui - às vezes Deus suscita um dos seus servos, um dos seus servos de ânimo tenaz e forte, possuído, também, de alguma ideia oculta e profunda, que se alevante e rompa a trama urdida nas trevas. Este homem, no caso presente, sou eu. Para bem? Para mal? Não sei; mas sou! Sou eu que venho revelar-te como se prepara a ruína do teu trono e a destruição da tua. dinastia. - A ruína do meu trono e a destruição da minha dinastia? - gritou Abdu-r-Rahman, pondo-se em pé e levando a mão ao punho da espada. - Quem, a não ser algum louco, imagina que o trono dos Benu-Umeyyas pode, não digo desconjuntar-se, mas apenas vacilar debaixo dos pés de Abdu-r-Rahman? Quando, porém, falarás enfim claro, Al-Muulin? E a cólera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual impassibilidade, o faqui prosseguiu: - Esqueces-te, califa, da tua reputação de prudência e longanimidade. Pelo Profeta! Deixa divagar um velho tonto, como eu... Não!... Tens razão... Basta? O raio que fulmina o cedro desce rápido do céu. Quero ser como ele... Amanhã, a estas horas, teu filho Abdallah ter-te-á já privado da coroa para a cingir na própria fronte, e o teu sucessor Al-Hakem terá perecido sob um punhal de assassino. Ainda te encolerizas? Foi acaso demasiado extensa a minha narrativa? - Infame! - exclamou Abdu-r-Rahman. - Hipócrita, que me tens enganado! Tu ousas caluniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue há-de correr, mas e o teu. Crias que, com essas visagens de inspirado, com esses com esses trajos de penitência, com essa linguagem dos santos, poderias quebrar a afeição mais pura, a de um pai? Enganas-te Al-Ghafir! A minha reputação de prudente, verás que é bem merecida. Dizendo isto, o califa ergueu as mãos, como quem ia a bater as palmas. Al-Muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o menor indício de perturbação ou de terror. - Não chames ainda os eunucos; porque assim é que dás provas de que não a merecias. Conheces que me seria impossível fugir. Para matar ou morrer sempre é tempo. Escuta, pois, o infame, o hipócrita, até o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e altivo Abdallah? Bem sabes que ele é incapaz de mentir a seu amado pai, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades possíveis. O faqui desatara de novo num rir trémulo e hediondo. Meteu a mão no peitilho da aljarabia e tirou, uma a uma, muitas tiras de pergaminho: pô-las sobre a cabeça entregou-as ao califa, que começou a ler com avidez. A pouco e pouco, Abdu-r-Rahman foi empalidecendo, as pernas Vergaram-lhe e, por fim, deixou-se cair sobre os coxins do trono e, cobrindo a cara com as mãos, murmurou: - Meu Deus! porque te mereci isto?! Al-Muulin fitara nele um olhar de gerifalte, e nos lábios vagueava-lhe um riso sardónico e quase imperceptível..13 Os pergaminhos eram várias cartas dirigidas por Abdallah aos rebeldes das fronteiras do Oriente, os Benu-Hafsun, e a diversos xeiques bereberes, dos que se haviam domiciliado na Espanha, conhecidos pelo seu pouco afecto aos Benu-Umeyyas. O mais importante, porém, de tudo era uma extensa correspondência com Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro célebre e antigo alcaide de Santarém, que, por graves ofensas, passara ao serviço dos cristãos de Oviedo com muitos cavaleiros ilustres da sua clientela. Esta correspondência era completa de parte a parte. Por ela se via que Abdallah contava não só com os recursos dos muçulmanos seus parciais, mas também com importantes socorros dos infiéis por intervenção de Umeyya. A revolução devia rebentar em Córdova pela morte de Al-Hakem e pela deposição de Abdu-r-Rahman. Uma parte da guarda do alcáçar de Azzahrat estava comprada. Al-Barr, que figurava muito nestas cartas, seria o hadjed ou primeiro-ministro do novo califa. Ali se liam, enfim, os nomes dos principais conspiradores, e todas as circunstâncias da entrepresa eram explicadas ao antigo alcaide de Santarém, com aquela individuação que nas suas cartas ele constantemente exigia. Al-Muulin falara a verdade: Abdu-r-Rahman via desgregar diante de si a longa teia da conspiração, escrita com letras de sangue pela mão do seu próprio filho. Durante algum tempo, o califa conservou-se, como a estátua da dor, na postura que tomara. O faqui olhava fito para ele com uma espécie de cruel complacência. Al-Muulin foi o primeiro que rompeu o silêncio; o príncipe Benu-Umeyya, esse parecia ter perdido o sentimento da vida. - É tarde - disse o faqui. - Chegará em breve a manhã. Chama os eunucos. Ao romper do Sol, a minha cabeça pregada nas portas de Azzahrat deve dar testemunho da prontidão da tua justiça. Elevei ao trono de Deus a última oração e estou aparelhado para morrer, eu o hipócrita, eu o infame, que pretendia lançar sementes de ódio entre ti e teu virtuoso filho. Califa, quando a justiça espera, não são boas horas para meditar ou dormir. Al-Ghafir retomava a sua habitual linguagem, sempre irónica e insolente, e ao redor dos lábios vagueava-lhe de novo o riso mal reprimido. A voz do faqui despertou Abdu-r-Rhaman das suas tenebrosas cogitações. Pôs-se em pé. As lágrimas haviam corrido por aquelas faces; mas estavam enxutas. A procela de paixões encontradas tumultuava lá dentro; mas o gesto do príncipe dos crentes recobrara aparente serenidade. Descendo do. trono, pegou na mão mirrada de Al-Muulin e, apertando-a entre as suas, disse: - Homem que guias teus passos pelo caminho do Céu; homem aceito ao Profeta, perdoa as injúrias de um insensato! Cria ser superior à fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas tu esquecê-lo! Agora estou tranquilo... bem tranquilo... Abdallah, o traidor que era meu filho, não concebeu tão atroz desígnio. Alguém lho inspirou: alguém verteu naquele ânimo soberbo as vãs e criminosas esperanças de subir ao trono por cima do meu cadáver e do de Al-Hakem. Não desejo sabê-lo para o absolver; porque ele já não pode evitar o destino fatal que o aguarda. Morrerá; que antes de ser pai fui califa, e Deus confiou-me no Andaluz a espada da suprema justiça. Morrerá; mas hão-de acompanhá-lo todos os que o precipitaram no abismo. - Ainda há pouco te disse - replicou Al-Ghafir - o que pode inventar o ódio que é obrigado a esconder-se debaixo do manto da indiferença e, até, da submissão. Al-Barr, o orgulhoso Al-Barr, que tu ofendeste no seu amor-próprio de poeta e que expulsaste de Azzahrat, como um homem sem engenho nem saber, quis provar-te que, ao menos, possuía o talento de conspirador. Foi ele que preparou este terrível sucesso. Hás-de confessar que se houve com destreza. Só numa cousa não: em pretender associar-me aos.14 seus desígnios. Associar-me?... não digo bem... fazer-me seu instrumento... A mim!... Queria que eu te apontasse ao povo como um ímpio pelas tuas alianças com os amires infiéis do Frandjat. Fingi estar por tudo, e chegou a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as mensagens aos rebeldes do Oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o aliado dos cristãos, o antigo caide de Chantaryn. Foi assim que pude coligir estas provas de conspiração. Loucos! As suas esperanças eram a miragem do deserto... Dos seus aliados, apenas os de Zarkosta e os das montanhas de Al-kibla. não foram um sonho. As cartas de Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia 19 , tudo era feito por mim. Como eu enganei Al-Barr, que bem conhece a letra de Umeyya, esse é um segredo que, depois de tantas revelações, tu deixarás, califa, que eu guarde para mim... Oh, os insensatos! os insensatos! E desatou a rir. A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolução que ameaçava trazer à Espanha muçulmana todos os horrores da guerra civil devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessário afogá-la em sangue. O longo hábito de reinar, junto ao carácter enérgico de Abdu-r-Rahman, fazia com que, nestas crises, ele desenvolvesse de modo admirável todos os recursos que o gemo amestrado pela experiência lhe sugeria. Recalcando no fundo do coração a cruel lembrança de que era um filho que ia sacrificar à paz e à segurança do império, o califa despediu Al-Muulin e, mandando imediatamente reunir o divã, deu largas instruções ao chefe da guarda dos eslavos. Ao romper da manhã, todos os conspiradores que residiam em Córdova estavam presos, e muitos mensageiros tinham partido, levando as ordens de Abdu-r-Rahman aos vális das províncias e aos generais das fronteiras. Apesar das lágrimas e rogos do generoso Al-Hakem, que lutou tenazmente por salvar a vida de seu irmão, o califa mostrou-se inflexível. A cabeça de Abdallah caiu aos pés do algoz na própria câmara do príncipe no palácio Merwan. Al-Barr, suicidando-se na masmorra em que o tinham lançado, evitou assim o suplício. O dia imediato à noite em que se passou a cena entre Abdu-r-Rahman e Al-Ghafir que tentámos descrever foi um dia de sangue para Córdova e de luto para muitas das mais ilustres famílias. IV Era pelo fim da tarde. Numa alcova do palácio de Azzahrat via-se reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrá ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de peles alvíssimas, faziam sobressair as feições enrugadas, a palidez do rosto, o encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todos os sintomas de cadáver. Pela imobilidade dir-se-ia que era uma destas múmias que se encontram pelas catacumbas do Egipto, apertadas entre as cem voltas das suas faixas mortuárias e inteiriçadas dentro dos sarcófagos de pedra. Um único sinal revelava a vida nessa grande ruína de um homem grande; era o movimento da barba longa e pontiaguda que se lhe estendia, como um cone de neve pendurado sobre o peitilho da túnica de precioso tiraz. Abdu-r-Rahman, o ilustre califa dos muçulmanos do Ocidente, jazia aí e falava com outro velho, que, em pé defronte dele, o escutava atentamente; mas a sua voz saía tão fraca e lenta que, apesar do silêncio que reinava no aposento, só na curta distância a que estava o outro velho se poderiam perceber as palavras do califa. O seu interlocutor é uma personagem que o leitor conhecerá apenas reparar no modo como está trajado. A sua vestidura é uma aljarabia de burel cingida de uma corda de esparto. Há muitos anos que nisto cifrou todos os cómodos que aceita à civilização. 19 Os Árabes designavam os reis de Oviedo e Leão pelo título de reis de Galiza..15 Está descalço, e a grenha hirsuta e já grisalha cai-lhe sobre os ombros em madeixas revoltas e emaranhadas. A sua tez não é pálida, os seus olhos não perderam o brilho, como a tez e como os olhos de Abdu-r-Rahman. Naquela, coriácea e crestada, domina a cor mista de verde-negro e amarelo de ventre de crocodilo; nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixões ardentes que lhe sussurram dentro da alma, como a lava prestes a jorrar do vulcão que ainda parece dormir. É Al-Muulin, o santo faqui, que vimos salvar, onze anos antes, o califa e o império da intentada revolução de Abdallah. Tinham, de feito, passado onze anos desde os terríveis sucessos acontecidos naquela noite em que Al-Muulin descobrira a conspiração que se urdia, e desde então nunca mais se vira Abdu-r-Rahman sorrir. O sangue de tantos muçulmanos vertido pelo ferro do algoz e, sobretudo, o sangue de seu próprio filho descera como a maldição do profeta sobre a cabeça do príncipe dos crentes. Entregue a melancolia profunda, nem as novas de vitórias, nem a certeza do estado florente do império o podiam distrair dela, senão momentaneamente. Encerrado, durante os últimos tempos da vida, no palácio de Azzahrat, a maravilha de Espanha, abandonara os cuidados do governo ao seu sucessor Al-Hakem. Os gracejos da escrava Nuirat-eddia, a conversação instrutiva da bela Ayecha e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o único alívio que adoçava a existência aborrida do velho leão do islamismo. Mas, apenas Al-Ghafir, o triste, se apresentava perante o califa, ele fazia retirar todos e ficava encerrado horas e horas com este homem, tão temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas doutrinas, pregadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo. Abdu-r-Rahman parecia inteiramente dominado pelo rude faqui, e, ao vê-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho príncipe os sentimentos opostos do terror e do afecto, como se metade da sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquele homem e a outra metade o repelisse com repugnância invencível. O mistério que havia entre ambos ninguém o podia entender. E, todavia, a explicação era bem simples: estava no carácter extremamente religioso do califa, na sua velhice e no seu passado de príncipe absoluto, situação em que são fáceis grandes virtudes e grandes crimes. Habituado à lisonja, a linguagem áspera e altivamente sincera de Al-Muulin tivera, a princípio, o atractivo de ser para ele inaudita; depois, a reputação de virtude de Al-Ghafir, a crença de que era um profeta, a maneira por que, para o salvar e ao império, arrostara com a sua cólera e provara desprezar completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-Rahman visse nele, como o mais crédulo dos seus súbditos, um homem predestinado, um verdadeiro santo. Sentindo avizinhar a morte, Abdu-r-Rahman tinha sempre diante dos olhos que esse faqui era como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvação até o trono de Deus. Cifrava-se nele a esperança de um futuro incerto, que não podia tardar, e, assim, o espírito do monarca, enfraquecido pelos anos, estudava ansiosamente a mínima palavra, o menor gesto de Al-Muulin; prendia-se ao monge muçulmano, como a hera antiga ao carvalho em cujo tronco se alimenta, se ampara e vai trepando para o céu. Mas, às vezes, Al-Ghafir repugnava-lhe. No meio das expansões mais sinceras, dos mais ardentes voos de piedade profunda, de confiança inteira na misericórdia divina, o faqui fitava de repente nele os olhos cintilantes e, com sorriso diabólico, vibrava uma frase irónica, insolente e desanimadora, que ia gelar no coração do califa as consolações de piedade e despertar remorsos e terrores ou completa desesperação. Era um jogo terrível em que se deleitava Al-Muulin, como o tigre com o palpitar dos membros da rês que se lhe agita moribunda entre as garras sangrentas. Nessa luta infernal em que lhe trazia a alma estava o segredo da atracção e da repugnância que, ao mesmo tempo, o velho monarca mostrava para com o faqui, cujo aparecimento em Azzahrat cada vez se tornava mais frequente e, agora, se renovava todos os dias..16 A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado oeste e deixavam, de quando em quando, passar um raio afogueado do Sol que se punha. O vento tépido, húmido e violento fazia ramalhar as árvores dos jardins que circundavam os aposentos de Abdu-r-Rahman. As folhas, retintas já de verde-amarelado e mortal, desprendiam-se das franças das romeiras, dos sarmentos das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam, e, remoinhando nas correntes da ventania, iam, iam, até rastejar pelo chão e empeçar na grama seca dos prados. O califa, exausto, sentia aquele cicio da vegetação moribunda chamá-lo, também, para a terra, e a melancolia da morte pesava-lhe sobre o espírito. Al-Muulin, durante a conversação daquela tarde, havia-se mostrado, contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras havia o que quer que fosse acorde com a tristeza que o rodeava: - Conheço que se aproxima a hora fatal - dizia o califa. - Nestas veias em breve se gelará o sangue; mas, santo faqui, não me será lícito confiar na misericórdia de Deus? Derramei o bem entre os Muçulmanos, o mal entre os infiéis, fiz emudecer o livro de Jesus perante o de Mohammed, e deixo a meu filho um trono firmado no amor dos súbditos e na veneração e no temor dos inimigos da dinastia dos Benu-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer pela glória do Islão. Que mais pretendes? Porque não tens nos lábios para o pobre moribundo senão palavras de terror? Porque, há tantos anos, me fazes beber, gole a gole, a taça da desesperação? Os olhos do faqui, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado fulgor, e um daqueles sorrisos diabólicos, com que costumava fazer gelar todas as ardentes ideias místicas do príncipe, lhe assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento o do velho monarca, onde, de feito, já vagueavam as sombras da morte; depois, dirigiu-se à porta da câmara, assegurou-se bem de que não era possível abrirem-na exteriormente e, voltando para o pé do almatrá, tirou do peitilho um rolo de pergaminho e começou a ler em tom de indizível escárnio: - "Resposta de Al-Ghafir, o triste, às últimas perguntas do poderoso Abdu-r-Rahman, oitavo califa de Córdova, o sempre vencedor, justiceiro e bem-aventurado entre todos os príncipes da raça dos Betiu-Umeyyas. Capítulo avulso da sua história." Um rir prolongado seguiu a leitura do título do manuscrito. Al-Muulin continuou: - "No tempo deste célebre, virtuoso, ilustrado e justiceiro monarca havia no seu divã um vazir, homem sincero, zeloso da lei do Profeta e que não sabia torcer por humanos respeitos a voz da sua consciência. Chamava-se Mohammed-ibn-Ishak e era, irmão de Umeyya-ibn-Ishak, caide de Chantaryn, um dos guerreiros mais ilustres do Islão, segundo diziam. ""Ora esse vazir caiu no desagrado de Abdu-r-Rahman, porque lhe falava verdade e rebatia as adulações dos seus lisonjeiros. Como o califa era generoso, o desagrado para com Mohammed converteu-se em ódio, e como era justo o ódio breve se traduziu numa sentença de morte. A cabeça do ministro caiu no cadafalso, e a sua memória passou à posteridade manchada pela calúnia. Todavia, o príncipe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um inocente."" As feições transtornadas de Abdu-r-Rahman tomaram uma expressão horrível de angústia: quis falar, mas apenas pode fazer um sinal, como que pedindo ao faqui que se calasse. Este prosseguiu: - Parece-me que o ouvir a leitura dos anais do teu ilustre reinado te alivia e revoca à vida. Continuarei. Pudesse eu prolongar assim os teus dias, clementíssimo califa! "Umeyya, o caide, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão, ficou como insensato. do ferrete posto sobre o saudade ajuntava-se o horror sempre imaculado, da sua família. Dirigiu as súplicas mais veementes ao príncipe dos fiéis para que, ao menos, reabilitasse a memória da pobre vítima; mas soube-se que, ao ler a sua.17 carta, o virtuoso príncipe desatara a rir... Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que ele ria." E Al-Muulin aproximou-se de Abdu-r-Rahman e soltou uma gargalhada. O moribundo arrancou um gemido. - Estás um pouco melhor... não é verdade, invencível califa? Prossigamos. "Umeyya, quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro que chegara de Kórthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de Al-djuf não se riu da sua mensagem. Daí a pouco, Radmiro tinha passado o Douro, e as fortalezas e cidades muçulmanas até o Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do caide de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leais, este ajudou a devastar o território muçulmano do Gharb até Mérida. Foi uma esplêndida festa; um sacrifício digno da memória de seu irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu em torrentes. Pouco a pouco, porém, Umeyya começou a reflectir. Era Abdu-r-Rahman quem o ofendera. Para quê tanto sangue vertido? A sua vingança fora a de uma besta-fera; fora estúpida e vã. Ao califa, quase sempre vitorioso, que importavam os que por ele pereciam? O caide de Chantaryn mudou então de sistema. A guerra pública e converteu-a em perseguição oculta e eficaz: à força opôs a destreza. Fingiu abandonar os seus aliados e sumiu-se nas trevas. Esqueceram-se dele. Quando tornou a aparecer à luz do dia, ninguém o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda de esparto; os cabelos caíam-lhe desordenados sobre os ombros e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lhas tisnado o sol dos desertos. Correra o Andaluz e o Mohgreb; espalhara por toda a parte os tesouros da sua família e os próprios tesouros até ao último direme, e em toda a parte deixara agentes e amigos fiéis. Depois veio viver nos cemitérios de Kórthoba, junto dos pórticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos em que pudesse oferecer-lhe a amargura e as angústias em troca do sangue de Mohammed-ibn-Ishak. O guerreiro chamou-se desde esse tempo Al-Ghafir, e o povo denominava-o Al-Muulin, o santo faqui..." Como sacudido por uma corrente eléctrica, Abdu-r-Rahman dera um pulo no almatrá ao ouvir estas últimas palavras e ficara assentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o sangue escumou-lhe nos lábios, e só pôde murmurar, já quase ininteligivelmente: - Maldito! - Boa cousa é a história - prosseguiu o seu algoz, sem mudar de postura - quando nos recordamos do nosso passado e não achamos lá para colher um único espinho de remorso! E o teu caso, virtuoso príncipe? Mas sigamos avante. "O santo faqui Al-Muulin foi quem instigou Al-Barr a conspirar contra Abdu-r-Rahman; quem perdeu Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu ânimo crédulo; quem te puniu com os terrores de tantos anos; quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar junto às portas do Inferno que, se foste o assassino de seu irmão, também o foste do próprio filho; para te dizer que, se cobriste o seu nome de ignomínia, também ao teu se juntará o de tirano. Ouve pela última vez o rir que responde ao teu riso de há dez anos. Ouve, ouve, califa!" Al-Ghafir, ou antes Umeyya, levantara gradualmente a voz e estendia os punhos cerrados para Abdu-r-Rahman, cravando nele os olhos reluzentes e desvairados. O velho monarca tinha os seus abertos e parecia, também, olhar para ele, mas perfeitamente tranquilo. A quem houvesse presenciado aquela tremenda cena não seria fácil dizer qual dos dois tinha mais horrendo gesto. Era um cadáver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante do cadáver era a expressão mais enérgica da atrocidade de coração vingativo..18 - Oh, se não ouviria as minhas derradeiras palavras!... - murmurou o faqui, depois de ter conhecido que o califa estava morto. Pôs-se depois a cismar largo espaço; as lágrimas rolavam-lhe a quatro e quatro pelas faces rugosas. Um ano mais de tormentos, e ficava satisfeito! - exclamou por fim. - Pudera eu dilatar-lhe a vida! Dirigiu-se então para a porta, abriu-a de par em par e bateu as palmas. Os eunucos, as mulheres e o próprio Al-Hakem, inquieto pelo estado de seu pai, precipitaram-se no aposento. Al-Muulin parou no limiar da porta, voltou-se para trás e, com voz lenta e grave, disse: Orai ao Profeta pelo repouso do califa. Houve quem o visse sair; quem, à luz baça do crepúsculo, o visse tomar para o lado de Córdoba com passos vagarosos, apesar das lufadas violentas de oeste, que anunciavam uma noite procelosa. Mas nem em Córdova, nem em Azzahrat, ninguém mais o viu desde aquele dia..19 ARRAS POR FORO DE ESPANHA (1371-1372) A ARRAIA-MIÚDA O sino das ave-marias ou da oração tinha dado na torre da Sé a última badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas que, apinhadas à roda do Castelo e como enfeitadas e comprimidas pela apertada cinta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nelas, viam-se fulgurar, aqui e acolá, as luzes interiores, enquanto as ruas, tortuosas e imundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naqueles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada do que a própria Rua Nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia aí desacostumado e estranho eram o completo silêncio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o Paço de a par S. Martinho, onde então residia el-rei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente caído na calmaria e sonolência que vem após a Procela. E assim era, com efeito, como o leitor poderá averiguar por Seus próprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado, quiser entrar connosco na mui afamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da Sé, na rua que sobe para os Paços da Alcáçova, sete ou oito portas acima dos Paços do Concelho. A taberna de misser Folco Taca, genovês que viera a Portugal ainda impúbere, como pajem de armas do famoso almirante Lançarote Pessanha, e que havia anos abandonara o serviço marítimo para se dar à mercancia, era a mais célebre entre todas as de Lisboa, não só pelo luxo do seu adereço e pela bondade dos líquidos encerrados nas cubas monumentais que a pejavam, mas também porque, em um aposento mais retirado e interior, uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos ou escabelos ofereciam todo o cómodo aos tavolageiros de profissão para perderem ou ganharem aí, em noites de jogo infrene, os belos alfonsis e maravedis de ouro ou as estimadas dobras de D. Pedro I, o qual, ao contrário dos seus antecessores e sucessores, julgara ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que roubando-lhe o valor intrínseco e aumentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no começo do seu reinar. Misser Folco soubera estender grossas névoas sobre os olhos do corregedor da Corte e de todos os saiões, algozes e mais família da nobre raça dos alguazis sobre a ilegalidade semelhante estabelecimento industrial. O elixir que ele empregara para produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse; mas é certo que não se perdeu com a alquimia, porque se vê que ele existe em mãos abençoadas, produzindo, ainda hoje, repetidos milagres, em tudo análogos a este. Era, pois, na taberna-tavolagem da Porta do Ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequência da vizinhança desta porta da antiga cerca, onde os ruídos vagos e incertos que sussurravam pelas ruas da cidade soavam mais alta e distintamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que transbordava até o breve terreirinho da Sé, falando todos a um tempo, acesos, ao que parecia, em violentas disputas, que às vezes eram interrompidas.20 pelo mais alto brado das pragas e blasfémias, indício evidente de que o sucesso que motivava aquela assuada ou tumulto era negócio que excitava vivamente a cólera popular. Já no fim do século décimo quarto era o povo, assim como hoje, colérico. Então cóleras de puerícia; hoje aborrimentos da velhice. Se na rua o burburinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de misser Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras ameaçadoras, sem que fosse possível perceber contra qual ou quais indivíduos se acumulava tanta sanha. Para outra parte, dentre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se revelava nos seus coromens de pano de Arrás, nos cintos escuros, nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esganiçadas nas quais se manifestavam, rotundamente impressos, o descaro e a insolência daquelas desgraçadas. Em cima dos bufetes viam-se pichéis e taças vazias, e debaixo de alguns deles corpos estirados, que simulariam cadáveres, se os assobios e roncos que, às vezes, sobressaíam através do ruído daquele respeitável congresso, não provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do entusiasmo, tinham adormecido na paz duma boa consciência. Enfim, a composta e bem reputada taberna do antigo companheiro de glória de misser Lançarote estava visivelmente prostituída e nivelada com as mais imundas e vis baiucas de Lisboa. O gigante popular tinha aí assentado a sua cúria feroz, e pela primeira vez o vício e a corrupção tinham transposto aqueles umbrais sem a sua máscara de modéstia e gravidade. Sobre os farrapos do povo não têm cabida os adornos de ouropel. É a única diferença moral que há entre ele e as classes superiores, que se crêem melhores, porque no ginásio da civilização aprendem desde a infância as destrezas e os momos de compostura hipócrita. O astro que parecia alumiar com a sua luz, aquecer com o seu calor aquele turbilhão de planetas; o centro moral à roda do qual giravam todos aqueles espíritos era um homem que dava mostras de ter bem quarenta anos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e cintilantes, cabelo negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bufetes que adornavam o amplo aposento e rodeado de uma grossa pinha de populares de ambos os sexos que o escutavam em respeitoso silêncio, a sua voz forte e sonora sobressaía no ruído e só se confundia com alguma jura blasfema que se disparava do meio das outras pinhas de povo ou com as modulações das risadas que vibravam naquele ambiente denso e abafado, de certo modo semelhantes a clarão afogueado que sulcasse rapidamente as trevas húmidas e profundas da cripta subterrânea de alguma igreja do sexto século. De repente, dois cavaleiros, cuja graduação se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças de seda golpeados e pelos cintos de pele de gamo lavrados de prata, entraram na taberna e, rompendo por entre o povo, que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circunstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daqueles cérebros vinolentos de o indagar; mas a mesma reflexão atou simultaneamente todas as mãos. Ao longo da coxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado direito e apertado no cinto, que a ponta erguida do capeirote deixava aparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de consideração, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens de armas, principalmente besteiras, quase todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o pôr-lhe o visto popular. Os dois desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que, de quando em quando, meneava a cabeça, fazendo um gesto de.21 assentimento: depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma espécie de receio misturado de respeito, e foram assentar-se em dois dos escabelos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bufete, com as cabeças apertadas entre os punhos, ficaram imóveis e como alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo à roda deles. Este durou breves instantes; um psiu do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquela banda. Subindo a um escabelo, deu sinal com a mão de que pretendia falar. - Ouvide, ouvide! - bradaram alguns que pareciam os maiorais daquela multidão desordenada. Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas mãos calosas erguerem-se encurvadas e formarem em volta das orelhas de seus donos uma espécie de anel acústico. o orador principiou: - Arraia-miúda! 20 Tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos bem-falantes e avisados para propor vossos embargos e razoados contra este maldito e descomunal casamento de el-rei com a mulher de João Lourenço da Cunha? - Todos à uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques - respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios de uma das lâmpadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares. - Quem há aí entre a arraia-miúda mais discreto e aposto para tais autos que vós? Quem com mais urgentes razões proporia nosso agravo e a desonra e vilta de el-rei, do que vós o fizestes hoje na mostra que demos ao paço esta tarde? - Alcácer, alcácer! por nosso capitão Fernão Vasques - bradou uníssona a chusma. - Fico-vos obrigado, mestre Bartolomeu Chambão! - replicou Fernão Vasques, sossegado o tumulto. - Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a adúltera chega a ser rainha; pelo de amanhã terei as mãos decepadas em vida, se el-rei com suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tende vós por averiguado, mestre Bartolomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da corda na garganta que eu o em Peitilho de saio ou em costura de redondel ou pelote, e que o Cutelo do algoz entra mais rijo no gasnate de um cristão que a vossa enxó numa aduela de pipa! - Nanja enquanto na minha aljava houver almazém, e a garrucha da besta me não estoirar - exclamou um besteiro do conto, cambaleando e erguendo-se debaixo de um bufete, para onde o haviam derrubado certas perturbações de entusiasmo político. - Amen, dico vobis! - gritou um beguino, cujas faca vermelhas e voz de Estentor brigavam com o hábito de grosseiro burel e com as desconformes camândulas que lhe pendiam da cinta. - Olé, Frei Roi Zambrana, fala linguagem cristenga, queres vir nesse bordo por nossa esteira - bradou um petintal de Alfama que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores, barqueiros e galeotes daquele bairro, então quase exclusivamente povoado de semelhante gente. - Digo por linguagem - acudiu o beguino - que ninguém como mestre Fernão Vasques é homem de cordura e sages para amanhã falar a el-rei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Teles, do mesmo modo que ninguém leva vantagem ao 20 Fernão Lopes dá a entender (Cr. de D. João I, p. LI, Cap. 44) que a denominação de arraia-miúda se começara a dar aos populares no princípio da revolta a favor do mestre de Avis, para os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor e dos Castelhanos; mas este título chocarreiro havia-o tomado para si o povo miúdo, já dantes e com muita seriedade. Em um documento de 1305 (Chancel. de D. Dinis, liv. 3º das Doações, f. 42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavaleiros, juizes e concelho de Bragança e toda a arraia-miúda..22 petintal Airas Gil em ousadia para fugir às galés de Castela e para doestar os bons servos da Igreja. Era alusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu à mordente desforra de Frei Roi, que abaixou os olhos com certo modo hipocritamente contrito, semelhante ao gato que, depois de dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou. Frei Roi era também, como Airas Gil, um ídolo popular, e a má vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascera da emulação; de uma dúvida cruel sobre a altura relativa do trono de encruzilhada, do trono de lama e farrapos em que cada um deles se assentava. Se, pois, aquela multidão não estivesse persuadida da superioridade intelectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dois oráculos não lhe teria deixado a menor dúvida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de ódio que nascera num dia, e num dia lançara profundas raízes nos corações de ambos. O marinheiro e O eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisonjeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dois resultados, o de ganharem mais crédito entre este e o de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broquéis populares. Mas que auto era esse de que o povo falava? Sabê-lo-emos remontando um pouco mais alto. O amor cego de el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço da Cunha, D. Leonor Teles, havia muito que era o pasto saboroso da maledicência do povo, dos cálculos dos políticos e dos enredos dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principais cavaleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho pronto e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse favorável. Quanto a el-rei, a paixão violenta em que este ardia lhe assegurava a ela o completo domínio no seu coração. Mas as miras daquela mulher, cuja alma era um abismo de cobiça, de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do que na triste vangloria de ver a seus pés um rei bom, generoso e gentil. Através do amor de D. Fernando ela só enxergava o refulgir da coroa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas carícias, a ideia primordial de todas as suas ideias. Leonor Teles não amava el-rei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor dela; e este príncipe, que seria um dos melhores monarcas portugueses, e que a muitos respeitos o foi, deixou na história, quase sempre superficial, um nome desonrado, por ter escrito esse nome na horrível crónica da nossa Lucrécia Bórgia. Uma dificuldade, quase insuperável para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha entre ela e os seus ambiciosos desígnios. Era casada! Um processo de divórcio por parentesco, julgado por juízes afectos a D. Leonor ou que sabiam até onde alcançava a sua vingança, a livrou deste tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, aterrado, fugiu para Castela, e D. Fernando, casado, segundo se dizia, a ocultas com ela, muito antes da época em que começa esta narrativa, viu enfim satisfeito o seu amor insensato. Aqueles dentre os nobres que ainda conservavam puras as tradições severas dos antigos tempos indignavam-se pelo opróbrio da Coroa e pelas consequências que devia ter o repúdio da infante de Castela, cujo casamento com el-rei, ajustado e jurado, este desfizera com a leveza que se nota como defeito principal no carácter de D. Fernando. Entre os que altamente desaprovavam tais amores, o infante D. Dinis, o mais moço dos.23 filhos de D. Inês de Castro, e o velho Diogo Lopes Pacheco 21 eram, segundo parece, os cabeças da parcialidade contrária D. Leonor: aquele pela altivez do seu ânimo; este por gratidão D. Henrique de Castela, em quem achara amparo e abrigo o tempo dos seus infortúnios, e que o salvara da triste sorte de Álvaro Gonçalves Coutinho e de Pêro Coelho, seus companheiros no patriótico crime da morte de D. Inês. O casamento de el-rei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desaprovavam souberam transmitir ao povo os próprios temores, e a agitação dos ânimos crescia à medida que os amores de el-rei se tornavam mais públicos. D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução que tomara, e estes, posto que a princípio lhe falassem com a liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo as suas diligências baldadas, contentaram-se de condenar com o silêncio essa mal-aventurada resolução. O povo, porém, não se contentou com isso. Conforme as ideias daquele tempo, além das considerações políticas, semelhante consórcio era monstruoso aos olhos do vulgo, por um motivo de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, como o será em todos os tempos em que a moral social for mais respeitada do que o era naquela época. Tal consórcio constituía um verdadeiro adultério, e os filhos que dele procedessem mal poderiam ser considerados como infantes de Portugal e, por consequência, como fiadores da sucessão da Coroa. A irritação dos ânimos, assoprada pela nobreza, tinha chegado ao seu auge, e a cólera popular rebentara violenta na tarde que precedeu a noite em que começa esta história. Três mil homens se tinham dirigido tumultuariamente às portas do paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e o estrépito que fazia aquela multidão desordenada assustou el-rei, que por um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão e procurador por eles, como lhe chama Fernão Lopes, afeou em termos violentos as intenções de el-rei, liberalizando a D. Leonor os títulos de má mulher e feiticeira e asseverando que o povo nunca havia de consentir em seu casamento adúltero. A arenga rude e veemente do alfaiate orador, acompanhada e vitoriada de gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu el-rei a responder com agradecimentos às injúrias, e a afirmar que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, prometendo ir na manhã seguinte aclarar com eles este negócio no Mosteiro de S. Domingos, para onde os emprazava. Com tais promessas, pouco a pouco se aquietou o Motim, e ao cair da noite o terreiro de a par S. Martinho estava em completo silêncio. Como se, na solidão, el-rei quisesse consultar consigo o que havia de dizer ao seu bom e fiel povo de Lisboa, as vidraças coradas das esguias janelas dos paços reais, que vertiam quase todas as noites o ruído e o esplendor dos saraus, cerradas nesta hora e caladas como sepulcro, contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrépito das ruas, com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de 21 Fernão Lopes afirma que Pacheco não tomara ao reino desde que fugira por escapar à vingança de D. Pedro I por causa da morte de D. Inês, senão do ano de 1372, em que viera por embaixador do rei D. Henrique. Isto parece inexacto; Frei Manuel dos Santos afirma o contrário fundado na restituição de todos os seus bens e títulos feita por D. Fernando no começo do seu reinado. Não é isto que prova a assistência de Pacheco em Portugal no ano de 1371, não só porque depois de vir podia voltar para Castela, mas também porque essa restituição podia ser feita estando e conservando-se ele ausente, visto que a fruição de um título ou de terras da Coroa, por simples mercê, não obrigando a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tomava necessária a presença do donatário no reino. O que prova a verdade da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371 (Chancel. de D. Fern., liv. 1º, f. 84) da terra de Trancoso para pagamento de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas quantias que os fidalgos estavam obrigados a fazê-lo..24 gente que se encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacilavam, ficavam imóveis, aglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para se aglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como elas. Feroz na sua cólera razoada, ferocíssimo no seu rir insensato, o vulgo passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava era o seu baile, a sua festa de triunfo; e as estrelas da serena noite de Agosto, semelhantes a lâmpadas pendentes de abóbada profunda, alumiavam o sarau popular, as salas do seu folguedo, a praça e a encruzilhada. Era conjuntamente truanesco e terrível. Na taberna de misser Folco (onde deixámos as personagens principais desta história, para inserir, talvez fora de lugar, o prólogo ou introdução a ela) as aclamações frenéticas dos populares tinham tornado indubitável que o propoedor para o ajuntamento do dia seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Frei Roi era de todos os circunstantes o que mais parecia ter a peito esta escolha, e o petintal Airas Gil ajudava-o poderosamente com o ruído dos amplos pulmões dos galeotes de Alfama, contraídos como em voga arrancada, vitoriando o seu capitão. O alfaiate não pôde resistir, nem, porventura, tinha vontade disso, a tanta popularidade e, em pé sobre o escabelo, com a cabeça levemente inclinada para o peito, numa postura entre de resignação e de bem-aventurança, tremulava-lhe nos lábios semiabertos um sorriso que revelava uma parte dos mistérios do seu coração. Enfim, quando a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça e com aspecto grave deu sinal de que ainda pretendia falar. Fez-se de novo silêncio. - Seja, pois, como quereis - disse o alfaiate -; mas vede o grão risco a que me ponho por vós outros. Falarei a el-rei com liberdade portuguesa; proporei vosso agravo e a desonra e feio pecado de sua real senhoria: mas é necessário que vós todos quantos aí sois estejais de alcateia e ao romper de alva no alpendre de S. Domingos. Dizem que a adúltera é mulher de grande coração e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavaleiros seus parentes e parciais. Besteiros deste concelho, que não vos esqueçam em casa vossas bestas e aljavas! Peoada de Lisboa, levai vossas ascumas! Os trons e engenhos do castelo - acrescentou o alfaiate em voz mais baixa e hesitando - não vos apoquentarão, ainda que el-rei o quisesse, porque o alcaide-mor João Lourenço Bubal não é dos afeiçoados a D. Leonor Teles. Santa Maria e Sant'Iago sejam convosco! Alcácer, alcácer pela arraia-miúda! A repousar, amigos! - Alcácer, alcácer! - respondeu a turbamulta. - Morra a comborça! - gritou Airas Gil com voz de trovão. - Morra a comborça! - repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos coromens de Arrás e cintos pretos que assistiam àquele conclave. - Olha, Airas, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor tem ouvido subtil - disse Frei Roi ao petintal com um sorriso diabólico. - Dor de levadigas te consumam, echacorvos! - replicou o petintal. - Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcácer por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castela e de feitiços! O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcáceres; entre risadas e pragas; entre ameaças vãs e insultos inúteis, aquela vaga de povo contida na taberna de misser Folco espraiou-se pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se pelas casinhas e choupanas que nessa época jaziam, não raro, deitadas junto às raízes dos palácios na velha e Opulenta Lisboa. Com os braços cruzados, o alfaiate contemplava aquela Multidão, que diminuía rapidamente, e cujo sussurro, alongando-se, era comparável ao gemido do tufão que.25 passa de noite pelas sarças da campina. Ainda ele tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto indelineável chamado povo, e já ninguém aí estavas salvo os dois cavaleiros, que se tinham conservado imóveis na mesma postura que haviam tomado, e Frei Roi, que se estirara sobre um dos bufetes e já roncava e assobiava, como em sono profundo. Os dois cavaleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um ainda a barba de homem não pungia nas faces; o outro, na alvura das melenas brancas, que trazia caídas sobre os ombros à moda de Castela, e no rosto sulcado de rugas certificava ser já bem larga a história da sua peregrinação na Terra. O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois para o velho, com um gesto de impaciência. Este olhou também para ele e sorriu-se. Depois, o ancião chamou o alfaiate em voz baixa, mas perceptível. Este, como se caísse em terra da altura dos seus pensamentos, estremeceu e, saltando do escabelo, onde ainda se conservava em pé, encaminhou-se rapidamente para os dois cavaleiros. - Senhor infante, que vossa mercê me perdoe e o senhor Diogo Lopes Pacheco! A fé que, no meio deste arruído, quase me esquecera de que éreis aqui. Estais desenganados por vossos olhos de que posso responder pelo povo, e de que amanhã não faltarão em S. Domingos? - Na verdade - respondeu o mancebo - que tu governas mais nele que meu irmão, com ser rei! Veremos se amanhã te obedecem, como te obedeceram hoje. - És um notável capitão - acrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo no ombro do alfaiate. - Se fosses capaz de reger assim em hoste uma bandeira de homens de armas, merecerias a alcaidaria de um castelo. - Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite ou de dia, àquele que de mim tivesse preito e menagem. - Bem dito! - interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que começara. - Se ta negarem, não será por não trazeres já bem estudadas as palavras do preito. Tem a certeza de que hás-de ir longe, Fernão Vasques; muito longe! Assim eu a tivera de que não me será preciso coser à ponta de punhal a boca de quem ousar dizer que o infante D. Dinis e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna do genovês Folco Taca. Quando estas últimas palavras, proferidas lentamente, saíram, dos lábios do que as proferira, os roncos e assobios do beguino que dormia foram mais rápidos e trémulos. - Quem é aquele echacorvos? prosseguiu Diogo Lopes, apontando para Frei Roi, com gesto de desconfiança. - É um dos nossos - respondeu o alfaiate -, um dos que mais têm encarniçado a arraia-miúda contra a feiticeira adúltera. Na assuada desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos Paços de El-Rei. Por este respondo eu. Não tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe coser a boca à ponta de vosso punhal. - Responde por ti, honrado capitão da arraia-miúda - replicou o velho cortesão. - Quem me responde por ele é o seu dormir profundo; quem me responderia por ele, se, acordando, nos visse aqui, seria este ferro que trago na cinta. Agora o que importa. Enquanto amanhã el-rei se demorar em S. Domingos, um troço de arraia-miúda e besteiras há-de acometer o paço, e, ou do terreiro ou rompendo pelos aposentos interiores, é arado por necessário que uma pedra perdida, um tiro de besta disparado por uma ascuma brandida em algum corredor escuro nos assegure que el-rei não pode deixar de atender às súplicas dos seus leais vassalos e dos cidadãos de Lisboa. - Morta! - exclamou o infante, com um gesto de horror. Não, não, Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como....26 - Como ensanguentei os Paços de Santa Clara - atalhou Pacheco -, dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos disso, porque eu posso e valho com el-rei de Castela! Senhor infante, a ambição tem que saltar muitas vezes por cima dos vestígios de sangue! Vós passastes avante e não vistes os do sangue de vossa mãe! Porque hesitareis, ao galgar os do sangue de Leonor Teles? Senhor infante, quem sobe por sendas íngremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recua. D. Dinis tinha-se tornado pálido como cera. Não respondeu nada; mas dos olhos rebentaram-lhe duas lágrimas. Fernão Vasques escutou a prelecção política do velho matador de D. Inês de Castro com religiosa atenção. E resolveu lá consigo não se deixar cair no fojo. - Far-se-á como apontais - disse ele, falando com Diogo Lopes mas, se os homens de armas e besteiras de João Lourenço Bubal descerem do castelo... - Não te disse, ainda há pouco, que João Lourenço ficaria, quedo no meio da revolta? Podes estar sossegado, que não te, certifiquei disso para animares o povo. É a realidade. Agora trata de dispor as cousas para que não seja um dia inútil o dia de amanhã. Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saiu da taberna e tomou com ele o caminho da Alcáçova. Fernão Vasques ficou um pouco cismando: depois saiu, dirigindo-se para a Porta do Ferro e repetindo em voz baixa: - Não me precipitarei no fojo! Passados alguns instantes de silêncio, Frei Roi alevantou devagarinho a cabeça, assentou-se no bufete e pôs-se a escutar; depois saltou para o chão, apagou a lâmpada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca, logo que o povo tumultuariamente a inundara, chegou à porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da Sé da banda do norte e, como um fantasma, desapareceu cosido com a negra e alta parede da catedral. II O BEGUINO Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edifício imundo, miserável, insalubre, que por si só bastara a servir de castigo a grandes crimes 22 , ainda vê na extremidade dele umas ruínas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janela gótica. Esta parede e esta janela são tudo o que resta dos antigos Paços de a par S. Martinho, igreja que também já desapareceu, sem deixar, sequer, por memória um pano de muro, uma fresta de outro tempo. O Limoeiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e da segunda dinastia foram mais vezes habitados por eles. Conhecidos sucessivamente pelos nomes de Paços de El-Rei, Paços dos Infantes, Paços da Moeda, Paços do Limoeiro, a sua história vai sumir-se nas trevas dos tempos. São da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Santa Maria Maior, da venerando catedral de Lisboa, é um mistério! Se, transfigurada pelos terramotos, pelos incêndios e pelos cónegos, nem no seu arquivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas pode achar a certidão do seu nascimento e dos anos da sua vida! Como as da igreja, as ruínas da monarquia dormem em silêncio à roda de nós, e, envolto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado delas, e nem sequer indaga porque jazem aí! 22 Isto era escrito em 1844..27 Na memorável noite em que se passaram os sucessos narrados no capítulo antecedente, essa janela dos paços de El-Rei era a única aberta em todo o vasto edifício, mas calada e escura, como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse atento do meio do terreiro enxergaria o que quer que fosse, alvacento, que ora se chegava à janela, ora se retraía. Mas o silêncio que reinava naqueles sítios não era interrompido pelo menor ruído. De repente, um vulto chegou debaixo da janela e bateu devagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou à janela, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegara subiu rapidamente, e ambos desapareceram através dos corredores e aposentos do paço. Em um destes últimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia-idade e gentil presença. Os seus passos eram rápidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando, parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois, continuava a passear, parando, às vezes, com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas. Por fim, o reposteiro ondeou de alto a baixo e franziu-se no meio; mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, e após ela um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cinto de esparto, donde pendiam umas grossas camândulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo duma das paredes do aposento. O homem que passeava assentou-se, também, no único escabelo que ali havia. Frei Roi, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada. - Aproxima-te, beguino! - disse com voz trémula el-rei; porque era el-rei D. Fernando o homem que se assentara. Frei Roi deu uns poucos de passos para diante. - Que há de novo? - perguntou el-rei. O povo cada vez está mais alvorotado e jura falar rijamente amanhã a vossa senhoria. Mas essa não é a pior nova que eu trago! - Fala, fala, beguino! - acudiu el-rei, estendendo a mão convulsa para o echacorvos. - É que amanhã, enquanto vossa senhoria estiver em S. Domingos, o paço será acometido. Pretendem matar... - Mentes, beguino! - gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagais da Ásia. - Mentes! Podem não me querer rainha: mas assassinar-me! Isso é impossível. Amo muito o povo de Lisboa: tenho-lhe feito as mercês que posso; não me há-de odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a opor-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Teles. - Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na minha vida - replicou o echacorvos, com ar contrito. - Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá três credos, na taberna de Folco Taca. - Miseráveis! - bradou, erguendo-se também, el-rei, a quem o risco da sua amante restituíra por um momento a energia. - Miseráveis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pai? Tê-lo-ão. Quem ousa ordenar tal cousa? - Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Dinis, estava, também, com eles - respondeu Frei Roi. O beguino era o espia mais sincero e imperturbável de todo o mundo. - Velho assassino! - exclamou D. Fernando. - Cobriste de luto eterno o coração do pai: queres cobrir o do filho. E tu, Dinis, que eu amei tanto, também entre os meus.28 inimigos! Leonor, que faremos para te salvar? Aconselha-me tu, que eu quase enlouqueci! O pobre e irresoluto monarca cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos lábios esbranquiçados revelavam mais ódio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo e, em tom de mofa, respondeu: - Sim, senhor rei, na falta de vossos leais conselheiros, posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordai vossos pajens, que vão pregar um poste à porta destes paços. e mandai-me amarrar a ele, para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquilamente amanhã, sem profanar os vossos aposentos reais. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor à vossa pessoa, da sua obediência aos vossos mandados. - Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas! - gritou D. Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos joelhos, com um choro convulso. - Que te fiz eu para me tratares tão cruelmente? - D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavaleiro, ou ele vem colocar a ascuma do peão sobre o trono real. Quem não sabe brandir o ferro cede; deixa-o reinar. - Tens razão, Leonor! - disse D. Fernando, enxugando as lágrimas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. - Serei filho de D. Pedro, o cruel; serei sucessor de meu pai. Eu mesmo vou ao alcácer examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de cadáveres: os montantes e as bestas dos homens de armas e besteiras do meu alcaide-mor de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessário for, com minhas próprias mãos ajudarei a pôr fogo à cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada. D. Fernando voltou-se rápido para a porta do aposento. Frei Roi estava imóvel diante dele. - João Lourenço Bubal - disse o espia, sem mudar de tom nem de gesto - é dos revoltosos. Ouvi-o da boca do próprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão Vasques. Os trons do alcácer estão desaparelhados, e a maior parte dos homens de armas e besteiras do alcaide-mor eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que eles chamam... - Cala-te, beguino! gritou el-rei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a boca. O echacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar e ficou outra vez imóvel diante de D. Fernando, a quem este último golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade. -...a adúltera - prosseguiu Frei Roi acabando a frase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual no desempenho do seu ministério. - Beguino! - atalhou D. Leonor, com voz trémula de raiva - melhor fora que nunca essa palavra te houvesse passado pela boca; porque, talvez, um dia ela seja fatal para os que a tiverem proferido. - Mas que faremos!? - murmurou el-rei com gesto de indizível agonia. - Havia ainda há pouco três expedientes - respondeu D. Leonor, recobrando aparente serenidade - : combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo!... Por que não o aceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede à força: os teus vassalos o querem; qué-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!.29 - Esquecer-me de ti? Não te ver mais? Nunca! Obedecer à força? Quem há aí que ouse dizer ao rei de Portugal: "Rei de Portugal, obedece à força"? Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo de batalha corte arneses, como a do melhor cavaleiro? Bons escudeiros e homens de armas da minha hoste, por onde andais derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará, como me acordou a mim; bramirá, como os lobos da serra, ao redor de vossas moradas; saltear-vos-á no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores, dir-vos-á: "Desamai!" Ele ousa já dizê-lo a seu rei e senhor... Oh desgraçado de mim, desgraçado de mim! - Não queres, pois, deixar-me entregue à minha estrela? - disse D. Leonor, com voz entre de choro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarca e chegando a sua fronte suave e pálida às faces afogueadas de D. Fernando, que, numa espécie de delírio, olhava espantado para ela. - Não, não! Viver contigo ou morrer contigo. Cairei do trono ou tu subirás, a ele. Um sorriso quase imperceptível se espraiou pelo rosto de Leonor Teles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, prosseguiu com voz lenta, mas firme: - Então resta o fugir. - Fugir! - exclamou el-rei. E só esta palavra era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martírios que o mal-aventurado curtia no coração irresoluto, mas generoso, com a ideia de um feito, vil e covarde em qualquer escudeiro. vilíssimo e torpíssimo num rei de Portugal, em um neto de Afonso IV. El-rei olhou para ela um momento. Era sereno o seu rosto angélico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas iluminuras de antigos códices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do século décimo quinto, a arte moderna a muito custo pôde fazer ressurgir. O mais experto fisionomista dificultosamente adivinharia a negrura da alma que se escondia debaixo das puras e cândidas feições de D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobrolhos, contraindo-se e deslizando-se rapidamente, como as vesículas peçonhentas das fauces duma víbora. - Seja, pois, assim! Fujamos - murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o supliciado daria do alto do patíbulo o perdão ao algoz. D. Leonor tirou do largo cinto com que apertava a cintura uma bolsa de ouropel e atirou com ela aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semiabertos cravados na abóbada do aposento, parecia extático e engolfado nos pensamentos sublimes do Céu. - Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silêncio. O resto da recompensa tê-lo-ás um dia, se a adúltera atravessar triunfadora o portal por onde vai sair fugitiva. O rir afável de que estas palavras foram acompanhadas fizeram correr um calafrio pela medula espinal do echacorvos, cujas pernas vacilaram. Mas o contacto das quarentas dobras, que uniu imediatamente ao peito debaixo do escapulário, lhe restituiu o vigor natural. El-rei havia-se assentado, quase desfalecido, no escabelo único do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolsa, D. Fernando fitou nele os olhos e estendeu a mão para o reposteiro, sem dizer palavra. Frei Roi curvou a cabeça, cruzou de novo as mãos sobre o peito e, recuando até à porta, desapareceu no corredor escuro por onde entrara. Apenas os passos lentos e pesados do echacorvos deixaram de soar, D. Leonor encaminhou-se para uma janela que dava para um vasto terrado e afastou a cortina que.30 servia durante o dia de mitigar a excessiva luz do Sol. A noite ia em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal alumiavam o aposento, e a Lua, já no minguante, começava a subir na abóbada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplêndido das estrelas. A janela estava aberta, e o escabelo de el-rei ficava próximo e fronteira: o luar batia de chapa no rosto belo e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado cismar, parecia alheio ao que passava à roda dele e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomara. Leonor Teles, encostada ao mainel da janela, pôs-se a olhar atentamente. A cidade dormia, e apenas o ladro de algum cão cortava aquela espécie de zumbido que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo, uma faixa trémula, semelhante a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Tejo, donde mais largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade, desde Sacavém até o promontório onde campeava, fora dos arrabaldes, o Mosteiro de S. Francisco, formavam uma espécie de floresta lançada entre a cidade e a sua imensa baía. Desde o terrado para o qual dava a janela até o rio, o Bairro dos Judeus, pendurado pela encosta íngreme e fechado com traveses e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma espécie de triângulo, cuja base assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vértice, voltado para o ocidente, se coroava com a sinagoga, abrigada à sombra do vulto disforme da catedral. Pouco distante do terrado, entre o palácio e a judiaria, a claridade da Lua batia de chapa em um terreiro irregular rodeado de mesquinhas e meio arruinadas casas, que pela maior parte pareciam desabitadas. No meio dele, o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portal romano. Parecia ser uma ruína, um fragmento de edifício da antiga Olisipo, que esquecera ali aos terramotos, às guerras e aos incêndios, e ao qual finalmente chegara a sua hora de desabar, porque uma alta escada de mão estava encostada à verga que assentava sobre os dois pilares laterais e os unia, como se ali a tivessem posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra. Era para esse vulto que D. Leonor se pusera a olha atentamente. Depois voltou o rosto para el-rei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos e, estendendo para ele os braços, exclamou: - Fernando! Havia no tom com que foi proferida esta única palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas, no meio da brandura da voz de Leonor Teles, havia também uma corda áspera; alguma cousa do rugir do tigre. El-rei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faísca eléctrica; ergueu-se, e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Teles. - Amanhã - disse ele com voz afogada -, o rei mais desonrado da cristandade serei eu: o cavaleiro mais vil das Espanhas será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Por que não me pedem antes a coroa real, que para mim tem sido coroa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh, Leonor, Leonor! Serias a mulher mais perversa, se um dia me atraiçoasses. Um beijo da adúltera cortou as lástimas de el-rei. A formosura desta mulher tinha um toque divino à claridade da Lua. D. Fernando, embriagado de amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por ele. - Fernando! - prosseguiu D. Leonor - jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua. Dizendo isto, afastou-o brandamente de si..31 - Juro-to uma e mil vezes pela fé de leal cavaleiro que até hoje fui. Juro-to pelo Céu que nos cobre. Juro-to pelos ossos de meu nobre e valente avô, que ali dorme junto ao altar-mor da Sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-to por mais que tudo isso: juro-to pelo meu amor! - Bem está, rei de Portugal - atalhou D. Leonor. - Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça. - Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz, como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruínas dela! Não me peças Lisboa, que talvez amanhã deixe de me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quiseres. - Quero que me dês as minhas arras: quero o preço do meu corpo, conforme foro de Espanha. - Vila Viçosa é alegre como um horto de flores, e Vila Viçosa dar-ta-ei eu. O castelo de Óbidos é forte e roqueiro, são numerosos e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castelo de Óbidos será teu. Sintra pendura-se pela montanha entre lençóis de águas vivas, e respira o cheiro das ervas e flores que crescem à sombra das penedias: podes ter por tua a Sintra. Alenquer é rica no meio das suas vinhas e pomares, e Alenquer te chamará senhora. - Guarda as tuas vilas, D. Fernando, que eu não tas peço em dote: quero, apenas, uma promessa de cousa de bem pouca valia. - De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-ei o que me pedires. D. Leonor estendeu a mão para a espécie de portada romana que se erguia solitária no meio do terreiro deserto: - É ali que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo do teu jugo real. El-rei lançou um rápido volver de olhos para onde Leonor Teles tinha o braço estendido, mas recuou horrorizado. O vulto que negrejava no meio do terreiro, era o patíbulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldita! - Leonor, Leonor! - disse el-rei com som de voz cavo e débil - por que vens misturar pensamentos de sangue com pensamentos de amor? Por que interpões um instrumento de morte e de afronta entre mim e ti? Por que preferes o fruto do cadafalso às vilas e castelos de que te faço senhora? Por que trocas a estola do clérigo que há-de unir-nos pelo baraço áspero do algoz? - Rei de Portugal! - respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha, com um brado de furor - ainda me perguntas por que o faço? Tu nunca serás digno do ceptro de teu pai! Queres saber por que ajunto pensamentos de sangue a pensamentos de amor? É porque esses de quem eu o peço pediram também o meu sangue. Queres saber por que interponho entre mim e ti um instrumento de morte e de afronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quis também interpor entre nós a morte e saciar-me de afrontas. Queres que te diga por que prefiro o fruto do cadafalso às vilas e castelos que me ofereces? E porque para os ânimos generosos não há vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassalos que me perseguem serão também perseguidos, e que essa vil plebe que cobre de injúrias e pragas o meu nome porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus caudilhos ao patíbulo. Este é ò preço do meu corpo. Sem esse preço, a neta de D. Ordonho de Leão 23 nunca será mulher de D. Fernando de Portugal. 23 A família de Leonor Teles supunha-se descender de D. Ordonho II, rei de Leão..32 E com um braço estendido para o lugar sem nome 24 do suplício e com o outro curvado, como quem afastava de si el-rei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade. - Tens razão, Leonor - disse por fim D. Fernando, depois de largo silêncio, em que os afectos inconstantes do seu carácter volúvel mudaram gradualmente. - Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desagravo: as línguas que te ofenderam calar-se-ão para sempre; os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu trono, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-á a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no Inferno, se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injúria. A estas palavras, o aspecto severo de D. Leonor Teles mudou-se em um sorrir de inexplicável doçura. - Ah, como te hei-de amar sempre! - murmurou ela. E estas palavras caíam dos seus lábios meigos e suaves, como o arrulhar de pomba amorosa. Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, asselou esse pacto de ódio e de extermínio. III UM BULHÃO E UMA AGULHA DE ALFAIATE O Sol, que havia mais de meia hora subira do oriente cingido da sua auréola de vermelhidão, no meio da atmosfera turva e acinzentada de um dia dos fins de Agosto, dava de chapa no rossio ou praça onde avultava o Mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas e pomares, que verdejavam pelo vale da Mouraria, ao oriente, e pelo de Valverde, ao norte. Já muitos besteiras e peões armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos Paços de Lançarote Pessanha fronteiras ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas de Almafala 25 , outros do Arrabalde da Pedreira ou Bairro do Almirante 26 , outros da banda da Alcáçova, outros, enfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que iam dar à opulenta e célebre Rua Nova 27 . Homens e mulheres apinhavam-se, aos dez e aos doze, no meio da praça e às bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, chamavam-se uns aos outros. As vezes, aquela mó de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superfície de um pego, passando o tufão. Incerta, vacilante, informe, subitamente se configurava, alinhava-se e, semelhante a triângulo enorme, a quadrela gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Aí hesitava, ondeava e retraía-se, como ressaltaria a folha contadora de uma acha de armas quando não pudesse romper as portas chapeadas de forte castelo. Então, aquela multidão tomava a forma de meia-lua, cujas pontas se encurvavam pelos lados de 24 Lugar sem nome . Nós pelo menos não nos atrevemos a pôr-lho. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto da Igreja de S. João da Praça, freguesia cuja existência data pelo menos do tempo de D. Afonso III. (Mem. Para as Inquir., Doc. 2.0). Talvez o terreiro ou praça em que ela estava desse o cognome à paróquia. Desconfiamos, todavia, de que este terreiro se estendesse para o lado oriental da Sé, e que nesse caso o seu nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa D. Martinho (Chancel. de D. João I, liv. 2º) de uns pardieiros no chão de Aljami, que partem para os paços do dito bispo, para fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o lado oriental da Sé. Além disso, Aljami parece derivar-se do arábico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço e as mãos. 25 Hoje o monte da Graça. 26 Hoje o bairro dentro da Rua Larga de S. Roque, Chiado, Rua do Ouro, Rossio e calçada do Duque. 27 Hoje Rua dos Capelistas..33 Valverde e da Mouraria e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, donde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme às vezes por séculos, fora acometido duma das suas raras insónias e vivia essa possante vida da praça pública, em que de ordinário é ridículo e feroz, mas em que não raro é sublime e terrível. Era a manhã imediata à noite em que ocorreram os sucessos narrados antecedentemente. O povo preparava-se para uma luta moral com o seu rei; mas não se descuidara de vir prestes para uma luta física, se D. Fernando quisesse apelar para este último argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraia-miúda dava mostras da sua força e reivindicava o direito de dizer armada - não quero! O elemento democrático erguia-se para influir activamente na monarquia; enxertava-se nela, como princípio político, a par da aristocracia, que, com a manopla de ferro, arrojava a plebe contra o trono, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força popular, se valeria dela para esmagar aqueles que ora sopravam os ânimos para a revolta e davam nova existência ao vulgo. A hora aprazada para a vinda de el-rei ainda não havia batido: mas o povo, orgulhoso da importância que subitamente se lhe dera. embevecido na ideia de que obrigaria el-rei a quebrar os laços adulterinos que o uniam a Leonor Teles, não media o tempo pelo curso do Sol, mas sim pelo fervor da sua impaciência. Duas vezes se espalhara a voz de que D. Fernando chegara, e duas vezes o povo correra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porém, fechadas, bem como a Portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro gótico, que, formado apenas de um pavimento térreo e humilde, contrastava com a magnificência do templo, em cujas portadas profundas, sobre os colunelos pontiagudos que sustinham os fechos e chaves da abóbada, os animais monstruosos e híbridos, os centauros, os sátiros e os demónios, avultados na pedra dos capitéis, por entre as folhagens de carvalho e de lódão, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimira o escultor, escarnecerem da cólera popular, que, lenta como os estos do oceano, começava a crescer e a trasbordar. Apenas, lá dentro, se ouviam, de vez em quando, as harmonias saudosas do órgão e do cantochão monótono dos frades, que ofereciam a Deus as preces matutinas. Era então que o povo escutava: e retraía-se arrastado pelas blasfémias e pragas que saíam de mil bocas e que eram repetidas do santuário pelo sussurro dos cânticos que reboavam dentro da igreja e que transudavam por todos os poros do gigante de pedra um murmúrio de paz, de resignação e de confiança em Deus. O povo, porém, era como os homens robustos do Génesis: era ímpio, porque era robusto. O dia crescia, e crescia com ele a desconfiança. As noticias corriam encontradas: ora se dizia que el-rei cedera aos desejos dos seus vassalos e dos peões, e que viria anunciar ao povo a sua separação de Leonor Teles; ora, pelo contrário, se asseverava que ele era firme em sustentar a resolução contrária. Havia, até quem asseverasse que na Alcáçova e no terreiro de S. Martinho se começavam a ajuntar homens de armas e besteiras. A cólera popular crescia, porque a atiçava já o temor. No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemes, dois homens altercavam violentamente: eram Airas Gil e Frei Roi: objecto da disputa Fernão Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino. - Que não virá, vos digo eu - gritava Airas Gil. - Disse-mo Garciordonez, o mercador de panos que mora ao cabo da Rua Nova, aos Açougues, defronte das taracenas de el-rei..34 Mentiu pela gorja, como um perro judeu - replicou Frei Roi. - Não era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraia-miúda elegido por seu propoedor. - Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados e fazê-los dormir até desoras - retrucou o petintal. - Que fazem falar as dobras do paço, sei eu - tornou o beguino com riso sardónico, lembrando-se do que nessa noite passara -; medo sabeis vós que faz fugir; inveja sabemos nós todos que faz imaginar... - Descaro e gargantoíce que faz mendigar - interrompeu Airas Gil, vermelho de cólera, cerrando os punhos e descaindo para o echacorvos, como galé que vai aferrar outra em combate naval. - Exconimunicabo vos - murmurou Frei Roi, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal. E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas. Nisto os gritos de alcácer! alcácer! reboaram para outro lado da praça: o povo correu para lá. Os dois campeadores voltaram-se: era o alfaiate. Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo desprezo para Airas Gil e, tomando uma postura entre heróica e de inspirado, estendeu o braço e o índex para o lugar onde passava Fernão Vasques. Depois, partiu com a turbamulta que o rodeava, enquanto o petintal o seguia de longe, lento e cabisbaixo. O alfaiate, cercado de outros cabeças do tumulto da véspera, encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma saia 28 de valencina reforçada, calças de bifa, sapatos de pele de gamo, chapeirão de ingrês com fita de momperle e cinta de couro, tudo escuro, ao modo popular. Com passos firmes, subiu os degraus do alpendre. Dali, em pé, com os braços cruzados, correu com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera repentino silêncio. Depois, tirando o chapeirão, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram já os de um tribuno. - Alcácer, alcácer pela arraia-miúda! Alcácer por el-rei D. Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senão!... Esta exclamação de um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre foi repetida em grita confusa por milhares de bocas. De repente, do lado da Rua de Gil Eanes, sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que parecia correrem à rédea solta: todos os olhos se volveram para aquela banda: muitos rostos empalideceram. Uma voz de terror girou pelo meio das turbas. "São homens de armas de el-rei!" Aquele oceano de cabeças humanas redemoinhou, a estas palavras, e começou a dividir-se, como o mar Vermelho diante de Moisés. Num momento, viu-se uma larga faixa esbranquiçada cortar aquela superfície móvel e escura: era ampla estrada que se abrira por entre ela, desde a Rua de Gil Eanes até S. Domingos. As paredes dessa estrada adelgaçavam-se rapidamente. Para as bandas da Mouraria e da Pedreira, os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas cintilavam ao sol, começaram a descer e a sumir-se, como as luzinhas das bruxas em sítio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernão Vasques olhou em redor de si: estava só. Descorou; mas ficou imóvel. Entretanto, o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído: os besteiras do concelho, postados ao longo dos Paços do Almirante, eram, talvez, os únicos em quem o terror não fizera profunda impressão: alguns já haviam estendido sobre o braço da besta os virotes ervados e, revolvendo a polé, faziam encurvar o arco para o tiro. Os 28 Muitos dos trajos civis do século décimo quarto eram comuns a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes comuns, como se pode ver da lei de Afonso IV acerca dos trajos..35 besteiras de garrucha tinham já o dente desta embebido na corda, prontos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nus dos cavaleiros e escudeiros reais. Do resto do povo, os ousados eram os que recuavam; porque o maior número voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e das vinhas de Almafala ou trepava pelas ruas escuras e mal-gradadas do Bairro do Almirante. Mas, no meio deste susto geral, aparecera um herói. Era Frei Roi. Ou fosse imprudente confiança no cargo oculto que lhe dera D. Leonor, ou fosse robustez de ânimo, ou fosse, finalmente, a persuasão de que o hábito de beguino, lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua donde rompia o ruído e, mirando pela aresta do ângulo em breve espaço, voltou-se para o povo e, curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas. Tudo ficou pasmado; mas, vendo e ouvindo o rir descompassado do echacorvos, o povo começou a refluir para a praça. Aquelas risadas produziam mais ânimo e entusiasmo que os quarenta séculos vos contemplam de Napoleão na batalha das Pirâmides. Os amotinados recobraram num instante toda a anterior energia. Esta cena tinha sido rapidíssima; todavia, ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se reconheceu claramente a causa daquele temor que apertara por algum tempo todos os corações. Era a corte que chegava. Montados em mulas possantes, os oficiais da casa real, os ricos-homens, conselheiros e juízes do desembarco vinham assistir ao auto solene em que da boca de el-rei a nação devia ouvir uma resolução conforme com os desejos tanto da arraia-miúda como dos senhores e cavaleiros, ou a confirmação de um casamento mal-agourado por muitos nobres e por todos os burgueses, e condenado, de não duvidoso modo, por estes últimos. No meio das variadas cores dos trajos cortesãos negrejavam as garnachas dos letrados e clérigos do paço, e entre o reluzir dos esplêndidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassalos seculares, dos alcaides-mores e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados que constituíam O supremo tribunal da monarquia, a cúria ou desembarco de el-rei. A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado. Em todos os rostos transluzia o receio acerca de qual seria o desfecho deste drama terrível e imenso, em que entravam representantes de todas as classes sociais. Entre os membros daquela lustrosa companhia distinguia-se Por seu porte altivo o conde de Barcelos, D. João Afonso Telo, tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa época se dá por excelência o nome de fiel conselheiro. Quando os amores de el-rei com sua sobrinha começaram, ele fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligências para desviar o monarca de levar avante os seus intentos. D. Fernando persistira, todavia, neles, e então o conde, juntamente com a infanta D. Beatriz 29 e com D. Maria Teles, irmã de D. Leonor, suscitara a ideia de a divorciar de João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Teles, odiava principalmente o conde, como protector daqueles adúlteros amores. Foi, portanto, nele que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado até a altura do trono, ousavam, também, dar testemunho público do seu ódio contra o mais distinto membro da fidalguia 30 . - Velha raposa, em que te pese, não será a adúltera rainha da boa terra de Portugal! - gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pé dele, mas olhando de través para o conde, que perpassava. 29 D. Beatriz era irmã dos infantes D. João e D. Dinis e meia-irmã de el-rei. 30 O título de conde era o de maior proeminência entre nós, e João Afonso Telo era, então, o único que em Portugal tinha semelhante título..36 - Leal conselheiro de barreguices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenço? - perguntava um alfageme, fingindo falar a um vizinho, mas lançando também os olhos para D. João Afonso Telo. - Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo? acudiu um lagareiro calvo e acurvado debaixo do peso dos anos. - Deixai-os morder uns aos outros, que é sinal de Deus se amercear de nós. - O que eles mereciam - interrompeu uma regateira - era serem atagantados 31 com boas tiras de couro cru. - E ela, tia Dordia? - acrescentou um ferreiro. - Conheceis vós a comborça? As varas a quisera eu: uma do alcaide no chumaço; outra do coitado nas costas dela! 32 - É costume, ergo direita a pena - notou um procurador, que gravemente contemplava aquele espectáculo e que até ali guardara silêncio. Estas injúrias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcelos, que, fingindo não lhes dar atenção, empalidecia e corava sucessivamente e mordia os beiços de cólera. De quando em quando, o vociferar afrontoso da gentalha era afogado no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injúrias; porque no rir do vulgo há o que quer que seja tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o ânimo mais robusto. Entre os parciais de D. Leonor que vinham naquela comitiva viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados que ou eram pessoalmente seus inimigos ou, pelo menos, desaprovavam alta e francamente a sua união com el-rei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre eles, e o povo, ao vê-lo passar, saudou-o com um murmúrio que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devera a um caso análogo, a morte de D. Inês de Castro. Quando os fidalgos, cavaleiros e letrados da casa e conselho de el-rei se apearam junto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praça, subiu após eles e esperou que se assentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidão apinhada ao redor: - Se el-rei ainda não é presente - disse em voz inteligível e firme -, aí tendes para ouvir vossos agravamentos os senhores do seu conselho: porventura que eles poderão dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e ele virá depois confirmar o seu dito. - Senhor Fernão Vasques, sois o nosso propoedor: a vós toca falar - replicou um do povo. - Assim o queremos! assim o queremos! - bradou a turba-multa. O alfaiate voltou-se então para os cortesãos, conselheiros e letrados do desembarco de el-rei, e disse: - Senhores, a mim deram cárrego estas gentes que aqui estão juntas de dizer algumas cousas a el-rei nosso senhor que entendem por sua honra e serviço; e porque é direito escrito que, sendo as partes principais presentes, o ofício de procurador deve cessar no que elas bem souberem dizer, vós outros que sois principais partes neste feito, e a que isto mais tange que a nós devíeis dizer isto, e eu não: porém, não embarcando 31 Açoitados. 32 Segundo vários cadernos legais do nosso direito consuetudinário e municipal, em certos casos aplicava-se às mulheres casadas a pena de que reza o discurso do ferreiro. O alcaide vinha a casa da criminosa, punha no chão um travesseiro, pegava numa vara e começava a bater em cima dele, fazendo-lhe o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo por que as mulheres estava às varas, pena que, com menos aparato, se aplicava, também, aos homens por muitos e diversos delitos..37 que assim seja, eu direi aquilo de que me deram cárrego, pois vós outros em elo não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis pouco da honra e serviço de el-rei...33 - Cala-te vilão! - bradou, erguendo-se, o conde de Barcelos, com voz afogada da cólera, que já não podia conter - se não queres que seja eu quem te faça resfolegar sangue, em vez de injúrias, por essa boca sandia. O velho Pacheco pôs-se também em pé, exclamando: - Conde de Barcelos, lembrai-vos de que os burgueses tem por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus agravamentos, de se queixarem e de os repreenderem. Nós somos menos que os reis. Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação, e havia feito um sinal com a cabeça. No mesmo instante o povo abrira uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, atentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rossio, ao tropear da multidão, um semicírculo de mais de quinhentos besteiras e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos populares. Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Afonso Telo e, com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço, disse-lhe: - Senhor conde, vós sois que doestais os honrados burgueses desta leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz, senão repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram que repetisse. O que propus não é meu. Eis seus autores! Pelo que a mim toca, senhor conde, não receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o gibão de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este é mais forte que o do peão e se, também, a sua boca não pode golfar sangue, como a de um pobre vilão. D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a mão à cinta, onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques era mais forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. Não pôde chegar com a mão ao cinto. - Conde de Barcelos - prosseguiu o alfaiate, com um sorriso -, não recorrais a esse argumento; porque eu também estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulhão. Estas últimas palavras, ditas em tom de escárnio, mal foram ouvidas: a grita na praça era já espantosa; as injúrias, as pragas, as ameaças, cruzando-se nos ares, produziam aquele rouco e grande brado da fúria popular, que só tem semelhança com o ruído do tufão abismando-se por cavernas imensas. Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dois contendores: os parciais de D. Leonor o conde; os outros, cujo número era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aqueles trabalhavam em apaziguá-los, posto que todos os ânimos estivessem quase tão irritados como os dos dois contendores. Finalmente, o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razões e rogativas dos fidalgos e cavaleiros, atónitos com o espectáculo da ousadia popular: desta ousadia que, menoscabando as ameaças do primeiro entre os nobres, era mais incrível que a da véspera, a qual apenas se atrevera ao trono. Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes prelúdios de uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte capítulo. IV MIL DOBRAS PÉ-TERRA 33 Textual. Veja-se Fernão Lopes, Cr. de D. Fernando, Cap. 61..38 E TREZENTAS BARBUDAS Mal Fernão Vasques travara do braço do conde de Barcelos, e a grita popular começara a atroar a praça, Frei Roi, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrara a quina que voltava para a Corredoura 34 e, seguindo seu caminho por vielas torcidas e desertas, chegara à Porta do Ferro, donde, atravessando o contíguo e mal-assombrado terreirinho que os raios do Sol apenas alumiavam poucas horas do dia, embarcados, ao nascer, pelos agigantados campanários da catedral e, ao declinar, pelos panos e torres da muralha mourisca, chegara esbaforido a S. Martinho. A porta do paço estava fechada, mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capela-mor, e a tribuna comunicava com o palácio por um passadiço que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si e escutou um momento: ninguém estava na igreja. Subindo rapidamente a escada, Frei Roi atravessou o passadiço e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim dela havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou e escutou de novo. Dentro altercavam três pessoas. Frei Roi bateu devagarinho três vezes, e pôs-se outra vez a escutar. Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta, e uma voz esganiçada e colérica perguntou: - Quem está aí? - Eu - respondeu o beguino. - Quem é eu? - replicou a voz. - Honrado D. Judas, é Frei Roi Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a el-rei ou à mui excelente senhora D. Leonor, para negócio de vulto. Abre, D. Judas, abre! - disse outra voz, que pelo metal parecia feminina e que soou do lado oposto do aposento. A porta rodou nos gonzos, e o echacorvos entrou. Era o lugar onde Frei Roi se achava uma quadra pequena, alumiada escassamente por uma fresta esguia e engradado de grossos varões de ferro, a qual dava para uma espécie de saguão, ainda mais acanhado que o aposento. A abóbada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por único adereço muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrara na casa das arcas da Coroa - do recábedo do regno. As duas personagens que aí estavam, afora a que abrira a porta, eram D. Fernando e D. Leonor. El-rei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas tábuas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com pêlo 35 . D. Leonor, também em pé por detrás de el-rei, olhava atentamente para as páginas do livro. O que abrira a porta era o tesoureiro-mor D. Judas, grande afeiçoado de D. Leonor e valido de el-rei. O judeu apenas voltara a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o recém-chegado, tomara imediatamente para o pé da arca a que el-rei estava encostado e prosseguira a veemente conversação cujos últimos ecos Frei Roi ouvira ao aproximar-se... - Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro que o vosso fiel tesoureiro vos pode apurar neste momento, respigando, como a pobre Rute, no campo 34 A Corredoura era uma rua que, passando ao sopé do monte do Castelo e por detrás de S. Domingos, dava passagem do centro da cidade para Valverde (hoje Passeio Público e Salitre). 35 Para não enfadarmos os leitores com um sem-número de notas, declaramos por uma vez que todos os costumes e objectos que descrevemos são exactos e da época, porque para tais descrições nos fundamos sempre em documentos ou monumentos..39 do vosso tesouro, ceifado e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aqueles que, talvez, menos leais vos sejam. Jurar-vos-ei sobre a Toura, se o quereis, que não fica em meu poder uma pojeia. El-rei não o escutava. Apenas Frei Roi entrara, D. Leonor havia-se encaminhado para o echacorvos e, lançando-lhe um olhar escrutador, perguntara com visível ansiedade: - Beguino, a que voltaste aqui? - A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado ontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que, a estas horas, talvez tenha já corrido sangue no rossio de Lisboa, e que é espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho e contra os senhores e fidalgos da casa e valia de el-rei. Fora à palavra sangue que D. Fernando havia cessado de atender à voz esganiçada do tesoureiro-mor, que continuava em tom de lamentação: - Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos de Israel. Aonde irei eu buscar dois mil maravedis velhos de Além-Douro, que são, em moeda vossa, trezentos e noventa mil soldos? 36 - Sangue, dizes tu, beguino? - exclamou el-rei. - Oh, que é muito! A quem se atreveram assim esses populares malditos? - Eu próprio vi o nobre conde de Barcelos travar-se com Fernão Vasques; mui grande número de besteiras e peões armados de ascumas rodeavam já o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram os traidores atroavam a praça. - Que me dêem o meu arnês brunido, a minha capelina de camal e o meu estoque francês - gritou D. Fernando, escumando de cólera. - Eu irei a S. Domingos e salvarei os ricos-homens de Portugal ou acabarei ao pé deles. Pajens! onde está o meu donzel de armas? - O teu donzel de armas, rei D. Fernando - interrompeu com voz pausada e firme D. Leonor -, segue com os outros pajens caminho de Santarém, montado no teu cavalo de batalha. Aqui, só tens a mula do teu corpo 37 para seguires jornada. - Mas o conde de Barcelos! O meu leal conselheiro, deixá-lo-ei despedaçar pelos peões desta cidade abominável? Lembra-te de que é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de D. Fernando ainda se não erguera para te coroar rainha. - Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te dele, quando o dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. 36 O maravedi velho de ouro ou de Além-Douro (chamado assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquele pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos, isto é, menos de libra e meia das antigas, cada uma das quais era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar de pé-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal de 6 libras e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo maravedi, excedendo-o em preço mais de quatro vezes. Todavia, bem pelo contrário, o valor real de uma dobra pé-terra era inferior ao maravedi velho na razão de 20 para 32,5. A alteração da moeda feita por D. Fernando no princípio do seu reinado confundiu e transtornou completamente o antigo sistema monetário: as barbudas das quais havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham a ser iguais às libras novas deste rei, porque, produzindo até aí um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova moedagem produzindo 165, o que, dada a diferença do toque entre o marco de lei e o marco das barbudas, tomava cada uma destas a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada libra a 20 soldos, moeda sem valor intrínseco, vinha o marco de lei a ser representado por 3900 soldos, e assim o antigo maravedi de ouro, correspondente à vigésima parte de um marco de prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada pé-terra, sendo o mesmo que 6 libras, não valia mais de 120 soldos, isto é, Ficava para aquela moeda na razão de 20 para 32,5. 37 Os cavaleiros, quando se punham a caminho, costumavam cavalgar em mulas, como animais mais rijos e possantes que os cavalos: nestes montava um pajem ou donzel. Veja-se principalmente a lei de D. Afonso III sobre os que vão a casa de el-rei..40 Hoje não podes senão deixar entregue à sua sorte o nobre D. João Afonso e os senhores que são com ele; mas não te esqueça que, se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, Como serão poucas todas as lágrimas que eu verterei sem consolação sobre os seus veneráveis restos. Combateres? Ajudado por quem, numa cidade revolta? Os homens de armas do teu castelo quebraram seu preito e tumultuam na praça; muitos dos teus ricos-homens estão conjurados contra ti: teu próprio irmão o está. Partir! partir! Há quantas horas sabes tu que a última esperança está no partir breve? Por que, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não pudermos salvar aqueles que, leais a seu senhor, se foram expor à fúria da vilanagem para esconder nossa fuga... fuga...; que é o seu nome! O furor e o despeito revelavam-se nas faces e nos lábios esbranquiçados da adúltera, e a aflição e o temor comprimidos atraiçoavam-se numa lágrima que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das caríssimas que derramara na sua vida. El-rei tinha escutado imóvel. Desacostumado de ter vontade própria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçara, ainda mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida: - Partamos. E que seja feita a vontade de Deus! - Amen! - murmurou o echacorvos. - Beguino - interrompeu D. Leonor, voltando-se para Frei Roi -, Corre já ao rossio de S. Domingos e dize em voz bem alta aos populares amotinados que me viste partir com el-rei caminho de Santarém. Talvez assim o conde seja salvo, porque a fúria desses vis sandeus se voltará contra mim. Dize-o, que dirás a verdade: quando lá houveres chegado, o meu palafrém terá já transposto as Portas da Cruz. Guardai-vos, mesquinhos, que ele a torne a passar com sua dona. Echacorvos! esse dia será aquele em que a adúltera pague todas as suas dívidas! Frei Roi sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentira na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Teles cravou nele era diabólico, e a palavra adúltera proferida por ela soava como um dobrar de campa e vinha como envolta num hálito de sepulcro: o beguino arrependeu-se, desta vez mui seriamente de ter sido tão miúdo e exacto na parte oficial que apresentara na véspera. Calou-se, todavia, e saiu com o seu ademã do costume, cabeça baixa e mãos cruzadas no peito. Os três ficaram outra vez sós. - D. Judas, meu bom D. Judas - disse el-rei com gesto de aflição -, não entendo estas embrulhadas letras mouriscas da tua aritmética. Estou certo de que não deves ao tesouro real uma única mealha e de que nas arcas do haver não existe senão o que tu dizes; mas, decerto, não queres que um rei de Portugal caminhe por seu reino como romeiro mendigo. Ao menos os dois mil maravedis de ouro... - Ai! - suspirou o tesoureiro-mor - juro a vossa real senhoria que me é impossível achar agora outra quantia maior que a de mil dobras pé-terra e trezentas barbudas. - Fernando - atalhou Leonor Teles -, ordena aos moços do monte que aí ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir já. É tão meu afeiçoado D. Judas que, com duas palavras, eu obterei o que tu não pudeste obter com tantas rogativas. Ela sorriu alternativamente com um sorriso angélico para el-rei e para o tesoureiro-mor. D. Fernando obedeceu e, alevantando o reposteiro que encobria uma porta fronteira àquela por onde entrara o beguino, desapareceu. O tesoureiro ia a falar; mas ficou com a boca semiaberta, o rosto pálido e como petrificado, vendo-se a sós com D. Leonor. Era que já a conhecia havia largos tempos..41 - D. Judas - disse esta em tom mavioso -, tu hás-de fazer serviço a el-rei para esta jornada. Darás os dois mil maravedis velhos. - Não posso! - respondeu D. Judas com voz trémula e afogada. - Judeu! - replicou D. Leonor, apontando para um cofre Pequeno que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de três altos de pó - o que está naquela arca? O tesoureiro-mor, depois de hesitar por momentos, balbuciou estas palavras: - Nada... ou, a falar verdade... quase nada. Bem sabeis que. dantes, guardava ali algumas mealhas que me sobejavam da minha quantia; mas há muito que nem essas poucas mealhas me restam. - Vejamos, todavia - tornou D. Leonor, cujo aspecto se carregara. - Misericórdia! - bradou D. Judas com indizível agonia. Mas, reportando-se, por um destes arrojos que os grandes perigos inspiram, procurou disfarçar o seu susto, continuando com riso contrafeito: - Misericórdia, digo; porque fora mais fácil achar entre os amotinados do rossio um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do lugar onde terei a chave de uma arca há tanto tempo inútil e vazia. - Perro infiel! eu te vou recordar quem pode dizer onde a havemos de achar. - Estais hoje, mui excelente senhora, merencória e irosa - replicou o tesoureiro-mor, trabalhando por dar às suas palavras o tom da galantaria, mas, visivelmente, cada vez mais enfiado e trémulo. - Assim chamais perro infiel ao vosso leal servidor, por causa duma chave inútil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe dela, e eu a irei procurar. - Generoso e leal tesoureiro! - interrompeu D. Leonor, imitando o tom das palavras do judeu, como quem gracejava - não te dês a esse trabalho, por tua vida. Quem pode fazê-la aparecer é um velho cão descrido que mora na comuna de Santarém. Eu sei de um remédio que lhe restituirá à língua a presteza de uma língua de mancebo de vinte anos. O seu nome é Issachar. Conhece-lo? - Alta e poderosa senhora, vós falais de meu pobre pai! respondeu o tesoureiro-mor, redobrando-lhe a palidez. - Mas tratemos agora do que importa. Com mil e quinhentas dobras pé-terra e trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem prestes... D. Leonor lançou para o judeu um olhar de escárnio e prosseguiu: - Do que importa é que eu trato. Sabes tu, meu querido D. Judas, que, sejam as tuas dobras mil ou mil e quinhentas, amanhã, a estas horas, eu, D. Leonor Teles, a rainha de Portugal, estarei em Santarém? Ouviste já dizer que, em não sei qual das torres do alcácer, há um excelente potro, capaz de desconjuntar num instante os membros do mais robusto vilão? Veio-me agora a ideia de que o velho Issachar, amarrado a ele, deve ser gracioso; porque, tendo vivido muito, constrangido a falar, há-de contar cousas incríveis, quanto mais dizer onde está uma chave cujo paradouro ele não pode ignorar. Não achas tu, também, que é folgança e desporto digno de qualquer rainha o ver como estoiram os ossos carunchosos de um perro de noventa anos? Um suor frio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacilantes se esquivavam a sustê-lo. Quando D. Leonor acabou de fazer as suas atrozes perguntas o judeu tinha caído de joelhos aos pés dela. - Por mercê, senhora - exclamou ele, em trance horroroso de angústia -, mandai-me açoitar como o mais vil servo inouro; mandai-me rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoai a meu velho pai, que não tem culpa da pobreza de seu filho Se eu tivera ou pudera alcançar mais que as duas mil dobras e as quinhentas barbudas que ofereci a meu senhor..42 - Judeu! - atalhou D. Leonor - tu deves saber três cousas: a primeira é que os tratos do potro são intoleráveis; a segunda é que eu costumo cumprir as minhas promessas; a terceira é que, se, neste momento de aperto, eu te pudesse aplicar o remédio, não o guardaria para a ossada bolorenta de um lebréu desdentado. - Vendido cem vezes - prosseguiu o tesoureiro-mor, lavado em lágrimas e procurando abraçá-la pelos joelhos -, eu não Poderia apresentar neste momento mais que a soma já dita de duas mil e quinhentas dobras e quinhentas barbudas, ainda que vossa mercê me mandasse assar vivo. - És um louco, D. Judas! - interrompeu D. Leonor, afastando de si o judeu, com um gesto de brandura. - Por uma miséria de pouco mais de quinhentas pé-terra, consentirás que Issachar, que teu pai, honrado velho, pragueje, nas ânsias do Potro, contra o Deus de Abraão, de Jacob e de Moisés? O tesoureiro-mor conservou-se por alguns momentos calado e na postura em que estava. Depois, passando o braço de revés pelos olhos, enxugou as lágrimas e ergueu-se. A resolução que tomara era a de um desesperado que vai suicidar-se. - Aqui estarão, senhora - murmurou ele -, os dois mil maravedis quando os quiserdes. Procurarei obtê-los; mas ficarei perdido. Agora podeis dar ordem à vossa partida. - Adeus, meu mui honrado D. Judas - disse D. Leonor, sorrindo. - Não perderás nada em ter cedido aos meus rogos. Dito isto, saiu pela mesma porta por onde saíra el-rei. O judeu estendeu os braços, com os punhos cerrados, para o reposteiro, que ainda ondeava, e levou-os depois à cabeça, donde trouxe uma boa porção de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fora um saquitel pesado, selado e numerado, e os dois mil maravedis rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos e, como se as forças se lhe tivessem exaurido no espanto do combate que se passava na sua alma, atirou-se de bruços sobre a pequena arca e, abraçado com ela, desatou a chorar. - Meu pobre tesouro, junto com tanto trabalho! - exclamou por fim, entre soluços. - Guardei-te neste cofre com medo de te ver roubado, e os salteadores vim encontrá-los aqui! Mas que se livrem de eu tomar a receber os direitos reais das mãos dos mordomos. Meus ricos dois mil maravedis de bom ouro, não voltareis sozinhos quando vos tornardes a ajuntar com os vossos abandonados companheiros! Esta ideia pareceu consolar de algum modo D. Judas. Levantou-se, tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia engano, e que eram dois mil e um; tornou-os a contar, e, quando el-rei entrou no aposento, já prestes para cavalgar, tinha o bom do judeu obtido a certeza de que não dava uma pojeia de mais da soma que lhe fora requerido em nome do potro da torre de Santarém. 38 38 Aqueles que não conhecerem as opiniões, estado de civilização e costumes da Idade Média medirão o tesoureiro-mor D. Judas por um ministro de Fazenda moderno, como, se não nos engana a memória, lhe chama com ignorância deliciosa o Marquês de Pombal em uma lei sobre os cristãos-novos, e acharão inverosímil a cena antecedente, posto que esteja bem longe disso. A falta de cristãos habilitados para tratarem matérias de Fazenda Pública obrigou os reis Portugueses a esquecerem a lei das Cortes de 1211, que os inibia de empregarem judeus no seu serviço. Mas esta necessidade não podia destruir o profundo desprezo em que se tinha esta raça, olhada como abominável, em consequência das convicções políticas e religiosas daqueles tempos, desprezo que, em grande parte assentava em bons fundamentos. A ideia que se fazia de um judeu na Idade Média acha-se expressa na lei 23ª daquelas Cortes, na qual se pinta melhor o pensar dessas eras a semelhante respeito do que tudo quanto pudéssemos aqui escrever. Os quaes judeus (diz o legislador) assy como testemunho da morte de Jessu-Christo devem a seer defesus, solamente porque som homeës. Junte-se a isto o carácter cruel, hipócrita e cobiçoso de D. Leonor Teles tão.43 - Oh exclamou el-rei, lançando os olhos para cima do desalmado fólio, sobre cujas páginas amareladas estava empilhado o dinheiro -, temos os dois mil maravedis?! - Saiba vossa real senhoria que, felizmente, tinha em meu poder uma soma pertencente a Jeroboão Abarbanel, o mercador da Porta do Mar, soma de que não me lembrava: ao vasculhar as arcas, dei com ela; a quantia está completa, e o honrado mercador não levará, por certo, mais de cinco por cento ao mês, enquanto os ovençais de vossa senhoria não vierem entregar no tesouro o produto dos direitos reais vencidos. Então pagar-lhe-ei, até a última mealha, a quantia e seus lucros, se vossa senhoria não ordena o contrário. - Faze o que entenderes, D. Judas - respondeu el-rei, que não o ouvira, atento a meter numa ampla bolsa de argempel, que trazia pendente do cinto, os dois mil maravedis. - Tudo fio de ti, honrado e leal servidor. E recolhidos os maravedis, saiu. O judeu ficou só. - No Inferno ardas tu, com Datão, Coré e Abirão, maldito nazareno!... - murmurou ele. - Porém não antes de eu haver colhido os dois... quero dizer, os três mil e duzentos maravedis que me tiraste com tanta consciência quanta pode ter a alma tisnada de um cristão. Feita esta jaculatória ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saiu pela porta fronteira, que também aferrolhou, e a bulha dos seus passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde passara Frei Roi, até que, por aquela parte do palácio, tudo caiu em completo silêncio. V MESTRE BARTOLOMEU CHAMBÃO Frei Roi, saindo da casa das arcas, atravessara os corredores vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomara por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a esse passadiço. Esta escadinha descia para o átrio do paço. O beguino, habituado, pelo seu ministério, a entrar na morada real às horas mortas e a sair nas menos frequentadas, sabia por diuturna experiência que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrara, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é fácil de supor, as igrejas eram naquela época mais frequentadas do que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rossio e a espalhar entre os amotinados a notícia da partida de el-rei. Mas embargou-lhe os passos dificuldade imprevista. Ou fosse que os acontecimentos da véspera obrigassem a maiores cautelas, não havendo ainda então exército permanente, nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na própria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abrira. O beguino hesitou sobre se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido a seguir este caminho obrigaram-no a ficar. Metido no estreito e escuro vão da escada, o echacorvos assemelhava-se, envolto nas suas roupas de burel e reluzindo-lhe os olhos à meia luz que dava o pátio interior, a um moderno funcionário, que hoje, nesses mesmos paços e em desvão igual, talvez no mesmo sítio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta pública o convide a algum banquete de carne humana e, no excelentemente pintado pelo grande poeta-cronista Fernão Lopes, e poder-se-á avaliar devidamente a verosimilhança desta cena de imaginação, no meio de outras cenas da vida real desses tempos..44 esperar atroz, rodeia com as garras os ferros do seu covil, como o tigre cativo. O espia era ali, por assim dizer, uma preexistência, uma harmonia preestabelecida do algoz. Passara obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se mui seriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pátio interior do edifício. Daí a pouco, um donzel, trazendo na mão uma desconforme chave a as rédeas de valente mula enfiadas no braço, chegou à porta e começou a abri-la. Era um dos donzéis de el-rei. Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão à espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavaleiros e escudeiros, ao que ele retribuía com a longa lenda das suas orações em aleijado latim, Frei Roi era aceito a quase todos os moradores da casa de el-rei, que respeitavam a sua aparente santidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta. - A Madre Santa Maria vos guarde de mau-olhado. de feitiços e de ligamentos - disse ele, chegando-se ao donzel e fazendo sobressair esta última palavra. - Vós aqui, Frei Roi, por estas horas? - replicou o donzel, voltando-se admirado. - Que quereis! - tornou o beguino. - Quando ontem os malditos burgueses acometeram os paços reais com sua grita e revolta, estava eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquele desvão, e quando se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro, como um emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de religião não me consentia passar por meio de homens possuídos do espírito de cólera e inspirados por Belzebu, nem o susto me deixava ânimo desafogado para ir roçar o burel do meu santo hábito pelos trajos empestados dos filhos de Belial. Também a humildade e mortificação cristã se opunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum de vós outros, os moradores da casa de nosso senhor el-rei. Assim, louvando a Deus por me conceder uma noite de padecimento, ali me deixei ficar sobre as lájeas húmidas, sobre as duras e agudas arestas dos degraus daquela escada. Agora, que a revolta é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos e confiado na providência de Jesu-Cristo, vou-me ao meu giro diário, para ver se obtenho da caridade dos devotos a pitança usual com que possa matar a fome de vinte e quatro horas, pela qual dou mil louvores ao justo juiz, que reina eternamente nos altos céus. O beguino revirou beatificamente os olhos e fez uma visagem entre aflita e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho, como se ali sentisse dor agudíssima. - Venerável Frei Roi! - atalhou o donzel, com as lágrimas nos olhos - se tivésseis procurado o aposento dos donzéis, nós vos daríamos, ao menos, um almadraque para repousar e repartiríamos convosco da vossa ceia. Mas o mal está feito, e o pior é que para hoje não vos posso oferecer abrigo. Vós credes, santo homem, se a revolta é finda, e nunca ela esteve mais acesa. Sua senhoria vai partir já da cidade... - Santa Maria val! Santo nome de Jesus! Acorrei-nos, Virgem bendita! - interrompeu Frei Roi. - Pois os populares teimam em sua assuada, e el-rei deixa-nos aos coitados de nós, humildes religiosos e cidadãos pacíficos, entregues ao furor dos peões? - E que remédio, bom Frei Roi?! - replicou tristemente o donzel. - Sem cavaleiros, escudeiros e besteiras não se faz guerra, nem se desfazem assuadas, e nada disto tem el-rei. Agora vou eu ao rossio de S. Domingos avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que lá estão, que sigam caminho de Santarém, sob pena de incorrerem em caso de traição, se ficarem em Lisboa: por sinal que el-rei me recomendou procurasse avisar Primeiro que ninguém sua mercê o infante D. Dinis. - No rossio de S. Domingos, dizeis vós? - tornou o beguino, arregalando os olhos. - Confesso que vos não entendo. Durante este diálogo o donzel tinha acabado de destrancar a Porta do paço, cavalgado na mula que trazia de rédea e saído ao terreiro seguido de Frei Roi, que.45 coxeava, estorcia-se e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo e sofreando a mula, caminho da Sé, o pajem narrou ao beguino todas as particularidades sucedidas aquela manhã, as quais Frei Roi sabia melhor do que ele. Chegados defronte dos Paços do Concelho, o pajem tomou pelo sopé da Alcáçova e Frei Roi pela Porta do Ferro, não sem terem primeiro saído da bolsa do donzel para a manga do beguino alguns pilartes 39 , e da boca deste para os ouvidos daquele alguns latinórios pios devidamente escorchados. Apenas passara o largo da Sé e transpusera a velha e soturna Porta do Ferro, Frei Roi tinha-se achado perfeitamente são do seu violento reumatismo. Ligeiro como galgo, desceu por entre as antigas terecenas reais, e em menos de três credos estava no Pelourinho 40 . Aí viu cousa que o fez parar. Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava a um troço de besteiras e peões armados de lanças ou ascumas, de almárcovas ou cutelos: tinha nas mãos um desconforme montante e na cinta uma espada curta. A turba ora o escutava atentamente, ora prorrompia em gritos confusos e estrondosos. Frei Roi chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartolomeu Chambão, que, entusiasmado, prosseguia o seu veemente discurso, sem reparar no beguino: - Já vo-lo disse: daqui ninguém bole pé antes de el-rei nosso senhor sair para S. Domingos. Nada de bulha fora de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos mostra ao paço quando aí for só a adúltera. Se, como ontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve sair da toca. Não digo que então não seja possível esmagar-se-lhe a cabeça... Num brandir de ascuma... Mas cautela, não haja sangue!... Pelo menos de inocentes... Leais e esforçados cidadãos desta mui leal cida... Safa, bruto! Esta peroração inesperada com que mestre Bartolomeu interrompera o seu discurso, que se ia elevar ao ápice da eloquência, procedera de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do echacorvos sobre o ombro, que lhe vergara, como se houvessem descarregado em cima dele uma aduela de cuba. A Frei Roi acorrera uma ideia abençoada, a de comunicar a mestre Bartolomeu a nova que D. Leonor lhe recomendara espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com el-rei. O mendicante sabia que o tanoeiro era de bofes lavados, e que, dentro de meia hora, a notícia teria corrido toda a cidade. Assim se esquivava, não só a ser visto no rossio pelo donzel, de quem naquele instante se apartara, mas também a achar-se envolvido em qualquer desordem que semelhante notícia pudesse produzir, atenta a irritação dos ânimos. Além disso, a lembrança do arrepio dorsal que as últimas palavras de D. Leonor lhe tinham causado fazia-lhe quase desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebera do fim da sua arenga) da comissão que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbira a Fernão Vasques, pudesse ainda desempenhá-la, atalhando a fuga de D. Leonor. Estas considerações, que lhe haviam passado rapidamente pelo espírito, e o ver que mestre Bartolomeu não levava jeito de concluir moveram-no a falar ao tanoeiro, que só o sentira quando ele lhe descarregara sobre o ombro a ponderosa, mas amigável, palmada. - Com mil e quinhentos satanases! - exclamou mestre Bartolomeu, voltando-se e vendo ao pé de si o beguino. - Sabia que a mão da Santa Madre Igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Frei Roi? 39 Moeda de prata de cinco soldos. 40 As terecenas ou taracenas reais, isto é, o depósito dos apetrechos de guerra, eram junto ao sítio em que hoje vemos a Igreja da Madalena; Pelourinho Velho ou Açougues era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da Rua da Prata..46 - Dizer-vos que podeis mandar sair vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o Inverno aí, antes de verem el-rei chegar e passar para S. Domingos. - Frei Roi - replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de cólera -, para interromper-me com uma de vossas bufonarias, não valia a pena de me aleijardes este ombro! - Tomai como quiserdes as minhas palavras: chamai-me o que vos aprouver, bufão ou mentiroso; mas a verdade é que não será hoje que os populares falarão com el-rei. - Pois quê, morreu dos feitiços da adúltera ou tornou-o invisível algum encantador seu amigo?! - Nem uma cousa, nem outra: mas, com estes olhos de grande pecador (aqui o echacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre o peito), eu o vi sair para a banda da Porta da Cruz... - Frei Roi, olhai que estes honrados cidadãos vos escutam, e que o auto é mui grave para gastar truanices. - Já disse, mestre Bartolomeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do Santo padre vos juro que, hoje, el-rei não dormirá em Lisboa, segundo o jeito que lhe veio. Ele cavalgava uma possante mula de caminho; noutra ia uma dona coberta com um longo véu: seguiam-no donzéis, falcoeiros e moços do monte. Ao passar, ainda lhe ouvi estas palavras: "Olhai aqueles vilãos traidores como se juntavam: certamente prender-me quiseram, se lá fora! 41 " Não pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes fugir a preia: agora catai-lhe o rasto. - Traidor é ele, que nos há mentido, como um pagão! - bradou o tanoeiro, sopesando o montante. - Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adúltera! Rainha ou barregã, arrancar-lhe-emos os olhos. A arraia-miúda foi escamada; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burgueses? - Escarnidos, escamados! - respondeu com grande grita o tropel. - Mas, à fé, que nunca a adúltera será rainha de Portugal. Morra a comborça! E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros das almárcovas agitadas nos ares cintilavam aos raios do sol oriental, como vasto brasido. A S. Domingos! - gritou mestre Bartolomeu. - Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado! E, pondo o montante às costas, mestre Bartolomeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta e sem fazer caso de Frei Roi, que procurava retê-lo, ponderando que ainda poderia alcançar el-rei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para afrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto. Entretanto, junto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de D. Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo número crescia continuamente, não tinha diminuído. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os senhores da corte e conselho, que, esperando por el-rei, passeavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquele mar de vultos humanos, que ele sabia poder agitar ou tornar imóveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante à hora que precede a procela, em que apenas se vêem correr na atmosfera abafada os castelos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estoirar dos trovões roufenhos e prolongados, 41 "Non quis alla hir e partiosse da çidade com D. Lionor, ho mais escusamente que pode, e hia dizendo pello caminho: "Oolhae, &c."", Fernão Lopes, Cr. de D. Fernando, Cap. 61..47 aquela hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrível do tigre popular, se fazia na praça, apinhada de gente, um silêncio ainda mais temeroso e tétrico. Foi numa destas interrupções do motim que um pajem, saindo ao galope do lado da Corredoura, veio apear-se junto do alpendre e, tirando da cinta um pergaminho aberto, o entregou ao infante D. Dinis. Este fitou os olhos na escritura, descorou subitamente e passou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo, em voz baixa: - Estamos perdidos! Diogo Lopes leu o conteúdo daquele escrito fatal e, no mesmo tom, respondeu ao infante: - O caminho de salvação que nos resta é o de Santarém. Obediência e circunspecção! O pergaminho passou rapidamente de mão em mão: OS fidalgos, letrados e cavaleiros fizeram um círculo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassossegados. Todos receavam falar. O manhoso Pacheco Lopes foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando habilmente hesitação dos outros fidalgos e conselheiros. - Vistes a ordem de el-rei. Como um dos mais velhos entre vós, direi meu parecer. Embora o risco seja grande, achando-nos cercados de povo armado e furioso o nosso dever é pôr a vida por obedecer a nosso senhor el-rei. Mas - atalhou o doutor Gil de Océm, que, por mui letrado e prudente, era ouvido como oráculo pelos cortesãos - o caso é grave: o povo, se nos vir retirar, enviar-se-á a nós; se lhe dizemos o motivo da nossa partida, é capaz de desconcertos maiores que os já cometidos. Sua senhoria não devera ter-nos emprazado para este auto, se a sua intenção era não dar resposta aos populares. Visivelmente, o doutor em leis e degredos estava tomado de medo, no que não levava vantagem à maior parte dos outros membros do conselho real. O conde de Barcelos guardava silêncio. Não podia conceber como D. Leonor o não avisara a tempo, e por isso preocupava-o a indignação, ignorando que a resolução da fuga fora tomada mui tarde. Na véspera ele aconselhara a el-rei que cedesse a tudo quanto o povo quisesse; porque, dissolvido o tumulto, fácil era chamar à corte os senhores e cavaleiros de mais confiança, acompanhados de gente de guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem opor-se de novo à vontade de seu rei e senhor. D. Fernando aceitara o conselho, que, se não era o mais leal, era, ao menos, o mais seguro; mas as revelações do echacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situação do negócio. A reflexão de Gil de Océm estava em todas as cabeças, e por isso os cortesãos ficaram outra vez em silêncio, como buscando um expediente para sair daquele dificultoso passo. A incerteza, o despeito, o receio pintavam-se nos rostos demudados de muitos. E as vagas do oceano que ameaçava tragá-los encapelavam-se aos pés deles: o povo, vendo os fidalgos erguidos, calados e em círculo, apinhava-se, cada vez mais basto, ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbara de mais Os ânimos para não poderem achar um expediente acertado. Era por isso que esperava o astuto Pacheco. - De um lado a cólera do povo; do outro os mandado, de el-rei - disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Afonso IV. - Resta-nos só um arbítrio. - Dizei, dizei! - clamaram a um tempo todos, à excepção do conde de Barcelos, que fitou nele os olhos desconfiados..48 - É necessário que anunciemos a nova da partida de el-rei e que sejamos os primeiros a afear este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peões. Depois, dir-lhes-emos que, burlados como eles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-emos sem custo e sairemos da cidade como pudermos, na certeza de que não serei eu o último, apesar de velho, que cruze as portas da alcáçova de Santarém. - Mas quem há-de falar em nosso nome? - perguntou Gil de Océm. - No vosso, mestre Gil das Leis! - interrompeu o conde de Barcelos. - Nem o receio das afrontas de alguns milhares de sandeus, nem o da própria morte me obrigariam a cuspir maldições sobre o nome daquele a quem uma vez jurei preito e leal menagem. - Vitam impendere vero nemo tenetur - replicou Gil de Océm -, ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver. À autoridade de um texto latino, trazido assim a por tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros aprovaram, quase unanimemente, o alvitre de Diogo Lopes. - Mas quem há-de falar ao povo? - insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa. - Eu, se assim o quiserdes - replicou imediatamente Diogo Lopes. O manhoso cortesão vira claramente que a partida de el-rei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculara num momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e Por consequência alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que el-rei se esquivara à influência do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitável, e, ainda supondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, e que Lisboa se rebelasse claramente contra D. Fernando, o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de ser favorável a el-rei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquela conjuntura dos principais meios com que poderia sustentar uma luta intestina. Assim, o alvitre que oferecera para a salvação dos cortesãos era só para se haver de salvar a si, conservando ao mesmo tempo a afeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decair da graça de D. Fernando. Para os cálculos de Diogo Lopes faltara, porém, um elemento: era a delação do beguino; e era justamente esta falta que os destruía todos. Assim é a política. O sacrifício de Diogo Lopes foi geralmente recebido com aprovação e agradecimento. Então ele, saindo do círculo, aproximou-se de Fernão Vasques, que, de quando em quando, volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavaleiros. - Falhou a traça - disse o velho cortesão em voz sumida ao alfaiate. - El-rei acaba de sair da cidade. Fernão Vasques recuou, e pôs-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia. - O que vos digo é a verdade - continuou Pacheco. - Mas não afrouxar! El-rei de Castela é por nós, e bom número de fidalgos portugueses o são também. Mais: são por nós a maior parte dos que ora aqui vedes presentes. Conservai o bom ânimo do povo, e fiai o resto de mim e... de quem vós sabeis. Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os olhos para D. Dinis. - Mas el-rei tomará por mulher D. Leonor - acudia o alfaiate aterrado -, voltará a Lisboa com seus cavaleiros e homens de armas, e então, coitados de nós! - Não temais: o matrimónio adúltero será condenado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o que sucedeu a el-rei D. Sancho: a D. Fernando pode suceder o mesmo..49 Também os fidalgos de Portugal têm homens de armas. Podeis estar certo de que não vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leais burgueses, que tão ousadamente se opuseram à desonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por eles. Mandai-lhes que façam silêncio. Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuara durante esta cena, acalmou a um aceno do alfaiate. Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos os leitores, e cujo assunto fácil é de adivinhar. Misturando amargas repreensões contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indignação. Aludiu à resistência por armas que el-rei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e, no caso de vir este a cabo, a probabilidade de ser anulado pelas censuras da Igreja. Enfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta e tratassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as ideias que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto dificultoso: o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanças aos peões de que se encaminhavam para suas alcaidarias e honras, com o louvável intento de se aperceberem em socorro dos burgueses de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores e cavaleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o próprio conde de Barcelos, não viram nas suas palavras senão uma feliz inspiração para os salvar da cólera da arraia-miúda. Durante aquela larga arenga, esta guardara silêncio, interrompido a espaços por um desses burburinhos que são como os anúncios das erupções do vulcão popular. Pacheco, enfim, concluiu; mas o espectáculo que tinha diante de si fê-lo ficar imóvel por alguns momentos; e estes foram terríveis. Aqueles centenares de olhos avermelhados, cintilantes de furor, cravados nele e nos outros fidalgos; aquelas bocas semiabertas, prestes a prorromper em brados de morte, eram como um pesadelo diabólico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escutá-lo, e não poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal. Os fidalgos aproveitaram esse instante de torpor moral que procedia a procela. Desceram da alpendrada e, montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da Corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavaleiros mais benquistos do povo, ia o conde de Barcelos, e Diogo Lopes com os seus pajens fechava o séquito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o ângulo do mosteiro, já os doestos grosseiros e violentos voavam contra ele do meio do povo apinhado, e, até, dois virotes de besta pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas, apertando os acicates, os cavaleiros seguiram ao longo da Corredoura, enquanto Diogo Lopes, vitoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuía aquelas mostras de afecto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto número de cortesãos, alguns dos quais tinham fundados motivos para recear a irritação desses ânimos ferozes, exaltados pela fuga de el-rei. A cavalgada havia desaparecido, quando um troço de besteiros e peões desembocou do lado da Rua Nova. Eram mestre Bartolomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco. Mas as palavras que Frei Roi dissera ter ouvido proferir a el-rei, lançadas entre os amotinados, como um facho sobre montão de lenha por onde lavra há muito fogo oculto, levaram o tumulto a ponto medonho. As afrontas, que até aí quase só se encaminhavam contra Leonor Teles e seus parciais, voltaram-se contra D. Fernando. As maldições, as pragas, os nomes de traidor e covarde ajuntavam-se às mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais ele entraria em Lisboa; outros propunham que se.50 lançasse fogo aos paços reais. Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquietá-los; nem já escutavam o seu ídolo. Furiosos, espalhavam-se pelas ruas, que atroavam coral gritos, brandindo as armas; e por certo que, se neste momento D. Fernando lhes tivesse aparecido, não teriam, talvez, respeitado a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dinastia. Este motim sem objecto, sem resistência, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha caído no seu habitual silêncio, e, pouco a pouco, os fidalgos e cavaleiros, atravessando as Portas da Cruz, seguiam caminho de Santarém. O sistema militar dos antigos Partos dera a vitória a el-rei: ele vencera fugindo! O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediavelmente perdidos. VI UMA BARREGÃ RAINHA O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rápida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve águas turvas e mal-assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de névoas, e, através desse manto, a atmosfera embaciada faz cair sobre a vossa cabeça os raios do Sol semimortos, quase como um frio reflexo de Lua ou como a luz sem calor de tocha distante. É depois de alto dia, que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desoprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os gérmenes da morte. Então, se, trepando a um pináculo das ribas, espraiais os olhos para a banda do sertão, lá vedes uma como serpente imensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo está por baixo de vossos pés. É o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as águas que o geraram. O horizonte, até aí turvo, limitado, indistinto, expande-se ao longe: recortam-no os cimos franjados das montanhas, que parecem engastadas na cortina azul do céu, e a terra, a perder de vista, afigura-se-nos como um Mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paisagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solene e profunda. Como sobre um circo convertido em naumaquia, o Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tratar familiarmente. Não façais cabedal de certo modo áspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o à prova, e achar-lhe-eis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja ele quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo carácter português no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho. Nos fins do século décimo quarto, o Porto ia ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no carácter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças políticas e industriais que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre e lembrado como origem do nome desta linhagem portuguesa, os seus destinos eram humildes, comparados com os da teocrática Braga, com os da cavaleirosa Coimbra, com os de Santarém, a cortesã, com os de Évora, a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse, coroado da sua catedral, serniárabe, semigótica, em vez de alcácer ameado; sotoposto, em vez de o ser a.51 uma torre de menagem, aos dois campanários lisos, quadrangulares e maciços, tão diferentes dos campanários dos outros povos cristãos, talvez porque entre nós os arquitectos árabes quiseram deixar as almádenas das mesquitas estampadas, como ferrete da antiga servidão, na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado à roda da igreja e defendido, antes por anátemas sacerdotais que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um império de comércio, onde, dentro de cinco séculos, mais que em nenhuma outra povoação do reino, a classe, então fraca e não definida, a que chamavam burgueses, teria a consciência da sua força e dos seus direitos e daria a Portugal exemplos singulares de amor tenaz de independência e de liberdade. A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma légua, desde o Seminário até além de Miragaia ou, antes, até à Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do século décimo quarto os elementos distintos de que se compôs - Ao oriente, o Burgo do Bispo, edificado pelo pendor do monte da Sé, vinha morrer nas hortas que cobriam todo o vale onde hoje estão lançadas a Praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João e que o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente, a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita e pelo oriente com a vila ou burgo episcopal. A Igreja, o Município e a Monarquia entre esses limites pelejaram por séculos as suas batalhas de predomínio, até que triunfou a Coroa. Então a linha que dividia as três povoações desapareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palácios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monárquica. Era neste burgo eclesiástico, nesta cidade nascente, que por formoso dia de Janeiro da era de César de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos Gascões, se não mentem memórias remotas 42 . Na Rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros 43 , como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com músicas e trebelhos ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indício evidente de que se esperava el-rei, cuja vinda a qualquer povoação era o único motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que, decerto, não folgavam nada com estes forçados e dispendiosos sinais de contentamento público. Com efeito, uma numerosa e esplêndida cavalgada vinha da banda do bailiado de Leça. El-rei D. Fernando ajuntara em Santarém os seus ricos-homens e conselheiros e, amestrado por Leonor Teles na arte de dissimular, recebera com todas as mostras de boa vontade o infante D. Dinis e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escasseara mercês 44 . Depois, em folgares e caçadas vagueara pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomara de a receber como mulher, o que neste dia cumprira na antiga igreja daquela célebre comenda dos Hospitalários. Era, pois, para celebrar esse matrimónio adúltero, agoirado pelas maldições populares, que o bispo D. Afonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa acerca de adultérios, vestia de festa o seu mui canónico burgo 45 . 42 Conde D. Pedro, tit. dos Viegas. (Cunha, Catál. dos Bispos do Porto, P. 1ª, pág. 15.) 43 "E fezerom mui apressa hua grande praça ante S. Domingos e a rua do Souto, que era entom todo ortas." (F. Lopes, Cr. de D. João I, P. 2, Cap. 96.) Isto era poucos anos depois da época de que vamos falando. 44 A 15 de Setembro de 1371, em Santarém, fez el-rei mercê a Diogo Lopes Pacheco da terra de Trancoso para que a haja e tenha em pagamento de sua quantia. (Chancel. de D. Fernando, L. 1º, f. 84.) 45 Este bispo D. Afonso era ainda o mesmo a quem el-rei D. Pedro, dizem, quisera açoitar por sua própria mão em consequência de ele haver cometido adultério com a mulher de um honrado cidadão, história.52 A cavalgada que se vira descer ao longo do vale já atravessava o rio da vila pela ponte do Souto 46 e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito de el-rei ia D. Leonor, a rainha de Portugal: ele montado em um cavalo de guerra; ela em um palafrém branco, levado de rédea, desde a entrada da ponte, pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavaleira. Da banda esquerda, o bispo D. Afonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscilava e fazia cortesias involuntárias a cada passada da mansíssima e veneranda mula episcopal. Junto ao velho prelado, o infante D. Dinis caminhava em silêncio, e no aspecto melancólico do mancebo divisava-se quão profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triunfal da mulher que pouco a pouco se convertera em sua irreconciliável inimiga. Após estas principais personagens, via-se uma grande multidão de cavaleiros, clérigos, cortesãos, conselheiros, juízes da Corte; companhia esplêndida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata e as variadas cores dos trajos de festa, que sobressaíam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clérigos. Adiante de el-rei, as danças dos mouros e judeus volteavam rápidas, ao som da viola ou alaúde árabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso, seguiam-se às danças coros de donzelas burguesas, que celebravam com seus cantos o amor e a ventura dos noivos 47 . Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste era, também, o aspecto dos populares, que, sem um só grito de regozijo, se apinhavam para ver passar aquele préstito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Dinis, cujo rosto melancólico revelava que os seus pensamentos eram acordes com os do povo. que por toda a parte não via neste consórcio senão um crime - e uma fonte de desventuras. Os cortesãos, porem, fingiam não perceber o que passava à roda deles e pareciam trasbordar de alegria. Muitos eram daqueles que mais contrários haviam sido aos amores de el-rei, mas, que, vendo, enfim, D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia e calculavam já quantas terras e que soma de direitos reais lhes poderia render da parte de um rei pródigo a sua mudança de opinião. Entre estes não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao trato da Corte por largos anos, experimentado em todos os enredos dos paços, hábil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardara em perceber que as mercês e agrados de el-rei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogável vingança. Conhecendo que a sedição popular fora inútil e que, ainda renovada com mais fúria, não poderia resistir às armas de D. Fernando, havia-se afastado da Corte e, posto que só nos fins desse ano ele passasse a servir o seu antigo protector e amigo, D. Henrique de Castela, buscara entretanto esquivar-se ao ódio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo. Abandonado assim do seu guia, o infante D. Dinis sofrera resignado um sucesso que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservara intacta a sua má miudamente narrada por Fernão Lopes na crónica daquele rei, e que nós não sabemos dizer até que ponto seja verdadeira. D. Rodrigo da Cunha supõe que o bispo, corrido desta aventura, escandalosa, não pelo delito, trivialíssimo no clero daquele tempo, mas pelo ameaçado castigo, cousa inaudita antes e depois de D. Pedro I, saíra do bispado e nunca mais voltara ao Porto, posto que ainda vivesse, pelo menos, até Maio de 1372, como se vê do Catálogo Cronológico dos Bispos Portugueses, por J. P. Ribeiro. Esta opinião, que assenta num argumento negativo - a falta de notícias desse prelado nos documentos consultados por D. Rodrigo, da Cunha, posteriores aos eminentes açoutes -, é desmentido pelo testemunho de Fernão Lopes, no Cap. 49 da Cr. de D. Fernando, que faz presente D. Afonso à renovação das Pazes de Alcoutim, juradas no Porto em 1371. É por isto que, apesar de Cunha, nos pareceu natural fazer abençoar por um bispo que se pinta como manchado de adultério um casamento adúltero. 46 Sobre esta antiga topografia vejam-se as Inquirições dos anos de 1268 e 1348 nas Memórias das Inquirições, pág. 45, nota 2, e em Ribeiro, Dissert. Cr. e Crít., T. 5.º, pág. 292 e segs. 47 Acerca de semelhante usança veja-se F. Lopes, Cr. de D. João I, P. 2ª, Cap. 96..53 vontade a D. Leonor. Desamparado dos seus parciais, vendo, se não traída, ao menos quase morta e inactiva a aliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho, o infante D. João, ligado com essa mulher, da qual este príncipe mal pensava então lhe viria a última ruína; no meio de tantos desenganos, o infante, a princípio tímido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentira girar-lhe nas veias o sangue paterno. Obrigado a seguir a Corte, nunca D. Leonor achara um sorriso nos seus lábios; nunca O vira conter diante dela um só sinal de desprezo. Assim, a cólera de el-rei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os cálculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no ânimo de Leonor Teles. A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a Porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da Sé, junto da qual se dilatavam os paços episcopais. Aí as danças e folias pararam e fizeram por um momento silêncio. Então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrém, e após ela, el-rei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desaparecido no profundo portal dos paços, e os donzéis conduziam os elegantes cavalos, as mulas inquietas e os mansos palafréns para as vastas e bem providas cavalariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole 48 . O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hóspedes reais do velho bispo D. Afonso. Um trono com dois assentos de espaldas indicava que a ele ia subir, também, uma rainha. D. Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzelas da sua câmara; el-rei de todos os principais cavaleiros. Viam-se entre estes o alferes-mor Airas Gomes da Silva, ancião venerável, que fora aio do rei quando infante, o orgulhoso mordomo-mor D. João Afonso Telo, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Dinis, o prior da Ordem do Hospital, Álvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a Corte ou tinham vindo assistir às bodas reais. Guiada por D. Fernando, Leonor Teles subiu com passo firme os degraus do trono. Como o navegante, que, afrontando temporais desfeitos por mares incógnitos e aparcelados e chegando ao porto longínquo, quase que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a mil esperanças; a vida trasbordava nela. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delírio. Ela sentia um novo afecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma e, convocando todas as forças do seu coração, salvou a sua ferocidade hipócrita, que parecia querer abandoná-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espírito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto quando o instinto de tigre pôde fazê-la triunfar desse momento em que a generosidade costuma acometer com violência as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realiza a suma ventura por largo tempo sonhada. Do alto do trono e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortesãos e cavaleiros, de donas e donzelas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplêndidas, imóveis e silenciosas: el-rei volveu olhos lentos para um e outro lado e disse: - Ricos-homens, infanções e cavaleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimónio: como para os outros homens, para os reis se instituiu ele; porque por ele as coroas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui ilustre D. Leonor, filha de D. Afonso Telo, descendente dos antigos reis e ligada com os mais nobres dentre vós pelo dívido do sangue. Assim, a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como 48 Na suposta divisão dos bispados atribuída ao rei godo Vamba dá-se ao Porto o nome de Festabole..54 parentes, que de hoje avante sois meus. Leais, como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo título. Em que pés a traidores, D. Leonor Teles é minha mulher! Fidalgos portugueses, beijai a mão à vossa rainha 49 . O velho alferes-mor, Airas Gomes, aproximou-se então do trono, à voz do seu moço pupilo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor; mas o olhar que lançou para el-rei era como o de pedagogo que de mau humor se acomoda ao capricho infantil de um príncipe. Ao volver de olhos do ancião, D. Fernando corou e Voltou o rosto. O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria. Contemplando-o, Leonor Teles deixou assomar aos lábios um daqueles ambíguos e quase imperceptíveis sorrisos que, vindos dela, sempre tinham uma significação profunda. Porventura que no infante D. João ela já não via mais que o percursor da humilhação de D. Dinis, do seu capital inimigo. Após o infante, os fidalgos vieram sucessivamente curvar-se ante D. Leonor. Boa parte deles eram como capitães vencidos seguindo ao Capitólio um triunfador romano. Podia com efeito dizer-se que, mau grado desses que se rojavam a seus pés, ela conquistara o trono. Toda a comprida fileira de nobres oficiais da Coroa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes ilustres por valor ou ciência, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ela, a mulher orgulhosa e implacável esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda impúbere, sem renome, sem poderio, célebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de D. Inês, viesse tributar homenagem à que representava um papel análogo ao daquela desventurada, salvo na sinceridade do amor e na inocência da vida. Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvera rapidamente os olhos considerava com os braços cruzados aquele espectáculo em perfeita imobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado. se afastara, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertara a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de cólera. Na conta de pai o tinha; venerava-o como filho, e a ideia de o ver prostituir os seus cabelos brancos aos pés de uma adúltera o levara a esse movimento involuntário: involuntário, porque ele, naquela postura e naquela hora, não fazia senão coligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos e, talvez, mercadejada por outro em troca de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lágrimas lhe caíram pelas faces; mas obedeceu a el-rei. Só faltava D. Dinis, que continuara a ficar imóvel. Houve um momento de silêncio sepulcral na vasta sala, e este silêncio era para todos indefinido, mas terrível. D. Fernando pôs-se a olhar fito para seu irmão, enleado. ao que parecia, em cismar profundo. Dentro de pouco, poder-se-ia crer que todos os fidalgos que povoavam aquela vasta quadra estavam convertidos em pedra semelhante à das colunas góticas que sustinham as voltas pontiagudas do tecto, se não fosse o respirar ansiado e rápido que lhes fazia ranger sobre os peitos e ombros os seus ricos briais 50 . 49 Em grande parte extraído quase textualmente da Carta de Arras de Leonor Teles, datada de Eixo aos 5 de Janeiro da era de 1410 (1372). 50 O brial era uma espécie de camisola que os cavaleiros vestiam sobre as armas, e por cima da qual apertavam o cinto da espada. Também o vestiam sobre os panos interiores quando andavam desarmados. O seu uso durou por toda a Idade Média, e era ainda lembrado nos fins do século décimo sexto, em que o autor ou tradutor do Palmeirim de Inglaterra tantas vezes o menciona. Nas leis sumptuárias de Afonso IV não se trata, é verdade, de tal vestido; mas a razão disso é óbvia: o brial era trajo militar, e aquelas leis versam sobre o vestuário civil. Na Ordenação Afonsina, L. 1º tit. 63, § 21, se manda cingir a espada ao.55 Os lábios de el-rei tremeram, como a superfície do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede imediatamente o tufão. Depois, entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou: - Infante D. Dinis, beijai a mão à vossa rainha. Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussurro das respirações cessara. D. Dinis não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do trono e, olhando em redor de si, perguntou com um sorriso de amargo escárnio: - Onde está aqui a rainha de Portugal? - Infante D. Dinis! - disse el-rei, cujo rosto o furor mal reprimido demudara. - Sofredor e bom irmão tenho sido por largo tempo: não queirais que seja hoje só juiz inflexível do filho querido daquele que também me gerou! Infante D. Dinis! beijai a mão da mui nobre e virtuosa D. Leonor Teles, como fez vosso irmão mais velho, de quem deveríeis haver vergonha 51 . - Nunca um neto de D. Afonso do Salado - replicou o infante, com aparente tranquilidade - beijará a mão da que el-rei seu irmão e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Dinis de Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primeiro ela descerá desse trono e virá ajoelhar-se a meus pés; que de reis venho eu, não ela. - De joelhos, dom traidor! - gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dois degraus do estrado. - De joelhos, vil parceiro de revéis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebrá-lo-eis diante do vosso rei: quebrá-lo-eis, que vo-lo digo eu! D. Dinis viu então que todos os seus passos estavam descobertos: achava-se, por isso, à borda de um abismo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do herói do Salado e, precipitou-se na voragem. - Vil é a mulher barregã e adúltera, e essa é ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adultério no trono, e vós o fizestes, rei desonrado e maldito de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste lugar é o vil e o traidor? O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descair os braços. Ele bem sabia que se seguia o morrer. Apenas el-rei se alevantara, D. Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarelidão da morte, tinha-se erguido também. Naquele rosto, semelhante ao de uma novel sobre o brial. O dicionário de Morais afirma que o brial era o manto dos cavaleiros: é um dos bastos destemperes daquela babel da língua portuguesa. Eis o que diz o autor do poema do Cid, escrito no meado do século décimo segundo, falando no brial. (Sanches, Poes. Cast. Ant. al Sigla 15º, T. 1º, pág 347): Vestiò camisa de ranzal tan blanca como el sol ............................................................ Sobre ella un brial primo de ciclaton ............................................................ Sobre esto una piel bermeia ............................................................ ............................................................ ............................................................ De suso cobrió un manto, que es de grant valor. 51 "Dizendo elrei sanhudamente contra elle: "Que non avia vergonça nenhuuma, beijarem a mão aa Rainha sua molher o Iffante Dom Joham, que era moor que elle, e isso mesmo seu irmaão, e todollos outros fidallgos do reino, e el soomente dizer que lha nom beijaria, mas que lha beijasse ella a elle."" Fernão Lopes, Cr. de D. Fernando, Cap. 62..56 estátua de sepulcro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontais que se lhe vinham ajuntar entre os sobrolhos. Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Dinis, el-rei soltara um destes rugidos de desesperação e cólera humanas que nem o rugido da mais brava fera pode igualar; grito de ventríloquo, que é como o estridor de todas as fibras do coração que se, despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro giro do instrumento do suplício; rugido, grito, gemido, conglobados num só hiato, fundidos num som único pela raiva, pelo ódio, pela angústia: brado que só terá eco pleno no bramido que há-de soltar o réprobo quando no derradeiro juízo o Julgador dos mundos lhe disser: para ti as penas eternas. O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavaleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias. Como um relâmpago ele tinha arrancado da cinta o agudo bulhão e, com os olhos desvairados, encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmão o esperava imóvel, com a mão sobre o peito, como se dissesse: aqui! Mas D. Fernando não pôde oferecer nas aras do adultério um fratricídio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva e de longas melenas brancas e desbastadas pelos anos: era aquele que lhe fora mais que pai e que ele respeitava mais que a memória deste; era o seu alferes-mor, o venerável Airas Gomes, que, ajoelhado, lhe clamava com vozes truncados de soluços e lágrimas: - Senhor! que é vosso irmão! - É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho! Ele já o não é! À palavra mentes! um relâmpago de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavaleiro: abaixou os olhos e Correu-os pela espada. Fora esta a primeira vez que ela ficara na bainha depois de tão funda afronta. Mas aquele era o momento dos grandes sacrifícios. Airas Gomes replicou, alimpando as lágrimas: - Nunca vos menti, senhor, nem quando éreis na puerícia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou inocente, D. Dinis é filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pai servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes Por defensores todos os cavaleiros de Portugal; ele é que não tem, talvez, um só. Senhor rei, ficai certo de que, para assassinar vosso irmão, vos é mister passar por cima do cadáver de vosso segundo pai. Atalhado assim o primeiro ímpeto, o carácter do moço monarca revelou-se inteiro neste momento. Comoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés, e, com a irresolução pintada nos olhos, fitou-os em Leonor Teles. Por uma reflexão instantânea, a hiena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cairia somente sobre a cabeça deste, irias também sobre a dela. Naquele rosto, então semelhante ao de uma estátua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ela estivesse escrita com sangue. Entretanto os cortesãos, que no furor rompente de el-rei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacilar rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se, também, entre D. Dinis e el-rei, quando este arrancara o punhal, parara ao ver a heróica resolução do alferes-mor; mas, ao hesitar de D. Fernando, correra a abraçar-se com o seu pupilo, que, no meio de tantos ânimos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia tranquilo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes. Finalmente, el-rei meteu vagarosamente o punhal no cinto e, com voz pausada, mas trémula e presa, disse: - Que esse mal-aventurado saia de ante mim..57 O tom em que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o ânimo de D. Dinis, cujo coração, antes disso, parecera de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de água. Sentira que, até então, era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava; agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirara. Com a cabeça pendida em cima do ombro de Gil Vasques de Resende, saiu do aposento. Era, talvez, o velho o único amigo que lhe restava no mundo. D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o colo formoso, agitado por mal contido suspiro. "Coração compadecido e generoso!", pensou lá consigo o alferes-mor, que havia pouco a tratara de perto pela primeira vez. "Hora maldita e negra, em que perdi metade de minha tão esperada vingança!", pensava Leonor Teles, e o choro rebentou-lhe com violência. - Não te aflijas, Leonor - disse D. Fernando, apertando-a ao peito. - Que nunca mais eu o veja, e viva, se puder, em paz! Mas as lágrimas correram ainda com mais abundância e amargura. O resto daquele dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosfera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que fosse pesado e mortal, que resfriava todos os corações. À meia-noite, por um claro luar de céu limpo de Inverno, uma barca subia com dificuldade a corrente rápida do Douro: à popa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dois cavaleiros que aí iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata; um dos remeiros cantava uma cantiga melancólica, a que respondia o companheiro, e dizia assim: Mortos me são padre e madre: Eu tamanino fiquei. Irmãos meus mal me quiseram: Eu mal não lhes quererei. Vou-me correr esse mundo; Sabe Deus se o correrei! A alma deixo-a cá presa; O corpo só levarei. De meus avós nos solares Nasci: dois dias passei: Meus irmãos, nada vos tenho Senão o nome que herdei. Esta cantiga, cuja toada monótona repercutia nos rochedos aprumados das margens, foi interrompida por doloroso suspiro. Um dos cavaleiros o dera. Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ânsia e, depois, continuaram: Se fui rico, ora sou pobre: Choro hoje, se já folguei: Vilas troquei por desvios: Muito fui: nada serei..58 Sem padre, madre ou irmãos, A quem me socorrerei? A ti, meu Senhor Jesus: Senhor Jesus, me acorrei! Um gemido mais angustiado, que saiu envolto em soluços, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompera. O seu companheiro bradou aos barqueiros, com a voz trémula e cansada de um ancião: - Calai-vos aí com vossas trovas malditas! Os remeiros vogaram em silêncio; mas pensavam consigo que muito danadas deviam ser as almas de cavaleiros que assim maldiziam tão devoto trovar. Repararam, porém, que, dos dois desconhecidos, o que suspirara e gemera lançara os braços ao pescoço do que falara, e que este, afagando-o, lhe dizia: - Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos criei e à esclarecido e santa memória de vosso virtuoso pai. Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia muito bem ser que não fossem duas almas danadas aquelas, mas sim mal-aventuradas. VII JURAMENTO, PAGAMENTO Passara mais de um ano depois do casamento de el-rei. Este casamento, que explicava o repúdio da infanta de Castela, não bastara, em verdade, para acender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando, estando já de algum modo previsto nos capítulos adicionais do tratado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante ofensa devia gerar no ânimo do rei castelhano não fosse assaz forte para servir de fermento a futuras guerras, D. Fernando suscitara novos motivos de sérias desavenças, que não particularizaremos aqui, por não virem a nosso intento. Baste saber-se que, depois de inúteis mensagens e queixas, D. Henrique de Castela, entrando subitamente em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessara rapidamente a Beira, passara junto aos muros de Coimbra, onde se achava D. Leonor Teles, e, vindo oferecer batalha a el-rei D. Fernando, que estava em Santarém e que não aceitou o combate, se encaminhara para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas tiveram tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de Afonso III, de cujas torres e adarves viram os castelhanos saquearem e queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o Arrabalde, sem lhes poderem pôr obstáculo. No meio deste apertado cerco, desamparados de el-rei, que apenas lhes enviara alguns dos seus cavaleiros, os moradores de Lisboa não tinham desanimado. Com vária fortuna, haviam resistido aos cometimentos dos castelhanos e, o que mais duro era de sofrer, à fome, à sede e, até, ao receio de traições de seus naturais. Finalmente, D. Fernando fizera uma paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e Lisboa viu afastar dos seus muros o exército de el-rei de Castela, que a tivera sitiada durante quase dois meses. Era nos fins de Maio de 1373, pela volta da tarde de um formoso dia de Primavera. O ar estava tépido, e o céu limpo. Pelos campos e vales via-se verdejar a relva; a madressilva e as rosas bravias, enredadas pelos vaiados, embalsamavam a atmosfera. Mas estes eram os únicos sinais que, nos arredores de Lisboa, revelavam aquela estação suave no seu clima suavíssimo. Tudo o mais contrastava horrivelmente.59 com eles. Os extensos e bastos olivedos e azinhais que nessas eras a rodeavam jaziam aqui e ali por terra, como se por lá tivesse passado foice gigante meneada por braço de ferro. Pelos outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se espalhadas as videiras cobertas de folhas ressecados antes de tempo ou enegrecidas pelo fogo, assemelhando-se a gandra coberta de urzes que foi desbravada por fins de Outono. As vastas hortas que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos pés dos cavalos, estavam incultas e abandonadas. Mas, sobre este mal-assombrado e triste chão do painel, mais melancólica e aflitiva avultava ainda a figura principal, a cidade. O populoso bairro chamado o Arrabalde, onde, dantes, era contínuo o ruído discorde de tracto imenso, achava-se convertido em montão de ruínas. Para os lados do sul e poente, não se viam, desde os antigos muros (cujo perímetro pouco mais abrangia do que o castelo e o bairro a que hoje damos geralmente o nome de Alfama), senão edifícios queimados, ruas entulhadas, praças desfeitas, vestígios de sangue, peças de armadura aboladas ou falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanças e de espadas e, aqui e acolá, cadáveres fétidos, não só de cavalos, mas também de homens, cujas carnes, meio devoradas pelos cães ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os entulhos apareciam como fantasmas os servos mouros, revolvendo as pedras derrocadas, em busca de alguma preciosidade que tivesse escapado às chamas e ao inimigo; e junto às paredes negras da sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado, depenavam as barbas à roda dos rabis, que recitavam em tom de pranto os versículos hebraicos dos Trenos. Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa companhia de cavaleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzelas e pajens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão para S. Domingos e tomava pela Corredoura para a Porta do Ferro. A formosura e o luxo das mulheres, as figuras atléticas e os rostos varonis dos cavaleiros, o brunido das armas, o loução dos trajos, o rico dos arreios, tudo, enfim, dava clara mostra de que naquela cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal. Os risos das damas, os ditos galantes e agudos dos fidalgos, o rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafréns, as doidices dos donzéis, que, ora correndo à rédea solta, ora sofreando os cavalos, ao perpassar pelas mulas pacíficas dos cortesãos letrados, os faziam vacilar e debruçar sobre os arções, o bater das asas dos nebris e gerifaltes empoleirados nos punhos dos falcoeiros, o latir dos galgos e alãos, que, atrelados, forcejavam por se atirarem acima daqueles centenares de habitações derrocadas, donde saía de vez em quando uma exalação de carniça: este rir, este folgar, este ruído de contentamento, este matiz de reflexos metálicos, de cores variegadas, passando, como turbilhão, através daquele silêncio sepulcral, parecia rasgar o véu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruída e revocá-la a uma nova existência. Mas o povo, apesar disso, continuava a estar triste. A cavalgada chegou ao terreiro da Sé. Um engenho de arremessar pedras estava assentado no meio dele, e os grossos madeiros de que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue. Uma dama que vinha na frente da comitiva Parou: um cavaleiro de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou também. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras ao cavaleiro e, depois, desatou a rir. Era ela a mui nobre e virtuosa rainha D. Leonor; ele o Mui excelente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal. D. Leonor tinha razão para rir. Durante o cerco de Lisboa, uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhara de que vários moradores da cidade estavam preitejados com el-rei de Castela para lhe abrirem uma das portas. Dava força a tais suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo.60 Lopes Pacheco e D. Dinis, que com ele se haviam ajuntado na sua entrada em Portugal, e as desconfianças recaíam naturalmente sobre aqueles que, dois anos antes, tinham seguido o partido contrário a D. Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Afonso IV eram cabeças. Assim a popularidade dos parciais de D. Dinis tinha diminuído consideravelmente, porque o povo, em vez de atribuir a sua ruína a causas remotas, às paixões insensatas de D. Leonor e à imprudência de el-rei, só nas sugestões de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o ódio que contra os dois havia concebido se estendera a todos os que cria serem-lhe afeiçoados. Apenas, portanto, se divulgou a notícia da intentada traição, o povo furioso correu às moradas daqueles que, como fica dito, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de canibais, festa de vulgacho em qualquer tempo e lugar que ele reine. Aqueles que não puderam provar de forma inegável a sua inocência foram metidos aos mais cruéis tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais veementes as desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços; "outro - diz o cronista 52 - tomarom e pozeromno na fumda d'huum engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou lançouo em çima dessa igreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomarom-no outra vez e pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida". Era por isso que D. Leonor olhara para o engenho e se rira. O próprio povo tinha pagado uma parte das arras do seu casamento. A noite descera entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e à luz de muitas tochas parte daquela multidão escoou-se, pouco a pouco, por diversas ruas, enquanto outra Parte subia à sala principal ou se derramava pelos aposentos dos paços, cujo silêncio de quase dois anos, depois da fuga de el-rei com D. Leonor Teles, era a primeira vez interrompido pelo ruído de uma corte numerosa, mas bem diferente da antiga. A rainha havia quase exclusivamente chamado a ela os seus parentes ou aqueles fidalgos que lhe tinham dado provas não equívocas de sincera afeição e substituíra à severidade antiga do paço todo o brilho de luxo insensato e, o que mais era, a dissolução dos costumes, que quase sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplêndida, como o devia ser nesta corte voluptuária, apenas ficara na câmara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcelos D. João, D. Gonçalo Teles, irmão de D. Leonor, e um donzel da rainha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Álvaro Gonçalves Pereira, donzel que ela mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde, dois anos antes, o beguino Frei Roi viera revelar à então amante de D. Fernando os intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ela saíra fugitiva e amaldiçoada do povo. Mas era aí, também, que D. Leonor vinha, depois de tantos sustos, de tantas dificuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triunfadora, segura já na fronte a coroa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que, em parte, eram diversas e em diversa situação. El-rei, habitualmente alegre, assentara-se triste na cadeira de espaldas, único móvel do aposento, e encostara a cabeça sobre o punho cerrado; D. Leonor, posto que naturalmente loquaz 53 , assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se, também, em silêncio; em pé, um pouco atrás da cadeira de el-rei, o donzel querido de D. 52 Fernão Lopes, Cr. de D. Fernando, Cap. 75. 53 "A rainha... como era ousada e muito faladora", Fernão Lopes, Cr. de D. Fernando, Cap. 126..61 Leonor, com os olhos fitos nela, esperava atento as determinações de sua senhora; ao longo da sala o conde de Barcelos e D. Gonçalo Teles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada. Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens Principais tinha bem diferentes motivos. A imagem da sua capital destruída havia-se embebido na alma de el-rei, como remorso cruel. Pelas sugestões de seu tio adoptivo, consentira que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta Lisboa. Ele, neto de Afonso IV, rejeitara os socorros de seus valorosos vassalos, que, ao esvoaçar dos pendões inimigos, de toda a parte haviam corrido, lança em punho, para combaterem debaixo da signa real; ele, cavaleiro, fora vil instrumento de vingança covarde; ele, rei de Portugal, fora o destruidor do seu povo; ele, português, recebera o nome de fraco de um castelhano, sem que ousasse desmentir a afronta! 1 Estas ideias, que o tinham assaltado ao atravessar as ruínas dos arrabaldes, tomavam maior vulto e força na solidão e no silêncio. O pobre monarca, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha sobeja razão de estar triste. A Lua, que começava a subir, dava de chapa, através da janela oriental do aposento, no rosto de D. Fernando, como dois anos antes, quase a essa hora. lhe alumiara, também, as faces demudadas de aflição. Este lugar, esta luz e esta hora eram para ele funestas! Nesse momento, passos mais rápidos e mais pesados que os dos dois fidalgos começaram a soar na sala contígua: quem quer que era passeava também. Dos olhos de D. Fernando saíam dois ténues reflexos: eram os raios da Lua que se espalhavam em duas lágrimas. A rainha, alevantando-se então, disse ao donzel: - Nun'Álvares Pereira, vede quem está nessa sala. Nun'Álvares abriu a porta e, alongando a cabeça, voltou imediatamente e disse: - O corregedor da Corte. Os dois fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se e conservaram-se imóveis. A rainha fez sinal com a mão a Nun'Álvares para que esperasse: o donzel ficou à porta sem pestanejar. D. Leonor encaminhou-se então para el-rei, que, embebido no seu profundo cismar, não vira, nem ouvira o que se fazia ou dizia. Curvando-se e firmando o cotovelo no braço da cadeira de el-rei, encostou a cabeça sobre o ombro dele, com a face unida à sua. - Que tens tu, Fernando? - perguntou ela, com essa inflexão de voz meiga que só sabem lábios de esposa que muito ama, mas com que também soubera atinar esta mulher sublime de hipocrisia. - Nada!... nada! - respondeu el-rei, lançando-lhe o braço ao redor do pescoço e apertando a face incendiado àquele rosto de anjo, que dissimulava um coração de demónio. Os dois ténues reflexos da Lua tinham esmorecido nos olhos de D. Fernando: o hálito de Leonor Teles queimara as lágrimas da compaixão e do remorso. - Enganas-me ou enganas-te a ti próprio, Fernando! - replicou a rainha. - Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a pobre Leonor Teles. O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir um coração de mármore. - Enlouqueceste, Leonor? - exclamou el-rei. - Aborrecer-te? Sem ti, este mundo fora para mim soledade, a coroa martírio, a vida maldição de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores, no leito da morte amar-te-ei ainda. Glória, riqueza, poderio, tudo te sacrifiquei; não me pesa. Mil vezes que tu o queiras to sacrificarei de novo..62 - Ah, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes: fosse metade do meu! - Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo, e verás se as minhas palavras são sinceras! - Há um, rei de Portugal! - replicou Leonor Teles, em cujos olhos cintilava o contentamento. Dizendo isto, ela se afastara de el-rei. O seu aspecto tomou subitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto que fez, Nun'Álvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da Corte entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor Teles, ajoelhou e entregou-lho. A rainha pegou nele e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe uma das tochas que estavam nos ângulos do aposento e colocou-se a esquerda da cadeira de D. Fernando. - A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes no fim desse pergaminho o vosso selo de puridade 54 . D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das extensas linhas, que o obrigavam a descrever com a fronte uma curva, o tremor das mãos tornava-se-lhe mais violento e as contracções do rosto mais profundas. Antes de acabar de ler, atirou o pergaminho ao chão e, com voz terrível, exclamou, cravando os olhos reluzentes em Leonor Teles: - Mulher, que me pedes tu? - Justiça e as minhas arras. Era a primeira vez que el-rei ousava resistir à vontade de Leonor Teles. Ela ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo pobre monarca, estas últimas palavras foram proferidas com a insolência de uma resolução incontrastável. - Justiça? Contra quem a pedes? Contra cadáveres e moribundos. As tuas arras? Tiveste em dote as mais formosas vilas dos meus senhorios; tiveste o que mais desejavas, as arras de sangue e ruínas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor de inimigos; para te contentar, fui vil e fraco; para te contentar, dos patíbulos já têm pendido sobejos cadáveres 55 . E, ainda não satisfeita, pretendes que, antes de dormir uma única noite na minha capital assolada, confirme uma sentença de morte? Leonor! tu eras digna de ser filha de meu implacável pai! D. Leonor repelira o olhar, entre colérico e tímido, de D. Fernando, que mal acreditava a própria audácia, com um olhar em que se misturava a indignação e o desprezo. Ela ouvira as suas palavras sem mudar de aspecto; mas, apenas el-rei acabou, encaminhou-se para a janela onde batia o luar e estendeu a mão para o céu: - Há dois anos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas horas, um cavaleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto mulher pode ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o pelo Céu, pelos ossos de seus avós, pela sua fé de cavaleiro - e o cavaleiro mentiu. As bocas de homens vis vomitavam contra essa mulher e a essa mesma hora os nomes de adúltera, de barregã, de prostituta, e pediam a sua morte. O cavaleiro sabia que tais afrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe, se o sangue de quem as proferiu não as lava um dia. O cavaleiro 54 O selo de puridade ou de camafeu era aquele que se estampava no próprio pergaminho e que servia ordinariamente para o rei expedir documentos de menos importância, na falta de chanceler-mor, que tinha o selo grande, curial, ou do cavalo. Veja-se a Dissertação 3ª, de J. P. Ribeiro. 55 Os tumultos contra o casamento de D. Fernando não se tinham limitado a Lisboa. Pelas doações dos bens dos treedores mortos ou decepados se conhece que houve assuadas e depois vinganças em Santarém, Leiria, Abrantes e outras partes..63 ofereceu a sua alma aos demónios, se não as lavasse com sangue - e esse cavaleiro blasfemou e mentiu. Senhor rei, diante do Céu que ele invocou, perto dos ossos de seus avós, pelos quais jurou, à luz da Lua, que o alumiava, dir-vos-ei: aquele cavaleiro foi perjuro, blasfemo, desleal e covarde, e eu a sua vítima. É contra ele que ora vos peço justiça. Rei de Portugal, justiça! Esta última palavra restrugiu horrivelmente pelo aposento. El-rei, que, durante o discurso de D. Leonor, se erguera pouco a pouco, fascinado pelo seu gesto diabólico e pelo seu olhar fulminante, caiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraçado cobriu a cara com ambas as mãos e, depois de um momento de silêncio, murmurou: - Mas, como punir aqueles que, talvez, são cadáveres? A guerra e a fúria popular os puniram! D. Leonor triunfara. - Nem todos! - prosseguiu a astuta e sanguinária pantera, acometendo o último entrincheiramento em que D. Fernando, já debalde, procurava defender-se. - Os seus mais vis inimigos ainda respiram e, porventura, ainda sonham vingança. Corregedor da Corte, lede os nomes escritos em vossa sentença. O corregedor da Corte alevantou o pergaminho, afastando-o dos olhos e interpondo a mão aberta entre estes e a tocha que a Nun'Álvares segurava; tossiu duas vezes, inclinou para trás a cabeça e, com o tom cheio e solene de um mestre em degredos, leu: - "Item: Fernão Vaasques, peom, alfayate, cabeça e propoedor dos ssusodictos rreveis". Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou a sua ementa particular e leu a seguinte cota: - "Vivo; muy malferido dhuúa ffrechada com herva 56 no ffecto de meirinho-moor, quando hos da çidade Ilevarom os castellãos de vencida até mêa rrua nova." Lida esta observação, o corregedor continuou a ler sucessivamente os nomes dos réus e as respectivas cotas. - "Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, peom, capitão dhuu corpo dos ssusodictos rreveis." - Dizia a ementa: "Morto de ssua door naturall." ""Item: Bertolameu Martijs, ourives, peom, dizidor de pallavras de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria e de grão ssamdiçe e desavergonhamento." - Dizia a ementa: "Morto dhuua pedrada dhuu emgenho dos imiguos. ""Item: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do alcayde moor que ffoy do castello desta lyal çidade, capitão dos beesteiros que fforom a Ssam domingos." - Dizia a cota: "Foi cativo dhos castellãos: dado em rrendiçom, e a boõ rrequado na pryssom Dalcaçova." ""Item: Bertolameu Chambão, peom, tanoeiro, cabeça da beestaria do concelho, deputado pera ffazer vilta e affronta a ssua rreal ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes, rrainha dona llyanor." - Rezava a ementa: "Morto dhuua lamçada aa porta dho fferro." ""Item: Ayras Gil, petintal, capitão dos rreveis gualiotes, arraizes e pesquadores Dalfama." - Dizia a cota: - Ffogido com os castellãos." ""Item: Frei Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de sseu officio, bevedo, assoalhador de palavras e dictos devedados e scuita dhos rreveis." - Notava a ementa: "Enssandeçeu na pryssom ao lleer da ssemtença."" 56 Naquele século ainda bárbaro o uso de ervar ou envenenar as armas de tiro ou arremesso era vulgaríssimo nos combates..64 Pobre Frei Roi! Vendo-se condenado à morte, desesperado. revelara o que tinha sido na sedição - um espia de Leonor Teles. A cota da ementa fora tudo o que tirara das suas revelações. O corregedor, homem agudo, como o melhor mestre em leis ou em degredos, deduzira das suas palavras que o beguino endoidecera. Frei Roi trocava as ideias. Tinha sido espia, mas dos sediciosos. Alevantado o cerco de Lisboa, o corregedor da Corte fora o primeiro presente que a nova rainha enviara à cidade. Àquele perspicaz e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar um sarau digno dela, uma sentença de morte. A prova da sua perspicácia e diligência estava em ter já no caminho da forca os desgraçados cuja sentença vinha trazer à confirmação real. Numa execução nocturna não havia a recear tumultos populares, e a brevidade que a rainha lhe recomendara neste negocio lhe fazia crer que não seria desagradável a sua real senhoria a imediata execução dos réus. Quando acabou a leitura, el-rei tirou da bolsa que trazia no cinto o selo de camafeu e, sem dizer palavra, entregou-o ao corregedor. Este pegou na tocha de Nun'Álvares, deixou cair alguns pingos de cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento de papel que tirara da ementa e cravou neste o selo. As armas de el-rei ficaram aí estampadas. O corregedor fizera isto com a prontidão e o asseio com que o mais hábil algoz enforcaria o seu próximo. Depois o honesto magistrado entregou o selo a el-rei, cujo tremor nervoso se renovara durante a fatal cerimónia. Ao pegar-lhe, o pobre monarca deixou-o cair no chão. O selo foi rolando e parou aos pés de D. Leonor Teles. Ela empalideceu. Porquê? Talvez se lhe figurou uma cabeça humana que rolava diante dela. O corregedor fez uma profunda vénia e perguntou em voz sumida à rainha: - Quando, senhora? No mesmo tom, D. Leonor respondeu: - Já. O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O já da rainha seria mais já do que ela própria pensava. O corregedor saiu. A um aceno de D. Leonor, o donzel meteu a tocha no anel de ferro embebido na parede donde a tinha tirado e encaminhou-se para junto da porta. Ali ficou de braços cruzados, olhos no chão, e imóvel como estátua. Desde este dia, o formoso donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquela que lhe cingira a espada. O generoso Nun'Álvares conhecera que debaixo desse rosto suave se escondia um instinto de besta-fera. Os dois fidalgos continuaram a passear de um para outro lado, conversando em voz baixa, e como alheios à cena que ali se passava. El-rei tomara a primeira postura em que estava, com o cotovelo firmado no braço da cadeira, e a cabeça encostada no punho; mas os seus olhos, revolvendo-se-lhe nas órbitas, incertos e espantados, exprimiam a dolorosa alienação daquela alma tímida, atormentada por mil afectos opostos. Ouvia-se apenas o cicio dos dois que conversavam. E, por largo espaço, aquele murmúrio e o respirar alto e convulso de D. Fernando foram o único ruído que interrompeu o silêncio do vasto aposento. El-rei, com a mão esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se ir ao som das ideias tenebrosas que lhe ofuscavam o espírito e que, protraídas, o levariam bem próximo das raias de completa loucura. A imagem de Leonor Teles aparecia-lhe como composto monstruoso de vulto de anjo e de olhar de demónio. Um amor infinito arrastava-o para essa imagem; o horror afastava-o dela. Via-a como um simulacro das virgens que, na infância, imaginava, ao ouvir ler ao bom de seu aio Airas Gomes as.65 lendas dos mártires; mas logo cuidava ouvi-la dar risada infernal, passando por cima das ruínas da cidade deserta, O patíbulo e os delírios amorosos; o cheiro do sangue e o hálito dos banquetes misturavam-se-lhe no senso íntimo: e o pobre monarca, nos seus desvarios, perdera a consciência do lugar, da hora e da situação em que se achava naquele terrível momento. Mas um beijo ardente, dado nessa mão que tinha estendida, e lágrimas ainda mais ardentes, que a regavam, foram como faísca eléctrica, revocando-o à razão e à realidade da vida. A comoção indizível e misteriosa que sentira fez-lhe abaixar os olhos: a rainha estava a seus pés; era ela quem lhe cobria a mão de beijos e lha regava de lágrimas. D. Fernando afastou-a suavemente de si: ela alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto; era, de feito, a imagem de uma das mártires que ele via no seu imaginar da infância. D. Leonor ergueu as mãos suplicantes, com um gesto de profunda angústia: então, era mais formosa que elas. - Ah! - murmurou el-rei - porque é o teu coração implacável, ou porque te amei eu tanto? - Desgraçada de mim! - acudiu D. Leonor entre soluços. - O teu amor era como o íris do céu: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperança; mas desvaneceu-se e passou: a vida de Leonor Teles desvanecer-se-á e passará com ele! - É porque sabes que esse amor não pode perecer; que esse amor é como um fado escrito lá em cima - interrompeu D. Fernando - que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer as tuas cruéis vinganças: é porque sabes que esgoto sempre o cálix das ignomínias quando as tuas mãos mo apresentam, que me sacias de desonra. Terás, acaso, algum dia piedade daquele que fizeste teu servo, e que não pode esquivar-se a ser tua vítima? - Ai, quanto és injusto, Fernando, e quão mal me conheces! - exclamou Leonor Teles, limpando as lágrimas. - Foi a tua dignidade real, a tua justiça, o teu nome que eu quis salvar da tua própria brandura. Aos mesquinhos que me ofenderam perdoei de todo o coração; mas tu, que eras rei e juiz, não o podias fazer. Se o nome de teu virtuoso pai ainda hoje lembra a todos com veneração e amor, é porque teu pai foi implacável contra os criminosos, e aquilo em que pões a desonra e a ignomínia é a coroa de glória imortal que cerca o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a escolher entre a confirmação dessa fatal sentença e a deslealdade e a blasfémia, que não cabem em coração e lábios de cavaleiro, foi por te salvar de ti mesmo. Se crês que nisto fui culpada, dize-me só: "Leonor, já te não amo!", e eu ficarei punida; porque nessas palavras estará escrita a minha sentença de morte! Possas tu depois perdoar-me e proferir sobre a campa da pobre Leonor uma expressão de piedade! As lágrimas e os soluços parecia não a deixarem prosseguir. Reclinou a cabeça sobre os joelhos de el-rei, apertando-lhe a mão entre as suas com um movimento convulso. Formosa, querida, humilhada a seus pés, como resistiria o pobre monarca? Unindo a face àquela fronte divina, só lhe disse: "Oh Leonor, Leonor!", e as suas lágrimas misturavam-se com as dela. Durante esta luta da dor e da hipocrisia, em que, como sempre acontece, a última triunfava, o conde de Barcelos e D. Gonçalo Teles tinham-se encostado à janela fatal que dava para o rio e que, também, dominava grande porção do arrabalde ocidental da cidade. O espectáculo da noite era de melancólica magnificência. A Lua caminhava nos céus limpos de nuvens, e pela face da Terra nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas aguas, mas esmorecia batendo na povoação, na qual não achava, além dos antigos muros, uma parede branqueada, uma.66 pedra alva, onde espalhar-se, ou um sussurro de festa acorde com as suas harmonias. O incêndio e o ferro tinham passado por lá, e Lisboa era um caos de ruínas, um cemitério sem lápides. Apenas, no extremo do seu, dantes, mais rico e povoado arrabaldes amarelejava, polido pelo tempo, o gótico Mosteiro de S. Francisco, junto de sua irmã mais velha a Igreja dos Mártires. No vale que ficava em meio a luz de cima embebia-se inutilmente na povoação que jazia extinta. A bela lua de Maio, tão fagueira para esta cidade querida, assemelhava-se à leoa que, voltando ao antro, acha o seu cachorrinho morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo, indiferente e frio, não crê, e vai e volta muitas vezes, renovando os seus inúteis afagos. Lisboa era um cadáver, e a Lua passava e sorria-lhe ainda! Mas, no meio daquele chão irregular, negro, calado, viam-se, aqui e acolá, luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as relíquias dos mortos, para lhes darem sepultura cristã. Neste piedoso trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram acompanhados por alguns do povo que, para se esforçarem, cantavam uma cantiga pia, cujas coplas, berri que interrompidas, vinham, com triste som, bater de vez em quando nos ouvidos dos dois cavaleiros. Rezavam as coplas: D'amigos e imigos, Que aí são deitados, Levemos os ossos Ao chão dos finados. Ave Maria! Santa Maria! Madre gloriosa, Dess'alta ventura Demovei os olhos A nossa tristura. Ave Maria! Santa Maria! Ao bento Jesus, E ao padre eternal Pedi que perdoe A quem morreu mal. Ave Maria! Santa Maria! Esta longínqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que se alevantou mais perto dos dois cavaleiros. Uma voz esganiçada dava o seguinte pregão: -...Justiça que manda fazer el-rei em Fernão Vasques, João Lobeira e Frei Roi: que morram na forca, sendo ao primeiro as mãos decepadas em vida. Os cavaleiros abaixaram os olhos para o lugar donde subira a voz: era no terreiro próximo; os três padecentes e o algoz, cercados de alguns besteiras, aproximavam-se do cadafalso: vários vultos negros fechavam o préstito; daquela pinha partira a voz do pregoeiro..67 Este pregão, dado a horas mortas e numa praça deserta, parecia um escárnio. Mas o corregedor da Corte era afamado jurisconsulto, e nós temos ouvido a alguns que na execução das leis as formas são tudo. Assim piamente o cremos. Duas se tinham, porém, esquecido: os desgraçados morriam, como aqueles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite, e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia. O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma espécie de marco escuro que estava ao pé do patíbulo. Daí a nada, os cavaleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram sucessivamente dois golpes, dados como em vão, seguindo-se a cada um deles um grito de terrível angústia. O conde de Barcelos quis rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na garganta, e, como Gonçalo Teles, recuou involuntariamente. O grito que restrugira chegara aos ouvidos de el-rei. - Que bradar de homem que matam é este? - perguntou ele. - Justiça de sua senhoria que se executa - respondeu o conde, que neste momento retrocedia da janela. - Oh desgraçados! tão breve! - disse el-rei, passando a mão pela fronte, donde manava o suor da aflição e do terror. Olhando então para Leonor Teles, acrescentou: - Até a derradeira mealha estão pagas vossas arras, rainha de Portugal! Que mais pretendeis de mim? E deixou pender a cabeça sobre o peito. D. Leonor não respondeu. D. Gonçalo Teles aproximou-se então da cadeira de D. Fernando e curvou um joelho em terra. El-rei alevantou os olhos e perguntou-lhe: - Que me quereis? - Senhor - respondeu o honrado e nobre cavaleiro - se vossa senhoria consentisse neste momento em ouvir a súplica de um dos seus mais leais vassalos!... - Falai - replicou D. Fernando. - João Lobeira acaba de receber o prémio de sua traição prosseguiu D. Gonçalo. - O desleal escudeiro possuía avultados bens, que ficam pertencendo à Coroa real. Por vossa muita piedade, podeis fazer mercê deles a seu filho Vasco de Lobeira; mas o pobre moço ensandeceu há tempos! Tresleu com livros de cavalarias, e tão varrido está que não fala em al, senão em um que anda imaginando e a que pôs o nome Amadis. Para um mesquinho parvo e sandeu pouco basta, e vossa real senhoria bem sabe que a minha escassa quantia mal chega... - Calai-vos, calai-vos; que isso é negro e vil - bradou el-rei, redobrando-lhe o horror que tinha pintado no rosto. - Deixai, ao menos, que a sua alma chegue perante o trono de Deus! - Apenas cinquenta maravedis! - murmurou D. Gonçalo, erguendo-se, e abaixando os olhos, aflito com a lembrança de sua extremada pobreza. A 6 de Junho da era de César de 1411 (1373), em um dos andares da torre do castelo, o veador da Chancelaria, Álvaro Pires, passeando de um para outro lado, ditava a um mancebo, vestido de garnacha preta, o qual tinha diante de si tinteiro, penas e folhas avulsas de pergaminho, a seguinte nota: - "Item. Pera se spreuer a ffolhas cento e vinte-oyto do Ilivro prymeyro da Chançelaria Deirrey noso senhor: Doaçom dos beês de rraiz e moviis de Joham Lobeira, confisquado e morto por treedor contra ho sserviço de ssua rreal senhoria, ao muy nobre.68 D. Gonçaalo, Tellez, per ho muyto divedo que cõ elrrey há, e polos muytos sserviços que del teé rreçebido e ao deante espera de rreçeber." 57 E o povo?... Oh, este, sim! Mostrava-se agradecido e bom no meio de tantas infâmias e crimes. Os populares que, na manhã imediata àquela horrível noite dos fins de Maio, passavam pelo terreiro maldito onde pendiam os três cadáveres, meneavam a cabeça e, seguindo avante, diziam: - Boa e prestes foi a justiça de el-rei nos traidores. Alcácer por senhoria. NOTA FINAL D. Fernando guardou até a Primavera de 73 a vingança contra os populares de Lisboa e doutras terras que no ano de 71 se tinham amotinado por causa do seu casamento. Vê-se isto dos documentos registados na sua chancelaria e citados por Frei Manuel dos Santos. Quem atentamente tiver estudado o carácter atroz e dissimulado de Leonor Teles, tão bem pintado por Fernão Lopes. e os factos que provam a sua influência sem limites no ânimo daquele príncipe não poderá esquivar-se a veementes suspeitas sobre os motivos que, num romance nós damos como reais, porque aí é lícito fazê-lo, da, aliás inexplicável, inacção com que D. Fernando não quis opor-se à vinda de el-rei de Castela sobre Lisboa. vinda que reduziu os seus moradores aos mais espantosos apuros e que converteu a cidade, por assim dizer, em um montão de ruínas. Daqueles documentos resulta que, depois de tirada toda a força aos habitantes de Lisboa pela guerra de Castela, em que se viram quase sós e abandonados, el-rei viera, sobre as ruínas da maior e melhor parte dela, satisfazer os ódios de D. Leonor; porque levantando o cerco em Março de 73, achamos el-rei em Lisboa (aonde não voltara desde a sua fuga no Outono de 71) durante alguns dias de Maio, e em Santarém e outros lugares nos meses seguintes, fazendo mercês dos bens dos cidadãos mortos, decepados ou fugidos, do que se pode concluir que então foram executados ou banidos, não sendo de crer que a cobiça cortesã tivesse esperado muitos dias sem prear estes sanguinolentos despojos. O casamento de Leonor Teles e as consequências dele são o primeiro acto do drama terrível, da Ilíada Scelerum da sua vida política. Foi este primeiro acto que nós procurámos dispor na tela do romance histórico. Todo o drama daria nessa forma da arte, uma terrível crónica. Desde esta conjuntura até ser arrostada em ferros para Castela, por aqueles mesmos que chamara a assolar o seu país, Lucrécia Górgia portuguesa é, na história dessa época, uma espécie de fantasma diabólico, que aparece onde quer que haja um feito de traições, de sangue ou atrocidade. 57 A nota é imaginária, mas esta mercê acha-se com efeito registada a f. 128 do L.º 1º da Chancelaria de D. Fernando; cumpre, todavia, advertir que dessa chancelaria apenas existe original o 3º livro; o 1º é dos reformados ou estragados por Gomes Eanes de Azurara..69 O CASTELO DE FARIA (1373) A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas da Franqueira, alveja ao longe um convento de Franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas árvores. Sentem-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silencio daquela solidão, a qual, para nos servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das coisas celestes. O monte que se alevanta acima do humilde convento é formoso, mas áspero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre Douro e Minho. Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue; já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens: porque é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra. O castelo de Faria, com suas torres e ameias, com a sua barbacã e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou aí como dominador dos vales vizinhos. Castelo real da Idade Média, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão há muito; mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de mármore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcácer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e caiu. Ainda no século dezassete parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas; no século seguinte já nenhuns vestígios dele restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um cemitério, fundado pelo célebre Egas Moniz, era o único eco do passado que aí restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Bragança, D. Afonso. Era esta lájea a mesa em que costumava comer Salat-Ibn-Salat, último senhor de Ceuta. D. Afonso, que seguira seu pai D. João I na conquista daquela cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de Barcelos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do Cristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino? Serviram os fragmentos do castelo de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitórios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbrais das balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O ruído dos combates calou-se no alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dos salmos e o sussurro das orações. Este amigo castelo tinha recordações de glória. Os nossos maiores, porém, curavam mais de praticar façanhas do que de conservar os monumentos delas. Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro, pedras que foram testemunhas de um dos mais heróicos feitos de corações portugueses. Reinava entre nós D. Fernando. Este príncipe, que tanto degenerava de seus antepassados em valor e prudência, fora obrigado a fazer paz com os Castelhanos, depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que se esgotaram inteiramente os tesouros do Estado. A condição principal, com que se pôs termo a esta.70 luta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha de el-rei de Castela; mas, brevemente, a guerra se acendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Teles, sem lhe importar o contrato de que dependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu por mulher, com afronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pai a tomar vingança da injúria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exército e, recusando D. Fernando aceitar-lhe batalha, veio sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso propósito narrar os sucessos deste sitio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho. O adiantado da Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela província de Entre Douro e Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo, enquanto a maior parte do pequeno exército português trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa. Prendendo, matando e saqueando, veio o adiantado até as imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Seia e tio de el-rei D. Fernando, com a gente que pôde ajuntar. Foi terrível o conflito; mas, por fim, foram desbaratados os Portugueses, caindo algumas nas mãos dos adversários. Entre os prisioneiros encontrava-se o alcaide-mor do Castelo de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para socorrer o conde de Seia, vindo, assim, a Companheiro na comum desgraça. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo de el-rei, seu senhor, das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausência um seu filho, e era de crer que, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escasseavam. Estas considerações sugeriam um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao adiantado que o mandasse conduzir a pé dos muros do castelo, porque ele, com as suas exortações, faria com que o filho o entregasse, sem derramamento de sangue. Um troço de besteiros e de homens de armas subiu a encosta do monte da Franqueira levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O adiantado da Galiza seguia atrás com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, estendia-se rodeando os muros pelo outro lado. O exército vitorioso ia tomar posse do Castelo de Faria, que lhe prometera dar nas mãos o seu cativo alcaide. De roda da barbacã alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria, mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou barbacã. Nas torres, as atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadéns corriam com a rolda 58 pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos nos ângulos das muralhas. O terreiro onde se haviam acolhido os habitantes da povoação estava coberto de choupanas colmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das mulheres e das crianças, que ali se julgavam seguros da violência de inimigos desapiedados. Quando o troço dos homens de armas que levavam preso Nuno Gonçalves vinha já a pouca distância da barbacã, os besteiros que cercavam as ameias encurvaram as bestas, e os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrários as suas quadrelas e virotões, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado. 58 Roldas e sobrerroldas eram os soldados e oficiais encarregados de rondarem os postos e atalaias..71 Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacã; todas as bestas se inclinaram para o chão, e o ranger das máquinas converteu-se num silêncio profundo. - Moço alcaide, moço alcaide! - bradou o arauto - teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galiza pelo mui excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo. Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã, disse ao arauto: - A Virgem proteja meu pai! Dizei-lhe que eu o espero. O arauto voltou ao grosso dos soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu de entre os seus guardadores e falou com o filho: - Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda, quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia? - É - respondeu Gonçalo Nunes - de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem. - Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum raso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele? - Sei, oh meu pai! - prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos Castelhanos, que começavam a murmurar. - Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência? Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então: - Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no Inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver. - Morra! - gritou o almocadém castelhano - morra o que nos atraiçoou - E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado de muitas espadas e lanças. - Defende-te, alcaide! - foram as últimas palavras que ele murmurou. Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de flechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue leal ao seu juramento. Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbacã ficou alastrado de cadáveres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido mm a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca; o vento suão soprava nesse dia mm violência e em breve os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente com as suas frágeis moradas. Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição de seu pai; lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, ouvia a todos os momentos o último grito do bom Nuno Gonçalves: - Defende-te, alcaide! O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco. Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento e pelas façanhas que obrara na defensão da fortaleza, cuja guarda lhe fora encomendada por seu pai no último transe da vida. Mas a lembrança do horrível sucesso estava sempre presente no espírito do moço alcaide. Pediu a El-Rei o desonerasse do cargo que tão bem desempenhara, para se cobrir com as vestes pacíficas do sacerdócio..72 Ministro do santuário, era com lágrimas e preces que ele podia pagar a seu pai o ter coberto de perpétua glória o nome dos alcaides de Faria. Mas esta glória, não há hoje aí uma ú nica pedra que a ateste. As relações dos historiadores foram mais duradoiras que o mármore..73 A ABÓBADA (1401) O CEGO O dia 6 de Janeiro do ano da Redenção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens. Os campos, cobertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benéfico do Sol, verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador. Era um destes formosíssimos dias de Inverno mais gratos que os do Estio, porque são de esperança, e a esperança vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu aos países do Ocidente, em que os raios do Sol, que começa a subir na eclíptica, estirando-se vívidos e trémulos por cima da terra enegrecida pela humidade, e errando por entre os troncos pardos dos arvoredos despidos pelas geadas, se assemelham a um bando de crianças, no primeiro viço da vida, a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual há muito sussurrou o último ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era um destes dias antipáticos aos poetas ossiânico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos aceitar como cousa mui Poética Esses gelos do Norte, esses brilhantes Caramelos dos topes das montanhas; sem se lembrarem de que Do sol do meio-dia aos raios vívidos, Parvos! - se lhes derretem: a brancura Perdem coa nitidez, e se convertem De lúcidos cristais em água chilre; destes dias, enfim, em que a Natureza sorri como a furto, rasgando o denso véu da estação das tempestades. No adro do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo, entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solenidades religiosas. Os frades dominicanos, a quem el-rei D. João I tinha doado esse magnífico mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquelas altas abóbadas, onde repercutiam os sons do órgão e os ecos das vozes do celebrante, que entoava os quíries. Mas não era para ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para dentro do recinto sonoro daquela maravilhosa fábrica; era para assistir ao auto da adoração dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja e diante do rico presépio que os frades tinham alevantado junto do arco da Capela do Fundador, então apenas começada. A concorrência era grande, porque os habitantes da Canoeira, de Aljubarrota, de Porto de Mós e dos mais lugares vizinhos, desejosos de ver tao curioso espectáculo, tinham deixado desertas as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro. Aprazível cousa era o ver, descendo dos outeiros para o vale por sendas torcidas, aquelas multidões, vestidas de cores alegres e semelhantes, no seu complexo, a serpentes imensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao longe as cores.74 variegadas da pele luzidia e lúbrica. Atravessando a pequena planície onde avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tomado caudal as chuvas da primeira metade da estação invernosa. No campo contíguo ao edifício, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cobertas de madeira e abertas para todos os lados. à maneira de simples telheiros. As casas fechadas e reparadas, contra as injúrias do tempo eram as moradas dos mestres e artífices que trabalhavam no edifício: debaixo dos telheiros viam-se nuns pedras só desbastadas, noutros algumas onde se começavam a divisar lavores, noutros, enfim, pedaços de cantaria, em que os mais hábeis escultores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados cinzéis. Mas o que punha espanto era a inumerável porção de pedras, lavradas, polidas e prontas para serem colocadas em seus lugares, que jaziam espalhadas pelo terreiro que, ao redor do edifício, se alargava por todos os lados: mainéis rendados, peças dos fustes, capitéis góticos, laçarias de bandeiras, cordões de arcadas, aí estavam tombados sobre grossas zorras ou ainda no chão, endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores, oficiais e mais obreiros desta maravilhosa fábrica. Quem de longe olhasse para aquele extenso campo, alastrado de tantos primores de escultura, julgara ver o assento de uma cidade antiquíssima, arrasada pela mão dos homens ou dos séculos, de que só restava em pé um monumento, o mosteiro. E todavia, esses que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas pedras que faltavam para o acabamento dum convento de frades dominicanos, o Convento de Santa Maria da Vitória, vulgarmente chamado a Batalha! Um quadraste de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os habitantes das próximas povoações, e de todo o ruído e algazarra que poucas horas antes soava por aqueles Contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do órgão, soltando a espaços as suas melodias, que Sussurravam e morriam ao longe, suaves como pensamento do Céu. Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edifício. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao sol e o resto do corpo resguardado dos seus ardentes raios pela Sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, venerável de aspecto, que Parecia embrenhado em profundas meditações. Pendia-lhe sobre O Peito uma comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um gibão escuro vestido, e sobre ele uma capa curta ao modo antigo. A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daqueles membros trémulos e enrugados morava um animo rico de alto imaginar. As faces do velho eram fundas, as maçãs do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva e o perfil do rosto quase perpendicular. Tinha a testa enrugada, como quem vivera vida de contínuo pensar, e, correndo com a mão os favores de pedra sobre que estava assentado, ora carregando o sobrolho, ora deslizando as rugas da fronte, repreendia ou aprovava com eloquência muda os primores ou as imperfeições do artífice que copiara à ponta de cinzel aquela página do imenso livro de pedra a que os espíritos vulgares chamam simplesmente o Mosteiro da Batalha. Enquanto o velho cismava sozinho e palpava o canto, subtilmente lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, à portaria do mosteiro, que perto dali ficava, outras figuras e outra cena se viam. Dois frades estavam em pé no limiar da porta e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos dos pés e estendendo os pescoços, parecia quererem descobrir no horizonte, que as cumeadas dos montes fechavam, algum objecto; depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços.75 e, voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de não acabar. - Oh homem! - dizia um dos dois frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabelos grisalhos davam certo ar de autoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias e na cor negra da barba povoada e revolta mais vigor de mocidade. - Já disse a vossa reverência que el-rei me escreveu, de seu próprio punho, que viria assistir ao auto da adoração dos reis e, de caminho, veria a Casa do Capítulo, a que ontem Mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abóbada. - E nego eu isso? - replicou o outro frade. - O que digo e que me parece impossível que el-rei venha, de feito, conforme a vossa paternidade prometeu em sua carta. Há muito que lá vai o meio-dia: daqui a pouco tocará a vésperas, e às duas por três é noite. Não vedes, padre-mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este povo, este devoto povo que aí está, que aí vem, há-de ir com o escuro por esses descampados e serras, com mulheres, com raparigas... - Tá, tá - interrompeu o prior. - Temos luar agora, e vão de consum. O caso não é esse, padre-procurador, o caso é se está tudo aviado para agasalharmos el-rei e os de sua companha. - Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde ontem que tenho tido tanto descanso como hoste ou cavalgada de castelhanos diante das lanças do Condestável; o pior é que, segundo me parece, e dizei o que quiserdes, opus et oleum perdidi. 59 - Não falta quem tarda: el-rei não quebrará a palavra ao seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas que têm de fazer suas representações no auto estejam a ponto e vestidos, para ele começar logo que sua senhoria chegue. - Nada receeis, que tudo está preparado; do que duvido é de que comecemos, se por el-rei houvermos de esperar. O frade mais velho fez, a estas palavras, um gesto de impaciência e, sem dar resposta ao seu pirrónico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade do hábito uma espécie de sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do Sol, que, já muito inclinado para o ocidente, batia de chapa no portal onde os dois reverendos estavam altercando. Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o mínimo vulto se enxergava no horizonte; e neste abaixar de olhos viu o cego, que estava ainda assentado sobre o fuste da coluna. Para escapar, talvez, às reflexões do seu confrade, o reverendo bradou ao velho: - Oh lá, mestre Afonso Domingues, bem aproveitais o soalheiro! Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de Inverno vale, na idade grave, mais que todos os remédios de longa vida que em seus alforges trazem por aí os físicos. Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal e encaminhou-se para o cego. - Quem é que me fala? - perguntou este, alçando a cabeça. - Frei Lourenço Lampreia, vosso amigo e servidor, honrado mestre Afonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada? - Perdoai-me, mui devoto padre-prior - atalhou o velho, tenteando com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Frei Lourenço Lampreia chegava junto dele, seguido do seu confrade Frei Joane, procurador do mosteiro. - Perdoai-me! Foi-se o ver, vai-se o ouvir. Em distância, já não acerto a distinguir as falas. - Estai quedo; estai quedo, mestre Afonso - disse Frei Lourenço, segurando o cego pelo braço. - O indigno prior do Mosteiro da Vitória não consentirá que o mui 59 Perdi o azeite e o trabalho, expressão proverbial..76 sabedor arquitecto e imaginador Afonso Domingues, o criador da oitava maravilha do mundo, o que traçou este edifício, doado pelo virtuoso de grandes virtudes rei D. João à nossa Ordem, se alevante para estar em pé diante do pobre frade... - Mas este religioso - interrompeu o cego - é o mais abalizado teólogo de Portugal, o amigo do mui excelente doutor João das Regras e do grande Nun'Álvares, e privado e confessor de el-rei; Afonso Domingues é apenas uma sombra de homem. um troço de capitel partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto, de quem já ninguém faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis nisso muitos de vossa igualha. - De merencório humor estais hoje - disse o prior, sorrindo. Não só eu vos amo e venero: el-rei me fala sempre de vós em suas cartas. Não sois cavaleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu em paga da obra que traçastes e dirigistes, enquanto Deus vos concedeu vista, não prova que não foi ingrato? - Cavaleiro!? - bradou o velho. Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escritura. Aqui mestre Afonso puxando com a mão trémula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas cicatrizes no peito. - Em Aljubarrota foi escrito o documento à ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre de Avis. Já lá vão quinze anos! Então ainda estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha de armas era brinco. El-rei não foi ingrato, dizeis vós, venerável prior, porque me concedeu uma tença!? Que a guarde em seu tesouro; porque ainda às portas dos mosteiros e dos castelos dos nobres se reparte pão por cegos e por aleijados. Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados caíam-lhe pelas faces encovadas duas lágrimas como punhos. A Frei Lourenço também se arrasaram os olhos de água. Frei Joane, esse olhou fito para o cego durante algum tempo, com O olhar vago de quem não o compreendia. Depois, a ideia da tardança de el-rei e da tardança do auto, que, entrando pelas horas de cear e dormir, iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina monástica, veio despertá-lo como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante ao corredor brioso do Livro de Job e da Eneida. Entretanto, o arquitecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um momento de silêncio. Por fim, segurando com força a manga do hábito de Frei Lourenço, disse-lhe: - Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comédia do florentino Dante. - Li já, e mais de uma vez - respondeu o prior. - É obra-prima, daquelas a que os Gregos chamavam epos, id est, enarratio et actio, segundo Aristóteles; e se não houvesse nessa escritura algumas ousadias contra o papa... - Pois sabei, reverendo padre prosseguiu o arquitecto, atalhando o ímpeto erudito do prior que este mosteiro que se ergue diante de nós era a minha Divina Comédia, o cântico da minha alma: concebi-o eu; viveu comigo largos anos, em sonhos e em vigília: cada coluna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma página de canção imensa; mas canção que cumpria se escrevesse em mármore, porque só o mármore era digno dela. Os milhares de favores que tracei em meu desenho eram milhares de versos e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas paginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporais estavam mortos, não o estavam os do espírito. O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejara. Que direito tinha o Mestre de Avis para sulcar com um golpe do seu montante a face de um arcanjo que eu crera? Que direito tinha para me espremer o coração debaixo dos seus sapatos de ferro? Dava-lho o ouro que tem despendido? O ouro!... Não! O Mestre de Avis sabe que o.77 ouro e vil; só e nobre e puro o génio do homem. Enganaram-no: vassalos houve em Portugal que enganaram seu rei! Este edifício era meu; porque o gerei; porque o alimentei com a substancia da minha alma; porque necessitava de me converter todo nestas pedras, pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas colunas e por baixo dessas arcarias. E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tença!... Com uma tença paga-se a gloria e a imortalidade? Agradeço-vos, senhor rei, a mercê!... Sois em verdade generoso... mas o nome de mestre Ouguet enredar-se-á no meu ou, talvez, sumira este no brilho de sua fama mentida... O cego tremia de todos os membros: a veemência com que falara exaurira-lhe as forças: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se outra vez em cima do fuste. Os dois frades estavam em pé diante dele. - Estais mui perturbado pela paixão, mestre Afonso - disse Frei Lourenço, depois de larga pausa -, por isso menoscabais mestre Ouguet, que era, talvez, o único homem que ai havia capaz de vos substituir. Quanto a vos, pensaram os do conselho de el-rei que deviam propor-lhe vos desse repouso e honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguém teve em mente ofender o mais sabedor e experto arquitecto de Portugal, cuja memória será eterna e nunca ofuscada. - Obrigado - atalhou o velho - aos conselheiros de el-rei pelos bons desejos que em meu prol tem. São políticos, almas de lodo, que não compreendem senão proveitos materiais. Dão-me o repouso do corpo e assassinam-me o da alma! Acerca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas manhas e ciência de edificar: mas que ponha ele por obra suas traças, e deixem-me a mim dar vulto as minhas. E demais: para entender o pensamento do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, cumpre ser português; cumpre ter vivido com a revolução que pôs no trono o Mestre de Avis; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adúltera 60 ; ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido em Aljubarrota. Não é este edifício obra de reis, ainda que por um rei me fosse encomendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portuguesa, que disse: não seremos servos do estrangeiro e que provou seu dito. Mestre Ouguet, escolar na sociedade dos irmãos obreiros 61 , trabalhou nas sés de Inglaterra, de França e de Alemanha, e aí subiu ao grau de mestre; mas a sua alma não é aquecida a luz do amor da pátria; nem, que o fosse, e para ele pátria esta terra portuguesa. Por engenho e mãos de portugueses devia ser concebido e executado, até seu final remate, o monumento da glória dos nossos; e eis aí que ele chamou de longes terras oficiais estranhos, e os naturais Ia foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães. Sei que não seriam nem eles nem eu quem pusesse esse remate; mas nos deixaríamos sucessores que conservassem puras as tradições da arte. Perder-se-á tudo; e, porventura, tempo vira em que, nesta obra dos séculos, não haja mãos vigorosas que prossigam os lavores que mãos cansadas não puderam levar a cabo. Então o livro de pedra, o meu cântico de vitória, ficara truncado. Mas Afonso Domingues tem uma pensão de el-rei... Em uma das casas que ficavam mais próximas, daquelas de que fizemos menção no princípio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma janela no momento em que o cego 60 D. Leonor Teles, mulher de el-rei D. Fernando. 61 Arquitectos sarracenos se espalharam pela Grécia, Itália, Sicília e outros países, durante certo tempo: um avultado número de artífices cristãos, principalmente. gregos, se ajuntaram com eles e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por sinais. Esta foi a origem do Maçonaria. (Conversation's Lexicon.).78 proferia as últimas palavras, e uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou da janela: - Mestre Afonso, quereis recolher-vos? Está pronta a ceia, e começa a cair a orvalhada, que a tarde vai nevoenta. - Vamos lá, vamos lá, Ana Margarida; vinde guiar-me. E Ana Margarida, ama de mestre Afonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cinta, e o fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com o braço, em que ele se firmou, tornando a erguer-se. - Boas tardes, padre-prior - disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos e de dois puxões nas barbas da estriga quase fiada. Vá na graça do Senhor, filha - respondeu Frei Lourenço, e acrescentou, dirigindo-se ao cego: - Meu irmão, Deus aceita só ao homem, em desconto da grande dívida, a dor calada e sofrida. Resignai-vos na sua divina vontade. - Na dele estou eu resignado há muito: na dos homens é que nunca me resignarei. E Ana Margarida, que tinha a ceia ainda no lume, foi puxando o cego para a porta de casa. - Ai, Afonso Domingues, Afonso Domingues! Vai-se-te após a vista o siso. Aborrida cousa é a velhice. Não vos parece, Frei Joane? Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que supunha estaria atrás dele; mas Frei Joane tinha desaparecido dali manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Frei Lourenço viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distância. O prior ia a perguntar-lhe o que fazia ali, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando: - Ganhastes, padre-prior; ganhastes!... Eis el-rei que chega. E, com efeito, Frei Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavaleiros, que, com grande açodamento, descia para o vale do mosteiro. II MESTRE OUGUET Uma das inumeráveis questões que, em nosso entender, eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dois ditados Voz do Povo é voz de Deus ou Voz do povo é voz do Diabo seja o que exprima a verdade. É indubitável que o povo tem uma espécie de presciência inata, de instinto divinatório. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porquê, corre voz entre o povo que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular realiza-se com exacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas notícias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mistério é esse que ainda ninguém soube explicar. Foi um anjo? Foi um demónio? Foi algum feiticeiro? Mistério. Não há, nem haverá, talvez, nunca, filósofo que o explique; salvo se tal fenómeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio ininteligível de dar solução a tudo o que se não entende é acaso a única via de resolver a dúvida. Se o é, os sábios explicarão o que nesse momento ocorria na Igreja de Santa Maria da Vitória. Foi o caso: quando a cavalgada de que fizemos menção no fim do antecedente capítulo vinha descendo a encosta sobranceira à Planície do mosteiro, entre o povo que.79 estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais. O motivo dele, não era fácil sabê-lo: nenhuma novidade ocorrera; ninguém tinha entrado ou saído. De repente, toda aquela multidão se agitou, remoinhos pela igreja e principiou a borbulhar pelo portal fora, como por bico de funil o líquido deitado de alto. Tinham sabido que el-rei chegava, e todos queriam vê-lo descavalgar, porque D. João I, plebeu por herança materna, nobre por ser filho de D. Pedro, rei eleito por uma revolução e confirmado por cinquenta vitórias, era o mais popular, o mais amado e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e, assim mesmo, em outras os fidalgos e cavaleiros de sua casa. Trazia vestida sobre o brial uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de caçada. Chegando à porta do mosteiro, onde o esperava já Frei Lourenço com parte da comunidade, apeou-se de um salto e, com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua cortesia e aquelas mostras de amor aos populares, que gritavam, apinhados à roda dele: "Viva D. João I de Portugal; morram os Castelhanos!", grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua índole sanguinária. Por baixo daquelas soberbas arcadas desapareceu brevemente el-rei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar. - Muito receoso estava de que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o Sol não tarda a sumir-se no poente - dizia Frei Lourenço a el-rei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento. - Bofé, mui devoto padre-prior, que, por pouco, estive a ponto de ter que levar a vossos pés mais uma mentira, com os outros pecados, que me não falecem, se amanhã me quisesse confessar ao meu antigo confessor - tornou-lhe el-rei, sorrindo-se. - E certo estou de que, entre todos os pecados de que teríeis de vos acusar, este não fora o menos grave, e de que eu a muito custo absolveria vossa mercê? - retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortesãs no paço do que a teologia no noviciado da sua Ordem. - Mas, para onde me guiais, reverendíssimo prior? - disse el-rei, parando antes de subir uma escada, para a qual Frei Lourenço o encaminhava. - Ao vosso aposento, real senhor; por que torneis alguma refeição e repouseis um pouco do trabalho do caminho. - Não foi grande o feito, para tomar repouso - acudiu el-rei - que de Santarém aqui é uma corrida de cavalo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnês e braçais, traz vestidos de seda. Despi-los-ei bem depressa, já que el-rei de Castela quer jogar mais lançadas, e não vieram a conclusão de tréguas o Mestre de Sant'Iago com o Condestável. Mas vamos, meu doutíssimo padre; mostrai-me a Casa do Capítulo, a que mestre Ouguet acabou de pôr seu fecho e remate. Onde está ele? Quero agradecer-lhe a boa diligência. - Beijo-vos as mãos pela mercê - disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada de el-rei, e certo de que ele desejaria ver aquela grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva. - Se quereis ver a Casa do Capítulo, vamos para a banda da crasta. Dizendo isto, sem cerimónia tomou a dianteira e encaminhou-se ao longo de um dos cobertos do claustro. David Ouguet era um irlandês, homem mediano em quase tudo; em idade, em estatura, em capacidade e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham sofrido grande distensão em consequência da dura vida que a tirania do filho de Erin lhe fazia padecer havia bem vinte anos. Desde muito moço que começara a produzir grande.80 im pressão no seu espírito a invectiva do apóstolo contra os escravos do próprio ventre, e, para evitar essa condenável fraqueza, resolvera trazê-lo sempre sopeado. Não lhe dava tréguas; se em Inglaterra o fizera muitos anos vergar sob o peso de dez atmosferas de cerveja, em Portugal submetia-o ao mais fadigoso mister de canjirão permanente. Mortificava-o assim, Para que não lhe acudissem soberbas e veleidades de Senhorio e dominação. De resto, David Ouguet era bom homem, excelente homem: não fazia aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensável ao próprio interesse; nunca matara ninguém, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e Prático do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadáver de seu pai para tocar a meta de qualquer desígnio ambicioso. Com três lições de frases ocas, dava pano para se engenharem dele dois ou mais grandes homens de estado. Tendo vindo a Portugal como um dos cavaleiros do duque de Lencastre, procurou obter e alcançou a protecção da rainha D. Filipa, que, havendo Afonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do Mosteiro da Batalha, mostrando ele por documentos autênticos ter na sua mocidade subido ao grau de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores. Esta é, em breve resumo, a história de David Ouguet, tirada de uma velha crónica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça encadernada em um volume juntamente com os traslados, autênticos das Cortes de Lamego, do Juramento de Afonso Henriques sobre a aparição de Cristo, da Carta de feudo a Claraval, das Histórias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papéis de igual veracidade e importância que, por pirraça às nossas glórias, provavelmente os Castelhanos nos levaram durante a dominação dos Filipes. O lanço da crasta, fronteira ao coberto por onde ia el-rei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquele magnífico recinto, olhou para lá e, voltando-se para mestre Ouguet, disse: - Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquelas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet? - Seguiu-se à risca nesta parte - tornou o arquitecto - o desenho geral do edifício, feito por mestre Afonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa mercê mo permite, antes de entrardes no Capítulo tenho alguma cousa que vos dizer acerca do que ides presenciar. - Falai desassombradamente - respondeu el-rei -, que eu vos escuto. - Tomei a ousadia - prosseguiu mestre Ouguet - de seguir outro desenho no fechar da imensa abóbada que cobre o Capítulo. O que achei na planta geral contrastava as regras da arte que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era, até, impossível que se fizesse uma abóbada tão achatada, como na primitiva traça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo. - E consultastes o arquitecto Afonso Domingues, antes de fazer essa mudança no que ele havia traçado? - interrompeu el-rei. - Por escusado o tive - replicou David Ouguet. - Cego, e por isso inabilitado para levar a cabo a edificação, porfiaria que o seu desenho se pode executar, visto que hoje ninguém o obriga a prová-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a ciência, como dizia o venerável mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister. Dizendo isto, o arquitecto metera ambas as mãos no cinto estendera a perna direita excessivamente empertigada e, com a fronte erecta, volvera os olhos solene e lentamente para os circunstantes. - Mestre Ouguet - acudiu el-rei, com aspecto severo -, lembrai-vos de que Afonso Domingues é o maior arquitecto Português. Não entendo de vossas distinções de.81 ciência e de engenho: sei só que o desenho de Santa Maria da Vitória causa assombro a vossos Próprios naturais, que se gabam de ter no seu país os mais afamados edifícios do mundo: e esse mestre Afonso, de quem vós falais com Pouco respeito, foi o primeiro arquitecto da obra que a vosso cargo está hoje. - Vossa mercê me perdoe - tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falara. - Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguém o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que fiz, seguindo as regras do mui excelente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da Catedral de Winchestria tamanho ruído tem feito no mundo. Com este diálogo chegou aquela comitiva ao portal que dava Para a Casa do Capítulo. Frei Lourenço Lampreia, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de autoridade, e encostado o corpo ao umbral cortejou a el-rei no momento de entrar e aos mais fidalgos e cavaleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, pessoa também principalíssima naquele lugar, colocou-se junto do umbral fronteiro, repetindo com aspecto sobranceiro-risonho as mesuras do mui devoto padre-prior. Quando el-rei entrou dentro daquela espantosa casa, apenas através da grande janela que a alumia entrava uma luz frouxa, porque o Sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se afirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficara à porta, mas Frei Lourenço tinha entrado. - Reverendo prior - disse el-rei, voltando-se para Frei Lourenço -, vim tarde para gozar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e amanhã voltaremos aqui a horas de sol. E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o prior. Mestre Ouguet entrou na Casa do Capítulo, quando já os últimos cavaleiros do séquito real iam saindo pelo lado oposto, caminho da igreja. Com as mãos metidas no cinto de couro preto que trazia, e o passo mesurado, o arquitecto caminhou até o meio daquela desconforme quadra. O som dos passos dos cavaleiros tinha-se desvanecido, e mestre Ouguet dizia consigo, olhando para a porta por onde eles haviam passado: - Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senão um país sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes dos primores das artes ou, sequer, de entendê-los?... Lá vão, lá vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a ele: eu que vi os mistérios de Covêntria e de Widkirk! Miseráveis selvagens, antes de tentardes representar mistérios, fora melhor que mandásseis vir alguns irmãos da Sociedade dos Escrivães de Paróquia de Londres 62 , que vos ensinassem os verdadeiros mornos, ademanes e trejeitos usados em semelhantes autos. Mestre Ouguet estava embebido neste mudo solilóquio em louvor da nação que lhe dava de comer, e, o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciência, da nação que lhe dava de beber, quando, erguendo casualmente os olhos para a maciça abóbada que sobre ele se arqueava, fez um gesto de indizível horror e, como doido, correu a bom correr pela crasta solitária, apertando a cabeça entre as mãos, e gritando a espaços: - Oh, mal-aventurado de mim! III O AUTO 62 Pelas crónicas de Stow se vê que, no princípio do século XV, os mistérios eram representados em Londres pelos escrivões de paróquia, incorporados em sociedade por Henrique III, em 1409..82 Junto a uma das colunas da Igreja de Santa Maria da Vitória estava alevantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e maciça cadeira de espaldas, feita de castanho e lavrada de curiosos bestiães e favores. Era este o lugar onde el-rei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia vários assentos rasos, para neles se assentarem os fidalgos e cavaleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e colocado ao pé do arco da Capela do Fundador, corria para um e outro lado da parede um devoto presépio 63 , meio erguido do chão e representando serranias agrestes, ao sopé das quais estava armada uma espécie de choça, onde, sobre a tradicional manjedoura, se via reclinado o Menino Jesus e, de joelhos junto dele, a Virgem e S. José, acompanhados de vários anjos, em acto de adoração. Diante da cabana e no mesmo nível, corria um largo e grosseiro cadafalso de muitas tábuas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto. Tanto que el-rei saiu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Frei Lourenço, que, com todos os modos de homem cortesão, ofereceu os assentos rasos aos demais cavaleiros e fidalgos. Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras do auto, as quais, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção. Estas primeiras figuras eram seis, formando uma espécie de prólogo ao auto. Três que vinham adiante representavam a Fé, a Esperança e a Caridade: após elas, vinham a Idolatria, o Diabo e a Soberba; todas com suas insígnias mui expressivas e a ponto; mas o que enlevava os olhos da grande multidão dos espectadores era o Diabo, vestido de peles de cabra, com um rabo que lhe arrastava pelo tablado e seu forcado na mão, mui vistoso e bem-posto. Feitas as vénias a el-rei, a Idolatria começou seu arrazoado contra a Fé, queixando-se de que ela a pretendia esbulhar da antiga posse em que estava de receber cultos de todo o género humano, ao que a Fé acudia com dizer que, ab initio, estava apontado o dia em que o império dos ídolos devia acabar, e que ela Fé não era culpada de ter chegado tão asinha esse dia. Então o Diabo vinha, lamentando-se de que a Esperança começasse de entrar nos corações dos homens; que ele Diabo tinha jus antiquíssimo de desesperar toda a gente; que se dava ao demo por ver as perfarias que a Esperança lhe fazia; e, com isto, caceteava, com tais mornos e trejeitos, que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possível. Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura do que a tão honrada virtude cumpria, dizendo que ela obedecia ao Senhor de tôdalas cousas, e que este, vendo e considerando os grandes desvairas que pelo mundo iam, e como os homens se arremessavam desacordadamente no Inferno, a mandara para lhes apontar o direito caminho do Céu; e por aqui seguia com razões mui devotas e discretas, que moveriam a devotíssimas lágrimas os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus trejeitos e esgares, como, com bastante agudeza, reflecte o autor da antiga crónica de que fielmente vamos transcrevendo esta verídica história. A Soberba, que estava impando, ouvidas as razões da Esperança, travou dela mui rijo e, com voz torvada e rosto aceso, começou de bradar que esta dona era sandia, porque entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros e sustentá-los 63 Presépio, ou presepe, significa propriamente um estábulo, ou estrebaria; mas a acepção vulgar desta palavra é a de uma espécie de embrechado ou paisagem de vulto, representando a choça de Belém onde nasceu o Salvador todos os modos de homem cortesão, ofereceu os assentos rasos aos demais cavaleiros e fidalgos..83 com fumo; que pretendia, contra toda a ordem de boa razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no Céu com os senhores e cavaleiros, o que era descomunal ousadia e fora da geral opinião e direito, indo por aqui discursando com remoques mui orgulhosos, como a Soberba que era. Não sofreu, porém, o ânimo da Caridade tão descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lho atalhou com tomar a mão naquele ponto e notar que os filhos de Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Soberba inventara as vãs distinções entre os homens, e que à vida eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados, do que os potentes, o que provou claramente à sua contrária com bastos textos das santas escrituras, de que a Soberba ficou mui corrida, por não ter contra tão grande autoridade resposta cabal. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para dar sua sentença, que foi mandar recolher ao abismo a Idolatria, o Diabo e a Soberba, e anunciar às três virtudes que as ia elevar ao Céu, onde reinariam em glória perdurável. Então o Diabo, fazendo horribilíssimos biocos, pegou pela mão às suas companheiras e fugiu pela igreja fora, com grandes apupos e doestos dos espectadores. Guiando as três virtudes, o anjo (por uma daquelas liberdades cénicas que ainda hoje se admitem, quando, nas vistas de marinha, o actor que vem embarcado desce dois ou três degraus das ondas de papelão para a terra de soalho), em vez de subir ao Céu, como anunciara, desceu pelas pranchas que davam para o pavimento da igreja, e, caminhando ao longo da nave, se recolheu à sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tão vitoriadas pelos espectadores, como apupados tinham sido o Diabo e as suas infernais companheiras. Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma porta do cruzeiro, saíram os três reis magos, ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina tela, mantos reais, e coroas na cabeça. Adiante vinha Baltasar, homem já velho, mas bem-disposto de sua pessoa, com aspecto grave e autorizado e com umas barbas, posto que brancas, bem povoadas; logo após ele, vinha o rei Belchior, e a este seguia-se Gaspar. Traziam todos suas bocetas, em que eram guardados os preciosos dons que ao recém - nascido vinham de longes terras ofertar. Subindo ao cadafalso, disseram como uma estrela os guiara até Jerusalém e como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Belém e, com grande folgança, encontravam aí o presepe, para fazer seu ofertório, o que, em verdade, era cousa mui piedosa de ouvir. O rei Baltasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro que ajoelhou junto do presepe e, com voz mui entoada e depondo ante o Menino seus presentes, disse: Santo filho de David, Divinal Salvador da triste raça Humanal, Que descestes lá do assento Celestial, Vós da glória imperador Eternal, Aceitai este ofertório Não real, Pobre si. É quanto posso: Não hei aí. O que fora compridoiro De auto tal Bem o sei. Andei más vias,.84 Por meu mal; Que dez dias prantei tendas De arraial Nas soidões fundas d'Arábia: Mui fatal. Meus camelos há tisnado Sol mortal; E um, de vento do deserto, Vendaval. O presente que aí vedes Pouco val; É somente algum incenso Oriental; Que o tesouro que eu trazia, Mui cabal Soterrou-mo a tempestade No areal. E com isto, o venerável rei Baltasar, depois de fazer sua oração em voz baixa, ergueu-se, e o rei Belchior, ajoelhando e depondo a urna que trazia nas mãos ante o presepe, disse: Vindo sou lá do Cataio A adorar-vos, alto infante, Redentor: Não me pôs na alma desmaio Ser de terra tão distante Rei, senhor! É bem torva a minha face: Minhas mãos tingidas são De negrura; Mas na terra onde o Sol nace Mais se cobre o coração De tristura; Porque o torpe Mafamede Sua crença mui sandia Mandou lá, E não há quem dela arrede Essa gente, que aperfia Em ser má. Real tronco de Jessé, Mui fermoso, se eu pudera, Vos levara, E, convosco, à vossa fé Os incréus eu convertera, E os salvara. Ora quero ver se peito São José, que é vosso padre....85 Um sussurro, que começara no momento em que o rei preto ajoelhou e que mal deixara ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo leigo, afamado jogral daquele tempo), cresceu neste momento a tal ponto, que o corista que fazia o papel de Belchior não pôde continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a coroa de louros que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio dele saíam gritos descompostos, que aumentavam o tumulto. El-rei tinha-se erguido, e juntamente os demais cavaleiros e fidalgos: todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com ela. Enfim, um homem, rompendo por entre a multidão, sem touca na cabeça, cabelos desgrenhados, boca torcida e coberta de escuma, olhos esgazeados, saltou para dentro da teia, que fazia um claro em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquele recinto, ficou imóvel, com os braços estendidos para o tecto, as palmas das mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre os ombros, como quem, cheio de horror, via sobre si desabar aquelas altíssimas e maciças arcarias. - Mestre Ouguet! - exclamou el-rei espantado. - Mestre Ouguet! - gritou Frei Lourenço, com todos os sinais de assombro. - Mestre Ouguet! - repetiram os cavaleiros e fidalgos, para também dizerem alguma cousa. - Quem fala aqui no meu nome? - rosnou David Ouguet, com voz comprimida e sepulcral. - Malvados! Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse montão de pedras, como se eu fora um cão judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvai a minha alma! - E depois de breve silêncio, em que pareceu tomar fôlego: - Não vos chegueis aí! - bradou ele. - Não vedes essas fendas, profundas como o caminho do Inferno? São escuras: mas, através delas, lá enxergo eu o luar! Vós não, porque vossos olhos estão cegos... porque o vosso bom nome não se escoa por lá!... Cegos?... Não vós!... mas ele! Ele é que se ri e folga em sua orgulhosa soberba! Vede como escancara aquela boca hedionda; como revolve, debaixo das pálpebras cobertas de vermelhidão, aqueles olhos embaciados!... Maldito velho, foge diante de mim!... Maldito, maldito!... Curvada já no centro... senti-a escaliçar e ranger... Estavas tu assentado em cima dela? Feiticeiro!... Anda, que eu bem ouço as tuas gargalhadas!... Não há um raio que te confunda?... Não! Dizendo isto, mestre Ouguet cobriu a cara com as mãos e ficou outra vez imóvel. El-rei, os cavaleiros, os padres mais dignos que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o arquitecto, que assim interrompera a solenidade do auto. Silêncio profundo sucedera ao ruído que a aparição daquele homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condenado saída das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cérebro passou este pensamento; em mais de uma cabeça os cabelos se eriçaram de horror; mas, dos que conheciam mestre Ouguet, nenhum duvidou de que fosse ele em corpo e alma. Que proveito tiraria o demónio de tomar a figura do arquitecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? Só uma suposição havia que não era inteiramente desarrazoada: David Ouguet podia estar possesso, em consequência de algum grave pecado; pecado que, talvez, tivesse omitido na última confissão, que fizera na véspera de Natal. Isto era possível e, até, natural; que não vivia ele a mais justificado vida. Supor que endoidecera parecia grande despropósito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecera os gabos de el-rei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encomendada. Estes e outros raciocínios, hoje ridículos, mas, segundo as ideias daquela época, bem fundados e correntes, fazia o reverendo padre-procurador Frei Joane, que tinha vindo assistir ao auto e estava em pé atrás do estrado, perto de Frei Lourenço Lampreia. Revolvendo tais.86 pensamentos, no meio daquele silêncio ansioso em que todos estavam, não pôde ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior e lhos comunicasse em voz baixa, ao ouvido. - Não vou fora disso - respondeu o prior, que, enquanto o outro frade lhe falara, estivera dando à cabeça, em sinal de aprovação. - O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros e o falar não sei de que feiticeiro, tudo me induz a crer que o demónio se chantou naquele miserável corpo, como vós aventais. Se assim é, pouco juízo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim é, e eu vo-lo darei bem castigado. Dizendo isto, Frei Lourenço chegou-se a el-rei e disse-lhe o que quer que fosse. Ele escutou-o atentamente e, tanto que o prior acabou, assentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas e fez sinal com a mão aos fidalgos e cavaleiros para que também se assentassem. Frei Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima e entrou na sacristia. Todos ficaram esperando, silenciosos e imóveis como mestre Ouguet, o desfecho desta cena, que se encaixava no meio das cenas do auto. Tinham passado obra de três credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Frei Lourenço voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotais, chegou à teia, abriu-a e encaminhou se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda e fazendo um aceno de autoridade, disse: - Ajoelhai, cristãos, e orai ao Padre Eterno por este nosso irmão, tomado de espírito imundo. A estas palavras, rei, cavaleiros, frades, povo, tudo se pôs de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações. Só mestre Ouguet ficou sem se bulir, com o rosto metido entre as mãos. O prior lançou a estola à roda do pescoço do possesso e queria atar os três nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção e, tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror e gritou: - Frade abominável, também tu és conluiado com o cego? - Não há dúvida! - disse por entre os dentes o prior. - Mestre Ouguet está endemoninhado. Tirando então da manga um pergaminho, em que estavam escritas várias cousas de doutrina, pô-lo sobre a cabeça do mestre, fazendo sobre ele três vezes o sinal-da-cruz. David Ouguet soltou então uma destas risadas nervosas que horrorizam e que tão frequentes são, quando o padecimento moral sobrepuja as forças da natureza. - Cão tinhoso - bradou Frei Lourenço -, espírito das trevas, enganador, maldito, luxurioso, insipiente, ébrio, serpe, víbora vil e refece demónio; enfim, castelhano 64 . Em nome do Criador e senhor de tôdalas cousas, te mando que repitas o credo ou saias deste miserável corpo. Mestre Ouguet ficou imóvel e calado. 64 O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Malleus Malleficarum, recomenda aos exorcismas que, antes de tudo, descomponham e injuriem quanto puderem os possessos, advertindo que não são propriamente estes que recebem as afrontas, mas sim o diabo que têm no corpo. A conveniência de tais doestos e que para o Demónio, pai da Soberba, não pode haver maior pirraça do que ser descomposto na sua cara, sem que ele se possa desagravar. Veja-se o livro citado, edição de Lião de 1604 - Tomo 2.0, pág. 83. Assim, o prior devia guardar para o fim daquele rol de injúrias a que, no ardor do fanatismo político) da época, se reputava a máxima afronta..87 - Não cedes?! - prosseguiu o prior. - Recorrerei ao sétimo, ao mais terrível exorcismo. Veremos se poderás a teu salvo escarnecer das criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus. Depois de várias cerimónias e orações, Frei Lourenço chegou-se ao pobre irlandês e começou a repetir o conjuro, fazendo-lhe uma cruz sobre a testa, a cada uma das seguintes palavras, que proferia lentamente: - Hel - Heloim - Heloa - Sabaoth - Heliom - Esere heie - Adonai - Jeová - Ya - Tetragrammaton - Sadai - Messias - Hagios - Isquiros - Oteos - Atátiatos - Soter - Emanuel - Agla... - Jesus! - bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja. - Diabo! - gritou mestre Ouguet; e caiu no chão como morto. E houve um momento de angústia e terror, em que todos os corações deixaram de bater, e em que todos os olhos, braços e pernas ficaram fixos, como se fossem de bronze. Um ruído, semelhante ao de cem bombardas que se houvessem disparado dentro do mosteiro e que soara da banda da sacristia, tinha arrancado aquele grito de mil bocas e convertido em estátuas essa multidão de povo. Há situações tão violentas que, se durassem, a morte se lhes seguiria em breve; mas a providente Natureza parece restaurar com dobrada energia o vigor físico e espiritual do homem depois destes abalos espantosos. Então, melhor que nunca, ele sente em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua origem divina. A reacção segue a acção; e quanto mais tímido o indivíduo se mostrou, mais viva é a consciência da própria força, que, depois disso, renasce com o destemor e ousadia. Foi o que sucedeu a D. João I, aos cavaleiros do seu séquito e ao povo que estava na Igreja de Santa Maria, passado aquele instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da cerimónia que Frei Lourenço executava, o ruído inesperado que rompera o exorcismo, o grito blasfemo do arquitecto, no momento de cair por terra, o lugar, a hora, eram cousas que, reunidas, fariam pedir confissão a uma grande manada de enciclopedistas e que, por isso, não é de admirar fizessem impressão vivíssima em homens de um século, não só crente, mas também supersticioso. Todavia, o animo indomável do Mestre de Avis brevemente fez cobrar alento a todos os que aí estavam. - É, em verdade, descomunal maravilha o que temos visto e ouvido - disse ele com voz firme, voltando-se para os que o rodeavam; - mas cumpre indagar donde procede o ruído que veio interromper o mui devoto padre-prior no exercício de seu ministério tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do Claustro; vamos examinar o que seja: se diabólico, estamos na casa de Deus, e a Cruz é nosso amparo; se natural, que haverá no mundo capaz de pôr espanto em cavaleiros portugueses? Dizendo isto, el-rei desceu do estrado e encaminhou-se para a sacristia. Os cavaleiros da comitiva, os frades, os três reis magos (que ainda estavam em pé sobre o tablado) e grande parte do povo tomaram o mesmo caminho. El-rei ia adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia. Cruzaram o arco gótico que dava comunicação para a sacristia: aí tudo estava em silêncio; uma lâmpada que pendia do tecto dava luz frouxa e mortiça, e, a esta luz incerta e baça, encaminharam-se para a porta do Capítulo. Ao chegar a ela, todos recuaram de espanto, e um segundo grito soou e veio morrer sussurrando pelas naves da igreja quase deserta: - Jesus! As portas haviam estoirado nos seus grossíssimos gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fora, entulhando-lhe quase um terço da altura. Olhando para o interior daquela imensa quadra, não se viam senão enormes fragmentos de cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a Lua,.88 que passava tranquila nos céus, reflectia o seu clarão pálido sobre este montão de ruínas, semelhantes aos monumentos irregulares de um cemitério cristão; e, por cima daquele temeroso silêncio, passava o frio leste da noite e vinha bater nas faces turbadas dos que, apinhados na sacristia, contemplavam este lastimoso espectáculo. Dos olhos de el-rei e de Frei Lourenço caíram algumas lágrimas, que eles debalde tentavam reprimir. A abóbada do Capítulo, acabada havia vinte e quatro horas, tinha desabado em terra! IV UM REI CAVALEIRO Em uma quadra das que serviam de aposentos reais no Mosteiro da Batalha, à roda de um bufete de carvalho de lavor antigo, cujos pés, torneados em linha espiral, eram travados por uma espécie de escabelo, que pelos topos se embebia neles, estavam assentadas várias personagens daquelas com quem o leitor já tratou nos antecedentes capítulos. Eram estas D. João I, Frei Lourenço Lampreia e o procurador Frei Joane. El-rei estava à cabeceira da mesa, e no topo fronteira o prior, tendo à sua esquerda Frei Joane. Além destes, outros indivíduos aí estavam, que as pessoas lidas nas crónicas deste reino também conhecerão: tais eram os doutores João das Regras e Martim. de Océm, do conselho de el-rei, cavaleiros mui graves e autorizados, e, afora eles, mais alguns fidalgos que D. João I particularmente estimavam. Atrás da cadeira de el-rei, um pajem esperava, em pé, as ordens de seu real senhor. O quadrante do terrado contíguo apontava meio-dia. Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho, no qual todos os olhos dos circunstantes se fitavam: era a traça ou desenho do mosteiro que delineara mestre Afonso Domingues, onde, além dos prospectos gerais do edifício, iluminados primorosamente, se viam todos os cortes e alçados de cada uma das partes dessa complicada e maravilhosa fábrica. El-rei tinha a mão estendida e os dedos sobre o risco da casa capitular, ao passo que falava com o prior: - Parece impossível isso porque natural desejo é de todos os homens alcançarem repouso e pão na velhice, e não vejo razão para mestre Afonso se doer da mercê que lhe fiz. - Pois a conversação que vos relatei, tive-a com ele ainda ontem, pouco antes de vossa mercê aqui chegar. - E como vai David Ouguet? - perguntou el-rei. - Com grande melhoria - respondeu o prior. - Dormiu bom espaço e acordou em seu juízo. Contou-me que, entrando ontem após nós na Casa do Capítulo e afirmando a vista na abóbada, conhecera que tinha gemido e estava a ponto de desabar; que sentira apertar-se-lhe o coração e que, com a sua aflição, correra pela crasta fora, como doido; que no céu se lhe afigurava um relampaguear incessante e medonho; que via... nem ele sabe o que via, o pobre homem. Depois disso, diz que perdera o tino, e de nada mais se recorda. - Nem dos exorcismos? - perguntou em meia voz Martim de Océm, com um sorriso malicioso. - Nem dos exorcismos - retrucou Frei Lourenço no mesmo tom, mas subindo-lhe ao rosto a vermelhidão da cólera. - A propósito, doutor. Dizem-me que Anequim 65 é 65 Anequim era o bobo do paço em tempo de D. Fernando, a quem sobreviveu..89 morto, e que el-rei proveu o cargo em um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta mercê singular? E o frade media o letrado de alto a baixo, com os olhos irritados. Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injúria indirecta, naquele jogo de alusões que era as delícias do tempo, quando el-rei acenou ao pajem, dizendo-lhe: - Álvaro Vaz de Almada, ide depressa à morada de Afonso Domingues, dizei-lhe que eu quero falar-lhe e guiai-o para aqui. Fazei isso com tento: lembrai-vos de que ele é um antigo cavaleiro, que militou com vosso mui esforçado pai. O pajem saiu a cumprir o mandado de el-rei. - Dizeis vós - prosseguiu este, dirigindo-se a João das Regras e a Martim de Océm - que talvez Afonso Domingues se enganasse em supor que era possível fazer uma abóbada tão pouco erguida, como é a que ele traçou para o capítulo. Não creio eu que tão entendido arquitecto assim se enganasse: mais inclinado estou a persuadir-me de que o lastimoso sucesso de ontem à noite procedesse da grave falta cometida por mestre Ouguet nesta edificação. - E que falta foi essa, se a vossa mercê apraz dizer-mo? - replicou João das Regras. - A de não seguir de todo o ponto o desenho de mestre Afonso - tornou el-rei. - E se a execução de sua traça fosse impossível? - acudiu o doutor. - Impossível?! - atalhou el-rei. - E não contava ele com levá-la a efeito, se Deus o não tolhesse dos olhos? - E é disso que mais se dói mestre Afonso - interrompeu o prior. - A sua grande canseira é que ninguém saberá continuar a edificação do mosteiro ou, como ele diz, prosseguir a escritura do seu livro de pedra, porque ninguém é capaz de entender o pensamento que o dirigiu na concepção dele. - Roncarias e feros são esses próprios de quem foi homem de armas de Nun'Álvares - disse o chanceler João das Regras. - Todos os de sua bandeira são como ele. Porque sabem jogar boas lançadas, têm-se em conta de príncipes dos discretos; e o cego não se esqueceu ainda de que comeu da caldeira do Condestável. João das Regras, émulo de Nun'Álvares, não perdeu este ensejo de lhe pôr pecha; mas D. João I, que conhecia serem esses dois - homens as pedras angulares de seu trono, escutava-os sempre com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o Condestável, homem mais de obras que de palavras, raras vezes menoscabava os méritos do chanceler, contentando-se com lançar na balança em que João das Regras mostrava o grande Peso da sua pena o montante com que ele Nun'Álvares tinha, em cem combates, salvado a pátria do domínio estranho e a cabeça do chanceler das mãos do carrasco, de que não o livrariam nem Os graus de doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas. - Deixai lá o Condestável, que não vem ao intento - disse el-rei -; o que me importa é ouvir mestre Afonso sobre este caso. Quisera antes perder um recontro com castelhanos do que cuidar que o Capítulo de Santa Maria da Vitória ficará em ruínas. Mestre Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao chão a abóbada: se Afonso Domingues for capaz de a tornar a erguer e deixá-la firme, concluirei daí que vale mais o cego que o limpo de vista: e digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja, além de cego, zopo 66 e mouco. 66 Coxo. Fui vista ao cego, e pee ao çopo. Trad. do Livro de Job. Fragmento do século XIV..90 Neste momento entrava o velho arquitecto, agarrado ao braço de Álvaro Vaz de Almada, que o veio guiando para o topo da desmesurada banca de carvalho, à roda da qual se travara o diálogo que acima transcrevemos. - Dom donzel, onde é que está el-rei? - dizia Afonso Domingues ao pajem, caminhando com passos incertos ao longo do vasto aposento. D. João I, que ouvira a pergunta, respondeu em vez do pajem: - Agora nenhum rei está aqui, mas sim o Mestre de Avis, o vosso antigo capitão, nobre cavaleiro de Aljubarrota. - Beijo-vos as mãos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um velho homem de armas que para nada presta hoje. Vede o que de mim mandais; porque, de vossa ordem, aqui me trouxe este bom donzel. - Queria ver-vos e falar-vos; que do coração vos estimo, honrado e sabedor arquitecto do Mosteiro de Santa Maria. - Arquitecto do Mosteiro de Santa Maria, já o não sou: vossa mercê me tirou esse encargo; sabedor, nunca o fui, pelo menos muitos assim o crêem, e alguns o dizem. Dos títulos que me dais só me cabe hoje o de honrado; que esse, mercê de Deus, e meu, e fora infâmia roubá-lo a quem já não pode pegar em, um montante para defendê-lo. - Sei, meu bom cavaleiro, que estais mui torvado comigo por dar a outrem o cargo de mestre das obras do mosteiro: nisso cria eu fazer-vos assinalada mercê. Mas, venhamos ao ponto: sabeis que a abóbada do Capítulo desabou ontem à noite? - Sabia-o, senhor, antes do caso suceder. - Como é isso possível? - Porque todos os dias perguntava a alguns desses poucos obreiros portugueses que aí restam como ia a feitura da casa capitular. No desenho dela pusera eu todo o cabedal de meu fraco engenho, e este aposento era a obra-prima da minha imaginação. Por eles soube que a traça primitiva fora alterada e que a juntura das pedras era feita por modo diverso do que eu tinha apontado. Profetizei-lhes então o que havia de acontecer. E - acrescentou o velho, com um sorriso amargo - muito fez já o meu sucessor em por tal arte lhe pôr o remate que não desabasse antes das vinte e quatro horas. - E tínheis vós por certo que, se vossa traça se houvera seguido, essa desmesurada abóbada não viria a terra? - Se estes olhos não tivessem feito com que eu fosse posto de banda como uma carta de testamento antiga, que se atira, por inútil, para o fundo de uma arca, a pedra de fecho dessa abóbada não teria de vir esmigalhar-se no pavimento antes de sobre ela pesarem muito séculos; mas os de vosso conselho julgaram que um cego para nada podia prestar. - Pois, se ousais levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o façais, e desde já vos nomeio de novo mestre das obras do mosteiro, e David Ouguet vos obedecerá. - Senhor rei - disse o cego, erguendo a fronte, que até ali tivera curvada -, vós tendes um ceptro e uma espada; tendes cavaleiros e besteiras; tendes ouro e poder: Portugal é vosso, e tudo quanto ele contém, salvo a liberdade de vossos vassalos: nesta nada mandais. Não!... vos digo eu: não serei quem torne a erguer essa derrocada abóbada! Os vossos conselheiros julgaram-me incapaz disso: agora eles que a alevantem. As faces de D. João I tingiram-se do rubor do despeito. - Lembrai-vos, cavaleiro - disse-lhe -, de que falais com D. João I. - Cuja coroa - acudiu o cego - lhe foi posta na cabeça Por lanças, entre as quais reluzia o ferro da que eu brandia. D. João I é assaz nobre e generoso, para não se esquecer de que nessas lanças estava escrito: os vassalos portugueses são livres..91 - Mas - tornou el-rei - os vassalos que desobedecem aos mandados daquele em cuja casa têm acostamento, podem ser privados de sua moradia... - Se dizeis isso pela que me destes, tirai-ma; que não vo-la pedi eu. Não morrerei de fome; que um velho soldado de Aljubarrota achará sempre quem lhe esmole uma mealha; e quando haja de morrer à míngua de todo humano socorro, bem pouco importa isso a quem vê arrancarem-lhe, nas bordas da sepultura, aquilo por que trabalhou toda a vida: um nome honrado e glorioso. Dizendo isto, o velho levou a manga do gibão aos olhos baços e embebeu nela uma lágrima mal sustida. El-rei sentiu a piedade coar-lhe no coração comprimido de despeito e dilatar-lho suavemente. Umas das dores de alma que, em vez de a lacerar, a consolam, é sem dúvida a compaixão. - Vamos, bom cavaleiro - disse el-rei pondo-se em pé -, não haja entre nós doestos. O arquitecto do Mosteiro de Santa Maria vale bem o seu fundador! Houve um dia em que nós ambos fomos pelejadores: eu tornei célebre o meu nome, a consciência mo diz, entre os príncipes do mundo, porque segui avante por campos de batalha; ela vos dirá, também, que a vossa fama será perpétua, havendo trocado a espada pela pena com que traçastes o desenho do grande monumento da independência e da glória desta terra. Rei dos homens do aceso imaginar, não desprezeis o rei dos melhores cavaleiros, os cavaleiros portugueses! Também vós fostes um deles; e negar-vos-ei a prosseguir na edificação desta memória, desta tradição de mármore, que há-de recordar aos vindouros a história de nossos feitos? Mestre Afonso Domingues, escutai os ossos de tantos valentes que vos acusam de trairdes a boa e antiga amizade. Vem de todos os vales e montanhas de Portugal o soído desse queixume de mortos; porque, nas contendas da liberdade, por toda a parte se verteu sangue e foram semeados cadáveres de cavaleiros! Eis, pois: se não perdoais a D. João I uma suposta afronta, perdoai-a ao Mestre de Avis, ao vosso antigo capitão, que, em nome da gente portuguesa, vos cita para o tribunal da posteridade, se recusais consagrar outra vez à pátria vosso maravilhoso engenho, e que vos abraça, como antigo irmão nos combates, porque, certo, crê que não querereis perder na vossa velhice o nome de bom e honrado português. El-rei parecia grandemente comovido, e, talvez involuntariamente, lançou um braço ao redor do pescoço do cego, que soluçava e tremia sem soltar uma só palavra. Houve uma longa pausa. Todos se tinham posto em pé quando el-rei se erguera e esperavam ansiosos o que diria o velho. Finalmente este rompeu o silêncio. - Vencestes, senhor rei, vencestes!... A abóbada da casa capitular não ficará por terra. Oh meu Mosteiro da Batalha, sonho querido de quinze anos de vida entregues a cogitações, a mais formosa das tuas imagens será realizada, será duradoura, como a pedra em que vou estampá-la! Senhor rei, as nossas almas entendem-se: as únicas palavras harmoniosas e inteiramente suaves que tenho ouvido há muitos anos, são as que vos saíram da boca: só D. João I compreende Afonso Domingues; porque só ele compreende a valia destas duas palavras formosíssimas, palavras de anjos: pátria e glória. A passada injúria, a vossos conselheiros a atribuí sempre, que não a vós, posto que de vós, que éreis rei, me queixasse; varrê-la-ei da memória, como o entalhador varre as lascas e a pedra moída pelo cinzel de cima do vulto que entalhou em gárgula de cimalha rendada. Que me restituam os meus oficiais e obreiros portugueses; que português Sou eu, portuguesa a minha obra! De hoje a quatro meses podeis voltar aqui, senhor rei, e ou eu morrerei ou a casa capitular da Batalha estará firme, como é firme a minha crença na imortalidade e na glória. El-rei apertou então entre os braços o bom do cego, que Procurava ajoelhar a seus pés. Era a atracção de duas almas sublimes, que voavam uma para a outra. Por fim, D. João I fez Um sinal ao pajem, que se aproximou:.92 - Álvaro Vaz, acompanham este nobre cavaleiro a sua pousada. E vós, mestre mui sabedor, ide repousar: dentro de quinze dias vossos antigos oficiais terão voltado de Guimarães para cumprirem o que mandardes. Mui devoto padre-prior - continuou el-rei, voltando-se para Frei Lourenço -, entendei que de ora vante Afonso Domingues, cavaleiro de minha casa, torna a ser mestre das obras do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, enquanto assim lhe aprouver. O prior fez uma profunda reverência. A alegria tinha tolhido a voz do arquitecto: diante de toda a corte el-rei o havia desafrontado, e já, sem desdouro, podia aceitar o encargo de que o tinham despojado. Com passos incertos, e seguro ao braço do pajem, saiu do aposento, feita vénia a el-rei. Este deu imediatamente ordem para a partida. Quando todos iam saindo, o prior chegou-se ao velho chanceler e disse-lhe em tom submisso: - Doutor Johannes a Regulis, espero que narreis fielmente à rainha o que sucedeu e a certifiqueis de quanto me custa ver tirada a régua magistral a mestre Ouguet... - Foi - tornou o político discípulo de Bártolo - mais uma façanha de D. João I: começou por brigar com um louco. e acabou abraçando-o, por lhe ver derramar uma lágrima. Bem trabalho por fazer do Mestre de Avis um rei; mas sai-me sempre cavaleiro andante. Não lhe sucedera isto, se, em vez de passar a mocidade em pelejas, a houvera passado a estudar em Bolonha. Tenho-lhe dito mil vezes que é preciso lisonjear os ingleses porque carecemos deles: a tudo me responde com dizer que, com Deus e o próprio montante, tem em nada Castela; todavia a gente inglesa ufanava-se de ser David Ouguet o mestre desta edificação. E que importava que ela fosse mais ou menos primorosa, a troco de contentarmos os que connosco estão liados? Quanto a vós, reverendo prior, ficai descansado; tudo fia a rainha de vossa prudência, que é muita, posto que não vistes Bolonha. Vamos, reverendíssimo. A corte já tinha saído: os dois velhos seguiram-na ao longo daquelas arcadas, conversando um com o outro em voz baixa. V O VOTO FATAL Rica de galas, a Primavera tinha vestido os campos da Estremadura do viço de suas flores: a madressilva, a rosa agreste, o rosmaninho e toda a casta de boninas teciam um tapete odorífero e imenso, por charnecas, cômoros e sapais e pelo chão das matas e florestas, que agitavam as frontes sonolentas com a brisa de manhã puríssima, mostrando aos olhos um baloiçar de verdura compassado com o das searas rasteiras, que, mais longe, pelas veigas e outeiros, ondeavam suavemente. Eram 7 de Maio da era de 1439 ou, como os letrados diziam, do ano da Redenção 1401. Quatro meses certos se contavam nesse dia, depois daquele em que, numa das quadras do aposento real no Mosteiro da Batalha, se passara a cena que no antecedente capítulo narrámos e que extraímos do famoso manuscrito mencionado no capítulo II, com aquela pontualidade e verdade com que o grande cronista Frei Bernardo de Brito citava só documentos inegáveis e autores certíssimos, e com aquela imparcialidade e exacção com que o filósofo de Ferney referia e avaliava os factos em que podia interessar a religião cristã. Assistiu o leitor à promessa que mestre Afonso Domingues fez a D. João I de que dentro de quatro meses lhe daria posto o remate na abóbada da casa capitular de Santa Maria da Vitória, e lembrado estará de como el-rei lhe prometera, também, mandar ir de Guimarães todos os oficiais portugueses que, despedidos da Batalha por mestre Ouguet, como menos habilidosos que os estrangeiros, haviam sido mandados para a obra, posto.93 que grandiosa, menos importante, de Santa Maria da Oliveira, hoje desaportuguesada e caiada e dourada e mutilada pelo mais bárbaro abuso da riqueza e da ignorância clerical. A palavra do mestre de Avis não voltara atrás, não por ser palavra de rei, mas por ser palavra de cavaleiro daqueles tempos, em que tão nobres afectos e instintos havia nos corações de nossos avós que de bom grado lhes devemos perdoar a rudeza. Tendo partido de Alcobaça para Guimarães, onde nesse ano se ajuntavam cortes, apenas aí chegara tinha mandado partir para Santa Maria da Vitória os oficiais e obreiros mais entendidos, que vieram apresentar-se a mestre Afonso. Este, resolvido, também, a cumprir o prometido, metera mãos à obra. O Capítulo foi desentulhado: aproveitaram-se as pedras da primeira edificação que era possível aproveitar, lavraram-se outras de novo, armaram-se os simples e, muito antes do dia aprazado, o fecho ou remate da abóbada repousava no seu lugar. Durante estes quatro meses os sucessos políticos tinham trazido D. João I a Santarém, onde se fizera prestes com bom número de lanças, besteiras e peões para ir ajuntar-se com o Condestável, e entrarem ambos por Castela, cuja guerra tinha recomeçado, por se haverem acabado as tréguas. Para esta entrada se aparelhara el-rei com uma lustrosa companhia de seus cavaleiros e, caminhando pela margem direita do Tejo, acampara junto a Tancos, onde se havia de construir uma ponte de barcas, para passar o exército e seguir avante até o Crato, que era o lugar aprazado com o Condestável, para juntos irem dar sobre Alcântara. Em Val de Tancos estava assentado o arraial da hoste de el-rei: os petintais que tinham vindo de Lisboa trabalhavam na ponte de barcas que se devia lançar sobre o Tejo; os besteiras alimpavam suas bestas e folgavam em lutas e jogos; os cavaleiros corriam pontas, atiravam ao tavolado, monteavam ou matavam O tempo em banquetes e beberronias. Tinham chegado àquele sítio a 5 de Maio, e no dia seguinte el-rei partira aferradamente para a Batalha, porque não se esquecera de que os quatro meses que pedira Afonso Domingues para alevantar a abóbada eram passados, e fora avisado por Frei Lourenço de que a obra estava acabada, mas que o arquitecto não quisera tirar os simples senão na presença de el-rei. Antes de partir de Lisboa, D. João I mandara sair dos cárceres em que jaziam bom número de criminosos e de cativos castelhanos, que, com grande pasmo dos povos, e rodeados por uma grossa manga de besteiras, tomaram o caminho da Batalha, sem que ninguém aventasse o motivo disto. Todavia, ele era óbvio: el-rei pensou que, assim como a abóbada do Capítulo desabara, da primeira vez, passadas vinte e quatro horas depois de desamparada, assim podia agora derrocar-se em cima dos obreiros, no momento de lhe tirarem os prumos e traveses sobre que fora edificada. Solícito pela vida de seus vassalos; parente do povo por sua mãe, e crendo por isso que a morte de um popular também tinha seu trance de agonia e que lágrimas de órfãos pobres eram tão amargas ou, porventura, mais que as de infantes e senhores, não quis que se arriscassem senão vidas condenadas, ou pela guerra ou pelos tribunais, e que, naquela, se tinham remido pela covardia e, nestes, pela piedade ou, antes, pelo esquecimento dos juizes. E se da primeira vez lhe não acorrera esta ideia, fora porque, também, na memória de obreiros portugueses não havia lembrança de ter desabado uma abóbada apenas construída. Seguido só por dois pajens, D. João 1 atravessou a vila de Ourém pelas horas mortas do quarto de modorra, e antes do meio-dia apeou-se à portaria do mosteiro. Os oficiais que trabalhavam em vários favores, pelos telheiros e casas ao redor do edifício, viram passar aquele cavaleiro e os dois pajens, mas não o conheceram: D. João I vinha coberto de todas as peças e, ao galgar o ginete pelo outeiro abaixo, tinha descido a viseira..94 - Benedicite! - dizia el-rei, batendo devagarinho à porta da cela de Frei Lourenço. - Pax vobis, domine! - respondeu o prior, que logo reconheceu el-rei e veio abrir a porta. - Não vos incomodeis, reverendíssimo - disse D. João, entrando na cela e sentando-se em um tamborete -, deixai-me resfolegar um pouco e dai-me uma vez de vinho. - Não vos esperava tão de salto - tornou Frei Lourenço; abrindo um armário, tirou dele uma borracha e um canjirão madeira, que encheu de vinho e, pegando com a esquerda em, uma escudela de barro de Estremoz 67 , cheia de uma espécie de bolo feito de mel, ovos e flor de farinha, apresentou a el-rei aquela cotação. - Excelente almoço - dizia el-rei, descalçando o guante ferrado e cravando a espaços os dedos dentro da escudela, donde tirava bocados do bolo, que ajudava com alentados beijos dados no canjirão. Depois que cessou de comer, limpando a mão ao forro do tonelete, pôs-se em pé, enquanto Frei Lourenço guardava os despojos daquela batalha. - Bofé - disse D. João I, rindo - que não ando a meu talante, senão com o arnês às costas! Cada vez que o visto, parece-me que tomo à mocidade e que sou o Mestre de Avis ou, antes, o simples cavaleiro que, confiado só em Deus, corria solto pelo mundo, monteando edomas 68 inteiras, e tendo sobre a consciência só os pecados de homem e não os escrúpulos de rei. - E então - atalhou o prior - o vosso confessor Frei Lourenço era um pobre frade, cujos únicos cuidados se encerravam em saber as horas do coro e em ler as sagradas escrituras, porém que hoje tem de velar muitas noites, pensando no modo de não deixar afrouxar a disciplina e boa governança de tão alteroso mosteiro. Mas, segundo vosso recado, que ontem recebi, vindes para assistir ao tirar dos simples da mui famosa abóbada, o que mestre Domingues aporfia em só fazer perante vós? - A isso vim, porém de espaço; que não será nestes cinco dias que esteja pronta a ponte de barcas que mandei lançar no Tejo, para passar minha hoste. Durante eles, com vossos mui religiosos frades me aparelharei para a guerra, entesourando orações e recebendo absolvição de meus erros. - Os príncipes pios - acudiu o prior, com gesto de compunção - são sempre ajudados de Deus, principalmente contra hereges e asmáticos, como os perros dos Castelhanos, que a Virgem Maria da Vitória confunda nos infernos. - Amen! - respondeu devotamente el-rei. - Avisarei, pois, mestre Afonso de vossa vinda, para que ponha tudo em ordenança de se tirarem os simples. Pediu-me que o mandasse chamar apenas fôsseis chegado. Frei Lourenço saiu e, daí a pouco, voltou acompanhado do arquitecto, que um rapaz guiava pela mão. - Guarde-vos Deus, mestre Afonso Domingues! - disse el-rei, vendo entrar o cego. - Aqui me tendes para ver acabada a feitura da mirífica abóbada do Capítulo de Santa Maria, cujos simples não quisestes tirar senão em minha presença. - Beijo-vo-las, senhor rei, pela mercê: dois votos fiz, se levasse a cabo esta feitura; era esse um deles... - E o outro? - atalhou ei-rei. 67 A louça de Estremoz é antiquíssima em o nosso país. No tempo de Francisco I de França, mandavam-se buscar os púcaros desta loiça a Portugal, para beber a água, que então, bem como hoje, se torna neles excessivamente fria. 68 Semanas..95 - O outro, dir-vo-lo-ei em breve; mas, por ora, permiti que para mim o guarde. - São negócios de consciência - acudiu o prior. - El-rei não quer, por certo, fazer-vos quebrar vosso segredo. D. João I fez um sinal de assentimento ao parecer do seu antigo padre espiritual. El-rei, o prior e o arquitecto ainda se demoraram um pedaço, falando acerca da obra e do que cumpria fazer no prosseguimento dela; mas o cego dissera o que quer que fora, em voz baixa, ao rapaz que o acompanhava, o qual saíra imediatamente, e que só voltou quando os três acabavam a conversação. - Fernão de Évora - disse o cego, sentindo-o outra vez ao pé de si -, fizeste o que te ordenei, e deste a teu tio Martim Vasques o meu recado? - Senhor, si! Envia-vos ele a dizer que tudo está prestes. - Então vamos a ver se desta feita temos mais perdurável abóbada. Isto dizia el-rei, saindo da cela de Frei Lourenço e seguindo ao longo do claustro. Já a este tempo se tinha espalhado no mosteiro a nova da sua chegada, e os frades começavam de ajuntar-se para o cortejarem. Do mosteiro rompera a notícia, espalhando-se pela povoação, aonde concorrera muita gente dos arredores, principalmente de Aljubarrota, por ser dia de mercado: de modo que, quando el-rei desceu à crasta, já ali se achavam apinhados homens e mulheres que queriam vê-lo e, ainda mais, saber se desta vez a abóbada vinha ao chão, para terem que contar aos vizinhos e vizinhas da sua terra. As portas da Casa do Capítulo estavam abertas: via-se dentro dela tal máquina de prumos, traveses, andaimes, cabrestantes, escadas, que bem se pudera comparar a composição daqueles simples à fábrica do mais delicado relógio. A porta que dava para a crasta estava um homem em pé, que se desbarretou apenas viu el-rei, a cuja direita vinha o arquitecto, seguido por Frei Lourenço e por outros frades. O pequeno Fernão de Évora disse algumas palavras a Afonso Domingues, o qual lhe respondeu em voz baixa. Então o rapaz acenou ao homem desbarretado, que se chegou timidamente ao cego. Era um mancebo, que mostrava ter de idade, ao mais, vinte e cinco anos; de rosto comprido, tez queimada, nariz aquilino, olhos pequenos e vivos. Chegando-se ao cego, este o tomou pela mão e, voltando-se para el-rei, disse: - Aqui tendes, senhor, a Martim Vasques, o melhor oficial de pedraria que eu conheço; o homem que, com mais alguns anos de experiência, será capaz de continuar dignamente a série dos arquitectos portugueses. - E debaixo de meu especial amparo estará Martim Vasques respondeu el-rei -, que por honrado me tenho com haver em meus senhorios homens que vos imitem 69 . Ainda bem não eram acabadas estas palavras, sentiu-se um sussurro entre o povo, que girava livremente pela crasta e que se enfileirou aos lados: chegava a gente que devia tirar os simples. Entre duas alas de besteiras, vinha um bom número de homens, magros, pálidos, rotos e descalços; o porte de alguns era altivo, e em seus farrapos se divisava a razão disso: eram besteiras castelhanos que em diversos recontros e pelejas tinham caído nas mãos dos portugueses. As guerras entre Portugal e Castela assemelhavam-se às guerras civis de hoje: para vencidos não havia nem caridade, nem justiça, nem humanidade: ser metido em ferros era então uma ventura para o pobre prisioneiro; porque os mais deles morriam assassinados pelo povo desenfreado, em vingança dos maus tratos que em Castela padeciam os cativos portugueses. Com os castelhanos vinham de envolta vários criminosos condenados à morte por suas malfeitorias. 69 Martim Vasques foi o terceiro mestre das obras da Batalha e Fernão de Évora o quarto. Veja-se a Memória de D. Francisco de S. Luís no 10º volume das da Academia..96 - Misericórdia! - bradou toda aquela multidão, ao passar por el-rei: e caíram de bruços sobre as lájeas do pavimento. - Convosco a tenho, mesquinha gente - disse el-rei comovido. - Se tirardes os simples, que vedes acolá, e a abóbada não desabar sobre vós, soltos e livres sereis. Erguei-vos, e confiai na ciência do grande arquitecto que fez essa mirífica obra. Mandar-vos comprar vossa soltura a custo de tão leve risco, quase que é o mesmo que perdoar-vos. Os presos ergueram-se; mas a tristeza lhes ficou embebida no coração e espalhada nas faces; o terror fazia-lhes crer que já sentiam ranger e estalar as vigas dos simples e que, às primeiras pancadas, as pedras desconformes da abóbada, desatando-se da imensa volta, os esmagariam, como o pé do quinteiro esmaga a lagarta enrascada na planta viçosa do horto. Neste momento quatro forçosos obreiros chegaram à porta do Capítulo, trazendo sobre uma paviola uma grande pedra quadrada. Martim Vasques, que já lá estava, gritou ao cego arquitecto: - Mui sabedor mestre Afonso, que quereis se faça do canto que para aqui mandastes trazer? - Assentai-o bem debaixo do fecho da abóbada, no meio desse claro, que deixam os prumos centrais dos simples. Os obreiros fizeram o que o arquitecto mandara; este então voltou-se para el-rei e disse: - Senhor rei, é chegado o momento de vos declarar meu segundo voto. Pelo corpo e sangue do Redentor jurei que, assentado sobre a dura pedra, debaixo do fecho da abóbada, estaria sem comer nem beber durante três dias, desde o instante em que se tirassem os simples. De cumprir meu voto ninguém poderá mover-me. Se essa abóbada desabar, sepultar-me-á em suas ruínas: nem eu quisera encetar, depois de velho, uma vida desonrada e vergonhosa. Esta é a minha firme resolução. Dizendo isto, o cego travou com força do braço de Fernão de Évora, e encaminhou-se para a porta do Capítulo. - Esperai, esperai! - bradou el-rei. - Estais louco, dom cavaleiro? Quem, se vós morrerdes, continuará esta fábrica, tão formosa filha de vosso engenho? - Mestre Ouguet - tornou o cego, parando. - Não sou tão vil que negue seu saber e habilidade. Se a abóbada desabar segunda vez, ninguém no mundo é capaz de a fechar com uma só volta, e para a firmar sobre uma coluna erguida ao centro, mestre Ouguet o fará. Quanto ao resto do edifício, fazei senhor rei que se prossiga meu desenho: é o que ora vos peço tão-somente. E o velho e o seu guia sumiram-se por entre as bastas vigas que sustinham as traves dos simples: el-rei, Frei Lourenço e os mais frades ficaram atónitos e calados. - Que tão honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros castelhanos, cousa é que não pode sofrer-se; mas o voto é voto, senão... Estas palavras partiam da boca duma gorda velha, cuja tez avermelhada dava indícios de compleição sanguínea e irritável, e que de mãos metidas nas algibeiras, na frente de uma das alas do povo, presenciava o caso. - Tendes razão, tia Brites de Almeida; e por ser voto me calo eu - acudiu el-rei, voltando-se para a velha. - Mas juro a Cristo, que estou espantado de só agora vos ver! Por que me não viestes falar? - Perdoe-me vossa mercê - replicou a velha. - Eu vim trazer pão à feira, e aí soube da chegada de vossa real senhoria. Corri... se eu correria para vos falar! Mas estes bocas-abertas não me deixaram passar. Abrenúncio! Depois estive a olhar... Parecíeis-me carregado de semblante. Que é isso? Temos novas voltas com os excomungados.97 Castelhanos? Se assim é, trosquiai-mos outra vez por Aljubarrota, que a pá não se quebrou nos sete que mandei de presente ao diabo, e ainda lá está para o que der e vier. Soltando estas palavras, a velha tirou as mãos das algibeiras e, cerrando os punhos, ergueu os braços ao ar, com os meneios de quem já brandia a tremebunda e patriótica pá de forno que hoje é glória e brasão da gótica vila de Aljubarrota. - Podeis dormir descansada, tia Brites - respondeu el-rei, sorrindo-se. - Bem sabeis que sou português e cavaleiro, e a gente de nossa terra é cortês; el-rei de Castela veio visitar-nos várias vezes: agora ando eu na demanda de lhe pagar com usura suas visitações. Enquanto este diálogo se passava entre o herói de Aljubarrota e a sua poderosa aliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto; e, dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martelo, batendo nos simples, ressoaram pelo âmbito da casa capitular. Fez-se um grande silêncio, e todos os olhos se cravaram em Martim Vasques. Passada uma hora, aquele montão de vigas, barrotes, tábuas, cambotas, cabrestantes, réguas e travessas tinha passado pela crasta fora em colos de homens, e os presos tinham sido postos em liberdade, com grande raiva da tia Brites, ao ver ir soltos os besteiras castelhanos. Apenas no centro da ampla quadra se via uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabeça pendida para o peito, estava assentado um velho. A este velho rogava el-rei, rogavam frades, rogava o povo, sem todavia se atreverem a entrar, que saísse dali; mas ele não lhes respondia nada. Desenganados, enfim, foram-se, pouco a Pouco, retirando da crasta, onde, ao pôr do Sol, começou a bater O luar de uma formosa noite de Maio. Três dias se passaram assim. Mestre Afonso, assentado sobre a Pedra fria, nem sequer cedera às rogativas de Ana Margarida, que obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevera a Bazar os perigosos umbrais do Capítulo, para ver se o obrigava a tomar alguma refeição. Tudo recusou o cego: a sua resolução era inavalável. Também a abóbada estava firme, como se fora de bronze. No terceiro dia à tarde, el-rei, que tinha passado o tempo em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu à crasta, acompanhado de Frei Lourenço e de outros frades, e, chegando à porta do Capítulo, viu Martim Vasques e Ana Margarida junto à pedra fria de Afonso Domingues, e este, pálido e com as pálpebras cerradas, encostado nos braços deles. O mancebo e a velha choravam e soluçavam, sem dizerem palavra. - Que temos de novo? - perguntou el-rei, chegando à porta e vendo aqueles dois estafermos. - Completam-se ora os três dias de voto: ainda mestre Afonso teimará em estar aqui mais tempo? - Não senhor - respondeu Martim Vasques, com palavras mal articuladas -, não estará aqui mais tempo; porque o seu corpo é herança da terra; a sua alma repousa com Deus. - Morto!? - bradaram a uma voz el-rei e Frei Lourenço, e correram para o cadáver do arquitecto, olhando, todavia, primeiro para a abóbada com um gesto de receio. - Nada temais, senhores - disse Martim Vasques. - As últimas palavras do mestre foram estas: "A abóbada não caiu... a abóbada não cairá!" O arquitecto, gasto da velhice, não pôde resistir ao jejum absoluto a que se condenara. No momento em que, ajudado por Martim Vasques e Ana Margarida, se quis erguer, pendeu moribundo nos braços deles, e aquele génio de luz mergulhou-se nas trevas do passado. El-rei derramou algumas lágrimas sobre os restos do bom cavaleiro, e Frei Lourenço rezou em voz baixa uma oração fervente pela alma generosa que, até o último arranco, escreveu sobre o mármore o hino dos valentes de Aljubarrota..98 Na pedra sobre a qual mestre Afonso expirara ordenou el-rei se tirasse, parecido quanto fosse possível retratando-se um cadáver o vulto do honrado arquitecto, e que esta imagem fosse colocada a um dos ângulos da casa capitular, onde, durante mais de quatro séculos, como as esfinges monumentais do Egipto, tem dado origem às mais desvairadas hipóteses e conjecturas. À pobre Ana Margarida que ficava sem arrimo, doou D. João I, também, as casas em que o mestre morava, fazendo-lhe, além disso, assinaladas mercês. Mestre Ouguet, pelo que o cego dissera a el-rei acerca da sua capacidade para o substituir, e porque, enfim, era estrangeiro, foi logo restituído ao cargo que ocupara, e quando, nos serões do mosteiro, alguém falava nos méritos de Afonso Domingues e na sua desastrada morte, cortava o irlandês a conversação, dizendo com riso amarelo: - Olhem que foi forte perda! ********************************************************** Obra digitalizada e revista por Deolinda Rodrigues Cabrera. Actualizou-se a grafia. (c) Projecto Vercial, 1998 http://www.ipn.pt/literatura