Camilo Castelo Branco Carlota Ângela Capítulo I Se a natureza formou uma bela criatura, não pode a fortunaprecipitá-la num incêndio? Shakespeare, Como Vós O Amais. Cette douce ivresse de l'âme devait être troublée. Balzac, Albert Savarus. Norberto de Meireles e sua mulher D. Rosália Sampaio, ricos proprietários, moradores, em 1806, na Rua das Taipas, da cidade do Porto, viam crescer prodigiosamente os seus cabedais, e, com eles, uma filha única, tão encantadora para os pais como a riqueza com que a iam enfeitando para seduzir o mais medrado capitalista da terra. Tolerem-me a singeleza com que se começa a narrativa. Eu tinha à minha disposição quatro exórdios bonitos, que escrevi em quatro tiras, e rejeitei com desdém. Era assim o primeiro: «Diz-me tu, amor, que magos filtros insinuaste no coração da virgem de olhos negros, que leda e melancólica, lagrimosa e risonha, te está enamorando na Lua, donde lhe sorris em noites calmas de Estio, na floresta, onde lhe cicias palavras nunca ouvidas, na fonte, onde lhe murmuras a tua linguagem do Céu? Que ambrósia inebriante deste à doudinha que, tão requestada e alheada de brinquedos pueris, se vai, só e destemida, a buscar-te, por entre mirtos e rosais, perseguindo-te como lasciva borboleta de flor em flor, sobre alfombras de verdura, por onde volitam lúcidos falenos?» Segundo exórdio: «A viração da tarde tremulava ligeiramente a folhagem do renque de álamos que cintavam uma pinturesca vivenda do Candal. Um repuxo de cristalina linfa trepidava na cascata com soidoso rumor, donosa música, ao som da qual se espertam amores em peito virgem, e adormecem mágoas em coração atribulado. Morbidamente recostada sobre um banco de cortiça, por onde trepava um jasmineiro em flor, via-se, como engolfada em alegrias íntimas das que o rosto esconde ao invejar de estranhos, uma graciosíssima donzela... etc.» Terceiro: «Onde vai este gentil mancebo, tão à pressa e ofegante pela calada da noite, subindo a colina do Candal, em cujo topo alveja uma casa, onde ele parece mandar adiante o coração em cada suspiro que o cansaço lhe tira do peito arquejante? Que visão alvíssima, que fada ou silfo é esse que desliza, rápido e volátil, por entre os álamos, e vem ao peitoril do muro, como a ansiada Hero, restaurar, o vigor do extenuado Leandro?... etc.» Quarto, e último exórdio: «Vou contar-vos uma história que verifiquei nas fiéis narrações de mais de vinte pessoas vivas. Ides ver até que ponto os pais podem infelicitar os filhos; até que ponto a missão augusta do segundo criador pode ser fementida e insidiosa; até que ponto o amor paternal é amor, e donde começa a ser desumanidade. Se alguma confiança devo ter na justiça congenial do coração humano, espero carear graça e indulgência para uma filha que se rebela primeiro contra um pai, depois contra o falso deus que lhe impuseram como verdugo de mais alta e temerosa categoria, árbitro e claviculário das sempiternas moradas do inferno... etc.» Aí está o que eu tinha escrito. Tudo rejeitei, contra a opinião de um congresso de homens de delicado gosto, que votaram por qualquer dos quatro prelúdios, chasqueando-me a simpleza com que escrevi o quinto, acanhado e peco como historieta sem nervo, nem imaginação. E, portanto, desde já me desquito com os leitores, se no decurso deste romance me apodarem de insulso e desimaginoso. VERDADE, NATURALIDADE, E FIDELIDADE é a minha divisa, e sê-lo-á enquanto este globo se não reconstruir à feição do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam. Quem desde já sentir azias de boca, deixe isto, e desenfastie-se com as conservas irritantes da França, e até das nacionais, que também as temos, curtidas em vasilhas francesas. Embora travem à ervilhaca, é o que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés literários, em menoscabo do clássico cozinhado de Domingos Rodrigues. Atemos o fio, e a graça de Deus nos assista, para que a benevolência do leitor se compraza com o alinho desafectado e lhano deste conto. A filha única de Norberto de Meireles e D. Rosália Sampaio chamava-se Carlota Ângela, e tinha dezassete anos, em 1806. Não era formosa; mas esquisitamente engraçada sim. Norberto, filho de lavradores trasmontanos, era campesino, rústico, e desajeitado; Rosália, conquanto procedente de progénie já cidadã desde seu avô, havia muito ainda que desbatar, e quatro gerações não tinham adelgaçado nada a raça originária de Covas de Barroso. Ora, a vergôntea de troncos ou cepos tais não podia sair de compleição tão fina e delicada, como se usa liberalmente com as heroínas dos romances. As feições de Carlota eram secas e trigueiras; mas a magreza não era de debilidade ou doença. O ligeiro toque de escarlate nas faces era a transparência de sangue rico de toda a seiva dos dezassete anos. Tinha uma bonita fronte, e abundantes cabelos pretos, que ela enfeitava sem esmero, mas com desalinhada graça, conservando-os, até essa idade, em três tranças, que um laço de cetim encarnado prendia na cintura em duas roscas. À custa de importantes admoestações da mãe, Carlota reformou o penteado em conformidade com a moda, que era enastrar trancinhas de cabelos em dois grandes corações que ladeavam a cabeça, desde o vértice até às orelhas, com matiz de lacinhos de várias cores: bonita coisa, antes da restauração das trouxas contemporâneas, restauração, digo, porque as malas, no cocuruto da cabeça, começavam a decair do gosto em 1806. O que fazia engraçadíssima Carlota eram as espessas sobrancelhas, que formavam apenas um crescente das duas arcadas ciliares: tão imperceptível era a cisura que se estremava na base do nariz. Bem sabem que olhos costumam ser os que reinam sob tão magnífico dossel: grandes, e negros, entre longas pestanas que, ao mais ligeiro languir das pálpebras, se ajustavam num amortecer de tanta volúpia, que mais não podia ser, sem feitiçaria! Ainda não sei descrever narizes, e por narizes comecei a pintar. O de Carlota era irregular, talvez, ao contrário dos narizes de passaporte: era um nariz adunco, longo de mais para aquele rosto; mas esta incongruência, impressionando aos que a viam pela primeira vez, à segunda, não havia que desdenhar-lhe. Singular e desusada era a boca. Cada comissura ou canto dos lábios terminava em dois vincos, um subindo, outro descendo, mas tão pronunciados, que pareciam um permanente riso sardónico, um não sei quê que fazia desconfiar as pessoas menos habituadas à sua convivência. Carlota era alta e gentil. Não se afectava para ser garbosa, que lhe sobejava graça e donaire nos naturais meneios. O braço era incorrecto, fornido de mais em carnes, e de pele trigueira; a mão longa e magra; e o pé proporcional à corpulenta haste. Já agora, diga-se o porquê do cuidadoso recato em que a filha do Sr. Norberto de Meireles tinha os braços; não era a grossura do pulso, nem a pujança carnosa do antebraço; era uma espessa camada de buço, lanugem, ou cabelo, que a frenética menina cerceava desde os catorze anos, à tesoura, porque as amigas e parentas a aperreavam, chamando-lhe «peluda». Basta de matéria: fica-se sabendo que não se trata de uma mulher formosa; deram-se, porém, os traços principais de Carlota, e são esses os que, na maioria dos casos, fascinam, apaixonam e enlouquecem o homem de trinta anos, gasto de queimar incenso às belezas correctas, a cuja desanimação de comum acordo se chama «lindeza». Vejamo-la espiritualmente. Carlota Ângela foi criada com descuidado mimo. Seus pais reviam-se nela, desculpavam-lhe todas as perrices, e fariam-na incorrigível, se a natureza se não corrigisse a si própria. Aos quinze anos, a folgazã menina mudou para triste; de gárrula e traquina que era, fez-se taciturna e indolente. Maneiras de senhora, conversações com pessoas de idade, onde estavam moças; entremeter-se em coisas domésticas, a que a não chamavam; desligar-se das companheiras do colégio, desdenhando a frivolidade de seus passatempos: tal foi a reforma repentina de Carlota Ângela. Alegravam-se os pais, felicitando-se por a não terem contrariado em pequena, contra as admoestações dos parentes, entre os quais havia um tio materno, de cuja calva ela mudava o chinó para a cabeça de um gato maltês, ou em cujos óculos ela bafejava para lhos embaciar. Esta vítima, no auge da sua angústia prognosticara aos pais de Carlota grandes dissabores, consequências funestas da liberdade que davam à condição ferina da moça. Depois da mudança inesperada, Norberto e Rosália, todos os dias, diziam ao homem dos óculos: - Vê como se enganou? Aí a tem agora mais ajuizada e mansa que as meninas criadas debaixo da disciplina e da palmatória... - Veremos... - redarguiu o velho advogado - veremos quando ela tiver uma vontade oposta à vossa qual das duas é a que vence. - Vontade oposta à nossa! - replicava Norberto. Isso havia de ter que ver! Como acha o mano que ela se possa opor à nossa vontade? - Facilmente; e para não ir mais longe, ides vós ter uma ocasião de a experimentar. - Qual? - atalharam ambos. - Eu vos digo; mas, se Carlota entrar enquanto eu falo dela, fica para amanhã o que hoje vos não disser. - Carlota está no seu quarto a ler, e não vem cá tão cedo - disse Rosália. - Podes falar à vontade, Joaquim. - Quando me notastes a mudança rápida de Carlota, fiquei mais admirado que vós. Entrei a cismar até que ponto se podia aceitar a naturalidade da transfiguração moral, e vim a suspeitar que a causa estava na natureza, mas fora da natureza de Carlota. Ora, eu sei mais do mundo que vós, haveis de conceder-me isto, e vós tendes mais boa-fé que eu: fica uma cousa pela outra, e acho que a vossa é bem mais agradável à vida que a minha. Sabeis o que me lembrou? Se Carlota estaria namorada. - Olha que lembrança! - atalhou D. Rosália. - Essa é das suas, doutor! - disse Norberto. – Está a sonhar... deixe-se disso. - Seria sonho; - disse o doutor severamente – mas já agora deixem-me contar o sonho até ao fim, e guardem para o remate as admirações. Nesta suspeita, comecei a limpar os óculos para examinar as caras masculinas que entravam aqui, e não achei alguma duvidosa. As vossas relações são pouquíssimas, e nessas não há alguém que possa despertar no coração de Carlota um sentimento novo. Continuei as minhas averiguações fora de casa. Fui às poucas casas onde vós íeis; segui todos os olhares de Carlota, e achei-os sempre indistintos e indiferentes. Descorçoei um pouco; mas não desisti. Um dia do ano passado, estávamos nós no Candal, e passeava eu e ela sozinhos na estrada. Dizia-me a pequena que tinha lido umas novelas de cavalarias, de que gostara muito, posto que não acreditasse nas histórias. Contou-me algumas passagens de Paulo e Virgínia e de Menandro e Laurentina ou os Amantes Estremosos, que vós não sabeis o que é, mas lembrados estareis de me perguntardes se eram livros de boa moral. Notei que a moça, quando me falava no amor das damas e cavaleiros, empregava mais vivacidade do que convinha a uma menina inocente de sentimentos amorosos. Fiz-lhe algumas perguntas com intenção de a surpreender; mas ela jogava comigo tão habilmente, que venceria a partida, se eu não tivesse cinquenta e cinco anos, e não tirasse da hábil escápula o mesmo que tiraria se ela se deixasse apanhar. Noutro dia estávamos nós sentados no mirante, conversando em cousas que me não lembram, e vimos aparecer no alto da estrada um cavaleiro. Olhei casualmente para Carlota, e vi-a corada, e inquieta. Disfarcei o reparo, e vi-a erguer-se e voltar, as costas para o cavaleiro, dando alguns passos com certo ar de indiferença, e tornou logo, girando entre os dedos uma flor que cortara. O cavaleiro passou e cortejou-me: era meu conhecido. Esperei que ela me perguntasse quem era; nem uma palavra. Perguntei se o conhecia; ergueu os ombros, e fez com os beiços um gesto, que parecia dizer: «Não sei, nem me importa saber.» Noutro dia, fui eu ao Candal, e no Alto das Regadas ouvi tropel de cavalo, que me seguia, subindo a calçada. Escondi-me na esquina de uma travessa, e vi passar o cavaleiro: era o mesmo da cortesia. Fui-o seguindo de longe; e, ao chegar à colina donde se avista o mirante, vi, primeiro, Carlota debruçada sobre o parapeito da varanda, e, depois, o cavaleiro parado debaixo do mirante. - Credo! - exclamou D. Rosália, erguendo-se branca como cera. - E esteve até agora calado com isso! - disse Norberto, erguendo-se também. - Nada de espantos! - respondeu o bacharel, sem se descompor na cadeira, onde se refastelava, falando com a sua costumada solenidade oratória. - Logo se diz quem é o homem; mas há-de aqui fazer-se o que eu aconselhar, senão desconfio muito que minha irmã experimente mais cedo do que espera a vontade de Carlota. Escondi-me alguns segundos, e apareci no momento em que vossa filha entregava um ramo ao cavaleiro. Ela deu fé de mim, e sumiu-se; e ele seguiu a estrada, depois que me viu. Carlota recebeu-me com a certeza de que eu era suficientemente cego para a não ter visto: não eu o menor indício de susto. Convidei-a, como sempre, a passear no jardim, e disse-lhe: «Quando houver alguma novidade na tua vida, hás-de contar-ma, menina. Se ela te parecer tão agradável, que a queiras só para ti, não cuides que lhe diminuis o valor, dizendo-ma. O coração de teu tio há-de sentir o bem do que for bom para o teu. Ora, conversemos: diz-me lá, Carlota, se sentes alguma inclinação que não sentias há um ano, quando os meus óculos e o meu chinó eram o teu regalo.» - Eu não, meu tio... sinto o que sentia – respondeu ela; mas a inocência protestou contra a mentira, mostrando-se no rosto: corou e gaguejou de um modo que me fez pena e contentamento. Quando assim se cora, o coração está puro. Para acudir à vossa impaciência, dir-vos-ei, em resumo, que obriguei suavemente Carlota a confessar-me que amava Francisco Salter de Mendonça. Já sabeis quem é. - Eu não! - disse D. Rosália. E voltando-se para o marido: - E tu? - Conheço de vista - respondeu Norberto -, é um militar, creio eu... - Francisco Salter de Mendonça - continuou o doutor Joaquim António de Sampaio, sorvendo uma pitada pela venta direita, e comprimindo a outra com o dedo indicador da mão esquerda - é um tenente da brigada real da Marinha, é natural de Lisboa, e está aqui há dois anos a bordo do brigue Audaz. É um moço que vive do seu soldo, e está por aí relacionado com os rapazes nobres da cidade. É o que posso informar acerca de Mendonça. Agora vou responder à pergunta de Norberto. Admirou-se de eu estar calado com isto? Calei-me, porque receava muito que alguma imprudência vossa irritasse o amor de Carlota. Calei-me, esperando que Mendonça fosse chamado a Lisboa, e nos deixasse o campo livre para despersuadirmos Carlota. Ainda assim, fiz tenção de vos avisar, logo que julgasse necessário empregar medidas prontas. Eu sei que o rapaz tenciona vir pedir-vos Carlota, e sei também que em poder de um meu colega está um requerimento dela para ser tirada por justiça no caso de que negueis o vosso consentimento. - Santo Nome de Deus! valha-me Nossa Senhora! - exclamou, com as mãos na cabeça, D. Rosália, enquanto seu marido resfolegava arquejante, passeando aceleradamente na sala. - Não comecem a fazer doudices! - tornou o doutor. - Se gritam, se põem fogo de mais ao púcaro, entorna-se tudo. Aqui há-de fazer-se o que eu disser; mas mudemos de conversa, que aí vem Carlota. Capítulo II Os tigres são menos sanhudos contra o homem que o próprio homem. Fócion, Instrução a Arístias. Les parents en effet ont cela de admirable, et le parle des meilleurs, que vous ne pourrez jamais, ni par plainte, ni par raison, leur faire comprendre qu'il vient un moment où l'oiseau essaie ses ailes et quitte son nid; qu'ils n'ont d'autre mission que de faire et d'élever leurs petits jusqu'à l'âge où ils quittent le nid. Alphonse Karr, Sous les Gueuls. Quais fossem os conselhos do ornamento dos auditórios portuenses, teremos ocasião de avaliá-lo oportunamente. Oito dias depois de planizada a conspiração contra os amores reservados de Carlota Ângela, foi procurado Norberto de Meireles pelo tenente de marinha. Francisco Salter de Mendonça era um rapaz da boa sociedade de Lisboa, um dos mais distintos alunos do Colégio de Marinha, reformado pelo inteligente ministro Martinho de Melo e Castro. Tinha dotes corporais que o distinguiam, e virtudes que os seus amigos avaliavam como raras. Amava com verdade Carlota Ângela, posto que, no princípio, o ser ela filha única de um abastado comerciante encarecesse mais o galanteio. Sentiu, depois, que o seu amor se purgara da ignomínia do cálculo, até preferir que fosse pobre Carlota, para que, pobre, se igualasse a ele. Longo tempo a cortejara sem revelar-lhe as intenções honestas do namoro, esperando que fosse ela a que o autorizasse a pedi-la a seus pais. Certeza tinha ele de que lha negavam, porque então, como hoje, um noivo era pesado na balança do negociante rico, e o contrapeso do coração não fazia oscilar o fiel. Pedi-la sem predispor o auxílio da lei invocado por Carlota, nunca Mendonça quisera até ao momento em que ela prometeu fugir de casa, se seu pai não consentisse. Traçado o plano, Mendonça, como dissemos, procurou Norberto de Meireles, e foi urbanamente recebido. Disse o motivo da sua visita, e não divisou na fisionomia do ricaço o menor sinal de espanto, nem sequer de surpresa. Acabou de falar, e ouviu, com estranho júbilo, a seguinte resposta: - Se minha filha é contente com o marido que se lhe oferece, eu não me oponho a que ela seja sua esposa. Ela que o ama, é que V. S.ª é digno dela. - Espero - atalhou Mendonça - merecer a V. S.ª o conceito que mereci à Sr.ª D. Carlota. Norberto não soube responder convenientemente a isto, porque dissera parte do que o doutor lhe ensinara nas poucas palavras com que embriagou o radioso genro, e, receoso de que lhe esquecesse o resto, continuou: - Fique V. S.ª na certeza de que a vontade da minha filha é a minha; tenho, porém, a pedir-lhe um favor que V. S.ª não recusará ao pai de Carlota. - Oh! Senhor! que me pedirá V. S.ª, que eu não receba como ordens da pessoa que prezo desde já como pai?! - Minha filha faz anos de hoje a um mês, e eu muito desejava que ela festejasse na minha companhia os seus dezessete anos, ainda solteira. - Pois não, Sr. Meireles! Exija V. S.ª de mim todos os sacrifícios que se podem humanamente fazer, que eu nunca pagarei o regozijo deste momento decisivo para a felicidade de toda a minha vida. - E V. S.ª - prosseguiu o fiel repetidor do bacharel, contentíssimo de não ter trocado uma só palavra, apesar das interrupções do interlocutor - poderá, se assim lhe aprouver, honrar com a sua presença os anos de Carlota, que se festejam, há dezesseis anos, na minha quinta do Candal. Esgotara-se o pecúlio. Norberto fez menção de erguer-se. Salter notou a grosseria; mas desculpou-a ao pai de Carlota. Retirou-se acompanhado até ao pátio, honra que três vezes recusara, mas, à quarta, o negociante disse que ia para o escritório tratar da labutação dos arrozes que estavam à descarga. Isto é que era legitimamente dele. Carlota, enquanto a visita esteve, não obstante o grande espaço que a distanciava da sala, apurava o ouvido na extrema de um corredor por onde poderia embuzinar a voz do pai, se ele a engrossasse, como costumava, nos agastamentos. Ouvindo rumor de passos na saída, correu ao seu quarto, e sentiu-se desanimada para receber a visita colérica do pai. Até então dera-lhe o amor afouteza para responder às iras paternais; e a risonha esperança de permanecer poucas horas em casa, depois da expulsão de Mendonça, afigurava-se-lhe agora uma tenção criminosa. Era o medo que a transtornava assim; logo, porém, que o sobressalto se desvanecesse, viria a reacção do amor restituir-lhe o vigor de um propósito, cuja firmeza as ameaças do pai não abalariam. Pouco depois, Carlota foi chamada ao quarto da mãe, e achou-a prazenteira e jovial. O pai entrou após ela, e fingiu o mais lhano e caricioso semblante. Carlota estava espantada, e não podia crer o que via. - Diz-me cá, menina - disse Norberto -,~já sabes... ora se sabes!... - O quê, papá? - Faz-te tolinha, minha serigaita! Arranjaste um marido, sem dizer água vai, assim do pé prà mão como quem se casa por sua conta e risco... Carlota baixou os olhos com humildade. Norberto perdeu um pouco do seu carácter artificial, e prosseguiu: - Ora sempre tenho uma filha como se quer! Posso-me gabar!... Nem eu nem tua mãe valemos nada, Carlota! Vê-se um troca-tintas, e não há mais que dizer-lhe: Se quer casar comigo, estou aqui às suas ordens; vá pedir-me a meu pai, e diga-lhe que me dê o dote que ele me ganhou a trabalhar trinta anos. Isso é bonito, Carlota? D. Rosália pisara rijamente o pé do marido, e conseguira recordar-lhe a traça combinada com o doutor. Carlota começava a sentir a reacção, ia erguendo a cabeça abatida para repelir a grosseira invectiva do pai, quando este, com velhaca subtileza, mudou para brando aspecto a severa carranca, e prosseguiu: - Enfim, quem casa és tu; o mal e o bem para ti o fazes. Se queres casar com esse rapaz, casa. Eu disse-lhe o que um bom pai deve dizer. Consenti, contanto que a vontade de minha filha seja essa. Que dizes a isto, Carlota? Estás decidida a casar com o tal Senhor Mendonça? - Visto que meu pai não se opõe à minha vontade... - E, se eu não quisesse, casavas do mesmo modo?... Diz lá! - Se o pai não quisesse, eu havia de pedir-lhe tanto que me deixasse ser feliz, que o meu bom pai... consentiria... - Lá isso é verdade... - replicou o negociante, obedecendo à terceira pisadela da irmã do bacharel - eu o que quero é a tua felicidade... Bem sabes que sou teu amigo como ninguém, ainda que te pareça que lá o teu namorado te quer mais do que eu... E boa asneira a das raparigas, que trocam pai e mãe pelo primeiro perna-fina que lhe empisca o olho ao dote!... (Quarta pisadela de Rosália, e mutação de cara e diapasão de voz em Norberto). Está dito! Casarás com o homem; mas já agora hão-se de festejar os teus dezessete anos em casa. Eu já lhe disse a ele que esperasse um mês, e depois arranja-se isso, e está acabado o negócio. O rapaz, pelos modos, é pobre; mas o teu dote, se Deus quiser, chegará para tudo. Estás contente, Carlota? - Oh, meu querido pai! - exclamou ela, beijando-lhe afervoradamente a mão - eu sabia que era muito meu amigo; mas não esperava tanto da sua boa alma. Fui má filha em ter guardado este segredo; perdoem-me, por quem são; é que eu tremia só da ideia de os desgostar, não podendo sufocar o amor que lhe tenho... a ele... - Não chores, Carlota, que não tens por que chorar... - disse D. Rosália. - Eu choro de contentamento, minha mãe, por ver que a minha ventura é possível sem desgostar meus pais... Sou a mulher mais feliz da terra. Queria que toda a gente soubesse agora os bons pais que o Senhor me deu. Tomara eu ver o tio Joaquim para o despersuadir de um mau juízo que ele fazia do meu querido pai, quando, faz agora um ano, me disse que eu não alcançaria o seu consentimento para casar com Francisco de Mendonça; e também queria abraçá-lo, porque respeitou a minha paixão, e nunca mais me contradisse. A alegria dava a Carlota uma ousadia entusiástica, que espantava Norberto, e tinha semiaberta a boca de Rosália. - Se a minha mãe conhecesse a nobre alma dele prosseguiu ela -, havia de amá-lo também! - Eu?... ora essa! tu és maluca! - atalhou Rosália, compreendendo à letra a palavra amá-lo. - Maluca! porquê, minha mãe? - Pois tu disseste aí que eu havia de amar o tal homem! - Pois se ele tem um coração tão bem formado! Esteve mais de um ano sem me dizer que queria ser meu esposo, para que eu não pensasse que ele namorava a minha riqueza. Foi preciso dizer-lhe eu que a minha maior ambição neste mundo era fazê-lo senhor do meu coração para toda a vida. Quando eu disse isto, até chorava de alegria ele!... - Está bom, está bom, estamos decididos – disse Norberto, receando que os diques da ira se esboroassem. - Logo que o doutor venha de Lisboa trata-se disso. Amanhã vamos para o Candal. Lá é escusado andar com falatórios do mirante para a estrada. Cá não se usa as noivas andarem a namoriscar à surdina. Já se sabe que ele há-de ser teu marido; o tio doutor quando vier, há-de convidá-lo para nossa casa, e então conversarão à sua vontade. Norberto saiu com as faces incendiadas, como se a raiva abafada respirasse por elas. D. Rosália, porém, menos firme no fingimento, apenas o marido saiu, começou a pingar dos olhos umas lágrimas baças e granulosas como camarinhas. Carlota acudiu a enxugar-lhas com meiguice, consolando-a com a esperança de viverem sempre juntos, como até então. Rosália, se a boa-fé não nos engana, chorava com pena da filha, por ver que todo aquele contentamento se havia de mudar em amargura, se não falhasse o estratagema do doutor. Deixá-la chorar, que o seio de Carlota parece alargar-se ao pulsar veemente do coração. Essa imensa alegria que lhe deram, leal ou traiçoeira, há-de produzir a bem-aventurança ou o inferno daquela família. Carlota tem a alma briosa e amante de mais para transigir com a perfídia. A obediência filial, máscara de corrupção com que algumas donzelas se disfarçam para abjurarem sem pejo ligações inconvenientes, é uma «virtude» dos nossos dias, importada... da América. Em 1806 não havia disso cá. Capítulo III Tu me matas, meu pai! Quem tal pensara? Eu beijo a mão que o golpe me prepara. Marquesa de Alorna A traça do bacharel Joaquim António de Sampaio era afastar Mendonça de Portugal, repentinamente. Aconselhara ele a mentira, para evitar o escândalo de um rapto, ou a saída judiciária de Carlota. Ausentar Mendonça para alguma das colónias, ou para os estados barbarescos, sob pretexto de guerra à pirataria que infestava então o Mediterrâneo; e prolongar essa ausência até dissuadir Carlota, cortando-lhe os meios de se escreverem, era a trapaça do hábil jurisconsulto. Norberto, pasmado de tamanho ardil, fez tão extremado conceito do doutor que, no expandir-se da sua admiração, exclamou: - Ó cunhado! Você é homem de todos os diabos! Quem sabe, sabe! - Mas, Norberto - disse o doutor -, sabe que sem dinheiro nada se faz? - Saque o que quiser, cunhado! - Eu tenho talvez de comprar muito caro o pretexto para a saída de Mendonça. Não sei se me verei a braços com os protectores e parentes dele na corte, e as nossas armas são o dinheiro. - Pois é dizer o que quer. O doutor leva ordem franca; não poupe dinheiro, e ponha-me o homem fora da Nação. Assim armado com o invencível dinheiro, o tio de Carlota Ângela chegou a Lisboa, em fins de 1806, levando cartas de apresentação para o ministro da Marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, para D. Catarina Balsemão, e para o intendente-geral da Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique. A matéria que então mais se discutia era a demência do príncipe regente, causada por sofrimentos dos que tornam ridículo um marido, ainda que o motivo seja mais para compaixão que riso. Falava-se na morte violenta de José Anastácio, em Mafra, empeçonhado por ter sido o espia e delator da conspiração urdida contra o príncipe, em Arroios, numa casa da condessa de Alorna, que emigrara para Inglaterra, descoberta a conjuração. Os rumores surdos contra os pedreiros-livres indicavam os indivíduos suspeitos, mormente depois que o escritor público Hipólito da Costa fugira dos cárceres da Inquisição, que lhe foram abertos pelo braço poderoso da Maçonaria. Hipólito, autor, depois, do Correio Brasiliense, devia a liberdade à embriaguez dos guardas e à astúcia dele; convinha, porém, ao Governo simular-se assustado do poder da Maçonaria para encruar contra os suspeitos a sanha da plebe. E, porém, certo que a Maçonaria, em Portugal, entrara em 1797, com os emigrados franceses, e pudera a muito custo implantar-se numa pequena sociedade ou loja denominada Fortaleza, quase desconhecida e despercebida até 1806. Só depois que o ministro do Reino entregou à Inquisição um pedreiro-livre, e o ímpio fugiu do cárcere do Rossio, levando nos canos das botas os «Regimentos da Inquisição» reformados pelo marquês de Pombal, dos quais publicou, em ar de zombaria, curiosos extractos no jornal que, depois, redigiu em Londres - só depois desses néscios medos e estúpidas perseguições do Governo, sempre providenciais para acordar os povos do letargo, é que a sociedade maçónica em Portugal se radicou, floresceu, e deu frutos bons e maus (os de hoje apodrecem todos antes de madurar). A questão dos pedreiros-livres revirou os projectos do bacharel portuense. Nova ideia lhe acudiu, quando principiava a mortificá-lo o receio de não poder suplantar um frade beneditino bem aparentado, que se dizia ser pai de Francisco Salter de Mendonça. Essa ideia era denunciar o tenente de marinha como encarregado de fundar no Porto uma loja maçónica, para o que tratava de intimidade com Jerónimo José Rodrigues, arcediago de Barroso, o primeiro liberal que teve a cidade eterna, antes de pregoar-se a liberdade em Portugal. Francisco Salter de Mendonça conhecia o arcediago, era sua visita, simpatizava com as suas doutrinas políticas, e deixara-se eivar do espírito de vaga novidade que os princípios de liberalismo balbuciavam ainda então confusamente. Não era, todavia, pedreiro-livre, porque venerava o frade que o adiantara na carreira das armas, e queria cumprir o juramento que fizera, nas mãos do monge, de jamais se associar à seita dos inimigos de Deus, conquanto conhecesse a inépcia dos farisaicos amigos do altar. O tio de Carlota apresentou-se a D. Catarina de Balsemão, ouviu-lhe dois sonetos, aplaudiu-lhos até chorar de temo entusiasmo, e disse, depois, o fim a que ia. Pintou com negras cores o roer profundo do cancro da Maçonaria no seio da sociedade; lastimou a inevitável queda dos foros e prerrogativas da classe nobre, se a média se incorporasse para desarreigar a árvore de séculos; disse que a Maçonaria fizera Sila, e Robespierre, e Bonaparte; ajuntou outras muitas tolices em linguagem garrafal, até incendiar a combustível D. Catarina, que logo ali lhe deu carta de mui especial recomendação para Manique. O intendente ouviu com atenção e medo o bacharel. Soube que Francisco Salter de Mendonça, mancomunado com o arcediago de Barroso e outros, tratava de fundar uma loja maçónica no Porto, convencendo os tímidos com a sua eloquência revolucionária, e prometendo aos ilusos a restauração dos direitos dos povos, vitimados que fossem os reis e os grandes. Acrescentava o bacharel que Salter de Mendonça traduzia e espalhava os escritos mais incendiários dos revolucionários franceses em 1791, e propalava que Portugal não podia ser feliz sem mandar um rei de companhia a Luís XVI. Manique estava tranzido! O orador, electrizado com o pasmo do ouvinte, entrara na sua hora feliz. As imagens mais ensanguentadas, as metáforas mais patibulares, os tropos mais coriscantes acudiam-lhe com trovejante iracúndia. Digna de melhor destino, a fúria oratória do letrado do Porto conseguira mais que o desejado. Manique susteve-lhe a torrente, prometendo providências prontas, e acabou por lhe pedir que ficasse na intendência exercendo o lugar do ajudante, assassinado em Mafra, José Anastácio. Aqui é que o bacharel se achou superior a si mesmo, e deu um mental adeus ao safado tostão dos conselhos, que raros clientes lhe levavam, no Porto, ao seu obscuro escritório da Rua de Santa Catarina. Confiado na sua estrela, o nomeado ajudante do intendente-geral da Polícia perguntou ao chefe o que tencionava S. Ex.ª fazer a Francisco Salter. Manique respondeu que o faria conduzir preso a Lisboa, e do Limoeiro passaria para a Inquisição. - Se V. Ex.ª me permite uma reflexão... - disse o bacharel. - Diga lá, que eu respeito muito o seu parecer. - Com o devido respeito e humildade que se deve aos atilados juízos de V. Ex.ª, peço licença para observar que convém obrar com mansidão e parcimónia, para impedir que uma seita perseguida faça prosélitos. Eu vou, com o maior respeito, lembrar a V. Ex.ª trinta e tantos casos da história, dos quais se vê quão imprudente e perigoso é empregar o cautério à borbulha que muitas vezes resolve sem medicamento, e quase sempre lavra quando a fazemsangrar. Começarei primeiro pela seita luterana, a qual seita luterana... - Tem a bondade de não exemplificar... - atalhou o intendente, que detestava cordialmente as novidades tanto em política como em história. - Que entende o Senhor que se deve fazer? Desprezar? Deixar rebentar o vulcão? Então de que me servem as tristes novas que me trouxe?! - Desprezar, não, Ex.m° Senhor! Que faz o hábil agricultor ao galho seco da sua árvore? Corta-o, separa-o das vergônteas vivazes, mas não o lança à estrada, para que o passageiro o leve como cousa sem dono, nem o desfaz com o machado como objecto sem utilidade. Leva-o para casa, lança-o na lareira, e aquece-se a ele. Façamos a aplicação: Francisco Salter é o membro contaminado e daninho: cumpre decepá-lo, para que não empeçonhe os outros; cumpre aproveitá-lo, a fim de que os inimigos da ordem se não aproveitem dele; cumpre empregá-lo em serviço da pátria; mas seja onde as suas tendências revolucionárias não catequizem incautos. Mendonça é tenente; promova-se a capitão, e (permita-me V. Ex.ª o arrojo de dar o meu parecer com a franqueza própria dum português, homem de bem) seja sem perda de tempo enviado como comandante do primeiro vaso que sair para o Brasil, dispondo de modo a sua expedição, que ele só volte à metrópole passados anos. Esta é a minha humilde opinião. O bacharel concluiu, dobrando o pescoço até bater com a barba no peito. Manique redarguiu debilmente em oposição aos princípios fabianos do bacharel. Sampaio replicou, pedindo sempre mil perdões da audácia, e alfim superou o chefe, fortalecendo-se com a dificuldade de provar a denúncia, visto que as testemunhas presenciais das arengas revolucionárias de Mendonça não jurariam contra ele. Nesse dia expediu-se ordem para recolher a Lisboa o tenente da corveta Audaz, Francisco Salter de Mendonça, no prazo de oito dias. Aprestou-se um brigue, que devia, dois dias depois da chegada do oficial, fazer-se à vela para o -Rio de Janeiro, capitaneado por Salter, promovido a capitão. O ajudante do intendente-geral da Polícia, escrevendo a seu cunhado Norberto de Meireles, dizia: «Tenho lutado com enormes dificuldades. Saquei seis mil cruzados, e venci as primeiras; as outras hão-de vencer-se... etc.» Donde se infere que o agente de Norberto de Meireles estimara em seis mil cruzados as duas arrepiadas arengas à célebre poetisa e ao intendente-geral da Polícia. Capítulo IV Salada ¡Ai!¡ no me dejes nunca! Aden ¿Yo dejarte? ¿Y para qué, y porque?! tu, mi querida! ¿Ni como, aun quisiera abandonarte Juntos tu y yo lanzados en la vida? Espronceda, El diablo mundo. Fazia tristeza e saudade a formosa Lua de uma noite de Agosto naqueles olorosos jardins do Candal. Era meia-noite, e a viração do mar bafejava mansamente as copas dos arvoredos, que circuitavam a sombria casa de Norberto de Meireles, o qual, a essa hora, ressonava mais alto que todos os seres vivos da natureza em roda. De mansinho rodou a porta que abria para o jardim. Um vulto deslizou por entre os mirtos e japoneiras, até ganhar o mirante erguido num ângulo do jardim. - Esperaste muito? - disse ela a Francisco Salter, que lhe saíra de sob a ramagem sombria dos chorões debruçados no muro. - Tem paciência, meu amigo. Minha mãe deitou-se há meia hora; não sei que ar de inquieta alegria ela tinha hoje, que lhe não chegava o sono... - Seria tão viva a alegria dela como é viva a amargura que me não deixará dormir a mim? - Amargura! Que tens, Francisco? - Não te falou por mim o meu bilhete desta tarde? - O teu bilhete?... não... Dizias-me que era indispensável falares-me hoje... Não traduzi amargura nisto... Cuidei que era uma saudade feliz e serena como a minha... - Oh! não, minha querida, é uma saudade que me despedaça... é a saudade que... - Como? Que linguagem é essa, Francisco! Não me tens agora aqui?! Não sou eu tua para sempre?! - Sei que serás, Carlota, sei... mas eu preciso que chores comigo para me ser menos amarga a minha dor... É forçoso que nos separemos por alguns dias... meses... anos... - Jesus! que nos separemos?! Onde vais tu? - Sou chamado imediatamente a Lisboa. - A Lisboa!... para que és tu chamado a Lisboa, Francisco? - Não sei... é uma ordem terminante do ministro. - Oh! meu Deus!... que lembrança terrível! - exclamou com veemência Carlota. - É impossível! É impossível! - Impossível o quê? - Nem te quero dizer a horrível ideia que tive agora... - Diz, Carlota... vejamos se se encontram duas ideias horríveis. - Pois também suspeitas?... que te lembra, meu amigo?... diz, diz, se também julgas possível... - Também suspeito que a ida de teu tio a Lisboa... - Sim, sim, é isso que me lembrou; mas não creias, porque meu tio é um bom homem. Há muito que ele dizia que iria a Lisboa requerer um emprego. E ao que foi; mas... é verdade que... - Não receies atormentar-me, Carlota; diz tudo o que te faz desconfiar... - É que hoje recebeu-se carta de meu tio, conheci a letra do sobrescrito, quis abri-la inocentemente, e meu pai tirou-me a carta da mão com grande sobressalto, dizendo que não era boa criação ler as cartas de outro. Eu disse-lhe que era uma curiosidade filha do desejo de saber como meu tio passava; e o pai voltou-me as costas, e eu bem vi que ele estava muito inquieto... mas... - Duvidas ainda, Carlota, que teu tio foi agenciar a minha saída do Porto? Duvidas que não foi traiçoeiro o consentimento de teu pai, sem ao menos me perguntar que família ou haveres são os meus? - Isso é horrível, meu amigo! não me convenças dessa traição, que me matas! Eles não podem separar-nos, não! O que a morte pode fazer não o farão eles. Juro-te pela minha alma e por tudo quanto há sagrado... - Não jures, Carlota; eu sei o que és para mim; vale mais essa tua aflição que todos os juramentos. Por quem és, não chores assim, meu querido anjo. Aqui o terrível mal que nos ameaça é a saudade, a incerteza não. Se a nossa ventura vier mais tarde do que esperávamos, resignemo-nos, vençamos a desgraça com a esperança. Teu pai porque será contra mim? Porque eu sou pobre? Pois bem, Carlota, irás pobre para a companhia é teu marido. O meu pão chega para ti, e bastará para mim a felicidade de to alcançar à custa de honrado trabalho. Não aceitaremos uma moeda de cobre dos cofres de teu pai... Bem basta que esse dinheiro tenha sido o nosso algoz para o não querermos connosco. Pobre é que eu te quero, e, se teu pai me não diz tão depressa que eras minha, ouviria da minha boca uma renúncia formal do teu grande dote... Coragem, minha amiga. Eu vou a Lisboa, conheço logo a causa da minha chamada, desfaço as intrigas, se elas lá me esperam, empenho em nosso favor amigos e parentes, que tenho alguns valiosos ao pé dos ministros. Voltarei para convencer teu pai de que eu reputei verdadeira a sua palavra, e me envergonhei por ele, supondo necessário chamar a lei em nossa ajuda. Entrarei em tua casa, e dir-te-ei: Vem ser minha esposa! E tu sairás, pois não, minha Carlota? - Sim, sim, sairei; e porque não há-de ser já?! - Já?! - Sim, leva-me contigo; não me deixes entregue a esta gente que me quer matar. Começo a odiá-los, e não poderei mais vê-los sem rancor. Leva-me, Francisco... Aceita-me assim pobre, e verás que te levo a maior riqueza deste mundo, um coração onde eu tenho o segredo de fazer a nossa felicidade na pobreza. Não me respondes? - Queria responder-te de joelhos, Carlota! Tu és um anjo, é um bem que eu não mereço a Deus, e receio desagradar-lhe se faço sofrer teus pais que, decerto, te devem amar muito, e cuidam que te fazem bem, separando-te de mim. Eu se fosse pai, e pai de uma filha assim, dá-la-ia ao primeiro que ma viesse pedir, sem me mostrar virtudes dignas dela? Não diria a esse homem perfidamente que sim, para depois praticar a vilania de o afastar, matando-lhe o coração a punhaladas traiçoeiras... não mostraria ao amante de minha filha o Céu, para depois o despenhar no Inferno; mas... custar-me-ia muito a dizer-lhe: - Aí te dou o tesouro que tive no coração dezassete anos, que guardei para me dar alegria nas amarguras da velhice... leva-o, e deixa-me só com a minha saudade irremediável!... Não, Carlota, é cedo ainda para dares a teus pais esse desgosto. O teu amor ensina-me a ser nobre. Há um amor que faz tiranos e cruéis; mas esse amor não é o meu. Sou generoso para todo o mundo, e para os teus mais que para outrem. Ninguém dirá que calculei com os cem mil cruzados de teu pai, quando eu tiver uma casa que te ofereça, à hora do dia, na presença de quantos quiserem ver como um homem pobre serve um pobre jantar a sua mulher. Fica, minha querida Carlota, fica em tua casa. Nós exageramos o infortúnio. É próprio do muito amor que nos temos; mas saibamos empregar as armas da razão para vencer uma desgraça imaginária. Vou a Lisboa, ouço o que me querem, volto com licença aqui, apresento-me a teu pai no dia dos teus anos, e no seguinte venho pedir-lhe o cumprimento da sua palavra. A palavra não, encontro-te ao meu lado... e depois, venham todas as potências do Inferno contra nós. - Francisco! - murmurou Carlota, despeitada – tu não me amas... porque não receias perder-me. - Perdoo-te a injustiça, Carlota... Diz o que te não vem do coração, diz, minha amiga, que eu até das injúrias, se de ti me vierem, tirarei provas de que me amas muito, e crês que te amo. Há dois anos a amar-te assim! Há dois anos a respeitar-te como irmã, acarinhando-te como esposa! Há dois anos a viver de uma esperança, que só às tuas palavras se afoutou a dizer que existia! O homem que assim pensou não podia hoje aceitar a tua fuga, sem tu me dizeres que é preciso roubar-te para te merecer. Oh! isso nunca tu mo dirás, anjo do Céu, porque então pouco apreço daria eu à alma que não tem a intrepidez de dizer «sou livre». Carlota soluçava com a face apoiada na pilastra da varanda, e os olhos fitos no Céu. O aperto de coração que a sufocava era mais que o exprimível e imaginável. Essas angústias sofrem-se, mas não deixam reminiscências aos que as devoraram. São como as agonias do naufragado, que não preenchera ainda a conta dos seus dias, e quis em vão contar aos que o salvaram a suprema aflição do afogamento. Para as torturas de um adeus, entre duas almas animadas por um só espiráculo de vida, sei eu que há na língua humana uma palavra, uma só: INFERNO. Isso é pior que o morrer, porque na morte há o esquecer graduado por cada estalar de fio que nos atava aos poucos bens deste mundo: há o extremo dom do árbitro das vidas - a resignação sem luta, o luzir da estrela esperançosa que se ergue detrás do túmulo, o recordar-se dos anseios para Deus, quando as brilhantes ilusões da terra se convertiam num como ténue vapor de incenso que nos prendia aos olhos lagrimosos até o vermos entrar no Céu. Mas o adeus de Carlota Ângela a Francisco de Mendonça!... Essas derradeiras palavras, que já não eram mais que um longo gemido, convulso, sufocado, a cada ímpeto dos dois corações que rasgavam os peitos para se juntarem! Linda expirava a noite. Raiava a aurora, empalidecendo as estrelas. Uma auréola de frouxa luz cintava os horizontes. Na extrema orla do mar enrubesciam-se as águas, e calava-se o rumorejar da vaga, como para ouvir o hino matinal dos madrugadores alados. Era um formoso amanhecer aquele! Tão donoso, tão alegre, tão radiante tudo, só tu, Carlota, com os olhos na colina onde viste o derradeiro adeus do amante, e a mão no seio como a suster a vida que te foge, perguntas à tua razão se tamanha angústia não é um sonho! Acorda, mártir, que o teu dia de desgraça amanheceu, e será longo! Capítulo V Sai se o vulto de meu corpo Mas ei non. Cá ós çocos vos fica morto O coraçon. Egas Moniz Coelho (?) ...Si notre affection est traversée; si elle rencontre des obstacles, elle réagit, et cette réaction, impétueuse, convulsive, comme celle de tout ressort agitée et comprimée, nous porte à des mouvements desordonnés, par conséquent accompagnés de souffrance. Notre affection, alors, devient passion. Et comme les obstacles qui l'irritent ne peuvent jamais être placés que par les intérêts d'autres personnes, elle nous anime d'une violente haine contre ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre douceur em brusquerie, notre générosité en sentiments odieux. Anais, Précis du système universel. Francisco Salter foi, naquele mesmo dia, a Candal, oferecer a Norberto de Meireles os seus serviços em Lisboa, onde era chamado pressurosamente. O negociante não tinha prática ou habilidade bastante para simular no rosto a surpresa ou o descontentamento da inesperada ausência do genro apalavrado. Manifestou, em toda a expressiva estupidez com que a providência dos grosseiros velhacos lhe dotara a fisionomia, a alegria danada que lhe não cabia no bojo do peito. Mendonça evidenciou as suas suspeitas, e arrependeu-se de não ter convertido em peçonha toda aquela alegria, aceitando a fuga de Carlota, horas antes. - Desejava despedir-me das Senhoras - disse Mendonça. - Minha mulher - tartamudeou o negociante – foi a missa, e mais a menina, a uma capelinha à Bandeira, senão com todo o gosto... Mendonça, quando entrara o portão da quinta, vira Carlota através de uma vidraça. Carlota, pé ante pé, viera, a ocultas da mãe, avizinhar-se da sala, com o sentido de, caso o pai a não chamasse, entrar na sala onde Mendonça estava, como de passagem para outra, e fingir-se surpreendida do encontro. Foi o que ela fez ao tempo em que o negociante acabava de improvisar uma missa na capela da Bandeira. - Ai! - exclamou ela - estavam aqui!... - Acabava eu de pedir licença ao Sr. Meireles – disse Mendonça, sorrindo ironicamente - para oferecer a V. S.ª e a sua mãe o meu préstimo em Lisboa, para onde parto hoje às quatro horas da tarde. O arrozeiro, em pé, com os braços estendidos ao longo dos flancos abdominais, abria e fechava as mãos, como um idiota: não sabia fazer outra gesticulação mais parva, quando a sua inépcia fosse tal que se lhe fechassem todas as evasivas de uma posição falsa. - O Sr. Norberto - prosseguiu Francisco Salter, cedendo ao prazer de afrontar a mentira do vilão diante da própria filha - disse-me que V. S.ª e sua mãe estavam na Bandeira ouvindo missa, e eu... retirava-me... Carlota encarou o velho, e viu um trejeitar de olhos, que a obrigou a baixar os dela, por vergonha de si e de seu pai. Salter teve dó de ambos, e mudou de conversação. - Não sei que motivos imprevistos me chamam a Lisboa; talvez as ameaças de uma nova invasão espanhola, ou bem pode ser que se tema um definitivo assalto da França... - Pois virão cá esses hereges de Napoleão?! - exclamou o negociante já transfigurado pelo susto dos franceses, mal incomparavelmente maior, que destruiu o vexame em que o deixou a aparição da filha. - Pode ser que venham, Sr. Norberto, responder ao desafio que lhes mandamos pelos nossos soldados do Rossilhão, quando a França liquidava as suas contas com a Espanha. Norberto não o entendeu; mas redarguiu: - Se eles cá vêm, é contar que não deixam nada; diz que metem a saque tudo quanto topam, pois não metem? - É possível; mas V. S.ª previna-se, escondendo o seu precioso aqui no Candal, por exemplo, onde decerto os franceses não virão. Aí está o inconveniente de ser rico. Já o Sr. Norberto está a sofrer com o medo de que o obriguem a uma contribuição... - Se lhe parece... o caso não é para menos: quem não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou muito, quer paz e sossego. - Não se aterre antes de tempo, Sr. Norberto - replicou Mendonça, sorrindo a Carlota; - quando os Franceses invadissem Portugal, eu ajudaria a V. S.ª a defender o que é seu, não só como esposo de sua filha, mas também como seu amigo. - Isso lá... - regougou o merceeiro - muito obrigado, não me despeço do favor: mas o Senhor é militar, e quando isso for não lhe há-de faltar por lá que fazer, na guerra do mar. - Assim aconteceria - tornou Mendonça, enterrando lentamente o estilete observador -, se eu não tencionasse pedir a minha baixa do serviço, para evitar que as revoluções perturbem a felicidade de minha mulher e a minha. - Então que modo de vida queria o Senhor ter, se casasse com a minha Carlota? - Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por exemplo. - E que é dos fundos? - Fundos? - Sim, o casco do negócio? - O casco!... A que chama V. S.ª casco? - Casco é o cabedal para começar. - Meu sogro dar-me-ia... - Dinheiro?! meu amiguinho, está quase todo empregado em torrões; e eu, enquanto vivo, não dou nada. - Mais uma razão - replicou Mendonça, condoído do vexame de Carlota, e seguro, mais que seguro, do vilão carácter do arrozeiro -, mais uma razão para V. S.ª não recear a invasão dos Franceses... Agora tem lugar prosseguiu ele, mudando de irónico para circunspecto e grave - uma observação que me esqueceu há dias, quando tive a ventura de pedir-lhe a Sr.ª D. Carlota. Eu, Sr. Norberto, pedi sua filha, simplesmente sua filha; não pedi dinheiro, nem pedirei jamais. Eu conto com recursos próprios para que ela não sinta falta de comodidades que deixou em casa de seus pais. O meu património é a patente que tenho e as bem fundadas esperanças de me aumentar nesta carreira. Não me julgue V. S.ª atido ao dote de sua filha, nem cuide que me afligi com a ameaça de nada lhe dar enquanto vivo. Pode o Sr. Norberto gastar, ou aumentar o que tem, que sua filha não esperará a morte do pai para poder comprar mais um vestido. Faça, portanto, justiça às minhas intenções, e conceda-me que eu dê liberdade a algumas ideias que me estão inquietando e magoando. V. S.ª não procedeu lealmente comigo, quando me deu, sem reparo, sua filha. Rogo à Sr.ª D. Carlota me consinta este desabafo, porque a clareza, neste momento, é necessária a todos nós, e o amor e o decoro costumam, nas almas nobres, sofrer juntos, quando um deles é ofendido... e agora são ambos. - Eu não entendo o que V. S.ª aí está a dizer - atalhou Norberto conscienciosamente. - Ó Sr. Mendonça... - acudiu Carlota; mas o pejo embargou-lhe a voz. - Eu queria dizer ao Sr. Norberto de Meireles - tornou Mendonça - que fez V. S.ª mal em dar uma palavra de que se quer desquitar por meios menos honestos, e à custa talvez da minha liberdade. A ida de seu cunhado à capital, e a ordem de eu ir, sem perda de tempo, a Lisboa, escondem uma trama que eu espero desenredar em oito dias. Se o Sr. Norberto e seu cunhado julgaram que uma intriga basta para aniquilar um amor de dois anos, uma união de toda a vida já abençoada por Deus, que vê a pureza das minhas ambições, enganaram-se! Retardar não é destruir. Eu confio tanto no generoso coração da Sr.ª D. Carlota como em mim próprio; e só o muito amor me podia dar a mim esta franqueza com que falo, e a ela a indulgência com que me ouve acusar o proceder injusto de seu pai. - O Senhor está a insultar-me! - exclamou Norberto - e demais a mais em minha casa! - Eu não insulto, Senhor, queixo-me de ter sido ultrajado, e reconheço, nesse desabrimento, que é certíssima a perfídia com que fui enganado. Retiro-me, para que V. S.ª não me ofenda terceira vez, dizendo-me que o insulto. - Pois o melhor é isso - redarguiu Norberto. O Senhor pensava que me levava à valentona? Eu também tenho amigos, e sei o que hei-de fazer!... - Que há-de fazér o pai? - disse Carlota com altivez. - O pai não pode fazer nada. - Que dizes tu, Carlota?! - trovejou Norberto. - Digo que não há forças humanas que me privem de casar com este Senhor. O pai governa no seu dinheiro, e nós nada lhe pedimos. O Sr. Mendonça, se quisesse ser menos generoso com meu pai, estaria já casado comigo, porque eu o autorizei a tirar-me de casa por justiça. Norberto, como todas as índoles abjectas, caíra no miserável da sua atonia, sob a fulminante coragem de Carlota. Francisco Salter aproximou-se dela, tomou-lhe a mão, como se estivessem sós, e murmurou: - A virtude, que Carlota chamou generosidade, continua. Vou a Lisboa, porque sou militar, e transgrido a honra e dever não me apresentando. Mendonça despediu-se de Carlota Ângela, que chorava, e de Norberto de Meireles, que limpava com o canhão da japona de cotim o suor da brunida testa. D. Rosália faltara a este conflito, porque, atarefada na cozinha com a liquidação dos legumes vendidos na manhã daquele dia, não dera fé de entrar Mendonça. Carlota Ângela, apenas sozinha com seu pai, voltou-lhe as costas, e saiu da sala. Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembaraço da filha, que parecia temê-la. Procurou a mulher, e contou-lhe, como ele podia, o sucedido. D. Rosália benzeu-se três vezes, e três vezes levou os braços em arco à altura da cabeça, acção favorita da grossa matrona, quando queria exprimir o supremo espanto. Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos ao mesmo tempo: - Filha ingrata! nós te amaldiçoamos! - Para sempre! - disse a solo o Sr. Norberto. - Para sempre! - repetiu D. Rosália. - Amaldiçoada! - bradaram em dueto. - E porque me amaldiçoam? - disse Carlota. Que crimes são os meus? - Ainda perguntas?! - respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas, nariz, e tudo o mais susceptível de opilação na sua elástica fisionomia. - Pois não tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que eu não podia fazer nada? - Disse, sim, Senhor; disse, porque há só um meio de me proibir o casamento com a pessoa a quem o pai me deu: é matarem-me. - Isso diz-se a teu pai, rapariga? - bradou a mãe. - A verdade diz-se aos pais; mentir-lhes é que é crime. Para que hei-de eu dizer que faço a vontade a meu pai, se não sou capaz de cumprir a minha palavra? Logo que Mendonça voltar de Lisboa, se ele me não procurar, procuro-o eu. Se ele me quisesse com a mira no dote, faria todas as diligências por que me dotassem, ou morreria de paixão por me não dotarem; felizmente, o homem que Deus me destina é a mim que me ama, e não ao dinheiro de meus pais; para ser sua mulher basta-me o coração; pois bem, fique o dinheiro a meu pai, e seja o coração para o homem que não exige de mim outros tesouros. Norberto olhava Rosália, Rosália olhava Norberto, grotescamente pasmados. Estranha era para eles a linguagem, o entusiasmo, a altiveza, as atitudes de Carlota. Queriam contraditá-la com os argumentos triviais de um casamento rico; mas a migalha de bom senso, que tinham ambos, bastava a convencê-los da inutilidade de semelhantes razões. Queriam levá-la pelo terror; mas com tanto mimo a tinham deixado emancipar-se desde criança, que não sabiam agora com que gestos, com que palavras, exprimir o agastamento, a admoestação irada, a soberania paternal. O coração de Rosália era bom, e seria ela a protectora do casamento se a não tolhessem os prejuízos de classe. A mulher de Norberto cuidava, em boa consciência, que sua filha não podia ser feliz, casando sem o precedente de escrituras de doação, sem a concorrência de doadores bem ricos e bem estúpidos por parte do noivo. Por mais que ela quisesse descobrir no oficial de marinha os encantos que seduziram sua filha, a tapada criatura o que encontrava era motivo para pasmar cada vez mais. - Um engarilho de bigode como um chibo... – dizia ela a Carlota, depois que Norberto se retirara com medo de ceder à indignação, que o enfurecia - um pechisbeque que não tem terra, nem leira, nem ramo de figueira, ó rapariga, que feitiço te fez aquele patavina? Há por aí tanto rapaz bem azado, com negócio estabelecido, e créditos... se querias casar, porque o não tinhas dito, que já se tinha escolhido a flor dos rapazes do Porto? Está aí o filho do António José da Silva, e do Joaquim José Guimarães, que por entre os dentes deram a entender a teu pai que te queriam, e ainda estão solteiros, não tens mais que falar... Ó mulher! isso foi enguirimanço do Demónio! Porque não casas tu com um dos outros? - Perde o tempo, minha mãe - disse Carlota com firmeza. - Esses homens aborreço-os; o mundo tem para mim um só homem; não vejo, nem quero ver outro: É Francisco de Mendonça, porque sou dele, considero-me já sua mulher e... - Tu que dizes, Carlota!? - bradou apavorada D. Rosália. - Es já mulher dele? Pois tu... Credo! Tu estás aí a dizer blasfémias... Ó desgraçada, pois tu... - Eu quê! o que está aí a mãe a fazer uns espantos que não sei a que vêm? Se me julgou culpada de alguma acção indigna de mim, é mais uma injustiça que faz ao homem que amo. Tenha a segurança de que Mendonça não me humilha; pelo contrário, eleva-me, ama-me bastante, e é bastante virtuoso para não querer que a minha consciência me acuse de alguma fraqueza. Oh! ninguém sabe compreender, como quem ama, uma nobre alma! Tenho eu, e ele também a infelicidade de sermos avaliados por pessoas que adoram o dinheiro sobre todas as coisas, e crêem que,fora do dinheiro não há virtudes nem contentamentos. Ó minha mãe, foi uma desgraça darem-me uma educação diferente da que receberam meus pais. Eu vejo as coisas e as pessoas de um modo diverso. Olho para a riqueza como para um obstáculo à minha ventura, e não posso deixar de aborrecê-la... Bem vejo que minha mãe se admira desta linguagem, creia que não é falta de respeito, nem confiança nas minhas fracas forças; é ânimo que me dá um amor puro, e digno de mim; é uma força de que eu preciso para convencer meus pais de que privar-me de casar com Mendonça é o mesmo que matar-me! Minha mãe não quer que eu morra, e há-de proteger-me, há-de amolecer o duro coração de meu pai, há-de lembrar-lhe que o consentimento dado não pode ser negado sem desonra para ele, e grandes torturas para mim. Seja por mim, minha querida mãe, seja boa como tem sido sempre. Tenha dó da sua filha única, da filha que nunca lhe desobedeceu, e, se hoje desobedece, deve ser muito dolorosa a violência que lhe querem fazer... Carlota Ângela soluçava no seio de D. Rosália, cujos vasos lacrimais se romperam copiosamente. Eram de bom agouro as lágrimas da enternecida mãe. As dificuldades, que ela opunha, eram vencidas por novas súplicas de Carlota. D. Rosália acabara por prometer, com o seu silêncio, vencer a resistência do marido. Norberto saíra entretanto para o Porto, e fora ao paço do bispo prevenir a magistratura eclesiástica contra as diligências de Francisco Salter de Mendonça. Alguém o aconselhou que fizesse entrar sua filha num convento, para obviar ao rapto, visto que, dado o passo da fuga, o mais airoso e honesto era remediar a desonra irreparável sem o casamento. D. Rosália Sampaio tinha uma irmã freira beneditina, no Porto, senhora muito reformada, muito rezadeira, e havida em conta de predestinada, lá dentro, e de religiosa ilustrada entre as pessoas das suas relações. Carlota Ângela visitava-a miúdas vezes, e entretinha- se longas horas na grade, e até alguns dias dentro do mosteiro, onde sua tia lhe ensinava devoções mirificamente salutares, com as quais Carlota saía convencida de que, fazendo-as um mês, ganharia indulgências bastantes para remir das penas do Purgatório toda a Cristandade. A madre Rufina, sem desagradar ao seu director espiritual, frade carmelita de poucas letras e muitas virtudes, era uma tolerante senhora, a quem Carlota confessara a sua inclinação ao oficial de marinha, resultando-lhe daí ter de rezar, por conselho da tia, mais algumas devoções para que a Virgem lhe inspirasse o melhor destino neste mundo. Carlota dizia-lhe que o seu apaixonado era pobre. Madre Rufina replicava que pobre era quem não tinha a graça de Deus. Carlota redarguiu que talvez os pais não a dessem a um rapaz sem dote. A beneditina apelava para a vontade do Altíssimo, que fazia tudo pelo melhor. Ora, Carlota Ângela, melhor ou pior avisada, entendia que Deus, na máxima parte dos actos humanos, e nomeadamente nos casamentos, não punha nem dispunha. Isto será menos ortodoxo; mas é necessário impor à responsabilidade do homem, ou do Diabo, coisas que por aí há que não parecem de Deus. Norberto de Meireles foi do paço do bispo ao Convento de S. Bento da Ave-Maria, e fez chamar sua cunhada. Contou a desordem em que se achava sua casa, foi eloquente no seu género, desafogou a ira abafada em presença da filha, e terminou dizendo que, o mais tardar no dia seguinte, Carlota havia de entrar no convento, onde estaria até se lhe varrer a mania de casar com o tal Pedro Malas-Artes. A madre Rufina respondeu que na casa do Senhor não se recebia ninguém introduzido à força; que sua sobrinha não estava no caso de aceitar com prazer o recolher-se a um convento, quando o seu coração propendia e ligava a outros amores. E concluiu, aconselhando a seu cunhado prudência e caridade com as inclinações de Carlota, que, se não eram convenientes aos olhos do mundo, também não eram pecadoras aos olhos de Deus. E, em resposta às impertinentes réplicas de Norberto de Meireles, a digna esposa do Senhor prometeu chamar sua sobrinha, relatar-lhe as mágoas de seu pai, tentar demovê-la do seu propósito, e pedir muito, primeiro, a Maria Santíssima que tocasse o coração de Carlota com a resolução mais conducente ao caminho da virtude neste mundo, que é o da salvação no outro. Norberto saiu pouco contrito, e notou que sua cunhada gozava uma reputação usurpada. O homem achava aqueles princípios irreconciliáveis com a santidade de que D. Rosália fazia o panegírico, todos os dias. Não obstante, a irritação moderou-se-lhe, na esperança de que, em último refúgio, seu cunhado doutor faria em Lisboa, com o dinheiro, o que a violência não conseguisse cá. A freira pediu ao capelão do mosteiro que lhe acompanhasse sua sobrinha; e teve com ela o seguinte diálogo, quase textual dos apontamentos de Carlota Ângela, que devemos à confidência de uma sua amiga, de quem logo falaremos: - Teu pai, menina, esteve aqui ontem, e fez-me pena. Pediu-me que te despersuadisse do amor a... - Pediu-lhe um impossível, minha tia – interrompeu Carlota. - Nada é impossível a Deus, minha sobrinha. - Deus escuta-se na consciência, e a consciência não me condena o coração. - Mas que te diz ela sobre os deveres de uma filha? - Diz que tenho satisfeito a todos aqueles em que correspondo aos deveres de pai. - Não sejas tão absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediência é um crime. - E o suicídio, minha tia? - O suicídio é o maior dos crimes, porque é o desprezo do divino remédio nas dores passageiras desta vida. - Pois creia que obedecer é morrer; se obedeço, se retiro o meu amor... retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu não posso retirar o meu amor a Francisco; o mais que posso é mentir; mas essa mentira custa-me a morte... é o suicídio, e mais ainda... é um assassínio, porque eu mato o homem que me é tudo nesta vida... Carlota rompeu num alto soluçar de lágrimas, que fez chorar a religiosa. - É escusado - disse esta, após um longo intervalo de silêncio, cortado de suspiros -, é escusado combater a tua paixão. Eu pedi tanto ao Senhor, em comunidade, com algumas santinhas desta casa, que te mudasse a tenção, que agora não posso duvidar que o Céu abençoa a tua união com esse mancebo. Já não te repreendo, nem dissuado, minha sobrinha. Faremos com tua mãe o que não pudermos fazer com o espírito teimoso de teu pai. Enternece-a com as tuas lágrimas, menina; esperta-lhe a compaixão de que está cheio um coração maternal. - Já o consegui; minha mãe chorou comigo, e prometeu alcançar de meu pai o consentimento, que ele já tinha dado. - Já tinha dado?! A quem? - A Francisco Salter, quando me foi pedir. - E depois? desdisse-se! - Quando consentiu, foi para dar tempo a meu tio de nos urdir uma traição. Francisco partiu ontem para Lisboa, chamado a toda a pressa. O plano é talvez demorá-lo lá; mas de que serve a má-fé de meu pai, e as astúcias de meu tio? Cá está o meu coração para vencer tudo. Cedo ou tarde, Francisco voltará, e depois... e depois, se tanto for necessário, fujo de casa. - Santo Nome de Jesus! não digas tal desatino, que ofendes a Deus. O teu amor, se tal fizesses, deixaria de ser um sentimento honesto, minha sobrinha. Há nódoas que nunca se lavam, e intenções boas que deixam sempre uma face má voltada para os juízos severos do mundo. Já agora, filha, esgota todo o teu cálix de fel, para que se não diga que achaste doçura no crime. Eu entrei de vinte e dois anos nesta casa, estou cá há vinte e seis, e ainda me recordo do que era o mundo lá de fora, e já que lá não aprendi ensinaram-me cá pessoas que entraram para aqui sangrando ainda das chagas que receberam lá. Carlota, eu hoje não te falo a linguagem que me ouviste até aos catorze anos. Conheço o teu coração, e acompanhei-lhe o desenvolvimento mais de perto que teus pais. Tua mãe não te podia entender, porque tua mãe saiu aos quinze anos da companhia de um tio abade para casar com um homem capaz de lhe abafar a inteligência, se ela a tivesse. Teu pai é um honrado comerciante, tem sabido aumentar os seus haveres com a mira de te deixar muito rica, e não entende nada de coração. Já vês, minha querida sobrinha, que teus pais ignoram a sua culpa, e não fazem mais do que julgam ser o melhor para a tua felicidade. Não os desgostes enquanto for compatível a obediência com os afectos invencíveis da tua alma. Teu pai quer que te recolhas a este convento. Se vieres, se quiseres vir para a minha companhia, não preciso dizer-te que as tuas acções hão-de ser aferidas pelos deveres de uma menina recolhida nesta casa. Daqui diligenciaremos o teu casamento com esse sujeito; mas as nossas diligências hão-de cooperar todas sobre o ânimo de teu pai, até obtermos o consentimento, esquecendo-nos de que ele procedeu mal, negando o que uma vez tinha concedido. Agora, pensa, Carlota. - Tenho pensado. - Queres, ou não queres entrar no convento? - Quero sim, minha tia; hoje mesmo, se é possível. - E, que eu tenho ainda licença para tu poderes entrar; mas épreciso que teu pai o saiba. Carlota Ângela desceu aceleradamente as escadas que conduziam da grade para a portaria. Ia banhada de lágrimas. Ao abrir-se a porta, com o seu tristonho ranger nos gonzos, Carlota estremeceu, e apoiou a face, como esvaída, no cunhal do muro. - Vem, menina, - disse do interior a madre Rufina. Carlota Ângela pôs o pé no limiar, e exclamou, estendendo os braços para a madre- porteira: - Disse-me agora o coração que era para sempre!... Que é isto que eu sinto, meu Deus! - Se é Deus que to faz sentir, minha sobrinha, louvemo-Lo todas pelo belo presságio que te inspirou. A porta fechou-se. Carlota, rodeada de freiras, e nos braços de todas, soltou um ai que parecia um grito desentranhado do coração. Capítulo VI Qui amans egens ingressus est princeps in amoris vias, Superavit aerumnis is suis aerumnas Herculis. Plauto, Persa. O demónio da ambição... A. Herculano, Monge de Cister. Francisco Salter de Mendonça, logo que chegou a Lisboa, procurou o ministro da Marinha, e encontrou-o, contra as suas presunções, bem-encarado e afável. D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto político, sabia conhecer os parvos pavores do intendente-geral da Polícia, e amava bastante a pasta para contrariar as sugestões do príncipe regente, que tremia dos pedreiros-livres, quando não tremia das conspirações da filha de Carlos IV. Ainda assim, o ministro, protector afeiçoado de Salter de Mendonça, e particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Meios e Ficalhos, houve-se astutamente na recepção do oficial de marinha, mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capitão-tenente, e dando-lhe os emboras da escolha acertada que o príncipe regente fizera dos seus talentos e energia,para, com mais dois oficiais, o enviar ao Brasil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenções da guerra demandavam. Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de Mendonça. A intriga era incompatível com a mercê do posto, e a honraria do encargo. A reflexão, porém, sobreveio ao juízo da primeira impressão, e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu de novo que o bacharel promovera o seu desterro, simulado com a máscara do favor. A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Ângela revalidou a desconfiança. Mendonça apresentou-se ao ministro, e pediu licença para tornar ao Porto, onde o chamavam compromissos do coração em que a sua palavra de honra se achava empenhada. D. Rodrigo objectou com a necessidade urgente da partida no prazo fixo de quatro dias; discorreu profusamente acerca da primazia dos deveres de português em confronto com os particulares do coração; e encareceu o azedume com que Sua Alteza, o príncipe regente, veria posporem-se negócios do Estado às alianças amorosas de um súbdito que lhe merecera tão relevante prova de real confiança. Instava, por outra parte, o frade beneditino, e a parentela ilustre do frade, vaticinando ao capitão-tenente um almirantado em poucos anos de serviço. Para estes profetas de glórias ensurdecera Mendonça. O coração acusava-o de ingrato e vil, se a cabeça se deixava instantaneamente desvairar com as vanglórias da fama. A imagem chorosa de Carlota Ângela aparecia-lhe como um estímulo de honra, se o fraco espírito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da consideração, do renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrela. Mendonça, quando as felicitações de amigos e invejosos pareciam já galardoá-lo das bizarrias previstas, meditava rejeitar não só o novo posto e a comissão mais valiosa que ele, mas também a patente que já tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a saída aceleravam-se com extraordinária diligência. O capitão da real brigada deliberou pedir a sua baixa, ou, caso lha negassem dar parte de doente. Neste propósito estava, quando recebeu uma carta de Carlota Ângela, datada no Convento de S. Bento da Ave-Maria. Carlota contava-lhe miudamente os sucessos que a levaram ao convento; o patrocínio que encontrara em suatia, as esperanças que esta lhe dava de docilizar a pertinácia do pai; o contentamento que ela sentia em esperar no remanso daquele santo asilo o esposo querido; a liberdade que estava gozando ali de pensar no seu anjo, ali, onde ninguém tentava desvanecer-lho do coração; em resumo, Carlota dizia-lhe que estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que só sairia do mosteiro para ser esposa do predilecto da sua alma. Não ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa unção, os enternecidos delíquios da saudade, os azedumes e dulcidão desse agro-doce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o bálsamo da esperança alivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que devia ser uma carta de Carlota Ângela: a alma inteira, no que a alma numa virgem tem de comunicativo ao coração estranho, se estranho pode dizer-se o coração amigo que se sente e escuta dentro do nosso. Francisco Salter era formado deste barro humano, contra o qual se tem vociferado e estampado muita sátira. A mais suave maledicência, querendo poupar a natureza humana às querelas e libelos da filosofia rixosa, diz que o homem é um mistério. A teologia cristã, para desencarregar o supremo artífice do desaire da sua obra, diz que o homem é um ente degenerado da sua primitiva puridade. Em boa paz com teólogos e filósofos, a mim se me afigura que o homem é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pigmeu. Mendonça tinha uma única mácula na sua excelente natureza: era a imperfeição, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de animo frio e vista clara, vai ver comigo. A carta de Carlota Ângela tranquilizou-o; não disse tudo - alegrou-o, deu-lhe um ar radioso de confiança e certeza na dedicação, que momentos antes lhe incutia o receio da mudança. O homem é assim. Parece que o amor sem a desconfiança, a esperança sem a dúvida, lhe dá um sossego de espírito que não quadra à sua natureza irrequieta. O pungir de constante espinho é-lhe um necessário estímulo de vida. Se ele sai do coração, é forçoso que fira o órgão de outras paixões. Se o amor prevalece à ambição de glória ou de riquezas, satisfaça-se o amor, e a outra paixão resultará com toda a impetuosidade do arco retesado... Não se tirem já contra Francisco Salter conclusões que o vago daquelas premissas não autoriza. A carta não baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a ânsia da incerteza, afrontamento das conjecturas que ele formava acerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da arrojada ameaça do Candal. Se a levariam fora do Reino; Se a casariam violentamente com outro; Se a encerrariam num convento, incomunicável; Se a despersuadiriam com razões das que vencem o vulgar das mulheres, quando o amante as não anima com a sua presença; Se Carlota seria uma mulher vulgar, susceptível de sucumbir às contrariedades. Tudo isto eram hipóteses atormentadoras; mas a carta respondia a todas. Carlota estava a salvo da perseguição, sozinha com o seu amor, que ninguém lhe impugnava, nutrindo-o com saudades na solidão do claustro. Este convencimento aplacou a vertigem de Mendonça. A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessária. O espaçar-se o casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessário aos seus deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o príncipe regente o honorificava. E, depois, dizia nele o ente pensante: «Não será bem decoroso para mim voltar do Brasil com uma posição tão acrescida em honras, que ninguém possa notar desigualdade entre mim e a filha do opulento comerciante? «Como homem brioso, não deverei eu querer que a própria Carlota me considere um homem disputado por herdeiras iguais, ou ainda superiores a ela? «Os pais de Carlota, quando eu voltar habilitado para entrar no valimento dos mais poderosos, e igualar-me a eles, não terão pejo, vendo-me entrar em sua casa a castigá-los com pedir-lhes, segunda vez, a filha, sem dote?» Assim falava o orgulho do espírito; o coração, porém, patrocinando o anjo puro, a quem semelhantes conjecturas injuriavam, tinha arrebatamentos de tão sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura à consciência incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu vitorioso, e o projecto de pedir a baixa readquiriu novos estímulos. E os sonhos de glória? E os respeitos do mundo, que não eram, como hoje, restritos ao dinheiro? E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava tão sem nuvens? E uma longa vida a viver só das comoções de um amor satisfeito? E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro, ou se não pode, sem desdouro, proferir o nome do pai, que enverga, não a farda do general, mas o hábito dos monges negros? Replicava assim o orgulho reagente; e o amor suplicante exorava de novo; a imagem melancólica de Carlota Ângela espelhava-se no coração do moço; ressurgia ovante em toda a sua nobreza e isenção a amorosa alma, e a tenção de não partir reacendia-se mais cálida e inabalável. Assim, pois, chegou Mendonça a submeter o seu requerimento ao despacho do ministro. Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se não julgasse o capitão da real brigada de marinha comprometido na Maçonaria, onde se pactuara que a desobediência implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de José Anastácio de Figueiredo, em Mafra, à sombra das telhas reais. O ministro chamou o requerente a uma audiência secreta, e disse-lhe que não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens régias; que seria mal visto de Sua Alteza o súbdito que tão mal correspondesse ao régio conceito; que seria degenerado português o que, no solene momento de pôr peito em defesa da pátria e à remuneração de patrióticos feitos, se furtasse aos trabalhos e às glórias; que seria irrisório não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um incidente de terceira ordem na vida de um homem inteligente, e fadado para estrondosos destinos; que, finalmente, o valimento se converteria em castigo, se ele, requerente, persistisse na disparatada baixa, cuja concessão lhe granjearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas perigosas de muitos, e, mais que tudo, a malquerença de Sua Alteza, que tencionava nomeá-lo major da Armada, logo que servisse três meses no Brasil. O remate da alocução era a douradura da pílula. Major da Armada! a aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realizavam na velhice! Voltar, depois de alguns meses, a Portugal, major da Armada, condecorado, enobrecido, chamado aos conselhos do Soberano, e talvez ao ministério! Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois anos, amada para sempre, votada aos sacrifícios, aos desprezos, às injúrias, a tudo, para lhe merecer a ele a renúncia de glórias que retardavam um enlace tão suspirado! Mendonça, na véspera da saída para o Rio de Janeiro, escreveu esta carta: «Vê, minha Carlota, que eu choro. A aflição não me deixa outro desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de léguas. Eu parto amanhã para o Brasil, obrigado pela minha condição de servo agaloado. Deram-me o comando de um navio, e mandam-me cumprir serviços de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha glória única não fosses tu, esposa da minha alma. Quis dar a minha baixa, requeri, instei, negaram-ma, e impuseram-me as leis militares. Quis dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a corveta Amazona esperava-me quase aprestada para se fazer à vela. «Mas eu não parto, Carlota. Contigo fico, anjo. O meu coração aí fica, aí está pulsando no teu. As lágrimas de saudade que choras, choram-nas também os meus olhos. Entre nós, nesta longa distância que nos separa, prende-nos a mesma cadeia de dores, de aflições, de terríveis pressentimentos. Quando te doer no coração o presságio da minha morte, senti-lo-ei também eu lá, e chamarei por ti no silêncio da minha alma, neste grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os ligamentos da vida. «Porque choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela angústia; supliquemos a essa filha de Deus, senão remédio, ao menos conforto às nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje no dissessem: "a vossa união há-de realizar-se passados seis meses, ou ainda um ano", teríamos justo motivo para nos rebelarmos contra o destino, contra a Providência que nos aproximou tão dignos um do outro? «Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distâncias são impossíveis entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuário de fervente amor, a mesma acção de graças a Deus, que não quer o infortúnio dos que O confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lágrimas há-de a esperança enxugá-las. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos às risonhas imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar uma separação de alguns meses, quando nos separamos tão confiados como se acabássemos de receber a bênção no altar, como se, no derradeiro abraço, sentíssemos entre nossas faces o rosto de um filho. «Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu sinto agora! que delícias nos aguardam para o dia imorredouro da nossa felicidade! «Animo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem, para que o auxílio da razão não esmoreça. Animei-te; mas as lágrimas não me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora se me cerra em indizível tortura o coração. Largo a pena, desafogo em gemidos este aperto de alma, semelhante ao impossível de comparar-se. Não me venço. Já creio que te perdi. Acuso-me de ingrato porque não deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo, para mendigar contigo uma esmola em país estrangeiro. Eu sou vil, sou indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-ta-ei de joelhos, para que tu me perdoes tamanho crime. «Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida! Impossível, Carlota, impossível deixar de seguir o meu destino! Agora mesmo sou chamado à secretaria para receber as últimas ordens. Este cálix irremediável há-de ser tragado, ou a desonra, a perseguição, e o perder-te... Que horrível palavra! «Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um crucifixo. Eu não o tenho aqui, mas invoco o testemunho de Deus, porque o meu coração, quando tu proferires estas palavras, há-de ouvir-tas, e recolhê-las. Jura que só sairás do claustro para ser minha esposa; e, se a morte me colher longe de ti, acabarás aí teus dias, e nenhum ente sobre a terra roubará à minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo, esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da bem-aventurança. «Juraste, Carlota? Agora crê que o meu espírito te pediria contas desse juramento, se a perfídia denegrisse a tua alma imaculada. «Pérfidal... tu!... Perdoa-me, anjo do Céu, pelas lágrimas que choro, pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas! «Adeus....» Capítulo VII Fiel é Deus, que não sofre termos mais peso do que aquele com que podem os nossos ombros. Dele se devem esperar os verdadeiros alívios, e nesta fé se acabam os quebrantos. Fr. António das Chagas, Canas. Carlota Ângela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz; foram, porém, daí levantá-la os braços de D. Rufina, que, acudindo ao soluçar dos gemidos, a encontrara esvaída. Depois que a lançou à cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma noviça que vinha entrando: - Quando assim se amam duas criaturas, a vontade de Deus está nesse amor: tudo que os homens fizerem contra ele é um sacrilégio, é um atentado contra os desígnios do Altíssimo. A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu também a carta, e foi sentar-se à cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da sua amiga. Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava com espasmo e assombro o rosto lagrimoso de Doroteia. - Chora, chora, Carlotinha - disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e acariciando-a com beijos. - Se eu pudesse chorar... - balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras de frio entre os braços de Doroteia. - E, se ele morresse, não sofrerias mais, menina?! Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela sufocação: - Se ele morresse... quem?... pois sabes... - Sei; li a carta, e tua tia também a leu, e chorou. Eu não acho razão bastante para sucumbires assim. - Eu não sucumbo... se sucumbisse estava morta... Ainda vivo; mas, Doroteia, eu creio que morro, e morro brevemente... - Arrepende-te, alma de pouca fé! - disse a tia, mostrando a sua nobre fronte de cabelos brancos, coberta com o majestoso véu negro, por entre os cortinados do leito. - Que falas aí em morrer, criança! Vida, muita vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que te ensina esta carta, mulher sem ânimo. Vamos lê-la de novo: sou eu que a leio, e veremos se ocoração de uma velha sabe melhor que a moça entender o coração de um mancebo. D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem elas a menor frase esperançosa. A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido indomável, que lhe fugia em agudíssimos ais, interromperam, muitas vezes, a leitora. Era então que as consoladoras anotações de Rufina, e o assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquência, capaz de maravilhar as freiras, que supuseram sempre estranha à linguagem das paixões a austera religiosa. Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensível resultado das suas consolações, apelou para o influxo sobre-humano da religião. - Venham cá ambas - disse ela -, vamos todas três pedir de joelhos ao Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco. - Sim, sim! - exclamou Carlota Ângela, saltando do leito, e seguindo-a com passos vacilantes. Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difícil estremar entre as três qual era delas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era a devoção- de todas. - Agora respiremos! - disse, terminada a reza, a freira. -. Hás-de vê-lo, hás-de ser sua esposa, minha Carlota. Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta a crença em agouros, em presságios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte: - Que foi, minha tia? Disse-lho Deus? - Deus, filha, não fala a criaturas tão pecadoras e indignas como tua tia; mas consente que se possa contar com os efeitos da Sua divina misericórdia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justiça, consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará, será teu marido, e tereis larga remuneração dos sofrimentos que oferecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos felizes deste mundo. Estas palavras soaram tocantes e solenes como o profetizar da que a comunidade reverenciava assistida de graça superior. Carlota sentia alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a fala. As lágrimas, represadas no coração, rebentaram em torrentes; e o sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a lividez cadavérica do rosto. Estava desoprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos incrédulos com suas devoções, e austeras impertinências; fora uma mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que tirara da cruz, onde expirara o amantíssimo redentor dos homens, remédio de vida, e esperança para a chaga de um coração de dezessete anos, ferido de desespero e morte. Assim, pois, na cela da rígida religiosa se desafogavam e consolavam afectos dos que, fora dali, no mundo tolerante e vicioso, são julgadas rebelião contra a vontade paternal, escândalo para filhas submissas, e pecadora cegueira do coração humano! Quão inventiva não é a caridade. Quão largas bracejam as vergônteas desse tronco evangélico, regado pelas lágrimas daquela a quem Jesus perdoara por ter amado muito! A desvelada noviça não deixava Carlota, um instante. Ela e Rufina revezavam-se ao pé da pensativa menina, que parecia querer fugir-lhes, já não para se carpir, mas para orar; que, na oração sentia Carlota outro espírito em si, o murmúrio de outros lábios suplicantes, a fervorosa crença de Mendonça inflamar-lhe a fé. A serenidade viera com a confiança no futuro: do sobressalto, da aflição, pouco e pouco sossegada, ficara a melancolia suave da paciência, essa que só Deus concede aos que à sua misericórdia recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram. D. Rosália visitava a filha miúdas vezes, o pai raras, e de breve demora, porque o silêncio de Carlota, que ele julgava desafeição, desanimava-o de a ver, e incomodava-o a sós com ela. Dizia a mãe, nos primeiros tempos, que não havia tirar-lhe o sim para o casamento; mas que ainda era cedo para descorçoar. Dois meses depois, mostrou-se mais dócil a pertinácia, e já ele dizia que, na volta de Mendonça, tudo se faria pelo melhor: é que o ajudante do intendente-geral da Polícia, por ocasião de lhe pedir mais seis mil cruzados, explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para criar novos embaraços ao regresso de Salter, logo que a comissão, a que fora, estivesse cumprida. Decorreram quatro meses. Os navios vindos do Rio, já com a nova chegada do Amazonas, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma visita da Polícia, e entregaram a correspondência. Entre as cartas havia uma de grande volume, subscritada a D. Carlota Ângela de Meireles, residente no Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria, no Porto. O bacharel Sampaio deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e lançou-as ao braseiro, aquecendo e esfregando as mãos à lavareda. O malvado queimara ali o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da mais dorida saudade que ainda apertou o coração de homem! O ímpio não se amiserara de tantos sinais de lágrimas em que a tinta se apagara! Que raptos de alegria, e suspiradas consolações aquela carta, que voejava no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão belas o perverso queimou com a chama daquele papel! Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com Doroteia, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio, esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga dor renascia em cada correio; redobrava a aflição a cada esperança frustrada. Conspiravam em consolá-la Rufina e a noviça, esta com razões mais carinhosas do que persuasivas, aquela confirmando o vaticínio da felicidade prometida. Os alívios da primeira eram sempre profícuos e desejados; os da segunda faziam-na prorromper em gemidos, que também eram desabafo. Decorreram três meses de aflitivas esperanças, sempre enganadoras para todas. Nem uma carta, nem duas linhas escritas no leito de morte! Carlota Ângela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe trazia o coração em agonias. Soror Rufina interrogava incessantemente à bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobressaltava a ela. Doroteia segredava à freira os seus receios, e esta pedia-lhe muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal desconfiança. Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo: a morte de Francisco Salter. Carlota receava que as suas amigas julgassem possível ter ele morrido; assentimento tal seria para ela uma espécie de evidência, porque tão pouco basta para certificar suspeitas entranhadas num espírito que a desgraça fez supersticioso. As outras calavam o pressentimento funesto, cuidando que a matariam. Neste conflito, correu no Porto a notícia da morte de Francisco Salter de Mendonça. Ninguém sabia dizer por onde a notícia viera; os amigos, porém, do honesto e talentoso oficial de marinha contavam-se que ele morrera no Rio de Janeiro, quando a glória o vinha buscar por uma carreira esperançosa de grandes destinos. A notícia chegou ao convento. Souberam-na todas, excepto Carlota Ângela. Rufina caiu doente, e Doroteia denunciava-se à infeliz menina, evitando-a, quando mais ansiosa de compaixão e carinho se sentia impelida para ela. As freiras olhavam a pobrezinha com mais piedade do que nunca; animavam-na como se quisessem ter parte em seu coração para a salvarem pela amizade, quando houvessem de revelar-lhe a mortal notícia. Carlota estranhava os melancólicos olhares, os beijos e carícias de todas, a condolência terna com que, as mais afastadas da sua convivência, a vinham espairecer no seu quarto. Norberto de Meireles procurara sua filha, nesses dias em que a notícia vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pai de Carlota. Esta preparava-se para ir à grade, quando a ansiada tia lhe disse: - Vou-te aconselhar a desobediência, minha sobrinha, e Deus me perdoe por sua imensa bondade. Não vás à grade. Eu tomo sobre mim a responsabilidade de mais um pecado. E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha não podia falar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguém iria em lugar dela. - E porque é isso, minha tia?! - perguntou a sobrinha, admirada. - Porque sim, minha filha. Receio que ele te venha falar... - continuou balbuciante - em cousas desagradáveis. E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota, vestiu-se, e foi à grade encostada a Doroteia. - Então a pequena que tem? - perguntou Norberto. - Está doente. - Já lhe chegou a notícia! Que tenha paciência. Deus tudo faz pelo melhor... - Também digo o mesmo - atalhou Rufina. - E o mano agora que lhe quer? Consolá-la? - Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do homem que morreu. - Isso há-de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes. - Isso lá é bom prà mana; eu cá digo as cousas como sei. - Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo se lhe dirá com prudência e caridade. - Pois ela ainda não sabe que morreu o homem? - Não, mano; se a notícia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não acho necessário dar-se-lhe uma nova que a pode matar. - Qual matar, nem meio matar! - replicou o brutal arrozeiro, trejeitando com os beiços carnudos um gesto de incredulidade. - Pobre de quem morre, diz o ditado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas namoradas, são como as viúvas: choramingam oito dias, e ficam frescas como se não fosse nada com elas. - Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e mãe, se assim é. Estou bem convencida que ela fará um diverso juízo do sofrimento de Carlota. Enfim, mano, eu ergui-me da cama para vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire, pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a notícia à desgraçada Carlota. O mais dificultoso é curar depois a ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santíssima que não será. - Pois então adeus - tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do capote de quartos. - Arranje cá isso do melhor modo, e diga-lhe que venha cá para fora, a ver se ela se tenta com algum de três noivos, a qual melhor, que eu trago na mira. Se a quisesse casar com um morgado de província, fidalgo, e senhor de casa com capela, já me falaram para isso; mas, a falar verdade, o que eu quero é homem de negócio, ou filho de negociante com dote à vista; não faço bem, cunhada? - O mano lá sabe o que lhe convém; mas nunca faça cálculos sem contar com a vontade de Carlota. Parece-me que lhe posso asseverar que ela não sairá mais deste convento. Perdeu um esposo; mas o esposo verdadeiro, o esposo das almas angustiadas está cá dentro; é Jesus Cristo, o único bem que há-de entrar no coração despedaçado de Carlota, e curá-lo com a esperança de encontrar na bem-aventurança o primeiro que perdeu. - Pois Carlota há-de ser freira?! - interrompeu com impetuosa grita Norberto, derrubando a gola do capote, que era de mais na cara afogueada pela ingrata nova. - O mano faz um espanto - redarguiu mansamente Rúfina - como se eu lhe dissesse que sua filha havia de praticar um crime!... - É que eu não quero!.. - redarguiu ele, batendo um troante murro na banqueta. - O mano não quer; mas a sua vontade agora vai encontrar outra vontade sem comparação mais poderosa: é a vontade omnipotente do Senhor, que move os mundos e os corações. Não me disse, há pouco, que Deus tudo fazia pelo melhor? Pois bem, pode ser que a Divina Vontade quisesse para as suas eternas núpcias a que havia de ser esposa de outro, que Deus chamou a si. - Veremos como isso há-de ser. Em todo o caso eu quero minha filha cá fora. Não a criei para freira, tenho muito que lhe deixar. - Tudo o que o mano tem pode varrê-lo um ligeiro sopro de desgraça. Modere a sua soberba, que não o castigue Deus, que abate os soberbos, e exalta os humildes. E, demais, a casa do Senhor não se abre só para as meninas pobres. Eu deixei um grande património quando aqui entrei, e vim achar uma riqueza incomparavelmente maior do que a que deixei: foi o esquecimento do mundo, e o amor sempre crescente de outro melhor. Ora, bem pode ser que sua filha se deixe namorar dos anjos, e rompa com os amores transitórios desta vida. Em suma, o que eu lhe digo, meu cunhado, é que minha sobrinha só pode ser salva pela religião; e eu, se Deus me achar digna, hei-de estender-lhe a mão ao abistno onde a lançaram, e encaminhá-la por onde eu vir que ela é menos infeliz. Não posso mais, estou fatigada e angustiada, adeus. Norberto de Meireles enfiou de novo a cara oleosa na pelúcia da gola, sobraçou a enorme bengala encastoada de prata, e saiu do átrio do mosteiro com as ventas fumegantes. Capítulo VIII Didone ... No mai die fiamma impura Feci Pare fumar per vostro scherno; Dunque perché congiura Tutto il ciel contra me, tutto l'infemo? Osmida Ah! pensa a te non irritar gli Dei... Didone Che Dei? Son nomi vani Son chimere sognatte, ó ingiusti son. Metastasio, Didone. Norberto de Meireles comunicou, imediatamente, ao cunhado o acontecido com a religiosa beneditina, pedindo-lhe conselho para evitar que a filha se fizesse freira. O bacharel Sampaio chamou a capítulo os seus vastos expedientes de perfídia, e conglobou-os num, do qual ousou afiançar ao cunhado um êxito feliz. Chamou pessoa idónea para executá-lo, e de Lisboa veio ao Porto um indivíduo encarregado da seguinte missão: Entrou, um dia, no pátio do mosteiro de S. Bento esse homem, e perguntou na portaria, se lhe seria possível fazer chegar às mãos da Sr.ª D. Carlota Ângela um bilhetinho de sua mãe. A porteira respondeu afirmativamente, como era de esperar, recebeu o bilhete, e entregou-o a Carlota, que saía do coro, onde costumava passar as manhãs em oração. Era este o conteúdo do bilhete: Uma pessoa quer falar à Sr.ª D. Carlota acerca de Francisco Salter de Mendonça; mas deseja estar só com ela em uma grade. A pessoa espera resposta. Carlota, alvoroçada, correu ao locutório, e exclamou: - Estou aqui. O enviado do bacharel aproximou-se, e disse: - Sou eu que a procuro, minha Senhora; mas na esperança de ser demorada a nossa prática, pedia o favor de me falar numa grade, porque este lugar é impróprio para se tratarem coisas de tamanho segredo. Carlota olhou em redor de si, viu uma criada com uma chave, e disse com precipitação: - Empresta-me a grade por um bocadinho? empresta, por quem é? - Sim, minha Senhora - disse a criada. Carlota indicou ao homem de Lisboa a grade, e correu a encontrá-lo. Não tinha ainda ele terminado as formalidades da cortesia, disse Carlota impaciente: - Ele já veio? Está em Lisboa? Estas perguntas eram feitas a tremer. Carlota, não podendo com a aflitiva dúvida da resposta, apressou-se a interrogá-lo assim, cuidando que a certeza com que perguntava por Mendonça vivo a desoprimia da suspeita de que ele era morto. O homem não estava preparado para perguntas tão expeditas. Ficou perplexo, e esta indecisão deu azo a novas perguntas: - Traz-me cartas dele? Dê-mas... - Não trago cartas, minha Senhora. - Não?! - atalhou ela com veemência e sobressalto. - Não, Sr.ª D. Carlota. Francisco Salter não lhe escreveria, ainda que pudesse... - Como?! não entendo!... Não escreveria... porquê? - Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno, permita-me dizer-lho, de ser melhor aplicado. - Isso é uma calúnia! isso é mentira! – exclamou Carlota, sem pesar a gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada acrimónia. - Eu desculpo-a das injúrias que me dirige, porque avalio a surpresa dolorosa que lhe fazem tão horríveis novas. Queira escutar-me. Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro anos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado às variantes do coração logo que as tempestades de outras paixões se levantam, sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no começo de uma bela carreira, com espíritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da pessoa, que ele amava, deixassem de influenciá-lo. Chegou a Lisboa, onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber uma honrosa comissão para o Brasil, com aumento na sua carreira, e promessas seguras de grandes vantagens. Francisco Salter de Mendonça rejeitaria a glória, se o amor fosse de mais rija têmpera; renunciaria um almirantado, se o coração de Carlota Ângela saciasse nele a louvável ambição de se fazer grande por merecimento próprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brasil, como a menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito lamuriante, muito esperançosa; mas... partiu. No Brasil, foi recebido como era de esperar. Encontrei-o na melhor sociedade, posto que a melhor sociedade de lá só se faça valiosa pelo dinheiro. As ricas herdeiras olhavam-no como um rapaz distinto, capitão da real brigada, bem-falante, gentil, bravo, soberbo de si, e colocaram-no na posição de escolher. Vejo que V. S. está ansiada. Se a continuação da minha visita a molesta, peço licença, e retiro-me. - Não... não... queira dizer - balbuciou Carlota, tirando com violência a respiração do seio convulsivo. - Os fumos da vaidade e os da ambição – prosseguiu o porta-voz do bacharel - enevoaram aos olhos de Mendonça a imagem de Carlota Ângela. Eu, que fora nos primeiros dias seu confidente, sabia que a menina existia neste convento; recordei-lhe com pesar o indigno perjúrio, e ele respondia-me que a ausência era o bálsamo maravilhoso das chagas que o amor fazia. Confesso que me angustiou esta baixa condição de alma! e muito principalmente depois que vi algumas cartas de V. S.ª, escritas enquanto ele fazia a viagem. Passados meses, dois ou três, se tanto, Mendonça deu parte aos seus amigos de que vai tomar estado com a filha única de um opulento negociante, dotada com centenares de contos. - E casou? - exclama Carlota, lançando com vertiginoso ímpeto as mãos às grades. - Casou - respondeu o homem, friamente. Carlota soltou um grito, que não tem outro comparável na expressão da angústia humana. Era o ruído agudo estalar de todos os tecidos do coração, do rasgarem-se todos os vasos de sangue, do embate dos pulmões lacerados contra as paredes do peito. E, depois, os dedos recurvos nos ferros da grade, relaxaram-se, hirtos como os de um cadáver, e o corpo resvalou da cadeira para o chão com estrondoso baque. O homem horrorizou-se um instante da sua obra, e recuou até à porta para retirar-se; mas a sua missão não estava ainda cumprida. Relampagueou-lhe uma ideia lúcida. Desceu à portaria, e disse que fosse alguém à grade, onde se achava desmaiada a Sr.ª D. Carlota. A este tempo já a madre porteira, alarmada pelo estrondo da queda, entrava pressurosa na grade, e vendo Carlota no chão, chamou-a a altos gritos. Houve grande rumor no convento, e entre as muitas pessoas que desceram à portaria, vinham D. Rufina e a noviça. O homem de Lisboa permanecia imperturbável na grade, esperando que o interrogassem, já depois que Carlota fora transportada, com frouxos sinais de vida, ao seu quarto, acompanhada de um médico, que a fortuna trouxera nesse conflito. - Alguma das senhoras é a tia da Sr.ª D. Carlota Ângela? - perguntou o homem. - Sou eu - respondeu a pávida religiosa. - Concede-me alguns minutos sem testemunhas? As outras senhoras deixaram só Rufina; o delegado do bacharel prosseguiu: - Essa menina desfaleceu, quando eu lhe noticiei o casamento de Francisco Salter de Mendonça. - O casamento?! - Sim, minha Senhora. - O que geralmente se diz é que morreu. - Casou, e morreu, dias depois. - Oh! meu Deus! - clamou a freira, levando as mãos às faces - oh, meu Deus, o que se passa debaixo de vossos olhos! Francisco de Mendonça casou!... O Senhor tem a certeza disso?! - Como quem assistiu ao casamento e à morte. Esta segunda parte é que sua sobrinha ignora, porque me não deu tempo. Agora convém que V. S.ª lha diga, para que a morte sirva de perdão ao ingrato, e aingratidão lhe converta em quase indiferença a morte. E assim que essa pobre menina há-de recuperar a tranquilidade que precisa; e eu, que espontaneamente aqui vim dar-lhe o golpe, que ninguém lhe queria dar, com o bom propósito de curar a ferida com o próprio sangue dela, retiro-me, delegando em V. S.ª o complemento da minha obra. Minha Senhora, recebo as suas ordens. Soror Rufina surgira de uma espécie de letargo, depois que o desconhecido saíra. Foi, ao quarto da sobrinha, e viu-a sentada no leito, com os cotovelos fincados nos joelhos, e o rosto entre as mãos. Saíam-lhe das pálpebras os olhos vidrentos e imóveis como os de um cadáver embalsamado. Parecia não ver alguém, e a respiração das pessoas, que a rodeavam, nem sequer se ouvia. O olhar de Carlota fazia terror. A religiosa chamou-a três vezes, como a mãe delirante chamaria sua filha morta; o pavor, porém, daquele olhar sem luz nem movimento, parecia responder-lhe que estava morto o coração que devia ouvi-la. Rufina abraçou-a vertiginosamente, agitando-a com desespero: o corpo obedecia ao impulso, com a inerte obediência do cadáver, mas os olhos lá estavam na sua terrível imobilidade como que seguindo a alma que lhe fugira arrancada pelas garras de um demónio. - Que é isto, Sr. Doutor?! está morta minha sobrinha? - bradou a religiosa ao médico. - Não está morta, minha Senhora; pode estar demente. Carlota Ângela soltou um profundo grito, ergueu-se sobre os joelhos no leito, travou das tranças com frenético delírio, deixou cair os braços semimortos, e recaiu no torpor de momentos antes. Passado o espanto, todos os corações se derramaram ali em lágrimas. Não sabiam ao certo que imensa angústia aquela era, mas adivinhavam-na. Todos se voltaram para Jesus crucificado, de joelhos oraram chorando, e a oração era a mesma em todos os espíritos: «Se ela está demente, levai-a, Senhor!» Aquele estado era impossível longo tempo. Durante vinte e quatro horas sucediam-se as síncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O médico, descrido da acção dos antiespasmódicos, aconselhou que lhe falassem muito na causa daquele acidente, confiado na vitalidade febril que dão as agonias morais, e nas lágrimas consecutivas. Assim o aconselhara; ninguém, todavia, queria encarregar-se de tão cruel flagelação. Soror Rufina esperava a saída das incessantes visitas, para, com o socorro do Céu, executar o duro suplício de Carlota. O coração dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inútil, mas o médico ajuntara ao conselho razões que a convenceram. A sós, Carlota fitou-a com uma turvação de olhar, que deu quebranto à resolução da freira. - Se ela está demente, de que serve este triste remédio?! - dizia Soror Rufina. - Eu vou verter-lhe fel na chaga do coração, e nem posso ao menos contar com a inteligência dela para lhe falar à razão! Se Deus a chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha filha! - murmurou ela, aconchegando-a ao seio. Tu não me conheces? Sou a tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me dói também, Carlota. É preciso que nos consolemos uma à outra. Diz-me uma palavra só, anjinho... Conheces tua tia, menina? - Se conheço!... - disse, com meigo sorriso, Carlota, abraçando-a pelo pescoço. Rufina estremeceu de alegria, comprimindo com transporte o seio da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lágrimas e beijos a face. - E és a minha querida filha, pois não és? - prosseguiu a freira. - É de mim que esperas alívios desta agonia e amor para toda a vida? Aceitas as consolações de tua tia, crendo que é ela o instrumento de que a misericórdia de um Deus piedoso se serve? - Não me fale em Deus! - bradou com impetuosa violência Carlota Ângela. Rufina tremeu e empalideceu como assombrada de um raio. - Está doida a infeliz! - disse ela. - Agora, sim, creio que não há valer-lhe! Ó Mãe Santíssima, ó Senhor dos Aflitos, levai esta alma para vós... não consintais que os lábios digam blasfémias, que o espírito desta virtuosa criatura não sente. - Não me fale em Deus! - repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os olhos. - Não há Deus, nem justiça, nem misericórdia. Há Inferno neste mundo para os inocentes, para os que, fugindo ao ódio humano, se acolhem ao amparo divino. - Jesus! - atalhou a religiosa. - Que palavras são essas, filha!? - Eu não merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim desesperada de achar a remuneração de tamanha perfídia? Abandonada, esquecida por ele... Que horror! Carlota Ângela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braços da freira. - Que horror! - continuava ela, apertando as fontes com as mãos, e tirando com violência pela respiração. Traída por Francisco!... Todo este amor, o amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo tempo que eu o ia alimentando com lágrimas diante daquela cruz, onde eu cuidei que se encontrava compaixão!... - E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Cristo está correndo o bálsamo que te há-de curar, Carlota! - Curar-me!... A tia não sabe o que eu sofro, não conheceu esta dor, não sabe que desesperada vai ser a minha agonia! Eu tenho a morte já na garganta. Era preciso que eu perdesse o juízo para se crer que há Deus. Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto é mais que barbaridade... o Demónio não pode tanto, e um Deus não consentiria padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me desse um veneno... quem me arrancasse do coração esta agonial... Oh! meu Deus!... - bradou ela, estendendo os braços para o crucifixo. Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a cómoda, e aproximou-lha. Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lágrimas, e lançou-a de si com um violento gesto de repulsão. - É mentira tudo isso! - exclamava ela, agitando as mãos com, frenesi, como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz. - É mentira tudo! Não há Deus, não há nada a que uma desgraçada, como eu, possa recorrer! Deus não consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nem uma miserável como eu... - E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz sofrer tanto, Carlota, crês que há justiça de Deus? - Castigado!... não há neste mundo castigo para tamanha ingratidão... Ele é feliz a esta hora, nos braços de outra, com os carinhos de outra mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo hão-de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me levardes já... - E tomando a cruz, que beijava fervorosamente, prosseguiu: - Levai-me, Senhor... tirai-me deste Inferno, ou fazei que eu endoudeça! Se eu sou grande pecadora, dai-me as penas eternas da outra vida, se lá não há memória das amarguras deste mundo! Dai-me o outro Inferno por este, e eu darei sempre louvores à vossa misericórdia!... Não me escuta! – bradou Carlota com desesperada indignação, querendo arremessar a cruz. - Filha! - Deixe-me acabar, minha tia... Eu não quero esperanças... esperanças!... em quê? Não quero consolações de ninguém... A maldade daquele homem não me deixa já crer no amor de ninguém... Fujam todos de mim, que eu sou uma mulher amaldiçoada, sem ter ofendido uma só pessoa... E a maldição de meu pai que chegou ao Céu. Fui enganada, tinha fé naquele, homem, estou assim penando, porque o acreditei... É um castigo maior que o meu delito! Deus devia perdoar à pobre mulher de dezoito anos, e castigar o traidor por quem me perdi... - E castigou. - Como? - Chamando-o a contas. - Diga, diga, minha tia... que é? chamando-o a contas!... pois ele... - Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crês que há Deus?... Crês na justiça divina? Carlota não ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralisia os ferisse de súbito. Os lábios ficaram semiabertos, como se por eles perpassasse a derradeira expiração. Os braços decaíram com mortal quebranto. A freira abraçara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando Jesus, e Carlota. Doroteia entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando agudos ais, porque julgava morta Carlota. - Vá ver se está algum médico dentro - disse Rufina. - Mandem-no chamar, a toda a pressa, se não estiver. Chamem também o capelão... Parece-me que a matei, cuidando que a salvava. Doroteia saíra, levando o alvoroço e o terror pelos dormitórios, onde ecoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida de espírito, e de fé, como aqueles santos de quem o Senhor se queixou, disse, lavada em lágrimas: - Meu Deus! são terríveis os vossos juízos, e terríveis as vossas intenções! Quando a inocência assim padece, como castigareis o crime? Fora como o morder da víbora entranhada o pungir de alma que vibrou em dolorosíssimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciência, que recebia em si o fel da injúria que os lábios cuspiram; mas não passara deles. A apavorada freira, lívida como o sacrílego aterrado pelo remorso, ouviu um murmúrio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que lhe dizia: - Oremos pela alma do infeliz. Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Doroteia. Viram Carlota Ângela com as mãos erguidas, e a face coberta de lágrimas. Ergueram também as mãos, choraram também, ajoelharam, vendo Rufina de joelhos. - E um padre-nosso e uma ave-maria por alma de Francisco - balbuciou Carlota, soluçando com inexprimível aflição. O médico entrava nesse conflito, e presenciando as lágrimas de Carlota, fez um gesto afirmativo. Doroteia interrogou-o com ansiado olhar. O médico, entreabrindo ligeiramente os lábios com um sorriso, queria dizer: - Está salva. Capítulo IX Mon Dieu! comme il est difficile De courre avec de l'argent! Théophile de Veau Trocando com vontade pouco esperta, Por incerta fortuna esta mais certa. G. Pereira de Castro, Lisboa Edificada. Francisco Salter de Mendonça, de Lisboa ao Rio de Janeiro, escrevera um diário, em que mais se acusava a si de ingrato que aos seus cavilosos protectores de cruéis. A saudade era encruada pelo arrependimento. Ao passo que o horizonte da Pátria se perdia nas orlas do mar, o atribulado mancebo já não sentia da esperança o conforto que o alentava no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar ele tão longe, cada vez mais longe, de Carlota Ângela. Ideava e desfiava todas as consequências que podia trazer a sua formal rejeição do encargo e da patente. «Se me prendessem - escrevera ele no diário -, que maior prova podia eu dar a Carlota de que a minha liberdade, longe dela, seria o meu supremo cativeiro? «Preso debaixo do Céu em que ela vive, teria a liberdade de escrever-lhe, de animá-la, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos ferros do meu cárcere, e encher-mo de quantas alegrias podem elevar uma alma nobre sobre astúcias de miseráveis tiranos. «Seria grande mágoa para ela a minha prisão, a minha baixa, a minha queda irremediável no princípio da vida? Oh! decerto era; mas essa dor desvanecê-la-ia a convicção de ser tão amada, tão preterida à glória, à honra e aos sorrisos da fortuna! «Porque não lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater aos olhos de todo o mundo, contanto que me engrandecesse aos olhos dela, dela para quem eu queria honras, glórias, coroas, mundos, tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do coração que lhe dei?! «E, depois, a minha prisão seria de pouco tempo, porque os meus parentes são poderosos, e o dinheiro do pai e Carlota exaurir-se-ia ao mesmo tempo que o coração da sua filha seria mil vezes multiplicado em apego, e gratidão, em ternura, e coragem para afrontar comigo obstáculos. «Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me o Governo em demasia castigado com a baixa, com desconsideração e com o desprezo. Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e demais a mais rebelde ao serviço da Pátria. Que importava isso? Carlota Ângela seria o meu talismã; as riquezas brotariam seu coração inesgotável; todos me invejariam ao pé dela apontar-nos-iam como modelos de afeição, e de honra na afeição, que tão rara se encontra. Com o tempo, seria chamado a merecer o prémio de calcar a intriga, e nosso pão na opulência não seria mais doce que o pão da pobreza. «Que fiz eu, homem vil, homem sem alma? «Mascarei-me com as palavras "honra e dever", e estou desonrado perante Carlota! Impus-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ela me adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno cárcere, e não tive valor para me deixar perseguir pelo amor dela. «Ó coração duro, que assim te desonraste com tão baixo egoísmo! «Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lágrimas pôde enxugá-las a razão, tão vilã como tu! Mentias nesse pranto, abjecto, avarento, que te sentiste sobressalteado de orgulho e alegria, quando as dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil léguas distantes de Carlota. «Não sou digno de mais a ver, sem corar de vergonha não! Se ela me não escrever, se rasgar e pisar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o cinismo de tragar a afronta, já que tive a vilania de a merecer.» A estas páginas da consciência oprimida, sucediam-se outras de lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimia com mais contrição de alma, com mais doridos afagos à imagem querida que os recebe chorosa, com devaneios de mais poesia amarga, dessa que só sabem desentranhar do coração os que sentem voluptuosa dor em despedaçá-lo. Francisco Salter atravessara o Atlântico sem um amigo, nem um ouvido atento onde contasse, com atrição de penitente, as -saudades e pungimentos que o laceravam. Eram belas as noites, era de magia o Céu estrelado, as luas cheias no mar parece que recolhem de mais perto, naquela vasta solidão, as confidências do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de léguas, a contemplativa amada veja nela os olhos do que a pranteia. Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espectáculo, só donoso de êxtases, e dulcíssimo de espirituais colóquios para amantes felizes. E escreveu assim: «O desgraçado não suporta as alegrias dos homens, nem as da natureza. Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo o que o cerca. Se sulca os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de nuvens torvas o céu, reboem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o último mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira tábua do naufragado as fauces do dragão que abre um abismo em cada resfôlego. «O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmúrios, nem a solidão arroubamentos para esse que a natureza repeliu de si, como leproso, chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança. «Eu subi há pouco à tolda, e vi a Lua, que oito dias antes me vira no Candal, ao pé de Carlota. Não pude fitá-la. Os meus olhos caíram sobre o dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgência da Lua. Ali estive fascinado, naquele ponto negro. Semelhava-se-me a um túmulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de mulher que eu lançasse àquele abismo... «E fugi, meu Deus, fugi, porque me não destes um raio de esperança. «Ó Carlota, Carlota, matar-te-ia eu?!» Este fragmento de uma página, transcrito ao acaso, sirva para avaliar que aflitivo trânsito lhe foram os cinquenta dias de viagem. No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo às comoções da alma. Adoeceu, e, no ardor da febre, escreveu a Carlota essa longa carta com que o bacharel Sampaio espertou o lume do seu fogão. Eram estas as últimas linhas da carta: .................................................................................... «Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso daqui já pedir-te o meu perdão. A memória de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e vilanias desaparecem com o miserável corpo que os vermes desfazem. Fica a alma no seio de Deus, ou fora do Céu. Se Deus acolher a minha, de lá te chamarei; se me repelir este espírito, purificado no fogo da saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a única pessoa que eu ofendi neste mundo. A ofensa, minha amiga, está expiada. Tenho sofrido penas sobrenaturais. Achei doçura e suavidade no suplício, enquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que expeli em lágrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este flagelo é de mais... esta queda na sepultura, aberta no caminho de palmas que eu de lá vira, é um acto da Providência que assemelha um escárnio. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo do Céu! Amor... não to mereço: seria duplicada infâmia pedi-lo agora. Adeus.» Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que fazia regulares viagens entre Portugal e Brasil. O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas acusando-o, outras absolvendo-o. O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os sobrescritos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do sangue; depois, à maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio, a palidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que revia suores frios. Aquietada a angústia, depois de enfurecidos ímpetos, Salter quis escrever, arrojou a pena, e levou as mãos à fronte, como a segurar uma ideia consoladora. - Vou a Portugal! - murmurou ele - fujo, deserto, perco-me, mas vou a Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me! Este projecto foi-lhe um desafogo naquele dia. Nenhum estórvo se lhe avultava insuperável. O governador chamara-o para lhe comunicar as ordens que recebera do Governo e entregar-lhe ofícios do almirantado. Dava-se pressa do Reino ao capitão da real brigada em executar os trabalhos cometidos, visto que Portugal ia ser compelido a reunir-se com Napoleão na causa do continente. Era um prognóstico da indecorosa subserviência com que, alguns meses depois, a Corte portuguesa rompeu com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxílio na vilipendiosa e impolítica fuga. Não invejamos a glória do historiador português desse tempo, pelas náuseas e vergonhas que lhe há-de custar a narração exacta do envilecimento a que descera a terra do marquês de Pombal. Se não fosse o receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com ideias, escrevia agora aqui uns trenos plangentes sobre a pátria de D. João I e D. Manuel. Ainda me tolhe outro medo, e vem a ser o de me ver a braços com dificuldades na resposta aos que me perguntarem se a pátria de D. Fernando I e Afonso VI valia mais em dignidade, primor, e independência que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas que desentoam afonicamente da índole desta escritura, mais que todas sujeita a fazer-se ridícula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma conspícua pitada, para julgar depois os reis e os povos. O que se quer é saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça. Nenhuma das hipóteses. No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Ângela foi visitado por um indivíduo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar uma herança no Rio de Janeiro. Mendonça acolheu-o com alegria, supondo-o portador de carta de Carlota. Disse o portuense que viera ali dar-lhe uma nova, talvez desagradável ao princípio, mas estimável, quando a reflexão desvanecesse os efeitos da má notícia. - Que é? - atalhou Mendonça. - Estou preparado para o que for. - Eu conheço Norberto de Meireles, sou negociante como ele, e sei todos os passos da sua vida. Soube que V. S.ª lhe pedira a filha em casamento; soube que lha prometeu, para evitar que ela saísse judicialmente; e também soube que ele roeu a corda, como costuma em muitos outros contratos, quando o doutor Sampaio lhe participou de Lisboa que V. S.ª era mandado para aqui. É isto verdade, ou não? - E, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com sossego: D. Carlota vive? - Vive, e vive feliz, pois não vive! - Feliz!... diz o Senhor... - Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. S.ª espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas de agora são como as ventoinhas. Palavreado, e mais palavreado; novelas e mais novelas; crendices e papagaíces; e de tino e juízo nem para mandar cantar um cego. - Eu não entendo essa mistura de anexins com que o Senhor está retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a possível clareza? - Lá vou, Sr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se previna, se ainda me não adivinhou... A filha do tal Sr. Norberto confirma o ditado de que de ruim árvore nunca bom fruto. - Quer dizer que... - interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso mancebo. - O Senhor vejo que se enfada... E estou arrependido de cá vir com semelhante... - Com semelhante comissão?! - concluiu Mendonça, erguendo-se em atitude ameaçadora. - Comissão! - gaguejou o interlocutor com sensíveis sinais de surpreen-dido. - Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa. - V. S.ª está fora de si! - tornou o atrapalhado homem, lançando a mão ao chapéu e à bengala. - Eu não vim aqui ofendê-lo, e V. S.ª recebe-me de um modo que eu não mereço... Nesse caso retiro-me. Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéu, e obrigou-o com branda coacção a sentar-se. - Desculpe-me este desatino. O Senhor, se alguma vez amou, deve passar-me por esta escandecência própria de um rapaz ardente, com o coração ainda intacto dessas punhaladas que, muito repetidas, chegam a matar a sensibilidade. Estou de ânimo frio para escutá-lo. Queira V. S.ª continuar. - Eu... - disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobressalto - eu... se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada... - Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o Senhor me disser o engano. - Pois não adivinhou ainda? O Senhor é esperto, segundo ouvi dizer, e já há muito que devia entender que tal menina não o amava. - Entendi agora - disse serenamente Mendonça com hábil artifício. - Mas, como prova V. S.ª isso? - Como provo? - Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Ângela, quanto reputo V. S.ª um caluniador, enquanto me não provar essa espantosa novidade. - As provas, neste caso... - São difíceis, bem o sei; mas o Senhor há-de poder dizer-me: Carlota não o ama, porque deu esta ou aquela prova de o não amar. - A prova acho eu que é bastante dizer-lhe que ela, a esta hora, está casada com outro. - Essa é realmente a suprema das provas possíveis; mas, se lhe não custa, conte-me os pormenores desse casamento. Quem se diz tão intimamente informado da vida de Norberto de Meireles deve elucidar melhor as coisas. Quem é o noivo de Carlota? --- O noivo... - tartamudeou o homem, enfiando de novo., - É do Porto? - Sim, Senhor, é do Porto. - Como se chama? - Chama-se... esquece-me agora... V. S.ª decerto não conhece, ainda que eu lho diga... é um rapaz do comércio, que mora... - Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordação do nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na rua de?... - Na rua... de... ora que cabeça estal... O Senhor atrapalhou-me de tal modo que me fez perder... - Até a memória das ruas! E original essa perda! Diga-me mais, entretanto que lhe não lembra. Onde estava Carlota, quando o Senhor saiu do Porto? - Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no convento... - No convento de... - No convento, sim, no convento de... - Também perdeu a memória dos conventos! Descanse, Senhor portuense, tome fôlego, e tranquilize-se, porque receio, daqui a pouco, que nem do Porto se lembre. Falemos de outro assunto. Como está Norberto de Meireles? - Está bom, não há mal que lhe chegue... - Aquele homem é rijo, sendo tão magro! - Isso é verdade! - E sempre tão pálido! - Parece um defunto. - Vejo que o Senhor até perdeu a memória do seu amigo Norberto! Conhece-lhe os íntimos segredos domésticos; mas não se recorda que ele é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D. Rosália continua a cantar com aquela angélica voz que nós lhe conhecemos? O noticiador estava tolhido de medo. A esta última pergunta fez uma cara de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampaio, e mandara-o sentar. A segunda vez, a oferta da cadeira era pouco urbana: Mendonça pusera-lhe a mão no ombro direito, carregando com força bastante para aterrar o ensoado hóspede, que se julgara em perigo. Este susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter correu a lingueta da chave. - O Senhor treme como todos os miseráveis alugados para uma acção infame. Não trema - disse Mendonça -, que eu não lhe faço mal. Se o não fiz saltar por aquela janela, quando proferiu com menos respeito o nome de D. Carlota Ângela, agora decerto o acompanharei até à porta da rua. Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que ofício tem o Senhor? Vive destas empresas? Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a notícia desse casamento? - V. S.ª... eu... obrigado por necessidade... - Diga; desengasgue-se desse nó de vergonha que tem na garganta. O Senhor está entalado! Ora vamos: dizia o Senhor - forçado pela necessidade... - Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui... - Esse homem é Joaquim António de Sampaio. - O mesmo, é verdade, é esse... - Designadamente para o fim de me avisar que a Sr.ª D. Carlota casava? - Sim, Senhor. - E não o ensaiou para representar melhor o seu papel?... O Senhor executou miseravelmente a comissão do seu mandatário, e precisa de uma leve correcção, para que ninguém mais se fie na sua destreza. O Senhor tem aqui papel e tinteiro. Escreva aí, com clareza a verdade, o programa que lhe deu o bacharel Joaquim António de Sampaio. - V. S.ª quer-me perder!... eu sou empregado na Intendência... - E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por tão pouco. O Senhor é um homem necessário ao Estado, e hoje mais que nunca ao ajudante da Intendência, porque é depositário de um segredo que o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? Deixe-me ver o visto do seu passaporte. O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço trémulo a Mendonça, que prosseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e outro furtivo ao hóspede: - Escreva lá: Declaro eu, Luís José Godinho... A pena não escreve?! O pálido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes com o bico da pena, fora o tremor do pulso. O silêncio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando há a optar entre dois perigos certos. Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde ânimo do homem, não se arreceava do impetuoso salto que ele deu fora da cadeira, lançando mão da grossa bengala. - Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque! - exclamou o transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao ventre de Mendonça. O que susteve o oficial de marinha firme no seu posto, foi mais o espanto que a bravura. - Então? - bradou o amanuense da polícia, lívido e tartamudo como se fosse ele o ameaçado. - Abre-me a porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o de um lado ao outro! Francisco Salter afastara-se; Godinho correra à porta, vendo desaparecer o adversário; rodara a chave com feliz êxito; galgava o corredor que o devia levar à escada; mas na extremidade desse corredor havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de Mendonça, recuou o braço armado para impelir uma estocada; porém a ponta de um faim a duas polegadas do peito, restaurou-lhe o juízo prudencial, que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal e propício de quantos tinha: gritou aqui d'el-rei que o matavam, a berros de possesso, três vezes, sem tomar fôlego. - Cala-te, miserável, que ninguém te mata! – disse Mendonça. A força acumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que estrebucha quase esganado. - Vai escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz. - Aqui d'el-rei que me matam! - Então salta daquela janela abaixo, e diz ao bacharel Sampaio que te recompense a fractura das pernas! - Aqui d'el-rei que me matam! Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho galgou oito degraus com destreza de funâmbulo, mas do oitavo para baixo faltou-lhe o equilíbrio, e resvalou de costas até ao patamar. Aí, quis erguer-se; mas os músculos intercostais desobedeceram à velocidade do espírito. O primeiro amanuense da Intendência sofrera desagradável reforma na disposição das costelas; sem embargo, Azaís notaria aí uma nova compensação: as cordas vocais aumentaram de rigidez; os aqui d'el-reis eram cada vez mais estridentes. Os vizinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era hóspede. Hóspede do capitão-general! Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a energia caridosa dos circunstantes. Qual deles mais carinhoso e diligente em saber a ofensa para depor contra o ofensor, porfiavam em conduzi-lo nos braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costelas, rebeldes ao arquejar doloroso do diafragma, que puxava por elas. - Sejam muito boas testemunhas, que o Sr. Francisco Salter de Mendonça me quis matar, em sua própria casa! Conduziram-no uns, e ficaram outros, em grupo, à porta de Mendonça, e defronte das janelas, contando aos que passavam a tentativa de assassínio perpetrada pelo oficial de marinha. Luís José Godinho trouxera da intendência carta de apresentação ao conde dos Arcos, e outras confidenciais, sobre negócios do Estado. O governador hospedara-o com distinção, julgando-o digno da hospedagem pela confiança que aparentava merecer a Manique, e conhecimento, que tinha, da causa misteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto. Uma hora depois deste sucesso, cujas consequências não surpreenderam o imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado à presença do governador, e interrogado acerca dos motivos que lhe dera Luís José Godinho para tamanha ferocidade, em sua própria casa, que deve ser asilo sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado pelo ar supercilioso do interrogatório, respondeu que fosse inquirido em sua presença o ofendido, que era essa a praxe da lei. O governador espinhou-se, e mandou recolher à cadeia o oficial, para ser entregue aos juízes do crime. Francisco Salter de Mendonça não granjeara amigos nem protectores no Rio de Janeiro. O seu viver fora íntimo e só, fora do serviço. Entretinha-o, na soledade, a amargura. A justiça ouviu com sobrecenho a defesa do jovem oficial, e achou a justificação inferior ao delito. Godinho negava ter confessado o embuste para que viera comissionado pelo ajudante do intendente-geral da Polícia. Os magistrados, porém, convictos de que o ofendido era pessoa benquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros, negaram ao preso, em último recurso, o direito de se defender de um estoque. Mendonça escreveu para o Reino; mas Godinho voltara, são e correcto das costelas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou foi o bacharel Sampaio. A situação do amante de Carlota Ângela era extremamente infeliz. Ao cabo de quatro meses de cárcere, sem novas do Reino, nem absolvição da culpa, perdera o ânimo e a esperança. Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diário, porque a dor, ao encadear-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as cordas onde soava o gemido. Depois veio a fúria, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra os homens e contra Deus, a tentação do suicídio, combatida pela imagem de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova dela. Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não sabia consolá-lo. Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do Reino, ignorantes da sua prisão, e implorava aos juízes a liberdade do preso; alcançando apenas para si repelões desprezadores, e muitas vezes vergoadas de chibata sobre as lágrimas. O escravo oferecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um depósito equivalente ao valor da coisa, não consentiria a sua saída, e Mendonça, desprovido de meios para a sua subsistência, não podia garantir com dinheiro a volta do escravo... Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietário do negro, receoso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mês, chamou a si o escravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço mensal do seu único amigo, e continuou a ver, perto de si, aqueles olhos reluzentes de lágrimas, lágrimas que lhe faziam bem ao coração, porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido de um cão. Entretanto o escravo ideara o arrojo de vir a Portugal, fugindo. Trabalhava na difícil execução dessa traça, quando a escuna Guerra Voador chegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o príncipe regente saíra de Portugal para estabelecer a Corte naquele porto. Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao cárcere. Francisco Salter apertou a mão do negro e disse: - Seremos ambos livres, meu amigo. Capítulo X Não há coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, há-de amar quem tem coração. Fr. António das Chagas, Obras Espirituais. Vede agora se ainda persistis em vossa pretensão, porque, se este modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no estado em que até agora vivestes. Cerimonial da Congregação dos Monges Negros. E Carlota Ângela? Não dorme ainda o suspirado sono da morte sob a lajem humilde do claustro. Vive a vida que faz compaixão, e, nas pessoas que amam, excita o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor. Creram-na moribunda em frequentes acessos: Rufina, Doroteia, e todas as religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face cadavérica, muitas vezes. Se, por instantes, tíbio clarão de vida lhe retingia o rosto, é que a labareda da febre aí vinha emprestar-lhe uma reanimação convulsa, à qual sucedia o esvaimento, com o suor frio do traspasse. As orações eram contínuas. A comunidade ia do quarto de Carlota para o coro, e do coro tornava ao quarto em ânsias e esperanças que o fervor da oração lhe dera. De uma vez, encontraram-na tranquila, risonha e desoprimida. Uma a uma, Carlota chamou-as à beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando uma palavra ininteligível. As que choravam pedia que a não lastimassem, porque ela estava consolada com a esperança de descansar. As mais idosas, e veneráveis por sua santa vida, suplicava que a protegessem com os seus merecimentos, pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas desta vida. Perguntava pela mãe, mas, se lhe falavam do pai, se lhe diziam que ele vinha todos os dias saber dela, Carlota franzia a testa, e dava sustos de crescimento febril. Soror Rufina esperava que ela lhe falasse de Francisco Salter; Doroteia, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras alusivas; Carlota, porém, nunca permitiu à primeira, com o seu silêncio, proferir tal nome; e à segunda, debulhando-se em lágrimas, fazia com a mão um sinal de não poder ouvi-la. Uma tarde, as duas meninas passeavam no pomar: era a primeira vez que a filha de Norberto de Meireles saía do seu quarto. - Quando professas tu, menina? - disse Carlota. - Daqui a três meses. - Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove meses; mas ainda temos três meses de companheiras de noviciado. - Pois queres professar, Carlota?! - Quero, Doroteia, quero; se me não valesse essa esperança, estava morta. Já agora, o que me resta neste mundo é o bem de me julgar perto de outro: daqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha, pedindo ao Senhor que... dê o Céu... Carlota, entalada por súbitos soluços, não prosseguiu - Diz minha amiga... tu não me dizes tudo – acudiu Doroteia, abraçando-a com estremecido amor. – Ias falar nele?... porque foges de me dizer que ainda o amas no Céu?! - Fugia de to dizer, Doroteia, porque o teu coração não pode avaliar que amor era este que perdoa a um ingrato, e daria a vida para o restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei e perdi. Mais desgraçada que eu há uma só pessoa: é a mulher que o adorava; e mais desgraçado que ela e que eu, é ele, o infeliz, a quem tão pouco tempo o Senhor deixou gozar a mulher que o mereceu mais digna do que eu fui, e não teria, talvez, um pai que a aviltasse aos olhos dele. - Como o teu coração é bom, Carlota! - Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Doroteia, que já não é coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do Céu; recordo quanto amei, quanto sofri, e tudo aceito, e o mais que sofrer, com o contentamento de uma penitente. - Pois verás que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota! Adopta-me como tua irmã; viveremos tão queridas e juntas, falaremos tanto do que sentirmos ou triste ou agradável, que chegaremos a gozar a existência... - Não penses isso, minha amiga... Eu não quero dar-te quinhão das minhas amarguras. O meu curto viver há-de ser muito opressivo para as pessoas que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma infeliz, como eu, precisa ser desafogado, sozinho, e aos pés de Deus. Alegria? Jamais, jamais, Doroteia... Bendito seja o Senhor, que me dá esta casa para acostumar a minha alma a adorá-lo, e me deu aqui exemplos de virtude, sem os quais, fora do convento, tinha-me tirado a vida num daqueles frenesis de que tremo com a lembrança. Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porém decorrido breve intervalo de silêncio, Carlota rompeu em gemidos, lançando-se ao seio de Doroteia: - Que tens, Carlota? Ainda agora estavas tão sossegada!... - O que em cinco meses se tem passado! – soluçou ela. - Morto! é possível que ele já não viva!... que eu esteja aqui, eu, meu Deus, eu que o adorava até à perdição! e pôde ele abandonar-me, esquecer-se da pobre Carlota! Isto não pode ser, Doroteia!... Eu nunca o vi morto nos meus delírios, nunca, nunca o vi senão como na última vez que lhe falei, jurando-me um amor eterno... Será isto uma falsidade? Será meu pai que prefere matar-me!? Diz, Doroteia, não te parece muito possível esta crueldade! - Pode ser, Carlota!... quem sabe?! Olha, filha, tudo se há-de saber com o tempo... Tem esperança, sim? - Nenhuma! - replicou ela, caindo da instantânea exaltação - não tenho esperança nenhuma! Se ele vivesse, escrevia-me. É certo, é horrivelmente certo que não vive, que me desamparou, que foi castigado com a morte por ter assassinado uma amiga que se perderia por ele.. Está tudo acabado, tudo, meu Deus, menos este peso de vida com que já não posso... Carlota Ângela recolheu-se taciturna ao seu quarto, escreveu a sua mãe uma breve carta, em que lhe pedi o consentimento de seus pais, e as licenças necessárias para entrar no noviciado. D. Rosália quis procurar Carlota; Norberto de Meireles receando que sua mulher deixasse escapar algum ligeiro indício de viver Francisco Salter, encarregou-se da resposta. Estas suspeitas fundavam-se nas querelas continuadas em que andavam, por causa de Carlota. D. Rosália, algumas vezes, reprovara o zelo de seu irmão, a dureza do marido, mormente depois que a freira lhe vaticinara a morte de Carlota. Norberto, escarnecendo, com lerdo desdém, o prognóstico, impunha grosseiramente D. Rosália o calar-se, até ver em que paravam os tal fanicos da rapariga. Depois, porém, que a viu convalescer, o arrozeiro chasqueava os vaticínios da cunhada, e aceitava da melhor vontade a proposta da filha, na esperança de a cura da loucura, durante o ano do noviciado, com os recursos que o cunhado doutor promeria espiritar-lhe, consoante o andamento do tempo, bom para tudo. Antes, porém, de diligenciar o contrato do noviciado para a filha, Norberto de Meireles mandou-a chamar, Carlota, admoestada brandamente por soror Rufina obedeceu. - Vamos a ver, menina, que mania é essa de seres freira? - disse ele. - Isto não é mania, meu pai, é aceitar com reconhecimento a consolação única, e a melhor que Deus me deu neste mundo, com esperança de outro melhor. - Beatices que te meteu na cabeça tua tia... Deixa-te disso, Carlota; o convento é para quem é. Nunca te vi inclinação para este modo de vida... - A religião não é modo de vida, meu pai, é regra de vida. - Não me dês sentenças, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto aqui é para sempre. Se professares, não tens remédio, ainda que te arrependas; é daqui para Cristo. - Pois daqui para Cristo é que eu quero ir, meu pai. Saiba que é inútil contradizer-me. A força que eu sinto em mim para ser freira é invencível. Não me tolha a alegria, se é alegria este santo desejo de vestir o hábito. Os obstáculos podem mortificar-me, mas não mudam o meu propósito. É escusado embaraçar-me. Ofereci-me ao Senhor, quando cuidei de morrer de dor, pedindo-lhe alívios; senti-os, o Senhor apiedou-se de mim; é que a misericórdia divina me aceita do modo que eu mais digna me posso fazer de morrer em paz. - Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser noviça um ano veremos como se te reviram as ideias. - Pois sim, meu pai; se eu me não achar com forças de servir Deus, dir-lho-ei, e sairei do convento. - É o mais certo, e verás como te há-de parecer bom isto cá de fora. Tu és bonita, és rica, és prendada, podes casar... - Meu pai! por quem é, não continue... - Então que tem isso? Já cá te disseram que o casar é crime? Boa vai ela! Ainda há seis meses que estavas noutras ideias.... - Se o pai faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu não venho aqui... - Isso é modo de falar a teu pai, Carlota! Cá dentro ensina-se a dizer isto a quem te criou, e trabalha para ti há trinta anos? Cuidadinho comigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que eu sou um mono de palha, engana-se... - Que mal lhe fez minha tia? - Que me fez? Encheu-te essa cabeça de teias de aranha, lá com as suas arengas do beatério, e deu-te auso a responder com poderio ao teu pai! - Eu não o ofendi... - atalhou ela, chorando. - Pedi-lhe que não fizesse sangrar uma ferida de que estive à morte... Quem for meu amigo; há-de querer que eu ache alívio em alguma coisa; se a religião mo dá, deixem-me ser freira, e não me falem em casamentos impossíveis. Ora aqui está o que eu suplico a meu pai; se isto o ofende, perdoe-me; e se é ofendê-lo não vir à grade para ouvir palavras que me amarguram, virei todas as vezes que o pai quiser. - Está bom; basta de chorar. Vai-se tratar dos arranjos para o teu noviciado. Deus lhe ponha a virtude, e te guie para o que for melhor. Eu ainda espero ter-te comigo, alegre e folgazã como eras antes de conhecer esse homem que... - Meu pai! Carlota Ângela erguera-se sobressaltada, e Norberto estacou, sopeando a ira que lhe espertara a veemência, um pouco soberba, da filha. A ira degenerou em sorriso, cuja versão não acho no meu elucidário de sorrisos sandios. O arrozeiro, receoso de esbarrondar-se, como ele depois dizia a D. Rosália, saiu da grade, onde a filha permaneceu longo tempo enxugando as lágrimas, para simular sossegado o semblante. Um mês depois, entrava Carlota Ângela, com a mestra de noviças e a cantora, no coro, onde se reunira a comunidade. A dona abadessa, empunhando o bago, insígnia majestosa da prelazia, estava no topo das duas alas religiosas, solenes e magníficas com as suas roçagantes cogulas. O clarão tremente dos círios banhava o recinto de baço esplendor e sombras majestosas. A três passos distantes da prelada, que lhe sorria com, maternal carícia, Carlota prostrou-se com a face em terra. A humildade com que fizera a reverência, o súbito rompimento das lágrimas, que a noviça não pudera represar, a voz compungida da prelada, proferindo o quid petis, e o soluço tremido de Carlota, respondendo misericordiam... «a misericórdia de Deus e a vossa», a terrível majestade do silêncio, durante as genuflexões da noviça; todos estes actos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o coração das religiosas a ponto de correrem lágrimas por todas as faces, no momento em que a prelada, comovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada ante si: Surge, «levanta-te». A noviça voltou-se com as duas religiosas para o altar-mor, enxugou as lágrimas enquanto fazia as reverências do cerimonial, ajoelhou de novo aos pés da prelada, que proferiu uma breve prática acerca das gravíssimas obrigações que a noviça contraía com o prometido esposo. Carlota ouviu-a com as mãos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto venerando da abadessa, onde a graça, ternura e o sorriso da bondade eram um como suave encarecimento às virtudes que aconselhava, e estímulo para merecer no Céu o galardão de as praticar. Carlota lançou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabeça. Longa e farta trança de cabelos negros se desenrolou até à cintura. Uma freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trança, que depôs em uma bandeja. A mestra de noviças cingiu-lhe a touca branca, e a prelada lançou-lhe aos ombros o hábito ou mantilha. Carlota, durante este acto, parecia não sentir, não perceber a profunda e dolorosíssima significação que ele deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do mundo, onde todas as suas esperanças foram cruelmente desmentidas. Estavam de joelhos todas as religiosas, ela, entre a mestra e a prelada. As cantoras entoaram o hino: Veni, creator spiritus. Era um canto melancólico acompanhado a órgão; um místico e lagrimoso ofertório da alma atribulada ao supremo consolador das angústias. Cantada a primeira estrofe, ergueram-se todas, excepto a noviça. Seguiram-se os versículos e orações entoadas no coro e no altar-mor. A mestra de noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a cerimónia; a noviça, porém, continuava ajoelhada com as mãos entrelaçadas sobre o peito. Recomendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ela estremecia, como se já não pudesse sustentar a violência da posição. Carlota não se erguia, até que lhe deram a mão, e encontraram frias de neve as dela. Fizeram vão esforço para levantá-la, algumas freiras que a rodearam. Carlota não respondia, apenas respirava; quis obedecer ao impulso que lhe dava para erguer-se, mas à palidez, ao turvamento da vista seguiu-se o desmaio. Soror Rufina, Doroteia, e as outras ergueram o alariddo susto. Na igreja estava a mãe de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando, recitando padre-nossos maquinalmente, e prometendo a Deus confessar-se da sua culpa, se era culpa ter ocultado a sua filha o engano que o tio lhe urdira, arranjado com o pai. Quando, porém, os ais do coro chegaram aos seus ouvidos, com as exclamações aflitas de Rufina, D. Rosália saiu da teia de um altar, veio às grades do coro de baixo e rompeu em brados desentoados, chamando a filha. O capelão-mor, vestido de sobrepeliz, estola e pluvia veio lembrar à lamuriante senhora, que a sua gritaria não era própria da casa de Deus. D. Rosália replicou, menos comedida, que queria cá fora sua filha, viva ou morta. E nesta altercação estiveram ela e os capelães, recreando uns e fazendo chorar outros dos circunstantes, até que soror Rufina e outras freiras vieram à grade do coro aquietar a mãe de Carlota, dizendo-lhe que o incómodo fora um passageiro desmaio. E assim fora, felizmente. Carlota voltou a si, quando a mãe gritava. Os brados fizeram-na sair do coro vacilante e alvoroçada. Quisera encaminhá-la à cela; mas Carlota sabia que era costume ir a noviça, finalizada a cerimónia, visitar as doentes. Foi; e às mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente, rogassem a Deus que a levasse para si. Capítulo XI Pois ainda não ouvistes de seu valor o maior encómio. José de Sousa, o Cego, Obras Póstumas. Vereis amor da pátria..., etc. Camões, Os Lusíadas. Junot, a marchas forçadas; esperançoso ainda de obstar à saída da família real, ia sobre Lisboa. A regência desnorteou, com a imbecilidade rara de que era dotada; a classe média, presumindo a tirania próxima, ainda quis debalde opor um dique à invasão; mas a populaça, sedenta de anarquia, onde cevar temporariamente os vis instintos, remoinhava, alegre e entusiástica, rugindo como o tigre que fareja o sangue. Joaquim António de Sampaio foi, nessa época, a preexistência dos grandes homens, das sumidades estadistas dos últimos vinte anos. Avaliando quanto difícil seria acertar com o caminho seguro na encruzilhada das perspectivas políticas, não preferiu algum, e aceitou-os todos como conducentes à prosperidade, quando a fortuna, filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu predilecto. Sampaio lamentava com Manique o desamparo em que ficara o Reino pela impolítica e precipitada fuga do príncipe regente. Incriminava com os fidalgos a cobardia de semelhante desaire para o país dos Pachecos e Albuquerques. Ouvia com aquiescência os murmúrios da nobreza contra a dinastia bragantina, murmúrios tímidos, que mais tarde se formularam numa vilipendiosa petição, requerendo ao usurpador um rei da sua escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara consciências tão degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, António. Com a classe média, Sampaio vociferava contra os Franceses, e prometia sacrificar nas hecatombas da Pátria a sua última pinga de nobre, generoso e patriótico sangue. Todavia, exausto o fôlego das imprecações retumbantes, e acendida a flama do heroísmo nos peitos burgueses que se apinhavam nas praças, Sampaio, passando da iracúndia ao reflectido exame das circunstâncias, dizia que a sublevação popular seria um desatino sem proveito, um sacrifício de vidas e fazendas intempestivo e inglório para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de homem que privava no segredo dos destinos de Portugal. conselhos de paciência, de resignação, e, mais que tudo, de máxima prudência na entrada de Junot. Relacionado com a plebe, em razão do seu ministério na Intendência-Geral da Polícia, o antigo advogado da Rua de Santa Catarina insinuava-se nos grupos desordeiros e respondia com empertigamento de oráculo às perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleão, dizia ele que não era o ímpio que se dizia. Napoleão, e os seus generais, não saqueavam as igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem violentavam a virtude das donzelas, nem atentavam contra a liberdade do povo. Pelo contrário - continuava ele, baixando cada vez mais a voz, e relanceando o olho observador por sobre as fisionomias suspeitas que chegavam de novo -, pelo contrário, Napoleão queria mudar a face das coisas em favor das classes oprimidas, chamando o povo à partilha dos regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco a pouco através dos séculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleão, e aclamava general o doutor Sampaio, que se esgueirava sorrateiramente pela primeira brecha que a agitação lhe proporcionasse. Dali, ia à Intendência dizer a Manique o fermento que azedava os rasteiros instintos da canalha. Alvitrava o emprego da força armada para dispersar os bandos, com prudência; e, compungido de patriótica lástima, deplorava o indiscreto arbítrio dos palacianos que aconselharam ao príncipe uma fuga tão calamitosa no instante em que o prestígio da nacionalidade estava na presença do soberano. Fora nomeada uma deputação para cumprimentar Junot. Além dos expressamente enviados pela regência, Joaquim António de Sampaio associou-se na deputação com alguns particulares, que se davam pressa em depor aos pés do invasor a porção infame do país que eles representavam. O ajudante do intendente arremedava a língua francesa, e fazia-se entender melhor que o deputado da regência, o tenente-general Martinho de Sousa e Albuquerque. Junot, em Sacavém, chamou Sampaio a uma conferência particular, e informou-se de coisas que a deputação não elucidava por astúcia, ou por ignorância da língua. O certo é que o general francês, maravilhado do bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessário, agradeceu-lhe com um aperto de mão os serviços prestados ao reformador da Europa, e prometeu-lhe acrescentá-lo, quanto em si coubesse, em honras e fazenda. Chegados a Lisboa, as proclamações que circulavam entre a populaça eram de Sampaio. Nelas se aquietava o espírito público, dizendo-se que o Excelentíssimo Senhor Andoche Junot, herói de Toulon e de Nazareth, era o emissário da paz, da ordem, e da prosperidade portuguesa; que a prosperidade era sagrada para o exército do imperador da França; que a virtude das virgens e das menos suspeitas desse respeitável estado era inviolável; que ninguém fugisse de suas casas, nem viesse para a rua fazer assuadas, algazarras, ou outras que tais manifestações de desordem e descontentamento. O bacharel Sampaio ajudara, na véspera do embarque da família real, a encaixotar as pratas da patriarcal, que deviam acompanhar os reais emigrados. A celeridade, porém, do embarque, fez que os catorze carros de preciosos objectos ficassem no cais de Belém, e voltasse com grande júbilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampaio, enquanto se encaixavam riquíssimas bandejas, castiçais, coroas, lâmpadas, etc, resistira heroicamente aos assaltos da ladroíce, que lhe estavam segregando o modo de empalmar algumas peças miúdas de preciosíssimo trabalho. Pôde sopear a tentação; mas não via, sem grande mágoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga tão valiosa. Um tal ou qual alívio o desoprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o tecto protector da sua igreja. Sampaio, a propósito disso, asseverou às freiras de Santa Ana, onde almoçava todos os dias, que andava ali milagre naquela recondução! Não acreditava ele, porém, que o milagre fosse perfeito e averiguado, enquanto um bom quinhão daquela prata não entrasse em casa dele. Convencido do «trabalha, que eu te ajudarei», o bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse. O processo não deixa de ser engenhoso: «engenho» é palavra com que a civilização, ainda então embrionária substituiu a palavra «ladroeira» dos costumes, das biografias, e das acções humanas, que, por força do progresso, hão-de ir perdendo a nomenclatura áspera e ilógica que lhe davam os góticos moralistas de carcomida memória. O engenhoso Sampaio (diga-se assim de um homem que merece o respeito que se presta aos contemporâneos apesar do seu atraso de meio século), o engenhoso bacharel pediu uma audiência particular a Junot, e denunciou-lhe a existência de quarenta caixões de prata na igreja patriarcal. Junot chamou seu cunhado, que por sinal se chamava Jufre, e cometeu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao serviçal e benemérito denunciante. Os dois, com alguns operários de confiança de Sampaio, entraram na igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixões, excepto dois, que não foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os inventariar em sua casa, para onde foram transportados ao escurecer. Completou-se desta arte o milagre, que Sampaio, em beatífico êxtase, agradeceu toda a noite, contemplando uma a uma as formosas e corpulentas peças que tencionava fundir em baixela de seu serviço, quando melhores dias de ordem e tranquilidade fossem concedidos ao desgraçado Portugal, que ele continuava a prantear com as freirinhas de Santa Ana. Dera-se, entretanto, o costumado reviramento na opinião da plebe. Junot não sabia, não podia, nem devia esconder as suas intenções usurpadoras. A bandeira francesa fora arvorada no Castelo de S. Jorge. As armas reais do arsenal foram picadas. Do parapeito do seu camarote abaixo, Junot desenrolara as águias vencedoras. As costas populares, numa desordem do Terreiro do Paço, tinham sido apalpadas pelas coronhas francesas. Nove portugueses tinham sido espingardeados nas Caldas. Dissolvida, em suma, a regência, fora inaugurado o governo de Napoleão. A populaça, portanto, bramia e, sobretudo, porque a sua força era nula, o seu poder desprezado, a sua fome e sede cada vez mais insaciável pela careza dos géneros. Havia um só meio de entreter-lhe as sanhas, ou captar- lhe as simpatias: era quebrar os poucos esteios da ordem, defendidos ainda pelas armas francesas, era facilitar o saque por meio da anarquia. A plebe, quando lobrigava Sampaio, cercava-o, pedindo-lhe conta das promessas que ele fizera. O expedito bacharel desfazia-se dos importunos, recomendando-lhes paciência, e esperança nos serenos dias que se haviam de seguir à crise indispensável numa instituição de princípios novos, criada expressamente para o bem geral. O povo ouvia-o com escárnio, e apupava-o, quando ele abria com os ombros passagem para escapar-se. Uma vez, porém, passava o bacharel na Rua da Amendoeira, onde, por esses tempos, se arruava a escória das meretrizes, e se abandoavam os condignos hóspedes. Conheceram-no, e fizeram-lhe assuada. Um gaiato de maus fígados, instigado pela celeuma, saltou ao costado do bacharel, e enterrou-lhe, com retumbante penantada, o chapéu até aos queixos. A gargalhada pública vitoriou o garoto, incitando-o a maiores empresas, e aguçando o estímulo dos émulos. Outro gaiato, cioso dos aplausos, capeava-o pela frente com um lenço vermelho de uma meretriz, enquanto um terceiro, um quarto e um quinto lhe achatavam o chapéu, que já não podia restaurar o antigo prumo. Uma alcouceira lançava-lhe ao tiracolo uma réstia esbrugada de alhos, enquanto outra lhe metia na portinhola da casaca uma couve lombarda. Esta por um tubo de lata lhe assoprava feijões à cara, enquanto outra lhe pendurava um rabo-leva de papel na casaca, ou lhe esguichava fétidas aspersões com a seringa carnavalesca. Sampaio gritava por socorro. Alguns soldados portugueses e espanhóis, que por ali estanciavam, mantinham a neutralidade, ou riam à socapa do infeliz gebo. O bacharel, vendo passar uma guarda de soldados franceses, bradou ao comandante, dizendo-lhe em francês que era vítima da canalha, porque adorava Napoleão. O francês varejou com a espada as costas dos gaiatos; porém, as rameiras, o povo, os gaiatos, animados pelos soldados portugueses e espanhóis, fizeram menção de apedrejar os franceses. Travou-se uma sanguinolenta desordem, à qual Sampaio deveu a evasiva. A cólera não lhe deu respiro, até entrar no palácio de Junot. Queixou-se amargamente, dizendo que os amigos da França eram as primeiras vítimas dos inimigos do imperador, num país de que Junot brevemente seria o monarca. O governador de Portugal enviou Sampaio ao intendente-geral da polícia Lagarde, com especial recomendação de poderes discricionários. Dos soldados portugueses, alguns foram lançados na enxovia, outros deportados, e as meretrizes da Rua da Amendoeira, Rua Suja, e imediatas, depois de rapadas à navalha, e vergastadas no pátio da Intendência, foram desterradas para o Alentejo. Parece-nos oportuna neste lugar essa página ridícula da biografia de um homem que merecia ter mais ampla crónica, em vista do trágico desfecho que no próximo capítulo se dirá. Capítulo XII Nous en avons les preuves irrécusables sous nos propres yeux. Volney, Leçons d'histoire. Eis aqui como o Diabo os leva para o Inferno sem apelação nem agravo. S. S. Da S. E Silva, Governo do Mundo em Seco. Junot recebera do imperador a graça de duque de Abrantes. Felicitaram-no as corporações civis e militares, e muitos particulares da alta nobreza, mercancia que o francês fizera sem blandícias nem razões de Estado persuasivas. A consciência destes miseráveis transigira com o renegar tradições, nome, pátria, pudor e honra, logo que as palavras «contribuição e confisco» os ameaçou de expiarem na dureza das nobres privações a repleção estomacal de séculos. O conde da Ega, Aires de Saldanha, o bispo do Porto, o principal Miranda, e outros que mais avultam na veniaga torpe, são uma parcela no rebanho das ovelhas tinhosas, imoladas na sua dignidade aos pés do soldado aventureiro, que lhes cuspira na cara o preço das almas, e nas quinas portuguesas a afronta deles. Enquanto estes, envilecidos como nunca fora nação usurpadora, pediam a Napoleão um rei francês, e nomeadamente Junot I para a terra de D. João I e D. Manuel; enquanto os fidalgos de sangue fenício, cartaginês, suevo e godo, sem mescla do judaico, requeriam a Junot os empregos desamparados por outros fidalgos, que acompanharam o regente para o Brasil, aterrados de pavor, e, como ele, acocorados ao pé das velhas açafatas de D. Maria I; quem eram os portugueses de consciência e esforço nesta nação desmembrada, nesta metrópole de tamanha parte do mundo, oferecida pelos netos dos que a conquistaram a um soldado francês? Alguns ergueram a fronte, sem o ferrete da venda, por entre a turba dos nobres, que a devassidão herdada enfraquecera e deixara cair no tremedal de onde o historiador severo há-de buscá-los para os inscrever no livro dos paroxismos vergonhosos da raça de piratas, que pouco tempo logrou o fruto dos seus flagícios. Esses, que levantaram o rosto sem mancha, para saudar no trono reerguido o degenerado neto do Mestre de Avis, eram uma classe menos tímida que a do vulgacho, a mais quieta na sua obscuridade, a que fora, nos dois últimos séculos, pouco e pouco espoliada dos seus antigos foros municipais, a classe média, enfim, cuja importância na cidade delimitava-se a engrossar a veia do tesouro. Foram esses homens, robustos de seiva e espíritos nacionais, os únicos que se concatenaram em reacção, surda e tenacíssima na opressão, contra os tiranos, foram esses os tributários liberais de fazenda e sangue à restauração duvidosa do trono, que lhes pediu, depois, com que reparar o antigo fausto; foram, para tudo dizer de um traço, foram eles os que nunca esmoreceram no resgate da terra cativa do Encélado, que quisera abarcar o mundo entre as duas extremidades da sua espada invencível, salpicada com o sangue de nações poderosas. O bacharel Joaquim António de Sampaio (é de quem o leitor supercilioso quer que se lhe fale, e da melhor vontade me dispensa de reflexões impertinentes, que me manda pôr de conserva para quando escrever um livro sério, grave, e reflectido, que ninguém há-de comprar), o bacharel Joaquim António de Sampaio vestiu-se à corte, de chapéu armado, espadim, meia de seda, e fivelas de prata. Disseram que estas fivelas tinham pertencido a um santo da patriarcal: isto parece-nos calúnia. Folheámos, e esgaravatámos o hagiológio europeu, e não deparamos santo contemporâneo das fivelas. O historiador verídico rejeita, como Tácito na biografia dos grandes celerados de Roma, as toardas de fantasia para infamar caracteres onde sobejam crimes provados para a execração universal. Desculpem a intumeme(s)cência do estilo, que a matéria não é tanto de soco, como à primeira vista parece. O duque de Abrantes recebeu afavelmente o bacharel, e na presença dos fidalgos, que estendiam já a mão soberba ao ajudante do ex-intendente Manique, entregou-lhe a nomeação de juiz para um tribunal especial militar, criado no Porto por decreto de 9 de Maio de 1808. O fim ostensivo desta alçada era punir os perturbadores da segurança pública, nos variados delitos que a legislação do Reino não previra. A sentença deste tribunal era executada no prazo de vinte e quatro horas, sem revista ou apelação. O bacharel agradecido caiu de joelhos aos pés do duque de Abrantes, que se dignou levantá-lo pela gola da casaca; os copos do faim, porém, travando-se na fivela do calção, rasgaram-lhe a meia na barriga da perna, abrindo fenda por onde regurgitou uma almofada suplementar à tíbia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os fidalgos riram também. Sampaio, ligeiramente corrido, arrancou o músculo de algodão, escorchou-o entre a mão nervuda, e pediu licença para ir remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde de Ega ao fidalgo imediato, só nas pernas postiças do seu dono faria tamanho estrago. O juiz do tribunal militar partiu, no dia imediato, para o Porto, onde era preciso refrear os ânimos indomados dos portuenses. Norberto de Meireles contou de novo a seu cunhado o já dito em longa carta, que Sampaio não lera, acerca do noviciado de Carlota. - Tudo se há-de remediar, que temos muito tempo - disse o bacharel. - Em último caso, nunca ela há-de alcançar licença régia para a profissão. Agora, do que se trata, é de me pores a bom recado estes dois caixões de prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o príncipe para o Brasil. Cuidado com isso, que estão aí alguns contos de réis, e eu fiz responsável a minha honra à entrega destes caixões, logo que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe alcançar do meu particularíssimo amigo duque de Abrantes. - E o que me diz o doutor a respeito do Sr. Junot? disse Norberto de Meireles. - Pelos modos, ouvi dizer que ele já está despachado rei de Portugal! - Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde de Ega e Aires de Saldanha trabalhamos para a sua aclamação. - Então o cunhado é amigo desses governos lá da corte? Com efeito sempre lhe digo que o que o doutor não fizer, não o faz o dianho. Aquela de fazer ir o pintalegrete pela barra fora, custou carita, mas fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor! - E acha muito? Não foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha influência. Não sei se sabe que Francisco Salter de Mendonça mexia na corte os pauzinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu dinheiro e da minha influência, e vir ao Porto tirar Carlota judicialmente!... - Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por lá, grande cousa era! Estou a arrecear que ele volte antes dela professar. - Não receie, Norberto. O príncipe não volta mais a Portugal, e o tal marinha cá estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas dele, está tudo prevenido para que não chegue alguma às mãos de Carlota, e a esta hora está ele convencido de que ela casou. - Homem, essal... ó doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da sua agência! O cunhado é capaz de fazer com que ela esqueça o homem, e torne para a minha companhia! Faça isso, que lhe dou uma mula arreada de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal. - Nada de susto, mano. Você não sabe o que são mulheres. A rapariga tem venetas e caprichos; o acertado é deixá-la barafustar, e ela virá cá ter ao caminho das outras. De paixão ninguém morre; e, no convento, isso então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos taramelos em cousas de amor que lançam o amor pela boca fora, em lugar dos fígados. Deixe-a lá estar à vontade, e dê-lhe a entender que o seu maior gosto neste mundo é vê-la freira. Nada de contradizê-la. Mulheres e crianças amuadas é deixá-las renhir. Se vocês começam a carpi-la, então não fico pelo resto. - Então o doutor não vai lá tirar-lhe a tolice do miolo?! - Não, Senhor, não vou, é escusado lá ir, e, se for é para lhe dizer que muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a liberdade do mundo, e pintar-lhe com cores tristes o jugo do convento. Assim é que se levam as mulheres, Sr. Norberto, e, se elas têm a soberba de Carlota, então nada de disputar. A astúcia manda dizer com elas, até as fazer passar para a contradição, porque a harmonia é impossível em índoles orgulhosas. - Oh, doutor! o Senhor tem uma lábia que revira a gente! Homem, eu estou a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! Deixemo-la lá com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso à minha Rosália; mas, antes que me esqueça, esta cousa de governo está segura? - Seguríssima. - É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que desse e viesse. - Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como debaixo da terra. Sabe o que há-de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos meus caixões de prata, e vá enterrá-los na adega do Candal. Eu tenho mais medo à canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu na capital que S. Ex.ª o Sr. Governador ia dar a Lisboa a saque, saíram para as praças as turbas da gentalha portuguesa, esperando a hora do assalto. Destes é que eu tenho medo, e por isso sou de parecer que se acautele o nosso precioso, com suma prudência. O Candal é bom sítio, porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o serviço de enterrar os caixões a pessoa fiel, que não denuncie o escondedouro. - Não me fio em ninguém, cunhado. Quem há-de enterrar esse todo-nada de dinheiro que por aí está, e mais os caixotes de prata, hei-de ser eu, se Deus quiser. Assentiram nisto, e, logo no dia imediato, Norberto de Meireles pôs mãos à obra, com auxílio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte para o Candal com disfarce. Os caixões saíram de noite, e os condutores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem esquadrinhá-lo. Norberto de Meireles, auxiliado por D. Rosália e o proprietário das pratas da patriarcal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e ficou assim desafrontado dos sustos que lhe traziam o ânimo oprimido, desde que Francisco Salter de Mendonça lhe pressagiara um possível assalto ao seu dinheiro. Sampaio, atarefado com o julgamento dos réus processados no tribunal de que ele era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um mês depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de propósito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado repugnância em receber a visita do tio. O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas preventivas contra as tentações do Demónio, acérrimo inimigo dos votos claustrais. Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosália com enfado. A boa senhora não compreendia a esperteza de seu irmão, e, confrontando-a com a estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do outro. Foi-lhe à mão com as suas razões cem vezes repetidas à filha. Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de Carlota; e a esta, com ternas súplicas, implorava que saísse do convento, se não queria cedo ficar sem mãe. Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seria muito sensível; mas que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe mandasse, contanto que pudesse oferecer o coração espedaçado ajoelhada no altar, onde jurara votos de eterno sacrifício. Joaquim António de Sampaio, piscando o olho à irmã, louvava de novo a devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoá-la, quatro exemplos de santidade no Convento de Santa Ana de Lisboa, onde ele almoçava, e contava os milagres da prata da patriarcal, salvo o último. Carlota, saindo da grade, foi pedir a Deus perdão do ódio que tinha a seu tio. Soror Rufina, confidente desta ruim paixão, orou por ela, e penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternais conselhos que lhe dera, e o aplauso com que a ajudava a defender-se das instâncias de seus pais. O bacharel, maravilhado desta carta, modificou a sua opinião a respeito da sobrinha, e planizou uma nova traça para despersuadi-la. Qual ela fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executá-la. Sampaio exerceu as funções do juizado quatro meses e foi despachado juiz de fora para uma pingue comarca do Minho. A causa desta mudança, ingrata ao despachado, explicou-a ele como grandemente honrosa para si, dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao Governo. O Governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denúncias os nomes que representavam réus dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor recato, avultuosas quantias. Partiu para a sua comarca o juiz de fora, recomendando ao cunhado que vigiasse os caixotes de prata, cujo descaminho viria a ser a causa da sua desonra. Por essa ocasião, entregou-lhe um caixãozinho suplementar aos outros, que constava de uma dúzia ou pouco mais de contos de réis, de seus ordenados e propinas, e mercês dos benefícios que fizera caridosamente aos réus absolvidos no terrível tribunal. Dispensam-nos de boa vontade a história sabida dos decorridos sucessos que expulsaram os Franceses do território português. É certo que o juiz de fora de ***, Joaquim António de Sampaio, ingrata criatura de Junot, pôs luminárias quando soube que o exército francês recuava ao exército aliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando às armas, e incitando os frades a que pregassem o ódio contra Napoleão, e prometessem indulgência plenária, e salvação segura a todos os que morressem na defesa do seu legítimo príncipe, e dos augustos foros da religião católica-apostólica-romana. O bispo do Porto, presidente da Junta, e renegado como ele, simpatizou com as manhas do juiz de fora, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor da comarca onde estava servindo. Entra, porém, o general Soult as mal defesas raias do Reino, e chega a Braga a artilharia de Laborde. Sampaio medita seriamente na sua situação, e, apaziguando os ânimos das turbas com discursos acerca da inutilidade da resistência, resolve ir ao encontro do general Lorge, que marchava contra a vila onde ele exercia a suprema autoridade. Diz-lhe que íntimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a volta dos Franceses, e faz acender o resto das torcidas das luminárias à entrada do general francês. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e os chefes emprazavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia, mais tarde. Sampaio, arreceando-se daqueles caudilhos, denunciou os principais ao seu hóspede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pesar de acontecimento tão funesto. Retirou o general para ocupar outro ponto; mas, a pedido do corregedor, deixou uma numerosa guarnição à terra. O general Botelho estanciava nas imediações da vila, e investiu com o presídio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampaio queria fugir com ele, sobre o Porto, para onde convergiram os diferentes chefes do exército invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora, carregando os baús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que soubera esbulhar à comarca sob os mil pretextos fáceis ao seu engenho. Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante, em lance tão apertado, e saiu a lume com uma ideia, da qual esperava a sua salvação. Mandou tocar imediatamente os sinos das igrejas, foi ele próprio, bradando vivas ao príncipe, espertar o ânimo perplexo dos moradores da terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos. Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que devia ter o resultado que teve. Joaquim António de Sampaio viu-se rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando à vozearia os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido espingardeados à ordem do general Lorge. O chefe das forças portuguesas ocorreu neste momento aflitivo. O corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação. Um do povo, que parecia ser o mais autorizado, contrariou as súplicas do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com atenção, e exclamou com serenidade: - Enforquem-no já, que é o mais seguro. Mais de um leitor maior de sessenta anos está recordando, neste momento, a cabeça de comarca na província do Minho, onde foi enforcado um corregedor. Se se lembra, saiba que o fatal triângulo foi erguido para Joaquim António de Sampaio. Aí perneou esse homem de grandes espíritos, que veio cedo de mais para morrer ministro de Estado. Rezemos-lhe pela alma, mas duvide-se do aproveitamento dos sufrágios. E de fé que o taumaturgo das pratas da patriarcal caiu da forca ao Inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam nédios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da pátria, amor do próximo, e abnegação do alheio. Joaquim António de Sampaio, nascera em 5 de Janeiro de 1752. Trapaceara o Direito e a Justiça por espaço de trinta anos, nos auditórios do Porto. Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cinquenta e seis anos. Revelara, ainda que tardio, um espírito sobreexcelente para engrandecer-se, e reflectir na sua família as honras merecidas à custa de infâmias necessárias para se ser alguma cousa numa terra onde Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos propícios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de Março de 1809. Piamente cremos que os santos da patriarcal de Lisboa, esbulhados de seus adornos, lhe urdiram este afrontoso traspasse. Como quer que seja, homens tais, diz uma epígrafe deste capítulo, que os leva o Diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de mim, afigura-se-me que o Diabo leva uns, e traz outros. Capítulo XIII La justicia de Dios espantosa... Quevedo, El Sueno del Inferno. O noviciado de Carlota Ângela terminara em Abril de 1808. As licenças impetradas para a profissão não foram concedidas, porque a desorganização em que se achavam as repartições governativas era impedimento a que se deferissem requerimentos que não importavam ao bem imediato do Estado. Norberto de Meireles folgava com a demora da licença, e o cunhado lá da comarca onde lhe cortaram a previdente cabeça, sossegara-o com a certeza de que em Lisboa estavam prevenidas as cousas para que a noviça requeresse sempre em vão a licença indispensável. Carlota não se impacientava com as delongas, nem se queixava de seu pai ou tio: contanto que a não arrancassem ao claustro, noviça ou professa, o seu coração estava com o mesmo apego entranhado no suave sacrifício à religião dos infelizes. Quando a notícia da feia morte de seu tio lhe chegou, levada pela aterrada mãe, Carlota perdoou-lhe, nos lábios e no coração, o mal que lhe fizera, compensando-lho com incessantes sufrágios, da virtude dos quais, em alma tão apodrentada de velhacadas e perfídias, é lícito duvidar. Norberto de Meireles, neste desgosto de família, mostrou o grande porte de seu ânimo, insuflando em sua mulher espirituais doutrinas de paciência e conforto na vontade do Altíssimo. À socapa, porém, o arrozeiro esfregava as mãos com jubiloso frenesi, bem sabia ele pelo quê. Se D. Rosália lhe perguntava que destino se devia dar aos dois caixotes de prata, que não eram de seu irmão, Norberto dizia-lhe que calasse o bico, e não desse à língua acerca de tais caixotes, que ninguém sabia de quem eram. Os escrúpulos entravam na consciência de D. Rosália; o alheio dizia ela que chorava pelo seu dono. A este e outros anexins de sã moral replicava Norberto que se alguma vez aparecesse o dono dos caixões, munido das necessárias provas de ser o dono deles, seria entregue do depósito. Entretanto que o dono não vinha, o herdeiro do bacharel fechou-se na adega da granja do Candal, e exumou os tesouros enterrados para conhecer do conteúdo dos caixões. Este exame dizia ele à tímida consorte que era preciso para, munido de um rol, peça por peça, obrigar o dono a dar uma relação exacta dos objectos. Tentação diabólica fora aquela! Norberto, vendo a rica baixela do culto divino contida no primeiro caixão que abriu, tão encantado ficou do bem lavrado das coroas, dos resplendores, dos cálices, das âmbulas, dos turíbulos, das lâmpadas, das bandejas, e dos ex-votos, tão encantado, tão edificado, tão preso àqueles místicos ornatos do templo do Deus vivo, que logo ali prometeu à sua consciência guardar e venerar aqueles sagrados objectos, de modo que mãos ímpias de franceses, de portugueses afrancesados, e ainda as do dono nunca os profanassem. Este protesto entendia-se com o primeiro caixão: o segundo, antes de ser aberto, havia o negociante tenção de restituí-lo, se o recheio não fosse tão venerável e digno da sua devota guarda. Ora o segundo caixão não era menos tentador: nem mais nem menos os doze apóstolos de prata maciça, com as suas barbas venerabundas a incutirem seráfico temor e amor! Norberto alçou nos braços um dos apóstolos, não tanto para fazer-lhe oração mental, como para calcular-lhe o peso, e, aproximada-mente, ajuizou doze arráteis, os quais, multiplicados por doze, davam cento e quarenta e quatro arráteis de prata. Entendeu piedosamente o arrozeiro que o segundo caixão era tesouro não menos credor dos seus desvelos que o primeiro, em razão de conter as imagnes dos doze primeiros santos da religião cristã, e neste pressuposto de bom juízo resolveu recomendar à sua vigilância a guarda de tão augustas imagens, que talvez providencialmente vieram enterrar-se na sua adega, para se esconderem à perseguição de Bonaparte, bem como os cristãos primitivos se escondiam nascatacumbas para fugirem à perseguição dos Neros e Trajanos. A escrupulosa irmã do defunto bacharel não assistira à exumação dos caixões; mas, sabendo dos doze apóstolos, tal ânsia lhe entrou de os ver, que não houve remédio senão desenterrá-los de novo. D. Rosália ficou encantada dos aspectos majestosos de S. Pedro e Sant'Iago. Quis que seu marido rezasse emparceirado com ela uma jaculatória aos dois santos em particular, e a todos em geral. Norberto anuiu com a mais fervente unção, e edificou sua mulher, propondo a repetição das ditas jaculatórias, para que os bem-aventurados discípulos do divino Mestre não permitissem que mãos sacrílegas dos franceses tocassem nas suas devotas imagens. Lembrou logo ali a Sr.ª D. Rosália que, passada a guerra, se não aparecesse o dono daqueles objectos, se havia de fazer uma capela na quinta do Candal, para que os santinhos fossem adorados por toda a gente. Concordou o arrozeiro, enterrando-os outra vez, e recomendando a sua mulher, que não dissesse a ninguém que a sua adega estava tendo as honras de cenáculo. Estas cenas passavam-se oito dias antes da invasão dos franceses no Porto. À notícia da aproximação de Soult nas trincheiras, Norberto de Meireles fechou a casa da Rua das Taipas, e foi para o Candal. D. Carlota Ângela, com sua tia e a noviça Doroteia saíram do convento para o Mosteiro de Arouca. D. Rosália instara para que a seguissem; mas Carlota vencera a vontade condescendente de sua tia, com lágrimas e rogos para que não aceitasse asilo que não fosse o de outro mosteiro menos susceptível de ser assaltado pelos franceses. O exército invasor derramou-se pelo Porto, no cevo do saque e da carnagem. As portas da casa da Rua das Taipas, malsinada aos franceses como bem recheada, não resistiram ao machado. Pouco lá havia que saciasse a cobiça dos salteadores. O denunciante esteve em perigo de ser acutilado, por lhes ter feito perder tempo em arrombar as portas para saque tão mesquinho. Ora, o denunciante era um vizinho de Norberto, seu inimigo, e capaz de dar um olho para que arrancassem os dois ao arrozeiro. Disse ele aos franceses que o seguissem além do rio, e ele lhes prometia boa presa, porque as imensas riquezas do negociante deviam estar na quinta. Seguiram-no os franceses, prometendo-lhe repartir com ele da presa, ou tirar-lhe a alma e os fígados, se os engansse, ou levasse a alguma emboscada. Ao avizinharem-se do Candal, deram rebate as espias de Norberto de Meireles. Calou-lhe na alma o medo, que amarelece a cara de gema de ovo, tapa os respiros do pulmão e promove a desordem dos intestinos todos. D. Rosália caiu de cócoras, e entrou a bater os queixos como em maleitas, e a resmungar fragmentos da Salve-Rainha e do Padre-Nosso. Dois criados da quinta, que, momentos antes, tinham estado renovando a escorva das clavinas e apostando a qual deles mataria mais franceses, apenas avistaram os penachos de dez ou doze daqueles, que, segundo os seus projectos homicidas, deviam ser levados a murro, deram a fugir por aqueles pinhais, como envergonhados de se baterem com tão poucos franceses. Chamava-os com desesperados berros Norberto, enquanto eles podiam ouvi-lo; mas não houve gritos nem promessas que os volvessem ao posto da honra. O negociante travou do braço da mulher, para que o seguisse, fiando a salvação na fuga. D. Rosália ainda se ergueu; mas vacilaram-lhe as pernas frouxas, e recaiu dizendo que morria, e queria ali morrer. O arrozeiro cuidou que a movia, assustando-a com a ideia de que os franceses a matariam, se ela não confessasse o esconderijo do dinheiro. A pobre mulher, petrificada de terror, não respondia a tais estímulos, e recalcitrava na pertinácia de se deixar matar. Enquanto ela murmurava um acto de contrição, preparando-se para morrer o mais catolicamente que pudesse, Norberto de Meireles seguiu a pista dos criados pela porta travessa da quinta, com o intuito de alarmar a freguesia, tocando a rebate a sineta da próxima capela. Os franceses arrombaram a primeira porta, e outras menos robustas, até entrarem no quarto onde estava D. Rosália de mãos erguidas, pedindo misericórdia. Um da malta, com o rosto coberto por um lenço, disse-lhe em claro e chão português que lhe não fariam mal a ela nem ao marido, se lhe dissesse onde estava escondido o dinheiro. D. Rosália respondeu que não sabia. A um sinal convencionado do intérprete, dois refles ameaçadores ladearam o pescoço da moribunda senhora. O homem da cara coberta admoestou-a de novo, pedindo aos franceses que suspendessem a morte por alguns momentos. Rosália, revalidando três vezes a condição de que não matariam seu homem, disse que o dinheiro estava enterrado na adega; mas que também lá estavam dois caixões de prata, e esses pedia que não levassem, porque não eram dela. Feito o juramento de respeitarem, não os caixões, mas a vida dos depositários, levaram em braços D. Rosália à adega, para a fazerem apontar o local onde convinha cavar. Meia hora depois, corriam contra a quinta de Norberto de Meireles, mais de duzentos homens da freguesia, reunidos pelo toque guerreiro da sineta, afora os fugitivos do Porto, que tinham atravessado a ponte, horas antes de lhe serem abertos os alçapões. Quando entraram na casa, com grandes alaridos e descargas, encontraram D. Rosália à porta da adega, prostrada num desmaio. Norberto adivinhou o sucesso horroroso. Entrou, foi direito ao tonel protector do esconderijo, achou a terra revolvida, levou as mãos à cabeça, soltou um grito cavernoso, e foi bater com as costas nos tampos sonoros do tonel. «Roubado! roubado!», exclamava ele, enquanto a multidão compadecida se derramava pelos áditos da quinta, procurando os franceses, e outros tratavam de restituir à vida a mulher do negociante, que parecia morta. Ao mesmo tempo, embarcavam os franceses, com a opima presa, defonte de Miragaia. No meio do rio, combinaram entre si desfazer-se do denunciante, que os importunava lembrando-lhes a promessa de um quinhão do roubo. A execução foi rápida como o plano. O português foi arrojado ao rio com algumas pancadas na cabeça; mergulhou, veio à tona da água, fincando-se na quilha do barco, à maneira de rémora, pendurou-se num dos bordos, os franceses convergiram para o ponto, os caixões escorregaram para esse lado, o barco inclinou-se tanto, e o barqueiro com tal arte ajudou à catástrofe, que se virou o barco: franceses e caixões tudo se sumiu nos abismos, salvando-se, apenas, o barqueiro, por ser grande nadador, e merecer salvar-se como instrumento que foi da justiça providencial. Não sabemos ao certo quantos contos de réis o Douro sepultou nos seus recôncavos. Mais de cem, afora o dinheiro e caixões do bacharel Sampaio, se calcula a perda. Os haveres de Norberto de Meireles estavam todos ali. Restava-lhe, apenas, a granja do Candal e a casa da Rua das Taipas; mas o arrozeiro, no mês imediato tinha que pagar letras, que os portadores, fiados na segurança do aceitante, não haviam apresentado no dia do seu vencimento, rogando-lhe, por favor, o conservar em seu poder os pagamentos até se restabelecer a ordem no giro comercial. Era, pois, desgraçadíssima a posição do pai de Carlota Ângela. Via-se pobre, e sentia-se desfalecido e velho para reconquistar o produto do trabalho e da astúcia, nem sempre legítima, de quarenta anos. Ainda mesmo que amigos e credores o ajudassem, como de feito o ajudariam, esse bálsamo não fecharia a chaga. A pena do seu dinheiro era uma angústia infernal, que as palavras animadoras da cristã e resignada esposa não aliviavam. - Deus o deu, Deus o tirou, Norberto! - dizia ela convidando-o pela religião à paciência. - Vai-te daqui com as tuas beatices! - respondia ele. Estamos pobres por tua causa. Se fosses uma mulher amiga de teu marido e de tua filha, não dizias onde estava o meu dinheiro, o meu dinheiro, o dinheiro da minha alma! E, exclamando assim com vozes que derretiam o coração, chorava como uma criança o pobre homem, arrepelando as suíças e os cabelos. Atalhava Rosália: - Não te mortifiques, Norbertinho. Eu se disse onde estava o dinheiro foi para te salvar a ti, porque o tal homem da cara coberta disse-me que tu estavas preso, e te matariam se eu não dissesse onde estava o dinheiro. - Deixasses matar; antes isso do que ficar assim... sem nada! - Ainda temos com que viver, meu amigo. Se éramos ricos, as nossas despesas poucas eram. Faz de conta, Norberto, que o dinheiro está enterrado onde estava tanto nos serve ele debaixo da terra, como na mão dos franceses. Sabes o que se há-de fazer? Tornemos a trabalhar como quando nos casámos. Para comer e vestir como até aqui, sempre hemos de ter. Aos credores dá-se-lhes alguma coisa do que se deve, e vai-se pagando o resto aos poucos. A nossa Carlota quer ser freira, e o dote pequeno é. Eu lho arranjarei com as economias que puder fazer. Tenho algumas jóias que se vendem, e pouco faltará para o dote de Carlota. Não achas que tenho razão, Norbertinho? Ora vamos, tem paciência, e agradece ao Senhor em nos ter deixado a vida. - De que diabo me serve a vida! ah! o meu dinheiro, o dinheiro da minha alma, que tanto me custou! Agora é que os outros me hão-de pôr o pé no pescoço. Como não estarão contentes os invejosos! Foram eles que me roubaram. Esse homem que trazia o lenço pela cara era algum dos nossos vizinhos, que não podia ver como eu ia medrando! Estou roubado! Levaram-me o meu dinheiro, a minha vida, o meu suor, a minha alma. Agora matem-me, com trinta milhões de diabos! Quero morrer, antes que me vejam pobre! Vou partir esta cabeça numa pedra, e tu fica para aí a pedir uma esmola, já que disseste onde estava tudo quanto tínhamos. Nestas e noutras lamentações, em que a blasfémia não faltava nunca, curtiu, no Candal, a empeçonhada existência o miserando arrozeiro, durante três semanas, até que lhe pegou uma febre, e uns frenesis de energúmeno, que o puseram às portas do Inferno. Salvaram-no algumas tisanas, e os confortos de dois ou três amigos compadecidos, que, rogados por D. Rosália, lhe foram dar esperanças de reaver com capitais emprestados, se não tanto quanto perdera, ao menos mais que o necessáriopara viver com decência e satisfação. A convalescença foi morosa, e arriscada com recaídas, procedentes de vertigens que advinham depois dos prantos pelo seu dinheiro. Voltando ao Porto, logo que o exército francês saiu, fez uma honrosa concordata com os seus credores, e retomou as rédeas do seu mister, ajudado pelos amigos e desvelos da mulher, que toda era energia, actividade, e carinho para fazer esquecer a pobreza a seu marido, preocupando-o com a esperança de enriquecer outra vez. Naquele tempo, porém, esta coisa a que hoje, em francês, se chama fortuna, não se alcançava com a rapidez de agora. A perda do proveito de quarenta anos lidados na vida comercial eram necessários outros quarenta anos para restaurá-la. Por isso que o caminho-de-ferro era uma utopia, e a celeridade do fio eléctrico um ideal dos contra-sensos impossíveis, a máquina de fazer dinheiro era um mito, em que se acreditava porque a moeda corrente era fundida e cunhada; mas nenhum particular julgava possível fazer em sua casa dinheiro. A posição de Norberto era, portanto, relativamente má. Descorçoado para as labutações do negócio, suficientemente obtuso para chegar por devesas e atalhos à estrada que os outros palmilham tarde e a más horas, o negociante decaído lá sentia em si roer a desconfiança de que não havia para ele mais readquirir a centena de contos, que tão perto dele estavam encalhados entre as fendas de alguma rocha. Esta descrença entibiava-lhe o ânimo, infundindo-lhe uma melancolia taciturna e letárgica, donde não havia nada que o pudesse divertir. Carlota Ângela, recolhida ao seu suspirado mosteiro, soube da desgraça de sua família. Ergueu as mãos ao Senhor, pedindo-lhe que aliviasse as mágoas de seus pais, e lhes desse, em troca da riqueza perdida, a esperança de maior felicidade no Céu. Quando D. Rosália disse ao marido qual era a súplica incessante de Carlota, Norberto respondeu: - Ora, qual Céu, nem meio Céu! Diz-lhe que peça a Deus que me dê dinheiro. Capítulo XIV Que ansias, que deseos, Que trabajos, conxogas, e sudores!... P. Pedro de Salles, Emblemas. Quando o corregedor Joaquim António de Sampaio foi supliciado, o general Botelho mandou examinar os papéis do jacobino com a esperança de encontrar algum que justificasse a violenta morte do magistrado, no caso e lhe serem pedidas contas do estranho feito. As leis militares não permitiam tal excesso, quando os réus não eram encontrados com armas na mão defendendo os invasores. No quartel-general de Botelho andava um ajudante-de-ordens que fora condiscípulo e amigo de Francisco Salter de Mendonça no Colégio Militar. Foi esse o encarregado de examinar os papéis. Mal tinha revolvido alguns maços de cartas sem importância, e ofícios de serviço público, uns assinados pelo governador do Reino, outros pela Junta Governativa, louvando todos a energia e zelo do magistrado, quando reparou num rolo de papéis atados todos com uma guita, sendo a capa exterior um sobrescrito que dizia: Ao Il.mo Sr. Francisco de Mendonça - Rio de Janeiro. O examinador, espantado de encontrar o nome do seu amigo entre papéis do defunto jacobino, receou que algumas inteligências desgraçadas e desonrosas para Francisco Salter pudessem existir com os clubes revolucionários. Antes que alguém entrasse no escritório, o ajudante-de-ordens do general Botelho escondeu o maço de papéis, e, ansioso de curiosidade, não tardou a examiná-los o mais escondidamente que pôde. Viu uma, outra, e outra até vinte e tantas cartas assinadas por Carlota Ângela. Outras tantas, se mais não eram, assinadas por Francisco Salter. Quem era esta Carlota Ângela? interrogava-se o confuso leitor das lagrimosas cartas. Como viera esta correspondência dar à mão do corregedor de***? Qual seria o valor oculto de uns papéis que tão estranhos pareciam ao funcionalismo do magistrado? O ajudante-de-ordens, logo que o exército invasor desalojou do Porto, foi ao Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria procurar Carlota Ângela para esquadrinhar o mistério da correspondência. Não encontrou alguém que o informasse: no mosteiro tinham apenas ficado uma freira demente, e duas criadas entrevadas, que apenas souberam dizer que a noviça Carlota Ângela fugira com sua tia para um convento da província. Prosseguia em inúteis averiguações o curioso militar, quando a Junta Provisória o nomeou para ir ao Rio de Janeiro dar parte das ocorrências da infausta invasão, e da derrota fabulosa que os franceses iam sofrendo na retirada. O emissário aceitou da melhor vontade a enviatura, esperançoso de encontrar no Rio de Janeiro o seu amigo da mocidade Francisco Salter de Mendonça. Apenas desembarcou, o primeiro oficial de marinha que lhe saiu ao encontro foi Salter. Logo ali se aprazaram para uma conferência de alguma importância, depois de entregues ao Governo as participações do Reino. - Que há de comum entre ti, e um tal Joaquim António de Sampaio, que foi enforcado no Minho? - Enforcado! - Sim, garroteado por jacobino, traidor ao rei e à pátria e à santa religião, como lá se diz. Conhecía-lo? - Perfeitamente. Esse homem era tio de uma mulher que me obriga a desertar amanhã, para ir procurá-la no Porto. - Se o teu fim é saber onde ela está, posso dar-te algumas informações. - Conheces Carlota Ângela?! - interrompeu alvorotado o capitão de marinha. - Conheço pelas amarguradas cartas que te escrevia. - Cartas! Quais?! Eu não recebi cartas algumas de Carlota. - Se as não recebeste, podes lê-las agora, porque eu sou portador de duas dúzias delas, que fazem chorar as pedras. - Como te vieram essas cartas à mão? Dá-mas. - Lá vamos; mas primeiro quero que me expliques como estas cartas foram à mão do tal corregedor enforcado. - Isso é uma história longa e atroz. Dá-me as cartas, que eu tudo te explicarei depois. - Pois sim: aí vão as cartas da Carlotinha, mas tenho no outro bolso outras tantas escritas à tua dama. - Por quem? - Por um nosso condiscípulo do Colégio Militar, que, segundo se depreende do ardor da linguagem, deve amá-la como um louco. - Quem é ele? - Um terrível paralta, que saiu da pátria deixando por lá nos mosteiros noviças apaixonadas. - Quem? Depressa... diz-me o nome desse homem. - Francisco Salter de Mendonça é como ele assina as lamuriantes epístolas: ei-las aqui. Tu me dirás agora se o corregedor era o teu alcaiote para a dolorida noviça. Salter devorava as palavras da primeira carta de Carlota, sem entender as ideias. De uma passava a outra, examinando nem ele sabia o quê. O sangue subiu-lhe à flor do rosto, inflamando-lhe as pupilas irrequietas. Era uma dessas alegrias que chegam a doer em seu frenesi. Ao rubor sucedeu a palidez súbita, e o suor da vertigem. Não lhe cabia o coração no peito, nem bastava ao afogo dos pulmões o ar que aspirava a profundos haustos. Soltou uma exclamação puxada do íntimo da alma, um ai desafogado, vibrante, e das entranhas como se lhe desentalassem a garganta quando o laço o fazia já estrebuchar em arrancos de morte. O condiscípulo estava pasmado deste conflito, e tanto se lhe afigurou respeitável o júbilo ou a agonia de Salter, que não ousou interromper a cena muda daquele lance. Salter lançou-se-lhe aos braços, chorando como uma criança, e proferindo afogadas exclamações, que pareciam os gemidos que faz soltar uma dor física incomportável. - Então isto é muito mais valioso do que eu supunha! - disse o ajudante-de-ordens. - Que feliz eu sou, se vim tirar-te de alguma dúvida tormentosa. - Trouxeste-me a esperança, a vida, o Céu! Estas cartas são dela, da minha esposa. - Tua esposa! Pois Carlota Ângela não é uma noviça? - Não; é apenas uma secular no Mosteiro de S. Bento. - Não foi isso o que me disseram no convento. - Pois o que te disseram?! - Procurei-a para ver se ela me aclarava o mistério dessas cartas. Disse-me uma criada que todas as religiosas tinham fugido aos franceses, e a noviça Carlota Ângela fugira com sua tia freira. - A noviça! Isso é impossível! - Será; mas foi isto o que se me repetiu fora do convento. Casualmente me encontrei numa casa onde se falava no grande roubo feito pelos franceses a um tal Meireles, rico negociante do Porto, que ficara pobre. Alguém disse que esse Meireles era o pai de uma noviça criança, que já tinha acabado o tempo do noviciado, e se chamava Carlota Ângela. Quis inquirir mais particularidades que me explicassem as tuas relações com a tal menina, e nada colhi. Propunha-me procurar directamente informações do negociante, quando fui encarregado da comissão que trouxe. Aqui tens o que sei, e o que não sei hás-de tu sabê-lo explicar melhor do que eu. - Sei tudo! - exclamou com força e precipitação Mendonça. - Sei tudo... Amanhã vou para Portugal. Já pedi licença e não ma deram. Não importa. Deserto. Julguem-me como quiserem; condenem-me, arcabuzem-me, mas que eu veja Carlota antes de morrer. Esta mulher é tudo quanto eu tenho na vida. Se eu não morrer por ela, se me não sacrificar na honra, em tudo quanto há mais sagrado na vida, sou um infame sem reabilitação perante Deus e a minha consciência. Se ela está morta, fui eu que a matei, não foi o malvado que me roubou estas cartas, e privou a desgraçada Carlota de ver as minhas. Já compreendes o segredo destas cartas? Esse homem que mataram, solicitou o meu desterro, para obstar ao meu casamento com a sobrinha. Interceptou a nossa correspondência com o fim de matar nela o amor com a certeza da ingratidão. Foi ele quem me enviou aqui um homem com a notícia de que ela se tinha casado. Eu esforço-me há seis meses em vão para conseguir licença de ir a Portugal salvar este anjo, e curar-me da desesperação que me tem levado ao extremo do suicídio muitas vezes. Agora creio que perdi Carlota. Quando chegar ao Porto estará ela já professa. Não importa. Quero vê-la, quero que ela me veja morrer abraçado aos ferros que a separam de mim para sempre. Esta minha agonia não tem igual neste mundo, meu amigo. Separam-me duas mil léguas da mulher que eu poderia salvar, se a visse neste momento. Porque a não procuraste tu? Porque lhe não mostraste estas cartas, que nos salvariam ambos? Podias ter-nos feito um bem, que eu te agradeceria de joelhos, e ela endoideceria de júbilo... Paciência... Já agora devorarei todas as torturas da dúvida com menos angústia. Ainda tenho uma esperança... Disseste-me que o pai de Carlota estava pobre. Talvez que não possa dar-lhe o dote para a profissão, talvez que uma doença retarde esse terrível acontecimento. Talvez que Deus se compadeça de nós ambos, e lhe inspire a esperança de tornar-me a ver. Nunca tive tanta confiança na misericórdia divina. É impossível que Deus veja com indiferença o terrível resultado da profissão. Eu vou arrancá-la do altar, vou disputá-la a Deus, vou amaldiçoar a religião cruenta que receber uma mulher que me pertente por um juramento maissagrado que todos os votos do claustro. Não cansou ainda aqui o fôlego da estirada declamação. Salter falou horas, e o amigo escutou-o com admirável paciência, até que pôde admoestá-lo que não fugisse, nem saísse do Brasil sem licença. Nem ao menos conseguiu com as mais atiladas razões retardar um dia a deserção. Já o amigo se oferecia para pedir ao príncipe regente a licença, trocando por ela a comenda da Torre e Espada com que Sua Majestade o agraciara, ao ouvir-lhe as novidades prósperas do Reino. Salter rejeitava conselhos e favores. O brigue saía no dia imediato, e não estava ainda marcada a saída de outro navio. Negarem-lhe a licença era já um capricho, se não antes uma desconfiança fomentada pelo bacharel Sampaio. Ao lado do ministro havia alguém que lhe insinuava a suspeita de ser Mendonça um forçado vassalo do príncipe, e um jacobino que Manique soubera desterrar a tempo. O Governo não dera ao capitão de marinha satisfação alguma pelos arbítrios do capitão-general, durante o tempo que estivera preso. O mais que fez foi dar-lhe liberdade, repreendendo-o por ter feito justiça com suas próprias mãos, sobre um homem que viera ao Rio em comissão de confiança. Salter tragou em silêncio o novo vilipêndio, e protestou, não só desertar, mas alistar-se no exército francês, e atirar-se como desesperado aos braços da morte, na primeira batalha que lhe deparasse a sua negra fortuna. Eram, pois, baldadas todas as reflexões do ajudante-de-ordens. A bordo do brigue inglês havia ordem para receber um marinheiro português, e um preto, marinheiro também. Ao anoitecer desse dia Francisco Salter de Mendonça, e o escravo que lhe assistiu durante a prisão, vestidos de marinheiros, foram recebidos no brigue. Na manhã do dia imediato, quando o ajudante-de-ordens, ansioso de alegria, procurava Salter para lhe entregar a licença que o príncipe assinara, contra as sugestões do ministro, o vaso inglês já tinha saído. O solicitador da licença foi dizer ao príncipe que o capitão da armada não pudera vir beijar a mão de Sua Majestade antes de sair, porque o brigue já tinha levantado âncora, quando a licença chegou. Este expediente fez que Francisco Salter não fosse julgado desertor, posto que as averiguações feitas pelo ministro contrariassem o depoimento do generoso amigo, que ficara destruindo a intriga. O romance deixa de ser impertinente e aborrecido. Vamos entrar nas cenas tristes e sombrias. Capítulo XV Crescei, mágoas, crescei, e crescei, dores; Quebrai o vagaroso e triste fio Que alonga a cruel Parca... Ferreira, Eleg. 5ª. As freiras dispersas recolheram ao seu Convento da Ave-Maria, um mês depois da entrada do exército anglo-luso no Porto. Carlota Ângela acompanhara sua tia, com quanto júbilo podia caber-lhe no âmbito da alma. Considerando a grandeza das penas que a flagelavam, só à religião deve conceder-se o místico poder de alívios e alegrias para a pobre, que tão infeliz era, e mais infeliz seria, se não tivesse a tábua da religião em naufrágio tão proceloso. Apenas entrou no convento, quis ver seus pais, dizendo que talvez eles, na desgraça, precisassem de que lhes falasse a linguagem da paciência, e da esperança nas riquezas do Céu. D. Rosália foi chorar ao pé da filha, e retirou-se consolada. Norberto de Meireles contou-lhe três vezes a horrível história do roubo, e chorou outras tantas lágrimas como punhos. Acudia Carlota com as unções piedosas da paciência, prometendo-lhe alcançar de Deus com orações e penitências a prosperidade do negócio que seu pai recomeçara. O arrozeiro dava como impossível a restauração dos haveres perdidos, e afiançava que não viveria muito tempo, porque a paixão do seu pecúlio, adquirido com tanta honra e trabalho, o levaria à cova. No tocante ao auxílio que os santos podiam dar-lhe para repor o seu comércio no antigo pé, Norberto era um iconoclasta requintado; não fiava nada dos santos, nem das jaculatórias, antífonas, e responsos de sua filha. Teimoso e cabeçudo como um filósofo, argumentava contra a religião, alegando em favor da sua herética parvidade que se houvesse Céu e Inferno não estava ele arrozeiro sem o seu pecúlio, porque tinha sido sempre bom cristão, e fora roubado por hereges. Este argumento não é decerto o mais estólido que se tem envidado contra a religião cristã, por parte da filosofia; donde se conclui que detrás de qualquer balcão se pode erguer um Ario, um Lutero, um Calvino, um Voltaire de tamancos, e arrojar ao seio da sociedade uma bomba recheada de argumentos incendiários como aquele. Assim como nós não sabemos que responder de repente ao ateísmo de Norberto de Meireles, Carlota Ângela não se nos avantajava em prontidão de dialéctica teológica, do que resultou sair o pai duas vezes da grade incrédulo como entrara. Uma vez lhe disse ele que perdesse a esperança de ser freira, porque não tinha dote, nem pedia emprestados cinco mil cruzados para empatar num modo de vida que não rendia sequer o juro da lei. Carlota sabia de mais as circunstâncias de seu pai, quando esta esperada revelação lhe foi feita. Serena e carinhosa, como sempre o fora, desde que a desgraça entrara em sua casa, respondeu-lhe que não tivesse ele o cuidado com a sua profissão, porque a prelada a recebia pela prenda da música, em que ela estudava continuamente, e a tia Rufina lhe fazia as pequenas despesas necessárias para a profissão. Estavam as cousas neste pé, quando António José da Silva, mercador de panos que foi na Rua das Flores, pessoa a todos os respeitos digna de larga crónica (como de feito teve n'A Filha do Arcediago) e um dos maiores credores de Norberto, se apresentou pedindo em casamento Carlota Ângela, estipulando as seguintes cláusulas: 1ª Pagaria todas as dívidas do sogro, e adiantaria dez mil contos de réis para casco de novo negócio, a juro de quatro e meio por cento. 2ª Compraria a quinta do Candal, já traspassada para pagamento de dívidas, e daria o usufruto dela a seus sogros, reservando para si a hortaliça necessária ao consumo da casa, dois gigos de maçã camoesa, dez alqueires de feijão branco, e os pastios necessários para quatro cevados. Item. Daria aos pais de Carlota paga e quitação das quantias que lhe estivessem devendo no acto de se lavrarem as escrituras de casamento. Item. Sua mulher iria viver na Rua das Flores, e não tornaria a ir aos balancés por onde costumava andar em solteira, nem trajaria vestidos como as fidalgas, nem andaria de corpo bem feito sem mantilha, quando fosse à missa, ou desse, aos domingos de tarde, um passeio até Campanhã, ou Valbom. Estes artigos depô-los sobre a mesa António José da Silva, em seguida à proposta de casamento, a que Norberto, embrutecido pela fortuna de semelhante proposta, respondeu logo que o negócio se havia de arranjar. E, sem perda de tempo, entrou o arrozeiro no pátio de S. Bento com uma cara tão festiva e gozosa, que deu nos olhos à madre porteira. Mandou chamar a filha, e rompeu assim o diálogo, com assomos de boçal jucundidade: - Estamos outra vez ricos, rapariga! - Ricos? - Sim, ricos! Alegra-te, Carlota. - Pois que foi, meu pai? Apareceu-lhe o seu dinheiro? - Quem dera isso! É cá outra coisa, menina! Estamos ricos, porque tu vais ser muito rica. - Eu!? De que maneira? - O António da Rua das Flores pediu-te em casamento. Carlota engasgou-se, quando soltava uma palavra ou exclamação imperceptível. - Não conheces o António José da Silva? Aquele rapaz que está podre de rico? Aquele que herdou a casa do patrão, aqui há três anos. Ora essa! Não conheces?! - Não conheço, nem quero conhecer, meu pai. - Tu que dizes, Carlota!? Pois tu não queres casar com ele?! - Não, Senhor. - Ó pobretaina de uma figa, pois tu vês que não tens nada, que os teus pais estão pobres como Job, e não queres valer aos autores de teus dias? - Não, meu pai, eu dou a minha vida aos autores dela, se a quiserem; mas o coração, que já dei a Deus, não pode ser de mais alguém. O pai não é tão inocente como parece. Devia supor que a minha resposta era esta. Quando entrei nesta casa, disse-lhe francamente as minhas tenções. Como elas não estavam dependentes dos tesouros de meu pai, a perda desses tesouros não as alterou na mínima coisa. Sou a mesma que era, e brevemente serei o que já não posso deixar de ser: uma freira pobre sem precisão de ser rica, com muito mais do que me é necessário para ir amparando a minha curta vida no serviço de Deus, e na penitência dos meus pecados, e dos pecados alheios. - Não quero sermões, com mil diabos! – vociferou o arrozeiro, batendo um retumbante punhado sobre a banqueta. - Não venho ouvir prédicas! Es minha filha, e hás-de fazer o que eu quiser. Não te dou o consentimento para seres freira! - Paciência: sê-lo-ei na intenção; mas não sairei do convento. - Hás-de sair por justiça. - Morta, pode ser. - Viva, e muito viva, eu to juro por esta luz que nos alumia! - Não jure, pai, que se engana. Ninguém será capaz de me arrancar com vida para fora desta casa. Quando eu não tiver forças com que me agarrar a estes ferros, nada se me dá que me levem para fora, porque a minha alma já terá subido daqui à presença de Deus. - Conta-me lonas, que eu te ensinarei. Filha maldita, que viste teu pai pobre e desgraçado, e não lhe valeste! Filha cruel, eu te amaldiçoo em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo. Amen. - Meu Deus! - exclamou Carlota. Ó meu pai, não profira semelhantes palavras! Não aumente a triste vida que eu tenho. Eu lhe prometo de trabalhar toda a minha vida para que em sua casa nunca haja a menor privação. Pedirei esmolas às senhoras religiosas ricas, para lhe mandar, meu pai. Não me amaldiçoe, que eu não lhe mereço esse castigo, nem é possível que Deus consinta que a sua maldição seja valiosa. Pelas chagas de Cristo, arrependa-se dessas amargas palavras que disse... A pobre menina, banhada em lágrimas, suplicava ainda de joelhos, quando Norberto de Meireles saiu da grade esbaforido, resfolegando vapores do interior vulcânico do peito. A passar por António José da Silva, que o esperava à porta da loja, na Rua das Flores, disse-lhe: - Nada feito. - Venha cá, Sr. Norberto, conte lá isso. Com que então não é o mel pra boca do asno; aqui calha melhor dizer da asna, digo bem, Sr. Norberto? - V. M. é pouco cortês, Sr. António. Se vamos a pôr as coisas no direito, ninguém pode ser asno sem sua licença. Lá porque a minha filha me desobedece, não dou ousio a V. M. de lhe chamar nomes, que é o mesmo que chamar-mos a mim. Se é rico, Sr. António, eu também já o fui, e não tratava ninguém de asno, porque aprendi a cortesia com as pessoas de bem com quem sempre tratei. - Não se enfade, homem - replicou o irmão da Sr.ª Angélica (honrosamente mencionada n'A Filha do Arcediago), pondo-lhe as mãos vermelhas, como dois molhos de rábanos, sobre os ombros -, não vá a Valongo por tão pouco, Sr. Norberto. Isto que eu lhe disse foi assim um modo de falar, sem àquela de injuriar a sua filha, nem a V. M., que tem os fígados, com lá diz o ditado, muito ao pé da boca. Entre cá, sente-se, desabafe, e veja se quer tomar um copo do da instituição da Companhia, e uma cavaca de Arouca para lhe dar ânimo. - Obrigado; não quero nada; passe V. M. Muito bem, e rasgue quando quiser o tal papelucho das condições que me deu... Aqui o tem. Enquanto ao que lhe devo, se V. M. não quiser esperar que eu lhe possa pagar, mande tomar conta do que eu tiver, e fica daqui já arrumada esta pendência. - Espere, homem, que ainda não chegaram as coisas a esse ponto. Eu quero falar com a sua filha, e mau é se ela me não dá o sim. Uma coisa é ir, outra mandar. - Não faz nada, Sr. António, digo-lho eu. A rapariga não fala como nós, e tem lá na cabeça um palavreado da breca, que não sei onde ela o foi aprender. Dizia-me o meu cunhado doutor (Deus lhe fale na alma) que a cabeça de Carlota era um vulcão. V. M. sabe o que é um vulcão? - Vulcão, pelos modos é... é o mesmo que balcão... - Bem no digo eu! Vulcão é uma coisa de lume que sai debaixo da terra. - Ah! - interrompeu o Sr. António, abrindo a boca como em testemunho da sua admiração. - Já entendo... Quer dizer que ela tem grandes fumaças de ser bonita!... Olha o milagre! Bonita é, mais há-as por aí tão bonitas como ela, que tomaram que eu as quisesse. Enfim, eu sempre lá quero ir, dê no que der. Assim como assim, nada se perde. O que for soará. Apareça por aqui amanhã, Sr. Norberto. Afoutado por tão estúpida esperança, António José da Silva teve a audácia de procurar Carlota Ângela.Vai ler-se o texto desta visita, porque foi ela uma das maiores afrontas que a desgraça fez à pobre menina. Todas as outras, confrontadas com esta, eram favores da fortuna. O Sr. António ignorava a prática dos conventos, no tocante a locutórios. Quando o introduziram, pela primeira vez de sua vida, em uma grade, o alapuzado moço achou-se afrontado com a vista dos ferros. Carlota apareceu com sua tia, meia hora depois que a esperavam. Esse espaço de tempo fora necessário à freira para convencer a sobrinha de que não era civil nem bonito deixar de receber a visita, qualquer que fosse a intenção da pessoa que a visitava. - Bons-dias, minhas Senhoras - disse António, avançando e recuando, três vezes, uma assaralhopada cortesia. - Não me conhecem? - Já soubemos que era o Sr. António José da Silva que procurava minha sobrinha - disse soror Rufina. - Já sabem ao que vim, pelos modos. - Ignoramos. - Venho a troco do que se passou com o Sr. Norberto. - Parece impossível! - acudiu Carlota. - Eu creio que disse claramente a meu pai o que é escusado repetir ao Sr. Silva. - A menina há-de fazer o favor de me ouvir um bocadinho, se não tem muito que fazer - disse António. - Pois não! Queira falar - disse Rufina. - Eu simpatizo com a Sr. D. Carlotinha desde que a vi nas Endoenças da Misericórdia faz agora cinco anos. Já então me deu na veneta de a pedir ao Senhor seu pai; mas rosnava-se por aí que a menina não gostava de rapazes do negócio, e tinha lá suas tendências para a farda. Meti a fala no bucho, e esperei até ver no que paravam as coisas. Depois aconteceu em sua casa a desgraça daquele grande roubo, o Sr. Norberto ficou mal arranjado de fortuna, e eu, como o outro que diz, fiquei sendo o mesmo homem a respeito da menina. Fui pedi-la a seu pai em casamento, e ele ficou a pular de contente, porque, a falar-lhe a verdade, não é por me gabar, mas seu pai não endireita mais a cabeça se eu não casar com a menina. Em primeiro lugar, rasgo as letras que se vencem contra o Sr. Norberto no mês que vem; depois empresto-lhe quase sem juro o capital necessário para ele montar o negócio no pé em que estava antes da quebra; depois, arremato a quinta do Candal em nome da Sr.ª D. Carlotinha, porque já ouvi dizer que a menina gosta muito da aldeia, e eu também não desgosto, porque lá como muito melhor, e as águas são mais leves. Pois é verdade: eu venho para este fim. Agora veja lá a menina o que decide. Se quer ser minha esposa, trato de arranjar os papéis, botam-se os banhos, e vamos a isto. Então que diz? - Já respondia meu pai - disse, com mal disfarçada cólera, Carlota Ângela. Não me queixo do Senhor por aqui vir com semelhante fim; creio que meu pai, por delicadeza, lhe não diria sem rebuço a minha resposta. Eu não caso com o Sr. Silva, nem com alguém. Resolvi ser religiosa. O meu tempo de noviciado acabou. Estou esperando a licença régia para professar. - Deixe-se de asneiras - atalhou António José, soltando um boçal frouxo de riso que indignou Rufina e enojou Carlota. - Pois a menina quer-se vir aqui meter nesta espelunca, podendo ser rica e viver regaladamente como pouca gente! Tenha juízo, criaturinha! Isto de convento é bom para quem não tem, como o outro que diz, um marido que lhe dê tudo o que for necessário para o aumento da sua pessoa, e que a traga nas pontinhas. Carlota erguera-se para sair. Rufina seguira o exemplo da sobrinha. António José da Silva permanecera refestelado na cadeira, até que se ergueu, forçado pela silenciosa mesura das duas senhoras, exclamando: - Então que diz?! - Minha sobrinha já respondeu ao Sr. António disse a freira afavelmente. - Com que então, nada feito? - redarguiu o lerdo aspirante ao matrimónio, que, dez anos depois, lhe empeçonhou a existência, segundo reza a crónica já citada, da qual entendemos que a leitora deve prover-se, se a zanga que lhe faz o bronco mercador de panos requer uma vingança superior ao delito. - Pois sabe que mais, Sr.ª D. Carlota? - prosseguiu, erguendo-se, com modos coléricos, e brutalmente canhotos: - Eu entendo o que isso é, e bem sei porque a menina anda a fingir que quer ser freira pra dar tempo a que ele volte lá do Brasil. - Ele! quem?! - exclamou Carlota com assomos de indignação, que só o olhar da tia sofreou. - Faça-se de novas! Pois não sabe quem?! O da marinha, aquele que lhe caiu lá no goto, porque trazia a cintura arrochada no fardalhão, que sabe Deus a quem ele o ficou devendo, quando foi para Lisboa... Carlota Ângela saiu precipitadamente da grade; soror Rufina ficou para explicar ao sandeu a descortesia da sobrinha; aconteceu, porém, que ele não se julgou afrontado pelo ímpeto da saída. - Sr. António - disse a freira -, V. M. está aí falando numa pessoa que morreu. Minha sobrinha não espera ninguém. - Eu não sabia que ele morreu! Isso agora é outro caso... Acho que fiz uma asneira em lembrá-lo à pobre moça! Faça favor de lhe dizer que me desculpe. Ora olhem quem havia de dizer que o tal rapaz dera à casca lá no Brasil! Pois eu cuidava que ela estava, como diz lá o outro, encantada por ele, como a doninha com o sapo. Ainda bem que ela lhe não caiu nas mãos, porque pelos modos o homem era jacobino, e melhor foi assim, não lhe parece, Senhora Madre? A freira não pôde deixar de sorrir ao título de Madre que pela primeira vez lhe fora dado. - Há? - tornou ele. - Está-se a rir?! Então que quer dizer lá essa risadita?! Isto parece-me casa de doidos, por mais que me digam. - Não deve aqui voltar, Sr. António - replicou a freira com muita brandura e graça - porque seria pena que o seu juízo perigasse nesta casa de doidos. - E olhe que a falar a verdade já me lembrou isso, e essa cousa que a Senhora Madre acaba de propor não me cai em cesto roto. Isso leva água no bico. A Senhora Madre lá lhe parece que a sua sobrinha é capaz de me fazer dar volta ao miolo? Não tenha pena do rapaz, que eu também a não tenho! (O Sr. António José da Silva tinha por esse tempo os seus quarenta anos). Quem chegou à idade adúltera (emende adulta) sem dar com as ventas no sedeiro, também já não cai na arreola de se apaixonar por quem lhe não sabe agradecer os afectos do seu peito; é como lhe digo, Senhora Madre, e pode dizê-lo tal e qual à sua sobrinha, que não vá ela cuidar que eu perco a vontade de comer. De tolas como ela está cheio o Porto. Tomara eu boa vontade de casar, que mulheres andam-se-me a meter pelos olhos com um palmo de cara sofrível, e bons dotes... cuida que não, Senhora Freira!? - Cuido que sim, Sr. António disse com a mais cómica paciência soror Rufina -, cuido que V. M. merece uma menina de merecimentos muito superiores aos da minha pobre sobrinha. Se ela o não sabe avaliar ao justo, é porque está inclinada para a religião, onde nem todas as pessoas são doidas, Sr. António. Vá V. M. na graça de Deus, escolha entre tantas meninas que se lhe oferecem a melhor, e seja muito feliz. As minhas obrigações não consentem que eu me demore. - Sempre lhe quero dizer mais uma palavra, se está para isso, Senhora Madre. - Contanto que seja breve... - Olhe lá. A Senhora quer fazer um contrato comigo? - Um contrato! Nós as religiosas não podemos fazer contratos, nem suponho que género de contrato possamos fazer. - Eu lhe digo. Se a Senhora fizer com que a sua sobrinha queira casar comigo, eu obrigo-me a dar à Senhora cem mil réis cada ano enquanto a Senhora Madre for viva... - Enquanto eu for viva? - atalhou a freira, sustendo com dificuldade o ímpeto do riso. - Sim, Senhora; tem cem mil réis em metal, pagos no princípio do ano, enquanto a Senhora for viva. - Não aceito. - Então quanto quer? Diga lá, que me pilha em boa maré! - Se me dá os cem mil réis por mais alguns anos... - Que é? Não entendo isso. - V. M. diz que me dá cem mil réis anuais; mas tira a condição de mos não dar logo que eu morra, não é assim? - Pudera não! Dou-lhos enquanto a Senhora Madre for viva. - Pois eu quero que mos continue a pagar por mais alguns anos. - A Senhora por mais que me digam está a mangar comigo! Então é doida ou não é?! E o caso é que já pegou à moça a toleima... Soror Rufina arquejava em gargalhadas indómitas, quando o lorpa lhe dirigia os últimos insultos. Não podendo mais sustentar-se na grade, a freira deixou o mercador a resmungar, e lançou-se a rir nos braços de Carlota, que a esperava chorando. Acabou-se o ignóbil episódio de António José da Silva. Aos que não conhecem esta raça inextinguível no Porto, aos que reputam desnaturada a linguagem que o romancista sacou da língua deste António, emprazamos para que estudem, e observem, hoje, neste ano de 1858, já passado quase meio século, os Antónios existentes, se é possível encontrar-se um António assim que não seja um lustre da nobreza coeva do gás e do telégrafo eléctrico. Capítulo XVI Quem quiser saber quantos são ao todo os filhos de Adão, conte primeiro quantos são os aflitos e atribulados. Bernardes, Nova Floresta. A filha de Norberto de Meireles esperava em vão que sua mãe com súplicas incessantes alcançasse do marido o dote para a profissão. O negociante poderia com algum sacrifício aceder às instâncias de D. Rosália; mas a pertinácia de Carlota em rejeitar a proposta de António José da Silva irritou-o de tal modo, que não houve convencê-lo a aceitar, a título de empréstimo, a dádiva do património que os pais da noviça Doroteia queriam dar à amiga íntima de sua filha. Ia mais por diante a brutalidade do arrozeiro, negando-lhe o consentimento. Ora, contra esta tirania nova, entre as tiranias de pais cruéis e bárbaros tutores, como se diz nos romances não menos bárbaros e cruéis, contra esta nova tirania trabalhavam na corte pessoas empenhadas a favor da noviça por intervenção de algumas freiras. Obtida a licença régia, graças à pouca actividade de Norberto, e talvez à diversão em que o traziam os cuidados e aflições de pagar as letras do Sr. António José da Rua das Flores, Carlota Ângela soube que seria freira sem dote, freira de prenda, como se chamam as meninas que tocam ou cantam, e dão a sua habilidade como equivalente de património. Foi um dia de júbilo no Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria o da chegada da licença. A profissão de Carlota era uma festa, em que todas as freiras tomavam parte. Os fartos meios, que lhes sobejavam, permitiam solenizar com todas as galas e majestade o acto augusto, que a noviça ansiava, chorando de alegria, e esperando com susto, como se temesse algum imprevisto obstáculo à sua felicidade. Chegou o fausto dia. Se entendem que não é impertinência descritiva debuxar à pressa os pormenores da profissão de uma religiosa beneditina, acompanharemos Carlota Ângela desde que a mestra, avisada pelo dobre do sino, a foi buscar da casa do noviciado para o coro. A noviça ajoelhou aos pés da prelada, proferindo as palavras do rito, que são uma súplica de misericórdia a Deus e à abadessa, que a interroga acerca do que pretende. Entre as mãos de Carlota estava a regra do patriarca S. Bento, se nessa postura devota e humilhada profere os votos. A grade do coro, onde se passa esta cena quase silenciosa, chega um sacerdote com a cruz processional entre dois candelabros, e após ele os paramentos. A noviça cantou com a voz tremida a carta da sua profissão. As últimas palavras mais as disséreis gemidos desatados de uma sufocante angústia. Lida a carta, o som melancólico do órgão parecia chorar com ela, cuja voz, em terceto com a da cantora e da mestra de noviças, entoou, três vezes, o seguinte verso: Suscipe, Domine, secundum eloquium tu um, et vivam, et non confundas me ab expectatione mea. Carlota foi ajoelhar ante o altar da Virgem, e depôs no respaldo-do altar a carta de profissão. O coro cantava, entretanto, um Gloria de tristíssima toada. Dali, foi ao meio do coro a professante, e ajoelhou sobre uma alcatifa entre quatro candelabros; ajoelharam todos, e entoaram uma ladainha, acompanhada a órgão, instrumental. As freiras assistentes ergueram nos braços a noviça enquanto se cantava o Veni, creator Spiritus, invocação de tanta religiosidade e compunção, que as lágrimas saltaram a um tempo de todos os olhos. Carlota foi prostrar-se diante da abadessa, que a despiu, ao passo que a trança dos cabelos era deposta numa salva de prata. Cingiram-lhe depois a touca e o véu, que o celebrante aspergira e incensara, e ajoelhara com ela. «Recebe, donzela, o véu sagrado - disse a abadessa, impondo-lho na cabeça -, para que chegues sem mácula ao tribunal de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual se dobram os joelhos no Céu, na Terra, e no Inferno por toda a eternidade». Sobre o ombro direito lhe colocaram em seguida umas disciplinas, acompanhando a acção com estas palavras: «Recebe, ó cara irmã, as armas da tua milícia.» O celebrante entoou uma oração, durante a qual as lágrimas da professante manavam copiosamente sobre as mãos de soror Rufina, que lhe amparava o rosto. A prelada proferia as últimas palavras da bênção final, o órgão acompanhava Benedictio Dei Patris, esse hino de acção de graças, que os anjos parecia sublimarem em acordes de celestial melodia, quando entrou na igreja um mancebo com tal ímpeto, que se fez reparado às pessoas por entre as quais rompeu com precipitada veemência. - Já professou? - perguntou o indivíduo maquinalmente a um rosto conhecido que proferira o seu nome. - Agora mesmo. - Professa! - exclamou Francisco Salter de Mendonça, correndo para as grades do coro. - Professa! Tudo perdido, tudo perdido! Encostado aos ferros do coro, com a fronte banhada de suor frio, e a luz dos olhos turvada, Francisco Salter estava já amparado entre os braços das pessoas que o reconheceram. Fez-se um grande rebuliço na igreja. A multidão aglomerava-se em redor do oficial de marinha, sem poder averiguar a causa dos gemidos que se ouviam no coro. Não eram de Carlota Ângela esses gemidos. A infeliz diríeis que adivinhou a entrada de Salter na igreja, porque, erguendo-se de repente, antes que a prelada pronunciasse as últimas palavras da bênção final, correu à grade, soltou um ai sufocado, como se outro não pudesse já soltar do coração expirante, e caiu desmaiada nos braços de algumas freiras, que lhe tinham seguido o movimento arrebatado. Soror Carlota foi transportada à sua cela, sem sentidos. Francisco Salter de Mendonça recobrou alento e razão, quando se viu espectáculo de tanta gente, e pediu licença para sair. A serenidade que de repente lhe assomou ao rosto causava novo espanto aos amigos ou conhecidos que se empenhavam em o levar dali. Entre esses havia um que tinha o segredo daquela grande desventura, e lhe pediu mui encarecidamente que o acompanhasse para sua casa. Mendonça rejeitou com tranquila urbanidade os oferecimentos, e parecia surdo às consolações. O sorriso contrafeito, com que desmentia as lágrimas que lhe aguavam os olhos, pressagiava alguma grande desgraça. Um suicídio foi o receio das pessoas a quem o misterioso acontecimento foi de boca em boca revelado. Por fim, Mendonça desoprimido do concurso que o rodeava ainda no adro da igreja, entrou no pátio do mosteiro, foi com sereno aspecto à portaria, e pediu à madre porteira o favor de o anunciar à Senhora Religiosa que acabava de professar. Concorreram algumas freiras a ouvir este recado, e todas à uma balbuciaram não sabemos que palavras de consolação religiosa, que Francisco Salter parecia não ouvir. Imóvel permanecia ele, esperando a aparição de Carlota, quando lhe indicaram a grade onde ele devia esperar que lhe falassem. - É a Sr.ª D. Carlota Ângela que eu procuro – disse ele com imperturbável firmeza. - Pois suba para a grade, que o estão lá esperando. - Mas quem é que me espera, Senhoras? - Alguém é... - responderam as freiras. - Quem eu procuro, e com quem preciso falar, é a Senhora que professou há pouco. Não conheço mais alguém nesta casa. - Pois queira subir... - disse o padre-capelão do mosteiro, que neste momento viera colocar-se ao pé de Francisco Salter. - Eu acompanho V. S.ª à grade onde o esperam - continuou o padre, dando-lhe o braço, e guiando-o automaticamente para a grade, onde o estavam esperando. Mendonça encontrou na grade uma freira desconhecida: era soror Rufina. - Creio que não lhe será desagradável - disse ela encontrar uma tia de Carlota. - Quisera antes, minha Senhora, encontrar sua sobrinha. - É impossível; minha sobrinha não dá acordo de si, nem dará tão cedo. V. S.ª devia presumir isto mesmo, antes que lho dissessem. - Porquê, minha Senhora? - Porque minha pobre sobrinha o julgava morto, todas nós as amigas da infeliz o julgávamos como ela: eu mesmo agradeço a Deus as forças que me dispensa para poder vir a esta grade rogar de mãos erguidas ao Sr. Mendonça que não diga à desgraçada uma palavra que a pode matar; não lhe lance em rosto a falta de palavra, que seria afrontá-la e dar-lhe o último empurrão para a sepultura. - E disse eu já que vinha lançar em rosto a Carlota alguma falta? Não venho, minha Senhora, não. Eu vim a querer enxugar-lhe as lágrimas que a minha aparição lhe fez chorar. - Carlota por ora não pode chorar, Sr. Mendonça. Para tamanha dor não há tal desafogo por enquanto, e Deus sabe se alguma vez o haverá... Eu não conto já com a vida de minha sobrinha. Vamos ser neste convento testemunhas de uma agonia muito atribulada. Deus lha dê curta, ou me leve a mim primeiro, por misericórdia. Duas horas antes, Sr. Mendonça, tê-la-ia talvez matado de alegria com a sua presença. Assim, matou-a, há-de matá-la de pena, de desespero, de dores infernais, que não hão-de obedecer aos confortos da religião. - Que são confortos da religião?! – interrompeu Mendonça, carregando o sobreolho com a turvação da blasfémia. - Aterra-me essa pergunta, Sr. Mendonça. - Não se aterre, minha Senhora; responda-me antes a uma pergunta: o Deus que há-de consolar Carlota é o mesmo que viu impassível até este momento a minha desgraça e a dela? - Altos juízos do Senhor! Por quem é, não lhe fale essa linguagem à pobre Carlota! Ajude-a a suportar o peso da sua dor, com os olhos postos no Céu. A impiedade não serve de nada, Sr. Mendonça. A respiração da blasfémia traz para o interior do coração o fogo do desespero. Se a vir sucumbida, dê-lhe ânimo para a paciência, venha aqui todos os dias, dê-lhe a felicidade que a religião dos infelizes não condena; amigo, seja o irmão extremoso da minha pobre sobrinha. Prometa-me isto que eu vou preveni-la pouco e pouco, até que ela possa encará-lo com firmeza e confiança. Se a acusar de inconstante, Sr. Mendonça, olhe que a calunia cruelmente. Há-de saber da boca de Carlota que dois anos de martírio ela tem amargurado neste convento. - Sei, Senhora. - Que desenganos, que torturas, que repetidas lutas com a desesperação, e que ferventes súplicas ela fazia a Deus para que a levasse, desde que lhe deram como certa a sua morte! - Tudo sei, minha Senhora. Já vê que a não posso condenar. Eu venho pedir-lhe consolações, venho aprender a paciência, venho pedir-lhe coragem para não tentar contra a minha vida. - Peça, peça, e verá que a minha santa sobrinha lhe ensina a consolação do sofrimento, o bálsamo divino da paciência, e o segredo de achar a alegria na vida que tão desgraçada lhe parece. Hoje, não, Sr. Mendonça; Carlota a esta hora precisa de que a animem, se é que Deus não quer que este golpe seja o último no débil fio da sua existência. Eu vou para junto dela, parece-me que a estou ouvindo pronunciar o seu nome, e eu corro a dizer-lhe que encontrei no Sr. Mendonça o irmão, o amigo carinhoso da nossa Carlota. Deixa-me dizer-lhe isto, Sr. Mendonça? - Diga, diga, que é preciso salvarmo-la, ainda mesmo que ela não me torne a ver. - Porque não há-de ela tornar a vê-lo?! Então quer que a infeliz morra atormentada? Tenha compaixão de nós, Sr. Mendonça! Outra freira desta casa talvez lhe pedisse que não voltasse aqui mais. Eu, pelo contrário, lhe rogo que venha todos os dias, que seja testemunha de todas as lágrimas salvadoras que ela chorar, que lhe prometa uma afeição pura sem manchar a santidade das obrigações religiosas de Carlota. Pois a amizade imaculada não é o reflexo do amor divino? O Altíssimo não condena o coração de minha sobrinha, cheio de um amor que há-de entrar com a alma na bem-aventurança. Eu tenho presenciado nesta casa afeições de muitos anos, de longas vidas dedicadas ao amor do coração, sem contudo macularem a religiosidade dos deveres. Todo o mundo tem obrigação de respeitar oamor de minha sobrinha ao homem que ela chorou dois anos, chorava ainda no instante em que lhe apareceu. Venha, Sr. Mendonça, venha aqui todos os dias, e verá como o tempo amacia os espinhos que o mortificam. Há-de chegar a esquecer-se das dores que sofre neste momento, e a sentir as lágrimas de uma amizade santa e pura. O diálogo foi cortado por uma pressurosa chamada a soror Rufina. Carlota recuperando os sentidos, chamava Francisco Salter de Mendonça, e forcejava por evadir-se dos braços que a sustinham. Algumas religiosas estavam passadas de religioso terror, vendo-a, ainda vestida com os hábitos da profissão, invocar tão aflita e descomposta o nome profano de um homem que, no entender das servas de Deus, devia considerar-se de direito morto, quando o não estivesse de facto. Algumas escrupulizaram de assitirem ao debate da professa nos braços das mais novas, e congregaram-se na cela da escrivã para decidirem que o Demónio entrara no corpo de Carlota. O voto da mais autorizada era que se chamasse o capelão para exorcismar a energúmena. Outra acrescentava que, no caso infausto de contumácia diabólica, seria útil e piedoso dar parte do sucesso ao bispo, para que este obrigasse Francisco Salter a sair do Porto, como perturbador daquela casa. Entretanto, soror Rufina, chamada da grade, onde deixara Mendonça esperando saber o estado de Carlota; pedira às amigas menos escrupulosas de sua sobrinha que a deixassem só com ela. - Francisco desejava ver-te - disse Rufina. – Logo que tenhas força e vontade irás ver o que é um amigo do coração, um anjo de paz que Deus te envia, assegurando-te que a felicidade do espírito não destrói a felicidade do claustro, que a esposa do Senhor pode ser a irmã extremosa do homem a quem amou. Carlota cravava os seus grandes olhos no rosto risonho da tia, como se não compreendesse. A freira continuou: - Esperavas que Mendonça te viesse lançar em rosto a tua impersistência, minha filha? Não, Carlota, Mendonça sabe tudo. Diz que vem procurar as tuas consolações, a fim de não tentar contra a própria vida. Vês tu, menina, que sublime encargo Deus te confia no momento em que as tuas angústias tocam o extremo? Tens de amparar a vida do nobre moço, de lhe dares consolações... - Eu, meu Deus! eu consolá-lo - exclamou Carlota, arrancando impetuosa-mente o véu. - Há uma só consolação possível para nós. Anulem-me os votos que fiz. Não posso ser freira, não quero ser freira. Deus sabe que fui atraiçoada, que professei porque me mentiram, e eu não minto a Deus. Minha querida tia, eu sou agora mais desgraçada do que nunca. Morro impenitente, se me não dizem que é possível anular um juramento falso que me obrigaram a dar. - Carlota! tu não compreendes a felicidade neste mundo sem o crime? - Crime! qual foi o meu crime? que fiz eu para merecer este castigo? Onde está Deus, que me não amparou antes deste desgraçado passo que dei hoje, e me não mata agora, se não posso remediá-lo? - Isso é uma blasfémia, filha! O Demónio da tentação não quer deixar-te gozar as alegrias puras que Deus te permite. - Alegrias, minha tia! Pois cuida que se engana assim a aflição? Alegrias para mim, que estou condenada a um cárcere perpétuo, que hei-de ver sempre entre mim e o esposo da minha alma uma barreira de ferro, que nem posso sequer esperar que ele venha recolher o meu último suspiro?! Vê-lo todos os dias... oh! esse é o mais horrível de quantos padecimentos podia antever a minha imaginação! Antes acabar no desespero, sem vê-lo! Antes morrer aqui abafada sem que ele seja a desgraçada testemunha das minhas agonias! Que hei-de eu dizer-lhe, ou que há-de ele dizer-me a mim? Se ele me pedir contas dos meus juramentos, se me lançar no rosto a minha falta de fé, se me perguntar como pude eu sobreviver à certeza de que ele tinha morrido, que hei-de eu responder? - Diz-lhe que vestiste o hábito de eterna viuvez, que escolheste a vida mais pura, para que as orações por alma dele fossem mais gratas ao Senhor. Diz-lhe antes que escolheste o mais longo paroxismo de uma morte atribulada; que pudeste acreditar que ele violara o seu juramento; conta-lhe tudo quanto a traição inventou em teu dano; diz-lhe que ainda convencida de que ele morrera, depois de atraiçoar-te, lhe perdoaste, e caíste de joelhos aos pés da cruz, pedindo à misericórdia infinita que lhe perdoasse o perjúrio. Que mulher houve neste mundo tão forte da sua inocência como tu para poder apresentar-se com o rosto imaculado na presença do homem que lhe vem pedir contas? Qual é o teu crime, infeliz? Não te disseram a ti que Francisco esposara outra mulher no Rio de Janeiro? Não te afirmaram que ele morrera depois? O silêncio de dois anos não estava sempre confirmando o cruel desengano das tuas esperanças? Quem te há-de acusar, Carlota? - Ele, minha tia. Eu tinha obrigação de não acreditar a calúnia! Eu fui mais vil e miserável que os infames que urdiram a minha desgraça! Não tenho ânimo de lhe aparecer, não sei como possa defender-se a minha fraqueza, nem quero defender-me, porque sou eu a que me acuso de indigna do perdão deste homem, que eu fiz tão infeliz... Há um só remédio, minha tia... Se mo não dão, nem quero mais vê-lo, nem prometo respeitar a religião que nos manda suportar com paciência o peso da vida... e que vida, meu Deus!... que vida de Inferno me seria esta, se eu não pudesse arrancar do coração esta brasa viva que me está atormentando! - Pois que queres tu, Carlota! Valha-me a Virgem Santíssima! Que se há-de fazer, infeliz criatura? - Anulem-me os votos, deixem-me ir lançar aos pés de quem pode restituir-me a minha liberdade. Não posso ser freira, declaro bem alto para que todos me ouçam nesta casa, e me desculpem do mal que eu fizer; não posso ser freira sem dar grandes escândalos, sem insultar a virtude das pessoas que me rodeiam, sem amaldiçoar a hora em que professei, e a religião que me manda, morrer sem desabafo. - Carlota! pelo amor de Deus! - exclamou soror Rufina, tapando-lhe a boca, e abraçando-a com convulsivo terror. - Teme o castigo do Céu, minha filha. Arrepende-te dessas blasfémias, e Deus não permitirá que tu comeces a expiá-las neste mundo com a desonra... Tu não sabes o que disseste, Carlota! Foi a desesperação que a fez falar assim, minha Mãe Santíssima; não consintais que ela seja castigada! Alcançai de vosso Filho um bocadinho de refrigério para esta desgraçada que a dor enlouqueceu. A freira continuou uma súplica assim aflitiva diante da imagem da Mãe de Deus. Carlota Ângela correra impetuosamente para o mais escuro da casa, e lá prorrompera, sozinha, em prantos, que não eram de contrição, nem sequer de desafogo à sua grande angústia. Apertavam-na ainda os frenesis da desesperação enraivecida e ímpia. Rebatia com gestos furiosos as tímidas consolações da tia e da meiga Doroteia, cujas palavras mais suavemente lhe deviam falar ao coração, se a quase demência a não tivesse assaltado com vertigens de quarto em quarto de hora. Francisco Salter recebeu, ainda na grade, a triste informação do estado de Carlota. Perguntou ele a soror Rufina se teria dúvida em entregar-lhe uma carta. A freira hesitou enquanto Mendonça lhe não disse que a carta seria um lenitivo para Carlota, e talvez um bálsamo de completa cura. Qual deva ser a eficácia desse bálsamo infere-se da carta que se copia textualmente no capítulo imediato. Capítulo XVII Dans le monde tout est confondu. Les juges ne sont plus que des burreaux, qui offrent des victimes humaines à ce Dieu mensonger qu'on appelle de Droit et la Justice. L'homme sans foi devient un sage et le sage une dupe. Le héros qui donne sa vie pour la vérité n'est qu'un malheureux fou, qui s'est sacrifié pour une chimère. Qu'iI meure désespéré sur les pavés sanglants ohjet de 1'indifférence de Dieu et de la raillerie des hommes! Jules Simon, Le Devoir. «Carlota. O destino esmaga-nos, se sucumbirmos. Coragem, intrepidez de desesperados, é a nossa salvação... A sociedade pôs-nos um pé sobre o peito: o coração geme nas agonias da morte violenta; mas não morrerá. Afrontemos os assassinos. Vamos direitos ao encontro da infâmia. A nossa vingança é viver. A nossa vingança é enxugar as lágrimas, e sufocar os gemidos. A nossa vingança é fazer a sociedade responsável perante a sua própria consciência do crime que ela própria há-de condenar, depois que nos queimou na alma o germe da virtude. «És freira, Carlota Ângela. Forçaram-te a violar a palavra jurada, cujo cumprimento vinha pedir. Disseram-te que eu te atraiçoara e morrera. Tinhas obrigação de defender a minha honra, enquanto eu não viesse da sepultura pedir-te perdão da perfídia. Não te condeno, nem sequer me queixo. Entre a perversidade dos que te rodearam e a tua inocência, a luta era desigual. Fraqueaste, porque a desgraça exigia que eu bebesse o último trago do meu cálix. Eu não podia deixar de ser infeliz até à extrema deste inferno. Aqui deve ser o termo final da minha condenação. Não se pode ir mais além. Suicidar-me seria desmentir a fortaleza com que tenho arrostado a desventura até hoje. Chorar contigo, devorar em silêncio um dia e outro dia, na escuridade da desesperação, o resto de duas vidas tão miseráveis como as nossas, seria escolher a pior das mortes, o paroxismo prolongado, sem desafogo nas crenças, sem refúgio na esperança de outro mundo. «Não creio, nem espero nada além desta vida, Carlota. «Se te sentes arrebatada para a grandeza do Criador, repara na miséria das criaturas. Deste asqueroso lamaçal de sangue e lágrimas, para onde nos empurrou a mão humana, como queres tu que o espírito possa levantar-se para Deus?! Não há justiça na terra, nem providência no Céu. O sumo bem é um sonho dos corações oprimidos, quando a opressão não estala os últimos filamentos da fé, quando a angústia não é tamanha que cerre todos os respiradouros da alma. Se há Deus, a sua inércia, à vista das atrocidades que sofremos, é igual à indiferença, à impotência, ao nada. Nas minhas e nas tuas dores, a justiça eterna permaneceu insensível, como se temesse ou aprovasse a infâmia dos homens. «Não baixou do Céu um anjo que te dissesse: «Aquele que te ama, vive em torturas, arcou já triunfante com a morte, esmagará por fim o preconceito da honra, e virá buscar-te. Não dês a Deus um coração que não podes dar. Não jures ante o altar um voto que implica a morte do homem que a estas horas, sobre o mar, me está pedindo que te dê forças para o sofrimento, que te ilumine com um clarão de esperança, que te povoe os sonhos com a imagem dele». «Falou-te assim um anjo, Carlota? Não. Em redor de ti estava o terror do desconforto, o silêncio da desesperação, o desamparo, e as piedosas lamentações de algumas almas boas que te mostravam o Céu, porque a vida se te havia convertido em Inferno. «Eu gemi num cárcere longos meses. Visitou-me a fome, a sede, o frenesi da loucura, o terrível nunca mais, essas duas palavras malditas que encerram todo o fel das amarguras humanas. E, no tumultuar de tantas penas injustas, nunca a justiça divina me disse que esperasse o dia do resgate, a coroa do martírio imerecido, a vista da mulher chorada que me vinha consolar nos instantes do letargo, e fazer suave a pedra em que eu encostava a cabeça abrasada. Nunca. Gemi no desamparo, como o malfeitor repulsivo, que a sociedade lançou de si maldito, e maldito de Deus nem sequer podia esperar a purificação do remorso. «Que mal fizeras tu, pobre mulher? Porque te mortificaram os homens, e como consentiu um Deus justiceiro o tormento que te deram? «Que mal fizera eu, homem de consciência pura, que passei os anos da minha mocidade estudando os raros exemplos de virtude que me encantavam o coração? Padecemos, porque fomos escravos da honra, Carlota Ângela. «Se eu passasse por cima dos respeitos humanos, terias sido minha amante, serias hoje minha esposa, e a sociedade apontar-nos-ia como modelo de amor fiel e devotado a todos os sacrifícios. Faltou a culpa, para que a fortuna nos não ludibriasse. Era necessário o crime para sermos hoje felizes. A virtude o que é? «A minha honra reduziu-me a isto que eu sou. Sacrifiquei-te aos deveres que a minha probidade me impunha, e fiz-te a desgraçada que hoje és. «Quero salvar-te, Carlota, e quero que me salves. «Aparece-me, filha da minha alma; vem ouvir-me, porque a nossa época de felicidade começa hoje. Não há para nós neste mundo mais que nós mesmos. Tudo que se opuser ao destino que vamos seguir, é mentira, é perfídia, é uma nova traição que te armam, Carlota. Sorri à esperança, mártir! Irradie em volta de ti o sol de esperança que me está abrilhantando o futuro. O coração delira-me de alegria no peito, onde não cabe. Agora conheço que me pertences, que te não perdi, que és minha por um direito de torturas, que valem mais que todos os juramentos. Sacode as algemas que a hipocrisia te encadeou nos pulsos. Deixa voar o coração, que um voto sacrílego ou impostor te asselou ao nada de uma esperança estúpida ou fementida. És livre, Carlota. A tua alma não podia obedecer às sugestões de malvados, porque era minha. «Agora te digo que venho pedir contas do teu juramento. «Carlota Ângela, estou aqui! Pertences-me». A freira acabava de ler esta carta, e correra à grade, onde a esperava Mendonça. Não dizem os nossos apontamentos o que se passou na grade. Se escrevêssemos de imaginação, dava-se aqui um diálogo plangente, travado de exclamações, umas de expansão maviosa, outras de frenesi insano. O mais natural, na situação dos dois infelizes, é chorarem longo tempo silenciosos. Devia a sua dor ser uma das que sufocam e entalam na garganta o gemido. A desesperação mataria neles o júbilo de se verem: a freira não poderia dizer a Mendonça: «sou tua». Naquelas grades, duras e inflexíveis como o «cumpra-se» terrível do destino, estava escrito o IMPOSSÍVEL. Entalá-las, espedaçá-las, só a mão sacrílega do crime poderia. Carlota há-de rasgar o véu, há-de calcar o hábito, há-de passar por cima da sua virtude, da sua religião, do seu esposo celestial, se quiser dizer a Mendonça: «sou tua». Devia, pois, ser melancólico além do exprimível o que aí se passou nessa grade; triste, e desgraçado direi, a julgá-lo pelas consequências, que se vão descrever, com um certo pesar em que esperamos tomem os leitores o seu quinhão de pena, se não todos, ao menos aqueles que não dão nada pela felicidade da terra, quando ela implica ofensa ao Senhor do Céu. Se as calamidades que promanarem desse encontro não forem das que matam os agentes da sua própria desgraça, e, ao mesmo tempo, escandalizam a moral, a quem há-de a moral condenar? Em que ponto desta escabrosa senda da vida quereis que se levante o sinal de aviso para acautelar os ignorantes do abismo que as flores escondem? Não sabemos, não o sabem os que têm a experiência das quedas, e vão caindo sempre de golfão, para onde os alicia com blandícias uma atracção satânica. Estamos fartos até ao tédio de ouvir dizer que o homem é bom, que o homem é mau. O homem não é bom nem mau de seu natural: é aquilo que o fazem ser; é o que realmente deve ser neste mundo, segundo a organização deste mundo, organização viciosa, aleijada, falsa, pecaminosa, quer o defeito começasse no paraíso terreal, quer nos multiplicados infernos que as idades se foram inventando através das civilizações. O leitor tem o juízo necessário para se não dar à canseira de interpretar essas linhas assim com assomos de dogmáticas. Este romance peca por acaso em divagações filosóficas, e nisso está cifrado o mérito não vulgar de um livro que sustenta o carácter singelo e lhano desde a primeira página, para que aos mais míopes se não esconda a luz debaixo do alqueire. Reparou soror Rufina em sua sobrinha, na volta da grade; achou-a serena de mais, risonha, até; um lampejo de alegria interior que lhe reacendia nos olhos a luz que as lágrimas haviam apagado. A velha freira, já apalpada por infortúnios de amor, não conjecturou daquela inesperada alegria tão inocentemente como Carlota cuidava. O temor que a sobressaltou pressagiava a verdade, mas tão desgraçada era a verdade, que a freira antes quis desmentir o próprio pressentimento, do que interrogar a sobrinha, inocente talvez. - Como vens alegre, Carlota! - disse ela. - Fiquei mais desoprimida, minha tia; o muito chorar faz bem... estou muito melhor, e agora espero vencer o infortúnio. - Com que armas, filha? - Com que armas?... Com as da resignação... A maldade, a guerra que o mundo faz a fracas mulheres como eu, só com a paciência se sustenta. - E Mendonça aconselhou-te a resignação? - disse a freira com suspeitoso intento. - Ele? Tomara o infeliz quem lhe ensinasse o remédio das suas aflições... Nenhum de nós é forte; somos ambos por igual desgraçados e fracos para lutar com as perfídias que nos fazem, ou que nos fizeram. O remédio único é gemer até à morte, dar à sociedade o regalo de nos esmagar, sofrer-lhe na garganta o pé com evangélica submissão. Entende-o assim, minha tia? - Que modo de perguntar é esse, Carlota?! Eu estranho-te... - Estranha-me!? Pois queria que eu voltasse da grade mais aflita do que fui? - Não; esperava que as tuas palavras fossem mais sinceras, filha. - Pois não são?! - Há ironia nesse elogio que fazes à tua paciência. O coração de uma mulher não é assim. Concilias-te muito depressa com o sacrifício. A virtude não se alcança assim tão rápida e essa paciência, que te impões, é a virtude suprema. Não, Carlota, não. Tu... Tremo dizer-to... - Diga, minha tia. - Tu, filha, meditas um desatino. - Um desatino!... - Sim, Carlota; tu intentas fugir do convento – disse a freira com pavor. - Não, tia... - balbuciou a trémula religiosa, mudando subitamente do semblante sereno para os gestos alvoroçados da surpresa, do medo, reflexivos da agitação interior que fizera nela o ar assombrado da tia. - Não balbucies, desgraçada! O teu rosto está confessando o desvario do coração. Diz com ânimo, filha, confia à tua amiga essa resolução funesta, que não executarás, sem que as minhas lágrimas te demovam de tal desgraça. Oh! não faças tal, infeliz, que te desonras para o mundo e te perdes para Deus. - Minha tia! - exclamou Carlota, abraçando-a, e soluçando palavras inarticuladas. - É pois certo? - tornou a freira. - É certo, minha tia, é certo que ou Deus me mata, ou eu fujo. - Jesus! Maria Santíssima! Que dizes, Carlota! - Não posso desdizer-me, minha querida tia. Eu sou do homem que amo. Não vejo nada neste mundo senão ele, e as suas lágrimas. Mas as suas lágrimas são-me menos preciosas que a vida de Francisco. Sofreu muito o meu desgraçado amigo, sofreu muito; é preciso que eu o indemnize com a minha reputação, com a vida, com os sofrimentos de todas as pessoas que me estimam. Eu hei-de ser menos infeliz, e ele será feliz quanto se pode ser... - À custa de um crime... Carlota! - De um crime que é o resultado de muitas infâmias urdidas contra a nossa felicidade. É um crime só o nosso, um só; Deus perdoa, e, se não perdoa, aceito o Inferno, se há Inferno, aceito... - Cala-te, desgraçada, que insultas a Religião; cala-te aí, que enlouque-ceste, Carlota, e Deus bem sabe que a tua razão desvaria! - Não, minha tia. Eu sinto-me no meu perfeito juízo; a desesperação enlouquecia-me de antes algumas vezes, mas a esperança restituiu-me hoje o vigor da minha antiga razão; com a diferença que de antes assustá-la-iam os juízos do mundo, que a subornavam, e hoje a minha razão vê tudo como tudo é, sente-se livre, e capaz de destruir todos os obstáculos que uma falsa piedade me puser. - Mas tu não és já senhora de tuas acções, Carlota! bradou a tia com azedume. - Sou. Emancipou-me o infortúnio. Se me cortarem todos os meios da fuga, resta-me o recurso do suicídio; aparecerei morta no pátio do convento. Soror Rufina ficou transida. Carlota contemplou-a com pesar naquele quietismo terrível. Estava a pobre senhora com a face apoiada sobre os joelhos, e as mãos erguidas. A filha de Norberto quis diverti-la da letargia; mas a gélida face da freira parecia de pedra, apenas as lágrimas borbulhavam incessantes nas mãos da sobrinha. Ao lado, porém, da consternada anciã estava a imagem de Francisco Salter. Carlota queria consolar, prometendo o impossível; mas o coração recusava-se à mentira. A freira beneditina prometera fugir naquele dia. Se não soubera esconder a traição, também não seria capaz de revogá-la, ou diferi-la para mais tarde. Capítulo XVIII Venite ad me omnes qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos. Jesus Cristo Soror Rufina compreendeu mal a exaltação de Carlota. No conceito da ingénua religiosa, sua sobrinha, posto que tentada pelo espírito das trevas a dar um passo de desesperada, um passo do altar para o abismo, do limbo de esperanças celestiais para o inferno das eternas dores, não chegaria a deixar-se vencer, cairia contrita aos pés da cruz antes de infamar-se e infamar o mosteiro com a fuga. Carlota, por sua parte, não desmentiu a conjectura da freira, por isso que, por espaço de dois dias, esteve reclusa na sua cela, orando e chorando, quase sempre sozinha, porque tanto a Cecília como a Rufina pedia que a deixassem desafogar a sua angústia a sós com a imagem do Senhor, sua consolação extrema e única. Não podemos, porém, asseverar que as lágrimas e orações fossem o constante exercício da freira beneditina. Duas ou três cartas, que Francisco Salter de Mendonça recebeu, foram decerto escritas em intervalos pouco edificantes desses dois dias, se devemos, do que aconteceu ao terceiro dia, avaliar o conteúdo delas. Às três horas da madrugada desse terceiro dia, que era o sétimo do mês de Setembro de 1811, Francisco Salter de Mendonça estava já desde a meia-noite, encostado ao muro da cerca do mosteiro, naquele ângulo que confina com a última casa da Rua do Loureiro, hoje bem conhecida pela «Estalagem do Cantinho». Não averiguámos como ele conseguiu do locatário dessa casa, que devia ser um sujeito de maus costumes, licença para engatinhar através do telhado, até alcançar o muro na parte onde é fácil o salto para a cerca. Ao dar das três horas no campanário do mosteiro, branquejou rente com o ângulo do muro, que forma a espécie de fortim de ameias sobranceira à Porta de Carros, um vulto que desceu ao pomar, e aí se sumiu por alguns minutos à vista do ansiado Francisco Salter. Era Carlota Ângela, a professa beneditina, que fugira do tálamo do divino esposo, e a cada passo que dava comprimia no peito o coração que o fantasma do seu crime apavorava. Os minutos que se demorou no pomar, cerrado, por cuja copa o clarão da Lua, já desmaiado pelos alvores matutinos, se coava, traçando sombras movediças, foram uma demora causada por uma síncope. Francisco Salter, suspeitando isto mesmo, ou receando o arrependimento, saltou o muro, deixando içada a escada de corda por onde Carlota devia subir, e foi direito ao pomar. A freira soltou um grito de terror quando viu ao pé de si um vulto. Salter proferiu o nome dela com amorosa angústia. Mendonça tremia. Não há coragem de homem que vença a comoção destes lances. O silêncio religioso que reinava ali; os trajos da religiosa, ainda os mesmos com que horas antes assistira à sua última oração em comunidade, excepto a touca e o escapulário; esse íntimo abalo com que a Providência se denuncia nos corações mais endurecidos pela negação da falsa consciência do irreligioso; e, sobretudo, a luta de todos esses sentimentos com a paixão imperiosa, e o plano irrevogável desses dois infelizes, fora, talvez, a causa do quebranto, e quase desfalecimento de espírito em que ficou Mendonça ao apertar nos braços, pela primeira vez, Carlota Ângela. - Não posso! - exclamou ela. - Não posso dar um passo... Começo a sentir o castigo do Céu... Receio morrer aqui. - Não morrerás, Carlota... - acudiu Mendonça, apertando-a ao seio com veemente ternura misturada de supersticioso sobressalto. - Deus só castiga o crime das que abjuram os votos que faz o coração. Vem, Carlota, mais alguns passos, pouco nos falta já; daqui a momentos verás fugir esse terror, que me está oprimindo também a mim. Vem, amiga da minha alma... - Não posso, Francisco... não posso... - tornou ela, soluçando, pendurando-se-lhe dos ombros com aflitivo modo, e olhando em redor com a vista assombrada de visões medonhas. - Vai tu, que eu torno para o meu suplício... Vai, meu amigo, que não pode haver felicidade sem Deus. Não queiras ser cúmplice do meu crime, porque o hás-de expiar comigo. O melhor, na minha desgraça, é morrer, Francisco; morrer mártir, morrer digna de pedir ao Senhor por ti... Francisco Salter balbuciava apenas monossílabos. As palavras da freira calaram-lhe na alma um espasmo atribulado. Carlota sentia-o tremer como ela, ou mais ainda: o seu terror aumentava, com o silêncio de Mendonça, com aquela espécie de assentimento que ele dava aos presságios dela. Por um momento se afigurou ao amante da religiosa que a desgraça era inevitável. Calara-se o coração. Era o espírito religioso que sobrepujava o ânimo robusto do capitão de marinha. Tinham-no, talvez, debilitado os infortúnios. Fizera-o, talvez, supersticioso a desgraça, se não quereis que possa chamar-se influxo providencial este medo. Porque não dizemos antes que a desgraça o fizera crente? Porque não estaria entre ambos o anjo do Senhor, o anjo Custódio que pedira ao Altíssimo um raio da sua divina graça com que alumiar, a dois corações que se despenhavam, a profundeza do abismo? Carlota parecia banhada desse raio celestial, quando se lançou aos pés de Mendonça de mãos erguidas, orando, pode dizer-se, orando assim: - Não me leves daqui, meu amigo. Não me queiras fora do amparo divino que me deu esperanças de te encontrar no Céu. Guardemos para lá os nossos amores felizes, amores bem-aventurados por uma eternidade. Temos merecido tanto com os nossos martírios, Francisco... devíamos de ser tão caros à piedade de Deus... não sejamos agora indignos da sua misericórdia, e cruéis para connosco... A minha vida será curta no convento, e fora do convento. Deixa-me morrer aqui; serás menos infeliz. Eu não me importa a desonra do mundo: a infamação não poderia matar-me; mas, lá fora, espera-me uma dor maior de todas, a do remorso, a da contrição impossível sem a emenda. Carlota prosseguiu soluçando no seio do amante palavras inarticuladas, às quais responderam por fim as lágrimas copiosas de Mendonça, as primeiras que ele chorava doces e suavíssimas, quais se o Senhor lhas desse como prelibação aprazível das alegrias que sua alma teria em galardão do sacrifício. Era já quase dia claro, quando a freira beneditina, encostada ao braço de Mendonça, foi sentar-se no degrau da porta por onde uma hora antes saíra com a resolução de não mais entrar. Aí, desse abraço derradeiro que se deram silenciosos, arquejantes, convulsivos, não sabemos dizer qual fosse a infinita angústia. É certo que Francisco Salter, ao desapertá-la dos braços estremecidos em que ela proferia num gemido o último adeus, cruzou os braços e disse: - Vai, Carlota, que eu não posso disputar-te a Deus. Vai, filha da minha alma, que eu alimentei com lágrimas, que eu mereci a preço dos tormentos que nenhum homem suportou, para finalmente te ceder a um fantasma que me diz que não podes ser minha. Recorda-te... olha para mim, Carlota, e assombra-te da grandeza da minha angústia e da minha paciência. O homem que tanto padeceu para merecer-te, vai, sem ti, procurar a morte do corpo onde Deus quer que ela o espere depois da morte da alma, do assassínio lento de um coração que se teria salvado se há três anos te arrancasse aos braços de teu pai. Fui demasiadamente honrado para este mundo e para esta sociedade. Não quis respirar este ar corrompido em que vivem os felizes... devia morrer. Por fim, devias ser tu a que me apontasses o teu remorso como estorvo a pertenceres-me. Fica, minha amiga, com a tranquilidade do teu espírito. Por ti sofri muito; mas não era o teu sofrimento o prémio que eu vinha pedir-te agora. Quis dar-te a felicidade, e cuidei que ta dava. Quis levar-te comigo aos pés do representante do Eterno na terra, para lhe suplicarmos que houvesse de Deus perdão para ti, que não puderas ser o que a desgraça te aconselhara que fosses. Diz-te o coração que o teu crime não pode ter reparação: é Deus que to segreda, Carlota, e eu não ouso argumentar contra as inspirações que te baixam do Céu. Vai, pois, esposa de Cristo, vai para o teu santuário, e chora-me aí, chora-me enquanto eu viver; depois, ora por mim, porque a minha alma só as tuas orações podem purificá-la, e erguê-la à presença do divino Juiz. Adeus, Carlota. A freira, do limiar da porta, estendera ainda os braços para Mendonça, exclamando: - Vem cá, Francisco, vem cá... escuta-me, por piedade! - Carlota! Carlota! - disse uma voz que os fizera estremecer a ambos. Era soror Rufina, que surgira no ângulo do muro, entre as ameias que cercam o terraço por onde a freira conseguira evadir-se. Francisco Salter de Mendonça, admirável de dignidade, retrocedeu, aproximou-se de Rufina, baixou ligeiramente a cabeça, e tomando Carlota pela mão, disse: - Deus sabe que ela é cada vez mais dinha dele. Assista com piedade às agonias deste anjo. Sua sobrinha, Senhora, veio aqui buscar coragem para a morte, e ensinar-me a morrer com honra. A vida honrada já ela ma tinha ensinado: faltava-me a morte, que devia ser de desesperança ímpia, se esta santa me ensinasse o segredo de expirar abençoando a desgraça. Foram as últimas palavras de Salter, palavras que a jovem freira já não ouvira, porque os braços de sua tia lhe estavam sendo amparo na perda dos sentidos. Capítulo XIX As religiões no meio do século são como as ilhas no meio do mar, que às vezes por invasões do mesmo mar se vão comendo, e soçobrando, e padecem suas injúrias da vizinhança deste poderoso adversário. Mas se nas ilhas há tempestades, que será no coração dos mares? Oh! alegrem-se as ilhas, e multipliquem-se! que ainda com a comunicação tão vizinha dos mares, estão muito mais firmes e seguras que eles. P. Manuel Bernardes, Floresta. Decorreram alguns meses, três seriam, depois do terrível combate daquelas duas grandes almas consigo mesmas. Os sucedimentos deste lapso de tempo chegaram ao meu conhecimento contados de diversas maneiras. Dizem informações do mosteiro, que a religiosa Carlota Ângela, recobrando o vigor que o susto religioso lhe quebrantara, tentou de novo evadir-se, num ímpeto de delírio, pela porta de serventia dos carros que abre para o Largo de S. Bento: tentação diabólica de que a energúmena pôde salvar-se por intercessão do patriarca, o qual nesse momento lhe empeceu a fuga com o báculo, que a cegou com sua vivida refulgência. Isto, pelos modos, não está bem averiguado, nem canonicamente se encampa, como milagre, à crendice dos leitores. Outras informações mais racionais dizem que Francisco Salter de Mendonça fora, no decurso desses três meses, com pontualidade quotidiana ao mosteiro, onde passava horas e horas na grande, com Carlota Ângela, e com sua tia, algumas vezes. A tradição, porém, mais corrente, e sustentada por pessoas coevas de grande autoridade, é que Francisco Salter não voltara ao convento depois daquela fuga malograda, senão ano e meio mais tade, já vestido com o hábito da Ordem Beneditina. Foi-me, portanto, necessário pedir informações a um conventual de frei Francisco da Soledade, que assim se chamou na religião o capitão de marinha. Queria eu que me contasse qual foi o viver desse desventurado no mosteiro; que assombrosas pelejas se deram naquele seio, antes que o hábito o amortalhasse; quantas vezes a luz da graça divina alumiou o coração blasfemo do noviço; quantas vezes a mão glacial da morte lhe esfriou na fronte os estos afogueados da desesperação. Coleccionei das vagas lembranças do egresso que fora seu companheiro de noviciado em Tibães, as seguintes miudezas, que apenas satisfizeram a minha curiosidade: Francisco Salter aparecera, na manhã do dia seguinte àquela noite do anterior capítulo, no Mosteiro de S. Bento da Vitória pedindo ao Dom Abade que o admitisse a noviciado. Mendonça era ali conhecido como sobrinho do afamado monge, que ajuntava ao lustre do nascimento e ao das letras a santidade suficiente para que o mundo lhe perdoasse uma veleidade de moço, da qual veleidade procedera Francisco Salter. O abade acolhera-o de bom ânimo, suspeitando, porém, passageiro desgosto de coração. Teve-o em sua casa alguns dias, esperando o conselho do tempo, até que, senhor das mágoas do mancebo, acreditou na firmeza da resolução e na eficácia do bálsamo. Decorrido um mês de prova, Francisco foi fazer noviciado na casa de Tibães, e aí é que o meu informador o tratou com intimidade mediana, porque o noviço vivia tão taciturno e triste, que os seus companheiros, por pena, o não importunavam com frívolos alívios. Sem embargo da pouca convivência, notou o egresso que as noites do noviço deviam de ser atribuladas, porque nunca de manhã lhe vira os olhos sem raios de sangue, e como que ainda cristalinos dos resíduos de lágrimas regeladas pelo frio das manhãs. Observara ele mais que, nas obrigações do coro, Francisco era pontual, mas os seus lábios nem sequer murmuravam as orações do breviário. E, posto que para os companheiros houvesse censuras do mestre por motivos idênticos, Francisco nunca fora repreendido, nem ainda procurado na cela, se alguma vez faltava ao coro. Disto inferiam os demais noviços que o seu companheiro trouxera do Porto especiais recomendações do Dom Abade. Acrescenta que Francisco, às horas em que os noviços passeavam na cerca, não saía do seu cubículo, ou ia sentar-se no claustro lendo a Imitação de Cristo, livro que nunca lhe esquecia; ou lia um por um os singelos epitáfios das lajes que formam o pavimento do claustro. Notava-se que durante um ano o misterioso noviço apenas recebera uma carta do Dom Abade, em que lhe era dada a nova de que todos os seus papéis estavam legalizados canonicamente para poder professar, concluído que fosse o tempo do noviciado. Neste pouco se resume o que pude alcançar do egresso indiferente ou desmemoriado. Quem nos dirá, pois, as angústias do amante de Carlota Ângela? O coração. Consultemos o coração aqueles que o tivermos. Revivamos algum tormento da alma, se o tivemos na vida, e teremos induções remotas do que seria aquele demorado paroxismo, aquele lento suicidar-se em presença de homens que não lhe entendiam as lágrimas, nem saberiam nem poderiam enxugar-lhas, se as entendessem. A imagem de Carlota devia de estar sempre entre ele e o Cristo. A luz da graça divina devia de ser muitas vezes deslumbrada pelo reflexo da labareda que o abrasava no íntimo. A frase blasfema prenderia muitas vezes à consolação do Kempis. As mãos convulsas deviam travar do hábito para rasgá-lo sobre o seio onde batia o coração amante, do bravo, do homem de amor e batalhas, do que a sociedade fizera ateu, antes que a desgraça fizesse religioso. E, se assim não acontecia, abençoada seja a religião de Jesus, que tanto pode! Abençoadas sejam as angústias, que levam pela mão o filho da desventura ao pé de uma cruz, e o hasteiam nela como holocausto, que se consola por saber que há um Deus compassivo a vê-lo em suas torturas. E o que necessitam os grandes infelizes, e esse olhar misericordioso do Senhor, que reanima e salva do inferno dos homens aquele que os homens desampararam mutilado em todos os afectos, espedaçado em todas as cordas do coração, que não coube na terra, repelido da comunhão dos inocentes prazeres desta vida, condenado a expiar no flagício da sua dor imerecida as culpas que os grandes perversos não expiam à vista de suas vítimas. Se, pois, Francisco Salter caía de joelhos, paciente e consolado, aos pés do crucificado, abençoado seja a religião de Jesus, que tanto pode! Desde o dia em que frei Francisco da Soledade professou, a freira beneditina recebeu regularmente novas dele, escritas de Tibães, onde o frade prolongou a sua residência. Faziam-lhe saudades os sítios onde tanto chorou. Aviventara com a sua angústia as árvores seculares, os penhascos, e as cruzes que lhe ouviram os gemidos. Essas existências insensíveis viviam-lhe na alma, e custava-lhe o desprender-se delas. O coração afeiçoa-se aos lugares onde sofreu ou gozou, quando o gozo não é crime, nem o sofrimento a desesperação da alma corrompida. As alegrias do ímpio, e as tristezas do perverso, essas não deixam traços indeléveis de suavíssima saudade ou branda mágoa no coração. Frei Francisco sabia que morrera para o mundo, e o ermo de S. Martinho de Tibães era-lhe um sepulcro grato, uma lousa amiga sua, já polida dos prantos dele. Ímpetos ainda de coração mal domado o impeliam para Carlota. Mas quem era neste mundo a professa beneditina? Era um cadáver como ele, uma existência passada, numa vaga imagem que esvoaçava entre a cruz e o monge, e parava um momento para lhe verter nas mãos erguidas uma lágrima. Que importavam as visões da noite, esse fitar de olhos lagrimosos na Lua, e nas estrelas, nas nuvens encapeladas, e no clarão do relâmpago? Que valia ao pobre coração do frade estrebuchar ainda nas agonias do amor, no paroxismo horrível desse suicídio de tantas vidas? Que conforto lhe seria baixar do Céu os olhos sobre si, e ver-se amortalhado? Não recorramos ao milagre para explicarmos a tranquilidade do espírito que de repente abjura o mundo, e se lança desesperado às misericórdias divinas. Terrível deve de ser o preço da tranquilidade, quando não é a morte que a traz. A morte, sim: essa será sempre a benvinda dos desgraçados, porque Deus lhe fez de gelo a mão que ela põe no seio abrasado do aflito. As cartas de Carlota Ângela eram um adeus repetido ao seu amigo, um convite festival para a eternidade. Nem uma só reminiscência do passado escurecia a linguagem lúcida da profetisa que descrevia as alegrias do Céu. Era tudo porvir, tudo paragens do voo que ela ia desferir da margem da sepultura para além. Dos seus sofrimentos nada lhe dizia: os da alma abençoava-os, os do corpo chamava-lhes o doce pungimento dos espinhos da sua coroa gloriosa. Soror Rufina, amiga do monge beneditino, escrevia-lhe menos enlevada em êxtases. Falando-lhe da sobrinha, contava-lhe os rápidos progressos de uma tísica irremediável, e da paciência cristã com que ela via aproximar-se o termo de suas dores. A última carta que lhe escreveu, revelava-lhe o desejo que sua sobrinha mostrara de ver o seu amigo, o seu esposo celestial, uma vez, uma só vez antes de morrer. Frei Francisco mediu as suas forças, e pediu a Deus que aniquilasse as que ele sentia para encarar Carlota, se eram pecaminosas. Seis meses depois de professo, o monge foi ao Porto, e recolheu-se ao Mosteiro de S. Bento da Vitória. Daí consultou soror Rufina sobre a sua ida ao convento, porque entrara nele o presságio de que a infeliz sucumbiria ao vê-lo desfigurado, encanecido, e triste como o espectro duma felicidade morta, que os vermes roazes da desventura tornaram pavorosa. Rufina sondou sua sobrinha, e Carlota antes de responder, sentiu uma convulsão estranha, que lhe fez espirrar do seio borbotões de sangue. Passada a crise, que julgaram derradeira, Carlota disse ansiosamente que aceitava a visita do seu irmão, e quanto mais depressa, mais grata lhe seria. Cuidavam as amigas da moribunda que semelhante impressão lhe seria salutar. Os médicos, com a sua costumada inocência, conjecturavam que a presença do monge faria uma grande revolução nos elementos desorganizados da vida de Carlota, e agouravam a possibilidade de uma cura por meios todos morais. Nesta esperança, que fazia sorrir a freira, frei Francisco foi avisado para encontrar Carlota numa grade. Espectáculo indescritível! Frei Francisco entrara na grade onde dezoito meses antes concertara a fuga de Carlota. Ali se trocaram, em frases cortadas de suspiros, queixumes contra o destino; porém, as esperanças deslumbrantes acudiam logo com as promessas de uma vida cheia de prazeres, prazeres embora criminosos no tribunal dos homens, porém perdoáveis, talvez, aos olhos de Deus. Dali saíra Francisco Salter de Mendonça, o capitão de marinha, com o coração fremente de aspirações, e até de soberba por ter calcado, ao cabo de tantas desventuras, a inexorável desgraça. Oh! quão mudado agora! Como ele se estava examinando diante do seu passado! O que se passaria naquela alma, e naquela fronte inclinada para as mãos cruzadas sobre o seio! Porque não deu o Senhor duas lágrimas àquele infeliz?! Carlota Ângela apareceu, encostada ao braço de sua tia. O monge erguera-se, e voltado para elas baixara a cabeça, e não mais erguera do chão os olhos. Encostando uma das mãos à banqueta da grade, sentia-se o tremer deste móvel sob a pressão convulsa. Apenas a madre Rufina proferira alguns monossílabos, Carlota fitara os olhos lúcidos de um brilho sinistro no hábito do monge, e, voltando-os, silenciosa, para sua tia, parecia perguntar-lhe se era aquele Francisco Salter. - Francisco! - balbuciou ela. O frade estremeceu a esta voz, e encarou a freira. - Francisco! - repetiu ela com a voz quase desfalecida. - Es tu? - Não vo-lo disse, minha irmã, que me não conheceríeis? - disse o beneditino com um violento sorriso. - Conheço, conheço... - tornou ela, sentando-se, ou caindo na cadeira aonde a tia se esforçara em sentá-la. Era assim que eu o via nos meus delírios, irmão da minha alma. Cá o sentia no coração morrendo assim... Faltava-me ouvir este som de finados que me está cortando os últimos fios... E por mim, ou por ti, Francisco?... por ambos... De feito, soava um dobre a finados na torre do mosteiro. Expirara momentos antes uma religiosa daquela casa, a quem Carlota pedira que intercedesse ao Senhor por ela, a fim de que a chamasse a si antes que se apagassem os círios do funeral da agonizante. Esta fizera um gesto afirmativo, e expirara com os olhos fitos na freira. Carlota proferira aquelas palavras, e pedira uma gota de água. Enquanto soror Rufina descera à portaria a buscá-la, a freira introduziu a custo o braço pela grade e disse: - Francisco! dá-me a tua mão. O monge tomou a mão de Carlota, e, ao apertá-la, sentiu a frialdade húmida da mão de um cadáver. A posição da religiosa era violenta, com o peito encostado aos ferros, e a tosse sufocava-a. Frei Francisco fez esforço para afastar o braço, mas debalde. Aquela mão apertava como a do náufrago em transes de morte. Um frouxo de tosse salpicou de sangue o braço do monge, e em seguida, já quando Rufina entrava na grade com o copo, a mão de Carlota decaiu com o braço ao longo da grade, a fronte pendeu para as costas da cadeira, o outro braço já se não ergueu para tomar o copo da água que lhe roçava os lábios húmidos de sangue. - Minha filha! - exclamou a atribulada freira. Carlota descerrou as pálpebras, relanceou a vista quase apagada para o monge, e fechou-as de novo, murmurando: - Ouviu-me Deus! Rufina soltou um ai vibrante, e caiu de joelhos aos pés da sobrinha. Frei Francisco ajoelhou também, e disse com terrível serenidade: - Oremos por ela. Meu Deus! Recebei a mártir em vosso seio! Conclusão Cinco anos depois, vivia ainda no Mosteiro de S. Martinho de Tibães frei Francisco da Soledade. Os leitores de mais rija e invulnerável organização admiram-se de que tal homem pudesse viver tanto. A mim custar-me-ia também a crê-lo, se mo não fizessem acreditar pela data da lousa que vi na claustra daquele mosteiro, com os meus próprios olhos. Viveu cinco anos para purificar-se e fazer-se digno da esposa que o esperava no Céu. Quereis saber a purificação qual foi? Norberto de Meireles e sua mulher, quando a filha expirava, lutavam com as extremas perseguições da fortuna infausta. Meses depois, estavam pobres, pobres até à indigência. Frei Francisco chamou estes infelizes para a vizinhança do mosteiro, e dava-lhes três partes do seu pão. A comunidade, quando conheceu tamanha virtude, repartia também do seu por ele. A mãe de Carlota expirou nos braços do monge, o velho sobreviveu-lhe um ano, e expirou quinze dias antes de frei Francisco. Francisco Salter saiu deste mundo, quando já não tinha a quem perdoar em nome de Carlota Ângela. Vede-me do Céu a mim, e a todos os infelizes, almas bem-aventuradas! Não foi a minha imaginação que vos criou! Logo que eu me senti sofrer em vós, a vossa passagem na terra deixou vestígios.