As “Farpas” Ramalho Ortigão OS NOSSOS FILHOS - INSTRUÇÃO PÚBLICA I OS NOSSOS FILHOS, EM CASA, NA RUA, NO PASSEIO, NO LICEU, NO COLÉGIO Outubro, 1871 Leitor! Leitora! - falemos dos vossos filhos. Levantemos a mão das fraquezas, dos ridículos, das misérias do nosso tempo, e consagremos esta página aos mais puros e aos mais vitais dos nossos interesses. Conhecemo-los - os vossos filhos. Temo-los visto, ao voltar do colégio, com os babeiros brancos, os chapéus mais velhos, o cabelo despenteado e o dedo sujo de tinta, esfarpando de encontro às pedras os bicos dos sapatos, enquanto o vosso criado, com os compêndios do Sr. João Félix presos por uma correia debaixo do braço, os segue pausadamente conversando em coisas líricas com a criada da vossa vizinha. Vimo-los no liceu, no dia do primeiro exame, pálidos de concentração e de susto, imóveis, extáticos, com os olhos pasmados na espessura dos seus juízes, lembrando-se um pouco mais das orações que vós rezastes por eles, ó mães, do que das lições que vós lhes destes, ó mestres ! Tínhamo-los também visto no Passeio Público, em noites de concerto, dançando ao pé do quiosque, eles fingindo-se grosseiros para se darem o chique de velhos colegiais, elas sérias e graves, voltando o rosto por cima do ombro para contemplarem como pequenas senhoras a cauda hipotética dos seus vestidos. Elas e eles são pálidos, têm as gengivas esbranquiçadas, os dentes baços, as pestanas longas, as pálpebras oftálmicas, os cantos da boca levemente feridos, o sorriso triste, os movimentos indecisos e fracos, o olhar quebrado. Precisam de tomar banhos frios, de comer carne ao almoço, de beber uma colher de óleo de fígado de bacalhau todos os dias, de fazer ginástica, e de que se lhes corte o cabelo. Além do cabelo extremamente longo - o que equivale perante a química e perante a fisiologia a um dispêndio de ferro com que não podem as constituições anémicas dos vossos pequenos - notamos ainda excessos de toilette cuja voga dá o seguinte resultado: em parte alguma do mundo se encontram crianças tão mal vestidas como em Lisboa. A gente rica veste os seus filhos de veludo, com meias de seda e plumas no chapéu. Há tipos calabreses, escoceses, marinheiros, boleeiros... A gente pobre, que não pode adoptar integralmente os modelos consagrados na mascarada das crianças burguesas, veste os seus pequenos de cães sábios. O que é de uma iniquidade verdadeiramente horrível, porque, enfim, ninguém pode evitar que os nossos filhos sejam os herdeiros forçados das nossas enfermidades e das irregularidades das nossas feições, mas é de mais abusar dos direitos da paternidade até o ponto de converter uma criaturinha graciosa e simpática no cabide irrisório das depravações artísticas do nosso gosto! Ide ver as crianças, como nós as temos visto, aos domingos de tarde no passeio da Estrela ou em S. Pedro de Alcântara. Lá encontrareis os meninos vestidos de colegiais franceses, de guardas-marinhas ou de empregados do caminho de ferro, de postilhões, de huguenotes, de puritanos, e, sobre isto, as compósitas das toilettes de capricho, em que o hediondo toma profundidades de expressão prodigiosamente alucinantes: as botas cor de pulga com atacadores encamados e biqueiras de verniz, chapéu de palha atado por baixo da barba com um laço de fita, vestido verde e paletó encarnado, coisas medonhamente semelhantes ao trajo de um macaco que dança ao som de um realejo. Desafiamos-te, leitor, a que entre todos esses pequenos nos mostres duas crianças vestidas simplesmente - de crianças: com sapatos rasos, largos e grossos, e um fato cómodo, lógico, sensato, de linho no Verão e de lã no Inverno, que permita ao rapaz que o tem usar livremente de todos os seus movimentos e de toda a sua força, sem vontade de olhar para a sombra que vão fazendo nos muros, nem de se considerar perpetuamente tutelado pelo verniz das suas botas ou pelo delicado estofo da sua túnica. Conversai por um momento com esses pobres forçados à grilheta do aparato, e vereis com que ideias a primeira educação das amas e das criadas enche a imensa capacidade que tem a memória desde os dois anos até os seis! Eles estão convencidos de que o judeu que lhes vendeu tâmaras à porta do jardim tem uma cauda no fim das costas, que o mundo foi feito pelo Jesus; que as doenças, os desastres e os aleijões são castigos dados pelo Jesus; que as trovoadas são o Jesus que ralha com a gente. De sorte que para eles o doce mártir da dedicação e do amor da humanidade que suas mães adoram de joelhos fica reduzido ao chaveiro de todos os males, ao despenseiro de todas as desgraças, ao pasteleiro de todos os desgostos! Não conhecem tão antipático, tão monstruoso, tão terrível como Jesus, senão um ente que existe em casa de cada um deles, escondido nos quartos escuros, à espera que os meninos passem para os devorar. É o papão. O pai é uma espécie de flagelo intermediário dos dois referidos, um ministro da política extraordinário e representante efectivo dos verdugos invisíveis e místicos. Quando o Jesus não ralha porque não há electricidade atmosférica, e o papão se não manifesta porque estão luzes em todos os quartos, diz-se-lhes: Esperem que ali vem o papá!, quer dizer, o emissário de Jesus, que substitui os trovões pelos puxões de orelhas, e o substituto do papão, que espanca os meninos feios enquanto o papão se não resolve definitivamente a mastigá-los. A única instrução séria que se lhes deu na primeira infância foi o catecismo. O Padre-Nosso caiu-lhes na memória como a toada sonolenta e monótona de uma melopeia maquinal, de cuja intenção e de cujo sentido - mesmo literal - eles não têm a mínima ideia. Outro tanto lhes sucede com os mandamentos da lei de Deus e com os pecados mortais. Nada mais edificante, sobre a falsa educação religiosa que nós cuidamos dar a nossos filhos do que ouvirmos as suas respostas quando lhes perguntamos o que entendem por esta palavra que os obrigamos a repetir duas ou três vezes por dia - luxúria -, ou a sua interpretação para esta frase que igualmente nos esforçamos por lhes fazer decorar: Não invejar a mulher do teu próximo! Uma pequenina nossa amiga entende que a luxúria é o pecado do demasiado luxo, e que guardar castidade consiste em não murmurar contra os castigos. Tais são as coisas que nossos filhos aprendem em nossas casas até a idade dos seis anos! Chega finalmente a época de entrarem no colégio. O colégio é uma casa triste, sombria, impregnada daquele cheiro abafante que deixa no ar a aglomeração das crianças. O colégio tem um guarda-portão de aspecto duro, omem habituado a pagar-se nas lágrimas dos colegiais pequenos das diabruras que os grandes lhe fazem. As paredes têm riscos e letras a lápis; no chão escuro há pedaços de papéis rasgados; a disposição das camas, o aspecto seco dos prefeitos, as maneiras dos criados dão aos dormitórios 13 um ar de hospital. As aulas sujas pela lama que trazem as botas dos externos, os bancos lustrados pelo uso, as carteiras de pinho pintadas de preto, os transparentes das janelas manchados pela chuva, a lousa negra polvilhada de giz a um canto da casa, o rodapé da banca do professor de baeta lacrimejada de tinta, infundem uma tristeza lúgubre. Tudo quanto pode converter o trabalho num objecto de repulsão e de horror acha-se felizmente reunido na maior parte dos colégios portugueses. As mulheres, que a experiência tem provado possuírem muito mais aptidão para o ensino do que os homens, são geralmente excluídas do professorado nos colégios de alunos do sexo masculino. O ensino é ordinariamente feito por sábios de pouco preço, para os quais os âmbitos da ciência, bem como os da sociedade, são igualmente cheios das trevas mais augustas e mais impenetráveis. Por via de regra, literato falido, escritor malogrado, crítico inédito, o magíster tem a pedanteria das pequenas letras e as severidades da alta magistratura, envoltas num exterior intonso, com maneiras de uma gravidade suspeita e de um exemplo contestável. No entanto, como no tocante às maneiras do aluno tudo quanto se exige é que ele seja aprovado no seu exame de civilidade, lá estão para suprir tudo os compêndios do Sr. João Félix, vigoroso freio para que o estudante nunca escarre na cara das pessoas de respeito nem arrote com repreensível estampido quando jantar na alta sociedade. Poupa o trabalho de dar exemplos a comodidade de possuir um livro assim, que permite ao preceptor dizer simplesmente o seguinte a um homem que vai entrar no mundo: "Releia o seu João Félix e conserve-se sempre de sobreaviso sobre as expectorações e sobre os gases." O mesmo que sucede com a civilidade é exactamente o que se dá com todos os demais capítulos em que se divide a educação da infância. A preocupação única e exclusiva dos preceptores é que os seus alunos estejam quietos no colégio e sejam no 14 fim do ano lectivo aprovados no Liceu Nacional. Para conseguir a aprovação dos estudantes nos exames que eles façam, o preceptor emprega todos os esforços e todos os meios, excepto talvez um único - que é o de lhes ensinar o objecto sobre que tem de versar o exame. Para se ajuizar dos outros meios que dão em resultado a aprovação dos alunos, cumpre saber-se que o júri dos exames é composto de professores do liceu. Estes senhores têm organizado o programa das suas perguntas e feitos os pontos que no fim do ano serão tirados à sorte para indicar a passagem sobre que tem de passar-se exame. Ora neste caso o modo mais simples e mais lógico de conseguir a aprovação seria haver o programa das perguntas e a colecção dos pontos. Assim, quinze dias bastariam para que o aluno decorasse os textos sobre que tinha de tirar o ponto, e o êxito do exame não poderia ser, depois disso, duvidoso. Sucede, porém, que os lentes do liceu insistem em não vender os pontos pela razão um tanto frívola de que isto seria a mais sórdida das veniagas e o mais abjecto dos subornos. Aqui principiam os trabalhos memoráveis a que se dá o preceptor para assegurar o futuro científico e literário do seu aluno. - Homem! Deixe-me levar os pontos aos rapazes! - Não! Isso não! Leve-lhes tudo quanto quiser, menos os pontos! Quer uma coisa?... Leve-me a mim - por vinte mil réis por mês - mas os pontos não! Nunca! - Bem! Basta! Não falemos mais nos pontos e venha daí você! Assim é que os professores públicos do Liceu Nacional, vogais do júri de exames no mesmo liceu, não vendem os pontos aos colégios particulares, mas exercem neles o magistério. Há professor no liceu de Lisboa que ensina particularmente a disciplina de que é examinador em oito diferentes colégios de educação de rapazes! Não há nisto sombra de corrupção nem desaire de espécie alguma. Somente acontece - e isto é um facto extrema- 15 mente secundário! - que de cada cem alunos que concorrem a exame no liceu podemos afoitamente computar em noventa o número dos que ignoram as disciplinas em que são julgados aptos. Se os ilustres professores nos quiserem honrar com o seu desmentido, requeremos uma sindicância às escolas e provaremos com factos que de cem alunos aprovados em latinidade, no ano de 1870, não haverá seis que em 1871 traduzam correntemente meia página de qualquer autor latino à nossa escolha. São enormes, são pavorosos os males que resultam dos simples factos que acabamos de indicar. Em primeiro lugar, os alunos habituam-se desde a infância, nos primeiros actos da sua vida civil, a descrerem do mérito, do trabalho e do estudo, e a contarem para todo o êxito com a falseação das provas, com a mercancia da justiça e com a omnipotência do compadrio - perfeita iniciação para uma existência de intriga, de indolência e de desonra. Os pais, quites para com as suas consciências dos encargos da educação que devem a seus filhos pelo facto de haverem delegado noutros esses encargos, contentam-se em participar aos parentes que o menino continua a ser aprovado nos seus exames, até que, aos dezasseis ou dezassete anos, o colégio devolve à família plenamente aprovado em todos os seus estudos o menino que a família lhe confiara, e o pai encontra-se então, frente a frente, no seu campo, na sua loja, na sua oficina ou no seu lar doméstico, com um mancebo aproximadamente inútil para toda a espécie de emprego. Todas as faculdades desse pequeno homem, em que a barba principia a repontar com as paixões ardentes da puberdade, estão inertes, enervadas ou corrompidas. Enquanto à educação do espírito sabe pouco e mal o que lhe ensinaram, não sabe quase nada o que devia saber. Pelo que respeita ao corpo, se vem de um bom colégio, sabe de ginástica o suficiente para fazer dele um mau arlequim, mas nunca empregou a sua força nos exercícios verdadeiramente úteis a um homem. Não está habituado à fadiga das marchas, não sabe defender-se se o esbofetearem, não sabe nadar, desconhece os princípios mais rudimentares da higiene. No que toca às suas faculdades de coração, nunca amou ninguém. Partido o afecto instintivo que o rendia à família, viveu no baixo egoísmo dos reclusos. Desconhece o doce prazer de se sacrificar. Nunca teve a sua parte nos interesses delicados da família, nunca subiu de corrida uma ladeira para chamar um médico para seu pai; nunca se bateu aos murros por alguma grosseria da rua dirigida aos bibes das suas pequenas irmãs, que ele estivesse encarregado de acompanhar à escola; nunca defendeu, nem consolou, nem acariciou sua mãe. A única mulher que deixou na breve existência dele uma lembrança secreta, ardente, devoradora, foi talvez uma, de longas saias engomadas e ruidosas, que, passando na rua, lhe sorriu para a janela do colégio, de um modo estranho, em certo dia em que ele fizera exame de retórica... Na Escola Politécnica, na Universidade, num escritório comercial ou na casa paterna esse rapaz deixará correr descuidadamente a sua existência pelo declive fácil em que o puseram, sem estímulos afectuosos, sem vontade, sem energia, sem força, sem consciência e sem carácter. E esta será a bitola dos futuros cidadãos portugueses! Nós mesmos fomos já educados assim. Vede o que estamos sendo! Vede os homens que deitamos! Vede o país que fizemos e a sociedade que constituímos! Principiamos por desconhecer a nossa missão na humanidade. A família enfraquece por toda a parte. O hospício dos expostos em Lisboa contava no primeiro dia do corrente mês de Outubro 15099 crianças repudiadas por seus pais. A roda dos expostos joga com outra roda na administração do País - a roda da lotaria. A lotaria sustenta a Misericórdia. O jogo protege a prostituição. A tavolagem adopta o bordel. É a mancebia abjecta da batota e do prostíbulo abençoada pelo Estado e acarinhada pelo País. E nós vivemos nisto, nesta repulsiva podridão, complacentes, descuidados, felizes, dando a todo o mundo moral o espectáculo da maior degradação e da maior baixeza em que pode cair uma sociedade. Na ciência, na literatura e na arte estamos estacados, imitando servilmente as obras de nossos pais, atestando a ignorância mais flagrante, esterilizados nas nossas faculdades inventivas, narcotizados pelo tabaco de que abusamos como nenhum outro país da Europa, sem uma ideia elevada, sem um pensamento generoso, sem uma voz, sem um grito, sem um gesto que penetre, esclareça e vibre este velho mundo devassso e tonto. Na política a nossa história actual é a abdicação por inépcia de todos os foros e de todas as franquias de liberdade conquistadas pela geração que nos precedeu. Vede a representação nacional. O nosso parlamento tem muitos defeitos, mas todos eles procedem de um vício capital, irremediável, sem cura - a incapacidade intelectual para compreender o maquinismo do mundo moderno, perceber a lei das novas evoluções sociais, e debater com perfeito conhecimento do sistema da universalidade moral que nos governa os altos interesses do tempo a que pertencemos. Com menos eloquência, com menos ardor, com menos fé que em 1836, os actuais deputados da nação vivem ainda a equilibrar as velhas dúvidas pulverulentas e desengonçadas do estabelecimento do sistema parlamentar. No entanto, no resto do mundo os acontecimentos científicos, sociais e políticos precipitam-se vertiginosamente, criando transformações que os antigos tempos não viam senão de uma gestação de séculos. Dentro de poucos anos a Itália unifica-se; a coroa de Roma 18 cai da fronte do Papa; os Bourbons são expulsos da Espanha; os Bonapartes fogem da França; constitui-se o império alemão; a América emancipa os seus escravos; a Europa perfura o monte Cenis e abre o canal de Suez; em Paris estala a revolução social que no primeiro dos seus relâmpagos abre um abismo de sangue; a classe operária agita-se por toda a parte, e o murmúrio, profundo como o do oceano, que ela está fazendo na sombra, abala a confiança que tinha em si a propriedade e o capital, e obriga as classes médias, em cujo poder jaziam desde a Revolução Francesa os destinos da civilização, a lembrarem-se de que a realeza, o clero e a aristocracia tiveram sobre o mundo antigo, assim como a burguesia sobre o mundo moderno, o seu tempo de domínio; que uma lei histórica lhes arrancou o poder num momento, e que a hora do presente regime pode soar amanhã, assim como sucessivamente soou, irrevogável e fatal, a de cada um dos domínios que têm senhoreado a humanidade. Isto pondera-se, medita-se, discute-se em todos os parlamentos. Em Portugal sana-se a questão apagando as luzes e fechando à chave a sala das conferências democráticas. Têm os políticos portugueses alguma leve notícia do que se está passando no mundo? Ignoramo-lo. Os partidos avançados o que querem? Novas liberdades em uma Carta reformada e a máxima descentralização nos diferentes ramos da administração pública. Ora enquanto à liberdade está-se provando em cada dia que nem da que possuímos temos aprendido a usar. Enquanto à descentralização a civilização portuguesa pararia no dia em que a votassem. Quereis uma prova? Há distritos em que o número das escolas tem duplicado nos últimos anos; pois bem: o número dos alunos é igual ao do tempo em que as escolas eram de metade! A verdade é que a civilização, bem como a liberdade, se não decreta. Só há um único meio de a alcançar: é merecê-la. 19 Há muito tempo que os governos portugueses, todos bem intencionados e honestos, longe de resistências, não encontram senão dedicações no espírito público; e, não obstante, vão caindo todos sucessiva e rapidamente. Sabeis por que caem? Caem simplesmente pela ignorância. E câmaras e câmaras sucessivas, tiradas de todas as condições e de todas as jerarquias sociais, não dão de si um grupo de homens com a capacidade intelectual precisa para firmar o Poder. Possam os nossos filhos reclamar a felicidade a que seus pais não têm direito, apresentando-se ao futuro com merecimentos que nós não podemos invocar! Suspensão de veemências e de ironias! Trata-se da infância. Não nos dirigimos aos políticos. Conversamos honrada e sinceramente contigo, leitor amigo, e contigo, leitora honesta; descansamos por uns momentos no chão as nossas armas para vos estendermos a mão. Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se acha a sociedade portuguesa a família é um duplo refúgio - do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares teu filho. Consagra-te a ele. A educação pública é uma burla atrozmente vergonhosa. Não lhe entregues a criança que o destino te confiou. Educa-o tu. Se não souberes mais, procura pelo menos torná-lo forte, ensina-lhe a ler e a escrever, dá-lhe um ofício e fá-lo um homem de bem; ele de si mesmo se fará um sábio, se tiver de o ser. A ignorância tem isso de bom: que se desfaz aprendendo. A falsa instrução tem esta perfídia: não dá o ensino e inibe de o tomar. 20 21 II AS MANEIRAS - COMO SE FAZ UM GENTLEMAN - CIVILIDADE DO SR. JOÅO FÉLIX Junho 1871 A arte de regular as maneiras por meio de uma combinação feita entre a nossa organização e a nossa vontade é uma das mais importantes coisas que se devem conhecer. Há homens que, sem plausivelmente sabermos porquê, alcançam tudo quanto querem nas pretensões do Estado, nas transacções comerciais, nas atenções das salas. Emerson, o célebre escritor americano, observando que os indivíduos que mais frequentemente obtêm esses triunfos não são os mais inteligentes, nem os mais belos, nem os mais honrados, averigua com muita lógica que o sucesso das nossas aspirações na sociedade depende principalmente do nosso porte. Por tal razão, Emerson define as maneiras - talento de dominar. No modo como nós nos vestimos, como falamos, como olhamos, como nos movemos, há efectivamente uma espécie de indefinido magnetismo a cuja influência não pode furtar-se quem se lhe sujeita. Napoleão I aprendia em lições particulares com Talma o melhor modo de traçar o manto e de se sentar no trono. Madame de Girardin, escrevendo na Presse as cartas do Vicomte de Launay, deu aos seus compatriotas as mais delicadas regras do maintien. 22 Balzac deixou entre os seus trabalhos inéditos um importantíssimo capítulo intitulado A teoria do modo de andar. Carlos Dickens, por ocasião de uma viagem aos Estados Unidos, achou útil explicar aos Americanos, entre outros preceitos de civilidade, que não era de bom gosto, quando se estão vendo estátuas, bater nos mármores com as bengalas. Em Portugal todas essas coisas se aprendem nas escolas de instrução primária, e da disciplina formada do conjunto desses preceitos são os alunos devidamente examinados nos liceus nacionais. O mestre das maneiras portuguesas não é Talma, nem Madame de Girardin, nem Balzac, nem Emerson, nem Carlos Dickens. É simplesmente o Sr. João Félix Pereira, médico, engenheiro civil e agrónomo. Vejamos algumas dessas leis que as crianças decoram para os seus exames e pelas quais os adultos se governam nas suas correlações sociais. Para que o sujeito possa a todos os respeitos considerar-se um gentleman, acha conveniente o Sr. João Félix: 11 Que ele faça a barba. 21 Que se não ponha à janela em mangas de camisa nem com o pescoço descoberto. 31 Que quando escarrar o não faça sobre a cara de pessoa com quem fale (maxime se é uma pessoa de respeito!) 41 Que não tenha os olhos em contínuo movimento. 51 Que nos jantares de etiqueta não limpe os ouvidos com o palito com que houver de palitar os dentes. 61 Que não arrote à mesa. O Sr. João Félix especifica ainda, com um escrúpulo pelo qual nunca lhe poderemos votar o suficiente reconhecimento, que diante de gente de respeito se não cortem as unhas. 23 E assim é! Achando-nos na presença de pessoas que respeitemos, como, verbi gratia, Sua Majestade El-Rei, um príncipe estrangeiro, um embaixador ou uma rainha, o pormo-nos repentinamente a cortar as unhas - principalmente sendo estas as dos pés - poderia ser tido por acto menos palaciano. Se o Sr. João Félix nos permitisse um leve apêndice aos seus conspícuos preceitos, diríamos que cortar os calos nos parece também operação que só em caso de muita necessidade nos deveremos permitir no meio de grandes assembleias. Quando se transpire depois da valsa, mudar de camisa no meio de um salão, sem previamente haver obtido para esse fim a permissão da dona da casa, igualmente nos ocorre que poderia por alguns ser talvez arguido como acto de menos etiqueta... Tratando do modo de proceder à mesa do jantar faz o Sr. João Félix Pereira duas observações muitíssimo sábias. A primeira é que não tomemos pitada de rapé pelo meio das coisas que estivermos comendo. Compreende-se todo o alcance desta advertência, reparando-se, por um só momento que seja, nos equívocos a que podia dar origem a concorrência do rapé com os acepipes, resultando por exemplo lançar-se a pitada sobre a salada e meter-se no nariz beterrabas! A segunda advertência é que nunca metamos bocado nenhum na boca enquanto não tivermos engolido o boca- do antecedente. Ninguém imagina sem o ter experimentado quanto importa ser cauteloso na matéria deste capítulo! Metendo na boca os bocados sem tomarmos a deliberação de os irmos sucessivamente engolindo, chegamos por espaço de tempos a uma indefinida aglomeração de bocados dentro da nossa boca. As pessoas que insistem, por tenaz grosseria, em não engolirem os bocados que vão 24 metendo consecutivamente na boca caem, ao cabo de alguns dias dessa terrível incúria, na dura necessidade de depositarem os bocados antigos que tenham entre a maxila superior e a maxila inferior, a fim de receberem bocados novos. Quando isto haja de se fazer convém que se tenha em vista o que o Sr. João Félix discretamente consigna com respeito aos escarros, isto é: que tais esvaziamentos se façam o menos que ser possa sobre os penteados das pessoas que nos cerquem, e muito mais particularmente quando estas tenham tido a precaução de nos advertir de que tais depósitos feitos sobre as suas cabeças lhes inspirem ideias asquerosas. Neste caso, toda a insistência da nossa parte correria o perigo de ser taxada de menos cortês. Depois do que fica exposto nada mais nos resta para aprender do modo como nos devemos apresentar na sociedade, a não ser o que o mesmo Sr. João Félix nos determina com relação ao nosso corpo, e isto importa muito que se saiba de cor. Vem a ser: "Conservemos direito o nosso corpo, qualquer que seja a sua postura, em pé, sentado, de joelhos: não inclinemos a cabeça, já para um, já para outro lado: se nos for preciso fazê-lo, façamo-lo com toda a gravidade." Seria muito para desejar que no grémio das sociedades cultas se conhecesse que tal doutrina começava a frutificar, ouvindo-se de quando em quando as seguintes vozes: "Meus senhores e minhas senhoras, permitam-me vossas senhorias ou vossas excelências (segundo o tratamento que lhes convier pelas disposições a tal respeito do capítulo VII do grande livro do Sr. João Félix Pereira sobre a civilidade) que eu lhes exponha um caso. Achando-me desde que entrei nesta sala com a cabeça voltada a N.N1. - ponto A - e acabando de ser chamado a N - ponto B - pela ilustríssima e excelentíssima senhora D. Joaquina, espero que a sociedade não tome por desfeita o excesso aparentemente inexplicável em que vou romper inclinando levemente a cabeça do ponto A para o ponto B." E só depois de havida a competente vénia dos circunstantes, o suplicante se permita inclinar-se levemente a D. Joaquina. É o que pedem a morigeração e a decência. 26 27 III OS FERIADOS - REDUÇÃO DO ANO ESCOLAR A ONZE DIAS Junho, 1871 Começaram este mês as férias grandes nos liceus, nas escolas superiores e na Universidade de Coimbra. As férias grandes em Portugal principiam em Junho e terminam no princípio de Outubro. Quatro meses. Acrescentemos a esse tempo um mês, prazo das férias do Natal e da Páscoa. Restam sete meses de trabalho escolar, ou duzentos e dez dias. Dos referidos duzentos e dez dias importa deduzir os dias seguintes: Trinta e quatro domingos. Trinta e quatro quintas-feiras. Quatro feriados pelo Entrudo. Quatro feriados por outros motivos. Soma total, passando por alto todos os dias santos: setenta e seis dias de sueto. Abatidos os quais dias, setenta e seis, dos duzentos e dez dias de que consta o ano lectivo, resultam cento e trinta e quatro dias úteis. Sendo o tempo das aulas em cada dia uma hora, achamos no ano - cento e trinta e quatro horas de aula. 28 Computando-se agora o trabalho de um homem de estudo em doze horas por dia (Arago só trabalhava apenas doze horas nos seus dias de descanso), vemos que os trabalhos lectivos nos liceus, nas escolas superiores e na Universidade se reduzem a onze dias por ano! É claro, pois, que um homem de boa vontade que durante cinco meses se encerre a aprender no interior do seu gabinete, deve necessariamente saber muito mais ao cabo desse tempo do que qualquer aluno das nossas escolas superiores, ao fim dos cinco anos de um curso. E isto por uma razão muito simples em favor do estudante livre: é que ele teria tido três vezes mais tempo de ensino em cinco meses do que nas escolas públicas em cinco anos. Dentro de um ano de estudo livre devidamente aproveitado, prova-se aritmeticamente que poderia qualquer indivíduo seguir todos os cursos de todas as faculdades como eles se ensinam na Universidade e merecer ao fim desse ano o grau de bacharel em todas elas - direito, medicina, teologia, filosofia e matemática. Nas escolas públicas o aluno que segue um curso tem, desde os quinze até aos vinte anos de idade, cinquenta e cinco dias de lição a doze horas de lição por dia. Cinquenta e cinco dias... em cinco anos! As férias grandes são o único remédio dado pelo Estado a esta calamidade verdadeiramente pavorosa. Graças às férias grandes, há quatro meses inteiramente livres em que os alunos se recolhem a suas casas, sendo por alguns aproveitado então esse benefício do tempo... em aprender. Bem haja o Estado, e abençoadas sejam as férias! 29 IV UM DOS COMPÊNDIOS! Julho, 1871 O compêndio do Sr. João Félix não é o único modelo do seu género que a instrução pública portuguesa oferece ao pasmo do estrangeiro e à educação do indígena. Dizendo-se todos os dias que Portugal é um país essencialmente agrícola, lancemos os olhos ao livro elementar destinado ao ensino agrícola nas escolas nacionais. O autor do compêndio que temos aberto a nossos olhos chama-se o Sr. António Francisco Moreira de Sá. Vamos ler. "Pergunta - A que se chama ferramenta de lavoura?" "Resposta - A um instrumento simples, portátil, o qual, posto que conste de diferentes partes, parece todavia feito de uma só peça." "P. - A que se chama máquina de lavoura?" "R. - A máquina é um instrumento complicado e composto de várias peças, que se podem desarmar." "P. - O que é o arado?" "R. - É o que não tem jogo dianteiro." 30 "P. - Que se pode dizer do centeio?" "R. - Depois do trigo é um dos mais úteis cereais." "P. - Que se pode dizer do arroz?" "R. - O arroz é originário da Índia onde eles fazem do arroz o mesmo uso que nós do pão." "P. - Que há a respeito do feijão?" "R. - O feijão divide-se em várias qualidades." "P. - Que é necessário para haver bom esterco?" "R. - Sabê-lo produzir, conservar e empregar." O Sr. Moreira de Sá, cujo livro tremendo e profundo como o olhar de um idiota nós sentimos não poder reproduzir integralmente nestas páginas, prova nessa sua obra imortal que o autor conhece assustadoramente o grande mistério de produzir, conservar e empregar o esterco! A crítica extra-oficial respeita e admira nesse livro todo uma leiva ubérrima de óptimos farináceos e a única coisa que nos parece haver a respeito do feijão - além das qualidades em que ele se divide - é que este legume certamente se regalaria muito plantado nesse livro. As Farpas, em nome da agricultura portuguesa, folgam de ter esta ocasião de animar o Sr. António Francisco Moreira de Sá e a crítica superior e oficial da instrução pública a que continuem a enriquecer-nos - produzindo. 31 V OUTRO COMPÊNDIO ! ! Julho, 1871 Constelemos estas páginas com os esplendores de duas definições científicas desengastadas dos primores de um compêndio de geografia e de cronologia do Sr. Vitória Pereira, professor. Primeira: "Universo é o espaço que medeia entre a Terra e as estrelas." Segunda: "A ciência que trata dos fluidos chama-se mineralogia." Umas coisas se nos figuram inteiramente parecidas, pela substância de que são formadas e pelos seus efeitos prováveis nas vísceras a que se aplicarem, com aquelas definições propinadas pela Instrução Pública ao espírito da infância: são as pílulas promulgadas pela Câmara para os seus cães vadios. Para que nem os cães nem os alunos se enfastiassem com a repetição destes acepipes, convinha talvez que de quando em quando a Câmara Municipal, de combinação com a junta consultiva de Instrução Pública, fizessem juntas uma experiência: lançar a sua estricnina à infância estudiosa e os seus compêndios aos cães famintos... A ver ! 32 33 VI POR ONDE SE APRENDE A HISTÓRIA E POR ONDE SE APRENDE A ARITMÉTICA Outubro, 1871 Até há bem pouco tempo (ó incúria!) todos os compêndios da história portuguesa adoptados nas escolas de instrução primária principiavam invariavelmente do seguinte modo: Pergunta - Quem foi o primeiro rei de Portugal? Resposta - D. Afonso Henriques. Pergunta - Quais foram os factos mais notáveis do reinado desse rei, e quem lhe sucedeu? Resposta. - Sucedeu-lhe D. Sancho, etc. E assim por diante até S. M. o Sr. D. Luís I. A propósito destes compêndios observou-se que eles eram imperfeitos pela razão de que se consagravam prolizamente às anedotas milagrentas da fundação da monarquia e aos casos biográficos e romanescos dos nossos antigos reis, deixando no escuro dos últimos planos, apenas indicados com extrema leveza à atenção dos estudiosos, os factos da história contemporânea, os quais, pelo contrário, seria conveniente expor com perfeita exactidão e lucidez crítica, a fim de dar aos alunos a lição que mais directamente os interessa: do estado social e político no seu tempo e na sua época. 34 Assim, ficou opinado que o melhor compêndio de história pátria seria aquele cuja parte principal fosse dada à história contemporânea, deixando para último lugar o tocante à crónica das antigas dinastias e ao heroísmo dos nossos remotos feitos. Um professor ilustre a quem isto se disse, atentando bem no que havia de profundamente proveitoso e prático em semelhante alvitre, propôs-se satisfazer neste ponto as exigências da crítica, e para esse fim compôs um compêndio, o qual continha exactamente o mesmo que todos os compêndios feitos, com a diferença de que, dando a primazia à história contemporânea sobre os factos antigos, principiava assim: Pergunta - Quem foi (verdadeiramente) o primeiro rei de Portugal? Resposta - S. M. o Sr. D. Luís I. Pergunta - Quais foram os factos notáveis do reinado desse ilustre rei, e quem lhe sucedeu? Resposta - Sucedeu-lhe El-Rei D. Pedro V, etc. E assim por diante até D. Afonso Henriques, ao qual, como mais remoto, fora consequentemente dado o derradeiro lugar neste portentoso livro! O conselheiro superior de Instrução Pública apressou-se imediatamente a aprovar para a adopção nas escolas a nova obra do arrojado reformador da nossa história elementar. Além deste homem verdadeiramente grande, conheces tu já, leitor amigo, na história dos compêndios portugueses, Moreira de Sá - o dos estercos; João Félix - o dos gases; Vitória Pereira - o dos fluidos. Todos eles são preclaros e imortais. Vitória, descobrindo que a ciência dos fluidos se chama a mineralogia, rasgou perspectivas inesperadas na ciência. Moreira, emergindo denodado das profundezas dos estrumes para revelar às gerações absortas tudo o que há a respeito do feijão, é belo! 35 De João Félix, que com mão firme pautou a direcção que cada um deve dar aos seus gases achando-se em sociedade, podemos dizer que é o Franklin do arroto, o criador excelso de uma nova rosa-dos-ventos! Depois que tão altos varões foram, por suas investigações e descobrimentos, coroados pelo conselho de Instrução Pública perante a pátria reconhecida, sentir no génio a pontada lancinante, prenúncía de que o sujeito tem no interior um compêndio de instrução primária, e não abafar esse compêndio, não o estrangular nas entranhas, deixá-lo que saia à luz e que rabeie audaz entre os fluidos, os estercos e os gases que o precederam, grande arrojo se figura. Todavia, no presente mês de Outubro, inesperada e repentinamente, um novo compêndio aparece. É seu autor o Sr. João José Lopes, e tem por título Tabuada Metódica dos Rudimentos de Aritmética. Para mais rápida e pronta propagação dos princípios contidos no citado livro, vamos fazer, textualmente e verbo a verbo alguns excertos: PRIMEIRO (Página 7, linha 10 e seguintes) P. - O menino está aí? R. - Estou, sim, senhor. P. - O menino só o que é? R - Sou um menino. SEGUNDO (Página 10, linhas 320 e 330) P. - O que é um? R - É um. 36 TERCEIRO (Página 11, linhas 320 e 330) P. - Havendo dez meninos, como se chama o menino que estiver "antes" de todos? R - É o primeiro menino. QUARTO (Página 13,linha 200 e seguintes) P. - Sabe a quantidade de meninos que existem? R - Não sei. P. - O que é preciso para saber a quantidade de meninos que existem? R - É preciso saber o número deles. P. - O que é saber o número de meninos que existem? R. - É saber as palavras com que hei-de dizer a quantidade de meninos que existem. QUINTO (Página 14, linha 300 e seguintes) P. - Seria possível contar uma a uma o número das coisas que existem? R - Se fôssemos a contar o número das coisas que existem, elas são tantas que nunca mais acabaríamos. P. - Então o que se faz para dizer com brevidade o número das coisas? R - Conta-se uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez coisas. Quando as coisas que se contam chegam ao número dos dedos das mãos, que são dez, em lugar de dez coisas, diz-se que temos uma dezena de coisas. 37 O livro que aludimos foi aprovado pela junta consultiva de Instrução Pública para uso das escolas primárias, e está adoptado na escola anexa à escola normal primária do sexo feminino. A junta consultiva de Instrução Pública diremos... Mas não! Para quê? Nós duvidamos que a junta consultiva saiba ler. Enquanto a ti, João José Lopes, prossegue! As Farpas simpatizam com o teu género. Quem descobre como tu um meio tão simples de dizer com brevidade o número das coisas que existem, qual é o de as contar, um homem que acha isto não pode deixar de ser um cavalheiro. Vemos, amigo, que tens outras obras publicadas e que novos livros preparas para dár à estampa. Parabéns, e avente! Se Félix, Vitória ou Sá te morderem de inveja, cá estamos nós ! Escreve, escreve, João José! Escreve muito! - verás o bem que isso há-de fazer-te ao fígado! 38 39 VII O PROGRAMA DOS FESTEJOS NO CENTENÁRIO DA UNIVERSIDADE A Universidade de Coimbra continua indefinidamente celebrando a festa do seu glorioso centenário. Porque o programa da festa do centenário da Universidade de Coimbra tinha diferentes partes. Tinha a parte musical, a parte pirotécnica, a parte numismática, a parte culinária e a parte científica. Tocaram-se todas as músicas, lançaram-se todos os foguetes, cunharam-se todas as medalhas comemorativas do caso, e não só se comeu todo o arroz-doce tributado à consagração do grande dia pelas famílias dos senhores doutores, mas até se comeria mais - a tal ponto foi profunda a comoção e vivido o entusiasmo de toda a Universidade! Unicamente na parte científica e literária está-se desempenhando ainda o programa, porque não poderiam ser concluídas, por enquanto, as memórias cuja publicação se anunciara. Portanto, a festa continua e, enquanto as memórias não aparecem, o júbilo da Universidade pela fausta celebração do seu glorioso centenário conservar-se-á - indescritível ! 40 41 VIII APENSO AO PROGRAMA Na aula do primeiro ano de química da Universidade de Coimbra um aluno despejou sobre a cabeça do Sr. Doutor Leão, lente, uma chocolateira de água a ferver. Ora como a Universidade, entre outras operações científicas com que projecta festejar o centenário, tem em mente um projecto de reforma de estatutos, tomamos a liberdade de sugerir a conveniência de se consignar no programa novo dos estudos um convite ao estudante para que este se coíba, tanto quanto possível seja, de derramar água a ferver em cima dos professores. Não que o argumento da água a ferver pela cabeça não nos pareça inteiramente decisivo, mas porque receamos que, generalizada um pouco esta dialéctica, o corpo docente venha dentro de algum tempo, à força de argumentar com os alunos, a não ter para meter dentro dos capelos senão cabeças - cozidas. 42 43 IX O RACIONALISMO NA UNIVERSIDADE Em um dos dias deste mês parece que nas aulas da Universidade um estudante dissera que era cristão - o que, todavia, segundo ele, não queria inteiramente dizer que admitisse a divindade teológica de Jesus. O que o Sr. Doutor Jardim, professor, apoiou. Um jornal católico de Coimbra agride o Doutor Jardim pelo seu apoio oficial aos que duvidam da divindade de Cristo. Alguns periódicos liberais defendem o acto do professor. Nós pediremos licença para fazer uma distinção. Se o Sr. Doutor Jardim foi levado pelos seus estudos da metafísica e das religiões a diferençar, como racionalista, a convicção cristã e a interpretação teológica de Deus, o Sr. Jardim, fazendo pública essa afirmação científica, tem direito a ser visto e respeitado como um pensador sincero e um filósofo plausível. Se, porém, o Sr. Doutor Jardim é, entre os livres-pensadores, menos pensador do que livre, se sua excelência é apenas ateu ao modo dos guerreiros de 1834 - hoje reformados - que se bateram pela extinção dos conventos, e que principiaram a embirrar com Deus em virtude desta compreensão - aliás vulgar entre os antigos coronéis - de que Deus era frade, então, o Sr. Doutor Jardim é ridículo. 44 No primeiro caso diremos ao senhor lente - pensador positivo - com o devido acatamento e respeito: que a Universidade de Coimbra, como o Marquês de Pombal a organizou, é católica apostólica romana, e que sua excelência, racionalista, deveria antepor a defesa da liberdade religiosa à prática de liberdade de ensino, e antes de discutir a religião imposta pelo instituto a que pertence, tombar o instituto que lhe fixa uma religião indiscutível. No segundo caso diremos a sua excelência - ímpio de caserna - que modere a sua impavidez, porque se lhe é permitido considerar longínquo o abismo em que o réprobo encontra o ranger dos dentes, aí bem perto da cadeira de sua excelência há a aula de química; onde a livre discussão ergue sobre a fronte dos preceitos - a tremenda chocolateira das águas que fervem! 45 X A FILOSOFIA LEVANTA A BITOLA O Sr. Visconde de Monte-São fez ultimamente à mocidade académica uma revelação formidável. Sua excelência, professor na Universidade, disse da sua cadeira. Que a faculdade de filosofia - ia levantar a bitola. E aí têm, em bem poucas palavras, um grande sucesso verdadeiramente memorável! Reconhecimento e gratidão ao Sr. Visconde de Monte-São, que depois de cem anos de rotina, acha bem que na Universidade de Coimbra a filosofia - levante a bitola! O que não irá na Alemanha, entre os sábios, quando eles de lá virem a filosofia portuguesa apresentar-se ao mundo - de bitola levantada! 46 47 XI O NOVO AIO DE SUA ALTEZA O PRÍNCIPE REAL Novembro, 1873 Com a mais estranha comoção lemos ultimamente que fora nomeado aio de Sua Alteza o Príncipe Real sua excelência o Sr. Martens Ferrão, abalizado jurisconsulto e procurador-geral da Coroa. É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que possam ser perante a educação e perante a ciência as atribuições especiais de um aio junto de um príncipe. Todavia - debalde procuraríamos escondê-lo -, em presença de semelhante assunto, profunda e ilimitada é a confusão do nosso espírito. Por isso que, por mais assinaladas que se nos representem as diferenças que devem distinguir o alto e poderoso filho de um monarca do mero filho de um fabricante de velas de sebo, nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa fantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas presunções mais vagas, nem pelas mais remotas suspeitas, nem pelas mais afastadas conjecturas, qual o emprego prático e efectivo que possa dar um príncipe aos préstimos de um aio. Para satisfação de que necessidades, de que conveniências ou 48 de que simples formalidades, em que condições, em que circunstâncias, em que especial momento da preciosa e augusta vida do real infante, vai sua excelência o aio à presença de Sua Alteza o Príncipe?!... Nós o ignoramos. Porque, quando as ordens de Sua Alteza procedam das necessidades do seu espírito, das curiosidades da sua inteligência, dos interesses da sua instrução, Sua Alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou algum dos seus livros, e a Sua Alteza será então aplicado um professor de língua, um compêndio do Sr. João Félix ou um número do Diário de Notícias. Quando os desejos manifestados por Sua Alteza dimanem das urgências físicas da sua natureza, das fatalidades animais do seu organismo ou do seu temperamento, Sua Alteza pedirá o seu banho, e o seu jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de Sua Alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de Sua Alteza. E não vemos, nem na ordem física, nem na ordem moral, nem na ordem intelectual das relações de Sua Alteza com o mundo externo, a necessidade, a conveniência ou a plausibilidade da intervenção do aio. A não ser que a concorrência desta legendária metafísica se deva considerar nos reais paços como um acepipe hors-d'oeuvre ou como um objecto suplementar de recreio, porque então compreendemos de certo modo que ao serviço particular de Sua Alteza um camareiro exclame: "Está o lurich na mesa: há galantine, rabanetes e o Sr. Martens Ferrão com salsa picada e manteiga fresca." Ou então: "Eis os brinquedos de Sua Alteza: aqui está a bola de guta-percha e a caixa com o Sr. Martens Ferrão de engonços." Se, porém - e perdoe-se-nos esta hipótese - se, sob a senhorial e demiévica palavra "aio", devemos entender a ideia perfeitamente lógica, sensata, popular, de um preceptor prático, de um mestre experimental, de um amigo, 49 um companheiro, nesse caso notaremos com o mais profundo respeito a Sua Majestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do jovem príncipe, que foi singularmente iludida a sua perspicácia elegendo o Sr. Martens Ferrão como conselheiro oficial e privado de seu filho, como guia experimentado da cândida existência enexperiente do inocente aluno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona os altos merecimentos de sua excelência o actual senhor procurador-geral da Coroa, antes pelo contrário, os confirma e corrobora. Esta razão é que: o Sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organização, pelo seu temperamento, pelo seu carácter, pela sua biologia, é tão inexperiente, tão cândido, tão ingénuo, tão inocente e tão puro como o próprio aluno que ele é chamado a aconselhar e a dirigir na difícil e complicada navegação da vida. Passando, em tenros anos, do regaço daquela que lhe deu o ser para os braços da austera jurisprudência, que tinha de amamentá-lo para a ciência e para a glória, o Sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a sua vida en nourrice em casa do Direito Público. Os seus dias têm decorrido transcendentemente fora das condições históricas do tempo e do espaço. A sua ezistência tem sido exclusivamente mística e simbólica. Quando tem os seus ímpetos mais ferozes de extravagância, de anarquia, de deboche, ele sai a passear pelas viçosas campinas da filosofia do direito e faz patuscadas orgíacas e escandalosas com as origens célticas do direito e com as liberdades municipais do Império Romano. Depois, o remorso apodera-se dele. No dia seguinte acorda pálido, abatido, com a língua grossa: o espectro pavoroso e formidável do Sr. Batbie apareceu-lhe em sonhos, e ele ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite e do arrependimento: "João Baptista, para onde deixaste o direito de punir? Que fizeste do direito administrativo, João? Que é do direito internacional, Baptista?!" Tais são os seus dias de mais desdém, de mais anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champanhe! Tal é o seu despertar contrito para a legalidade, para a descentralização distrital e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é ele! E quando dizemos ele, cometemos uma incerteza de concordância, porque tão pura, tão transcendental, tão científica é a personalidade do Sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a história, referindo-se a sua excelência, em vez de dizer ele, diga - ela. Pela nossa parte, aguardando acerca da resolução desse ponto as ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por enquanto simplesmente el, sem a desinência de género, sob a respeitosa fórmula neutra. Como dizíamos, pois, tal é - el. Analisando, timidamente como o temos feito, a nomeação do Sr. Martens Ferrão para aio do príncipe real - note-se bem isto - não é a sorte de Sua Alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia... Ah! Não! É, pelo contrário, o destino de sua excelência o que nos inquieta sob a influência de um tal companheiro. Mas el? O que será d'el, el tão puro ou pura, tão cândido ou cândida, sob os impulsos da nova existência que repentinamente vai no seu temeroso vértice arrebatá-lo ou arrebatá-la?! Na vida da corte, fina, cintilante, irritável, cheia de factos, de comoções, de rasgos de espírito e de valor, de emboscadas, de surpresas, de malícias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, quantas ratoeiras para a inocência virginal, para a cândida pureza inexperiente e inerme d'el!... Os príncipes, por efeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, monótona, amam naturalmente a escapada, o mistério, a aventura, a inocente anormalidade. Apraz-lhes a surtida arriscada, a partida carnavalesca, o ruído dos festins secretos, a máscara, inescrutável, a longa capa dramática e a espada ligeira e subtil dos paladinos; - o que se lhes deve relevar, porque é esse o único despique dos príncipes para a seca oficial dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos sensaborões e dos hipócritas que ordinariamente os rodeiam. Estes, porém, não são ainda para el os únicos perigos. Não é lícito esconder que há outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influências tempestuosas desse elemento, terrível para a mocidade, que se chama - a mulher. Sentimos magoar com este pormenor a pudicícia do senhor procurador-geral da Coroa, mas esta é a verdade que não devemos ocultar dos olhos de sua excelência. Diz Michelet que em todo o tempo a mulher atraiu o homem, assim como a vinha da Itália chamou os gauleses, e a laranja da Sicília chamou os normandos. Elas chamam-nos, ó senhores procuradores-gerais da Coroa, elas chamam-nos! Lembremo-nos da bela Helena, Sr. Martens Ferrão, lembremo-nos de Semíramis, de Cleópatra, da casta Penélope, das Sabinas! Os príncipes não estão mais isentos que os outros homens desta lei geral da humanidade, e os que vivem com eles - ponderemo-lo bem - ficam sujeitos às mesmas influências que envolvem os reis. Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente, que ele foi à Terra Santa com cem mil homens, o próprio Guilherme VII levou também na viagem ao Santo Sepulcro a galante legião das suas amantes, e diz dele uma velha crónica que, bom trovador e bom cavaleiro de armas por muito tempo correra o mundo para enganar as damas. Tal é a raça de que eles saem, às vezes quando não saem piores que o místico e piedoso Guilherme! Que a actual procuradoria-geral da Coroa enquanto é tempo o medite! De Francisco I, um dos mais sábios e dos mais úteis reis que tem tido o mundo, diz-se que às belas milanesas se deve a mais importante parte na perseverança com que ele combateu pela conquista da Itália. 52 Sem falarmos na coorte das pecadoras, tão gentis como funestas, dos boudoirs de Luís XIV e da Regência, recordemos ainda as dissolutas e ferozes mulheres da corte de Carlos IX, Catarina de Médicis, Maria Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luís XI, a Gigogne e a Passefilou... Ó pudor! Ó decoro! Ó reforma administrativa! Supondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sábios possam preservar os príncipes dos perigos das suas ligações clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na própria convivência legal das mulheres legítimas? Um dia, Maria Laczinska, legítima mulher de Luís XV, recusou um beijo ao rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luís, segundo a expressão pitoresca de um cronista das galanterias escandalosas do século passado, começava então a tomar o gosto ao champanhe. O rei resolveu nesse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento dessas relações custou à felicidade da França e à moral da Europa. Que remorso para o aio de Luís XV! Foi dele a culpa desse desastre. Se o aio do jovem rei, em vez de começar a tomar o gosto ao champanhe juntamente com o seu aluno, fosse, como pelo contrário devia ser, um experimentado e antigo soupeur, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao homem pela bebida e pelo amor, ele teria evitado o divórcio do rei. Tê-lo-ia evitado, porque teria ensinado ao seu aluno, com a autoridade da experiência, que a intemperança nas ceias e o abuso no champanhe produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e para a gota e a manifestação das areias no rim. Se o príncipe não obedecesse a estes conselhos e persistisse em cear, nesse caso o seu aio lhe faria compreender que depois de ter bebido champanhe nenhum homem vai conversar com senhoras sem ter concluído a sua digestão e sem haver previamente 53 lavado a boca com um elixir dentífrico. Um pequeno passeio ao ar livre, uma gota de láudano ou uma pastilha, qualquer destas três coisas ministrada oportunamente por um aio inteligente e dedicado teria obstado ao rompimento das relações de Luís XV com sua mulher e a todas as consequências que daí seguiram. Algumas vezes sucede ainda que, além de todos estes desgostos, destas decepções e destes remorsos, os aios, os validos, os íntimos dos príncipes levam ainda por cima pancada das princesas. Neste ponto as crónicas são pródigas de eloquentes e salutares avisos. Constança de Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha tais acessos furiosos de mau génio que um dia vasou um olho do seu próprio confessor, batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de pássaro. Esta mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolável e sagrada da real majestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros esses crânios dedicados e fiéis. Foi a mesma sobredita princesa a que de uma vez mandou matar por ocasião de um passeio, aos próprios olhos do soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que de outra vez impôs para o outro mundo um cortesão antipático, estafando-o com uma corrida que o obrigou a dar numa caçada. Ora se a Coroa tem, por um lado, a obrigação de escudar a infância e a inocência dos príncipes, não deve, por outro lado, sacrificar a inexperiência inerme das instituições, pondo os senhores procuradores-gerais como barreira entre as tentações e as culpas, lançando enfim a alta magistratura ao pego tenebroso, ao mexilhoeiro insondável em que há o espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico. 54 55 XII MÃE 1874. Há dias, uma pobre senhora - uma burguesa, cuido eu -, casada, mãe de filhos, ainda nova e bela, teve de ser operada de um cancro, fazendo-se-lhe a amputação do seio direito. A operação deu em resultado observar-se que o tumor estava ramificado para o lado esquerdo do peito. A doente, que tinha sido cloroformizada para suportar a operação, recuperou os sentidos no momento em que se discutia e se preparava esta coisa terrível: amputar-lhe o seio que ainda lhe restava. Ela compreendeu, no meio do embaraço suscitado pelo seu despertar inesperado, qual era o segredo que procuravam ocultar-lhe e, com uma grande firmeza resignada, disse: - Cortem-mo também: o meu filho está criado. Oh! Obrigado, minha desconhecida, minha obscura, minha santa amiga, que tens hoje no lugar da curva graciosa e sensual do peito feminino os ossos raspados pelo bisturi sob os quais se esconde o teu coração magnânimo! Bendita sejas tu que me permites, ao cabo de três anos dolorosos de crítica, de ironia, de piedade ou de desdém que constituem a colecção destes pequenos livros, extrair enfim do coração deste mundo decadente e ridículo uma palavra luminosa - uma palavra ao menos - verdadeiramente genial e sublime! 56 Não instruis, não libertas, não emancipas ninguém, ó doce, efémera, sublime ignorada, mas consegues com o simples sentimento o que não sabem fazer com ele os maiores artistas sentimentais e lacrimosos: fixar numa frase o ideal humano da elevação e da dignidade no amor. A tua palavra divina, registada nestas páginas obscuras, mas sentidamente verdadeiras e honradas, passará alada e cândida por cima do charco revolto das nossas intrigas, das nossas mediocridades e das nossas misérias, no rasgo de um voo inefável e profundo através do céu, como a pomba do dilúvio, anunciando àqueles que olham pensativos para a devastação da torrente que há neste baixo mundo um lugar eternamente puro e sagrado, guardado pelo olhar de Deus: o lugar em que o vosso coração encerra, ó mães, o amor dos vossos filhos. 57 XIII MAIS UM COMPÊNDIO!! Em França há uns livros para fazer rir que se intitulam Mille et une bêtises, Cent mille bêtises, Um million de bêtises, etc. Em Portugal há uma colecção deste género, em que a toleima faz chorar pelas profundidades cómicas em que penetra no trágico. Estes livros portugueses constituem um comércio patrocinado pelo Estado e intitulam-se "Os compêndios de instrução primária aprovados pela junta consultiva de Instrução Pública". Por muitas vezes nos temos referido às facécias venenosas que os autores encartados de compêndios publicam e vendem para as escolas sob a aprovação da junta consultiva. O único resultado que até hoje pudemos conseguir à civilização por efeito da análise de tais livros foi que os autores deles, nomeados informadores do grémio dos escritores públicos, elevassem a importância do imposto industrial do autor destas linhas à soma de trinta e seis mil réis anuais. Também a única coisa verdadeiramente espirituosa que temos visto fazer a estes senhores é esta de não darem licença que os achemos fenomenais por menos de trinta e seis mil réis! Esperamos que suas mercês nos abatam oito tostões na décima do ano que vem em remuneração desta concessão que espontaneamente fazemos aos dotes atilados do seu espírito. 58 E se nos forem assim corrompendo progressivamente até nos fazerem pagar tão pouco como eles mesmos pagam, verão que ainda havemos de chegar a considerá-los com direito, pelos progressivos desenvolvimentos da sua razão, a deixarem de comer cru o seu esparregado. Ai, pérfidos! A que baixas lisonjas não sereis vós capazes de nos obrigar, tendo-nos na mão a décima! No entanto, achamo-nos frente a frente com um compêndio que ainda não apresentámos ao leitor. Intitula-se Método de Leitura Elementar e é aprovado pela junta consultiva de Instrução Pública. Este livro... (chamamos a atenção dos senhores repartidores das quotas do grémio dos escritores públicos), este livro achamo-lo bom, muito bom! E se a junta consultiva, desde que leu e aprovou esta obra, se está rebolando no chão de confusa e de maravilhada, pedimos-lhe licença para ir gozar por uma ou duas horas da sua amável companhia, porque sentimos igualmente, em vista deste notável livro, a necessidade moral de nos rebolarmos também. Havendo no compêndio a que nos referimos alguns pontos em que a imperfeição do nosso entendimento nos não permite chegar à certeza no conhecimento da verdade, pedimos sobre esses pontos, sem prejuízo da nossa admiração, o subsídio explicativo da junta de Instrução Pública. O que simplesmente desejamos é esclarecer o nosso espírito. A seguir, exporemos alguns textos da Leitura Elementar, acompanhando cada texto do respectivo quesito ou reflexão que ele nos sugere. Texto - A pedra é um corpo sólido porque em qualquer parte que se ponha terá sempre o mesmo feitio. Objecção - Tendo a pedra este feitio U, notamos que se a pusermos numa parte em que ela fique emborcada 59 para baixo toma o feitio de um arco; ficando revirada para cima toma o feitio de um u; ficando voltada para a direita toma o feitio de um c; ficando para a esquerda toma apenas o feitio de um gancho. Pergunta-se se, para que uma pedra se considere um corpo sólido, é absolutamente preciso colocá-la em qualquer parte de maneira que ela não fique nem para a direita nem para a esquerda nem para cima nem para baixo? E neste caso como é que a junta consultiva determina colocar a pedra e mais corpos sólidos para que em qualquer parte que se ponham não mudem nunca de feitio? Texto - Os animais muito pequeninos chamam-se bichos. Reflexão - Desde que grau de pequenez é que se começa a ser bicho? Pede-se à junta consultiva que mande o tamanho por centímetros do maior dos bichos para se fazer ideia e ficar para estalão. Mais se pergunta se, sendo os bichos animais muito pequeninos, os tão falados grandes bichos deverão começar a ser considerados como grosseiras calúnias e torpes aleivosias? E igualmente se estimaria saber se a bicha, acerca da qual o autor guarda um silêncio reservado, regula em tamanho pelo bicho? E neste caso, se quando até aqui chamávamos bicha solitária a ténias com dez ou doze metros de comprimento, não teríamos involuntariamente arrojado um feroz insulto às faces daquele tão interessante verme? Texto - Os bichinhos que têm riscas no corpo que parecem anéis chamam-se insectos. Quesito - Pretende-se saber se a um sujeito que tem no corpo um anel que parece risca se poderá, sem ofensa, chamar igualmente insecto. Há um indivíduo que, para seu governo, quer despir-se diante da junta consultiva 60 para que esta verifique se uma risca que ele tem no corpo parece anel. Outro indivíduo que tem a firme certeza de possuir em seu corpo três riscas parecidas com anéis precisa de saber se não corre perigo de vida pegando numa pitada de pó insecticida e se lhe é dado continuar a viver confiadamente no seio da sua família sem o risco iminente de que esta o confunda - com as moscas? Texto - Quem olha uma coisa sente prazer ou ENCÓMODO em vê-la. Quesito - Se é lícito, com a aprovação da junta consultiva de Instrução Pública, escrever incómodo com e, pergunta-se se poderá igualmente escrever prazer com i. Texto - Um copo é um corpo porque se sente: vê-se, pode-se ouvir... Dúvida - Enquanto a podermos ver os copos não temos dificuldade invencível em o poder fazer. Enquanto a ouvi-los parece-nos o facto mais difícil, mas como a junta consultiva opina que ele se pode dar, ocorre-nos perguntar-lhe se será a esta operação de ouvir os copos que se referia o poeta latino quando exclamava: "Ó copos! (ortografia da junta consultiva) Ó copos! hic labor est!?" Texto - Ave é qualquer animalzinho que voa... Animal é qualquer objecto que se pode mexer por si mesmo, e ir de um sítio para o outro, sem que ninguém o leve nem coisa alguma... Os peixes que nascem dentro de conchinhas chamam-se mariscos... Uma grama pesa tanto como vinte grãozinhos de trigo... Quem a uma pêra adiciona mais uma, tem uma e mais uma... Meditação - Temos repentinamente de principiar a considerar ave um animalzinho que voa chamado mosquito; temos por outro lado de fazer entrar imediatamente na classe dos vegetais os animais que pela velhice, pelo cansaço ou pela doença, se não possam mexer nem ir de umsftio para o outro sem que os levem; ouvimos a revelação terrível dos peixes nas conchinhas, e do peso da grama; - tudo isto lançado de chofre a cérebros descuidados e fracos, não receia a junta consultiva que irrite e escandeça demasiado as cabeças da infância, apesar do refrigério daquele teorema tão profundo e ao mesmo tempo tão simples de que "uma pêra e mais uma é uma e mais uma pêra...?" Esperamos que a junta consultiva de Instrução Pública não levará a mal as considerações que acabamos de lhe dirigir. Elas não são inspiradas pela malevolência nem pelo rancor. O nosso espírito está, pelo contrário, satisfeito, jubiloso, alegre. A respeito da alegria diz a junta consultiva, pela boca deste compêndio, as palavras seguintes: "Quando eu estou alegre, quem pode ver a minha alegria? Quem a pode ouvir, quem a pode cheirar, quem a pode apalpar? Ninguém. Mas quando eu estou alegre, estou "assim de um certo modo" que faz que as outras pessoas tenham sentimento da minha alegria." Como é tristemente verdadeira e desoladora esta observação psicológica. Assim é infelizmente. A junta consultiva não poderá nunca, por mais que faça, ouvir, apalpar, cheirar o verdadeiro estado em que ficamos depois da leitura deste seu compêndio! Ela não nos apalpa, ela não nos cheira, mas permita Deus que compreenda, ao menos pelo sentimento íntimo, que, como ela muito bem diz, nós efectivamente nos achamos - assim de um certo modo! 62 63 XIV ESCRÚPULOS DE BEM-FALANTE Abril, 1874. Recebemos pela posta o seguinte bilhete: "Desejo que o crítico das Farpas que ultimamente traduziu para o teatro de D. Maria o Marquês de Villemer, queria ter o incómodo de informar-me se acha que seja permitido na boa sociedade de Lisboa, a uma menina tão bem-educada como Mademoiselle de Saint-Railles na comédia aludida, proferir a palavra estrumes. Espero resposta. - Sua leitora." Respondemos. Minha leitora. - Não sei se na boa sociedade as meninas querem ou não permitir-se empregar na conversação as mais nobres palavras que tem uma língua - as que se referem à cultura da terra e aos fenómenos da criação. Em Caneças sei que os saloios têm nesse ponto umas reservas cheias de pudicícia e que pedem licença prévia para falarem num cavalo ou num porco. Não posso dizer até que ponto os usos da sociedade de Caneças penetram na sociedade de Lisboa. A minha opinião particular é: que uma menina bem-educada está autorizada a proferir em toda a parte os nomes claros, técnicos, insubstituíveis das coisas, que ela 64 tem obrigação de saber. Ora, dessas coisas, as primeiras que deve aprender uma senhora são a arte da jardinagem e a arte da cozinha - os dois princípios rudimentares da grande ciência de criar e de alimentar o homem. Michelet, de todos os grandes pensadores modernos aquele que mais amou as mulheres e que deu na terra o paraíso àquelas que tiveram a ventura de serem a sua mulher, a sua filha e a sua neta, concebeu a regeneração da humanidade pela educação da mulher e começou a instruí-la fazendo-a penetrar os altos segredos da natureza e da vida por meio do estudo tão moralizador e tão elevado da jardinagem e da cozinha. O estrume é o ponto de união entre a cozinha e o jardim, os dois sagrados domínios da inteligência da mulher superior, da esposa, da mãe, da nobre criadora, da alimentadora, da protectora do homem. O estrume é um dos factos mais interessantes e mais curiosos da grande história profunda da terra e da natureza. É o objecto mais digno da atenção do nosso espírito. O estrume é a história toda da química, da geologia, da biologia, da botânica. O estrume, de per si só, explica-nos a grande e sublime evolução que constitui a vida nos vegetais, nos animais e no homem. O estrume é a base, a origem, a condição primitiva e essencial de todas as coisas e de todos os seres sobre a superfície da Terra. É o grande legado imenso, portentoso, sucessivamente deixado de geração em geração ao género humano. Tudo o mais desaparece diante do roer do tempo, o eterno verme. Desaparecem as obras da arte, as do talento, as das civilizações mais fortes e mais firmes. Somente se não aniquila, antes de dia para dia se acrescenta e se renova, o estrume, no qual lentamente se convertem todos os destroços, todas as ruínas e todos os monumentos que vai deixando em volta de si a passagem do homem. Tudo passa. O estrume fica eternamente. 65 Fica para que reverdeça a relva, para que se desdobrem os vinhedos pelas colinas, para que ondeiem as searas pelas planícies, para que cantem as cotovias por entre as laranjeiras e os lilases, para que os rebanhos se alastrem por baixo dos olivedos, para que as crianças continuem a rir, para que as mulheres continuem a amar, para que os homens continuem a aprender, e para que a minha leitora me dirija no bilhete mais doce a pergunta mais estranha . Suprimindo o estrume, soçobraria o mundo. Na vida moral o estrume é uma lição ainda mais importante do que na vida física. O estrume explica-nos a lei moral da solidariedade universal. Nele aprendemos que é nosso destino pertencermos fatalmente aos nossos semelhantes e à grande mãe Natureza. Que a vida individual é um empréstimo divino feito pela vida universal a que eternamente pertencemos. Que a morte, finalmente, não é outra coisa senão a doce restituição à suprema vitalidade da terra dos elementos que absorvemos dela. Se, todavia, apesar destas singelas e passageiras reflexões, que submeto à consideração da minha leitora, S. Ex0 entender que se deve abster de proferir a palavra estrume, fica S. Ex0 autorizada para a substituir, em todo o decurso destas linhas que lhe consagro, por qualquer outra que lhe pareça mais curial e mais idónea. Onde se ler estrume, S. Ex0 poderá dizer, por exemplo: o arrebol, a brisa, a toilette à Rabagas ou a valsa a dois tempos. E Caneças aplaudirá. 66 67 XV A EXPEDIÇÃO ASTRÓNÖMICA PARA A OBSERVAÇÃO DA PASSAGEM DE VÉNUS PELO DISCO DO SOL Outubro, 1874. Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor António Maria de Fontes Pereira de Melo, presidente do Conselho de Ministros. - Para o dia 8 de Dezembro do corrente ano de 1874 anuncia-se, como Vossa Excelência sabe, um fenómeno astronómico da mais alta importância para a ciência - a passagem do planeta Vénus pelo disco do Sol. Da rigorosa observação desse fenómeno depende o poder a astronomia moderna determinar com a máxima aproximação a distância da Terra ao Sol, isto é: uma das mais importantes noções do sistema planetário. Este problema da paralaxe solar, Excelentíssimo Senhor, tem sido o objecto dos estudos incessantes e da atenção ininterrompida de todos os astrónomos deste século e do século passado. As observações da passagem de Vénus pelo disco do Sol feitas em 1739, 1761 e 1769 ministraram importantes fundamentos para o estudo dessa questão celeste, mas não chegaram a resolvê-la senão de um modo imperfeito e discordante. A física e a análise espectral não resolveram ainda esta questão. Entre as paralaxes deduzidas da rapidez da luz e 68 das perturbações dos planetas por Encke e por Le Verrier há uma diferença de um milhão duzentas e sessenta e uma léguas. As experiências recentemente feitas por Cornu com a roda dentada de Fizeau parece darem grandes probabilidades de precisão à paralaxe 8' 86 achada por Foucault com o espelho girante, e por Le Verrier. A observação da passagem de Vénus é destinada a confirmar ou a refutar estes resultados. O estado da ciência no presente século, os grandes progressos que tem feito a meteorologia nos últimos anos, o desenvolvimento que tem tido a óptica, as prodigiosas conquistas que tem alcançado a fotografia, a heliografia e todos os processos científicos que têm por base a aplicação da luz, a invenção e o perfeito fabrico de muitos instrumentos desconhecidos dos sábios que precederam a geração actual, todos estes novos elementos de experiência e de exame predizem que das paralaxes deduzidas das observações que se vão fazer do fenómeno da passagem do planeta Vénus pelo disco solar resultará a posse de um dos mais importantes conhecimentos a que pode aspirar o saber humano. Vossa Excelência sabe melhor do que eu como os governos de todo o mundo civilizado têm auxiliado os esforços da ciência para a solução do problema de que se trata. A Inglaterra vota vinte mil libras esterlinas para as despesas de seis expedições que hão-de observar o fenómeno em seis estações diversas, e encarrega ainda a uma das suas corvetas uma observação no alto mar. A França, apesar dos seus recentes e profundos desastres, essa bela e adorada pátria do espírito universal, a extremosa mãe do direito e da liberdade, vota um milhão de francos para as despesas das expedições dos seus astrónomos à Índia. Os Estados Unidos aplicam a esse capítulo orçamental cento e cinquenta mil dólares. A Rússia põe à disposição dos seus sábios toda a soma precisa para que o trânsito de Vénus se observe nas mais 69 perfeitas condições da ciência sem dar limite nenhum a essa despesa nacional. Em Portugal, a Academia Real das Ciências de Lisboa - em cujo grémio, por um capricho do acaso que me abstenho de explicar, se acham matemáticos e astrónomos que teriam uma qualificação distinta entre os sábios de qualquer parte - solicita do governo em que Vossa Excelência é presidente do Conselho de Ministros um pequeno subsídio para ocorrer às despesas de uma expedição astronómica a Macau. Para este fim, elegem-se os observadores, procede-se ao estudo dos instrumentos, examinam-se os telescópios paralácticos que existem nos observatórios do País, acha-se o meio mais económico de construir um fotoeliógrafo, iniciam-se os trabalhos prévios das observações directas e fotográficas, interrogam-se os primeiros construtores de instrumentos ópticos, consultam-se os primeiros astrónomos, faz-se um orçamento, o Sr. Latino Coelho, secretário da classe de ciências físicas e matemáticas, redige a exposição mais clara e mais eloquente destes trabalhos e destes projectos, e envia-se a consulta e o orçamento da Academia ao Governo de Sua Majestade. A quantia orçada pela Academia para estas despesas era, como Vossa Excelência sabe, de nove contos de réis! Nove contos de réis, Excelentíssimo Senhor, para todos os gastos de uma expedição astronómica! Era quase humilhante pedir tão pouco. Cinquenta contos dá o Governo dos Estados Unidos por uma simples e única lente que se está fabricando agora em Cambridge e que servirá para um telescópio que tem de ser instalado na Sierra Nevada! O Governo de Sua Majestade acede aos votos da Academia e felicita-se de que a ciência portuguesa tenha cultores tão assíduos e desvelados. Depois ocorrem incidentes, trocam-se explicações, as penas dos amanuenses rangem sobre o papel dos ofícios. Por fim, o Governo de Sua Majestade expede uma portaria em que se participa à Academia que o Governo não subsidia a expedição astronómica a Macau pelo motivo de se não julgar habilitado para fazer despesas que não foram sancionadas pela aprovação prévia das cortes. Em vista de tal solução que malograva a expedição astronómica portuguesa, os nossos astrónomos acenderam os seus charutos, meteram as mãos nas algibeiras e vieram fumar para o Chiado. O caso não produziu a menor impressão no País. Os mesmos periódicos de oposição não tiveram na qualificação deste facto uma palavra de censura para o ministério de Vossa Excelência. A cidade ficou impassível. Os trabalhos eleitorais nos diversos círculos do reino prosseguiam em paz, os senhores correios de secretaria, cavalgando atrás dos coupés dos senhores ministros, atestavam que as instituições liberais continuavam a trotar; o Sr. Barão do Zêzere passeava as ruas, trazendo debaixo do braço a ordem... de baleia; Suas Majestade e Altezas passavam sem novidade em sua importante saúde; e na Rua da Prata havia dobrada com ervilhas. Todos nos sentimos felizes com este próspero estado das coisas. Que nos importava a nós, os lusos, que o Sol estivesse alguns milhões de quilómetros mais perto ou mais longe do planeta que temos a honra de habitar? Um povo livre não tem nada com os actos da vida privada de um astro, ao qual a Carta mantém o direito de estabelecer o seu domicílio político onde lhe parecer. Tal é, ilustríssimo e excelentíssimo senhor, com relação à paralaxe solar a opinião convicta e profunda da grande maioria deste país sublime e magnânimo. Essa, porém, não pode ser, por nenhum modo, a opinião de Vossa Excelência acerca de semelhante assunto. Vossa Excelência é um espírito esclarecido e honesto, é sobretudo um carácter coerente, lógico, honradamente definido. 71 Se as Farpas tivessem uma política, e se esta política, para honra e proveito daquele que as escreve, tivesse a inestimável fortuna de ser a política conservadora, nós escolheríamos entre todos os partidos portugueses o partido de que Vossa Excelência é chefe. Vossa Excelência sabe como em todas as sociedades modernas o espírito da política se alia estreitamente com o espírito da ciência a ponto de não poder já hoje persistir sem ele. Todo o homem que tem actualmente uma qualificação na política há-de ter por força uma qualificação paralela na ciência. Vossa Excelência, por exemplo, é um hegeliano. Pela sua política, Vossa Excelência está evidentemente com a escola histórica da Alemanha. Não aceitando a revolução, Vossa Excelência consagra no movimento da civilização e do progresso o princípio da evolução, no qual, segundo o grande filósofo Hegel, cada momento é a manifestação completa da ideia e cada homem um elemento passivo da nação. A política de Vossa Excelência opõe à vontade precipitada dos homens a força lenta das coisas. É a base da teoria conservadora. Ora esse sistema na política é o determinismo na metafísica. Sim, excelentíssimo senhor: conservador na política, Vossa Excelência não pode eximir-se a aceitar na ciência esta categoria: Vossa Excelência é um metafísico. Segundo a classificação jerárquica dos desenvolvimentos do espírito, fixada por Augusto Comte, cujo nome, certamente tão antipático a Vossa Excelência como ao seu correligionário o Sr. Visconde de Algés, eu peço licença para citar, Vossa Excelência como estadista metafísico não está na fase culminante da filosofia, mas saiu já da primordial fase teológica em que se achavam os estadistas do tempo do Sr. D. Miguel de Bragança e em que se acham ainda algumas outras inteligências actuais. 72 Monárquico, autoritário, militarista, Vossa Excelência reconhece o direito da força. Reconhecer o direito da força é afirmar o direito da inteligência. Do poder do rei na ordem política é corolário o poder do génio na ordem moral. Daqui a necessidade lógica de honrarem o talento os que defendem as monarquias. Como, porém, a força dada ao talento pode aberrar e lançar os espíritos na rebelião, conveio-se geralmente em instituir nos países monárquicos o talento oficial, isto é, a supremacia intelectual representada pelas academias. Sempre que o espírito monárquico se coloca em divergência com o espírito académico temos o conflito ou, quando menos, o contra-senso no Estado. Tal é, resumidamente exposta, a razão por que Vossa Excelência não podia ter como homem político, a respeito da representação dirigida ao Governo pela Academia das Ciências, a mesma indiferença manifestada pela maioria do público. Enquanto ao objecto especial da representação académica, Vossa Excelência não está igualmente no caso em que se acha a ignorância geral. Vossa Excelência conhece o importante papel que a astronomia representa na história do espírito humano desde Galileu até aos nossos dias. É à astronomia que o homem deve os seus maiores e mais brilhantes triunfos sobre as fatalidades na natureza, a compreensão do universo e a emancipação da inteligência perante a arbitrariedade teológica. Quando a meteorologia, que já hoje prevê muitos dos fenómenos atmosféricos, chegar, como é permitido esperar, a poder profetizá-los todos, quando ela, que já agora decreta as fases da lua, as marés, os eclipses, chegar pelo estudo das leis dos ventos e das pressões atmosféricas, pelas estatísticas meteorológicas de todo o mundo, pelo magnetismo terrestre, pelo aspecto das manchas do sol e pela aplicação da telegrafia à temperatura, a decretar 73 igualmente com larga antecipação os estados atmosféricos, as trovoadas, as chuvas e os ciclones, então o terror como elemento religioso extinguir-se-á nas profundidades do céu, assim como a tirania, a velha aliada do medo, acabará de desaparecer da face da terra. Como é, pois, excelentíssimo senhor, que Vossa Excelência pode negar à astronomia portuguesa, representada pela classe das ciências matemáticas da Academia Real das Ciências - o que a nação tem de mais grave, de mais autorizado e de mais sério -, o subsídio tão módico de nove contos de réis para que se mande a Macau uma expedição científica observar o fenómeno mais interessante para a ciência? Ainda quando da expedição astronómica não resultasse o mínimo lucro para os conhecimentos humanos, não era esta uma ocasião, que se não repetirá tão cedo, de Vossa Excelência afirmar o seu desejo de fazer manifestar ao País diante do mundo civilizado a posse do elemento em que hoje se baseia a importância histórica e a importância política das nações - o seu espírito científico? Este acto, um dos que mais honrosamente distinguiria a sua administração, por que é que Vossa Excelência o não pratica? Porque as cortes não votaram a ridícula quantia de que se trata, e a Carta manda que sejam consultadas as cortes! Oh! Permita-me Vossa Excelência que eu lhe suplique que se não importe com a Carta. Fica-lhe bem, a Vossa Excelência, trair a Carta, ser-lhe infiel. As infidelidades dos homens de espírito aos seres amados estão nos costumes, e a sociedade absolve-as. Atraiçoar a Carta pela razão é de um bom gosto perfeito. Além de que, Vossa Excelência - faço esta justiça ao seu espírito, à sua educação, aos seus hábitos -, Vossa Excelência não pode amar a Carta. A sua união com ela é de conveniência, é 74 de razão, não pode ser de amor. Pobre Carta! Ela é, como Miss Cora Pearl, uma deidade velha e uma cansada virtude equívoca. Teve amantes que se arruinaram por ela quando ela era moça e bela, hoje é ela que se anvína pelos seus amantes. Os homens da elevação de Vossa Excelência, frequentam-na, mas desprezam-na. Ela é a suprema lei do Estado? Sim, para o Estado. Para o indivíduo há uma coisa superior à Carta: é a sua consciência. Ora é ao indivíduo que nós nos dirigimos. É um acto do poder pessoal o que pedimos a Vossa Excelência. Há uma arbitrariedade chamada a razão de Estado. É pouco isto. É preciso que haja uma outra chamada a razão de ciência. É em nome desta razão que nós imploramos de Vossa Excelência a subvenção requerida pela Academia das Ciências, e que a expedição astronómica a Macau se realize independente da sanção das cortes à despesa em que ela importar. É a ciência, excelentíssimo senhor, é a ciência da qual hoje depende a afirmação definitiva dos direitos e dos destinos dos povos, é a ciência, que Vossa Excelência de nenhum modo pode coarctar e que todavia podia em certo modo ter a honra e a glória de influir, é a ciência universal e omnipresente que espera de Vossa Excelência o acto de adesão que certamente lhe está sugerindo a sua capacidade e a sua consciência. Que, colocado por esta conjuntura entre o espírito constitucional e o espírito científico, a história constitucional e o espírito científico, a história não veja que Vossa Excelência prefere ao saber o Acto Adicional, e que um certo dia que ficará memorável na sua biografia Vossa Excelência passou, calcando-os, por cima de Aristarco de Samos, de Galileu, de Newton, de Kepler e de Laplace, unicamente para ir receber do Sr. Melício - supremo juiz deste certame perante a opinião constitucional - um beijo doce, mas pérfido! Deus guarde a Vossa Excelência, ilustríssimo e excelentíssimo senhor António Maria de Fontes Pereira de Melo. 75 XVI UMA COMISSÃO DE ESTUDANTES DE COIMBRA - QUE QUER A MOCIDADE? Dezembro, 1875. Em Paris, em Berlim, em Gand, em Oxford, quando a mocidade das escolas emite colectivamente um voto, esse voto pesa no espírito dos governos e na opinião do público, porque a mocidade instruída representa nas sociedades a aspiração mais generosa dos espíritos, a tendência mais desinteressada dos caracteres, a fina flor do sentimento, a ideal frescura da alma, todos os mimos finalmente da delicadeza humana, não endurecida ainda pelos rudes contactos da experiência, da desconfiança e do egoísmo. Por ocasião da recente visita do Sr. Fontes Pereira de Melo à cidade de Coimbra, os estudantes da Universidade nomearam uma enorme comissão para os representar, e dirigiram directamente e solenemente as suas palavras ao presidente do Conselho de Ministros. Que estava destinado a ouvir dos representantes da mocidade académica, o Sr. Fontes Pereira de Melo, representante dos partidos conservadores em Portugal? Que ideias iriam trocar-se entre esses dois poderosos elementos da nossa evolução social: por um lado, o respeito do passado, os princípios da tradição; por outro 76 lado, o fermento revolucionário, a ideia nova, o embrião do espírito futuro? O Sr. Fontes ia achar-se pela primeira vez em sua vida diante de uma estranha assembleia, do carácter mais positivo, cujo poder espiritual não provinha do direito divino nem do sufrágio popular, mas sim da competência e da autoridade intelectual; assembleia absolutamente livre e absolutamente incorruptível. O assunto que lhe dizia respeito é extremamente vasto e profundamente importante. A Universidade de Coimbra carece das reformas mais radicais. A legislação relativa aos poderes dos tribunais académicos havia sido ainda há bem pouco tempo objecto de uma longa controvérsia tendente a achar a interpretação autêntica do direito escolar. O programa dos estudos é absolutamente anacrónico perante as novas classificações científicas dos fenómenos da natureza e dos fenómenos da sociedade e perante a correlativa disposição genealógica das disciplinas que têm em vista o conhecimento das leis por que esses fenómenos se regulam. A nova geração académica iria talvez submeter à consideração do representante do Governo a necessidade urgente de uma reforma por via da qual o Sr. Fontes Pereira de Melo teria de adaptar ao nível das aquisições intelectuais e das concessões científicas do seu século a importante obra do seu predecessor o Marquês de Pombal deprimida e degenerada do valor primitivo pelos efeitos de uma imobilidade de cem anos. A nova geração estudiosa tocaria talvez os pontos culminantes dessa reforma, mostrando assim irrefutavelmente que ela significa a justa satisfação de uma necessidade emergente das altas e nobres curiosidades do espírito moderno. Demonstraria a impotência dos poderes temporais, que constituem o governo, na resolução de todos os problemas económicos e sociais. 77 Provaria que a civilização portuguesa se acha em uma crise de confusão, crise demasiadamente prolongada, de carácter permanente, resultante do progressivo desequilíbrio entre a inferioridade das ideias teóricas e a urgência das necessidades práticas. Deduziria que a Universidade de Coimbra, o primeiro instrumento da educação pública, deveria conter o remédio para esta calamidade cada vez mais grave: a falta da convergência intelectual do País nos negócios públicos do seu maior interesse, a epidemia das incompetências, a ausência absoluta do espírito científico no poder legislativo, o mais importante e todavia o mais inepto e o único desprovido inteiramente de educação especial entre todos os poderes públicos a cuja autoridade se acham entregues os destinos da sociedade. A mocidade desejosa de completar a esfera das noções indispensáveis para manter a um povo a posse do seu próprio domínio, lembraria, por exemplo, que na organização universitária falta uma faculdade de Sociologia, da qual o Direito seria apenas um dos cursos integrantes paralelo com o estudo da castação da raça, da nacionalidade, da língua, da religião, da indústria, da arte. Todas estas considerações ou outras - outras certamente mais elevadas, concebidas sob este mesmo critério, mas expostas pela mocidade académica com os desenvolvimentos eruditos e com a nitidez filosófica que estas páginas noticiosas não podem abranger e que a inteligência individual de quem as escreve não pode atingir - seriam propostas ao representante do Governo pelos representantes da Universidade. O Sr. Fontes devia ter-se certamente preparado para esta escaramuça de opiniões e cremos bem que o seu coração bateria a maior uma pulsação comovida quando a enorme comissão académica se anunciou. A entrevista foi muito breve, muito mais categórica, muito mais decisiva nos seus efeitos do que se poderia imaginar. 78 O que a mocidade estudiosa desejava do Governo português para satisfação do seu ideal era simplesmente esta coisa - um feriado. O Sr. Fontes concedeu-o. E a ordem e o progresso, reunidos para este fim, separaram-se em seguida, continuando cada uma destas forças o rumo da sua missão no grande equilíbrio da sociedade. É, pois, certo que nos costumes e nas aspirações da Universidade de Coimbra, se perpetua a velha tradição da cábula, verdadeira chave dos destinos de toda a inteligência portuguesa! Os que em moços consideram o feriado como a realização do seu mais caro ideal são os mesmos que na idade madura põem o alvo da sua mais alta ambição nos serviços do Estado em que se ganha mais e em que se trabalha menos, em que se tem a reforma, a aposentação, a jubilação com o terço. Os alunos que pedem o feriado dão os professores que pedem as comissões na capital, que abandonam a sua cadeira, a sua especialidade, o seu estudo, o seu trabalho profícuo, para virem para Lisboa como deputados perverter-se na ociosidade, na intriga política, na desmoralização da vida nómada, nas soirées e nas noitadas, na murmuração do Chiado, na nudez da vida do hotel, na infecção do jantar das mesas redondas, finalmente na lenta demolição do talento, do espírito de aplicação, da dignidade e do estômago. 79 XVII A EDUCAÇÃO DOS PRÍNCIPES - O PROFESSOR DE LÓGICA E RETÓRICA DE SUAS ALTEZAS Março, 1876. Acaba de ser nomeado professor de Lógica e de Retórica de Suas Altezas os Príncipes o Sr. Joaquim Alves de Sousa, antigo professor de Hebraico no liceu de Coimbra. O Sr. Alves de Sousa é um homem baixo, extremamente cabeludo e metafísico. Autor de um compêndio de filosofia racional e moral, patenteou nesse livro de viagens em volta do senso comum que possui todos os segredos do ziguezague, toda a ciência dos rodeios, das curvas, das espirais, das viravoltas, das fintas, das fugas, dos passes de agilidade e de destreza, do truque, da arremetida, da alça-perna, da cambalhota para diante e para trás, do câmbio, do passa-pé, de todas as habilidades da savate, da esgrima e da capoeira, do salto, da cabriola, do pulo, de todas as evasivas finalmente e de todas as deslocações que o juízo humano é susceptível de conceber e de realizar em redor de uma questão para o fim de nunca absolutamente a atingir, nem a penetrar, nem a resolver. Sempre que antigamente era preciso fazer na Universidade um daqueles discursos latinos que tinham obrigação de não exprimir nenhum pensamento, nenhuma ideia, nenhuma opinião, e de rondarem todavia por um determinado espaço de tempo entre um repique tangido nos sinos e o hino académico flauteado nas charamelas, o Sr. Alves de Sousa era chamado como especialista destes casos. O ilustre humanista comparecia então com a sua filosofia e o seu léxicon, e começava a operação. Punha diante de si os palavrões ciceronianos, do alto estilo, colocados por sua ordem: primeiro os verbos ao pé dos respectivos advérbios com os seus competentes graus, positivo, comparativo e superlativo; depois os nominativos com todos os seus casos; em seguida os adjectivos com as suas três partes, masculina, feminina e neutra; etc. Assim despostos os elementos constitutivos da oração, o ilustre alquimista dos filtros retóricos das solenidades académicas puxava o verbo ao campo do papel almaço aplicando-o com os grossos bicos da sua pena de peru rangente e sorna. Depois acavalava-lhe o sujeito concordante em número e pessoa e revestido de um adjectivo apropriado arrabichava o acusativo, enxalmava os necessários advérbios, afivelava as proposições, acolcheava as vírgulas nos seus respectivos furos, e exonerava o ponto final. Passava então ao período seguinte, e assim prosseguia, remunerado pelos interessados com bocetas de ameixas de Santa Clara e com pencas de manjar branco, até haver preenchido com o seu bastardinho venerável o espaço de papel votado pelos usos universitários à lúgubre convulsão galvânica das línguas mortas. Tal era junto da Universidade a missão científica do Sr. Alves de Sousa: ingerir pencas de Santa Clara e doce de Celas, produzir o latim campanudo, orquestrante, de carrilhão, destinado a petrificar o cérebro dos recipiendários, no momento de se lhes colocar a borla doutoral, com a mesma solenidade expressiva com que se baixa o apagador litúrgico sobre o círio pascal. 81 Um só traço biográfico deste ilustre humanista porá em relevo aos olhos do leitor toda a fisionomia do homem e toda a filosofia do sábio. S. Ex0 usa o relógio de algibeira metido dentro de uma saquinha de camurça. Querendo ver a hora, saca do bolso o relógio envolto na respectiva dura mater, desdá o nó dos atilhos, saca, ensaca, atabafa, puxa os cordões, franze, aperta, enlaça, recolhe. Tal relógio, tal homem! Imaginem um sábio ensacado, mergulhado dentro de uma grossa bolsa impermeável, à prova de fogo e à prova de água, impenetrável a todo o contacto externo, deitando para fora da boca do fole que o encerra uma argola pela qual se suspende ao muro. Assim é ele. Dizem que regula, mas regula unicamente para si. Não se lhe vê mostrador nem ponteiro. Ninguém o pode examinar, conferir, comparar. É inteiramente estranho a quanto se passa fora da membrana que o envolve. Completamente isolado de todas as ciências de observação e de experiëncia, o sábio existe confinado na sua pele e na sua filosofia racional e moral. Os metafísicos e as aranhas são os únicos entes que podem tirar de si mesmo os recursos da sua existência. A aranha segrega baba e faz a sua teia. O Sr. Alves de Sousa, dentro de si mesmo, abstrai e segrega entidades e definições. Este curioso estado de perfeição no abstracto levou-o a fazer uma gramática latina em que as regras são tiradas dos exemplos e os exemplos são tirados das regras. As regras gramaticais de uma língua morta só podem ser tomadas dos documentos escritos que nos deixaram os povos que falaram essa língua. Virgílio, Cícero e Horácio concordavam o adjectivo com o substantivo em género, número e caso; logo em latim o adjectivo concorda com o substantivo em género, número e caso. Esta é a regra, de que será exemplo um ou mais trechos de Virgílio, de 82 Cícero, de Horácio. O Sr. Alves de Sousa não o entendeu assim, e no seu compêndio nota-se que, sendo a regra feita por ele, por quem imaginam que será feito o exemplo? O exemplo é também feito por ele! Assim, a doutrina deste sábio é ao mesmo tempo o efeito e a causa de si mesma. Se não estivesse inventada a serpente com a cauda na boca, símbolo egípcio da imobilidade, a teoria deste filósofo ocuparia o lugar desse símbolo! É o Sr. Joaquim Alves de Sousa que vem ensinar Suas Altezas os Príncipes - a raciocionar! Os leitores conhecem o mestre, imaginem o que será a lição e o que virá a ser o discípulo. A Lógica e a Retórica são já de si duas disciplinas funestas ao entendimento e que se deveriam proibir. A Retórica, tal como ela se professa, é a ciência da falsa linguagem. As leis que dirigem as faculdades intelectuais no descobrimento da verdade e que constituem o corpo da doutrina chamada a lógica são a coisa mais pedantesca, a mais esterilizadora que se pode ensinar a um menino. O que se deve ter em vista produzir num cérebro que se educa é o fenómeno intelectual, e não a lei puramente hipotética que regula esse fenómeno. Descobrir a verdade é uma operação que tem por fim achar uma coisa desconhecida, pela relação coexistente entre ela e as coisas que se conhecem. Ora a ciência que conduz o espírito neste processo, único que existe para descobrir e para demonstrar a verdade, não é a lógica; é a matemática. Pensar é simplesmente relacionar e medir. A matemática torna efectiva esta faculdade relacionando os movimentos e as linhas, medindo o tempo pelo espaço e o espaço pelo tempo. A lógica nada nos ensina para alcançarmos este resultado. A simples regra de três é um instrumento mil vezes mais poderoso do que todas as regras juntas de entimema, epiquerema, prosilogismo, sorites e exemplo. 83 A retórica pelo seu lado é a arte da figura na linguagem. Ora nada mais incorrecto e mais obscuro do que a linguagem figurada. Logo que a arte de escrever se achar devidamente disciplinada, a metáfora será considerada um erro no discurso. A ciência do estilo não é a retórica, é a ideologia. Dar pela palavra a nota precisa da ideia é o fim da escrita e da oratória. Toda a iluminura, toda a imagem, toda a expressão metafórica denota preguiça cerebral ou inabilidade artística. Quanto mais estreito é o campo dos nossos conhecimentos, mais metafórica é a linguagem com que exprimimos os sentimentos e as ideias que desejamos representar. Quem nos recursos da palavra não possuir mais do que a tecnologia de uma única ciência tem de empregar o estilo figurado sempre que se tratar de assuntos relativos às ciências que não sabe. Quando eu digo, por exemplo, a florescência das ideias, emprego uma imagem botânica para exprimir um fenómeno de fisiologia cerebral cujo nome ignoro. O leitor compreende talvez o que é que eu desejaria dizer-lhe. Compreende aproximadamente, porque eu lhe disse uma coisa parecida com a minha ideia; rigorosamente, porém, essa ideia ficou por exprimir. A retórica, com todos os seus tropos, com todas as suas figuras, com todos os seus preceitos de estilo, é a arte de abastardar assim a linguagem, de descentralizar as faculdades, de separar a palavra da ideia, de dissolver o cérebro instituindo nas cabeças, entre o lóbulo do pensamento e o lóbulo da fala, um escritório de contrafacções a exportar para o mundo externo. A lógica e a retórica seriam indispensáveis a Suas Altezas os Príncipes se o sistema "que felizmente nos rege" fosse um sistema definitivo e houvesse de ser considerado como o destino humano dos reais discípulos do Sr. Alves de Sousa. Neste caso eles precisariam dessas duas ciências. A lógica dar-lhes-ia o sofisma governativo. A retórica ensinar-lhes-ia o tropo parlamentar. O tropo e o sofisma, agentes correlativos, são dois poderes compensadores do equilíbrio nas monarquias constitucionais. O sistema, porém, que felizmente nos rege é contingente e transitório. Por toda a parte da Europa os reis fecham pela manhã as suas malas, recolhem no estojo as suas escovas e as suas navalhas de barba e têm na algibeira das púrpuras um passaporte e uma carta de ordem, como todo o viajante prudente, preparado para partir no momento imprevisto de um telegrama que pode chegar a cada hora. A educação dos homens destinados a esta existência tem de ser inteiramente prática, lúcida, expeditiva. Mais do que nenhum outro contemporâneo um príncipe precisa de conhecer perfeitamente todos os agentes físicos, químicos, biológicos e sociológicos que determinam, que modificam ou que perturbam as acções humanas, para ver com clareza, para prever com antecipação, para julgar com certeza os factos isolados e a coordenação evolutiva dos sucessos. Precisa de estar inteiramente provido, equipado e armado para conceber com prontidão, para discriminar com presteza, para resolver logo. O plano dos vastos estudos enciclopédicos que convêm a um príncipe deve ser formulado e posto em prática segundo a mesma norma que tem de governar a sua existência futura: a fórmula de Littré - projectos de quem tem cem anos para os cumprir, obras de quem só tem doze horas para viver. Não pode dissipar um minuto, não pode malbaratar um momento na aplicação, na actividade. No estudo das ciências e no estudo dos homens deve seguir a corrente de ideias mais rápida e mais breve - a corrente revolucionária. Tanto se aprende percorrendo com inteligência o campo dos domínios conservadores e estudando nele a passagem da torrente revolucionária, 85 como lançando-se com igual inteligência nessa torrente e cingindo com ela todas as configurações do continente oficial. Por qualquer destes dois métodos se chega ao mesmo ponto. Pelo segundo vai-se todavia mais depressa, descobrem-se mais largos horizontes, criam-se mais ideias gerais de totalidade, de relação e de conjunto. Os preceptores idóneos dos príncipes, os seus mestres, deveriam pois ser os homens de espírito mais radicalmente científico, de critério mais positivo, da máxima lucidez intelectual, homens de acção, essencialmente modernos, que pela sua conversação, pelas suas ideias, pelos seus hábitos de estudo, de observação e de crítica suscitassem no aluno todas as curiosidades do espírito novo, pondo-o em contacto com todos os problemas, dando-lhe constantemente a nota predominante de todas as soluções. A evolução das ideias modernas não pode ser compreendida por homens de estudos antigos. O período intelectual em que hoje estamos, a era dos conhecimentos modernos, data de um curtíssimo espaço de tempo. Principia no dia em que foi claramente definido o dogma do homem pré-histórico. Desde esse sucesso, o mais monumental da civilização, desde esse facto culminante na humanidade, caiu o velho mundo, caíram todas as teorias vigentes até essa data na história da nossa espécie, na história das nossas raças, na história das nossas religiões. Milhares de anos antes da época em que nós supúnhamos os nossos primeiros pais no paraíso terreal, descobria-se com toda a evidência de um axioma que tinha aparecido o homem sobre o Globo. O Génesis era uma fábula. Adão era um embusteiro. Aí estava para o confundir, arrancado da campa, pela geologia, o esqueleto de um de seus avós. Ão pé do crânio desse homem apareciam desenterrados todos os documentos comprovativos das diferentes fases 86 da sua existência heróica, da sua vida trabalhadora, de todas as peripécias, tão profundamente comoventes e tão dramáticas, das suas grandes lutas, com as criações colossais, medonhos esboços primitivos do mundo animal, com os monstros antediluvianos, as enormidades do grande hipopótamo, do elefante do Sul, do rinoceronte tricórnio. Primeiramente, o desgraçado cingido de todos os lados pelas monstruosidades da natureza, esmagado pelas visões disformes de um pesadelo horroroso, pensa apenas em defender-se e inventa o machado de pedra bruta. Depois fabrica a faca de pedra polida. Em seguida a essa atitude defensiva, principia a atacar e inventa a frecha, domestica o cão, descobre o fogo, constrói a cidade lacustre. E entre cada um destes curtos passos dados na posse do seu domínio sobre o Globo medeiam milhares de anos, centenares de séculos sem história, de uma mudez trágica, irreconciliáveis com a felicidade paradisíaca do Éden e com a teoria da queda pelo pecado. Aniquiladas as antigas bases da compreensão do universo e do mundo moral, principia um enorme trabalho de reconstituição das ideias e dos sentimentos humanos. Preencher esse trabalho tem sido a missão da literatura nos últimos anos. Para possuir a exegese deste movimento novo é essencialmente preciso ser um homem moderno, ter um sistema nervoso criado e temperado na ebulição desse movimento; possuir a faculdade de se repartir sem se dispersar, ter a filosofia, ter a disciplina, ter os métodos modernos; absorver as ideias por todos os modos, no gabinete, nos livros de toda a espécie, na conversação, nas viagens, nos museus, nos laboratórios químicos, nos teatros anatómicos, nos observatórios, nos jornais, nas soirées, na Ópera, na amizade e no próprio amor. Os mestres e os pedagogos de Suas Altezas carecem desses predicados. O Sr. Martens Ferrão é um jurisconsulto; o Sr. Viale é um helenista; dois sedentários; um, comentador de leis antigas; outro, interpretador de línguas mortas; ambos papistas, sectários dos dogmas, aceitando a revelação como critério da verdade e o milagre como demonstração histórica. O Sr. Alves de Sousa, que vem agora, é um retórico, é um gramático, é um sofista, é um mágico. Aguardamos com viva curiosidade zoológica o fausto momento em que houver de se patentear sobre o trono dos lusos o caro objecto saído desta retorta de Wagner. 88 89 XVIII A CONFUSÃO DOS SENTIMENTOS E A DESORDEM DAS IDEIAS - URGÊNCIA DAS REFORMAS NA EDUCAÇÃO NACIONAL - REFUNDAÇÃO DO VALOR DO ESTADO PELO MÉRITO DOS INDIVIDUOS Abril, 1876. A Revista Europeia, magnífico periódico italiano, órgão do movimento científico em Itália, publicava há poucos dias a respeito das Universidades naquele país um artigo profundamente patriótico, que terminava pelos seguintes períodos: "É às Universidades que cabe a influência de um governo livre. As Universidades são principalmente frequentadas pela burguesia, que nas monarquias constitucionais ocupa a maior parte dos grandes empregos no parlamento e na governação. Das Universidades deviam sair os homens instruídos, os italianos. Elas produzem no entanto os mesmos frutos de outrora estragados pela indisciplina moderna. Os professores vivem quase todos no desalento e na penúria. "Os fundos sagrados das Universidades, que pertencem à ciência, são em grande parte absorvidos pela burocracia e servem para sustentar uma multidão de empregados secundários, superfetações inúteis quando não são perigosas. 90 "Os produtos científicos de vinte e duas Universidades em um povo de vinte e sete milhões de habitantes são irrisórios. "O servilismo, a escravidão intelectual diante do estrangeiro vai aumentando sempre. "E a nação, satisfeita, paga!" Diríamos estar vendo a pintura do que se passa em Portugal, se não se desse uma diferença importante, que é: ser feita a acusação em um jornal exclusivamente consagrado aos interesses da ciência e redigido com profunda erudição do mais alto movimento das ideias modernas. No mesmo número em que se estampa o artigo a que nos referimos reproduz-se um discurso acerca da Física na filosofia, proferido pelo professor Maurício Schiff na abertura dos cursos do Instituto dos Estudos Práticos e de Aperfeiçoamento, de Florença. Neste discurso mostra o autor como todos os filósofos modernos tendem a encontrar-se num domínio comum com os naturalistas e com os fisiologistas. Prova que nenhuma dedução a priori pode conduzir à verdade objectiva, e que as teorias até há pouco havidas por absolutamente independentes precisam hoje de ir basear-se na observação, havendo já duas Universidades, uma na Suíça e a outra na Alemanha, que entregaram a professores de fisiologia as suas cadeiras de filosofia teórica. Expõe como na própria Alemanha se vai tornando estéril a metafísica, e como o dogmatismo não é hoje mais que uma petrificação a que só resta o valor histórico. Conclui, finalmente, propondo que, vista a intervenção inevitável das ciências naturais em toda a discussão filosófica, o Instituto de Florença, começando por dar aos alunos as noções fundamentais de todos os raciocínios, faça das ciências naturais a base dos estudos, o tronco da grande árvore dos conhecimentos humanos, cujos ramos se inclinarão subsequentemente às diversas direcções do espírito. 91 A índole eminentemente revolucionária, positivista, deste discurso, a inserção dele num grande jornal, órgão dessa doutrina renovadora do critério e reconstituidora da inteligência, provam bem exuberantemente que não são portugueses que operam, e que não é uma das nossas necessidades nacionais que se discute. E, todavia, tão baixo ainda se considera o nível da instrução na Itália, que o autor do artigo acerca das reformas universitárias exclama: "Se algum dia, de que Deus nos preserve, a Itália houver de recair na sua confusão antiga, a responsabilidade e a culpa caberá ao Ministério da Instrução Pública!" Em Portugal nem o Ministério de Instrução Pública existe, nem essa aparência de responsabilidade temos! E, de cima a baixo, na ordem intelectual e na ordem moral, na política, na religião, na arte, na crítica, as ideias soçobram numa confusão inextricável, resultante da ausência de um ensino fundamental. Da análise dos trabalhos parlamentares durante a última legislatura sobressai um argumento irrespondível. Uma câmara cuja maioria é tirada da parte mais aplaudida da mocidade na Universidade de Coimbra não tem uma só ideia justa, clara, precisa, em que se baseie uma reforma de qualquer natureza que seja. Uma sentimentalidade palavrosa e lamuriante, um optimismo imbecil, uma profunda subserviência e alguns narizes-de-cera, eis tudo quanto se tem podido arrancar dos cérebros que o público tinha obrigação de supor mais substanciosamente providos e mais repletos. A fim de combater esta iziguidade oficial, celebrou-se ultimamente em Lisboa um grande meeting composto de pessoas das classes mais ilustradas da burguesia, e presidido pelos principais chefes dos partidos da oposição ao actual ministério. As resoluções tomadas neste meeting, com o fim de obviar a incompetência parlamentar e de intervir na governação do País, foram as seguintes: reformar a Carta, fazer um manifesto, suscitar outros meetings, ou, finalmente 92 - para que o digamos numa só palavra - comover a opinião no sentido de pôr em crise a viabilidade da situação actual. E eis aí tudo quanto uma assembleia constituída pelas pessoas mais conspícuas sabe decidir em face do problema da nossa reorganização: - cominar as tinturas transmutativas do bigode do presidente do Conselho, atacar a questão política como uma questão de cosméticos, e pedir para a alta direcção do Estado uma troca de pomada. Quando os governos, pela necessidade de conservarem o poder, sacrificaram o progresso, e quando as oposições pela ambição de substituírem o governo sacrificam as ideias, a sociedade corre um iminente risco de ficar à mercê do acaso num funesto jogo de incompetências, se um terceiro poder não intervém, sustentando os direitos que tocam à capacidade. Este novo poder intermédio e consultivo, destinado a regular em proveito da civilização os conflitos dos partidos que governam com os partidos que resistem, deveria ser a Imprensa. Mas a Imprensa portuguesa parece ignorar que é essa a sua alta missão e, em vez de se considerar superior à política e de a governar em nome da opinião, submete-se aos partidos e deixa-se dominar por eles, acompanhando-os nas suas ambições e servindo-os nos seus erros. De modo que o jornalismo não é o árbitro que decide, não é o juiz que sentenceia; é apenas o rábula que enreda, o beleguim que cita, o fiel de feitos que conduz os autos. Na sociedade assim constituída ou assim desorganizada todos os poderes são militantes, todos são executivos, todos são temporais. Não há esfera teórica, não há domínios mentais, não há poderes do espírito. Como substância política organizada, falta-nos apenas o cérebro e a espinhal medula. Pertencemos aos invertebrados. Somos um tubo. Se nós tivéssemos a palavra no meeting aludido, diríamos aos cidadãos: Meus senhores, lembrem-se das palavras de Samuel Smilles: o governo de uma nação não é mais que a imagem e o reflexo dos indivíduos que a compõem. Todo o governo que passa adiante de um povo é inevitavelmente trazido para trás; todo o governo que fica atrás de um povo é fatalmente impelido para diante. Assim como a água encontra o seu nível, assim uma nação encontra nas suas leis e no seu governo as disposições que convêm ao seu carácter. Um nobre povo será sempre nobremente governado; aos povos ignorantes e corrompidos cabem os governos ignóbeis. A liberdade não é somente o efeito de um desenvolvimento político; é principalmente o efeito de um desenvolvimento moral, o resultado da energia, da independência, da acção individual. É por estas razões que Stuart Mill dizia: O mérito de um Estado não é no fim de contas senão o mérito dos indivíduos de que ele se compõe. Ora, a falar verdade, meus senhores, os nossos méritos são de uma natureza bastante subalterna. Medíocres literatos, medíocres artistas, medíocres sábios, medíocres funcionários públicos, eis os indivíduos de que se compõe esta assembleia ilustre na qual se tem falado quatro horas sem achar nada mais novo do que injuriar os adversários e pedir a reforma da Carta, como se fosse uma Carta mais ou menos reformada que houvesse de fazer os cidadãos instruídos e os governos sábios! A constituição política, no fim de contas, não é mais que um resultado da constituição social, e esta não se reforma senão pelo concurso inconsciente de todas as vontades, pela aplicação particular de cada um para o seu próprio aperfeiçoamento. Consultando bem as nossas verdadeiras necessidades, veremos que o que falta ao nosso bem-estar não é uma organização política, mas sim uma renovação intelectual, um forte estímulo para o trabalho, para o dever, para a dedicação pelos outros, para a satisfação da consciência, para o contentamento e para a alegria do carácter. 94 O grande mal que todos padecemos é o cepticismo abatido e estéril dos espíritos que perderam as antigas crenças e não entraram ainda nos novos princípios e nas grandes convicções. É deste estado geral que procedem os únicos partidos que temos: os partidos médios, de conciliações que chegam à imoralidade, de tolerâncias que tocam na corrupção. É com tais partidos que as sociedades se dissolvem pela indiferença e pela relaxação. Ora esses partidos somos nós mesmos que os constituímos. Os governos que deles emanam são maus por uma necessidade iniludível de harmonia e de nivelamento geral. Eles são maus governos exactamente pela força da mesma lei em virtude da qual nós somos maus jornalistas, maus literatos, maus académicos, maus artistas, maus comerciantes, maus industriais e maus operários. Quereis um conselho? Acabai de uma vez para sempre com os meetings esterilizadores, banais e ridículos, e instituí conferências. Não queirais ser corpos deliberantes. Conservai-vos na esfera especulativa que convém aos vossos interesses e às vossas necessidades. Com o vosso beneplácito ou mau grado vosso, a revolução há-de se realizar pela força das coisas. A vossa interferência não fará mais do que comprometer os sucessos. O que tendes que fazer, vós burgueses, que estais fora do governo, é simplesmente preparar-vos para o exercer ou para o criticar com mais conhecimento de causa do que aqueles que vos precederam. A corrupção de que vos queixais nos outros é a prolongação da que existe em vós mesmos. Os maus governos são a escrófula que aparece no pescoço; vós sois o vício linfático escondido na célula. Purificai-vos aprendendo. O destino da vossa geração depende do vosso curativo. Hoje em dia estamos apenas viciados. Daqui a algum tempo estaremos inteiramente apodrecidos. 95 XIX OS CASTIGOS CORPORAIS E A DISCIPLINA DOGMÁTICA Maio, 1876. Segundo noticiam os jornais do Porto, foi ali querelado o Sr. Padre João António Pinto de Resende, director de um colégio, por haver corrigido um aluno de catorze anos de idade, aplicando-lhe algumas bofetadas e - trinta e seis palmatoadas! O estudante, examinado pelos peritos, foi considerado impossibilitado de se servir dos braços durante quinze dias; rebentou-lhe o sangue por entre a pele e as unhas; deprimiram-se-lhe por tal modo os músculos que ficou com os braços convulsos e incapazes de qualquer esforço. Só um verdadeiro rancor de clérigo, odium theologicum, pode levar um homem a espancar por tal modo uma criança, friamente, sistematicamente, por espaço de dez ou quinze minutos, como se se tratasse de cumprir o dever da tortura no tribunal do Santo Ofício. Levantar entre os dedos, no altar da misericórdia e do perdão, a hóstia consagrada, parece ser a missão e o ofício mais leve, não é verdade? Pois bem: não há nada que torne a mão mais pesada. Um rachador, passando a sua vida a cortar a machado a espessa e dura fibra dos carvalhos seculares, daria no seu pequeno aprendiz uma pancada brutal, mas não repetiria esse golpe trinta e seis 96 vezes, tranquilamente, pacientemente, piedosamente, como quem desfia num rosário as Ave-Marias da coroa à Virgem Puríssima. Notamos o acto cometido por este sacerdote, porque ele tem para nós a importância social de um grande símbolo. O Sr. Padre João, talvez sem o pensar, representa, em ponto pequeno, dentro da esfera dinâmica do seu braço eclesiástico, o que é, em ponto grande, a instrução oficial portuguesa, que ele se encarrega de propagar por meio da sua férula. Pais e mães de família! Meus senhores e minhas senhoras! Queiram olhar para este pequeno aluno espancado pelo seu mestre em nome das necessidades do ensino secundário do curso dos liceus! Tenham a bondade de reparar bem... Soltou-se-lhe o sangue pisado por entre as unhas e a pele, tem o cérebro atrofiado, os cabelos hirtos, os olhos pasmados, o passo vacilante, o corpo trémulo, os braços pendentes. Está inapto para tudo por espaço de alguns dias. É preciso, por um tratamento especial, reconstituir-lhe o seu sistema nervoso e o seu sistema muscular, acarinhá-lo, levá-lo docemente à coordenação dos seus movimentos e à conexão das suas ideias, reconciliá-lo com a vida, com o estudo, com o respeito dos mestres, e fazê-lo recomeçar em seguida os trabalhos da sua educação suspensa e comprometida. Viram bem, atentaram devidamente no espectáculo que apresenta essa pobre criança ao sair das mãos rigorosas e inábeis do Sr. Padre João?.. Pois aí têm, meus senhores e minhas senhoras, expresso por uma imagem corpórea, o vivo retrato do que há-de ser, aos vinte anos, o estado intelectual e o estado moral de seus filhos ao saírem, não do poder de um simples preceptor da infância, mas do seio do primeiro dos nossos estabelecimentos de instrução, da Universidade de Coimbra! Os vossos filhos, bacharéis formados, terão esse mesmo abatimento, essa prostração, esse desânimo. Ter-lhes-á espirrado dentre as unhas e a carne, espalmada pela pressão de um implacável regime dogmático, a forte seiva do talento, da mocidade, da energia moral. Estarão atrofiados nos músculos braquiais e nas circunvoluções do cérebro. Com as suas cartas do bacharelato dobradas na algibeira de uma sobrecasaca de mendigo envergonhado, achar-se-ão perdidos e abandonados na vida, sem direcção, sem norte, sem princípios, sem convicções, sem ideias nítidas e práticas, tendo aprendido tudo, menos a pensar, a discernir, a resolver os negócios, a atacar finalmente o grande problema da vida. Então uns lançar-se-ão na crápula, outros na intriga constitucional a que se convencionou chamar a nossa politica, outros no jacobinismo, na conspiração, na revolta, na misantropia, e acabarão na alienação mental, no suicídio. Algum, raro, terá a enorme coragem de recomeçar - de recomeçar exactamente no ponto em que julgara ter chegado ao fim! Isolar-se-á no seu gabinete, no meio de novos livros desconhecidos. Reconstruirá por si mesmo, linha a linha, página a página, as suas noções da natureza, da sociedade, da história, do sentimento, da religião, do trabalho. Obscuro, esquecido, despremiado, pobre, desvelará as noites no estudo, na concentração de todas as faculdades sobre o fio sistemático das suas aquisições mentais. E assim conseguirá, talvez, ao cabo de alguns anos de trabalho mais ímprobo e mais persistente, aprender à própria custa aquilo que se não tinham lembrado de ensinar-lhe: a ser um homem e um cidadão. Quero dizer: por esses meios terapêuticos e higiénicos ele terá recuperado o sangue perdido sob a férula oficial, terá reconstituído uma pouca de substância cinzenta na massa cefálica, alguma consistência na espinha desformada e um bíceps em cada braço. Será inteiramente o caso do menino espancado no Porto. Somente o Sr. Padre João já não será responsável; e não podereis desagravar-vos chamando-o aos tribunais, porque, apesar da habilidade que denota possuir para fazer imbecis, ele ainda não faz doutores. E admira que os não faça! Quem dá tantas palmatoadas juntas, podia bem começar a dar igualmente, de quando em quando - um grau. 99 XX TENTATIVA DE UMA REFORMA DO ENSINO PÚBLICO Novembro, 1876. Decorridos cerca de dois meses depois que os professores, por um lado, o Governo por outro, haviam resolvido definitivamente elaborar uma reforma do ensino público, sem todavia publicarem trabalho algum que elucidasse este importante assunto, as Farpas, entregando a alguns milhares de leitores - como fizeram no precedente volume - um ensaio de reorganização das escolas portuguesas, intervinham na direcção das ideias e na formação do critério sobre este ponto com uma opinião que conviria ter por temerária e que não se deveria permitir que circulasse antes de ser devidamente contrastada e aferida pela crítica. A Imprensa tinha concordado unanimemente em que a reforma da instrução era uma questão vital. Não é verdade que a Imprensa tinha concordado nisso? Pois bem: em toda a questão vital o erro é um caso de morte. Ora queria-nos parecer que a nossa obra - por maior que fosse o orgulho que nos dominasse, por maior que fosse a modéstia a que os submetêssemos - não poderia facilmente deixar de merecer uma das seguintes classificações: ou seria inteiramente prestante, ou prestaria apenas para alguma coisa, ou não prestaria de todo para nada. 100 No primeiro dos referidos casos entendíamos que a crítica deveria apressar-se a sancioná-la com a sua aprovação, dizendo por exemplo: Mais um diamante de subido quilate acaba de engastar-se no diadema imperecível que cinge afronte do nosso ilustre colega o senhor fulano de tal. Queremos dizer que apareceu o 61 volume das Farpas. Chamamos a atenção dos leitores para o anúncio que vai na secção respectiva. No segundo caso julgávamos que competia à mesma crítica discriminar no nosso voto o que era sensato e o que era erróneo, elucidando nesse sentido a apreciação do público. No terceiro caso, finalmente, estávamos persuadidos de que à referida crítica cumpriria condenar inexoravelmente o nosso trabalho como a droga mais funesta à saúde dos espíritos, dizendo: Mais um palmo de orelha asinina acaba de crescer acima do crânio do detestável escritor fulano de tal. Queremos dizer que apareceu o n1 6 das Farpas. Esperamos que a abominação pública se apresse a tomar assento sobre este folheto. Reconhecemos agora, profundamente humilhados, que escapou a todas as nossas previsões a verdadeira atitude que devíamos esperar da Imprensa. Com relação ao nosso pequeno livro a Imprensa, na sua grande maioria, não teve opinião nenhuma! Mas como foi então que ela afirmou com ardor que considerava a questão vital?... Houve decerto da parte da Imprensa um equívoco. Evidentemente, quando ela chamou vital ao assunto, não era à instrução que aludia, era talvez aos chocolates do Sr. Matias Lopes. Dois periódicos apenas - como singular excepção - entenderam que as Farpas, consagrando à reconstituição dos estudos em Portugal noventa e seis páginas refutadoras de todo o sistema de ensino actual, mereciam uma palavra de atenção. Esses periódicos foram o País, folha política de Lisboa, e a Evolução, revista de literatura, de crítica e de vulgarização científica, de Coimbra, aos quais pedimos licença para analisar rapidamente algumas das objecções de que eles nos tornaram assunto. O País, concordando inteiramente com as nossas opiniões sobre a ignorância geral e sobre os falsos meios que até hoje têm sido empregados para organizar o ensino, exproba às Farpas o desprezo em que elas têm sempre tido os problemas governativos, contribuindo assim para manter no público a indiferença política que a referida folha considera a principal causa da corrupção portuguesa. Ora o desprezo, ou antes o descaso, em que nós temos a questão política não nos parece que seja, como o País inculca, uma contradição de princípios, mas sim, pelo contrário, a consequência mais lógica da doutrina que temos exposto. Se é certo que um exagerado humanismo, uma excessiva cultura da forma literária e retórica tem pervertido a nossa educação intelectual com embargo de todas as ciências fundamentais, indispensáveis para o conhecimento do homem e para a compreensão das leis que regem os seus destinos; se é certo, como nos parece ter demonstrado, que toda a instrução facultada pelos nossos estabelecimentos públicos e particulares é a negação de todos os elementos de que dependem o nosso progresso intelectual e o nosso progresso moral; se é certo que uma tão funesta e tão inveterada organização tem lançado a sociedade portuguesa na mais profunda anarquia, na mais completa dissolução de crenças, de convicções e de princípios, destruindo absolutamente a afinidade dos espíritos e a solidariedade dos cidadãos; se é certo que a nossa inactividade cerebral chegou ao miserável extremo de faltarem as ideias gerais e harmónicas que reúnam um pequeno agrupamento de indivíduos sob um mesmo princípio comum na religião, na economia, na política, na moral e na arte; se é certo que desde quarenta anos não 102 somos mais que um conjunto de três milhões de egoísmos pacificados pela indolência; se tudo isto é certo - como julgamos ter provado -, que importância quer o País que liguemos ao sistema governativo sob o nosso regime parlamentar? O País bem o deve compreender. Para a crítica desinteressada e sincera, francamente, o facto político em Portugal serve apenas para demonstrar a incompetência das maiorias por intermédio de um parlamento sumamente estimável como instrumento de observação, porque é ele que constitui a escala por onde mais facilmente se pode medir a marcha progressiva da nossa decadência. Em um país onde a ignorância é geral, o governo, qualquer que ele seja, é fatalmente mau, porque nenhum governo é possível nem acima nem abaixo do nível geral das ideias no meio em que ele existe. Sob o sistema representativo esta relação constante da capacidade do governo com a capacidade social é ainda mais estreitamente necessária que sob outra qualquer fortna política. Se o governo der um passo adiante ou ficar um passo atrás da aspiração determinada pelo nivelamento médio dos espíritos, uma força invisível e insuperável, o voto, há-de impeli-lo ou há-de refreá-lo até restabelecer o equilíbrio de que depende a viabilidade constitucional do poder. Querem um governo sábio? Preparem um povo instruído. Enquanto o meio social não for modificado no sentido de uma maior elevação de sentimentos e de ideias verá o País que a acção do governo sobre a civilização e sobre o progresso será absolutamente a mesma quer o poder se mumifique nas formas do Sr. Anselmo Braamcamp, quer se disfarce sob os históricos fluidos transmutativos do Sr. Fontes Pereira de Melo. Na Evolução, o Sr. Zeferino Cândido, doutor em Matemática, lisojeia-nos com um artigo de dez colunas com 103 o fim principal de indicar o desacordo de algumas das nossas opiniões com as doutrinas de Augusto Comte. Não podemos deixar de observar, antes de tudo, ao Sr. Dr. Zeferino que, conquanto estejamos profundamente convencidos, com Miss Martineau, de que o único campo do progresso é hoje o da filosofia positiva, não foi de modo algum uma exposição de doutrina comtiana sobre a instrução pública o que nos propusemos fazer no precedente volume desta crónica. Posto isto, tocaremos alguns dos reparos e satisfaremos algumas perguntas do Sr. Dr. Zeferino Cândido. Dissemos que na instrução primária entra o que é puramente elementar na área de todos os conhecimentos humanos. O Sr. Dr. Zeferino desdobra este princípio dizendo que, segundo o nosso método de divisão de ensino, o aluno da instrução primária "seria obrigado a aprender elementarmente todos os conhecimentos que compõem a matemática, a física, a química, a biologia, a ciência social e, além disso, a parte elementar de todas as ciências concretas como por exemplo, a mineralogia, a geologia, a agricultura, a medicina, a arte do engenheiro, etc." Neste ponto cremos que o nosso contendor desejou apenas fazer um jogo de palavras impróprio da elevação do seu espírito. Se nós dividimos a ciência em três categorias, elementar, abstracta e concreta, é claro que quando nos referimos unicamente aos conhecimentos que fazem parte da primeira categoria, excluímos os que entram na segunda e os que entram na terceira. Se tendo uma dada quantidade de valores e havendo-os dividido em três séries, lhes chamássemos primeiros, segundos e terceiros, mostraria uma ligeira má vontade em desejar perceber-nos aquele que, quando nós disséssemos os primeiros, imaginasse que nos referíamos aos primeiros dos segundos e aos primeiros dos terceiros. Assim, quando dizemos na ciência a parte elementar, não temos em vista uma porção 104 determinada de princípios com que cada uma das ciências conhecidas tenha forçosamente que contribuir por meio de um extracto essencial para as matérias da instrução primária, mas sim nos referimos ao que é em absoluto elementar, isto é, àquelas noções científicas possuídas com tal grau de evidência que não precisem nem de demonstração subsequente para que se provem, nem de conhecimentos anteriores para que se compreendam. Quem delimitaria as fronteiras precisas às três distintas categorias da instrução? Quem faria o difícil programa do ensino de cada uma delas? Quem redigiria os respectivos compêndios? - Estas perguntas que o Sr. Zeferino nos dirige são exactamente aquelas que nós aconselhámos o Governo a que poriha a concurso retribuindo as respostas com um grande prémio. Exigir que nós preenchamos esta condição, aqui, de repente, e demais a mais de graça, a fim de satisfazermos uma curiosidade, aliás muito legítima mas inteiramente pessoal, do Sr. Zeferino, parece-nos algum tanto violento. Procuraremos todavia indicar a S. Ex0 algumas das noções que consideramos elementares e próprias para os compêndios da instrução primária: As cúpulas de vidro que se suspendem do tecto por uma corrente sobre as chaminés dos bicos de gás estão em constante oscilação enquanto o candeeiro se conserva aceso. Esta função do calor exercida pelo bico de gás sobre a cúpula que se lhe coloca por cima é a mesma que o Sol exerce sobre o globo da Terra. Somente como o globo não está suspenso de uma corrente, mas sim cingido por uma cinta de fluidu invisível que se chama o éter, o calor do Sol, actuando sobre metade do globo na parte em que é dia, obriga-o a rolar sobre si mesmo para a outra metade em que é noite, e assim sucessivamente, como rolaria uma bola de bilhar em que se batesse com o taco por um lado e estivesse unida pelo outro a uma cinta elástica 105 posta em círculo sobre a mesa. A bola percorreria em redor todo o circuito da fita. O movimento que a acção do calor do Sol produz na Terra sobre si mesma chama-se a sua rotação; o movimento consequente que ela descreve em volta do sol chama-se a ecliptica. (Teoria de Frémaux confirmada pelas experiências do radioscópio). - Eis uma noção elementar de astronomia. Quando uma pedra cai na superfície da água no centro de um lago produz uma série de ondas circulares que se estendem sucessivamente do ponto em que caiu a pedra até a borda da água. Assim se espalha a luz, quer ela saia de um astro quer saia de uma vela de sebo. Somente a velocidade com que a luz se dilata do centro para a circunferência é três milhões de vezes maior do que aquela com que caminha a onda circular produzida pela pedra. - Eis uma noção elementar de física. O açúcar posto em fermentação cessa de ser açúcar e principia a ser álcool. Deixa-se uma gota de vinho no fundo de um copo em contacto com o ar. No ar há um agente chamado oxigénio, o qual combinando-se com o álcool que existe no vinho desfaz o vinho, e faz o vinagre. Assim, em todas as transformações por que façamos passar os corpos é absolutamente impossível desfazer uma coisa sem fazer outra, e tudo quanto se passa na natureza são combinações que se fazem ou combinações que se desfazem. - Eis uma noção elementar de química. Um animal qualquer colocado em uma balança mostra mudar constantemente de peso, num movimento consecutivo como o do ponteiro de um relógio. Ao ser alimentado o amimal, o seu peso sobe de repente para imediatamente depois descer, mais rapidamente se o animal trabalha, mais rapidamente ainda se ele sua. Este facto prova que a nossa organização vital não é mais que um laboratório em 106 trabalho permanente de destruição e de renovação. Este duplo movimento, que por outros termos se chama a assimilação e a desassimilação constitui o fenómeno fundamental da vida. - Eis uma noção elementar de biologia. É confeccionando um corpo metódico e sistemático de breves noções do género das que indicamos que, em nosso entender, se redige um compêndio de instrução primária. O nosso ilustre crítico receia que seja impossível habilitar professores de instrução primária bastante instruídos para ensinarem a parte puramente elementar das seis ciências fundamentais - a matemática, a astronomia, a física, a química, a biologia e a sociologia. Não nos parece que isto seja tão excessivamente difícil como a S. Ex0 se figura. Explicar, tanto quanto seja possível praticamente, pelo sistema de Froebel, as noções elementares da astronomia, da física, da química e da biologia é incomparavelmente mais simples e mais fácil do que a Prosódia, do que ensinar a Sintaxe, do que ensinar a Etimologia. E não obstante nas escolas primárias ensina-se a gramática com todas as suas partes; ensina-se, além disso, a geografia; ensina-se a doutrina cristã com a metafísica de todos os sacramentos, com os nomes de todas as virtudes, com enumeração de todos os pecados; ensina-se ainda a história e a civilidade; finalmente, chega-se a ensinar o Manual Enciclopédico do Sr. Emílio Monteverde! Não há noção alguma nas ciências físicas e nas ciências naturais tão difícil de explicar a uma criança como esta simples coisa que debalde se lhe procura ensinar há tantos anos nas nossas escolas - o que é o substantivo. De todos os fenómenos do calor, do movimento, da luz, do som, da electricidade, do tempo, de todos os modificadores físicos, químicos, biológicos e até sociais, de tudo quanto mais ou menos directamente pode afectar os sentidos ou influir positivamente nos factos - do princípio 107 da gravitação na astronomia, da junção ou disjunção das moléculas na física, da coesão ou dispersão dos átomos na química, da nutrição, do crescimento e da reprodução na biologia - é possível dar às crianças uma ideia lúcida. Das partes da oração desafio quem quer que seja a achar uma teoria que elucide perfeitamente a compreensão rudimentar de um menino. Aquilo portanto que, segundo o sistema que propusemos, pareceu ao Sr. Zeferino uma complicação absurda é apenas uma simplificação lógica. Passando em seguida a examinar as bases sobre as quais nós desejaríamos que se organizasse a instrução secundária ou o ensino médio integral ou enciclopédico, o Sr. Dr. Zeferino dedica-nos os seguintes períodos, que pedimos vénia para reproduzir integralmente: "Na instrução secundária cabe a parte chamada abstracta de todas as grandes ciências que constituem a exegese moderna segundo a admirável genealogia de A. Comte: a matemática, a astronomia, a física, a química, a biologia e a sociologia. "Na instrução superior tem lugar a parte concreta das referidas ciências ou a sua aplicação a qualquer dos ramos da actividade intelectual. (As Farpas, fls. 24 e 25.) "Aqui o Sr. Ramalho assumiu as proporções de um semideus. Fugiu da terra com a sua universalidade científica, colocou-se à mão direita de Deus Padre Todo-Poderoso, e legislou para os bem-aventurados espíritos daquela celeste mansão! "Desgraçada educação científica é esta, colhida nos livros de A. Comte e seus discípulos, se ela leva o homem a tais resultados! "No entender do Sr. Ramalho a instrução secundária ou o ensino médio, que se deve prolongar até aos 18 ou 19 anos, deve ser universal. "É por meio de um forte ensino médio, comum a todos os cidadãos, qualquer que seja 108 o estado, a profissão ou a jerarquia de cada um, que uma verdadeira democracia se afirma na civilização e no progresso", diz S. Ex0 a página 29. "A. Comte escreveu um curso de filosofia positiva, que é um estudo de todas as ciências fundamentais por ele classificadas na segunda lição. O curso de filosofia positiva deve ser, portanto, o livro que se deve colocar na mão de todo o cidadão, qualquer que seja o seu estado, profissão ou jerarquia, quando vai estudar a instrução secundária. Num país sabiamente governado, como o Sr. Ramalho deseja que seja o nosso, deve o livro de A. Comte ser o livro de estudo de todos os portugueses, desde o filho das serras que tem de cultivar o casal para o sustento dos seus, até ao Sr. Ramalho que estuda os problemas mais audaciosos da ciência para nos dizer tudo isto, para nos dirigir e ensinar deste modo, para ensinar a comissão que o Governo encarregou destes estudos, para ensinar um país onde a ignorância é universal, crassa e supina. "O Sr. Ramalho teve a ideia majestosa de formar do país dos ignorantes um país de sábios, como A. Comte se não cansa de chamar aos que seguirem e compreenderem o seu plano de estudo. "Grande e louvável patriotismo é este que só podia ser produzido "por um banhista da Cruz Quebrada, escrevendo sobre o joelho, à sombra de um parreiral, sem livros, sem sugestões literárias, inspirado por um moinho de vento, ou pelas rolas que emigram, cortando o sereno azul com a palpitação do seu voo". A confissão justifica o confessado. "Estes problemas, Sr. Ramalho Ortigão, não se estudam à sombra dos parreirais, com a inspiração dos moinhos de vento e das aves. Estes problemas estudam-se seriamente nos gabinetes. "Colhidos os dados pela observação, pensam-se e discutem-se as leis a que esses dados se sujeitam, contraprovam-se em seguida essas leis pelo juízo doutros analisadores, e só depois de maduro pensar, de rigorosa verificação, se entregam ao mundo da publicidade, se expõem à estranha apreciação. "O Sr. Ramalho incorre na falta de quem reproduz mais do que produz. "Se pelo seu trabalho próprio, pelo seu bem dirigido pensamento, assimilasse a justa ideia do ensino integral, como hoje é recomendado e exposto por todos os apóstolos da filosofia positiva, não viria fazer de tão útil medida uma exposição falsa, e tão falsa que seria a sua completa condenação. "Veja o Sr. Ramalho com cuidado os artigos escritos por Paulo Robin na esplêndida exposição deste ensino, publicados nos números 5, 7 e 9, da Revista de Filosofia Positiva. "Na exposição que faz Littré no tomo 71 desta mesma publicação, de um projecto de reforma apresentado pelo Dr. Picot em 1871, tendo por fim a reorganização da instrução pública na França, verá o Sr. Ramalho que o ensino superior que Picot quer seja professado em dez universidades é distribuído em sete faculdades, contendo as cinco primeiras o estudo das seis ciências fundamentais, a sexta compreendendo uma faculdade de medicina e a sétima uma faculdade de direito. "Nesta exposição, diz Littré: "Nos países mais adiantados, apenas é obrigatório o conhecimento da leitura e escrita. O Sr. Picot quer aproveitar o ensejo da reorganização para colocar a França não só ao nível, mas acima das regiões que têm levado mais longe a difusão popular da instrução." "Veja o Sr. Ramalho que para tão alto fim o Doutor Picot coloca o estudo das seis ciências fundamentais na instrução superior, que é perfeitamente facultativo, ao passo que o Sr. Ramalho quer o estudo destas ciências obrigatório para todos, e o seu estudo único, completo, na instrução secundária ! " Permita-se-nos que principiemos por levantar do texto desta exposição uma frase que consideramos importantíssima con quanto pareça estranha à doutrina e relativa unicamente à nossa individualidade. O Sr. R. incorre na falta de quem reproduz mais do que produz. Precisamos de declarar desde já, de pronto e categoricamente, ao Sr. Dr. Zeferino, a todos os nossos leitores, ao público e sobretudo ao nosso médico, que nunca em nossa vida fizemos cientemente mais do que reproduzir ou quando muito transformar. Produzir, isto é: ter ideias pessoais, de gestão própria pela fecundação de nosso próprio ovo operada por nós mesmos - como Augusto Comte em uma das intercadências da sua razão, na crise mística do seu cérebro, imaginou na "virgem mãe" - ter finalmente uma ideia nova, uma só que seja, é estar por esse simples facto fora da humanidade, mais ainda: é estar fora da natureza, e é atacá-la na lei das uniformidades de sucessão que constituem o modo de ser universal. Em todo o trabalho imenso de codificação e metodização das ciências que forma a obra colossal de Augusto Comte, um dos maiores monumentos do espírito humano, tudo é sabido, tudo é velho, com excepção de uma única parte: a política positiva, mas esta parte - nova - não é um fenómeno científico, é um sintoma patológico: autor da política positiva tinha enlouquecido. Emprazamos pois o Sr. Dr. Zeferino para que nos diga quando foi que as Farpas produziram o que quer que fosse! Porque, se efectivamente produzimos, passamos nesse caso a solicitar da beneficência pública um colete de força. Há novas ideias, há ideias originais, há produção espontânea no nosso cérebro? Se há, digam-o, porque nesse caso trocamos imediatamente o caminho da Tipografia Universal pelo caminho de Rilhafoles. Se temos ideias nossas - vejam lá bem! - se as temos, deixamos imediatamente de pertencer ao público; pertencemos ao Dr. Craveiro. 111 Quer ver agora o leitor paciente em que termos a falsidade da nossa exposição, a nossa leviandade, a nossa falta de contraprovas pelos juizos de outros analisadores, etc., se acha confirmada pela escola positivista, em nome da qual única e exclusivamente o Sr. Dr. Zeferino nos verbera como se isto fosse uma questão de escola e não uma questão de ideias? A escola positivista não tem por único definidor geral o Sr. Dr. Zeferino, possui um órgão oficial, a Revue de Philosophie Positive, dirigida pelos senhores Littré e Wirouboff e citada pelo mesmo Sr. Zeferino como o código fundamental da sua doutrina. Nesse código, que é ao mesmo tempo a carta constitucional e a carta adorada de S. Ex0, tomo 10, páginas 233, lê-se: ENSINO SECUNDÁRIO É aqui o coroamento do ensino enciclopédico. A soma dos materiais e das noções concretas amontoadas até aqui (NA INSTRUÇÃO PRIMÁRIA) é suficiente para permitir ao espirito abranger o conjunto das ciências abstractas cuja classificação dei já. ESTA CLASSIFICAÇÃO ACHA-SE A PÁGINAS 226 E 227, EXPOSTA NOS TERMOS SEGUINTES: Instrumentos de aquisição leitura escrita Ciências propriamente ditas matemática astronomia física química biologia sociologia 112 Tal é a única classificação verdadeira das ciências, tal é também o único plano racional de uma educação cientifica integral ou enciclopédica. Cremos que o leitor tem compreendido bem os termos em que pomos a questão. As palavras que acabamos de transcrever em itálico são traduzidas à letra de um extenso artigo em que o Sr. Lafargue, colaborador da Filosofia Positiva, coloca na instrução secundária - a parte abstracta das seis ciências fundamentais de Augusto Comte. O que quer dizer: que a opinião emitida por nós e que o Sr. Dr. Zeferino classificou de absurda unicamente por não ter sido contraprovada pelos analisadores competentes, mestres da filosofia positiva, está precisamente não só contraprovada mas prescrita pelos referidos analisadores e mestres no último trabalho consagrado por eles à revisão dos programas do ensino público. Vêem portanto que o que nós trouxemos da praia da Cruz Quebrada, da convivência das rolas, dos moinhos de vento e da babugem das marés - justamente com alguns safios que tivemos a fortuna de pescar à linha na rocha do Bico - foi uma teoria autenticamente confirmada, contraprovada e garantida. O que o Sr. Dr. Zeferino nos envia do recesso das bibliotecas donde vem, do mistério dos laboratórios em que tem vivido, do conciliábulo dos decanos universitários com quem comunica, é um puro erro de exposição tão erudito quanto flagrante - procedente talvez de S. Ex0 não ter querido ler para a averiguação deste ponto senão até o tomo 7 da Filosofia Positiva. O tomo 10 tinha chegado em Setembro passado à Cruz Quebrada, e era precisamente à mão desse tomo que nós nos achávamos - bem como, de quando em quando, à do nosso banheiro - e não à de Deus Padre Todo-Poderoso, como o nosso amável doutor teve a bondade de acreditar que nos supúnhamos. 113 Se ousássemos imitar o estilo sacerdotal e jeremíaco do Sr. Zeferino, nós poderíamos exclamar: Desgraçada educação universitária é esta colhida clandestinamente nos livros de Augusto Comte e seus discípulos, se ela leva os doutores a tais resultados! Em vez de declamações estéreís, nós preferimos todavia dizer a V. Ex0 verdades simples e sinceras. Quer S. Ex0 que lhe digamos francamente, em boa amizade, onde é que nos supomos!? Supomo-nos na anarquia, na confusão, na indisciplina de ideias, de princípios, de leis morais, em que afundiu a sociedade de que fazemos parte. Achamo-nos, por um lado, sem as crenças em que se baseava o princípio da fé no mundo velho, e, por outro, sem as convicções científicas que deviam fortalecer e nobilitar a alma nova. Nós mesmos somos um produto do meio viciado em que estamos, somos uma criatura humilde, e obscura, mas legítima da sociedade a que pertencemos. Somente, dentro da limitada esfera das nossas forças pessoais, nós resistimos e protestamos. Resistimos pelo impulso de uma vontade honesta, isolada. Protestamos contra a educação que recebemos; protestamos contra as nossas instituições de ensino que julgamos absolutamente incapazes de criarem homens fortes, instruídos e honestos; protestamos contra a imoralidade progressiva e contra a corrupção crescente que essas instituições alimentam e mantêm; protestamos, finalmente, contra a geral indiferença dos espíritos por este estado de coisas, indiferença que ameaça rebaixar-nos até o ponto de poder converter-nos em - um país de gaiatos. Quando alguma vez tocamos com mão inexperiente alguns problemas difíceis e graves não é porque tenhamos audácia de presumir resolvê-los como um ente superior e imaculado. O que temos - não por excepcional elevação de espírito mas por alguma rectidão de carácter - é o princípio da simples honestidade que obriga todo o homem a quem o acaso distribuiu uma pena a ir pondo sucessivamente a sua palavra diante de cada uma das interrogações que lhe sugere a sua alma. Se nos temos arrojado a emitir algumas teorias, como, por exemplo, a da arte, a da religião, a da pátria, a da família, a do casamento, a do divórcio, a do trabalho, se temos discutido algumas instituições como a Imprensa, o Teatro, o Exército a Igreja, a Coroa, o Parlamento, o Ensino, etc., se sobre alguns ou muitos, ou todos esses pontos temos divulgado opiniões diferentes ou opostas às opiniões consagradas - é com uma profunda convicção de solidariedade e de responsabilidade que o temos feito, não com o intento de que a nossa palavra prevaleça no destino das soluções, mas para que ela ateste em público a presença de um espírito em dissidência e em revolta, o qual, em nome de outros espíritos em condições análogas, nada mais pede do que ser esclarecido e guiado. Quando porém vemos que as mais altas e importantes questões suscitadas pelas Farpas ninguém mais as discute nem as elucida na esfera competente, na esfera científica, na esfera filosófica, que querem que julguemos senão que essa esfera na sociedade portuguesa está arrefecida, desabitada, e não é mais que um pobre planeta exausto, morto, inútil, perdido nas solidões do espaço? O Sr. Dr. Zeferino repreende a severidade com que apreciamos a ignorância do País a ponto de nem no menos encontrarmos quem possa estudar os vícios da nossa instrução. Não sabemos se há quem possa estudar os vícios da nossa instrução; o que sabemos é que não tem havido quem os estude. E isto não é uma hipótese, é um facto. Quarenta anos de dissolução inveterada e de decadência progressiva só se explicam por quarenta anos de inépcia demasiadamente provada e perfeitamente manifesta. Outro ponto que S. Ex0 controverte é o do princípio do concurso, que nós queremos abolido e que S. Ex0 deseja que continue em vigor. 115 Nesta parte ainda é o Sr. Dr. Zeferino quem se encontra em desacordo com os livros que cita para nossa lição. Na Filosofia Positiva, tomo 8, páginas 24 a 58, vem um artigo do Sr. Georges Pouchet intitulado O ensino superior das ciências, no qual a necessidade de abolir o concurso no interesse do ensino, segundo a organização alemã, necessidade exposta pelas Farpas, é mantida pelo autor como a base de uma reforma urgente no professorado francês. As curiosas afirmações do Sr. Zeferino: Um sábio que dá inferior prova num concurso oral prova "ipso facto" a necessidade de ser excluido do ensino; - Os sábios não são os melhores mestres; - O concurso não exclui senão os inábeis; - O concurso afasta do ensino a perigosa intervenção das incompetências; - têm no artigo referido uma refutação plena em argumentos sólidos e em factos precisos. Frederico Savigny, o insigne mestre de direito romano, o criador da jurisprudência histórica e um dos primeiros professores do mundo, dizia do alto da sua cadeira na Universidade de Berlim, segundo se lê na autobiografia do seu discípulo Jacob Grimm, que o concurso oral era a porta aberta às mediocridades. O mesmo Jacob Grimm, o ilustre filósofo, descobridor da grande lei do deslocamento das consoantes nas línguas indo-germânicas, criador do método histórico das línguas, professor de literatura alemã na Universidade de Goettingue, tinha uma invencível dificuldade de exposição, e era pelo grande e sincero esforço que empregava para se exprimir claramente e pela paixão profunda que consagrava às verdades do seu método que ele conseguia atrair a atenção dos seus discípulos e fixá-la nos elevados assuntos que o preocupavam. Na Universidade de Coimbra vemos - por o que diz o Sr. Dr. Zeferino - que Jacob Grimm seria "ipso facto" excluído do ensino. 116 A lista dos erros cometidos pelo Sr. Dr. Zeferino na sua alegação em favor do provimento das cadeiras pelo concurso oral termina com estas palavras: Homens de reconhecido mérito, de subida consideração científica escrevem de forma que ninguém os compreende, ao passo que outros menos instruidos, escrevem com clareza e método muito superior. Este postulado desautora um positivista e prova simplesmente que o Sr. Zeferino ou não sabe o que é um homem de reconhecido mérito e consideração científica (qualificações que só cabem à superioridade intelectual que resulta exactamente da posse de um método), ou não sabe o que é escrever com clareza e com método, confunde o estilo e o palanfrório, e não diferença as qualidades literárias que distinguem os grandes livros dos livros medíocres e banais. Pelo que diz respeito ao método que indicamos para a adopção dos compêndios, não podemos tão-pouco conformar-nos com o Sr. Dr. Zeferino em que esse método esteja em desacordo, por qualquer modo que seja, com a instituição dos privat docenden. Os compêndios não são mais que um desenvolvimento complementar dos programas, e nada têm de comum com o modo como devem ser escolhidos os professores. Como parte integrante do nosso sistema, a referência aos compêndios tem ainda a vantagem de mostrar ao Sr. Dr. Zeferino que não é pelo Curso de Filosofia Positiva, de Comte, mas sim por livros especiais expressamente feitos para esse fim que nós desejaríamos que se ensinasse aos alunos de instrução secundária a parte abstracta de cada uma das seis ciências fundamentais. Há várias outras proposições do Sr. Dr. Zeferino que provam lamentavelmente quanto o espírito esclarecido de S. Ex0 está longe da positividade filosófica. 117 "O Estado - afirma por exemplo S. Ex0 - tem todo o direito e obrigação de intervir nos concursos." Parece-nos perigoso positivista o que assim demonstra ignorar as leis mais gerais da doutrina que imagina professar, e tendo lido Comte, Littré, Robin, Wirouboff, Lafargue, todos os eminentes sistematizadores, desconhece ainda o princípio fundamental em sociologia: - que o Estado se acha constituído metafisicamente e que a sua intervenção directa e constante no ensino esmaga a autoridade espiritual da ciência, corrompe-a nas suas fontes, e perverte-a nos seus fins. Segundo S. Ex0, a posição social dos que aprendem é uma circunstância que importa atender na fixação dos programas, não convindo sobrecarregar de noções científicas o filho das serras que tem de cultivar o casal para sustento dos seus. Aqui a intenção patética do estilo, menos próprio talvez de um matemático e de um filósofo moderno que de um velho autor de novelas pastoris, encobre um outro gravíssimo erro de doutrina. Com excepção dos cursos de aplicação, a instrução facultada a um povo - no ensino primário e no ensino médio - não distingue a condição social dos indivíduos e tem unicamente em vista preparar homens com a soma de ideias indispensáveis para serem simplesmente - homens, isto é, para não quebrarem por meio do desequilíbrio do seu peso bruto os elos mais altos ou os mais baixos da extensa cadeia da dignidade e da solidariedade social. Ofilho das serras que tem de cultivar o casal para sustento dos seus é alguma coisa um pouco mais definida do que uma paráfrase bucólica; chama-se na indústria um agricultor, chama-se na politica um cidadão, chama-se na família um pai, e não se chama um filho das serras senão na crítica filosófica do Sr. Dr. Zeferino. Como cidadão, como chefe de família, como agricultor, esse indivíduo a quem a prudência do Sr. Zeferino 118 não distribui mais alimento espiritual que a cartilha e as quatro espécies, precisa no entanto para cultivar o seu campo e para educar os seus filhos, sem perigo para a civilização, de uma variedade de conhecimentos muito mais vastos do que aqueles de que necessita um catedrático da Faculdade de Matemática na Universidade de Coimbra para explicar aos seus alunos o cálculo das funções directas. O Sr. Dr. Zeferino diz ainda: "O estado da civilização em geral e em particular do país para que se legisla são outras "causas" (?) que modificam a distribuição da instrução." Se o que S. Ex0 pretende enunciar neste período confuso é - como deduzimos por concordância com os períodos anteriores - que no modo de distribuir a instrução se deve atender ao estado da civilização variável segundo os países para que se legisla - temos de lembrar-lhe que essa delimitação geográfica é inadmissível na ciência e por conseguinte na instrução. A Europa, como S. Ex0 bem sabe pela leitura dos filósofos seus confrades, é uma grande confederação espiritualmente indivisível, com interesses mentais comuns a todos os povos. A paz e o progresso dependem essencialmente dessa unificação intelectual, que todos os pensadores modernos se esforçam por levar a efeito, e que o Sr. Dr. Zeferino - um filósofo e um positivista - pede, simplesmente, em nome da filosofia e em nome da positividade, que se desgregue e se delimite com relação a cada Estado! Em nome da ciência, que o Sr. Dr. Zeferino cultiva, pedimos-lhe que se resigne a aceitar o princípio que as Farpas expressaram na única fórmula verdadeira: o que um país deve aprender não se restringe por considerações de espécie alguma além desta - o que esse país pode ensinar. 119 As aberrações a que nos temos referido levar-nos- iam a duvidar que o Sr. Dr. Zeferino fosse um positivista, a recusar-lhe talvez inteiramente essa qualificação, se a sua palavra nos não merecesse todo o crédito e não fosse S. Ex0 mesmo quem afirma ser o apóstolo dessa religião sublime, pregada pelo autor da filosofia positiva. Resta-nos pois desejar-lhe que o continue a ser por muitos anos e bons, e que a deusa Sabedoria o preserve dos grandes perigos que se nos figuram apensos aos seus trabalhos de evangelização na senda resvaladiça das simbólicas ladeiras coimbrãs! Augusto Comte, como S. Ex0 muito bem sabe, foi um homem duplamente dotado com um grande génio e com uma dispepsia. Do génio resultou a criação da filosofia moderna, que o imortalizou. Da dispepsia resultou uma afecção do cérebro e da espinhal medula que lhe invadiu as faculdades e o arrancou da ciência para a sepultura. Deixou duas heranças distintas: a obra do seu génio e a obra da sua dispepsia. Os discípulos tomaram conta de tudo, repartiram, e ficaram divididos em dois grupos diversos. O primeiro grupo, presidido pelo Sr. Littré, recebeu a herança do génio. O segundo grupo, presidido pelos senhores Robinet e Laffite, recebeu o legado da dispepsia. E assim ficaram existindo, um por trás do outro, dois positivismos diferentes. Ora o que nós vivamente receamos é que o intenso esforço impulsivo que o espírito tem de fazer sobre si mesmo para saltar do metafisismo universitário para a filosofia positiva leva alguns dos catecúmenos conimbricenses a exagerarem o pulo, passando por alto o positivismo científico e caindo de chofre no positivismo Laffite. Por tal modo, em vez de procurarem reformar as suas ideias, os seus sentimentos e os seus actos segundo o critério científico, darão consigo na preocupação da ortodoxia e no cultismo das formas, e não se afirmarão na reconstituição dos princípios senão redigindo bulas e breves contra os heréticos, e acolitando o Sr. Zeferino Cândido apóstolo, e o Sr. Emídio Garcia pontifice, junto ao altar de Madame de Vaux para a celebração das festividades do - grande Ser. 121 XXI A EDUCAÇÃO DAS MULHERES - MENINAS EXAMINADAS NO LICEU - SUAS MESTRAS Setembro, 1877. Os jornais do mês passado transbordaram de anúncios e de notícias pouco mais ou menos do teor seguinte: "Mais um florão acaba de ser acrescentado à coroa da Sr.s D. Jerónima, directora do bem conhecido e acreditado colégio de Nossa Senhora da Santissima Purificação, rua de tal, número tal, quarto andar, lado esquerdo. Foi ontem examinada em instrução primária e aprovada com dez valores, no Liceu Nacional, a menina Elvira Fernandes, aluna do referido colégio. O nosso amigo Policarpo Fernandes, extremoso pai da jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da Sr0 D. Jerónima e aos carinhos dos examinadores de sua débil e tímida menina, a todos consagra, por este meio, seus indeléveis agradecimentos." A inundação dos artigos deste género prova que o exame público no Liceu começa a tornar-se um fim na educação ministrada às meninas nos colégios de Lisboa. A pedagoga Sr0 D. Jerónima envida toda a honra da sua tabuleta, todas as ideias da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas classes, para dotar 122 com o maior número de exames as alunas confiadas às reclames das suas distribuições de prémios. Este ano a menina Fernandes foi aprovada em instrução primária. Para o ano próximo será aprovada em francês. Daqui a três anos obterá igual êxito com relação à língua inglesa. O Sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da Sr0 D. Jerónima, e recobrará completamente educada a sua filha. A infatigável e benemérita professora dá-a por pronta para entrar na sociedade mais escolhida. Ela sabe as línguas, toca o piano e tem, segundo o programa da Sr0 D. Jerónima, as prendas de mãos próprias do seu sexo. Estas prendas consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de uma monstruosidade mitológica, feitos a lãs, a matiz, ou a missanga, com olhos de vidro, beiços de vidro, e lágrimas também de vidro, sobre um retalho de pano que se encaixilha e que tem por baixo, a ouro, a data da confecção do monstro feita em cruz; e em formosas letras de bastardinho, igualmente a canotilho de ouro: Elvira Fernandes me fecit. Ao fim de um ano de vida doméstica, D. Elvira esqueceu as línguas, das quais aprendeu precisamente o indispensável para escapar, caindo-lhe um tema fácil e um examinador carinhoso, como muito bem dizia Policarpo nos seus anúncios de agradecimento. Esqueceu as línguas, porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma palavra das leis da linguística, que fixam e sistematizam os conhecimentos teóricos da formação daspalavras. Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a Prière d'une vierge ou Les cloches du village, e de continuar a bordar em seda ou em casimira os abortos que derramam 123 compungidamente o seu choro de vidrinhos nas almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das poltronas. Policarpo reconhecerá então - demasiado tarde, ai de mim!, ou antes "ai dele!", ou melhor ainda "ai de nós todos!" - que D. Elvira possui, no estado mais exemplarmente enciclopédico, a ignorância cabal de tudo quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que versa a família sensata e dignamente constituída, na qual Elvira tem a sua difícil função que exercer como filha, como irmã, mais tarde como esposa, e finalmente como mãe. De tal modo os exames das meninas no Liceu Nacional comprometem absolutamente os fins da educação, desviam-na do verdadeiro ponto de vista pedagógico, são uma ostentação ridícula, ofendem o bom gosto, desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo, incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ela é chamada na família. Entendemos portanto que - desde o momento em que Fernandes é bastante obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua filha e não só não protesta contra o programa absurdo de D. Jerónima, mas antes endereça aplausos de um entusiasmo inexcedível - ao Estado cumpre intervir; não se tornar solidário das ilusões de Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D. Jerónima o direito de a levarem a exame. Levar a exame! Só a palavra é um ultraje da dignidade feminil. Submeter pelo despotismo do direito paterno tudo quanto há mais delicado, mais melindroso, mais susceptível de corromper-se - o espírito virginal de uma menina -, ao interrogatório oficial de um mestre, que durante vinte minutos vai exercer sobre aquela alma a tirania 124 espiritual de um confessor! Um tal inquérito, um tal julgamento, pode ser desculpável na educação de um rapaz, para quem o exame é uma habilitação legal para a sua carreira civil; na educação de uma menina portuguesa semelhante prova é inadmissível e equivale a uma amputação do decoro. Ora se nenhuma mestra e se nenhum pai tem o direito de cortar as orelhas a uma criança para a tornar mais bonita, assim nenhum pai e nenhuma mestra podem ter a autoridade de fazer examinar uma menina para a tornar mais educada. Pelo que, a obrigação do Estado seria proibir os exames de instrução primária e de instrução secundária para todas as pessoas do sexo feminino que não juntem ao requerimento de matrícula atestado de maioridade e de emancipação legal. Em um exame de instrução primária num dos nossos liceus deu-se este diálogo: O examinador - Que faz a menina quando se vai deitar? A examinanda - Quando me vou deitar... O examinador - Sim. Quando se vai deitar o que faz? Diga. A examinanda - (corando até à raiz do cabelo e baixando os olhos) - Quando me vou deitar, dispo-me. O examinador - E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?!... O que faz depois de se despir? A examinanda - Tenho vergonha... O examinador - Não tenha vergonha. Responda para diante! A examinanda - Depois de me despir o que eu faço é... E neste ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo, com os olhos cheios das lágrimas do terror, na língua adorável dos cinco anos, nessa língua que 125 os homens só falam às suas mães na pureza da inocência primitiva, nesse dialecto infantil ainda mais casto do que as línguas mortas, traduziu a locução de Plínio: urinam ex se emittere. O professor a que nos referimos foi intimado a não prosseguir pelo presidente da mesa, o Sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos. É assim que nos exames de instrução primária se averigua se as alunas sabem ou não "civilidade". Se a Sr0 D. Jerónima carece das noções precisas para dirigir a educação de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou proibi-la de educar, restringindo o direito de corromper a inteligência da infância. A reforma da instrução das mulheres é em Portugal ainda mais urgente que a da instrução dos homens. As línguas não constituem instrução, porque não ministram conhecimentos, são apenas meios de os adquirir. Esses conhecimentos indispensáveis à mulher deveriam constar, na educação elementar, dos seguintes ramos de ensino: 11 - Curso de asseio e de arranjo; 21 - Curso de cozinha (química culinária); 31 - Contabilidade, escrituração e economia doméstica. No curso do primeiro ano dos colégios toda a menina aprenderia, juntamente com as necessárias habilitações literárias para adquirir ideias, as seguintes noções práticas: Os processos científicos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa branca, o fato, as rendas finas, os tules, as sedas, os tapetes, as esponjas, as escovas; de conservar e consertar todos os objectos do uso doméstico; de regular o uso do banho, de lavar o cabelo, de fazer os melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor água de toilette; de arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metais e as madeiras; de encerar os soalhos; de limpar os 126 vidros e as lâminas dos espelhos; de envernizar os quadros; de consertar os livros e as estampas: aprenderia ainda os métodos mais higiénicos ou mais racionais: de escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um deles se destina; de dispor os móveis, de pendurar os quadros; de colocar a bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os inventários e os róis; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os pequenos jantares. Este curso completar-se-ia com algumas noções acessórias: dos diferentes géneros de mobília e do seu estilo característico nas épocas mais notáveis da história da arte ornamental; das principais louças, vidros, cristais, tecidos empregados nos estofos da mobília e no vestuário, e história da fabricação desses estofos. No curso de química culinária, do segundo ano do colégio, a menina aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo. O caldo é a base de toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o caldo bem feito que estimula o sistema intestinal e o habilita para uma boa digestão. Toda a mulher que não sabe fazer um caldo deveria ser proibida de dirigir uma casa. Sobre a ignorância culinária da maior parte das senhoras portuguesas pesa a responsabilidade tremenda da dispepsia nacional. Não temos estômagos sãos porque não temos mulheres instruídas. Esta afirmação pode parecer uma fantasia de estilo; é uma pura verdade fisiológica, e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o que é um caldo, porque esse delicado produto químico só o sabem preparar os cozinheiros de 5000 francos de ordenado. As famílias que não podem agregar-se funcionários desse preço e 127 que não são dirigidas por senhoras que saibam o seu ofício tomam, em vez de caldo, um líquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A condição essencial do caldo bem feito é que ele contenha quantidade de matérias odoríferas extraídas da carne (vide Liebig), que não tenha o menor vestígio de gordura, que seja aromático e perfeitamente transparente. Se tivéssemos alguma esperança de que a Sr0 D. Jerónima o ensinasse às suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a Sr0 D. Jerónima acha mais útil ensinar o que é o substantivo. Como se alguém no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o substantivo é! Como se imensas pessoas (em cujo número nos contamos), não estivessem mesmo convencidas de que jamais existiu na natureza o substantivo, e que ele é úma pura quimera, menos interessante que o papão! Há todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da Sr0 D. Jerónima. Um dos sábios mais eminentes do mundo actual, o Sr. Wirchow, demonstrava há pouco tempo em Berlim que a íntima correlação que existe no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da civilização depende de uma outra correlação não menos íntima que existe entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um povo, do seu carácter, da formação das suas ideias, é a sua alimentação. É principalmente pela sua influência na cozinha que a mulher civilizada governa o mundo e determina o destino das sociedades. Em Londres, os mais importantes jornais, como a Quarterly Revieu, têm chamado para este assunto a atenção dos poderes públicos e da iniciativa particular por meio de muitos artigos sucessivos acerca da regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das cozinhas dos diferentes povos, etc. A Inglaterra compreendeu finalmente que a circunstância de não saberem as suas mulheres fazer bom caldo 128 constituía uma inferioridade nacional e comprometia o destino do povo inglês. Para remediar este mal, que obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento físico e moral dos seus habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notável estabelecimento público de educação feminina, intitulado Escola Nacional de Cozinha. O número das alunas matriculadas em a nova escola subiu rapidamente a cerca de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso estabelecer não menos de vinte e nove sucursais da escola de cozinheiras. Entre as alunas que frequentam essas escolas figuram meninas das mais aristocráticas famílias da Inglaterra. Algumas estão inscritas como simples ouvintes, e assistem aos trabalhos tomando as competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e descem aos processos, indo trabalhar alegremente à banca das operações, ou junto do fogão, vigiando a caçarola e o espeto. Um só facto basta para evidenciar a vantagem desta espécie de ensino na economia doméstica: As classes de cozinha da instituição britânica estão divididas em várias secções dependentes do orçamento a que as famílias têm de cingir as suas despesas; há uma secção destinada a ensinar os meios de alimentar do modo mais higiénico e mais agradável uma família que não possa aplicar à cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por semana! Em Portugal tão descurado está este importante assunto que, não obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é inteiramente impossível estabelecer com 1$600 réis por semana um conveniente regime alimentício para uma família de quatro pessoas. O curso de cozinha nos colégios portugueses deveria ser organizado praticamente, como na Inglaterra, ensinando-se às alunas o valor químico das principais substâncias empregadas na alimentação, o seu preço ordinário no mercado, a sua acção fisiológica sobre o nosso organismo, o modo de variar os jantares segundo as ocupações de cada 129 dia, segundo o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do ano em que eles houverem de ser feitos. No curso de contabilidade do terceiro ano dos colégios, as alunas deveriam aprender a escriturar metodicamente a receita e as despesas da família, supostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os mais avultados, calculando desde o princípio do ano o modo de manter o balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos os proventos e fixando-se nas verbas de despesa proporcional nos diferentes capítulos orçamentais: a renda da casa, a aquisição e os reparos da mobília, o vestuário, o serviço, a iluminação, a lavagem, as despesas imprevistas, e o fundo de reserva - verba essencial, indispensável em todo o orçamento grande ou pequeno, de toda a casa sabiamente dirigida. Fortalecida com a educação feita nestas bases, esboçadamente expostas, a mulher terá dado o primeiro passo definitivo para a sua verdadeira emancipação. Porque emanciparmo-nos não é em último resultado mais do que isto: habilitarmo-nos a prestar na sociedade serviços equivalentes ou superiores àqueles que recebemos. Com a mulher invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ela seja a alma do governo doméstico, o casamento deixa de ser a ruína com que nos ameaça o prolóquio vulgar: uma casa é uma loba. Não; a casa, dirigida como a mulher deveria aprender a dirigi-la, é a ordem, o método, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o baluarte do homem. A função da mulher bem-educada é essencialmente protectora. Na luta da vida por meio da aliança conjugal e da ligação doméstica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso doce refúgio. 130 Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto dependente dos encantos da sua beleza e do seu agrado, a mulher engana-se deploravelmente. Os modernos trabalhos estatísticos provam com factos, num período de cem anos, que o número dos casamentos está sempre em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece, os casamentos diminuem. Á baixa do preço do pão corresponde, pelo contrário, uma elevação proporcional do número de casamentos. O casamento, portanto, é um facto moral estreitamente ligado não a um fenómeno estético mas a um fenómeno económico. A base do casamento é a economia. A economia doméstica é a primeira das aptidões com que deve dotar-se a mulher. Em todos os países civilizados, por toda a parte do mundo, a educação da mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna reconheceu-se que constituía um elemento dissolvente da dignidade e da aspiração das sociedades contemporâneas. Na antiga Roma, a doçura, a graça, a ternura, todos os atractivos sentimentais que ainda hoje vemos cultivados na educação das mulheres honestas, eram atributos exclusivos das cortesãs. Notou um crítico como nas comédias de Plauto as matronas não conhecem as efusões e os arrebatamentos da paixão; não são tímidas nem cismadoras; têm o ar decidido, falam em tom firme e viril. As meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos instruídos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos livros. As pobres iam às escolas públicas, no Forum, juntamente com os rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos. Na Idade Média, quando os homens, dedicando-se inteiramente ao ofício das armas, não tinham tempo de cultivar o espírito pelo estudo, as senhoras da alta socidade, como vemos nas condessas de Champanhe, na mãe de Godofredo 131 de Bulhões, na amante de Abélard, recebiam a mais esmerada educação literária. Sabiam o latim, conheciam os antigos poetas e moralistas e estudavam os elementos da fisiologia e da meteorologia nas obras dos árabes. Em todas as civilizações a mulher bem-educada se habilita para desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social. Na nossa época de fria análise, de implacável utilitarismo, a primeira das obrigações da mulher consiste em tornar-se últil. Ser útil é para ela o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora. Toda a educação feminina tem de partir deste princípio. A alta cultura do espírito, tão necessária à mulher para que ela assuma na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas escolas, adquire-se pelo esforço e pela aplicação individual dirigida por um critério, por um método, por uma disciplina, que a mulher só pode adquirir na grande escola prática da vida doméstica. Todas as noções que nos possa ministrar o estudo das ciências mais superiores estão subordinadas para a sua assimilação em nosso espírito a esta noção prévia: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção primordial só a adquire a mulher nas práticas domésticas. O aperfeiçoamento intelectual das mulheres não só não é incompatível, como algumas julgam, com a perfeita direcção do ménage, mas antes depende essencialmente do grave estado de espírito que essa direcção impõe. Em Portugal, onde a ciência do governo da casa é tão lastimosamente ignorada, vejamos quais são as produções do espírito feminino, quais são os frutos da educação literária desaliada da educação doméstica. Os almanaques da Sr0 D. Guiomar Torresão têm o grande valor histórico de serem o repositório desses frutos. É por esses almanaques que a posteridade tem de julgar do valor intelectual das nossas contemporâneas. 132 Acabamos de folhear do princípio ao fim um número do AlmanaQue das Senhoras, que temos presente. Temos também presente a Gazeta das Salas, igualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que qualquer estrangeiro procure julgar, sobre estas produções literárias, do estado do espírito feminino na sociedade portuguesa! Em todas estas colecções dos trabalhos intelectuais das nossas mulheres - sentimos dizê-lo - não há um só artigo grave, sério, meditado, revelando conhecimentos práticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De tantos problemas sociais que afectam a condição da mulher na sociedade contemporânea e que solicitam a atenção dela, para serem resolvidos pela parte mais interessada e mais competente da humanidade, nem um só foi julgado digno do estudo de alguma das senhoras que fazem imprimir e publicar os seus escritos em Portugal! Estas senhoras produzem versos - não como os de Madame Hackerman, cujos poemas recentemente publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais sedenta de verdade e de justiça - mas sim trovas de uma sentimentalidade de segunda mão, sem ideal, sem paixão, de uma pieguice grotesca. Escrevem também contozinhos ou novelas de amores infelizes, cujas personagens se tratam por excelência e se requebram em artifícios de um dandismo cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente garantida, não dizemos já num congresso de gentlemen, mas num simples tribunal de cabeleireiros. E é para nos dar estes lamentáveis frutos da sua educação exclusivamente literária, que tanta menina honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do ménage, tornando-se, em vez de uma digna mulher útil, apta para acompanhar, para compreender e para ajudar o homem, uma pobre e mísera criatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego na vida 133 prática, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tédios permanentes! Compare-se o Almanaque das Senhoras com as colecções estrangeiras colaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a educação prática da ménagère eleva o espírito, e como a educação literária do colégio português o deprime e avilta. O Jornal das Donas de Casa da Alemanha tem aperfeiçoado profundamente os costumes e os hábitos da vida doméstica. Na Inglaterra, o texto da grande Revista das Mulheres Inglesas consta de artigos de crítica literária ou de costumes, de filosofia, de fisiologia, de economia política e de economia doméstica, de narrativas de viagens, relatórios, estatísticas, receitas culinárias, noções práticas. Não há um romance sentimental, nem uma poesia lírica, nem um reclamo de modas. Taine cita no seu livro acerca da Inglaterra vários artigos de mulheres publicados nas Transactions of international association for the promotion of social scienses. Os artigos intitulam-se: Escolas distritais para os pobres na Inglaterra, por Bárbara Collet; Aplicação dos principios de educação às escolas das classes inferiores, por Mary Carpenter; Estado actual da colónia de Mettray; por Florence Hill; A condição das mulheres operárias em Inglaterra e em França, por Bessie Parkes; A escravatura na América e sua influência na Grã-Bretanha, por Sarah Remand; Melhoramento das "nurses" nos distritos agrícolas, por Mistress Wigins; Relatório da Sociedade fundada para fornecer trabalho às mulheres, por Jane Crowe, etc. Todas estas autoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos amigos que tinha na sociedade inglesa, eram 134 mulheres de casa, passando uma vida extremamente simples e retirada. Assim, temos que na Inglaterra e na Alemanha a escola das ménagères produz as mais graves e mais importantes escritoras. Em Portugal a educação literária, segundo os programas dos liceus, nem dá ménagères nem dá literatas. Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que desse alguma coisa? ... 135 XXII O ESTADO DA EDUCAÇÃO FÍSICA - SUA IMPORTÂNCIA NA EVOLUÇÃO NACIONAL Maio, 1877 A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente africano veio levantar em Portugal, entre alguns outros incidentes, a seguinte questão: O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilizadoras o domínio das nossas colónias? Para isto há uma única resposta: Para dominar, o que se deve fazer é criar faculdades dominantes. Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve. A escola dos grandes exploradores e dos colonizadores é a escola da força nos indivíduos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta, em uma conferência em Londres, da viagem que fizera em procura de Livingstone, o argumento que mais convenceu o público de que o conferente não era um simples fantasista foi a expressão energética da sua figura agigantada, a sua saúde de Hércules, e os fortes pulsos com que na gesticulação ele parecia estar outra vez abatendo e suplantando de novo os olhos do auditório os obstáculos com que dizia ter lutado. 136 Diante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que explica o sucesso de uma empresa difícil e perigosa pela decisão e pela firmeza do que a empreende. A fisionomia um pouco espessa e dura de Cameron, o seu grosso pescoço, solidamente plantado entre uns ombros atléticos, são para a consideração de todos os ingleses os mais belos atributos de raça, o mais apreciável característico de uma distinção privilegiada. Porque na educação inglesa a saúde, o vigor muscular, a força física são o objecto de um desvelado culto. Nos colégios Éton, Rugby, Harrow, os jogos atléticos, a pela, o exercício do remo, a carreira, o futebol, o cricket, ocupam todos os dias algumas horas de aplicação. Duas vezes por semana, quando menos, as aulas terminam ao meio-dia para darem tempo aos exercícios físicos. As contendas entre os alunos decidem-se ao pugilato, diante de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate, que amparam o vencido, que lhe resfrescam com água as contusões, porque estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por um dos socos do adversário. Toda a criança que se exime a liquidar num combate leal as suas pendências de honra é desprezada pelos seus camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jamais um verdadeiro gentleman. Do colégio passam os alunos criados neste regime durante a adolescência para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um regime igual: conhecem-se as célebres regatas no Tamisa entre as equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavalo, caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e destros, crianças, moços, adultos, homens de quarenta e cinquenta anos, outros muito mais velhos, como por exemplo Lorde Palmerston, cumprem as mais 137 severas prescrições higiénicas, submetem-se a uma alimentação especial, abstêm-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento sistemático da musculatura. Os principais divertimentos nacionais são os exercícios de agilidade e de força. Há cricketers que têm ido jogar partidas solenes de Londres à Austrália. Em Lisboa vivem dois ingleses que vão frequentemente a Sintra a pé, levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos, e regressam à noite, sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a qual têm batido em muitas apostas todos os catraeiros do Cais do Sodré. Há poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o clube daquela cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia uma partida de cricket. Um dos ingleses a que nos referimos sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo. Dois oficiais a bordo de um dos navios da última esquadra que esteve no Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata, percorrem todo o enorme edifício do convento, almoçam um bife, e voltam a pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, à hora fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de soirée e uma rosa de Mafra na casa da farda. Destes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo enumerar, deduz-se que o assunto de uma conferência, que não vemos por enquanto citada entre as que nos anuncia a Academia acerca da civilização africana, poderia intitular-se: Da influência do "sport" no carácter dos povos exploradores. A Academia pode muito bem civilizar a África pelo modo mais superiormente sábio na rua do Arco, a Jesus, mas não seria talvez inteiramente ocioso o perguntar quem é que há-de ir levar aos interiores inóspitos da África as bases elementares dessa civilização. Não há dúvida 138 que é possível, mas não é completamente inacessível a algumas objecções, a hipótese de que os negros se queiram desde já civilizar a si mesmos e venham expressamente para esse fim à Academia, escutar. Ao passo que, por outro lado, as prelecções dos ilustres académicos não se distinguem das conferências feitas em Paris e em Londres pelos viajantes estrangeiros unicamente no facto de encararem os assuntos por um ponto de vista contrário, distinguem-se ainda pela particularidade de que os Srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os senhores académicos, com excepção do Sr. José Horta, fazem as suas um poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da doutrina académica, que de modo algum menosprezamos. O que pretendemos simplesmente notificar é que talvez não seja fácil encontrar-se de pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de África a prosa eloquente e vernácula dos civilizadores inamovíveis da metrópole. Não é fácil encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionários abastardou-se e extinguiu-se na moleza dissoluta dos costumes modernos. Folheiem-se os velhos cronistas, examinem-se os retratos dos homens dos nossos descobrimentos e das nossas conquistas: Afonso de Albuquerque, aos sessenta e três anos de idade, cercado dos desgostos mais profundos, arrosta durante cinco meses com os estragos devastadores da terrível disenteria asiática, porque - diz João de Barros - como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava em cama quando mais não podia. Albuquerque, que em saúde reunia à força física a grande força moral da alegria - era homem de muitas graças e motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava muitas, que davam prazer a quem estava defora -, assim tocado de morte por uma enfermidade que não perdoa nunca, reúne conselho de 139 capitães, nomeia o seu sucessor, põe boa ordem em todos os negócios da administração da Índia, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de hombridade e de independência, cujo autógrafo se conserva na Torre do Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarquias com o direito por via da conhecida frase: mal com o rei por amor dos homens, mal com os homens por amor do rei: O infante D. Henrique - segundo o mesmo João de Barros - tinha largos e fortes membros acompanhados de carne: a cor da qual era branca e corada, em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabelos algum tanto alevantados, e o acatamento (por a gravidade de sua pessoa) um pouco temoroso a quem dele não tinha o conhecimento. Do conde D. Duarte de Meneses, a quem D. Afonso V deu a capitania de Alcácer Ceguer, e que foi um dos heróis de África, diz Gomes Eanes de Azurara: "Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em carnes, e de cabelos corredios, e graciosa presença, embargado na fala, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem festejador, tal que quase do berço começou de ter autoridade e representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça, mui temperado em comer, e beber, e dormir, e sofredor de grandes trabalhos, tanto que parecia que ele mesmo se deleitava em os haver, porque quando lhos a necessidade não apresentava ele por si mesmo os buscava. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em outra coisa, como nos feitos da cavalaria, como aquele que quase do berço usara o ofício das armas." Diríamos estar vendo colorida no estilo das nossas velhas crónicas a fotografia moderna de um sportman da Grã-Bretanha. 140 Do mesmo Duarte de Meneses diz Schoeffer: "O poder que tinha sobre si mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um sorriso, e sobretudo o seu juízo são e a sua alta inteligência, tornavam-no próprio para o comando." O infante D. Pedro, o que, segundo o prolóquio popular, viajou as sete partidas do mundo, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e pelo seu rosto fortemente carregado; "irado tinha um aspecto que infundia terror". Os corações eram de uma têmpera inquebrantável, hostil à sentimentalidade e à ternura. Em um combate no assédio de Alcácer, Martim de Távora arranca do poder dos mouros a golpes de espada o seu figadal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu próprio sangue, arrisca iminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz lhe pergunta como viverão daí em diante Távora responde-lhe duramente: "Como dantes." E a inimizade dos dois continuou inabalável. Os que eram dados ao galanteio das damas comoviam-as mais pela aspereza varonil do aspecto do que pela suavidade efeminada das formas. Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do Palácio, o Magriço diz à loura miss que depois do combate ia deitar água às mãos: "Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as tenho assim tão grosseiras e cabeludas, poderão ser-vos molestas, e temo que vos causem desgosto." Ao que a mimosa inglesa replica fazendo sentir ao calejado e cabeludo cavaleiro que a bela mão de um homem é a que denota, pelo seu aspecto, não dedicar-se às carícias moles, mas sim aos fortes trabalhos que têm como fim a honra e como prémio o amor. 141 Vasco da Gama era de um porte tão esforçado e valoroso que El-Rei D. Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o comando da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso a sala em que ia sentar-se à mesa para jantar, determina que seja aquele o que vá descobrir-lhe a Índia. O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta para provar que El-Rei D. Manuel tinha o olho perscrutante que adivinha os homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa, no meio da empresa de tanto risco e da tamanha aventura, quando a guarnição, desalentada e espavorida, pede em todos os navios da frota que se arribe, que se regresse à pátria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe entreguem "quantas coisas tinham da arte de navegar" sob pena de os enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na volta, lança tudo ao mar, exclamando: "Olhai que não tendes mais mestres, nem pilotos, nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos encomendai e pedi misericórdia, e a mim de hoje avante ninguém me diga que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que venho buscar, não voltarei nunca mais." Ão que a guarnição se submeteu com a docilidade de quem não tinha senão dois caminhos que escolher naquela viagem: - o da Índia ou o da morte. O próprio Camões, o imortalizador das façanhas dessa velha raça, ele mesmo um forte, um destemido, um Lorde Byron da Renascença. O seus costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas criaram-lhe na Índia conflitos arriscados, de cujas ameaças ele sorria dizendo: "Que só era vulnerável pelas solas dos pés e que estas ninguém lhas vira nem havia de ver." 142 Em todas as altas figuras do nosso grande século se patenteia o tipo expressivamente caracterizado de uma forte raça privilegiada, hoje extinta. A Europa saía apenas do regime feudal. Conservavam-se vivas no coração de todos os fidalgos as tradições da cavalaria. Os besteiros de conto eram apenas uma débil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os nossos exércitos permanentes. Os grandes vassalos defendiam os seus foros com lanças numerosas, e nos prazos em que não serviam o rei e a pátria, batendo-se com inimigos estrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas. Quando não combatiam, monteavam. Tinham a educação da guerra, a experiência das aventuras arrojadas e das duras privações. Os divertimentos públicos eram ainda os jogos guerreiros: o tavlado, um exercício de força, e as canas, um exercício de destreza. A moderna educação portuguesa esterilizou a sociedade para o fim de gerar homens próprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes em que é preciso arrostar com fadiga, com o sol tropical, com as febres dos rios pobres. Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espírito sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento físico que não só não podem levar a sua influência e a sua dominação intelectual ao interior de África, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascais se lhes suprimirem as facilidades do rebocador ou do carrão. Sabemos que há excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de poucos indivíduos, e não uma feição do País. Na Inglaterra, pelo contrário, o sport está na mesma alma da nação, completa o carácter do país. O príncipe de Gales readquiriu, depois da sua última viagem, a popularidade que antes dela tendia a fugir-lhe. 143 O simples facto de ter penetrado na Índia e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é um dos seus mais poderosos títulos à estima pública. O sport é na Inglaterra uma espécie de religião. O inglês bem-educado atravessa a África por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a glória incomparável de o poder referir às sociedades sábias de geografia, de zoologia, de botânica, de meteorologia, de antropologia, aos diferentes clubes dos caminheiros da Inglaterra, da França e da Suíça, deixando a enorme distância atrás de si os seus compatriotas de curto fôlego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os Pirenéus. Ora sem esse fanatismo e sem esse eco enorme na opinião e na popularidade não há país que se possa medir com a empresa gigantesca de explorar e de civilizar as regiões selvagens. São insuficientes para esse fim todos os esforços do Governo, das sociedades geográficas, das academias e de todas as agregações artificiais de alguns indivíduos; é preciso que o grande impulso parta do génio colectivo do povo. O povo português não está criado para esses movimentos enérgicos. Era uma raça audaz, entusiasta e forte. Perverteram-a com duzentos anos de uma educação dogmática e de uma disciplina fradesca. Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pai fazia navios e em que ele para sustentar a fábrica tem de brandir um machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é um anémico, que não pode com a sua badine. O que há-de fazer? Restaurar a sua constituição, ou vender o machado e ir tossir para o Martinho. Contra os agentes da dissolução em que caímos uma ou duas vozes em todo o País protestam - o que até o dia de hoje,15 de Junho, às 11 horas e meia da noite, tem 144 sido completamente inútil. Deitam-se abaixo livrarias, enegrecem-se com prosa oficial resmas de papel da Abelheira, abrem-se conferências públicas, organizam-se expedições - tudo para dar a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo continua nas condições de abatimento em que estava, as quais não podem tomá-lo próprio para o domínio, mas sim para a servidão. Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o espectáculo correspondente em a nossa organização social. Olhem ao domingo e à quinta-feira para um dos nossos colégios de educação em passeio na Baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e enfezados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com falsos uniformes de guardas-marinhas, vigiados por dois padres. Que diferença dos colegiais ingleses, com os seus chapéus de palha, a blusa de flanela, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade, entregues a si mesmos, responsáveis pelos seus actos, conscientes do seu direito e do seu dever como pequenos repúblicos! Em Portugal, um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas, sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa; um jovem racional de dez ou doze anos, dos quais cinco de escola sob a pressão dos compêndios do Sr. João Félix, não aprendeu nada disso, e precisa de um padre ou de um aguadeiro que o leve pela mão para atravessar a rua! Essa miserável criatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça, que o não deixa meter-se na água fria para que não se constipe. Era melhor que ele tivesse rachado a cabeça quatro vezes, que se tivesse constipado dezasseis, e houvesse aprendido assim a ser um princípio de homem, do que não ter passado por nenhum desses desaires, e ser unicamente 145 um lamentável boneco, medroso e cobarde, que um gaiato, criado na lama da rua e tendo metade da idade que ele tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e estofar de pontapés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de mergulho ao ribeiro, apesar dos perigos previstos pela mãe do molestado. O primeiro acto da vida civil desse sujeitinho consiste em meter empenhos para ser aprovado em instrução primária. A primeira glória da sua existência consiste em se considerar tão importante personagem que saiu aprovado com dez valores, apesar de ter passado a meter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse órgão todo o tempo destinado a profundar concomitantemente as doutrinas do Sr. Félix. No ano seguinte começa a estudar as línguas e a fumar cigarros às escondidas. Penetra finalmente na retórica e na leitura dos romances, em que passam visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo. Chega da cor de uma cidra ao fim do curso dos liceus, tendo, além de todos os preparatórios, mau hálito, as pernas cambadas, a espinha torcida, algum tédio da vida e muita caspa. Matricula-se então na Faculdade de Direito na Universidade de Coimbra, e o primeiro efeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é aumentar-lhe a caspa. Depois a vida académica absorve-o, e ele percorre toda a escala das nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as peúgas, toca o fado, dá canelões nos caloiros, apupa os burgueses, faz algumas canções "grivoises", entorna o molho das ceias pelo peito da batina, e regressa a Lisboa bacharel formado. Tem vinte anos, e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a três indivíduos; - pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente, inclinado, arrastando 146 a capa, retirando-se às arrecuas como uma pega assustada, sorrindo com um agrado pusilânime: - Sr. Doutor, imploro, submissamente a valiosa protecção de V. Ex0!... Ex.mo Sr. Doutor... O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do pretendente do Terreiro do Paço. O que na Universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de nome: "- Sr. Ministro, imploro submissamente a protecção de V. Ex0. . Criado de V. Ex0, Sr. Ministro... Ex.mo Sr. Ministro, humilde servo de V. Ex0...". E sai às arrecuas dos gabinetes dos ministérios, dando-se o ar lastimoso de um cão peludo ao emergir da água, com o seu sorriso deplorável, anediando a copa do chapéu com o canhão da sobrecasaca. Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que deseja. Um ministro despacha-o - para se ver livre dele. Consegue ser empregado público ou candidato governamental por um círculo do continente ou do ultramar. Desde então as engrenagens do maquinismo oficial apoderam-se dele para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade. Pertence à grande legião. Vai para onde ela for, diz o que ela disser, pensa o que ela pensar, dentro de limites intransitáveis, na distância prefixa do cepo a que o amarraram. É assim que uma quantidade inumerável de indivíduos formando a classe dirigente vivem deste cuidado único: o cuidado de se não comprometerem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas ideias, nas suas opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta oficial. Se alguma vez, do fundo do nojo que suscita esta dispepsia moral, lhes vem à boca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta proibida. Como pelo desdém do trabalho vivem numa estreiteza pecuniária vizinha da miséria, muitos se lançam à caça do 147 casamento rico, e, vexando-se de ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e aceitam para toda a vida a intimidade indissolúvel de uma mulher feia, estúpida, malcriada, sem espírito de ordem, sem método, sem a dignidade do conforto e do asseio doméstico - a viva negação de todas as condições que tornam a casa feliz e a família amável. É desses consórcios sem idealidade e sem amor, contraídos fora da mútua dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro indivíduo social, duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os filhos dissolutos, os jovens cínicos, desdenhosos das afeições honestas, hostis a todos os sentimentos de família, cujos nobres encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar. Desses consórcios procedem também as meninas fúteis e pretensiosas, frágeis entes inúteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da dignidade da mulher - a compreensão do ménage, o culto do santuário doméstico. Elas refugiam-se da convivência antipática da sua familia, constituída sem bases orgânicas, na religião, ou, para que o digamos no termo mais preciso, na igrejice. A igrejice e o romance são os dois pólos da sua vida moral. Como qualquer dessas meninas desconhece completamente a arte de cultivar e desenvolver os seus encantos de espírito e de carácter, um instinto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimável fetichismo dissipador da moda. Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da felicidade conjugal e que só por uma grande prática e por uma longa tradição se aprendem: a arte de se fazer bela pelo simples modo de atar uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de caminhar, de se sentar num fauteuil, de pegar num talher, de estar à mesa; a arte de dirigir a cozinha, de organizar a alimentação, de extrair da sua química a alegria e a saúde dos seus comensais; a arte 148 de arranjar a casa, de lhe dar fisionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir ideias, a ter quase conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos armários as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da casa de jantar o esmalte das louças e o estanho reluzente das tampas das canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e solicitarem-nos a permanecer a cor dos cortinados, o tom dos estofos, o assunto dos quadros, a colocação dos móveis, a graduação da luz, a frescura do ar, a nitidez geral do asseio e a sábia disposição dos livros e dos jornais sobre o pano da mesa. A menina em semelhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto, é essa talvez a sua melhor maneira de ter um fim, porque, enquanto a ser mãe, proíbe-lho física e moralmente a acumulada estreiteza do coração e dos ossos. Tais são, no carácter dos indivíduos de um e outro sexo, os frutos da educação portuguesa na classe mais preponderante da sociedade, aquela que forma a opinião e determina as tendências do espírito público. Com semelhante estado é irreconciliável o génio explorador, a tendência para as viagens entre os povos bárbaros e, finalmente, o poder de dirigir e de dominar. Como colonizadores temos apenas uma vantagem sobre os outros povos europeus: a sobriedade, que permite aos nossos operários alimentarem-se com a simplicidade desses chins cuja concorrência, pelo simples facto de se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra baixela senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo. Mas esta grande virtude de raças inferiores, característica principalmente dos nossos operários do Minho e de 149 Trás-os-Montes, é insuficiente para nos conservar o domínio de extensos territórios, que se não arroteiam para a civilização senão pelo esforço combinado de altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez física que também não temos, e de um entusiasmo impulsivo e desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas ideias e das mesmas convicções, o que igualmente nos falta. Nenhum fenómeno mais expressivo da nossa anarquia administrativa e da nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha. Em todo o país colonial e marítimo a indústria da pesca é a escola em que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infância da marinha. A Holanda compreendeu admiravelmente essa verdade, e a indústria piscatória é desde muitos anos objecto dos cuidados e das atenções mais desveladas por parte do Governo holandês, cuja marinha é hoje florentíssima. Essa marinha constituiu-a a Holanda atraindo, com grande aumento de salários, os pescadores biscainhos que iam à pesca da baleia ao cabo de Finisterra. As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações marítimas com grandes prémios conferidos pelo Estado. É na classe numerosíssima dos tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas grandes pescas que se recrutam os marinheiros das armadas europeias. O Governo francês protege, com grandes subsídios na armação dos navios e com avultados prémios sobre o pescado importado, as suas pescas do bacalhau, cujo produto aumenta extraordinariamente os recursos alimentícios do país, elevados em dinheiro à soma de 17 milhões por ano. A pesca do bacalhau emprega em França de 400 navios e 12 mil marinheiros. 150 Um facto bem notável e digno de ser ponderado pelos legisladores portugueses é que a prosperidade e o progresso da França têm sido marcados, como a temperatura em um termómetro, pelo desenvolvimento ou pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação comunal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cai com a corrupção monárquica do regime despótico; revive diante das medidas legislativas da Revolução. Talvez o Governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal que os pescadores franceses nos compram com destino ao seu bacalhau. Os navios franceses que vêm ao nosso porto fornecer-se desse género fazem fiscalizar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o cônsul francês remete ao seu Governo a nota dos moios de sal carregados em Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto donde o navio partiu pelo proprietário responsável por este imposto. Deste modo, evita-se todo o contrabando na importação do sal: os direitos estão pagos na razão de 50 cêntimos por cem quilogramas. Quando porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado nos bacalhaus que pescou, o Governo restitui-lhe os direitos anteriormente percebidos, não já na razão de 50 cêntimos por cada cem quilogramas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem quilos de bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano de um país para o qual a administração tem um fim de progresso. Portugal possui nos mares dos Açores, segundo a asseveração de vários navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra Nova, o qual se diz descoberto por um português Gaspar Corte-Real. E deixa morrer ao desamparo essa grande indústria riquíssima, a pesca de um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as línguas constituem um artigo especial prezadíssimo dos gourmets; dos intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do fígado extrai-se o óleo importantíssimo para a indústria e para a medicina; os ovos empregam-se com grande vantagem na pesca da sardinha. Apesar de Portugal ser um país privilegiado para a pesca do bacalhau, pelo valor e pela perícia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal que se conhece para tratar o peixe, e do melhor sol que há para o secar, o nosso Governo despreza este importantíssimo ramo de actividade comercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola prática dos nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca também é para nós um sintoma da vitalidade nacional. Quando éramos fortes mandávamos cinquenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser proibidas, despovoando as águas de pequenos peixes insignificantes, que, pelo contrário, pesariam dois quilos e seriam um importante artigo alimentício, se tivéssemos estudado os nossos aparelhos de pesca e soubéssemos legislar sobre a dimensão permitida às malhas das redes. O Governo português nunca deu a este assunto, base de toda a exploração colonial, um só instante de atenção. O Parlamento nomeia em cada ano uma comissão de pescas, que ainda não serviu para mais nada senão para tributar o pescador. As espécies de peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura não tem sido objecto de maiores desvelos que a ictiologia: nem uma só medida tomada pelo Estado para repovoar as águas das nossas costas e dos nossos rios principais; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os aparelhos empregados na pesca. Assim, o pescador considera o Estado, que ele nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador. Na Póvoa de Varzim há um antigo quebra-mar destinado a formar um porto de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as instâncias feitas para este fim, têm sido inúteis. 152 Há cerca de seis anos, El-Rei, em pessoa, visitou a Póvoa acompanhado por um dos seus ministros, o Sr. Avelino, o qual em nome do soberano prometeu aos pescadores que ia ser concluído o paredão. Até hoje ainda se não acrescentou uma pedra àquele monumento único do desleixo nacional. E, todavia, o espírito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o Sr. Marquês de Sousa Holstein acaba de procurar ressuscitar com a sua eloquente e erudita conferência acerca da escola de Sagres, está ali ao pé desse paredão em ruínas. Há aí três mil homens que em cada dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemitério da freguesia. Morrem no mar, sob um céu de chumbo, estrangulados pela inclemência das vagas, à vista da terra, ao alcance das vozes de suas mulheres e de seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o quebra-mar de conclusão em projecto! Não há um que saiba ler. Habitam em terra um bairro infecto e miserável. Os cações escalados, destinados à alimentação no Inverno, secam pregados às portas interiores das casas. Cheiros de vermine, homens, mulheres e crianças dormem no mesmo quarto, numa promiscuidade horrorosa. A terra da pátria dá-lhes apenas um farol, que eles iluminam à sua custa, e um barco de salva-vidas, que eles mesmos tripulam. E é para isso que eles, desgraçados, quase mendigos, pedindo esmola em bandos durante o Inverno, pagam um imposto anual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo fisco! Imagine-se como eles lhe hão-de querer e como a hão-de amar, à querida terra da pátria! A única vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só homem para o recrutamento marítimo. Não há meio algum de os obrigar a fornecer um recruta à armada. Preferem morrer mil vezes a servir tais amos. E eis aí está o último capítulo, na província do Minho, da história, feita pelo Sr. Marquês de Sousa, da escola dos navegadores portugueses fundada em Sagres pelo infante D. Henrique! Como a administração das nossas colónias depende directamente da organização da nossa marinha, como a importância da nossa marinha depende da organização das nossas pescas, a Academia prestou à civilização da África um serviço verdadeiro, não organizando conferências, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil vezes mais importante: a de nomear o Sr. Brito Capelo, naturalista adjunto do Museu Zoológico, para ir estudar ao longo do nosso litoral a indústria da pesca e de expor os meios de a reorganizar (1). Contudo, a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é que aplaudiu como um notável benefício patriótico a iniciativa das conferências - um espectáculo de erudição, e não teve uma palavra de aplauso para a missão do Sr. Capelo - o primeiro passo para atacar o mal na sua verdadeira origem! Do estado verdadeiramente deplorável em que se acha a nossa força marítima pode-se ter uma ideia pela recente medida tomada pelo Governo de convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na folha oficial, todas as praças de infantaria ou de caçadores que para esse fim se apresentem! O Governo tem de um marinheiro esta compreensão: - que ele se fabrica por meio do abono de quatrocentos réis por dia dados a um soldado de caçadores! Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma escolha baseada na cor dos olhos ou na forma ___ (1) Brito Capelo faleceu pouco depois de nomeado para a comissão de que se trata. 154 do nariz, que razões podiam ter levado o Governo a alistar na armada de caçadores um dos seus recrutas! Suponhamos que estas razões deviam ser tiradas das condições em que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a luta com os terrenos escabrosos na vizinhança das senas. Ora, sendo assim, como querem sujeitar à vida sedentária do mar e à familiaridade das ondas esse montanhês, que nunca pegou num remo, que chegou das Alturas de Barroso, do Marão ou da serra da Estrela, e que sente as pernas enferrujadas e o pulmão oprimido desde que não anda mais de uma légua por dia trepando saudosamente às colinas que cercam o lugar do seu quartel? Outro facto não menos expressivo é o que há pouco tempo se deu com alguns guardas-marinhas do nosso conhecimento em estação em Luanda. Sabe-se que não há plantas dos nossos portos da África, cuja navegação se faz por meio de cartas inglesas. Os jovens marinheiros a que nos referimos, impelidos por esta vergonha da nossa marinha, quiseram levantar a planta do porto de Luanda. Empregaram todos os esforços para obter os necessários instrumentos, não puderam conseguir senão unicamente a oferta de um bote, único elemento de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr à disposição desses extravagantes. Eles compreenderam então que não tinham senão uma coisa que consagrar aos destinos da pátria; não era o talento, não era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saúde. E foram imolar o fígado à administração nacional para bordo do seu navio, como patos de engorda pregados pelos pés à respectiva capoeira. Quando os nossos oficiais têm conseguido arruinar completamente as suas vísceras na inanição oficial das nossas estações de África, voltam doentes à metrópole e concluem a missão civilizadora que o país lhes incumbiu tomando as águas alcalinas de Vidago. 155 As águas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar. Enquanto estas coisas se passam, os Ingleses, com um poder criador que faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada dia pretextos novos para intervirem com o seu protectorado humanitário nos negócios do interior africano, e dilatam a pouco e pouco a sua ocupação e o seu domínio manso sobre o nosso território. Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as autoridades portuguesas no interior da África não obstam ao tráfico dos escravos, que ainda ali vigora. Como é que nós respondemos à denúncia deste facto? Respondemos negando a asseveração do Sr. Cameron e fazendo protestos. Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não permitido, vejamos quem é o homem que nos acusa. Cameron é o segundo europeu, depois de Livingstone, que modernamente atravessou a África desde a costa oriental até à costa ocidental, levado por um intuito exclusivamente científico. Desta viagem, que durou quatro anos, trouxe o Sr. Cameron o projecto de ligar a costa do Oriente com a do Ocidente por meio da navegação fluvial, aproveitando as relações hidrográficas do rio Congo e do Zambeze, o primeiro dos quais desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado oposto, ao Sul de Moçambique. Durante esses quatro anos passados entre selvagens, o capitão Cameron parte de Bogamoyo, em frente de Zanzibar, passa em Rehenneco, atravessa o país de Ounianiembe, o país de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganica, o mercado de Niaugue, o estado de Urua, a Ponta da Lenha, desce as margens do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Luanda. Os companheiros de viagem que haviam saído de Inglaterra para o acompanharem - o 156 Dr. Dillon Moffat, sobrinho de Livingstone, o artilheiro Murphy, não podem segui-lo a mais do começo dessa longa e perigosa expedição. Adoecem sucessivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounianiembe aparecem-lhe os homens de Livingstone trazendo o cadáver do explorador que o precedera. Então, Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos, desistem de continuar essa imensa viagem, e regressam com o corpo de Livingstone a Zanzibar. Dillon morre no caminho. Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma clavina, seguido por uma escolta de negros, prossegue, caminhando através de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortífero, deixando atrás de si, marcado com a morte dos seus camaradas, cada um dos primeiros estádios da sua portentosa peregrinação. Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admitimos que saísse de Inglaterra com a educação comum de um simples tenente da armada britânica. Mas dizemos que uma viagem como a que ele fez, e nas condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um carácter. Um tal homem não mente. Nele a mentira seria a refutação de todos os princípios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas as leis da natureza humana. Nada mais lastimosamente ridículo do que a indignação patriótica de qualquer dos nossos políticos, chupando autoritariamente um cigarro nas salas do Grémio ou à porta da Casa Havanesa, bombardeando a atmosfera com balas de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo para nos informar do que se passa em África! O que Cameron disse acerca da escravatura africana na conferência feita em Londres foi o seguinte: "Cerca da linha de separação das bacias do Zambeze e do Congo fomos retardados no primeiro acampamento por 157 causa da caça aos escravos fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro dizendo-nos: Não partais; Kouaroumba vai chegar com os seus escravos. Depois do meio-dia chegou efectivamente Kouaroumba com uma fila de cinquenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa, trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam pelo menos a ruína e a destruição de quarenta ou cinquenta aldeias e a matança daqueles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram refugiar-se nos juncais para ali viverem como pudessem ou morrerem de fome. É para mim fora de dúvida que estas cinquenta ou sessenta escravas representam mais de 500 indivíduos mortos na defesa do seu lar ou acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham presas umas às outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente atadas. Quando elas afrouxavam na marcha, batiam-lhes desapiedadamente. Os traficantes portugueses, negros ou mestiços, são muito brutais; os árabes, pelo contrário, tratam geralmente bem os escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da África não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por vários motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa." Estas palavras são perfeitamente explícitas e terminantes. Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da África o tráfico de escravos. Enquanto se não provar manifestamente o contrário esta é que é a verdade, verdade referida pelo Sr. Cameron, já anteriormente enunciada pelo viajante francês, o Sr. Jocolliot, confirmada pelo Sr. Young, explorador inglês, e ultimamente, mesmo em Lisboa, em uma carta publicada no Progresso pelo Sr. Pinheiro Baião, que esteve por algum tempo em África empregado do Estado. 158 Para factos desta ordem os protestos de toda a Imprensa (1) e de todo o Parlamento, por mais unânimes que eles sejam, não têm a natureza de uma refutação nem o carácter de uma resposta, são uma pura evasiva compacta. A primeira notícia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de uma sábia exposição feita à primeira classe da Academia das Ciências pelo falecido naturalista o Dr. Bernardino António Gomes. O resultado dessa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglês à civilização universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente Cameron, agradecendo-lhe em nome da Ciência e em nome de Portugal a contribuição valiosíssima com que ele tinha cooperado para o progresso da sociedade humana. O Governo, deliberando tomar oficialmente conhecimento dos factos referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta a dar-lhe: - nomear uma comissão de inquérito que sindicasse rigorosamente da cumplicidade dos funcionários portugueses no menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão. Enquanto à câmara dos senhores deputados, parece-nos que ela teria procedido, pelo lado científico com mais lógica, e pelo lado patriótico com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido o exemplo que lhe fora dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao Sr. Cameron as informações que este lhe prestara. Desse modo, teria a câmara dos senhores deputados evitado receber do Times a mais dura e humilhante lição que por via da pena de um jornalista se pode infligir a uma sociedade. O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos sociais sempre que ele nos leva a trair a verdade. Manter na opinião pública a mentira é violar o ___ (1) Um único periódico, de que tenhamos notícia, o Século, de Coimbra, tomou a defesa do capitão Cameron em um artigo poderosamente escrito pelo Sr. Correia Barata. 159 progresso da humanidade pelo modo mais sacrílego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a política em Portugal deve-se principalmente à fraqueza dissolvente dos caracteres públicos em testemunhar a verdade. Todo aquele que por meio da sua palavra ou por meio da sua pena não tem o preciso valor para enunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilização e um perigoso inimigo do género humano. Não queremos para a nossa consciência de escritor o remorso dessa voluntária culpa, e é por isso que dizemos aos senhores deputados: A verdade, meus senhores, é o que vos disse o Times: "A questão, como afirma o referido periódico, não é se Portugal prestou serviços à causa do progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na sua linguagem tratando com uma nação aliada e amiga; a questão é se os factos são ou não são como recentes viajantes afirmaram. Que o comércio da escravatura na África Central seja feito mui largamente por negociantes portugueses e sob a protecção da bandeira portuguesa é acusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação fictícia ou real, não por patrióticas reminiscências, nem por uma referência a cumprimentos diplomáticos, mas sim deixando-se de permitir que haja matéria para que a acusação continue. Sabemos quanto Portugal tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos também o pouco resultado que as suas enérgicas declarações produziram. " Os quatro milhões de vozes de que o País inteiro pode dispor, a protestarem todas perante o Universo, não poderão convencer um só homem de que a verdade seja diferente do que é. A declamação neste ponto é completamente inútil com outro qualquer fim que não seja um puro exercício de eloquência nacional. Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilização. Vós contribuís apenas para o Pecúlio de Oradores, do Sr. João Félix. 160 161 XXIII ENTRE A ESCOLA POLITÉCNICA E O OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO POR TELÉFONO Janeiro, 1878. Por ocasião da visita de El-Rei à Escola Politécnica funcionou o teléfono entre uma das salas da Escola e o observatório da Tapada. Aproximando-se do novo aparelho transmissor dos sons, dizem os jornais que Sua Majestade ouvira - um solo de cornetim! Houve primeiro dúvida sobre se o fio ligava a Escola Politécnica com o Observatório Astronómico ou se a ligava com a filarmónica União e Capricho. O solo era efectivamente executado pelo Observatório. Enquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a arte musical se ocupasse em determinar alguma paralaxe. A única coisa que estranhamos é que o Observatório não observasse entre as suas peças de música alguma coisa mais interessante para transmitir a El-Rei do que o próprio hino do mesmo augusto senhor. Que o Observatório cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de acordo! Mas que ele cultive igualmente a especialidade do hino parece-nos um abuso que o príncipe não levará a bem. Reflectiu por acaso o Observatório no que é o hino para um cérebro coroado? Cremos que o Observatório não 162 desceu ainda com as suas conjecturas ao fundo desse abismo. É honoroso. Para os cérebros coroados o hino equivale a uma enfermidade monstruosa. O Observatório faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é verdade? Pois ter hino é pior. É ter constantemente durante toda a vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas vilas, nas aldeias, sobre as próprias águas do mar, sempre, por toda a parte, como doença crónica, como afecção incurável do nervo acústico, a audição do mesmo trecho de música! - O que deve levar paulatinamente à loucura. Que o Observatório se compadeça do infeliz príncipe condenado a tão incomportável flagelo! O Observatório há-de ter conhecimento das contrariedades que amarguram a existência humana: o Observatório há-de ter faltas de dinheiro, há-de ter constipações, há-de ter dores de dentes, há-de ter calos. O príncipe tem tudo isto, e demais a mais também tem hino. Poupemo-lo ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal às regiões da ciência! Inflijamos-lhe o solo, visto que não há outro remédio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hino! Sejamos terríveis, mas sejamos justos! A providência colocou-nos na mão o cornetim. O monarca presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos desse instrumento poderoso e dessa orelha inocente! Compenetremo-nos da tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos cornetistas, mas somos também astrónomos... Toquemos o Pirolito! E a posteridade nos abençoará! 163 XXIV OS REGULAMENTOS DISCIPLINARES DA UNIVERSIDADE - ESCOLA DE POLTRÕES Abril, 1878. Os regulamentos disciplinares da Universidade de Coimbra têm dado ultimamente em resultado riscar um avultado número de estudantes pelos seguintes delitos, cada um dos quais foi objecto de um processo especial: 11 Rir atrás da procissão dos Passos¨ 21 Ser testemunha de um duelo abortado, proposto a um professor por um viajante; 31 Não ter dado pateada a um lente; 41 Parecer constrangido a dar lição; 51 Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. Os alunos condenados pela perpetração dos delitos 1, 2, 3 e 4 apelaram para o Poder Moderador, o qual lhes comutou a pena de expulsão temporária em alguns dias de cadeia. Procedendo dessa forma, o Poder Moderador não tomou em consideração a necessidade de fazer proceder à revisão da legislação académica. O Poder teve apenas em vista o desgosto infligido pela sanção dos regulamentos universitários às famílias dos alunos condenados: - No 164 que o Poder mostrou ter um coração de excelente rapaz, aliado a um cérebro de legislador medíocre. Está pendente da confirmação régia, segundo nos consta, a pena imposta aos réus do crime n1 5, julgados já segundo o direito comum e absolvidos pelos tribunais civis. Nesta conjuntura, perguntamos: É admissível que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamento de dois tribunais paralelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem julgados em dois foros distintos, recebendo duas punições em vez de uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente tidos por inocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem contrárias? Responder-nos-ão que o tribunal académico julga de circunstâncias especiais que não são submetidas à apreciação dos tribunais ordinários? Mas nesse caso o tribunal académico com relação ao crime de que se trata toma o carácter de um tribunal escolar, e à Universidade cabe apenas decidir se o facto de sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição. Como tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que, quando se trata de algumas bofetadas ou de alguns pontapés, o desonrado não é propriamente quem o dá, é por via de regra quem os recebe. Se a Universidade insiste em julgar noutro ponto de vista as questões desta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de cobardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade que ainda possa haver na mocidade portuguesa. Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza física e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, com risco da sua própria vida, a uma ofensa pessoal, é um homem corrompido, é um degenerado, não tem o sentimento do respeito devido 165 à dignidade da sua espécie, e, atreito às paixões mesquinhas, contrairá manhas de réptil. Se a Universidade tem o intento de educar os seus bacharéis para sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem, prosseguindo o velho sistema, tendo por fim levar o estudante que queira concluir honrosamente os seus estudos a proceder diante das ameaças da força alheia por um destes dois modos: fugindo ou apanhando. Se, porém, a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros cidadãos, a Universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para sempre da instrução de processos ridiculamente pueris, requerendo das cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de atrofiar no coração da mocidade com um regime fradesco os sentimentos naturais de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da velha troça académica por meio da instituição de exercícios viris, próprios de uma mocidade honesta e forte: - a ginástica obrigatória, a escola de tiro, a esgrima, a luta, o insubstituível cricket. 166 167 XXV EDUCAÇÃO DAS MENINAS - PRENDAS DE MÃOS Novembro, 1882. Entre os mimosos e ricos brindes oferecidos a Leopoldo de Carvalho na noite da sua festa artística no teatro do Ginásio, lemos no Diário de Noticias que sobressaíam em primeira linha dois formosíssimos quadros, devidos à perícia de uma jovem menina da nossa melhor sociedade, e feitos de escamas de corvina. Folgamos muito com isso. Em todas as exposições de quadros celebradas nos principais centros artísticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do século, se notava com lástima geral que o simples óleo, a tinta de aguarela, o lápis e o esfuminho eram elementos insuficientíssimos para com eles se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigências da estética contemporânea. A jovem admiradora de Leopoldo, lançando mão genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente à tela, vem¨preencher uma lacuna imensa nos recursos até hoje tão estreitos das artes do desenho. Glória eterna a tão benéfica e Prestante menina, honra da pátria e do peixe fresco, alegria de seus carinhosos pais, e satisfação completa de suas boas mestras! Nada mais lisonjeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de processo empregados pelos artistas 168 em luta com a invencível perfeição, do que ver essa jovem compatriota, inspirada do alto, apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a faca de amanhar o peixe, cair sobre a corvina, empolgá-la pelo rabo, e escamar em seguida duas obras-primas sobre os lauréis do festejado actor Leopoldo! 169 XXVI A DECADÊNCIA DA RAÇA PELOS VÍCIOS DA EDUCAÇÃO Maio, 1879. Um distinto professor, o Sr. Albino Giraldes, publicou recentemente em Coimbra, numa brochura de poucas páginas, a mais lúcida exposição da teoria zoológica de Darwin. Referindo-se aos agentes da selecção artificial tendo por efeito na sociedade o enfraquecimento e a degeneração da nossa espécie, o Sr. Albino Giraldes, à semelhança dos escritores que o precederam no estudo deste assunto (Haeckel), cita de entre os agentes aludidos as contínuas guerras e o estado a que a diplomacia chama a paz armada. "Os homens alistados nos exércitos permanentes", diz o Sr. Giraldes, "são precisamente os mais válidos e robustos da população, ao passo que os mais débeis e achacados são todos por necessidade e por lei isentos do recrutamento. Assim, o mancebo sadio e vigoroso é destinado ao açougue das batalhas, é carne para os canhões, e morre por isso sem descendência; ao mesmo tempo que o refugo da população, os indivíduos doentes, os surdos-mudos, os epilépticos, os enfezados, são exactamente os que constituem família, e, reproduzindo-se, transmitem aos descendentes os seus achaques e debilidades. Tais são, além de outros, os resultados do militarismo." 170 A influência do militarismo como agente selectivo, tendo por efeito o enfraquecimento e a degeneração da espécie, é seguramente de uma grande importância, mas parece-nos insuficiente para explicar em Portugal a deplorável decadência da raça. Na Alemanha, na Inglaterra, em França, o militarismo existe como na sociedade portuguesa, tendo sido naqueles países modernamente mais frequente, mais desastrosa e mais profunda a devastação das guérras. E, todavia, a debilidade, o enfraquecimento dos cérebros, a decadência intelectual, é muito sensível entre nós outros, e não o é em França, na Alemanha ou na Inglaterra. Se a teoria da evolução biológica, segundo Darwin, não é uma quimera com aplicação ao princípio científico do desenvolvimento das nações, e o Sr. Bagehot, entre outros, demonstrou com evidência que não é, nós temos de achar dentro dos princípios da selecção e da hereditariedade, além do militarismo, algum outro agente perturbador do nosso progresso. A influência do meio geográfico não pode ser considerada como factor no problema da nossa inferioridade mental com relação a outros povos europeus, porque desde o século XVI até hoje não houve alterações mesológicas nas condições da nossa existência, e, todavia, Portugal, que há mais de duzentos anos é completamente infecundo no meio do movimento científico do mundo moderno, era ainda no século XV e no século XVI um dos primeiros e dos mais poderosos contribuintes da civilização. Nos primeiros séculos da monarquia a nossa agricultura era florescentíssima. Éramos, no tempo de D. Fernando, um dos primeiros países exportadores de azeite, de frutas secas, de peixe salgado. Tínhamos nas grandes pescas do bacalhau uma grande fonte de riqueza e uma grande escola incomparável de marinheiros. A história do grande pinhal de Leiria é dos mais notáveis exemplos da 171 sábia atenção prestada à silvicultura em tempos ainda anteriores ao reinado de D. Dinis. A população crescia, apesar das guerras, e o número dos habitantes, que no tempo de Filipe II era de pouco mais de um milhão, tinha chegado a cerca de três milhões no tempo de D. João II. Durante a Idade Média, a instituição popular dos municípios e das comunas contrabalançava os privilégios da nobreza e do clero, e opunha uma barreira inexpugnável ao tripúdio dos reis sobre os foros do povo e à imposição do jugo feudal. A índole popular resplandecia pela tolerância religiosa, pelo amor da liberdade, pela grandeza de ânimo, pela delicadeza poética. Na literatura e nas ciências dávamos a lei aos espíritos. A Universidade de Coimbra, justamente célebre então, era frequentada por estrangeiros, que vinham dos países mais cultos educar-se em Portugal. Criávamos a geografia moderna nessa portentosa escola de Sagres, a grande academia do infante D. Henrique, a qual produziu Colombo, Magalhães, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama. Tínhamos letrados como André de Resende, Diogo de Teive, Diogo de Gouveia, mestre de Montaigne, Sanches, precursor do positivismo, e Damião de Góis, o amigo de Lutero e de Erasmo. Tínhamos poetas que criavam uma literatura nova, como Luís de Camões, Gil Vicente, Ferreira e Sá de Miranda. Tínhamos uma arte que evocou do mármore o Convento de Cristo, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, três expressões monumentais e supremas da beleza imortal. As causas da formação das raças são o meio, a hereditariedade e a selecção. Se o meio físico - o clima, a configuração do solo, as produções da terra, o aspecto da paisagem - foi bastante benéfico para determinar e proteger a criação e o desenvolvimento de uma raça tão forte, tão inteligente, e tão viva como a raça portuguesa no século XV, não tendo sido esse meio perturbado desde então até hoje por nenhuma revolução cósmica, é à hereditariedade e à selecção que 172 devemos perguntar pelas causas do abastardamento que nos precipitou de decadência em decadência durante os três últimos séculos, e nos reduziu à imobilidade em que nos encontramos hoje. Uma das causas da variação nos organismos, o que é o mesmo que dizer um dos agentes da selecção, é o hábito e o exercício. A hereditariedade fixa as modificações adquiridas de indivíduo para indivíduo, de ascendente para descendente. A acção contínua do exercício e do hábito modifica, porém, os efeitos da hereditariedade, tornando os órgãos cada vez mais divergentes entre si, desenvolvendo uns e atrofiando outros, pela razão fisiológica de que a seiva reparadora da força se fixa de preferência na sede da maior actividade. Darwin observou que na ilha da Madeira há uns coleópteros quase desprovidos de asas, ao passo que outros têm asas extremamente vigorosas. Estes dois fenómenos procedem da mesma causa - o vento do mar. Diante dessa força da natureza os insectos divergem de resolução. Uns acobardam-se, desistem de combater e escondem-se ao abrigo das plantas até que o vento cesse. Outros arriscam-se a serem arrebatados pelo vento, debatem-se, resistem, lutam. Estes últimos produziram uma raça de voadores atléticos e vitoriosos; os outros produziram gerações de coleópteros sedentários, moles, desasados. O que se dá com os insectos da ilha da Madeira, perante o vento do mar, dá-se com os povos na luta pela vida no meio do conflito das contrariedades sociais. Os que cedem desasam-se. Foi o que nos sucedeu. A história da nossa decadência oferece a mais perfeita confirmação das leis de Darwin. As nobres faculdades que fizeram de nós um povo exemplar até o século XV atrofiam-se até darem a degeneração pelo exercicio e pelo 173 hábito, pela hereditariedade e pela selecção artificial. O militarismo seria insuficiente para explicar uma transformação tão profunda como aquela por que passamos. Citaremos algumas outras causas. A Inquisição, fazendo da delação uma virtude cristã e da hipocrisia uma necessidade social, obriga os indivíduos pelo instinto da conservação a dissimular, a atraiçoar, a mentir. Os caracteres desenvolvem-se a pouco e pouco no sentido dos defeitos em que se exercem. O terror transmitido de geração em geração cria a deformidade moral a que podemos chamar uma pusilanimidade orgânica. A expulsão dos judeus e dos mouros e a perseguição dos cristãos-novos não só paralisa o comércio e a indústria, mas elimina da comunidade social os indivíduos mais operosos e mais úteis. A confissão tornada obrigatória pelo Concílio de Trento e decretada como indispensável à salvação das almas, cria o director espiritual, introduz o padre na família, ferindo-a por esse modo no pacto do amor, que é a base da sociedade conjugal. O inquisidor sistematiza a traição na ordem social; o confessor promove-a na ordem doméstica. Esmagada a arte nacional, emudecido o génio do povo, monopolizados o ensino, a ciência e a filosofia pelas ordens religiosas, o celibato eclesiástico esteriliza o princípio da hereditariedade intelectual, destrói a orientação dos cérebros. E enquanto o desumano e monstruoso egoísmo monástico acumula nas livrarias dos conventos uma literatura artificial, sem tradições nacionais, sem raízes históricas, de um maneirismo beato e grotesco, cheio de sofisticações de sacristia, sem virilidade, sem sexo, num estilo delambido até a imbecilidade - fora dos conventos propagam-se os néscios. O jesuitismo, impelindo para a derrota de África D. Sebastião, destrói em Alcácer Quibir, na flor dos anos, sem descendência, os representantes mais vigorosos da hombridade nacional. 174 A monarquia aristocrática, apoiando-se na nobreza com os seus morgados, vinculando a terra, monopolizando a propriedade, impede a formação da família burguesa, e faz do povo uma plebe servil, uma criadagem vilã. Estas causas, que determinaram biologicamente, fatalmente, a extrema decadência da nossa raça, desapareceram, mas os seus efeitos permanecerão enquanto novas influências não vierem excitar a nossa actividade, produzindo o progresso pela sobrepujança dos indivíduos mais fortes, mais enérgicos e mais inúteis. A sociedade portuguesa, tal como ela está presentemente organizada, não actua, porém, sobre os seus membros no sentido da selecção, tendo por efeito o progresso da raça. O nosso meio actua sobre nós em sentido contrário - no sentido da regressão ao estado selvagem. O Sr. Horácio Ferrari, redactor de uma interessante revista publicada no Porto e intitulada O Positivismo, demonstrou cientificamente essa verdade. "A espécie humana associada", diz o Sr. Ferrari, "está sujeita a três ordens de causas destruidoras, umas que afectam directamente o indivíduo, outras o estado social. É certo em sociologia como é em biologia, que uma raça civilizada decai e retrograda para o estado selvagem sempre que as condições sociais tendem a destruir os seus membros mais disciplinados, mais acomodados por seus hábitos regulares de conduta à vida civilizada." E depois de ter provado, até à saciedade, que esses princípios assentam em bases perfeitamente científicas, o Sr. Ferrari conclui por esta lei: - Uma nação decai rapidamente e tende a extinguir-se sempre que para os diferentes cargos, públicos ou particulares, sejam preferidos os individuos menos capazes de os exercer. A sociedade portuguesa está, desde a revolução liberal, na decadência progressiva determinada pela lei que o Sr. Ferrari enunciou. 175 Os cargos públicos em Portugal foram distribuídos em 1836, como presa de guerra, entre os companheiros mais valorosos de D. Pedro IV. Nos primeiros lugares das repartições do Estado tomaram assento os primeiros soldados do cerco do Porto. Nas alfândegas, nos tribunais, nas escolas, na Universidade, os cidadãos investidos nos empregos mais rendosos exibiam como títulos do seu direito e da sua capacidade as cicatrizes dos ferimentos recebidos no fogo, os galões do uniforme de guerra, a patrona rebentada pelo peso do cartuchame da ordem, e a baioneta suspensa ainda no boldrié de campanha. E os serviços públicos ficaram dirigidos pelos batalhões dos Voluntários da Rainha. Era o regime dos bravos. Depois, à medida que esses funcionários se extinguiam, os cargos devolutos foram sucessivamente confiados aos vencedores em outras companhas - as campanhas eleitorais. É o regime dos beleguins de eleições. O valor intelectual está de parte. Ora como é da natureza biológica de todos os organismos, quer num indivíduo quer numa sociedade, que a seiva da força se fixa na sede da maior actividade, o resultado das práticas a que nos referimos é que o valor intelectual diminui e definha, ao passo que o poder da intriga aumenta e prospera. Com o abastardamento da inteligência deperecem todas as nobres faculdades do homem: a tenacidade no trabalho, a firmeza no dever, o respeito da verdade, a inteireza do carácter, a honra, o desinteresse, a coragem. Com o hábito da intriga desenvolvem-se todas as fraquezas que são com ela solidárias; o espírito da aventura traz o espírito da vadiagem; vem a preguiça; vem o amor da vida repousada e farta, a avidez do lucro, o egoísmo, a pusilanimidade, a adulação, a mentira, a doblez, a cobardia e, com a ausência completa do senso moral, o desequilíbrio do cérebro, a inépcia e a imbecilidade. 176 Tal é o modo como o princípio da selecção artificial actua na sociedade portuguesa sobre o desenvolvimento da espécie. Em Portugal, a luta pela vida destrói a altivez moral e dá a sobrevivência à ignorância bajuladora e servil. Há, porém, um facto extremamente consolador. Entre os agentes fisiológicos que determinam em um povo a direcção do seu destino figura o instinto da imitação, peculiar das espécies superiores na série zoológica, e principalmente da espécie humana. Este instinto é um elemento precioso do progresso, porque é a imitação que torna fecundo o exemplo. O poder do exemplo é de tal modo enérgico e decisivo que só o exemplo basta, actuando na virtude prolífica da imitação, para modificar e transformar em poucos anos o carácter de um país. O penetrante escritor inglês, a quem já nos referimos nestas páginas, Bagehot, recentemente falecido, dizia que a influência pessoal de Lorde Palmerstorf fizera por alguns anos da Inglaterra uma sociedade patusca. Há em todos os países um certo número de indivíduos que pela sua natureza veemente, expansiva, aparatosa, constituem os carácteres típicos, predominantes no seu meio. São os imitados. A massa geral do público é essencialmente imitadora. Em Portugal, os indivíduos chamados aos altos cargos do País dissemos já que são os menos próprios para produzirem pelo exemplo uma influência salutar. São tipos defeituosos, de uma acção funesta no desenvolvimento do carácter público. Os efeitos dessa influência manifestam-se em longas séries de fenómenos mórbidos de carácter contagioso. Temos, por exemplo, nos últimos anos: a crise bancária de 1867 em Lisboa e no Porto; o alcance na Padaria Militar; o roubo no Correio Geral; o roubo do Banco Hipotecário; 177 o roubo na Caixa de Crédito; o roubo na Caixa Filial do Banco União; o roubo no Banco Ultramarino; a sindicância à Penitenciária; a sindicância à Alfândega do Porto; os roubos e as irregularidades de serviço, ultimamente revelados pelo próprio director, na Alfândega de Lisboa; os suicídios dos empregados alcançados (passim); as evasões e homízios de empregados com dinheiros públicos; as ordens surdas sobre os cofres dos ministérios, facto referido em todas as discussões dos orçamentos do Estado; as burlas sucessivas nos fornecimentos do Exército, nas compras de armamento, nas compras de navios, etc. No entanto, fora das regiões oficiais, manifestam-se em cada dia personalidades poderosas, caracteres exemplares, destinados a tomarem-se outros tantos centros de imitação. Entre esses caracteres típicos, de um relevo preponderante, notam-se afinidades de ideias, analogias de convicções, linhas de uma semelhança comum que aproximarão de um só tipo único os grupos influenciados pelo núcleo parcial de cada exemplo. É assim que está destinada a operar-se a revolução portuguesa. O tipo oficial cairá diante do tipo dissidente, e as nomeações do Estado cederão progressivamente o passo na direcção do País às preferências da estima pública. Este resultado anuncia-se já de um modo indubitável. No romance, na poesia, na crítica, na história, na sistematização filosófica, na vulgarização científica, nos clubes, na Imprensa, no professorado, o movimento dirigente dos espiritos é manifestamente adverso e hostil ao espírito das instituições vigentes. Os homens que pela sua actividade mental estão determinando esse movimento revolucionário na arte e na ciência não são unicamente os homens mais instruídos, são também os cidadãos mais probos, os mais dignos. São esses homens que, fora dos parlamentos, dispondo apenas desses dois meios de acção - a Imprensa e o Ensino - estão lentamente, surdamente, imperceptivelmente, realizando esta obra imensa: a reconstituição infalível do caracter de um povo pela influência dominante dos seus caracteres superiores. A luta está já travada, e a vitória está prometida àqueles que dentro da esfera da sua actividade, qualquer que ela seja, souberem cumprir estes dois deveres de todo o homem trabalhador e de todo o homem honesto: - espalhar lição e fundar exemplo. 179 XXVII A CRÍTICA DE UMA SENHORA ÀS TEORIAS DAS FARPAS SOBRE A EDUCAÇÃO DAS MULHERES Janeiro, 1878. Com este título - Ao Sr. Ramalho Ortigão - publicou o Diário da Manhã o folhetim seguinte: Os exames no Liceu Nacional - Os fins da educação - Um programa de ensino para o sexo feminino - Como se prepara a emancipação das mulheres - Duas catástrofes: o estado da literatura feminina e o estado da cozinha nacional - Grito aflitivo do País: menos odes e mais caldo! Termina assim o sumário do último número das Farpas. Qual de nós deixaria de ler com a máxima atenção um artigo escrito pelo Sr. Ramalho, sobre assuntos de tanto interesse para o nosso sexo! Nenhuma, decerto. E para que se não diga com verdade que o grito aflitivo do País, do qual o Sr. Ramalho se fez órgão, pedindo-nos caldo, não foi ouvido por uma só mulher portuguesa, que, condoída, o socorresse, venho por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só caldo, mas também luz, que o alumie nas suas investigações acerca de um assunto, que é realmente grave - a dispepsia nacional, que S. Ex0 atribui à nossa ignorância culinária, fazendo assim pesar sobre nós tão tremenda responsabilidade. Se o assunto de que se trata não fosse realmente grave, contentar-nos-íamos com o prazer que nos dá sempre a leitura dos escritos do Sr. Ramalho, pela elegância do seu estilo, e 180 finura do seu espírito, e apenas diríamos, na nossa linguagem de cozinheira: É pena que os escritos do Sr. Ramalho não sejam mais suculentos! São como os caldos feitos pelos cozinheiros franceses, de aparência magnífica, depurados até à transparência, muito aromatizados... mas sem substância. Quer-nos, porém, parecer, apesar da ironia com que o Sr. Ramalho fala sempre de nós, que não tem razão para nos querer mal; e que como filho, esposo e irmão de senhoras portuguesas, e por isso quase nosso irmão, deseja com certeza a nossa felicidade e se prontificaria da melhor vontade a fazer-nos um favor se lho pedíssemos. Ouça-me pois. Não ensine à Sr0 Jerónima, nem a mulher nenhuma portuguesa, como se faz esse alambicado caldo francês, tão purificado, que por fim, como o próprio Sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor à sua pátria, anime-nos e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os clássicos caldos portugueses, suculentos e compactos com os faziam as nossas avós e como nós todas ainda hoje os sabemos fazer. Se o principal agente do temperamento de um povo, do seu carácter e da formação das suas ideias é, como S. Ex0 diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi comendo esses caldos e quase só com eles que os enérgicos e valentes portugueses contiveram sempre em respeito o poder de Castela, e que na África, e na Ásia praticaram acções de tão prodigioso valor. E, descendo à história dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos lidadores da epopeia da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua heróica energia, e sua valorosa audácia, sem que o estômago se incomodasse com a dispepsia nacional. É só com caldo e com broa que todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que suportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, os mais rudes trabalhos; e, contudo, não sofrem de dispepsia. Será por terem mulheres muito instruidas, ou porque o caldo que comem é preparado por cozinheiros de 5000 francos? Deve ser por uma destas razões, visto que é o Sr. Ramalho quem no-lo afirma. A dispepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quase privativa dos homens das classes elevadas - e quer que lhe digamos porquê? Porque eles têm com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos quinze anos, quando 181 os rapazes ingleses e alemães fazem consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos atléticos, e todo o seu orgulho em serem vencedores numa corrida ou numa regata, os portugueses vão descansar as lides do estudo nos bancos dos botequins e das tabernas, onde é considerado herói aquele que come e bebe mais brutalmente, e como deus o que engole sucessivamente vinte e um cálices de licor ou conhaque, o que na pitoresca fraseologia desses senhores se chama dar uma salva real! Desculpa-os, porém, o axioma do nosso código de educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem sério. Conhece o Sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque passam os rapazes desde que se emancipam da tutela materna, até que chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar desses perigos, e de lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de família, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o braço forte que lhes seja amparo, e terão o estômago são como em crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando ele não seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestígios de gordura. Faça isso que lhe pedimos, e todos nós bendiremos o seu nome, pois deste modo terá prestado um importantíssimo serviço ao seu país. O seu programa para a educação das mulheres parece-nos excelente para França, Inglaterra e outros países onde as meninas são educadas nos colégios, longe da família; mas aqui, onde em geral as crianças que os frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser boas ménagères, já que o Sr. Ramalho gosta de francesismos, recebemo-la nós todas com o exemplo e lição de nossas mães. Em Portugal, onde todo o serviço doméstico é geralmente feito em casa, todas nós sabemos como se lava, como se engoma, como se cozinha, como se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não fazem esses serviços sabem como eles são feitos, pois desde criança os viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é diferençar os diferentes géneros de mobília e o seu estilo característico nas épocas mais notáveis da arte ornamental, etc., etc.; mas enquanto considerarmos, como até agora, a vontade e o gosto do dono da casa, a suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos fala, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados de nossos maridos. 182 Enquanto à nossa educação moral, estamos convencidas que em país nenhum as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais sóbrias e económicas, mais submissas à vontade do marido que nós, e toda a eloquência do Sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa convicção. Em França e em Inglaterra há muitas mulheres - por profissão - enfermeiras, aqui não as há senão nos hospitais, e nem se lhes sente a falta, porque em toda a casa onde há mulheres, quer ela seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, há uma enfermeira solícita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacila ante os horrores do contágio, que tantas vezes aniquila o ânimo de homens enérgicos e audaciosos. Para sabermos fazer prodígios de economia não precisamos de nos alistar numa escola inglesa, e, se o não soubéssemos, a primeira mulher do povo que interrogássemos no-lo ensinaria. Também em Portugal se pode sustentar uma família com 1$600 réis por semana, mas nessa família - o chefe, que trabalha do nascer ao pôr do Sol, sustenta-se comendo três tigelas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas, e 40 réis de broa por dia: total, 90 réis. Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquência, de que este alimento é muito suficiente para conservar robustas as forças vitais, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma casa deixará de ser uma loba para se transformar numa burra. Mas se considera como ideal da perfeiçåo na mulher ser ela o braço forte e escudo da familia, também lhe podemos aqui apontar numerosos exemplos dessas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, enquanto os maridos ficam em casa cozinhando: já vê que para qualquer de nós realizar o seu ideal basta casar em Avintes. A educação intelectual das mulheres, quando elas se não dediquem a ser mestras, pode, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento necessário, as lições dos homens de quem focem esposas. Assim, reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos conhecimentos literários, ser-lhes-á mais fácil ter por ele esse respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever da esposa. 183 Enquanto à emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras inglesas - nós, menos profundas pensadoras, não o queremos. Entendemos que a natureza, que nos obriga a soferer cruciantes dores físicas para atingirmos o apogeu da nossa glória - o ser mãe -, nos ensina a todas que a nossa missão na Terra é saber sofrer e amar, por isso beijamos com os olhos rasos de lágrimas de alegria o filho que acaba de nos fazer sofrer as dores da maternidade, e abençoamos reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa mão é a de um homem, em quem, passados os entusiasmos da paixão, encontramos as sólidas virtudes que apreciamos e respeitamos. Regenerados os costumes dos homens, a família portuguesa, constituída como até agora, poderia ser apresentada como modelo às nações mais civilizadas da Europa. Filhos ambos da mesma terra, e quase da mesma idade, considero-me sua irmã, e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua inteligência, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do País, essa sua robustez física, e a sua grande cabeça na qual o chapéu de Thiers ou de Bismarck assentaria perfeitamente, dedicar-me-ia a escrever livros que fossem mais úteis do que agradáveis, e deixaria aos palhaços dos circos o trabalho de fazer rir o público. Em paga de todos os favores que lhe peço, prometo fazer-lhe só um, mas esse importantíssimo. Não dizer a nenhuma senhora portuguesa com que caldo cresceu e medrou o Sr. Ramalho, senão julgá-lo-iam tão criminoso como quem maldiz dos seus. Sua Irmã de Caridade Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que efectivamente é escrito por uma senhora. Neste ponto de vista ele é para nós de um valor inestimável. Esse folhetim é a mulher. Não somos já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a retratar. É ela mesma que vem reproduzir-se nestas páginas como num espelho. Esta imagem directa do vivo 184 constitui a mais preciosa aquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a fantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um lápis suspeito de inabilidade ou de má fé. Vêem que é ela mesma que aparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua prosa como através de um vidro. Queiram aproximar-se, meus senhores! Queiram aproximar-se! Espreitem por este buraco e vejam-a! Aí a têm! É assim que ela é. Não há artifício, não há preparo, não há processo nenhum de estilo para a fazer melhor ou pior do que a realidade mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, não é Courbert que a pinta, não é Offenbach que a põe em música. É ela mesma, ela em pessoa, que corre uma cortina e aparece. O que estais contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos imprimimos ao nosso tempo, é o fruto legítimo e autêntico da filosofia, da literatura, da arte, da corrente geral de ideias que temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como no-la fizeram os contactos da nossa convivência - a escola, o jornal, o livro. Revede-vos na vossa obra! Esse curioso ente representa a soma de vinte anos de poesia lírica e de pó de arroz, de retórica e de chic, de doce de ovos e de cuia, de recitação ao piano e de tacões Luís XV, de colégio nacional e de cold-crenni, de figurino e de água morna. Glorioso conjunto. Vede que lucidez de razão! Que firmeza de critério! Que contensão de raciocínio! Como se adivinha bem no poder dessas faculdades intelectuais a circulação fácil e viva, através da rede dos nervos encefálicos, de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão vigorosamente se afirma no curioso trecho literário que acabais de ler presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o músculo mais racionalmente exercitado por uma sábia higiene. Pela sua forte maneira de pensar podeis ajuizar 185 com segurança da sua forte maneira de viver. Vede e aplaudi! Aplaudi-a a ela pelo que aprendeu; aplaudi-vos a vós mesmos pelo que lhe ensinastes. Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quais ela se diz intérprete, dirige-se às Farpas na pessoa do seu autor. O que são as Farpas com relação às mulheres? As Farpas são a publicação periódica - única em Portugal - que em artigos consecutivos desde a sua aparição até hoje se tem constantemente consagrado por meio dos seus processos de crítica à reconstituição dos costumes e à reorganização da família segundo o critério por que se dirigem as sociedades modernas; elas têm combatido violentamente o divórcio; têm despojado o adultério da clâmide dramática em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o flagelarem pelo ridículo na sua torpeza nua; têm honrado o casamento indissolúvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a dignidade humana; têm fulminado o celibato como um aleijão fisiológico e social; têm dado como base à emancipação da mulher a instrução prática, tão deficiente, e a alta cultura do espírito, tão negligentemente descurada na antiga educação; têm-lhe ensinado que é aprendendo desveladamente a ser útil que ela descobrirá o segredo de ser verdadeiramente e eternamente amada; têm solicitado a sua colaboração no estudo dos modernos problemas sociais como factor indispensável à fixação do nosso destino; têm pedido instantemente para ela a fundação de novas escolas de ensino superior; têm-lhe falado, como velhas amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da cozinha, do jardim, da adega, do armário das roupas brancas, do valor dos alimentos, da ordem, da economia doméstica, etc.; têm-lhe feito presente de uma infinidade de teorias, de noções, de projectos, de sistemas, de programas completos, imperfeitamente concebidos - é claro - mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma das publicações periódicas que precederam esta se dirigiu jamais às mulheres, a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade suspeita, ou versos de uma honestidade duvidosa. Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colecção das Farpas uma senhora tem finalmente alguma coisa que dizer ao autor, e manda-lhe o seguinte conselho como resumo da opinião colectiva de todas as damas portuguesas: "Que ele trate de outro ofício e deixe aos palhaços dos circos o trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!" Este simples conselho é como um relâmpago nas trevas do nosso espírito. Ele de per si só basta para nos convencer de que a educação das senhoras portuguesas não só é igual - como a autora modestamente formula - à das primeiras mulheres estrangeiras, mas que pode mesmo considerar-lhe superior. Efectivamente, Madame Sand, Madame de Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escritor qualquer - amigo ou adversário - uma palavra tão lúcida, tão conceituosa, tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocrática, tão nobremente distinta, como aquela com que somos honrados pelo critério da nossa ilustre compatriota. Sua Excelência entende que não somos mais que um palhaço de circo, opinião profundamente filosófica. É talvez isso mesmo o que todas as mulheres estrangeiras pensariam se nos lessem. É natural porém que elas tivessem achado entre as suas pérolas, entre as suas rendas, por debaixo das suas luvas, no fundo de algum velho cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimosas recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as letras e a sua respectiva cedilha, p-a-l-h-a-ç-o, a um homem a 187 quem os seus maridos lhes houvessem permitido dirigir uma carta pela Imprensa. Sua Excelência a ilustre escritora portuense tem da dignidade alheia e da sua própria dignidade uma compreensão diversa, que não podemos deixar de atribuir, com orgulho patriótico, à influência local da Rua de Cedofeita, sobre os requintes da delicadeza feminina. Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distinta compatriota contesta a conveniência de ensinar fisiologia humana e química culinária às meninas portuguesas. Se Sua Excelência tivesse efectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se Sua Excelência houvesse compreendido que a mais nobre missão da mulher é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se, para nos provar que estava apta para cumprir no seio da sua família essa missão, Sua Excelência nos convencesse de que conhecia a síntese química da nutrição, a evolução celular, a relação existente entre os fenómenos da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos mostrasse que estava habilitada a distinguir os princípios alimentares pelas suas classificações mais genéricas, os que fornecem o calor e a força e os que ministram os elementos reparadores; se nos revelasse que sabia dirigir tecnicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos eminentes trabalhos consagrados a este assunto essencialmente vital pelo Sr. Gautier, que fez um tratado de química aplicada à higiene, pelos Sr. Moleschott e Geoffroy Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as substâncias alimentícias, pelo Sr. Champouillon na sua Higiene Alimentar, pelo Sr. Claude Bernard nas suas lições e conferências, pelo Sr. Bouchardat na sua memória sobre a alimentação insuficiente, pelos Srs. Liebig, Payen, Fonssagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Wurn, etc.; se Sua Excelência possuísse finalmente - ainda que no estado da mais ligeira tintura - alguma das noções em que se baseia a teoria da cozinha, que é um dos mais ímportantes factos da higiene ou da fisiologia aplicada, o seu voto nesse caso poderia ter discussão. A brilhante ausência de ideias que Sua Excelência manifesta sobre este assunto dá ao seu voto um carácter irrevogável, que não pode infundir nos adversárius senão admiração e respeito. É inútil que Smith, por um lado, e o Doutor Byasson, por outro, se tenham dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiências feitas sobre o seu próprio organismo qual o dispêndio de carbono e de azoto em cada hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou muscular, para regular sobre este dispêndio a ração alimentar de cada indivíduo. É inútil que o Doutor Franckland e Paven tenham feito as análises mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida pela oxidação deles. É inútil que o Doutor Chenu e o Doutor Chimpton nos tenham mostrado, pela comparação das estatísticas da salubridade nas campanhas da Crimeia e da Itália, o extraordinário poder da qualidade da alimentação sobre a saúde e sobre a energia dos soldados. É inútil que pelo estudo de iguais estatísticas com relação à alimentação de operários empregados nas grandes indústrias se tenha provado que da qualidade da alimentação resulta o aumento ou a diminuição de 20 a 30 por cento no trabalho de cada homem. É inútil que Geoffroy Saint-Hilaire nos tenha dito: "Quantos factos na vida das nações atribuídos pelos historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside simplesmente na cozinha das famílias!" É inútil que toda a ciência tenha provado que a maioria dos crimes e dos vícios se deve atribuir em cada sociedade ao seu regime alimentício; que o uso dos alimentos nervinos é uma necessidade inviolável na rude concorrência vital do 189 nosso tempo; que é indispensável, perante a moral e perante a justiça, melhorar a alimentação dos trabalhadores, facilitando-lhes a aquisíçåo dos alimentos plásticos e reparadores geralmente insuficientes na sua economia. É inútil que em todos os países civilizados os sábios, os filósofos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarizaçåo e de associação chamar a atenção das mulheres para o estudo e para a resolução desse grave problema, cuja sede é a cozinha. É inútil tudo quanto se tenha alegado e quanto possa alegar-se para convencer esta ilustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus semelhantes do facto de ela aprender a fazer caldo um pouco menos empiricamente do que por tê-lo visto fazer à cozinheira da sua avó. Sua Excelência tem para manter a inalterável tradiçåo sobre os métodos de deitar a carne à panela nas cozinhas da sua rua este argumento supremo: Foi com essa panela à frente que os Portugueses contiveram em respeito o poder de Castela e praticaram prodígios de valor na Ásia, na África e na Epopeia da Liberdade. Segundo Sua Excelência, foi abraçados à travessa do cozido que nossos avós descobriram a Índia, e que os pais de uns de nós resistiram aos pais dos outros durante o cerco do Porto. Os vencidos jantavam no Bignon ou no Café Anglais. Em presença dessa lógica de ferro submetemo-nos humilhados e reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como Sua Excelência afirma, nada se nos oferece retorquir. Mantenha-se o statu quo na perfeita educação da mulher portuguesa. Continue Sua Excelência a imaginar que sabe cozinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um vestido e que sabe também - ó legítimo orgulho! - fazer doce. - Demais a mais - notem - Sua Excelência faz doce ! Não! Positivamente nada se nos oferece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Nåo precisa de saber mais nada. Aí tem Sua Excelência uma opinião que lhe garantirá "as sólidas 190 virtudes que seu marido desenvolver no lar doméstico passados os entusiasmos da paixão": - Sua Excelência gosta de açúcar! Quem sabe se não será por um efeito do atavismo sobre a gula que os meninos de quinze anos de quem Sua Excelência nos fala vão beber licores para os botequins? As mães dos que amam os jogos atléticos e as proezas musculares têm elas mesmas não a opinião do açúcar mas sim a do roast-beffe da água fria; não fazem doce, fazem ginástica, e não ensinam os filhos unicamente a comer marmelada, a ir à novena e a não meter os pés nas poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o box, dão-lhes desde a idade mais tenra os hábitos mais viris; e, como sabem impedir que eles vão para os botequins, não costumam encarregar os críticos de lhos ir lá buscar. Sua Excelência não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos supondo que Liebig, um dos primeiros químicos do mundo, sempre saberia um pouco mais disso do que o António das Moças, célebre inculcador de cozinheiras, encarregado de ministrar às donas de casa portuenses as suas mestras da arte culinária. Sua Excelência não só não quer fazer caldo em termos para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobília, comprar os pratos e os copos, determinar a diferença de cor nos estofos do salão e da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprazível e digna, pagando assim em elegância, em delicadeza e em bom gosto, à sociedade conjugal um serviço igual àquele que recebe dela em protecção, em trabalho e em força. Sua Excelência prefere deixar todos esses conhecimentos aos cuidados do dono da casa(!) cuja vontade considera a lei suprema na escolha de todos os artigos! Ficaríamos na mais inquietadora dúvida acerca das funções que Sua Excelência deseja exercer no lar doméstico, se ela mesma não tivesse a bondade de nos explicar que a ocupação para que se reserva é a de abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava(!) O que nos parece é que esse mister exclusivo de Sua Excelência não promete uma existência bem divertida em família ao chaveiro das suas algemas! Se fôssemos seu marido declaramos que nos desquitaríamos se Sua Excelência recusasse aprender pelo menos, além de abençoar os ferros, a jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permitiria estar a dar-lhe constantemente o grilhão a abençoar; quereríamos ter a faculdade de poder dar-lhe também, de quando em quando, para variar, uma boa pilota às cartas. O folhetim de Sua Excelência termina com uma alusão pessoal à nossa robustez física e ao caldo que no-la criou. Sobre este ponto pedimos licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biográficos: Eu - pois que é bom precisar a clareza dos números -, eu, autor destas linhas, não me criei no regime dietético do Chiado ou da Calçada dos Clérigos. Não, minha senhora: eu criei-me no caldo de unto e na broa dos homens do campo. Estou prevendo que Sua Excelência tirará deste facto a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que Sua Excelência não hesite um momento em tirar tal conclusão! É até favor que me faz - para simplificar os dados do problema - o partir do princípio de que não tomei esse chá. Agora o que tomei foi o bom ar puro, saudável e honesto da querida courela onde nasci e em que me criei. Entre os preciosos alimentos minerais de que me nutria havia um princípio de primeira importância para o perfeito desenvolvimento do meu arcaboiço: - o fosfato de cal, que eu ingeria em grandes doses. A nossa casa, cercada de árvores, no meio de campos, não tinha saguão, não tinha vizinhas de cuia de retrós e de sapatos achichelados, não tinha pia. 192 A vida que cercou a minha infância era simples, rude, poderosa, como o grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha família o primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingénuas criaturas que, sem terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das teorias dos modernos moralistas, tinham todavia compreendido e assimilado por um instinto cheio de lucidez, os dois principais deveres de uma mulher: primeiro, ser saudável; segundo, não ser conhecida. No interior da sua casa eram admiráveis exemplos de dignidade, de trabalho, de ordem, de economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias, e nunca o velho piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se fechar de memória de homens às 10 horas da noite, o mais tardar. Não se desprezavam de cultivar, elas mesmas, os seus canteiros de túlipas e de cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portugueses se conseguisse um dia condensar num livro toda a soma de método, de ordem, de execução estética, de picante espírito pitoresco, de risonha graça, de que era modelo a incomparável cozinha de minha avó - aberta ao nível do pátio defronte do poço, cheia das alegrias cintilantes do sol e do balsâmico perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabelos de carvalho de cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira onde se espanejavam os capões; os troféus ornamentais dos instrumentos agrícolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do fumeiro suspensos do tecto; a comprida mesa dos moços da lavoura, tendo em cima a grande selha com a braçada verde dos frescos legumes picada com as pintas douradas das cenouras entre as aveludadas e gordas eflorescências dos bróculos; e no meio disso a intervenção periódica do mendigo da estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua escudela de batatas ou de caldo, 193 enquanto os pardais mais atrevidos iam sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno. Esse conjunto exalava uma penetrante sensação de tépido aconchego, de suave alegria, de inalterável paz; inspirava sentimentos práticos e honestos; era o complemento e o comentário vivo das velhas histórias contadas à lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da família; explicava o amor à terra da pátria pela dedicação às quatro braças de solo cobertas por esse velho tecto. A cozinha de minha avó era finalmente uma profunda obra de arte, da qual os mais belos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da poesia doméstica, não puderam dar-me jamais senão uma ideia desbotada e fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas literatas tem havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada à obra modesta de minha avó, que ela tirou num preciso exemplar único para a educação de suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da saudade de seus netos. A minha robustez física é o mais contraproducente dos argumentos que a minha contraditora podia aduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os nobres cuidados da sua casa e da sua família tiveram sempre ao abrigo das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas. Poucas vezes empalideceram nos bailes, e não tiveram nunca de que corar nos folhetins dos periódicos. Terminando, agradeço de novo os conselhos de Sua Excelência a ilustre escritora minha patrícia, mas peço licença para os não seguir. Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer também chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso. 194 195 XXVIII A EDUCAÇÃO MILITAR - SEUS EFEITOS NA CONSTITUIÇÃO DO CARÁCTER Um tenente chamado Freitas, do regimento de infantaria n1 2 espancou um faxina detalhado ao seu serviço. O soldado, com as faces escorrendo sangue, foi queixar-se ao capitão da companhia. Este admoestou o tenente, que replicou desabridamente. O capitão comunicou o facto ao coronel, e o tenente foi repreendido em presença dos oficiais do cOrpo. Na noite ddgse dia, na obAsião em que o capitão lia na biblIoteca da Caserna, o tenente Freitas vestido à paisana, armado de um revólver e empunhando um chapéu de chuva, entrou na sala da biblioteca e matou o capitão, disparando-lhe dois tiros pelas costas. Este homicídio, cometido há cinco ou seis dias e revestido de todas as circunstâncias agravantes do crime, é largamente comentado em toda a Imprensa. O tenente Freitas, encarcerado num calabouço, tem sido o alvo das mais cruéis objus que acompanham a questão suscitada pela viagem do capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as autoridades portuguesas no interior da África não obstam ao tráfico dos escravos, que ainda ali vigora. Como é que nós respondemos à denúncia deste facto? Respondemos negando a asseveração do Sr. Cameron e fazendo protestos. Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não permitido, vejamos quem é o homem que nos acusa. Cameron é o segundo europeu, depois de Livingstone, que modernamente atravessou a África desde a costa oriental até à costa ocidental, levado por um intuito exclusivamente científico. Desta viagem, que durou quatro anos, trouxe o Sr. Cameron o projecto de ligar a costa do Oriente com a do Ocidente por meio da navegação fluvial, aproveitando as relações hidrográficas do rio Congo e do Zambeze, o primeiro dos quais desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado oposto, ao Sul de Moçambique. Durante esses quatro anos passados entre selvagens, o capitão Cameron parte de Bogamoyo, em frente de Zanzibar, passa em Rehenneco, atravessa o país de Ounianiembe, o país de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganica, o mercado de Niaugue, o estado de Urua, a Ponta da Lenha, desce as margens do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Luanda. Os companheiros de viagem que haviam saído de Inglaterra para o acompanharem - o 156 Dr. Dillon Moffat, sobrinho de Livingstone, o artilheiro Murphy, não podem segui-lo a mais do começo dessa longa e perigosa expedição. Adoecem sucessivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounianiembe aparecem-lhe os homens de Livingstone trazendo o cadáver do explorador que o precedera. Então, Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos, desistem de continuar essa imensa viagem, e regressam com o corpo de Livingstone a Zanzibar. Dillon morre no caminho. Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma clavina, seguido por uma escolta de negros, prossegue, caminhando através de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortífero, deixando atrás de si, marcado com a morte dos seus camaradas, cada um dos primeiros estádios da sua portentosa peregrinação. Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admitimos que saísse de Inglaterra com a educação comum de um simples tenente da armada britânica. Mas dizemos que uma viagem como a que ele fez, e nas condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um carácter. Um tal homem não mente. Nele a mentira seria a refutação de todos os princípios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas as leis da natureza humana. Nada mais lastimosamente ridículo do que a indignação patriótica de qualquer dos nossos políticos, chupando autoritariamente um cigarro nas salas do Grémio ou à porta da Casa Havanesa, bombardeando a atmosfera com balas de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo para nos informar do que se passa em África! O que Cameron disse acerca da escravatura africana na conferência feita em Londres foi o seguinte: "Cerca da linha de separação das bacias do Zambeze e do Congo fomos retardados no primeiro acampamento por 157 causa da caça aos escravos fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro dizendo-nos: Não partais; Kouaroumba vai chegar com os seus escravos. Depois do meio-dia chegou efectivamente Kouaroumba com uma fila de cinquenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa, trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam pelo menos a ruína e a destruição de quarenta ou cinquenta aldeias e a matança daqueles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram refugiar-se nos juncais para ali viverem como pudessem ou morrerem de fome. É para mim fora de dúvida que estas cinquenta ou sessenta escravas representam mais de 500 indivíduos mortos na defesa do seu lar ou acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham presas umas às outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente atadas. Quando elas afrouxavam na marcha, batiam-lhes desapiedadamente. Os traficantes portugueses, negros ou mestiços, são muito brutais; os árabes, pelo contrário, tratam geralmente bem os escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da África não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por vários motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa." Estas palavras são perfeitamente explícitas e terminantes. Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da África o tráfico de escravos. Enquanto se não provar manifestamente o contrário esta é que é a verdade, verdade referida pelo Sr. Cameron, já anteriormente enunciada pelo viajante francês, o Sr. Jocolliot, confirmada pelo Sr. Young, explorador inglês, e ultimamente, mesmo em Lisboa, em uma carta publicada no Progresso pelo Sr. Pinheiro Baião, que esteve por algum tempo em África empregado do Estado. 158 Para factos desta ordem os protestos de toda a Imprensa (1) e de todo o Parlamento, por mais unânimes que eles sejam, não têm a natureza de uma refutação nem o carácter de uma resposta, são uma pura evasiva compacta. A primeira notícia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de uma sábia exposição feita à primeira classe da Academia das Ciências pelo falecido naturalista o Dr. Bernardino António Gomes. O resultado dessa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglês à civilização universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente Cameron, agradecendo-lhe em nome da Ciência e em nome de Portugal a contribuição valiosíssima com que ele tinha cooperado para o progresso da sociedade humana. O Governo, deliberando tomar oficialmente conhecimento dos factos referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta a dar-lhe: - nomear uma comissão de inquérito que sindicasse rigorosamente da cumplicidade dos funcionários portugueses no menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão. Enquanto à câmara dos senhores deputados, parece-nos que ela teria procedido, pelo lado científico com mais lógica, e pelo lado patriótico com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido o exemplo que lhe fora dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao Sr. Cameron as informações que este lhe prestara. Desse modo, teria a câmara dos senhores deputados evitado receber do Times a mais dura e humilhante lição que por via da pena de um jornalista se pode infligir a uma sociedade. O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos sociais sempre que ele nos leva a trair a verdade. Manter na opinião pública a mentira é violar o ___ (1) Um único periódico, de que tenhamos notícia, o Século, de Coimbra, tomou a defesa do capitão Cameron em um artigo poderosamente escrito pelo Sr. Correia Barata. 159 progresso da humanidade pelo modo mais sacrílego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a política em Portugal deve-se principalmente à fraqueza dissolvente dos caracteres públicos em testemunhar a verdade. Todo aquele que por meio da sua palavra ou por meio da sua pena não tem o preciso valor para enunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilização e um perigoso inimigo do género humano. Não queremos para a nossa consciência de escritor o remorso dessa voluntária culpa, e é por isso que dizemos aos senhores deputados: A verdade, meus senhores, é o que vos disse o Times: "A questão, como afirma o referido periódico, não é se Portugal prestou serviços à causa do progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na sua linguagem tratando com uma nação aliada e amiga; a questão é se os factos são ou não são como recentes viajantes afirmaram. Que o comércio da escravatura na África Central seja feito mui largamente por negociantes portugueses e sob a protecção da bandeira portuguesa é acusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação fictícia ou real, não por patrióticas reminiscências, nem por uma referência a cumprimentos diplomáticos, mas sim deixando-se de permitir que haja matéria para que a acusação continue. Sabemos quanto Portugal tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos também o pouco resultado que as suas enérgicas declarações produziram. " Os quatro milhões de vozes de que o País inteiro pode dispor, a protestarem todas perante o Universo, não poderão convencer um só homem de que a verdade seja diferente do que é. A declamação neste ponto é completamente inútil com outro qualquer fim que não seja um puro exercício de eloquência nacional. Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilização. Vós contribuís apenas para o Pecúlio de Oradores, do Sr. João Félix. 160 161 XXIII ENTRE A ESCOLA POLITÉCNICA E O OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO POR TELÉFONO Janeiro, 1878. Por ocasião da visita de El-Rei à Escola Politécnica funcionou o teléfono entre uma das salas da Escola e o observatório da Tapada. Aproximando-se do novo aparelho transmissor dos sons, dizem os jornais que Sua Majestade ouvira - um solo de cornetim! Houve primeiro dúvida sobre se o fio ligava a Escola Politécnica com o Observatório Astronómico ou se a ligava com a filarmónica União e Capricho. O solo era efectivamente executado pelo Observatório. Enquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a arte musical se ocupasse em determinar alguma paralaxe. A única coisa que estranhamos é que o Observatório não observasse entre as suas peças de música alguma coisa mais interessante para transmitir a El-Rei do que o próprio hino do mesmo augusto senhor. Que o Observatório cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de acordo! Mas que ele cultive igualmente a especialidade do hino parece-nos um abuso que o príncipe não levará a bem. Reflectiu por acaso o Observatório no que é o hino para um cérebro coroado? Cremos que o Observatório não 162 desceu ainda com as suas conjecturas ao fundo desse abismo. É honoroso. Para os cérebros coroados o hino equivale a uma enfermidade monstruosa. O Observatório faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é verdade? Pois ter hino é pior. É ter constantemente durante toda a vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas vilas, nas aldeias, sobre as próprias águas do mar, sempre, por toda a parte, como doença crónica, como afecção incurável do nervo acústico, a audição do mesmo trecho de música! - O que deve levar paulatinamente à loucura. Que o Observatório se compadeça do infeliz príncipe condenado a tão incomportável flagelo! O Observatório há-de ter conhecimento das contrariedades que amarguram a existência humana: o Observatório há-de ter faltas de dinheiro, há-de ter constipações, há-de ter dores de dentes, há-de ter calos. O príncipe tem tudo isto, e demais a mais também tem hino. Poupemo-lo ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal às regiões da ciência! Inflijamos-lhe o solo, visto que não há outro remédio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hino! Sejamos terríveis, mas sejamos justos! A providência colocou-nos na mão o cornetim. O monarca presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos desse instrumento poderoso e dessa orelha inocente! Compenetremo-nos da tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos cornetistas, mas somos também astrónomos... Toquemos o Pirolito! E a posteridade nos abençoará! 163 XXIV OS REGULAMENTOS DISCIPLINARES DA UNIVERSIDADE - ESCOLA DE POLTRÕES Abril, 1878. Os regulamentos disciplinares da Universidade de Coimbra têm dado ultimamente em resultado riscar um avultado número de estudantes pelos seguintes delitos, cada um dos quais foi objecto de um processo especial: 11 Rir atrás da procissão dos Passos¨ 21 Ser testemunha de um duelo abortado, proposto a um professor por um viajante; 31 Não ter dado pateada a um lente; 41 Parecer constrangido a dar lição; 51 Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. Os alunos condenados pela perpetração dos delitos 1, 2, 3 e 4 apelaram para o Poder Moderador, o qual lhes comutou a pena de expulsão temporária em alguns dias de cadeia. Procedendo dessa forma, o Poder Moderador não tomou em consideração a necessidade de fazer proceder à revisão da legislação académica. O Poder teve apenas em vista o desgosto infligido pela sanção dos regulamentos universitários às famílias dos alunos condenados: - No 164 que o Poder mostrou ter um coração de excelente rapaz, aliado a um cérebro de legislador medíocre. Está pendente da confirmação régia, segundo nos consta, a pena imposta aos réus do crime n1 5, julgados já segundo o direito comum e absolvidos pelos tribunais civis. Nesta conjuntura, perguntamos: É admissível que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamento de dois tribunais paralelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem julgados em dois foros distintos, recebendo duas punições em vez de uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente tidos por inocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem contrárias? Responder-nos-ão que o tribunal académico julga de circunstâncias especiais que não são submetidas à apreciação dos tribunais ordinários? Mas nesse caso o tribunal académico com relação ao crime de que se trata toma o carácter de um tribunal escolar, e à Universidade cabe apenas decidir se o facto de sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição. Como tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que, quando se trata de algumas bofetadas ou de alguns pontapés, o desonrado não é propriamente quem o dá, é por via de regra quem os recebe. Se a Universidade insiste em julgar noutro ponto de vista as questões desta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de cobardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade que ainda possa haver na mocidade portuguesa. Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza física e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, com risco da sua própria vida, a uma ofensa pessoal, é um homem corrompido, é um degenerado, não tem o sentimento do respeito devido 165 à dignidade da sua espécie, e, atreito às paixões mesquinhas, contrairá manhas de réptil. Se a Universidade tem o intento de educar os seus bacharéis para sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem, prosseguindo o velho sistema, tendo por fim levar o estudante que queira concluir honrosamente os seus estudos a proceder diante das ameaças da força alheia por um destes dois modos: fugindo ou apanhando. Se, porém, a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros cidadãos, a Universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para sempre da instrução de processos ridiculamente pueris, requerendo das cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de atrofiar no coração da mocidade com um regime fradesco os sentimentos naturais de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da velha troça académica por meio da instituição de exercícios viris, próprios de uma mocidade honesta e forte: - a ginástica obrigatória, a escola de tiro, a esgrima, a luta, o insubstituível cricket. XXV EDUCAÇÃO DAS MENINAS - PRENDAS DE MÃOS Novembro, 1882. Entre os mimosos e ricos brindes oferecidos a Leopoldo de Carvalho na noite da sua festa artística no teatro do Ginásio, lemos no Diário de Noticias que sobressaíam em primeira linha dois formosíssimos quadros, devidos à perícia de uma jovem menina da nossa melhor sociedade, e feitos de escamas de corvina. Folgamos muito com isso. Em todas as exposições de quadros celebradas nos principais centros artísticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do século, se notava com lástima geral que o simples óleo, a tinta de aguarela, o lápis e o esfuminho eram elementos insuficientíssimos para com eles se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigências da estética contemporânea. A jovem admiradora de Leopoldo, lançando mão genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente à tela, vem¨preencher uma lacuna imensa nos recursos até hoje tão estreitos das artes do desenho. Glória eterna a tão benéfica e Prestante menina, honra da pátria e do peixe fresco, alegria de seus carinhosos pais, e satisfação completa de suas boas mestras! Nada mais lisonjeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de processo empregados pelos artistas 168 em luta com a invencível perfeição, do que ver essa jovem compatriota, inspirada do alto, apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a faca de amanhar o peixe, cair sobre a corvina, empolgá-la pelo rabo, e escamar em seguida duas obras-primas sobre os lauréis do festejado actor Leopoldo! 169 XXVI A DECADÊNCIA DA RAÇA PELOS VÍCIOS DA EDUCAÇÃO Maio, 1879. Um distinto professor, o Sr. Albino Giraldes, publicou recentemente em Coimbra, numa brochura de poucas páginas, a mais lúcida exposição da teoria zoológica de Darwin. Referindo-se aos agentes da selecção artificial tendo por efeito na sociedade o enfraquecimento e a degeneração da nossa espécie, o Sr. Albino Giraldes, à semelhança dos escritores que o precederam no estudo deste assunto (Haeckel), cita de entre os agentes aludidos as contínuas guerras e o estado a que a diplomacia chama a paz armada. "Os homens alistados nos exércitos permanentes", diz o Sr. Giraldes, "são precisamente os mais válidos e robustos da população, ao passo que os mais débeis e achacados são todos por necessidade e por lei isentos do recrutamento. Assim, o mancebo sadio e vigoroso é destinado ao açougue das batalhas, é carne para os canhões, e morre por isso sem descendência; ao mesmo tempo que o refugo da população, os indivíduos doentes, os surdos-mudos, os epilépticos, os enfezados, são exactamente os que constituem família, e, reproduzindo-se, transmitem aos descendentes os seus achaques e debilidades. Tais são, além de outros, os resultados do militarismo." 170 A influência do militarismo como agente selectivo, tendo por efeito o enfraquecimento e a degeneração da espécie, é seguramente de uma grande importância, mas parece-nos insuficiente para explicar em Portugal a deplorável decadência da raça. Na Alemanha, na Inglaterra, em França, o militarismo existe como na sociedade portuguesa, tendo sido naqueles países modernamente mais frequente, mais desastrosa e mais profunda a devastação das guérras. E, todavia, a debilidade, o enfraquecimento dos cérebros, a decadência intelectual, é muito sensível entre nós outros, e não o é em França, na Alemanha ou na Inglaterra. Se a teoria da evolução biológica, segundo Darwin, não é uma quimera com aplicação ao princípio científico do desenvolvimento das nações, e o Sr. Bagehot, entre outros, demonstrou com evidência que não é, nós temos de achar dentro dos princípios da selecção e da hereditariedade, além do militarismo, algum outro agente perturbador do nosso progresso. A influência do meio geográfico não pode ser considerada como factor no problema da nossa inferioridade mental com relação a outros povos europeus, porque desde o século XVI até hoje não houve alterações mesológicas nas condições da nossa existência, e, todavia, Portugal, que há mais de duzentos anos é completamente infecundo no meio do movimento científico do mundo moderno, era ainda no século XV e no século XVI um dos primeiros e dos mais poderosos contribuintes da civilização. Nos primeiros séculos da monarquia a nossa agricultura era florescentíssima. Éramos, no tempo de D. Fernando, um dos primeiros países exportadores de azeite, de frutas secas, de peixe salgado. Tínhamos nas grandes pescas do bacalhau uma grande fonte de riqueza e uma grande escola incomparável de marinheiros. A história do grande pinhal de Leiria é dos mais notáveis exemplos da 171 sábia atenção prestada à silvicultura em tempos ainda anteriores ao reinado de D. Dinis. A população crescia, apesar das guerras, e o número dos habitantes, que no tempo de Filipe II era de pouco mais de um milhão, tinha chegado a cerca de três milhões no tempo de D. João II. Durante a Idade Média, a instituição popular dos municípios e das comunas contrabalançava os privilégios da nobreza e do clero, e opunha uma barreira inexpugnável ao tripúdio dos reis sobre os foros do povo e à imposição do jugo feudal. A índole popular resplandecia pela tolerância religiosa, pelo amor da liberdade, pela grandeza de ânimo, pela delicadeza poética. Na literatura e nas ciências dávamos a lei aos espíritos. A Universidade de Coimbra, justamente célebre então, era frequentada por estrangeiros, que vinham dos países mais cultos educar-se em Portugal. Criávamos a geografia moderna nessa portentosa escola de Sagres, a grande academia do infante D. Henrique, a qual produziu Colombo, Magalhães, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama. Tínhamos letrados como André de Resende, Diogo de Teive, Diogo de Gouveia, mestre de Montaigne, Sanches, precursor do positivismo, e Damião de Góis, o amigo de Lutero e de Erasmo. Tínhamos poetas que criavam uma literatura nova, como Luís de Camões, Gil Vicente, Ferreira e Sá de Miranda. Tínhamos uma arte que evocou do mármore o Convento de Cristo, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, três expressões monumentais e supremas da beleza imortal. As causas da formação das raças são o meio, a hereditariedade e a selecção. Se o meio físico - o clima, a configuração do solo, as produções da terra, o aspecto da paisagem - foi bastante benéfico para determinar e proteger a criação e o desenvolvimento de uma raça tão forte, tão inteligente, e tão viva como a raça portuguesa no século XV, não tendo sido esse meio perturbado desde então até hoje por nenhuma revolução cósmica, é à hereditariedade e à selecção que 172 devemos perguntar pelas causas do abastardamento que nos precipitou de decadência em decadência durante os três últimos séculos, e nos reduziu à imobilidade em que nos encontramos hoje. Uma das causas da variação nos organismos, o que é o mesmo que dizer um dos agentes da selecção, é o hábito e o exercício. A hereditariedade fixa as modificações adquiridas de indivíduo para indivíduo, de ascendente para descendente. A acção contínua do exercício e do hábito modifica, porém, os efeitos da hereditariedade, tornando os órgãos cada vez mais divergentes entre si, desenvolvendo uns e atrofiando outros, pela razão fisiológica de que a seiva reparadora da força se fixa de preferência na sede da maior actividade. Darwin observou que na ilha da Madeira há uns coleópteros quase desprovidos de asas, ao passo que outros têm asas extremamente vigorosas. Estes dois fenómenos procedem da mesma causa - o vento do mar. Diante dessa força da natureza os insectos divergem de resolução. Uns acobardam-se, desistem de combater e escondem-se ao abrigo das plantas até que o vento cesse. Outros arriscam-se a serem arrebatados pelo vento, debatem-se, resistem, lutam. Estes últimos produziram uma raça de voadores atléticos e vitoriosos; os outros produziram gerações de coleópteros sedentários, moles, desasados. O que se dá com os insectos da ilha da Madeira, perante o vento do mar, dá-se com os povos na luta pela vida no meio do conflito das contrariedades sociais. Os que cedem desasam-se. Foi o que nos sucedeu. A história da nossa decadência oferece a mais perfeita confirmação das leis de Darwin. As nobres faculdades que fizeram de nós um povo exemplar até o século XV atrofiam-se até darem a degeneração pelo exercicio e pelo 173 hábito, pela hereditariedade e pela selecção artificial. O militarismo seria insuficiente para explicar uma transformação tão profunda como aquela por que passamos. Citaremos algumas outras causas. A Inquisição, fazendo da delação uma virtude cristã e da hipocrisia uma necessidade social, obriga os indivíduos pelo instinto da conservação a dissimular, a atraiçoar, a mentir. Os caracteres desenvolvem-se a pouco e pouco no sentido dos defeitos em que se exercem. O terror transmitido de geração em geração cria a deformidade moral a que podemos chamar uma pusilanimidade orgânica. A expulsão dos judeus e dos mouros e a perseguição dos cristãos-novos não só paralisa o comércio e a indústria, mas elimina da comunidade social os indivíduos mais operosos e mais úteis. A confissão tornada obrigatória pelo Concílio de Trento e decretada como indispensável à salvação das almas, cria o director espiritual, introduz o padre na família, ferindo-a por esse modo no pacto do amor, que é a base da sociedade conjugal. O inquisidor sistematiza a traição na ordem social; o confessor promove-a na ordem doméstica. Esmagada a arte nacional, emudecido o génio do povo, monopolizados o ensino, a ciência e a filosofia pelas ordens religiosas, o celibato eclesiástico esteriliza o princípio da hereditariedade intelectual, destrói a orientação dos cérebros. E enquanto o desumano e monstruoso egoísmo monástico acumula nas livrarias dos conventos uma literatura artificial, sem tradições nacionais, sem raízes históricas, de um maneirismo beato e grotesco, cheio de sofisticações de sacristia, sem virilidade, sem sexo, num estilo delambido até a imbecilidade - fora dos conventos propagam-se os néscios. O jesuitismo, impelindo para a derrota de África D. Sebastião, destrói em Alcácer Quibir, na flor dos anos, sem descendência, os representantes mais vigorosos da hombridade nacional. 174 A monarquia aristocrática, apoiando-se na nobreza com os seus morgados, vinculando a terra, monopolizando a propriedade, impede a formação da família burguesa, e faz do povo uma plebe servil, uma criadagem vilã. Estas causas, que determinaram biologicamente, fatalmente, a extrema decadência da nossa raça, desapareceram, mas os seus efeitos permanecerão enquanto novas influências não vierem excitar a nossa actividade, produzindo o progresso pela sobrepujança dos indivíduos mais fortes, mais enérgicos e mais inúteis. A sociedade portuguesa, tal como ela está presentemente organizada, não actua, porém, sobre os seus membros no sentido da selecção, tendo por efeito o progresso da raça. O nosso meio actua sobre nós em sentido contrário - no sentido da regressão ao estado selvagem. O Sr. Horácio Ferrari, redactor de uma interessante revista publicada no Porto e intitulada O Positivismo, demonstrou cientificamente essa verdade. "A espécie humana associada", diz o Sr. Ferrari, "está sujeita a três ordens de causas destruidoras, umas que afectam directamente o indivíduo, outras o estado social. É certo em sociologia como é em biologia, que uma raça civilizada decai e retrograda para o estado selvagem sempre que as condições sociais tendem a destruir os seus membros mais disciplinados, mais acomodados por seus hábitos regulares de conduta à vida civilizada." E depois de ter provado, até à saciedade, que esses princípios assentam em bases perfeitamente científicas, o Sr. Ferrari conclui por esta lei: - Uma nação decai rapidamente e tende a extinguir-se sempre que para os diferentes cargos, públicos ou particulares, sejam preferidos os individuos menos capazes de os exercer. A sociedade portuguesa está, desde a revolução liberal, na decadência progressiva determinada pela lei que o Sr. Ferrari enunciou. 175 Os cargos públicos em Portugal foram distribuídos em 1836, como presa de guerra, entre os companheiros mais valorosos de D. Pedro IV. Nos primeiros lugares das repartições do Estado tomaram assento os primeiros soldados do cerco do Porto. Nas alfândegas, nos tribunais, nas escolas, na Universidade, os cidadãos investidos nos empregos mais rendosos exibiam como títulos do seu direito e da sua capacidade as cicatrizes dos ferimentos recebidos no fogo, os galões do uniforme de guerra, a patrona rebentada pelo peso do cartuchame da ordem, e a baioneta suspensa ainda no boldrié de campanha. E os serviços públicos ficaram dirigidos pelos batalhões dos Voluntários da Rainha. Era o regime dos bravos. Depois, à medida que esses funcionários se extinguiam, os cargos devolutos foram sucessivamente confiados aos vencedores em outras companhas - as campanhas eleitorais. É o regime dos beleguins de eleições. O valor intelectual está de parte. Ora como é da natureza biológica de todos os organismos, quer num indivíduo quer numa sociedade, que a seiva da força se fixa na sede da maior actividade, o resultado das práticas a que nos referimos é que o valor intelectual diminui e definha, ao passo que o poder da intriga aumenta e prospera. Com o abastardamento da inteligência deperecem todas as nobres faculdades do homem: a tenacidade no trabalho, a firmeza no dever, o respeito da verdade, a inteireza do carácter, a honra, o desinteresse, a coragem. Com o hábito da intriga desenvolvem-se todas as fraquezas que são com ela solidárias; o espírito da aventura traz o espírito da vadiagem; vem a preguiça; vem o amor da vida repousada e farta, a avidez do lucro, o egoísmo, a pusilanimidade, a adulação, a mentira, a doblez, a cobardia e, com a ausência completa do senso moral, o desequilíbrio do cérebro, a inépcia e a imbecilidade. 176 Tal é o modo como o princípio da selecção artificial actua na sociedade portuguesa sobre o desenvolvimento da espécie. Em Portugal, a luta pela vida destrói a altivez moral e dá a sobrevivência à ignorância bajuladora e servil. Há, porém, um facto extremamente consolador. Entre os agentes fisiológicos que determinam em um povo a direcção do seu destino figura o instinto da imitação, peculiar das espécies superiores na série zoológica, e principalmente da espécie humana. Este instinto é um elemento precioso do progresso, porque é a imitação que torna fecundo o exemplo. O poder do exemplo é de tal modo enérgico e decisivo que só o exemplo basta, actuando na virtude prolífica da imitação, para modificar e transformar em poucos anos o carácter de um país. O penetrante escritor inglês, a quem já nos referimos nestas páginas, Bagehot, recentemente falecido, dizia que a influência pessoal de Lorde Palmerstorf fizera por alguns anos da Inglaterra uma sociedade patusca. Há em todos os países um certo número de indivíduos que pela sua natureza veemente, expansiva, aparatosa, constituem os carácteres típicos, predominantes no seu meio. São os imitados. A massa geral do público é essencialmente imitadora. Em Portugal, os indivíduos chamados aos altos cargos do País dissemos já que são os menos próprios para produzirem pelo exemplo uma influência salutar. São tipos defeituosos, de uma acção funesta no desenvolvimento do carácter público. Os efeitos dessa influência manifestam-se em longas séries de fenómenos mórbidos de carácter contagioso. Temos, por exemplo, nos últimos anos: a crise bancária de 1867 em Lisboa e no Porto; o alcance na Padaria Militar; o roubo no Correio Geral; o roubo do Banco Hipotecário; 177 o roubo na Caixa de Crédito; o roubo na Caixa Filial do Banco União; o roubo no Banco Ultramarino; a sindicância à Penitenciária; a sindicância à Alfândega do Porto; os roubos e as irregularidades de serviço, ultimamente revelados pelo próprio director, na Alfândega de Lisboa; os suicídios dos empregados alcançados (passim); as evasões e homízios de empregados com dinheiros públicos; as ordens surdas sobre os cofres dos ministérios, facto referido em todas as discussões dos orçamentos do Estado; as burlas sucessivas nos fornecimentos do Exército, nas compras de armamento, nas compras de navios, etc. No entanto, fora das regiões oficiais, manifestam-se em cada dia personalidades poderosas, caracteres exemplares, destinados a tomarem-se outros tantos centros de imitação. Entre esses caracteres típicos, de um relevo preponderante, notam-se afinidades de ideias, analogias de convicções, linhas de uma semelhança comum que aproximarão de um só tipo único os grupos influenciados pelo núcleo parcial de cada exemplo. É assim que está destinada a operar-se a revolução portuguesa. O tipo oficial cairá diante do tipo dissidente, e as nomeações do Estado cederão progressivamente o passo na direcção do País às preferências da estima pública. Este resultado anuncia-se já de um modo indubitável. No romance, na poesia, na crítica, na história, na sistematização filosófica, na vulgarização científica, nos clubes, na Imprensa, no professorado, o movimento dirigente dos espiritos é manifestamente adverso e hostil ao espírito das instituições vigentes. Os homens que pela sua actividade mental estão determinando esse movimento revolucionário na arte e na ciência não são unicamente os homens mais instruídos, são também os cidadãos mais probos, os mais dignos. São esses homens que, fora dos parlamentos, dispondo apenas desses dois meios de acção - a Imprensa e o Ensino - estão lentamente, surdamente, imperceptivelmente, realizando esta obra imensa: a reconstituição infalível do caracter de um povo pela influência dominante dos seus caracteres superiores. A luta está já travada, e a vitória está prometida àqueles que dentro da esfera da sua actividade, qualquer que ela seja, souberem cumprir estes dois deveres de todo o homem trabalhador e de todo o homem honesto: - espalhar lição e fundar exemplo. 179 XXVII A CRÍTICA DE UMA SENHORA ÀS TEORIAS DAS FARPAS SOBRE A EDUCAÇÃO DAS MULHERES Janeiro, 1878. Com este título - Ao Sr. Ramalho Ortigão - publicou o Diário da Manhã o folhetim seguinte: Os exames no Liceu Nacional - Os fins da educação - Um programa de ensino para o sexo feminino - Como se prepara a emancipação das mulheres - Duas catástrofes: o estado da literatura feminina e o estado da cozinha nacional - Grito aflitivo do País: menos odes e mais caldo! Termina assim o sumário do último número das Farpas. Qual de nós deixaria de ler com a máxima atenção um artigo escrito pelo Sr. Ramalho, sobre assuntos de tanto interesse para o nosso sexo! Nenhuma, decerto. E para que se não diga com verdade que o grito aflitivo do País, do qual o Sr. Ramalho se fez órgão, pedindo-nos caldo, não foi ouvido por uma só mulher portuguesa, que, condoída, o socorresse, venho por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só caldo, mas também luz, que o alumie nas suas investigações acerca de um assunto, que é realmente grave - a dispepsia nacional, que S. Ex0 atribui à nossa ignorância culinária, fazendo assim pesar sobre nós tão tremenda responsabilidade. Se o assunto de que se trata não fosse realmente grave, contentar-nos-íamos com o prazer que nos dá sempre a leitura dos escritos do Sr. Ramalho, pela elegância do seu estilo, e 180 finura do seu espírito, e apenas diríamos, na nossa linguagem de cozinheira: É pena que os escritos do Sr. Ramalho não sejam mais suculentos! São como os caldos feitos pelos cozinheiros franceses, de aparência magnífica, depurados até à transparência, muito aromatizados... mas sem substância. Quer-nos, porém, parecer, apesar da ironia com que o Sr. Ramalho fala sempre de nós, que não tem razão para nos querer mal; e que como filho, esposo e irmão de senhoras portuguesas, e por isso quase nosso irmão, deseja com certeza a nossa felicidade e se prontificaria da melhor vontade a fazer-nos um favor se lho pedíssemos. Ouça-me pois. Não ensine à Sr0 Jerónima, nem a mulher nenhuma portuguesa, como se faz esse alambicado caldo francês, tãocolégio deveria mandar tratar o seu aluno pela terapêutica e não pela eucaristia. Todo o pedagogo tem obrigação de saber que nas dispepsias a comunhão, em virtude da composição química da hóstia, é absolutamente contra-indicada pela ciência. Como são, o director do colégio deveria não ter levado à desobriga um aluno que, segundo vemos, se não achava convenientemente habilitado em civilidade para comparecer com decência em tal acto. Hão-de-nos desculpar se insistimos um pouco sobre esta matéria, mas realmente trata-se de um caso que pode vir a estabelecer precedente, e que precisa de ser raciocinado. Então que nova cantiga vem a ser esta agora de nos expulsarem dos colégios os nossos filhos quando os senhores directores entendem que eles são mais ímpios ou mais malcriados do que é preciso para os créditos da sopa a tanto por cabeça em que esses senhores negoceiam? Os colégios, segundo rezam os respectivos programas, são estabelecimentos de educação literária, civil e religiosa. Não dizem lá os directores que dão religião? Com que direito pois se corrige assim com a pena pública de uma expulsão infamante um aluno cuja culpa consiste unicamente em não ter aquilo que os senhores directores se obrigaram a dar-lhe? Perante a responsabilidade da direcção pedagógica cuspir a hóstia na igreja é um facto perfeitamente análogo ao de dizer asneiras num exame de Liceu. Num e noutro caso temos falta de preparo. Se, depois das provas feitas, se vem a reconhecer que o colegial se não achava apto para ir ao exame ou para ir à desobriga, o director do colégio o que tem que restituir à família, em boa justiça, não é o aluno que não educou; é o dinheiro que recebeu da família para o educar. Sobre o periódico A Nação é que o facto a que aludimos parece haver produzido uma impressão mais dolorosa. 219 Este apreciável jornal apareceu-nos em um dos seus últimos números vestido de luto. Perante os filetes pretos da Nação julgamos que tivesse morrido o Papa, que houvesse voado da república dos vivos para regiões mais aristocráticas o último dos descendentes do senhor D. Miguel de Bragança, ou que se não achasse bom de saúde o Senhor Pinto Coelho. E informámo-nos solícitos e pesarosos. Acabamos de saber por um distribuidor que A Nação está simplesmente de luto em sinal de dor pelo desacato feito à religião pela imprudência do menino que foi com gosma para o tribunal da penitência e para a mesa eucarística. Para que A Nação se não sujeite a novos desgostos deste género e não gaste mais lágrimas em estilo e mais tinta em filetes, lembramos a conveniência de fazer honrar a religião, dando-lhe na sociedade o lugar que legitimamente lhe compete, retirando-a ao Estado, retirando-a à Carta, retirando-a à escola, retirando-a à caserna, e restituindo-a à família. Enquanto os estudantes dos colégios e os soldados dos regimentos forem em cada Quaresma acompanhados pelos seus mestres ou pelos seus sargentos, comungar de súcia à igreja da freguesia, creia A Nação que não estará livre de derramar mais pranto e mais tinta sobre profanações do género daquela pela qual nesta ocasião lhe enviamos o nosso sincero pêsame. As mães são as únicas pessoas que neste mundo sabem ensinar um homem a ir com elas à igreja e ajoelhar-se com decência ao seu lado nos degraus de um altar. Porque o respeito à igreja não é um facto da disciplina, é um facto do sentimento, da crença e da tradição doméstica. Colocado ao lado de sua mãe, que simples e ingenuamente crê e reza de joelhos numa igreja, nunca homem nenhum teve jamais vontade de cuspir, por troça ou por doença, por má-criação ou por gosma. 220 A religião não se aprende, como se aprende a gramática, na escola, ou como se aprende o exercício militar no quartel. A religião inspira-se às consciências pelo amor que só as mulheres sabem ter; não se encasqueta à força nas cabeças aos golpes de férula ou aos golpes de junco, que nos dão os mestres de meninos e os instrutores de recrutas. No presente estado das ideias, com a orientação geral dos espíritos na sociedade contemporânea, o desacato do culto religioso é unicamente o resultado da intervenção despótica dos poderes oficiais no regime exclusivo das consciências. Os partidos em religião acabaram há muito tempo. Dentro da esfera da crença não há hoje senão ou fiéis ou indiferentes. São apenas as escolas e as leis que, metendo-se naquilo que não é da sua conta, de quando em quando fabricam ainda um herético ou um sacrílego, artificial, para recreio da crítica e para luto da Nação. 221 XXXII A INTERVENÇÃO ECLESIÁSTICA - UMA PROVISÃO DO SR. ARCEBISPO DE MITILENE TENDO POR OBJECTO A MÁ-CRIAÇÃO DA INFÅNCIA Março, 1882. Se porventura quiséssemos fazer de conta que não lemos os anúncios do Diário de Noticias e passássemos as palhetas ao senhor arcebispo de Mitilene sem nos inclinarmos reverentes perante a provisão de Sua Excelência acerca do desacato da igreja de S. Cristóvão, isto desagradaria talvez ao patriarcado, e A Nação não no-lo levaria a bem. Eis-nos aqui pois aos pés de Sua Excelência. Meditemos. Segundo o senhor arcebispo, não foi unicamente um estudante que desacatou o sacramente eucarístico - como outros repórteres disseram. Os profanadores foram três. Dois deles cuspiram no chão as espécies sagradas, o outro cuspiu no lenço de assoar. Depois do que os sujeitinhos, que têm de doze a catorze anos de idade, trocaram entre si "sinais de escárnio". O Sr. D. António José de Freitas Honorato, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica arcebispo de Mitilene e governador do patriarcado no impedimento da sua Eminência Reverendíssima o Cardeal-Patriarca, compara a 222 má-criação dos três jovens bilhostres de que se trata com o atentado perpetrado pelos judeus deicidas contra a vida de Jesus, e tira em conclusão que o drama do Calvário é muito menos sacrílego e muito menos abominável que o da igreja de S. Cristóvão. Cheio de toda a amargura e de toda a consternação que um tão negro paralelo naturalmente provoca, o senhor arcebispo exclama: Se os judeus tivessem conhecido o Senhor da Glória, diz S. Paulo, jamais o teriam crucificado; os seus ultrajes diriginm-se ao Filho de Maria e de José, a um homem que eles olhavam como um sedutor e como um inimigo de Moisés e da sua lei. Além disso, o crime dos judeus aproveitou ao género humano, que foi remido pelo sangue precioso de Jesus Cristo; mas o sacrilégio há pouco perpetrado que desculpa terá? E que beneficio produz? A dor que transparece destes queixumes do venerando pastor do rebanho de Cristo no patriarcado de Lisboa comove-nos profundamente na nossa humilde qualidade de simples rês, e leva-nos a aplicar alguns bálsamos, que pudermos arranjar, sobre a chaga aberta por este desgosto no coração amante de Sua Excelência e sobre a mossa por ele feita no seu venerando báculo. Como o senhor arcebispo mui bem diz na sua epístola em anúncio aos da Rua dos Calafates, e como já anteriormente outrossim o dissera S. Paulo aos Coríntios, o tão falado crime dos judeus, crucificando Jesus Cristo por sentença dos tribunais competentes, não foi no fim de contas senão um acto de pura justiça aplicada às contravenções policiais, exactamente como outros actos análogos que o conselheiro Arrobas aí está praticando todos os dias, sem que por isso se diga que esta autoridade administrativa tem rabo como vingativamente se espalhou acerca dos característicos anatómicos dos governadores civis que o império romano encarregou da polícia da Judeia. 223 Por isso, também vemos que os efeitos da maldição em que incorreu essa raça proscrita começam a achar-se sensivelmente atenuados. Os antigos Judas deram em banqueiros. Asshaverus pôs casa, descalçou as sandálias e chama-se hoje em dia Rothschild. Se lhe apetecesse possuir o Santo Sepulcro, não lhe mandava as cruzadas como nós fizemos, comprava-o apenas, e punha lá um casino, com bilhares e roletas para recreio dos filósofos. Haja em vista bem assim o nosso Bazorra, ainda ultimamente chamado pelo príncipe ao fastígio do poder, enquanto que no tempo do rei D. Manuel, ai dele, que, em vez de ser numa cadeira de ministro seria num tição em que haveria de sentar-se, se jamais ousasse transpor o bairro da Mouraria para atravessar a cidade em coche da companhia seguido do respectivo correio a trote com a pasta das tâmaras! Evidentemente, ao crucificarem Jesus, os judeus tiveram simplesmente em vista punir segundo as leis um simples rebelde, chefe de um clube com doze oradores magníficos, declarando-se em oposição às instituições vigentes, à forma do governo existente e aos dogmas da religião do Estado. Se os judeus suspeitassem, por mais remotamente, que Jesus era o filho de Deus feito homem eles nunca o condenariam. Mas os judeus não o acreditavam, e é isso o que os desculpa e até certo ponto os absolve. Ora, sem de modo algum pretendermos contraditar o senhor arcebispo de Mitilene, nós pedimos mui submissamente vénia a Sua Excelência para lhe fazer notar uma coisa, e vem a ser: que os escolares da igreja de S. Cristóvão se acham completa e absolutamente dentro da esfera das mesmas circunstâncias atenuantes em que se encontram os judeus. Estes crucificaram Jesus por não acreditarem que Deus se tivesse feito homem; aqueles cuspiram-o 224 por não acreditarem que Deus se achasse na partícula eucarística tão real e tão perfeitamente como se acha nos altos céus. Isto é óbvio. Tanto o senhor arcebispo como toda a gente sabe perfeitamente que não há ser algum de uma obtusidade tão impenetrável e tão córnea que, acreditando na existência da divindade, e, sabendo que tem um Deus na boca, o cuspa fora, ou seja no chão ou seja no lenço, trocando em seguida olhares de escárnio. Posto o caso nestas bases - e não é possível pô-lo em estudo sensatamente por outro modo - nós pedimos ainda licença para dizer ao senhor arcebispo que se o crime dos judeus é, pelas circunstâncias que o revestem, completamente desculpável, o crime dos estudantes, pelas mesmas circunstâncias que nele concorrem, é absolutamente nulo. Porque, posta de parte a intenção criminosa e sacrílega dos réus, resta-nos apenas considerar, para os efeitos da culpa, quais as consequências do acto. Ora com relação aos judeus, abstraindo da intenção sacrílega, temos ainda um inocente assassinado; com relação aos estudantes, feita igual abstracção, temos apenas uma hóstia perdida. E eis aqui está em suma porque o senhor arcebispo se está a afligir, depondo o seu báculo para desatar a chorar dolorosa e desoladamente sobre o seu armento! Eis - suspira Sua Excelência - a situação tristemente lamentável em que Nos achamos, o mal Nos acomete de toda a parte, e falecem todos os recursos humanos para se lhe opor um dique poderoso e represar esta torrente desoladora... Tal é o quadro medonho da época presente, sobretudo nesta capital!... A sociedade corre perigo de se dissolver... Estamos possuidos da mais acerba amargura e aflição..., etc. E tudo isto porquê, ó meu Deus?... Tudo isto unicamente porque três madraços da instrução primária foram à desobriga sem terem sabido as lições da Cartilha e sem 225 lhes terem ensinado o que é que está na hóstia depois de consagrada! E o pior de tudo não é somente a tristeza do senhor arcebispo - o que já é péssimo -, o pior de tudo são os horrores que Sua Excelência nos profetiza e os tremendos castigos que, segundo Sua Excelência, a divina providência tem suspensos sobre nós, aproveitando pressurosa este pequeno pretexto de haver numa escola três cabeças de burro rebeldes ao catecismo, para nos pespegar a todos, per omnia secula seculorum, nas pe- nas eternas. De modo que, para aplacar a tremenda cólera celeste que se nos anuncia, termina o senhor arcebispo a sua provisão, ordenando o seguinte: 11 Esta Nossa provisão deverá ser dirigida a todas as Paróquias e Casas Religiosas do Patriarcado e Prelazias anexas, para ser lida no próximo domingo ou dia festivo que ocorrer depois da sua recepção, indicando-se ao mesmo tempo o dia e hora em que as irmandades e fiéis devem concorrer às preces públicas nas respectivas igrejas. 21 Estas preces terão lugar em três dias consecutivos imediatos à leitura desta Provisão, expondo-se o Santíssimo Sacramento à boca do Sacrário ou no trono, se tanto for possível. 31 Todos os sacerdotes do Patriarcado e Prelazias anexas, nas missas que celebrarem nos três dias das preces solenes da respectiva paróquia dirão a oração Pro Quacumque Necessitate - pedindo a Deus perdão e desagravo, depois da que devem dizer - Pro Papa. 41 Como este desacato pode também ter por causa a ignorância dos mistérios da nossa santa fé, ordenamos aos reverendos párocos a exacta observância da Pastoral de Sua Eminência de 25 de Janeiro de 1881. 226 Para que estas preces sejam mais eficazes e aceites a Deus, recomendamos a todos os fiéis que assistam a elas purificados de seus pecados pelos Sacramentos da confissão e comunhão. Se nós outros, ovelhas, não tivéssemos mais nada que fazer neste mundo senão acompanharmos o nosso pastor espiritual balando com ele os cânticos ao divino, como sucede por exemplo a Suas Excelências os cónegos, nada se nos ofereceria retorquir, e pôr-nos-íamos imediatamente à disposição do senhor arcebispo para os fins indicados nas conclusões da sua epístola. Mas as ovelhas, excelentíssimo senhor, estão sobrecarregadíssimas de trabalho. Elas têm de ganhar o penso de cada dia com o suor da sua lã, e são obrigadas ainda por cima a acarretar para o tugúrio a erva precisa para engordar os bodes que aí estão à argola do País, esmoendo víveres, enquanto a gente anda a monte de focinho no chão à procura de matéria pascível. Ocorre-me, pois, em nome do rebanho a que temos a honra de pertencer, perguntar ao venerável pastor e senhor arcebispo uma coisa: Sendo dos estudantes que se sabe, e não de mais ninguém, a culpa do desacato, não seria porventura exequível fazer recair sobre eles o castigo e o desagravo? Não haverá algum meio brando e ao mesmo tempo sagaz de atrair suavemente à Sé esses três malandros? Oferecendo-lhes, verbi gratia, mais hóstias (fingidas, bem-entendido) não seria possível captá-los? E depois de os apanhar dentro da Sé, não haverá já na igreja lusitana um bom cónego de pulso, que agarre numa palmatória de buxo e que lhes rache as mãos com uma dúzia de bolos em cada uma?... Depois desta primeira amostra do pano conviria - cremos - fechar os três delinquentes à chave dentro de um quarto, pô-los a broa e água por espaço de oito dias para lhes abrir as ideias, e passar-lhes lições grandes na Cartilha 227 do padre mestre Inácio e na Civilidade de João Félix. Às tardes, sabatina no coro. Não satisfazendo, férula para cima, enquanto eles tivessem unhas para lhes caírem das mãos aos pés do cabido! Pela nossa parte nós não teríamos que dizer a esses jovens senão uma coisa: - Chuchem, que é para não serem cábulas e para não andarem na instrução primária anos e anos sem fruto nenhum a roubarem o dinheiro a seus pais e a darem desgostos a seus mestres! Ão fim de oito dias deste regime purificante, temos para nós que os três hereges se achariam aptos para poderem entrar nas igrejas sem cuspirem, sem trocarem olhares de escárnio entre si, e sem darem coices. Pelo que nos quer parecer que a cólera divina teria obrigação restrita de se dar por aplacada e satisfeita. Que pelo contrário sejam esses três meninos os que fazem os pecados e que sejamos nós os que façamos as penitências, parece-nos duro de mais. Porque eles são malcriados, a gente é que há-de ficar proibida de comer sobremesa? Porque eles não estudaram os Sacramentos da Igreja, eu e minha família é que me hei-de pôr de joelhos em cima do banco, com a Cartilha ao pescoço? Eles é que dão os pinotes, e nós é que havemos de ir para o meio da aula com as orelhas de burro? Eles têm a cuspinheira, e nós é que tomamos a coacia? Eles é que trocam os olhares, e nós é que apanhamos o tapa-olho? Acham que é bonito?! Acham que é próprio?! Não! Podem dizer o que quiserem, isto não é justiça de cristãos, isto é justiça de mouros! Então está para aqui assim um pecador, com o vaso das iniquidades cheio - porque ainda não houve tempo para o ir remir, está um homem em sua casa atrapalhado com os seus próprios pecados e arriscado a ser aí lambido por uma febre de um dia para o outro, e a ir malhar com 228 o costado aos enxofres eternos, onde há a coceira desesperada e o ranger dos dentes para todo o sempre; e agora, lá porque três fedelhos foram fazer indecências para a desobriga, abale-se cada um para as igrejas a confessar-se, a comungar, a rezar a coroa e a fazer preces durante uns poucos de dias, para arranjar o perdão de Nosso Senhor e a bela bem-aventurança a uns malandrões, que - notem - ainda por cima são capazes de se porem a fazer troça da gente! Concluindo, devemos pela parte que nos toca neste assunto fazer uma declaração firme e terminante: Há-de ter santissima paciência o meu rico senhor arcebispo de Mitilene, mas quem não está resolvido a ir às preces para acudir a tratantes é o filho de meu pai. Os meninos cábulas e malcriados que embirraram em não estudar a Civilidade e em não estudar a Cartilha, que se arranjem lá como puderem! Se os meninos em geral cuidam que podem passar a sua juventude de narizes arrebitados e de cartola à banda a ciganar por essas ruas, em vez de estudarem o Credo, e que no momento das cólicas havemos de ser nós que havemos de andar em palpos de aranha e em jejum natural, de opa às costas e de contas na mão, a correr para as Chagas e para a Encarnação, para que Deus se compadeça deles e os aprove para querubins, os meninos estão completamente enganados connosco. Se querem estudar, estudem, que é para seu bem! Se não querem estudar, e preferem continuar a ser indecentes e pulhas, sujeitem-se então às legítimas consequências, que é irem todos para o diabo. Três garotos arrependidos, de menos no céu, não fazem falta nenhuma. 229 XXXIII A EDUCAÇÃO FÍSICA - OS GINASTAS Abril, 1881 No circo de Price, espectáculo em benefício dos pobres, pelo Clube Ginástico. Nós temos pelo instituto que nesta ocasião se exibiu pela primeira vez a simpatia mais profunda. Trabalhar pelo aperfeiçoamento físico de uma raça é trabalhar pelo seu futuro. É pela força física que se reconstitui a força moral. Temos apenas uma sociedade de ginástica em Lisboa e uma outra, segundo nos consta, no Porto. Na Alemanha o número das sociedades deste género eleva-se hoje a mil oitocentas e trinta e uma. Daí resulta um aumento enorme de vigor muscular na massa da população, o qual faz com que o exército alemão seja hoje o primeiro do mundo pelo valor corporal dos seus soldados. Em Portugal - país de magrizelas, de derreados, de espinhelas caídas - nada mais importante do que a educação física que o Clube Ginástico tem por fim popularizar. O que lamentamos unicamente é que os membros de uma corporação tão séria como aquela a que nos referimos faltem ao respeito ao seu próprio instituto apresentando-se em público vestidos de acrobatas ou de alcides. Não, meus senhores, a ginástica de cujo ensino Vossas 230 Excelências se devem gloriar de ser os fundadores não é uma questão de circo nem de barraca de feira, é uma alta e grave questão de educação nacional. É assim que ela é compreendida em toda a parte, não só na Alemanha, mas na Suíça, onde há 113 sociedades ginásticas; na Suécia, onde há 24; na Holanda, onde há 45; em França, onde há 48; na Itália, onde há 87. E em todos esses países, quando os clubes ginásticos, ou confederadamente ou cada um de per si, organizam os grandes e belos espectáculos em que o público aprende a estimar a força e a destreza dos músculos como uma das perfeições do homem, os ginastas não se vestem nunca de cetim e ouro como se fossem pobres míseros saltimbancos. A ginástica tem em toda a parte o seu uniforme, simples, correcto e grave, como convém a atletas, que não aparecem em público para receber um benefício, mas sim para dar uma lição. Esse uniforme consiste singelamente na camisola justa, sem braços, descobrindo os bíceps, nas calças de flanela cingidas por um cinto e no pequeno gorro afivelado por baixo da barba com uma correia, e que se não tira nunca da cabeça, nem ao povo nem aos príncipes, nem ao hino da Carta, nem à Marselhesa. É o distintivo dos fortes esse gorro. Pedimos ao Clube Ginásio que o adopte e que não torne mais a aparecer-nos de gibões de seda bordados e lantejoulas. É preciso que quem se educa para ser de bronze não tenha nunca o aspecto de parecer feito unicamente de alcorce. 231 XXXIV FESTA DA UNIVERSIDADE - CAPÍTULO REGOZIJOS Maio, 1881 A mocidade académica celebrou em Coimbra a festa de Camões. Registamos com júbilo este facto, que denota uma orientação nova no espírito dos estudantes. Durante muitos anos a Universidade, representada pelos seus alunos, só soube fazer troça. Os estudantes mais espirituosos e mais divertidos afirmavam os ardores da sua fantasia dando faltas nas aulas, dando canelões nos caloiros, e não dando mais nada. Apenas, a horas mortas, algumas vezes, ao vir de cear, a mocidade batia também um pouco pelas paredes e nos futricas. Ser sujo era um alto característico de elegância. Quando se ia à sociedade punham-se nódoas frescas na batina; e, assim como o virente louro era de rigor na fronte das vestais, assim a coroa de caspa era obrigatória na cabeça dos académicos. Aqueles a quem acerbos desgostos faziam cair a caspa encobriram esse defeito usando caspa postiça. Um professor, fazendo o elogio do asseio, com o fim de sacudir a apatia profunda em que caíra o comércio do sabão, dizia aos estudantes: "Meus senhores - acreditai-o -, é incomparável o refrigério e o gozo que experimenta o homem, principalmente 232 na estação calmosa, nas primeiras duas ou três semanas que imediatamente se sucedem à lavagem dos pés!" Montesquieu distingue três espécies de tristeza: - a que vem do século, a que vem dos homens e a que vem de Deus. Em Portugal, além das três tristezas de que fala o sábio, tínhamos mais uma - a que vinha de Coimbra em cada ano, intonsa, carposa e fastienta, vestida de gabão forrado de encarnado, com o cabelo crescido até o cóccix e os dedos queimados de cigarro até às clavículas. Essa tristeza, invadindo a cidade, penetrando lentamente nos jornais, nas secretarias, no parlamento, nos chás abailaricados da Baixa e nos festins hebdomadários, a especiones, a retórica e a pão com manteiga, do Sr. Fontes Pereira de Melo, acaba, enfim, de tomar raízes nas instituições, onde foi plantada na pessoa tétrica, plangente e lacrimosa do Sr. Hintze Ribeiro. Sob o domínio patológico de tais influências hereditárias, compreende-se bem que a alegria juvenil e espirituosa de que a Universidade acaba de dar um espectáculo tão brilhante nas festas com que solenizou a inauguração do monumento a Camões, não viesse ao mundo inteiramente escorreita de alguns fúnebres laivos de família. Assim, no programa suplementar da festa nocturna sobre as águas do Mondego vemos indicados com quinze dias de antecipação os vivas espontâneos e entusiásticos que a multidão terá de soltar no momento de se despedir para recolher a suas casas. O programa prescreve que a multidão brade ao chegar esse momento. Viva Sua Majestade a Rainha! Vivam as senhoras de Coimbra! Vivam as damas portuguesas! Vivam os Municípios! A comissão dos festejos receou, evidentemente, que a multidão, abandonada a si mesma ao terminar da festa, desatasse em choro desfeito - para começar a descansar 233 os folguedos. E seria realmente lamentável esse espectáculo de uma cidade inteira em ais de estalar as pedras no meio das luminárias do público regozijo. Mas os vivas escolhidos não nos parece os mais próprios para estancar o pranto de um povo desolado. Cuidais vós que um triste dando vivas à rainha, dando vivas às damas em geral, dando vivas aos próprios municípios, ficará menos triste depois disso? Oh! Como vos iludis! A tristeza, quando ela é arreigada, tradicional e profunda, quando ela está no sangue de uma raça, não há nada que a espanque e a enxote. Em tais casos o melhor que têm que fazer os programas é deixar obrar a natureza. O único grito lógico, sensato para ser sugerido a uma multidão que dispersa para ir para casa depois de uma boa festa, seria unicamente o seguinte: Muito boas noites, meus senhores, até amanhã, se Deus quiser! Tudo mais nos parece imprudente, porque, além de não produzir alegria, pode ferir susceptibilidades. Enquanto às damas, por exemplo, não nos parece que seja extremamente lisonjeiro o dizer-se-lhes que a gente gosta tanto delas como dos municípios. Oh! Não! Entre a doce Ofélia e o honrado Sr. Gregório Araújo, para nós, pelo menos, há diferença. Enquanto ao viva a Sua Majestade a Rainha, esse, confessamos que nos irrita na nossa qualidade de multidão. Como convidados à festa dos estudantes é claro que nós não teríamos espécie nenhuma de política senão a dos nossos amáveis anfitriões. Tão-somente para nosso governo folgaríamos de saber com mais alguma precisão se Suas Excelências são pela realeza ou se não são. Se não são monárquicos, nós não os quereríamos magoar dando vivas a uma testa de senhora que é mais coroada, o que só de per si não quer dizer que seja por 234 esse facto mais bela nem mais espirituosa nem mais pura do que qualquer outra. Se são monárquicos, nós então pediríamos licença para não saudar unicamente a realeza em uma das suas metades, e ampliar o viva do programa; dizendo com ardor: - Viva Sua Majestade a Rainha... e o seu homem! Em tudo o mais a festa foi exemplar e brilhante. 235 XXXV UM EXAMINADOR SENSATO NO LICEU DE LISBOA - ESCÂNDALO PRODUZIDO POR ESTE FENÓMENO Agosto, 1881 Nos exames do Liceu Nacional um professor da Escola Politécnica, o Dr. Matoso, que temos pena de não conhecer, dirigiu aos examinandos as seguintes perguntas, que os jornais da semana transcreveram, por escárnio, denunciando ao desprezo e à gargalhada pública aquele examinador imbecil, que os poderes do Estado vão decerto demitir, e que os pais de família começaram já a espancar com fervor. Primeira pergunta: - O que é a barrela? Segunda pergunta: - O que é o residuo que a água fervida deixa nofundo das vasilhas, e a que as cozinheiras chamam o salitre das chocolateiras? Terceira pergunta: - Em virtude de queforça se esvaziam os frascos da limonada chamada de cavalinho, que os consumidores bebem nas feiras chupando-a por um tubo ? Quarta pergunta: - Banhando-se em água destilada ficaria o senhor tão bem lavado como tendo-se banhado em água comum? 236 Esta última pergunta foi dirigida a um estudante de cor preta, o que exacerbou sobremaneira o rancor das massas contra a inépcia provocadora do lente, porque, segundo parece, é faltar ao respeito devido à raça etiópica o falar-lhe em lavar a cara. Os pretos, pelos modos, preferem ouvir o espirro - o que os escandaliza muito - a ouvir falar em banho. De tal sorte, sempre que num compêndio de química se trate do fenómeno da saponificação operada pela combinação das secreções da pele com alguns dos corpos dissolvidos na água não destilada, no capítulo consagrado a essa matéria se deve pôr esta nota: Questão que, para se não tornar ofensiva, convém ser unicamente estudada entre individuos da raça branca; para pretos envolve troça. Ora muito bem! Querem os leitores acerca do caso Matoso a nossa humilde opinião? Dar-lha-emos, sem mastigar, a opinião que temos: Se fôssemos o ministro da Instrução Pública nós mandaríamos chamar o Dr. Matoso e encarregá-lo-íamos imediatamente de redigir o programa dos compêndios e do ensino da física e da química nos liceus portugueses. Porque a verdade é - e sentimos com isto desgostar as famílias dos alunos reprovados -, a pura verdade é que o Dr. Matoso, pela sua maneira de interrogar, tal como os periódicos a referem, nos demonstra que ele é dos poucos professores que em Portugal compreendem a índole prática e positiva que deve ter o ensino secundário na educação moderna. É exactamente por esse modo, e não doutro, que se ensinam crianças: é fazendo-as observar os fenómenos mais vulgares e mais comuns da vida prática, os fenómenos que o aluno tem todos os dias debaixo dos olhos, e levando-o a tirar da natureza desses fenómenos o conhecimento científico da lei que os rege. Pelas reacções que se dão dentro de um cortiço de barrela, pelo depósito calcário que fica no fundo das chaleiras, pela comparação da acção da água destilada e da água como a natureza produz sobre secreções cutâneas, e finalmente pela ascensão do líquido pelo tubo das limonadas de cavalinho, demonstram-se grande parte das propriedades dos corpos, dos princípios que os compõem e das forças a que eles obedecem. É unicamente por esse processo de ensinar que o mestre conduz o aluno a aprender. Porque aprender é tomar conhecimento das coisas. A decorar estupidamente regras e fomtas abstractas, como se faz geralmente nas nossas aulas, enche-se o cérebro de pedantaria, mas não se adquire conhecimento de coisa alguma. É nessa ignorância crassa, enciclopédica e absoluta, de todos os mais simples fenómenos da natureza e do trabalho do homem, que os alunos saem dos nossos estabelecimentos de instrução secundária. A notícia dos jornais sobre o questionário do Dr. Matoso deu esta revelação tremenda: No último ano do curso dos liceus, ao completarem a instrução média - a instrução que deve dar o nível comum da capacidade de todo o cidadão bem-educado - o estudante não somente não sabe o que é um sifão, mas nem sequer sabe o que é a cinza, não sabe o que é o sabão, não sabe o que é a água, pois que os jornais acrescentam que nenhum dos examinandos soube responder às perguntas elementares que o Dr. Matoso lhes fez! Manter na instrução pública de um país um tal estado de coisas não é somente roubar ao país o dinheiro, é roubar-lhe também o cérebro. 238 239 XXXVI OS COLEGIAIS MILITARES Por ocasião da grande parada em honra dos reis de Espanha, abria a marcha, no desfilar das tropas, em frente do pavilhão real armado na praça do Rossio, o pequeno batalhão dos alunos do Colégio Militar. Era a primeira vez que os jovens colegiais se mostravam em forma numa revista do Exército. Quando - depois de haverem passado os dois reis com o seu estado-maior, fazendo reluzir ao sol numa grande palpitação triunfal as testeiras e os peitorais dos cavalos, as pedrarias das condecorações, as faixas ondeadas das grã-cruzes e os penachos dos capacetes e dos bicornes - se abriu uma clareira na enorme multidão compacta que coalhava toda a superfície do Rossio e que no quadrilátero descoberto sobre o macadame o batalhão colegial apareceu, uma sensação nova percorreu os nervos do grande público lisbonense. Dir-se-ia que cada um via então pela primeira vez o Exército nacional na sua expressão mais genuína. Esse regimento em miniatura representava efectivamente na sua encarnação virginal o mais puro espírito militar da nação. Esses soldadozinhos, de todos os mais pequenos, eram de todos os únicos instruídos e ilustrados. Os dos outros regimentos estavam ali nas fileiras porque em tempo os tinham ido capturar para isso ao trabalho dos seus campos ou das suas oficinas, e eles não haviam sido 240 bastante ricos para pagarem um substituto, nem bastante corajosos para se isentarem, como outros, da escravidão da farda, arrancando dois dentes da boca ou decepando um dedo da mão. Os alunos militares eram os soldados voluntários e livres. Para eles a honra de vestir o uniforme é a mais brilhante do mundo. Os seus pais e os seus mestres têm-lhes mostrado por muitas vezes as belas edições ilustradas das campanhas de Aníbal, de Frederico, de Napoleão e de Condé. Eles viram Leónidas nas Termópilas, César no Rubicon e Bonaparte em Arcole. Não sabem ainda bem o que é o peso das armas, mas aprenderam já o que é o peso do dever e o que é a força do heroísmo. Têm a estética da sua profissão, conhecem o que é o belo dentro da esfera das suas aspirações e dos seus actos. E eis aí a razão por que nenhum outro regimento desfilou como o deles, marchando com tão grande correcção geométrica, com tanta unidade, com tanta certeza, com uma tão intensa expressão de força, de brio marcial e de bravura guerreira. Bravo! Bravo! - gritava-lhes em coro de todos os lados a multidão comovida. E eles, graves, sérios como granadeiros da velha guarda, de cabeças altas, olhar em frente, clavinas ao ombro, marchando triunfantes como se fossem conquistando passo a passo o terreno em que pousavam os pés, passavam entre palmas, como ao regressarem vitoriosos de uma campanha. E afinal era efectivamente de uma vitória que eles vinham; porque equivale a uma vitória conquistada toda a noção do dever adquirida. Que esses belos e altivos rapazes guardem bem nos seus corações juvenis os aplausos que receberam dos seus concidadãos neste dia! É bem provável que nunca mais em sua vida tornem a ser objecto de outros tão unânimes e tão convictos. Porque aquilo que eles hoje julgam ser a nobre carreira de armas, não será mais tarde 241 para eles senão o ofício de fazer guardas ao quartel, de ganhar postos a ler o Diário de Noticias numa cadeira à porta da casa da guarda, e de levar de quando em quando, pelas costas, um tiro de algum galucho enfastiado e epiléptico. 242 243 XXXVII PROFESSORES JESUÍTAS As relações da igreja com o Estado na sociedade portuguesa têm sido ultimamente discutidas na polémica jornalística por dois antigos e ilustres parlamentares, os Srs. Barbosa Leão e Conde de Samodáes, e nada mais tocante do que o entusiasmo com que vibram no exame da questão sujeita esses dois austeros e venerandos caturras! Escrevem ambos em ortografia sónica, o que dá à linguagem do debate o ar sibilino de um colóquio entre dois áugures. Cada um deles quer, à viva força de teima filosoficamente asinina, convencer o outro de que é muito melhor cristão e muito melhor católico do que ele. E, arrebatados ambos por um santo e fecundo fervor religioso e sónico, eles tratam-se reciprocamente por çua eiçelencia. É verdadeiramente o que - supomos - se deverá chamar em sónico uma púguena di irois. O que principalmente distingue neste debate os princípios políticos e filosóficos do Çinhor Lião dos do Çinhor Çamodains é que o Çinhor Lião escreve: Si cum Jesu ites Non cum Jesuitis! 244 Ao passo que o Çinhor Çamodains diz pelo contrário: Si cum Jesu ites Vos cum Jesuitis! Enquanto esses dois preclaros estadistas, representando genuinamente e brilhantemente, um deles a nossa Câmara popular, e o outro a nossa Câmara dos Pares, colocam a questão religiosa em bases tão lúcidas e tão inabaláveis, em Lisboa, no Porto, e até, agora ultimamente, em Setúbal, a opinião pública meetinga contra os jesuítas, que, expulsos violentamente da República Francesa, penetram a pouco e pouco em Portugal, comprando palácios, fundando escolas, instituindo colégios. A educação da infância foi sempre o cano por via do qual esses bons servos de Deus se introduziram e se localizaram no domínio da família e na direcção da sociedade, porque a verdade é que ninguém mais - uma vez dado o ensino dogmático na instrução pública de um país - possui como a Companhia de Jesus o segredo pedagógico de mais rapidamente estirar as orelhas de um jovem pecador até fazer de um bravo rapaz um bestificado bacharel. Por essa razão, todos aqueles que até hoje têm desalojado o jesuíta da sua influência sobre um povo começaram sempre por abolir o dogmatismo no ensino, reformando a instrução em bases experimentais e científicas. Foi o que fez o Governo do Marquês de Pombal no século passado. Foi o que fez o Governo da República Francesa neste século. É o que não saberá fazer em tempo algum o Governo do Sr. José Luciano de Castro, que felizmente nos rege no momento presente. Examinem-me esses senhores padres que aí acabam de chegar, repatriados de um exílio de cento e vinte e dois anos. Queiram examiná-los bem em qualquer desses meetings que se estão fazendo, e lá lhes encontrarão naquela 245 parte do corpo sacerdotal que eles vêm assentar nas instituições portuguesas, tão comodamente preparadas para os receber, o vestígio deixado pelos bicos dos sólidos e rijos sapatos de couro de Salvaterra de Magos que calçava em 1759 o reformador dos estudos portugueses na Universidade de Coimbra. Sobre essa velha cicatriz, o Sr. Luciano de Castro - por mais meetings que lhe façam - aplicará por meio das suas portarias algumas cataplasmas anódinas, mas não renovará o nobre e arrojado pontapé pombalino. Porque em vez dos sólidos jarretes de aço do antigo reformador do ensino nacional, o signatário da última reforma dos nossos liceus não tem senão os pés arrastados e moles de um bem-intencionado palmípede. 246 247 XXXVIII ASILO DOS MENINOS DÕENTES Por detrás do Jardim Zoológico, no princípio da estrada, tomando à esquerda do chafariz, toquei à campainha de um desses alegres portõezinhos comuns a toda a antiga quinta suburbana à roda de Lisboa: madeira pintada de verde, ombreiras de pedra lioz, e no alto, na curva dos saiméis, o competente painel de azulejo representando, segundo a respectiva legenda, Nossa Senhora da Conceição do Rego. Aqui deve ser, segundo as informações que me deram, o hospício desses babys... E pareceu-me bem apropriado o sítio, a estação do ano, aquela hora do dia, para uma convalescença de criança. Na volta da estrada viam-se trepar, encosta acima, até os cabeços das colinas, os renques das oliveiras em fruto. Os verdes e aveludados trigais ondulavam docemente, matizados de pintas amarelas e vermelhas pela flor das papoulas e dos malmequeres do campo. E, na estrada à sombra, no perfume resinoso dos eucaliptos, envolto no primeiro bafo morno do Verão, ouvia-se esvaidamente o ladrido dos cães, o gemer das noras, e o cricri dos grilos. Abriram-me a porta para uma frescura de pátio escrupulosamente varrido e ajardinado de novo. Junto dos muros, ao longo dos quais principiam a bracejar as heras, estão regados de fresco os canteiros floridos de amores-perfeitos, de rosas e de hortênsias. 248 A um lado, uma escada de pedra, com o alpendrezinho no alto, conduz a uma galeria em arco e às casas do primeiro andar. Na arcada, sobre uma barra transversal, empoleira-se em linha toda uma revoada de azuladas andorinhas, que se picuinham amigavelmente em toda a fila, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, acotovelando-se umas às outras, em família, com as pontas das asas. A sala de espera a que me introduzem, ao rés-do-chão, abre para o pátio por uma porta envidraçada, e é a botica do hospicio, com a sua armação de casquinha, envernizada na cor da madeira, recolhida e pacata, quase risonha na coordenação reluzente e iriada dos seus frascos, dos seus boiões e dos seus almofarizes. Ao lado da farmácia, no pavimento térreo, fica a despensa, a copa, a cozinha. Em cima, a escada de que já falei dá entrada a um largo e longo corredor, desembocando, pelo extremo oposto, num terraço sobre os campos, e, abrindo à direita e à esquerda, para as casas do refeitório, do dormitório das raparigas, do dormitório dos rapazes, das enfermarias, dos quartos das enfermarias. Todas estas casas, pintadas de branco, de soalhos polidos como salas de baile, têm largas janelas abertas para a estrada ou para a quinta, inundando tudo de luz e de ar. Na horta, as árvores de fruto, os parreirais e os caniçados a que se esteia o feijão-verde, dividem e enquadram as leiras, onde os verdilhões pipilam, e borboletas cor-de-palha adejam ao sol sobre as plantações de repolho, de alface, de cebolete e de beringelas. Ão fundo da quinta, numa arribana, duas vacas malhadas, mansas e nédias, abastecem de leite o hospício. Com excepção das borboletas, das andorinhas e dos verdilhões, quanto nesta casa é adulto, ou pertence a adulto, me parece enorme: os cabazes, os gigos pomareiros, os regadores, os sachos, as vacas, o velho jardineiro, 249 as enfermeiras, e eu mesmo. A tal ponto tudo mais é engraçadamente diminuto, minúsculo, liliputiano! Como as maiores das crianças recolhídas não têm mais de oito ou dez anos, a mobília, proporcionada à corpulência dos habitantes, parece a mise-en-scène de um Guignol. As caminhas dos dois dormitórios, de uma frescura cultual, brancas como açucenas, com guardas altas, de berço, têm metro e meio de comprimento e três palmos de largo. A um lado, sobre um quadrado de tapete, acham-se enfileiradas as cadeiras em que os meninos se sentam para calçarem e descalçarem as meias; e essas cadeiras têm um palmo de altura. No refeitório, a mesa posta parece destinada a um jantar de bonecas. Apesar de frequentemente se encontrarem entre os convivas sujeitinhos que a voracidade impele a mergulhar os punhos na sopa e a comer com duas colheres há ainda assim espaço para tudo, de tal modo são pequeninas as mãos e as bocas destes Pantagruéis em formato diamante. Uma só criança estava de cama no dormitório das raparigas: lindo tipo de lisboeta, de grandes olhos pretos e fina pele morena, a que ficava bem a nítida alvura dos lençóis, do travesseiro fofo, da coberta acolchoada, e da touquinha de noite, que ela tinha atada por baixo da barba, deixando-lhe escapar para a testa uma grossa madeixa de cabelo espesso e luzidio, cor de ébano. Já lhe não doía nada, já não tinha febre, e mostrou-me uma linguinha fresca como uma cereja retirada de um copo de água. Mas o médico ainda nesse dia lhe não dera alta, e ela, resignada, deitada de lado, com a mão aberta debaixo da face, esperava a merenda, olhando para a porta com dois grandes olhos reluzentes, como dois grilos ávidos sentindo aproximar-se uma alface. Foi na botica, ao retirar-me, que pude ver reunidos os pequenos convalescentes. Vinte e um. 250 Tinham-os formado contra a parede; por ordem de altura, como os canudos de uma flauta de Pan. O maior pouco excedia o tamanho de uma bengala. Como o hospício, pelas proporções relativamente exíguas da casa, não pode acolher moléstias infecciosas, os casos mais frequentes são os de anemia e os de escrófulas, consequências da acumulação temerosa destas duas causas - a imundície e a fome. A absoluta ausência de asseio nos respectivos lares produz em muitos que aparecem, esqueléticos e pustulosos, além de uma quantidade medonha de parasitas da pele, variadas formas de doenças cutâneas - o impetigo, a salsugem, o usagre, a tinha. Com vinte ou trinta dias de banho, de roupa lavada, de boa sopa, de leite, de alguma carne, de óleo de fígado de bacalhau e de fosfato de cal, estes lazarozinhos ressurgem maravilhosamente, enrijam os ossos, criam músculos, mudam de pele e de cabelo, e aprendem, pela primeira vez em sua vida, a sorrir, a estender os braços, a vir ao colo. Também os há mais renitentes na cura, como é natural. Aqui está um, por exemplo, cujo aspecto não pode ser mais compungente. Colocaram-o sobre uma cadeira, porque ele não poderia, como os seus companheiros, ter-se nas pernas para receber de pé a minha visita. Não terá ainda três anos, e não obstante a toucazinha branca e o bibe de riscado azul, parece um velhinho, tocado de idiotismo senil, paralisado na sua cadeira de rodas. Tem o olhar vítreo e imóvel, uma úlcera ao canto da boca, outra úlcera ao canto de um olho. Uma mosca pousa-lhe numa pálpebra, e ele nem sequer pestaneja. Tem as duas mãos abandonadas, inertes, esquecidas no regaço, e o seu dedinho polegar, a que caiu a unha, horrivelmente intumescido, parece um tomate mal maduro, com o vermelho rajado de amarelo e de verde. Estremece-se de piedade e de horror ao pensar que dentro desse pequenino corpo, 251 que na sua trágica imobilidade se assemelha a uma figura de cera num museu de patologia, há uma íntima vibração de sensibilidade, uma recôndita alma, impolutamente casta, divinamente pura, que pelo pavoroso mistério da hereditariedade expia no anjo o pecado do homem. Em compensação ali temos aquela, que veio numa espécie de trouxa quase informe, feita de um coágulo de sangue roxo e de um feixe de ossos quebrados. Tinha-lhe passado por cima, fracturando-lhe a coxa e o crânio, a roda de uma carreta. E ei-la aí com os dois punhos nas ilhargas, fresca e redonda no seu bibe como um pote vidrado, corada e firme como uma rica maçã camoesa. Esta aqui assim presumo que também desejaria contar-me o seu caso, mas eu é que não tenho a fortuna de a perceber facilmente. É loura como um canário, corada como um pêssego do lado voltado para a luz, e olha para mim com os seus saltantes olhos azuis, derreando a cabeça para trás, como uma pessoa grande ao querer ver da rua os escritos de uma água-furtada. Tentando os últimos recursos para pôr a sua loquacidade ao alcance da minha estupidez, ela pega-me por um dedo e leva-me consigo dizendo repetidamente: Ita! ita! E eu deixo-me ir, tonto, Belisário, conduzido por esta Malvina, e pondo de parte toda a hipótese de uma cilada, porque sentia de quando em quando o contacto da sua boca tépida semeando de beijos as costas da mão. Não cheguei a traduzir ita! ita! mas creio que entendi o resto. Esse discurso, resumindo o melhor elogio ao hospital dos meninos, quereria dizer: "Vê com que terna meiguice me trataram, a mim, abandonada e endurecida rapariga da rua! Imagina quanto é preciso que eu esteja rica de carinhos para os dissipar repartindo-os contigo, brutamontes que veio pela primeira vez! E calcula quantos beijos me teriam dado, trazendo-me ao colo, algumas compadecidas senhoras, para que 252 eles trasbordem assim da minha pequena boca para a tua grande mão!" O hospital dos meninos funciona há cerca de um ano. Como nasceu essa instituição? Da maneira mais singela. Um pequeno grupo de senhoras deliberou fundá-la. Uma delas deu a mobília, outra as roupas, outra a botica; obteve-se casa, apalavrou-se médico; e abriu-se o hospital. Daí por diante, mês a mês, cada uma das aludidas senhoras vai dando simplesmente tanto dinheiro quanto é preciso para hospedar, alimentar, vestir e tratar tantas crianças doentes e pobres quantas cabem na casa. Não referirei nomes, porque me repugna macular com a mais leve aparência de grosseiro reclame o que há de mais delicado no generoso e comovido impulso do coração feminino. É cómodo pensar que todas essas senhoras são ricas, mas é mais justo não esquecer esse aforismo de gratidão, tão eloquentemente expresso pela sabedoria do povo: Não dá quem tem, mas quem quer bem! 253 ÍNDICE DO TOMO VIII I -Os nossos filhos, em casa, na rua, no passeio, no liceu, no colégio 9 II - As maneiras - Como se faz um gentleman - Civilidade do Sr. João Félix | 21 III - Os feriados - Redução do ano escolar a onze dias | 27 IV - Um dos compêndios! | 29 V -Outro compêndio!! | 31 VI -Por onde se aprende a História, e por onde se aprende a Aritmética | 33 VII - O programa dos festejos no centenário da Universidade | 39 VIII - Apenso ao programa | 41 IX - O racionalismo na Universidade | 43 X - A filosofia levanta a bitola | 45 XI -O novo aio de Sua Alteza o Príncipe Real | 47 XII - Mãe | 55 XIII - Mais um compêndio!! | 57 XIV - Escrúpulos de bem-falante | 63 XV -A expedição astronómica para a observação da passagem de Vénus pelo disco do Sol | 67 XVI - Uma comissão de estudantes de Coimbra - Que quer a mocidade? | 75 XVII - A educação dos Príncipes - O professor de Lógica e Retórica de Suas Altezas | 79 254 XVIII - A confusão dos sentimentos e a desordem das ideias - Urgência das reformas na educação nacional - Refundação do valor do Estado pelo mérito dos indivíduos | 89 XIX - Os castigos corporais e a disciplina dogmática | 95 XX - Tentativa de uma reforma do ensino público | 99 XXI - A educação das mulheres - Meninas examinadas no Liceu - Suas mestras | 121 XXII - O estado da educação física - Sua importância na evolução nacional | 135 XXIII - Entre a Escola Politécnica e o Observatório Astronómico, por teléfono | 161 XXIV - Os regulamentos disciplinares da Universidade - Escola de poltrões | 163 XXV - Educação das meninas - Prendas de mãos | 167 XXVI - A decadência da raça pelos vícios da educação | 169 XXVII - A crítica de uma Senhora às teorias das Farpas sobre a educação das mulheres | 179 XXVIII - A educação militar - Seus efeitos na constituição do carácter | 195 XXIX - A educação do povo - As feiras - A música popular - O teatro popular - Os jardins públicos - O Jardim Zoológico | 201 XXX - O elemento galante - Sua acção na formação dos caracteres - Seus efeitos do lado delas e do lado deles | 209 XXXI - A educação religiosa - Episódios da desobriga | 217 255 XXXII - A intervenção eclesiástica - Uma provisão do senhor arcebispo de Mitilene tendo por objecto a má-criação da infância | 221 XXXIII - A educação física - Os ginastas | 229 XXXIV -Festa da Universidade - Capítulo Regozijos | 231 XXXV - Um examinador sensato no Liceu de Lisboa - Escândalo produzido por este fenómeno | 235 XXXVI - Os colegiais militares | 239 XXXVII - Professores jesuítas | 243 XXXVIII - Asilo dos meninos doentes | 247