Os Miseráveis PRIMEIRO VOLUME Enquanto existir nas leis e nos costumes uma organização social que cria infernos artificiais no seio da civilização, juntando ao destino, divino por natureza, um fatalismo que provém dos homens; enquanto não forem resolvidos os três problemas fundamentais a degradação do homem pela pobreza, o aviltamento da mulher pela fome, a atrofia da criança pelas trevas; enquanto, em certas classes, continuar a asfixia social ou, por outras palavras e sob um ponto de vista mais claro, enquanto houver no mundo ignorância e miséria, não serão de todo inúteis os livros desta natureza. Hauteville House 1862 _sec+O:part=1_ PRIMEIRA PARTE FANTINE _sec+O:liv=1_ LIVRO PRIMEIRO UM JUSTO O abade Myriel Em 1815, era bispo de Digne, o reverendo Carlos Francisco Bemvindo Myriel, o qual contava setenta e cinco anos de idade, e que desde 1806 ocupava aquela diocese. Embora seja estranho ao enredo desta história, não será demais referir, ainda que não seja senão para sermos exactos, os diversos boatos e conversas que tinham circulado a seu respeito, quando da sua chegada à diocese. Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens, ocupa muitas vezes na sua vida e, muito mais, no seu destino, um lugar tão importante como o mesmo que eles têm. Segundo se dizia, Carlos Myriel era filho de um juiz da Relação de Aix (aristocracia de toga) que, tendo-o destinado para sucessor do cargo que exercia, o casara muito novo ainda, apenas com dezoito ou vinte anos, como é costume em famílias pertencentes à magistratura. Apesar de casado, Carlos Myriel, pequeno de estatura, mas de agradável presença, elegante e muito espirituoso, dera, ao que constava, bastante que falar de si, por continuar dedicando a sua existência aos prazeres mundanos. Rebentou a revolução e os acontecimentos precipitaram-se rapidamente; as famílias dos magistrados dizimadas, expulsas, perseguidas, fugiram. Logo nos primeiros dias da revolução, Carlos Myriel emigrou para Itália, onde sua mulher sucumbiu, devido a uma afecção pulmonar de que há muito sofria, deixando-o sem descendência. Que se passou depois disto na vida de Carlos Myriel? Dar-se-ia o caso da ruína da antiga sociedade francesa, a decadência da própria família, os trágicos acontecimentos de 93, talvez ainda mais pavorosos para os emigrados que os viam de longe aumentados pelo terror, lhe terem feito germinar no espírito ideias de solidão e de renúncia? Teria sido no meio das afeições e distracções em que ocupava a vida, alcançado subitamente por algum desses terríveis e misteriosos golpes, que às vezes vão direitos ao coração e fazem derribar o homem que as catástrofes públicas, mesmo ferindo-lhe a existência e a fortuna, não seriam capazes de abalar? Era impossível dizê-lo; o que se sabia é que, quando regressou de Itália, vinha padre. Em 1804, Carlos Myriel, já de idade avançada, era pároco da igreja de Brignolles e vivia na mais completa solidão. Por ocasião da coroação teve de ir a Paris por causa de uma pequena pretensão, a que andava ligado o interesse ’da sua paróquia. Entre as pessoas de influência, cuja protecção solicitou em favor dos seus paroquianos, contava-se o cardeal Tesch. Num dia em que o imperador foi visitar seu tio, encontrou-se na passagem com o digno eclesiástico, que aguardava na antecâmara ocasião oportuna para ser admitido à audiência. Napoleão, notando a insistência com que aquele velho o observava, voltou-se de repente e perguntou: Quem é este homem que não deixa de olhar para mim? Sire disse Myriel Vossa Majestade reparou num pobre insignificante, eu olho para um grande homem. Podemos ambos aproveitar. Nessa mesma noite, o imperador perguntou ao cardeal o nome do abade e, pouco tempo depois, Carlos Myriel, surpreendido, recebeu a notícia de que havia sido nomeado bispo de Digne. Até que ponto, porém, era verdade o que se dizia relativamente à primeira parte da existência daquele homem? Ninguém o sabia, porque poucas famílias haviam conhecido a dele antes da revolução. Apesar de bispo e mesmo por o ser, Myriel teve de resignar-se à sorte de todas as pessoas que chegam a uma cidade pequena, onde é maior o número de bocas que falam do que cabeças que pensam. No fim de tudo, porém, as conversas em que o seu nome andava envolvido, não passavam de boatos. Fosse como fosse, decorridos nove anos de episcopado e de residência em Digne, todos esses mexericos, que nos primeiros tempos são o objecto constante das conversas entre o povo das terras pequenas, caíram em tão profundo esquecimento, que já ninguém ousava repeti-los, nem sequer recordar-se deles. O reverendo Myriel veio para Digne acompanhado de sua irmã Baptistina, mais nova do que ele dez anos e uma criada da mesma idade da irmã, chamada Magloire, a qual passara a exercer as duplas funções de criada grave da senhora e dispenseira do novo bispo. Alta, magra, pálida, delicada e afável, Baptistina, embora se não pudesse chamar o tipo da mulher veneranda, porque para isso era necessário que fosse mãe, realizava, todavia, a mais completa expressão da palavra respeitável. Nunca fora bonita, mas a sua existência, que se resumia numa longa série de obras de caridade, revestira-se, por fim, de uma espécie de alvura luminosa que lhe dava, depois de velha, aquilo a que poderemos chamar a beleza da bondade. O que na sua mocidade fora magreza, tornou-se na velhice em transparência, através da qual, como de um véu, se entrevia um anjo. Era em si mesma mais que uma virgem, era uma alma. O seu vulto parecia feito de sombra; apenas o corpo necessário para determinar o sexo; era pequena porção de matéria contendo uma chama celeste; olhos grandes e sempre fitos no chão, um pretexto para uma alma andar na terra. Magloire era uma velhinha baixa e muito gorda, sempre atarefada, sempre arquejante, não só por efeito da sua muita actividade, mas em consequência dos seus padecimentos asmáticos. Apenas chegou a Digne, o novo prelado tomou posse do palácio episcopal, com todas as honras concedidas pelos decretos imperiais, que classificam o bispo imediatamente após o marechal de campo. O maire e o presidente foram logo cumprimentá-lo, e ele, por sua vez, fez o mesmo ao general e ao perfeito. Depois de ver o novo prelado estabelecido no governo espiritual da diocese, a cidade esperou pelos seus actos. _sec+Rom:2_ II O abade Myriel torna-se Monsenhor Bemvindo O paço episcopal de Digne estava situado junto do hospital, era um vasto edifício de pedra de cantaria, mandado construir no princípio do século passado por Monsenhor Henrique Puget, doutor em teologia pela faculdade de Paris, abade de Simore e bispo de Digne em 1712. Este edifício era um verdadeiro domicílio senhorial, em que tudo respirava grandeza; os aposentos particulares do bispo, os salões, os quartos, o amplo pátio de recreio com o seu claustro em volta, segundo a antiga moda florentina e as magníficas árvores do jardim. Na sala de jantar, uma extensa e sumptuosa galeria no rés-do-chão, cujas janelas davam para os jardins, tivera lugar o solene banquete oferecido pelo bispo Puget em 29 de Julho de 1714, ao arcebispo príncipe de Embrun, Carlos Brulaít de Genlis, António de Mesgrigny, capuchinho, bispo de Grasse, Filipe de Vendome, grão-prior de França, abade de Santo Honorato de Lérins, Francisco de Berton de Grillon, bispo-barão de Vence, César de Sabran de Forcalquier, bispo e senhor de Glandeve e a João Soanen, da congregação do oratório, pregador ordinário do rei e bispo e senhor de Senez. A sala achava-se decorada com os retratos destes sete reverendos personagens e em cima de uma mesa de mármore branco via-se gravada em letras de oiro a memorável data de 29 de Julho de 1714. O hospital era um pequeno edifício de um só andar, com um jardinzinho. Três dias depois da sua chegada, o bispo foi visitar o hospital. Terminada a visita, pediu ao director que o acompanhasse ao paço. Senhor director . perguntou-lhe quantos doentes tem a seu cargo? Vinte e seis, Monsenhor. Foi os que contei disse o bispo. As camas estão muito apertadas e juntas. Também reparei nisso. ~ As enfermarias são muito pequenas e têm falta de arejamento. Também me pareceu. E o jardim mal chega para os convalescentes passearem, quando está bom tempo. Assim é, com efeito. Em ocasiões de epidemias, como este ano, em que houve muitos casos de tifo, não sabemos como acomodar os doentes. Também me ocorreu isso. Mas, senhor bispo, não podemos fazer outra coisa senão resignarmo-nos concluiu o director. Esta conversa desenrolava-se na sala de jantar ou galeria do andar térreo. Após um momento de silêncio, o bispo voltou-se de repente para o director e perguntou-lhe: Quantas camas lhe parece que poderão caber nesta sala? Na sala de jantar de V. Ex.a?! exclamou o director, estupefacto. Entretanto, o bispo correu a vista pela sala, como quem mede e calcula as distâncias e disse como que falando consigo próprio: Podem aqui caber vinte camas à vontade! E em seguida acrescentou, elevando a voz: , Senhor director, é evidente que há aqui um grande erro. O senhor tem vinte e seis pessoas em cinco ou seis quartos pequenos. Nós aqui somos três e temos lugar para sessenta. Repito que há erro! O senhor ocupa a minha casa e eu vou ocupar a sua. Façamos, pois, a troca No dia seguinte, os vinte e seis pobres que naquela ocasião estavam doentes, eram transportados para o paço episcopal e o bispo mudava a sua residência para o hospital. Myriel não possuía bens de fortuna, pois a revolução arruinara completamente a sua família. A irmã tinha uma pensão vitalícia de quinhentos francos, a qual, enquanto Myriel fora pároco, bastava às suas despesas pessoais, e ele, como bispo, recebia do Estado uma dotação de quinze mil francos. No mesmo dia em que fixou a sua residência na casa que era dantes o hospital, determinou duma vez para sempre o emprego desta quantia, escrito pelo seu próprio punho da seguinte maneira: Distribuição das despesas da minha casa: francos Para o seminário 1 500 Congregação da missão 100 Para os lazaristas de Montdidier 100 Seminário das missões estrangeiras em Paris 200 Congregação do Espírito Santo 150 Estabelecimentos religiosos da Terra Santa 100 Sociedades de caridade maternal 300 Para a de Aries 50 Para melhoramentos das prisões 400 Para socorro e livramento de presos ... 500 Para livramento de pais de famílias presos por dívidas 1 000 Gratificações aos mestres pobres da diocese 2000 Para socorro dos pobres dos Altos-Alpes 100 Congregação das irmãs de Digne, de Manosque e de Sisteron, para o ensino gratuito das raparigas indigentes 1 500 Para os pobres 6 000 Para a minha despesa pessoal 1 000 Total 15000 Durante todo o tempo do seu episcopado, o virtuoso prelado não fez a menor alteração nestas disposições, a que ele, como se viu, dava o nome de distribuição das despesas da minha casa. Baptistina aceitou com a mais completa submissão a vontade do irmão. Para a virtuosa senhora, Myriel era não só seu irmão, mas seu bispo, seu amigo segundo a natureza, seu superior segundo a igreja. Amava-o e venerava-o inteira e simplesmente. Obedecia, quando ele ordenava e aderia às suas menores vontades sem fazer a mais leve observação. A criada Magloire é que não Se conformou inteiramente com semelhante distribuição, por ver que o bispo só reservava para si mil francos, os quais, reunidos à pensão de Baptistina, perfaziam a soma de mil e quinhentos francos anuais, único rendimento com que os três tinham de viver. E não só viviam, com efeito, como até quando algum pároco de aldeia vinha à cidade, o bispo ainda achava modo de hospedá-lo, graças à severa economia de Magloire e à inteligente administração de Baptistina. Uma ocasião, três meses decorridos, depois da sua chegada a Digne, o bispo disse: Apesar de tudo, sabe Deus como eu vivo constrangido! Isso vejo eu! . exclamou Magloire. Se Monsenhor nem ao menos requisitou à Câmara o subsídio que foi sempre costume dar aos bispos, para despesas na cidade e gastos de jornadas nas visitas do bispado! Parece-me que tem razão, Magloire disse o bispo. E fez a reclamação. Passado algum tempo, a Câmara, tomando em consideração o seu requerimento, votava-lhe a quantia anual de três mil francos, sob a seguinte rubrica: Subsídio ao senhor bispo para prover às despesas de estado e às das visitas pastorais. Não foi preciso mais para excitar as conversas da burguesia local, e para que, por essa ocasião, um senador do império, antigo membro do Conselho dos Quinhentos, partidário do dezoito brumário e provido numa pingue senatoria nas proximidades da cidade de Digne, escrevesse ao ministro dos cultos, Bigot de Préameneu, uma carta confidencial em termos irritados, da qual extraímos as seguintes linhas, cuja autenticidade garantimos: Carruagem para quê? Quererá andar de carruagem numa cidade que não chega a ter quatro mil habitantes? Despesas com a visita ao bispado? Em primeiro lugar, de que servem tais visitas? Em segundo lugar, como quer ele andar de carruagem numa terra montanhosa como esta, onde nem estradas há e só a cavalo se pode transitar? Se nem sequer a ponte de Duranc em Château-Arnoux, dá passagem a não ser a algum carro de bois? Os padres são todos assim, ávidos e avaros! Este, quando chegou aqui, apresentou-se como bom apóstolo; agora mostra-se como todos os outros, já precisa de carruagem, não dispensa o luxo dos bispos. Súcia de padrecas! Asseguro-lhe, senhor conde, que enquanto o im~ perador não nos livrar desta praga de carolas, as coisas não tomarão bom rumo. Abaixo o Papa! (Nesta época as relações com a Santa Sé andavam complicadas). Eu sou por César e só por César! etc., etc. A concessão que tanto incomodou o senador, encheu de júbilo Magloire. Ora graças a Deus! disse ela a Baptistina. . O senhor bispo começou a caridade pelos outros, mas lembrou-se, enfim, também de si. Agora já temos três mil francos. Nesse mesmo dia, o bispo entregou a sua irmã uma nota concebida do seguinte modo: Despesas para carruagem e visitas ao bispado: francos Para dar caldo de carne aos doentes do hospital 1500 Para a Sociedade de Caridade Maternal de Aix 250 Para a Sociedade de Caridade Maternal de Draguignan 250 Para os enjeitados 500 Para os órfãos 500 Total 3000 Tal era o orçamento do bispo Myriel. Quanto aos rendimentos eventuais, como dispensas de proclamas, bênçãos de igrejas ou capelas, casamentos, dispensas de vários géneros, tão grande era o vigor corn que o bispo o exigia dos ricos, como a facilidade com que o dava aos pobres. Passado algum tempo, começaram a afluir as ofertas de dinheiro. Os que tinham e os que não tinham todos batiam à porta da residência episcopal, uns para dar, outros para receber a esmola que os primeiros iam depositar nas mãos do virtuoso prelado. Em menos de um ano tornou-se o tesoureiro de todos os benefícios e o provedor de toda a miséria. Avultadas quantias lhe passavam pelas mãos, mas nem por isso fez a menor alteração no seu modo de viver, acrescentando ao que lhe era indispensável a mais insignificante superfluidade. Pelo contrário, como há sempre mais miséria nas camadas inferiores do que fraternidade entre as superiores, o bispo dava tudo, por assim dizer, antes de o ter recebido. O dinheiro na sua mão era como água em terra sequiosa, por mais que recebesse achava-se sempre sem dinheiro. Nestas circunstâncias despojava-se até do que lhe era indispensável. Guiados por uma espécie de afectuoso instinto, entre os nomes e apelidos do bispo, que, como é hábito, exarava no princípio das suas pastorais e circulares, os pobres da terra escolheram aquele que lhes oferecia um sentido. Assim, pois, todos o designavam por Monsenhor Bemvindo, o que muito lhe agradava e que nós igualmente adoptamos. Gosto deste nome dizia ele. Bemvindo modifica o tratamento de Monsenhor. Não é nossa pretensão dar como exacto o retrato que aqui traçamos; o que sabemos e nos limitamos a dizer é que ele é verdadeiro. _sec+Rom:3_ III A bom bispo, mau bispado Apesar de ter convertido a carruagem em esmolas, nem por isso deixava o bispo de fazer as suas visitas pastorais, visitas que na diocese de Digne eram infinitamente difíceis por causa das suas péssimas comunicações e da má natureza do terreno para quem viaja. Em toda a diocese, que se compõe de trinta e duas abadias, quarenta e um vicariatos e duzentos e oitenta e cinco curatos, não era empresa fácil, mas o prelado conseguiu levá-la a cabo. Quando as visitas eram nas vizinhanças, ia a pé; na planície, ia num carrinho coberto de vimes e, na montanha, a cavalo. As duas mulheres acompanhavam-no sempre, excepto quando a jornada era em extremo difícil para elas, porque então ia sozinho. Certo dia, entrou em Senez, antiga cidade episcopal, montado num jumento, porque a sua bolsa, naquela ocasião pouco abastecida, lhe não permitira outro modo de locomoção. O maire da cidade, recebendo-o à porta do paço, não ocultou o seu descontentamento vendo-o apear-se da insignificante cavalgadura, e alguns burgueses que se achavam também presentes chegaram até a rir. Senhor maire, e vós, senhores ~ disse o bispo ~ sei muito bem o que vos desagrada; acham que é demasiada soberba num pobre padre como eu servir-se para o seu transporte do mesmo meio que usou Jesus Cristo! Afirmo-lhes, porém, que o fiz por necessidade e não por vaidade. Nas suas visitas, mostrava-se indulgente e afável com todos os que se lhe apresentavam. Conversava mais do que pregava. Não ia nunca muito longe buscar os argumentos e modelos que desejava apresentar. Aos habitantes de uma localidade citava os da localidade vizinha. Nos cantões, cujos moradores se mostravam pouco compadecidos para com os necessitados, dizia: Vejam os habitantes de Briançon. Concederam aos indigentes, às viúvas e aos órfãos, licença de mandar ceifar as suas searas, três dias antes de mais ninguém. Por isso é uma terra abençoada por Deus. Só lá de cem em cem anos é que se ouve falar num assassínio. Nas aldeias onde os pequenos lavradores se viam a braços com grandes dificuldades para acudir ao serviço das colheitas, dizia: Olhai para o que fazem os de Embrun. Na ocasião das ceifas, se algum pai de família, que tem os filhos alistados no exército e as filhas a servir na cidade, adoece, vendo-se assim na impossibilidade de fazer a ceifa, o pároco recomenda-o na ocasião da prática, e no domingo, depois da missa, todos os habitantes da aldeia, homens, mulheres e crianças, se dirigem para o campo do pobre homem a fazer-lhe a colheita e a transportar-lhe a palha e o grão para a eira! As famílias a quem questões de partilhas e outros interesses trazia em desunião, dizia: Olhai para os montanheses de Devolny, terra tão selvática que nem de cinquenta em cinquenta anos se ouve o cantar do rouxinol! Pois ali, quando morre o chefe de qualquer família, os rapazes vão procurar fortuna noutra parte e deixam todo o património às irmãs para que elas possam fazer bons casamentos. Aos habitantes dos cantões, amigos de pleitos e questões que desbaratavam os seus haveres em papel selado, dizia: Olhai para aqueles bons aldeões de Queyras. É uma povoação de três mil almas e, louvado seja Deus, vivem como numa pequena república. Não sabem o que seja um juiz, um processo ou um escrivão. O maire é quem faz tudo. Reparte o imposto, colecta cada habitante o que em consciência lhe parece que deve pagar, julga todas as causas gratuitamente, preside às partilhas entre os membros de uma família sem cobrar emolumentos, profere sentenças sem levar nada às partes, e todos lhe obedecem, porque é um homem justo no meio de uma população de homens simples. Nas aldeias em que não encontrava mestre-escola, dizia, citando ainda como exemplo os habitantes de Queyras: Quereis saber o que eles fazem? Como um lugar de doze ou quinze fogos não pode só por si sustentar um mestre, combinam-se com os habitantes de outros lugares e assim arranjam, cotizando-se entre si, mestres que vão de lugar em lugar, demorando-se oito dias aqui, dez além, dando lições a quem delas se quer aproveitar. Os mestres, andam de feira em feira, como eu mesmo já presenciei, e dão-se a conhecer segundo o número de penas que trazem na fita do chapéu. Os que só ensinam a ler, trazem uma pena; os que ensinam a ler e a contar, usam duas e os que ensinam a ler, a contar e latim, usam três e são considerados grandes sábios. É uma vergonha ficar toda a vida ignorante, fazei como os de Queyras. Assim discursava o bom prelado, com gesto grave e paternal, inventando parábolas quando não tinha exemplos, conciso na frase, opulento em imagens, persuasivo e convicto, singelo e eloquente, como outrora a eloquência de Jesus Cristo, convincente e persuasiva _sec+Rom:4_ IV As palavras semelhantes às obras Dotado de génio prazenteiro e afável, conversava e ria alegremente com todos e em especial com as duas mulheres, companheiras- únicas do seu modesto viver, a cujas inteligências adaptava as suas conversas Quando ria, o seu riso parecia o de uma criança. Magloire tratava-o quase sempre por minha grandeza. Certa vez, o bispo levantou-se da sua poltrona e dirigiu-se à estante para tirar um livro, mas como era baixo e não pôde chegar-lhe, virou-se para a criada e disse-lhe: Magloire, traga-me uma cadeira, porque a minha grandeza não chega àquela prateleira. Entre as visitas que o bispo de Digne recebia na sua residência episcopal, contava-se a da condessa de Lô, sua parente afastada Todas as vezes que se encontravam, nunca aquela dama perdia a ocasião de lhe enumerar o que ela apelidava as esperanças dos seus três filhos Consistiam estas na próxima herança dos numerosos ascendentes da condessa, de quem seus filhos eram naturais herdeiros e que não prometiam longa duração. O mais novo, por morte de uma segunda tia, ficaria com um rendimento superior a cem mil francos, o segundo herdaria de um tio o título de duque; o mais velho sucederia ao avô no pariato O bispo, ordinariamente, limitava-se a escutar em silêncio as inofensivas e desculpáveis expansões do seu amor de mãe Todavia, numa das ocasiões em que a condessa de Lô repetia a enumeração de todas aquelas heranças em perspectiva, reparando no ar pensativo e distraído com que o prelado a escutava, interrompeu-se e disse-lhe um tanto despeitada: - Que tem, meu primo? Parece que não presta atenção nenhuma ao que eu digo Estou a pensar numa coisa singular que li respondeu o bispo e que segundo me parece, pertence a Santo Agostinho: «Ponde a vossa esperança naquele a quem ninguém substituiu» Outra vez, recebendo uma carta em que lhe participavam a morte de um fidalgo da terra, na qual, além das dignidades do defunto, pomposamente se ostentavam todas as qualificações feudais e nobiliárias dos seus parentes, exclamou: Que largas costas tem a morte! Como carrega, sem se queixar, tamanha carga de títulos, e que grande habilidade têm os homens para fazerem do túmulo instrumento da sua vaidade! Quando se lhe apresentava ensejo, tinha sempre pronto um dito, que encerrava um sentido sério. Um ano, pela quaresma, chegou à cidade um eclesiástico ainda novo que pregou na catedral. O assunto do seu tema foi a caridade e discursou eloquentemente sobre o assunto. Convidou os ricos a auxiliarem os pobres, a fim de evitarem o inferno, que ele pintou o mais horroroso que pôde e alcançarem o paraíso, que mostrou com as cores mais deliciosas e agradáveis. Entre o auditório, encontrava-se naquela ocasião um abastado negociante, chamado Géborand, o qual, depois de ter ganho dois milhões em empresas fabris, se retirara do comércio para se entregar com mais ou menos moderação ao tráfico usurário. Nunca na sua vida, Géborand dera esmola a um infeliz, mas depois deste sermão viam-no, todos os domingos, aproximar-se das cinco ou seis velhas que mendigavam à porta da catedral e dar um soldo para elas repartirem entre si. Um dia, indo o bispo a passar quando o negociante dava a uma das infelizes a costumada esmola, voltou-se para a irmã e disse-lhe, sorrindo: Ali está o senhor Géborand a comprar um soldo do paraíso! Quando se tratava de caridade, não recuava mesmo diante de uma recusa, pois tinha sempre pronta qualquer resposta que obrigava a reflectir. Uma vez, em certa reunião, tendo aberto um peditório para os pobres, aproximou-se do velho e avarento marquês de Champtercier, singular personagem que sabia o segredo de combinar o seu realismo exaltado com ideias ultra-voltarianas (esta variedade existiu) e disse-lhe, tocando-lhe no braço: E V. Ex.ª, senhor marquês, não contribui também? O marquês voltou-se e respondeu com modo brusco: Eu também tenho os meus pobres, senhor bispo. Nesse caso, rogo-lhe que mos dê. Um dia, na catedral, pregou este sermão: «Meus queridos irmãos e amados ouvintes, há em França um milhão e trezentas e vinte mil casas de habitação de camponeses, as quais só têm três aberturas; um milhão oitocentas e dezassete mil, que têm apenas duas, uma porta e uma janela; e, finalmente, trezentas e quarenta e seis mil cabanas, cuja única abertura é a porta. A causa disto é o denominado imposto das portas e janelas. Imaginai um montão de pessoas, uma família numerosa composta de velhos e crianças, vivendo juntas em cada um desses domicílios sem ar nem luz e pensai nas febres e epidemias a que isto pode dar origem! Oh, dá Deus o ar aos homens e a lei vende-lho! Não acuso a lei, mas bendigo a Deus! No Isera, no Var, nos altos e baixos Alpes, os camponeses, que nem carros de mão possuem, transportam os estrumes às costas; não têm candeeiros nem velas para os alumiar e para obterem luz queimam paus e fragmentos de cordas embebidos em resina. O mesmo acontecendo em todos os lugares do Alto Delfinado. Fabricam pão para seis meses e cosem-no com o estrume seco das vacas. No Inverno, corta-se o pão a machado e conservam-no de molho de um dia para o outro para se poder comer. Compadecei-vos, meus irmãos, vendo quantos infelizes sofrem em torno de vós!» Provençal de nascimento, o bispo familiarizara-se com todos os dialectos das regiões meridionais. Falava com extrema facilidade tanto o do baixo Languedoc, como o dos Baixos Alpes e do Alto Delfinado. Isto agradava ao povo e contribuía bastante para lhe granjear simpatias. No campo, na cidade, ou na mais humilde choupana das montanhas, achava-se como em sua casa. Sabia dizer as coisas mais complicadas na linguagem mais simples. Sabendo falar a todos, entrava em todas as almas. Além disto, a todos tratava de igual modo, fossem das camadas superiores ou das inferiores. Jamais formulava juízo desfavorável a respeito do que quer que fosse ou condenava sem atender às circunstâncias. Costumava dizer: «Vejamos o caminho por onde a culpa passou». Não obstante ser um ex-pecador, como a si mesmo se denominava, nunca professava as asperezas do rigorismo. A sua doutrina, que abertamente observava, a despeito da austeridade inflexível, podia, com pequena diferença, resumir-se no seguinte: «O homem tem sobre si a carne, que é o seu fardo e a sua tentação. Ela arrasta-o e ele cede-lhe. O seu dever é vigiá-la, contê-la, reprimi-la e não lhe obedecer senão na última extremidade. Essa obediência pode ainda ser culposa, mas a culpa assim é venial. É cair, mas cair de joelhos e por isso terminar em oração» «Ser santo é uma excepção; a regra é ser justo. Errai, caí, pecai, mas sede justos». «Pecar o menos possível é o dever do homem, não pecar nunca é o sonho do anjo. Tudo o que é terrestre está sujeito ao pecado. O pecado é uma gravitação». Quando via o tumultuoso alarido e a precipitada indignação de muitos, dizia, sorrindo: Basta ver a azáfama com que a hipocrisia se apressa a protestar e a pôr-se a salvo, para se conhecer que o fogo também lhe andou por casa! Indulgente para com as mulheres e para com os pobres, sobre quem recai sempre o anátema da sociedade, costumava dizer: As faltas das mulheres, das crianças, dos servos, dos fracos, dos indigentes e dos ignorantes, são as faltas dos maridos, dos pais, dos amos, dos fortes, dos ricos e dos sábios E continuava: Aos ignorantes, ensinai-lhes o mais que puderdes; a sociedade é a única culpada por não ministrar a instrução gratuita e torna-se responsável pelas trevas que produz. O pecado comete-se no meio da escuridão que envolve as almas. O culpado não é o que peca, mas sim de quem produziu a sombra. Como se vê, o prelado professava um singular e particular sistema de encarar as coisas, que desconfio tivesse aprendido no Evangelho. Certa noite, numa reunião em que ele se encontrava, contou-se a história de um processo há pouco instaurado e que em breve ia entrar em julgamento. Levado pelo seu extremoso afecto a uma mulher que lhe dera um filho, certo desgraçado ao ver-se sem recursos, fabricou moeda falsa. Nessa época, o fabrico de moeda falsa era punido com pena de morte. A mulher fora presa na ocasião em que passava a primeira moeda fabricada por ele. Conservaram-na presa, mas não tendo provas contra ela, começaram a acusar o amante. Era ela a única pessoa que o podia perder, denunciando-o, mas não o fez, negando sempre. Nova insistência. A mesma negativa. O procurador teve então uma ideia. Disse-lhe que o amante lhe era infiel, e por meio de alguns fragmentos de cartas astuciosamente forjadas,. persuadiu a infeliz de que o seu cúmplice a atraiçoava. Então num acesso de ciúme, ela denunciara o amante e confessara tudo. O homem estava perdido. Contava-se a história do infeliz, o qual em breve ia ser julgado em Aix com a sua cúmplice. Todos louvavam a admirável sagacidade do magistrado, que, pondo em acção o ciúme, fizera do ódio irromper a verdade e da vingança a justiça. O bispo escutara a narração em silêncio e depois de terminada, perguntou: Por quem vão ser julgados esse homem e essa mulher? Pelo tribunal. E quem julgará o procurador? Um dia, deu-se em Digne um trágico acontecimento. Um homem foi condenado à morte por crime de homicídio. Era um desgraçado não inteiramente destituído de instrução e que antes de ser preso exercia o duplo mister de saltimbanco e escritor público. O seu processo prendeu a atenção de toda a cidade. Na véspera do dia fixado para a execução do criminoso, o capelão da cadeia adoeceu repentinamente. Era preciso um sacerdote que assistisse ao paciente nos seus últimos momentos, e recorreu-se ao pároco, o qual se recusou, dizendo: Isso não é comigo, nada tenho que fazer com condenados, não é esse o meu lugar... e de resto também estou doente Depois de lhe contarem a resposta do pároco, o bispo respondeu: O pároco tem razão, não é ele que compete ir, mas sim eu E, dizendo isto, dirigiu-se imediatamente à cadeia, entrou na cela do saltimbanco, chamou-o pelo nome, estendeu-lhe a mão e conversou com ele, passou o dia a seu lado, sem se lembrar de comer nem de dormir, orando a Deus pela alma do condenado e pedindo a este que intercedesse pela dela. Disse-lhe as melhores verdades, que são as mais simples Foi pai, irmão, amigo, bispo somente para o abençoar Ensinou-lhe tudo, tranquilizando-o e consolando-o Aquele homem ia morrer desesperado A morte era para ele um abismo, a cujo limiar chegara forçado e à vista do qual recuava horrorizado e trémulo Não era tão ignorante que se tornasse completamente indiferente, mas o violento abalo da sua condenação como que abrira algumas fendas, nesse véu chamado a vida, que nos separa do mistério das coisas Até à chegada do bispo, por essas fatais aberturas, só via trevas; veio o bispo e apontou-lhe a claridade Quando, no dia seguinte, o vieram buscar para o conduzir ao cadafalso, o bispo, que não o tinha abandonado, acompanhou-o ao lugar do suplício, por entre os olhares da multidão, que o contemplava admirada, por vê-lo com o seu manto roxo e a cruz episcopal ao peito, ao lado do infeliz, com as mãos amarradas atrás das costas. Tão prostrado e angustiado na véspera, o rosto do condenado mostrava-se agora iluminado por um resplandecente clarão de alegria Reconciliado com a sua alma, entregava-se confiadamente a Deus No momento em que o carrasco se preparava para descarregar o golpe fatal, o bispo abraçou-o pela última vez, dizendo-lhe: Meu filho, o que morre para satisfação da justiça dos homens, ressuscita em Deus; o que se vê repelido por seus irmãos, encontra abertos os braços do pai! Orai, crede, entrai na vida celeste, que Deus lá vos espera! Quando desceu as escadas do cadafalso, o seu olhar fulgurava com uma estranha luz, que impunha respeito à multidão e a obrigava a dar-lhe passagem Não sabemos qual das coisas era mais digna de admiração, se a sua palidez, se a sua serenidade Ao entrar na sua modesta habitação, a que ele chamava, sorrindo, o seu palácio, disse à irmã: Acabei agora mesmo de celebrar pontificalmente Como quase sempre as coisas mais sublimes são também as menos compreendidas, não faltou na cidade quem, comentando o proceder do bispo, dissesse: Isso não passa de afectação ! Mas esta apreciação não saiu dos salões O povo, pouco propenso a deitar malícia nas acções santas, admirava-o e mostrava-se comovido. No que respeita ao bispo, a vista da guilhotina causou-lhe um abalo profundo, de que durante muito tempo não lhe foi possível restabelecer-se. O aspecto do cadafalso, com efeito, quando se ergue tem qualquer coisa de alucinante. Pode mostrar-se indiferença em relação à pena de morte; podemos hesitar, não nos pronunciarmos claramente, enquanto com os nossos próprios olhos não vemos uma guilhotina, mas, desde que a vimos, o abalo que nos causa é tão violento que temos de nos decidir ou pró ou contra Admiram-na uns como Maistre, outro detestam-na como Becaria A guilhotina é a expressão concentrada da lei; chama-se vingança, não é neutral nem nos permite sê-lo. Quem a vê sente percorrer-lhe no corpo o mais misterioso estremecimento. Em volta desse cutelo surgem todas as questões sociais como um ponto de interrogação. O cadafalso é uma visão, não é um madeiramento, uma máquina, um mecanismo inerte feito de pau, ferro e cordas. É uma espécie de ente dotado de não sei que sinistra iniciativa. Dir-se-ia que essa mola de madeira vê, que essa máquina ouve, que esse mecanismo compreende, que esse ferro e essas cordas têm uma vontade. A vista de um cadafalso faz embrenhar o espírito em sombrias cogitações, do meio das quais surge terrível e como que circundado dos espectros das suas vitimas. O cadafalso é o cúmplice do carrasco, nutre-se de carne e sangue humano. É uma espécie de monstro fabricado pelo juiz e pelo ’carpinteiro, um espectro que parece viver a horrorosa existência composta de todas as mortes que tem dado. A impressão que semelhante vista causou no espírito do bispo foi tão profunda e horrível, que no dia seguinte e ainda daí por muitos dias, o bondoso prelado parecia visivelmente oprimido. A serenidade quase violenta do momento fúnebre havia desaparecido para dar lugar ao fantasma da justiça social que o perseguia e obcecava. Ele, que habitualmente voltava de todos os actos que ia desempenhar com tão radiante satisfação, agora quase parecia exprobar-se do que tinha feito. Às vezes punha-se a falar sozinho, balbuciando lúgubres monólogos. Eis um, que a irmã, uma noite, ouviu e conservou de memória: «Nunca supus que fosse uma coisa tão monstruosa! É um erro deixarmo-nos absorver pela lei divina, a ponto de olvidar inteiramente a lei humana. Matar só a Deus pertence! com que direito tocam os homens nessa entidade desconhecida?» com o decorrer do tempo, estas impressões foram-se atenuando, até talvez se extinguirem. Todavia, houve quem notasse que o bispo, desde então, evitava passar pela praça onde tinham lugar as execuções. ||| Podiam chamar o prelado a qualquer hora para ir confessar um enfermo ou assistir a um moribundo, queele não ignorava ser este o seu dever mais sagrado, a sua missão mais sublime. As viúvas e os órfãos não precisavam de o chamar, porque ele lhes acudia voluntariamente. Sabia estar sentado durante horas inteiras a escutar silencioso e a animar com palavras de conforto o homem que perdera a mulher amada, ou a mãe que perdera o filho querido. Admirável consolador! Os seus esforços não tendiam a fazer extinguir a dor pelo esquecimento, mas a engrandecê-la pela esperança! Atentai bem no modo como contemplais os mortos dizia ele. Não ocupeis o vosso pensamento com o que apodrece. Olhai fixamente e vereis no fundo do céu a chama viva do ente morto a quem amáveis. Ele sabia que a crença era santa e por isso aconselhava e serenava o homem desesperado, apontando-lhe o homem resignado, e transformava a dor imóvel diante de uma sepultura, indicando-lhe a dor que fita os olhos no cintilar de uma estrela. _sec+Rom:5_ V Como Monsenhor Bemvindo poupava as suas batinas A vida íntima de Carlos Myriel assemelhava-se inteiramente à sua vida pública. Se fora dado a alguém observá-la de perto, ficaria impressionado com o grave e ao mesmo tempo gracioso espectáculo da pobreza voluntária em que vivia o bispo de Digne. Como todos os velhos e como a maior parte dos pensadores, dormia pouco, mas profundamente. Pela manhã, após uma hora de recolhimento, dizia a sua missa na catedral ou no seu oratório particular e, assim que terminava esta tarefa diária, ia almoçar. O seu almoço consistia em algumas sopas de pão de centeio com leite, extraído de duas vacas que tinha em casa. Em seguida, dava princípio aos seus trabalhos. Um bispo é um homem ocupadíssimo; tem de dar todos os dias audiências ao secretário da câmara eclesiástica, que habitualmente é um cónego, e a quase todos os seus vigários gerais. Além disto, tem de visitar congregações, conceder licenças, examinar uma completa livraria espiritual como catecismos, livros de horas, etc., escrever pastorais, compor as desavenças entre os párocos e as autoridades, dar expediente à correspondência eclesiástica e à civil, atender de um lado o estado, de outro a igreja; finalmente, mil coisas que lhe reclamam a atenção. O tempo que lhe sobrava do breviário e do cumpri- ! mento de todos os seus encargos e obrigações, dedicava-o em primeiro lugar com os necessitados, com os enfermos e aflitos; e o que de tudo isto ainda lhe sobrava, aplicava-o ao trabalho, ora cavando a terra da sua horta, ora a ler, ou a escrever. A estas duas espécies de trabalho, designava-as com o mesmo nome: jardinar. O espírito é um jardim costumava ele dizer. Ao meio-dia, quando o dia estava ameno, saía e dava um passeio pela cidade ou pelos arrabaldes, visitando muitas vezes as casas dos pobres que deparava no caminho. Nada mais fácil do que encontrá-lo sozinho, absorto nas suas cogitações, de olhos fitos no chão, i , encostado à sua comprida bengala, agasalhado na sua acolchoada capa roxa, meias da mesma cor, grandes sapatos e o seu chapéu de três bicos com uma grande borla de oiro em cada um. Onde quer que aparecesse, todos o festejavam. Dir- -se-ia que a sua presença aquecia e iluminava. Por onde ele passava, velhos e crianças assomavam às portas, com o mesmo alvoroço com que sairiam a aquecer-se aos ’[ raios do sol. Ele abençoava o povo, o povo abençoava-o a ele, apontando a residência episcopal como o lugar em que todo o infortúnio acharia alivio e toda a neces- ’ sidade socorro. Parava a cada momento, gracejando com os rapazes e raparigas, sorrindo benevolamente para as mães e dando conselhos a todos. Enquanto tinha dinheiro, visitava os pobres; acabado ele, visitava os ricos. Como queria que as batinas lhe durassem muito tempo, nunca saía a passear pela cidade senão com a capa roxa, o que de Verão não deixava de o incomodar. Depois voltava a casa para jantar. O jantar assemelhava-se ao almoço. Às oito e meia da noite, ceava em companhia da irmã, servidos por Magloire, que se conservava de pé por trás deles. Nada mais frugal do que esta refeição, excepto quando o bispo tinha algum hóspede, porque então Magloire arranjava pretexto para apresentar na mesa algum peixe ou alguma peça de caça. A isto, que se repetia sempre que havia hóspedes no paço, o bispo nada dizia. Fora destas ocasiões, as refeições habituais constavam sempre de legumes ou de alguma simples sopa. Deste frugal modo de viver originava-se o seguinte dito, já proverbial na cidade: Hóspede no paço é domingo gordo em casa de jornaleiro. Depois da ceia, demorava-se ainda meia hora a conversar com Baptistina e com Magloire, recolhendo-se em seguida ao seu quarto, onde se punha a escrever em folhas soltas ou na margem de algum in~fólio. Carlos Myriel era instruído e alguma coisa versado nas ciências, como o provam os cinco ou seis curiosos manuscritos por ele deixados, entre os quais se conta uma dissertação sobre o versículo do Génesis: No princípio do mundo o espírito de Deus pairava sobre as águas. com este versículo confronta o árabe que diz: Sopravam os ventos de Deus. Outro de Flávio José: Um vento vindo do alto, precipita-se sobre a terra. E finalmente a paráfrase caldaica de Onkelos, onde se lê: Um vento mandado por Deus soprava sobre a superfície das águas. Noutra dissertação examina as obras teológicas de Hugo, bispo de Ptolomeida, tio em terceiro grau do autor deste livro, concluindo que se devem atribuir a esse ’bispo os diversos opúsculos publicados no século passado sob o pseudónimo de Barleycourt. As vezes, qualquer que fosse o livro que tivesse entre mãos, parava subitamente de ler e caía em profunda meditação, finda a qual se punha a escrever algumas linhas, nas próprias páginas do volume, sem, muitas vezes, aquilo que escrevia ter relação alguma com o que dizia o livro. Temos a seguir uma nota escrita por ele na margem de um livro: Correspondência de Lord Germai com os generais Clinton, Cornwalis e com os almirantes da estação da América. Versailles, em casa do livreiro Poinçoí; e em Paris, na do livreiro Pissot, cais dos Agos~ tinhos. A nota diz: «Oh, vós quem sois!? «O Eclesiastes chama-vos Todo Poderoso; os Macabeus, Criador; a Epístola aos Éfesos, Liberdade; Baruch, Imensidade; os Salmos, Sabedoria e Verdade; João, Luz; o Livro dos Reis, Senhor; o Êxodo, Providência; o Levítico, Santidade; Esdras, Justiça; a criação, Deus; o homem, Pai; Salomão, porém, chama-vos Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes». Às nove horas, as duas mulheres retiravam-se para os seus quartos, que ficavam no primeiro andar, deixando o bispo sozinho, até de madrugada, no rés-do-chão. Agora é necessário dar a exacta ideia da habitação do bispo de Digne. _sec+Rom:6_ VI Quem guardava a casa do prelado A casa que o bispo habitava compunha-se de rés-do-chão e primeiro andar; o rés-do-chão era dividido em três salas, o andar superior em três quartos, por cima dos quais ficava um sótão. Nas traseiras da casa havia um pequeno jardim. As duas mulheres ocupavam o primeiro andar, o bispo o rés-do-chão. A primeira sala, cujas janelas deitavam para a rua, servia-lhe de sala de jantar, a segunda de quarto de dormir e a terceira de oratório. Não se podia sair deste sem passar pelo quarto de dormir, nem do quarto de dormir, sem passar pela sala de jantar. No fundo da sala que servia de oratório havia uma alcova fechada, com uma cama de reserva para os hóspedes, que o bispo oferecia aos párocos de aldeia que os seus próprios negócios ou as necessidades das suas paróquias obrigavam a vir a Digne. A farmácia do hospital, pequeno compartimento ao fundo do jardim, servia de cozinha e dispensa. Havia, além disso, também no jardim, um estábulo, que em tempos fora a cozinha do hospício e onde agora o bispo guardava duas vacas. Por pouco que fosse o leite que elas dessem, mesmo assim, todos os dias pela manhã, o prelado mandava entregar metade aos doentes do hospital, ao que ele chamava «pagar o seu dízimo». Como o seu quarto, demasiadamente grande, era muito frio de Inverno e a lenha em Digne fica por elevado preço, lembrou-se de mandar fazer no estábulo das vacas um compartimento de madeira, onde passava as noites mais frias. Chamava-lhe ele o seu salão de Inverno. Os móveis do salão de Inverno consistiam apenas, como os da sala de jantar, numa mesa quadrada de pinho e quatro cadeiras de palhinha. Na sala de jantar apenas havia mais um velho bufete, pintado de vermelho. De um bufete igual, convenientemente adornado de toalhas e rendas de pouco custo, fizera o bispo o altar que decorava o oratório. Por várias vezes, as confessadas ricas do bispo e outras devotas da cidade se haviam quotizado entre si para, à sua custa, lhe mandarem fazer no oratório um altar mais asseado, mas, de todas as vezes, o prelado dera o dinheiro aos pobres. - O melhor de todos os altares é, dizia ele é a alma de um infeliz agradecendo a Deus o alívio do seu infortúnio! No oratório tinha dois genuflexórios de palhinha e no quarto de dormir uma cadeira de braços, também de palhinha. Quando acontecia sete ou oito pessoas virem-no visitar ao mesmo tempo, o prefeito, o general, o estado-maior do regimento que fazia a guarda da cidade, ou os alunos do seminário, era preciso ir ao estábulo buscar as cadeiras do salão de Inverno, os genuflexórios ao oratório e a cadeira de braços ao quarto de dormir, conseguindo-se, deste modo, reunir até onze assentos, se tantas eram as visitas. À medida que iam chegando, ia-se desguarnecendo de móveis cada sala. Sucedia algumas vezes serem doze as visitas; então o bispo dissimulava o embaraço da situação, conservando-se em pé junto do fogão, se era de Inverno, ou passeando no jardim, se era de Verão. Havia ainda na alcova uma cadeira de palhinha, mas como, além de ter o assento arrombado, só tinha três pernas, não podia servir senão encostando-a à parede. A senhora Baptistina tinha também no seu quarto uma grande poltrona com dourados, que já mal se conheciam, mas como a escada era demasiado estreita, não pudera ser conduzida para o primeiro andar, senão içando-a pela janela, resultando daí que não se podia contar com o seu auxílio para as ocasiões de apuro. Baptistina tivera sempre a ambição de poder comprar uma mobília completa de acajú, para ornamentar devidamente aquela modesta casa Mas para tal ser-lhe-iam necessários, pelo menos, quinhentos francos, e vendo que durante cinco anos não conseguira economizar mais de cinquenta francos, renunciara tristemente ao seu projecto Nada mais simples de imaginar do que o quarto de dormir do bispo. Uma janela rasgada, que deitava para o jardim; defronte, uma cama de ferro de hospital, com cortinado de sarja verde; junto da cama, encobertos por uma cortina, vários objectos de toucador, denunciando ainda os hábitos elegantes do homem de boa sociedade; duas portas, uma junto do fogão, que dava para o oratório, a outra próxima da estante, dando para a casa de jantar. A estante, grande armário envidraçado cheio de livros; o fogão, guarnecido de madeira pintada a fingir mármore, quase sempre apagado, com trempe de ferro ornada de dois vasos cheios de plantas e embutidos, primitivamente prateados a fosco, o que constituía certo luxo episcopal; por cima do fogão via-se um crucifixo de cobre desprateado, assente sobre um pedaço de veludo preto ja muito velho, num caixilho que fora dourado; junto da janela, uma espaçosa mesa com um tinteiro ao centro, pejada de volumosos livros e papéis em confusão. Ao pé da mesa a cadeira de palhinha e ao pé da cama um genuflexório, pertencente ao oratório. De cada lado da cama, viam-se dois retratos em caixilhos ovais, pendurados na parede. Algumas inscrições gravadas em letras de oiro no fundo escuro de cada tela. por baixo das figuras, indicavam que os retratos representavam, um o abade de Chaliot, bispo de S. Cláudio, o outro, o abade Tourteau, vigário geral de Agde e abade de Grand-Champs, da ordem de Cister, na diocese de Chartres. Quando o bispo fixara a sua residência naquela casa, que fora o hospital, encontrara ali aqueles retratos e deixara-os ficar no mesmo lugar, porque eram de sacerdotes e talvez de benfeitores, duas razões para que ele os respeitasse. Tudo o que ele sabia acerca destes dois personagens era que ambos tinham sido providos, um no seu bispado, outro no seu benefício, por nomeação régia datada do mesmo dia, 27 de Abril de 1785. Soubera esta circunstância por a ter encontrado escrita em caracteres que já mal se liam, num quadradinho de papel, amarelado pela acção do tempo, pregado com quatro obreias na parte posterior do retrato do abade de Grand-Champs, numa ocasião em que Magloire tirara os dois quadros para os limpar do pó. Pendia da larga janela uma cortina de grosseiro tecido de lã muito antigo, que Magloire para evitar a despesa de uma nova, se viu na necessidade de lhe fazer uma grande costura no centro. Como a costura apresentava exactamente a forma de uma cruz, o bispo indicava-a às vezes, dizendo: - Nunca houve costura com aspecto mais agradável. Os quartos, tanto os do rés-do-chão como os do primeiro andar, eram todos caiados de branco, como era habitual nos hospitais e nos quartéis. Muitos anos depois, porém, Magloire encontrou por baixo do papel caiado várias pinturas que ornavam o quarto de Baptistina. Antes de ser hospital, aquela casa fora centro de reunião dos burgueses e daí provinha a decoração. Os quartos eram ladrilhados de tijolos, que todas as semanas se lavavam, e aos pés de cada cama havia uma esteira. Numa palavra, a humilde habitação do bispo, a cargo das duas mulheres, respirava o perfume da mais esmerada limpeza. Era o único luxo que ele consentia. . com isto não se tira nada aos pobres! costumava ele dizer. Convém, contudo, dizer, que lhe restava ainda, do que outrora possuíra, seis talheres de prata e uma colher de sopa, que Magloire via todos os dias, com o maior prazer, reluzir sobre a alva toalha de linho grosso que cobria a mesa. E já que aqui pintamos o bispo de Digne tal qual era, devemos acrescentar que mais de uma vez se lhe ouvira dizer: Há-de custar-me muito comer com um talher que não seja de prata! A esta baixela acrescentaremos também dois castiçais de prata maciça, que herdara de uma tia. Estes castiçais que tinham duas velas de cera, figuravam habitualmente sobre o fogão. Quando havia algum hóspede, Magloire acendia as velas e colocava os castiçais sobre a mesa. No quarto do bispo, junto à cabeceira da cama, havia um pequeno armário onde Magloire todas as noites fechava os talheres, mas sem nunca tirar a chave. O jardim, um tanto prejudicado pelas feias construções de que já falámos, era dividido por quatro caminhos em cruz, com um tanque no centro Ao longo do muro caiado que fechava o jardim, havia outro caminho que o circundava. Estas ruas eram separadas por canteiros orlados de buxo, em três dos quais Magloire cultivava legumes, ficando ainda outro, onde o bispo tinha as suas flores e onde plantara também algumas árvores de fruto Numa ocasião, a criada dissera ao bispo, sorrindo com ar de afectuosa malícia: Monsenhor, que de tudo tira proveito, não sei como tem no jardim um canteiro inutilizado. Não seria melhor semear nele alfaces em vez de flores? Está enganada, Magloire respondeu ele. O agradável é tão útil como o útil. E, após um momento de silêncio, acrescentou: Ou talvez mais. O canteiro, que era dividido em quatro alegretes, ocupava a atenção do bispo, tanto como os seus livros Sempre que podia, passava ali uma ou duas horas, cortando, sachando, mondando e lançando à terra novas sementes. Menos hostil com os insectos do que seria para desejar num jardineiro, o bispo também não tinha aspirações a botânico; desconhecia os grupos e as famílias, não se lembrando sequer de decidir entre Tournefort e o método natural, nem de tomar partido pelos utrículos contra os cotyledonios ou por Jussieu contra Limeu. Não estudava as plantas, amava as flores. Respeitava muito os sábios, respeitava ainda mais os ignorantes e, sem nunca deixar de respeitar uns e outros, no Verão regava todas as tardes os seus alegretes com um regador de lata pintado de verde. Em toda a casa não havia uma só porta fechada à chave. A porta da sala de jantar que dava saída para o largo da catedral, fora, em tempos, guarnecida de fechaduras e ferrolhos, como se fosse a porta de uma prisão. O bispo mandou tirar todas as fechaduras e daí em diante quer fosse noite, quer dia, a porta apenas ficava segura por um simples fecho. Quem quisesse abrir a porta, podia fazê-lo a qualquer hora. Nos primeiros tempos, isto afligia as duas mulheres, mas o bispo dizia-lhes: Se quiserem mandem pôr ferrolhos nos vossos quartos. Desde então, elas principiaram a participar da confiança do bispo ou, pelo menos, a mostrar que participavam. Apenas Magloire sentia, de tempos a tempos, renascer-lhe os receios. No que respeita ao prelado, podem dar-nos a explicação ou, pelo menos, indicação do seu pensamento, as seguintes linhas escritas por ele na margem de uma folha da Bíblia: «Eis a diferença: a porta do médico nunca deve estar fechada e a porta do sacerdote deve estar sempre aberta» Noutro livro intitulado Filosofia da ciência médica, escrevera ele esta nota: «Tão médico sou eu como eles. Eles têm os seus enfermos, aos quais chamam doentes; eu tenho esses e os meus, a quem chamo desgraçados». Noutra parte lia-se ainda: «Não pergunteis nunca o nome de quem vos pedir pousada Aquele que necessita de ocultar o seu nome, é quem mais carece de asilo». Uma ocasião, um respeitável pároco, não sabemos bem se o de Couloubroux, se o de Pompierry, perguntou-lhe, talvez instigado por Magloire, se estava certo de não cometer, até certo ponto, uma imprudência, deixando de noite a porta aberta, à mercê de quem quisesse entrar, e se, finalmente, não receava consequências desagradáveis numa casa tão mal guardada. O bispo, com serena gravidade, pôs-lhe a mão no ombro e disse-lhe: Nisi Dominus custodierit domum, in vanum vigilant qui custodiunt earn. Dizendo isto, mudou logo de assunto. O sacerdote costumava ele dizer tem tanta bravura como o militar. com a diferença acrescentava que a nossa deve ser mais pacífica. _sec+Rom:7_ VII Gravatte, o salteador Vem a propósito aqui um facto que não devemos omitir, por ser um dos que melhor dão a conhecer o carácter do virtuoso bispo de Digne. Depois de destroçada a quadrilha de Gaspar Bés, terrível bandido que infestara as gargantas de Olialles, refugiara-se na montanha com mais alguns salteadores que conseguiram escapar à justiça, um dos seus lugares-tenentes, chamado Gravatte. Conservando-se algum tempo oculto no condado de Nice, Gravatte entrou no Piemonte e, quando menos era esperado, reapareceu em França, do lado de Bercelonette, sendo visto primeiro em Jausiers e depois em Tuiles. Oculto nas cavernas de Joug-de-1’Aigle, fazia frequentes incursões nos lugares e aldeias dos arredores, descendo pelos barrancos de Ubaye e do Ubayette. Uma noite, chegou mesmo a entrar em Embrun, onde penetrou na catedral, roubando todos os objectos que se encontravam na sacristia. Os seus repetidos assaltos traziam a terra em contínuo e terrível sobressalto. Destacou-se um corpo de gendarmeria para o perseguir, mas foi trabalho baldado. Escapava-se sempre e até algumas vezes resistia às forças mandadas em sua perseguição. No meio deste terror, chegou o bispo, que andava a fazer as suas visitas pelo distrito de Chastelar. O maire foi ao seu encontro e pretendeu convencê-lo de quanto seria prudente voltar para trás, pois Gravatte ocupava a montanha até para além do Arche. Tornava-se perigoso atravessá-la, mesmo com uma escolta, porque seria expor inutilmente a vida de três ou quatro pobres soldados. Por isso mesmo tenciono ir sem escolta disse o bispo. . Pois Monsenhor intenta semelhante coisa?!exclamou o maire. De tal modo que recuso a companhia dos soldados e daqui a uma hora pôr-me-ei a caminho. Pois teima em partir? Porque não? Sozinho? Sim. ~~ Isso é uma temeridade, senhor bispo. Há três anos replicou o bispo que não visito o pequeno e humilde lugarejo da montanha, cujos habitantes e bons pastores, são todos meus amigos. A sua riqueza é uma cabra de cada rebanho de trinta que guardam; a sua indústria, é fazer bonitos cordões de lã de diversas cores e o seu divertimento, tocar árias montanhesas em flautins de seis buracos. Precisam de ouvir a palavra de Deus de tempos a tempos. Que haviam de dizer de um bispo medroso? Que diriam se eu lá não fosse? ~- Mas, Monsenhor, e os salteadores? É verdade, tem razão. Se os encontrasse... Olhe que também devem ter necessidade de ouvir falar em Deus! É uma grande quadrilha! Um rebanho de lobos! Pois talvez seja desse rebanho, senhor maire, que Jesus queira que eu seja pastor. Quem sabe os desígnios da Providência? Podem roubá-lo, senhor bispo. Não tenho nada. Podem assassiná-lo! Ora! com que fim fariam eles mal a um pobre sacerdote que vai a passar, ocupado unicamente em rezar as suas orações? . Valha-me Deus! Que sucederá se os encontrar? Pedir-lhes-ei esmola para os meus pobres. Em nome do céu, Monsenhor, não exponha a sua vida! Pois é esse o seu temor, senhor maire! atalhou o bispo. Eu não ando no mundo para guardar a minha vida, mas sim para guardar as almas! Ninguém o pôde fazer mudar de resolução. Apesar de todas as súplicas, partiu acompanhado apenas por um rapaz que se prestou a servir-lhe de guia. A sua obstinada resistência deu muito que falar, deixando os ânimos sobressaltados em extremo. Desta vez não quis que a irmã nem Magloire o acompanhassem Atravessou a montanha montado numa mula e chegou são e salvo até aos pastores seus amigos, sem ter tido o menor encontro desagradável. Demorou-se quinze dias no meio deles, pregando, ensinando, moralizando, administrando os sacramentos. Quando estava prestes a retirar-se, resolveu cantar pontificalmente um Te-Deum e comunicou a sua intenção ao cura. Mas surgiram graves dificuldades, pois não havia as insígnias episcopais que era mister. A modesta igreja paroquial apenas podia pôr à disposição do bispo alguns deteriorados paramentos de damasco, guarnecidos de galões falsos. Isso não será obstáculo, senhor cura disse o bispo. Anuncie na missa o nosso Te-Deum, que o mais sempre se há-de arranjar. Procuraram-se paramentos em todas as igrejas dos arredores e reunidas as magnificências das humildes paróquias, mal chegavam para revestir convenientemente um chantre da catedral. Achavam-se as coisas nestes apuros, quando à porta da residência paroquial chegaram dois cavaleiros desconhecidos que, depois de fazerem entrega de uma grande caixa de que eram portadores, tornaram a partir imediatamente. Aberta a caixa, viu-se que continha uma dalmática carregada de oiro, uma mitra guarnecida de diamantes, uma cruz arquiepiscopal, um báculo magnífico, todos os paramentos pontificais roubados um mês antes da sacristia de Nossa Senhora de Embrun. No fundo da caixa estava um papel em que se liam estas palavras: Oferta de Gravatte a Monsenhor Bemvindo. Eu bem dizia que tudo se havia de arranjar! . exclamou o bispo. Em seguida acrescentou, sorrindo: A quem se contentava com a sobrepeliz de um simples cura, envia Deus um manto de arcebispo! Deus... ou o diabo! murmurou o pároco, abanando a cabeça com um sorriso de incredulidade. O bispo fitou atentamente o pároco e replicou em tom austero: Foi Deus. Quando voltou a Chastelar, de todos os lados, vinha gente à beira da estrada para o ver passar. Chegado à residência paroquial de Chastelar, encontrou a irmã e Magloire que o esperavam ali e, apenas as viu, exclamou: Então, eu não tinha razão? Vai um pobre sacerdote visitar os infelizes montanheses com as mãos vazias e volta de lá com elas cheias! Quando fui, levava apenas a minha confiança em Deus, e agora volto trazendo o tesouro de uma catedral! À noite, antes de se deitar, disse ainda: Não tenhamos receio de ladrões e de assassinos. São muito pequenos os perigos exteriores. Devemos ter receio é de nós próprios! Os preconceitos e os vícios é que são os verdadeiros ladrões e os verdadeiros assassinos! Os maiores perigos são os que se acham dentro de nós mesmos. Que importa que a nossa cabeça ou a nossa bolsa esteja ameaçada? Não devemos temer senão o que nos ameaça a alma! Depois, voltando-se para a irmã, acrescentou: Minha irmã, o sacerdote não deve precaver-se contra o próximo. Aquilo que ele pratica é permitido por Deus. Limitemo-nos a implorar a bondade divina, quando nos julguemos ameaçados por qualquer perigo. Imploremo-la, não por nós, mas para que os nossos irmãos não caiam em tentação por nossa causa. Todavia, os acontecimentos fora do comum, eram raros na sua existência. O modo de viver do bispo era quase sempre idêntico, passava a vida a fazer sempre as mesmas coisas nas mesmas ocasiões, de modo que um mês do seu ano assemelhava-se a uma hora do seu dia. Quanto ao destino que levou o tesouro da catedral de Embrun, embaraçados nos veríamos se alguém nos perguntasse o que foi feito dele. Eram, na verdade, coisas muito ricas e tentadoras para não serem furtadas em proveito dos desvalidos. E demais, furtadas já elas tinham sido. Metade da aventura estava passada; o que faltava era mudar apenas a direcção do furto, fazendo-lhe dar mais uns passos para o lado dos pobres. Não afirmaremos, pois, coisa alguma a tal respeito. O que sabemos ao certo é que entre os papéis do bispo apareceu uma nota de certo modo obscura, que alude talvez a este assunto, e concebida nos seguintes termos: O ponto consiste em saber se isto deve voltar para a catedral, ou ir para o hospital. _sec+Rom:8_ VIII Filosofia de sobremesa O senador de que atrás falámos, era um homem entendido, que percorrera sempre o seu caminho com rectidão pouco atenta a todos os encontros que lhe servem de obstáculo e a que se chama consciência, fé, justiça e dever; superior a semelhantes preconceitos, caminhara sempre direito ao seu fim, sem uma só vez se desviar da linha do seu adiantamento e interesses. Era um antigo procurador, não pervertido pela prosperidade nem dotado de mau coração, prestando com facilidade os serviços que podia em favor dos filhos, genros, parentes e até amigos; aproveitara sempre os ensejos da fortuna e o que a vida tem de melhor, sem se importar com mais nada, porque o contrário, no seu entender, era asneira. Espirituoso e instruído suficientemente para se julgar discípulo de Epicuro, não passando talvez de um produto de Pigault-Lebrun, ria-se com a maior satisfação e vontade das coisas infinitas e eternas e dos desvarios do bom bispo, chegando, por vezes, a fazê-lo com a mais prazenteira autoridade, na presença do próprio prelado. Um dia, por ocasião de uma cerimónia semi-oficial, encontraram-se a jantar em casa do prefeito, Carlos Myriel e o conde de... (o senador). À sobremesa, o senador, um tanto prazenteiro, sem contudo perder a dignidade, exclamou: Senhor bispo, se não se importa, conversemos um bocado. Um senador e um bispo raramente conseguem fitar-se sem piscar os olhos Nós somos dois agoureiros. vou fazer-lhe uma revelação. Tenho um sistema filosófico propriamente meu. Faz muito bem respondeu o bispo. Conforme é a filosofia que professamos, assim é a cama que preparamos para nós próprios A de V. Ex.ª deve ser de púrpura, senhor senador. Este, mais animado, continuou: Sejamos bons rapazes! Pobres diabos, mesmo! disse o bispo. Declaro-lhe prosseguiu o senador que o marquês de Argens, Pyrrhon, Hobbes e Naigeon, não são nenhuns parvos ridículos. Tenho na minha biblioteca todos os meus filósofos, magnificamente encadernados. Como V. Ex.”, senhor conde interrompeu o bispo. O senador prosseguiu: ~ Odeio Diderot! É um ideólogo, um declamador revolucionário, mas no íntimo mais crente em Deus e mais religioso do que Voltaire. Este escarnecia de Needham e não tinha razão, porque as enguias de Needham provam que Deus é inútil. Uma gota de vinagre numa colher de farinha amassada vale pelo fiat lux. Imaginem uma gota maior e uma colher de mais avantajadas dimensões e aí têm o mundo! O homem é a enguia! Neste caso, de que serve o Padre Eterno? Senhor bispo, não posso levar à paciência a hipótese Jeová. Só serve para emagrecer os que pensam demais. Abaixo, pois, esse grande T”odo que me incomoda! Viva Zero, que me deixa tranquilo! Aqui entre nós, para não ficar nada por dizer e confessar-me ao meu pastor, como devo: declaro-lhe que, por ora, tenho a cabeça no devido lugar, e não me sinto apaixonado pelo seu Jesus que prega por todos os cantos a renúncia e o sacrifício. Conselho de um avarento dado a mendigos. Renúncia, porquê? Sacrifício, a quem? Não é crível que um lobo se imole por outro lobo. Conservemo-nos como a natureza nos fez. Estamos no cume, seja também superior a nossa filosofia. De que serve estar no cimo, se a gente não vê um palmo adiante do nariz? Vivamos alegremente, porque na vida se cifra tudo! No outro futuro que dizem que o homem tem cá por cima, lá por baixo, em qualquer parte, isso escusam de pregar, porque não creio numa só palavra. Como me recomendam o sacrifício e a renúncia, devo meditar sobre todas as minhas acções e quebrar a cabeça para distinguir o bem do mal, o justo do injusto, e o lícito do ilícito Porquê? Porque terei de dar contas das minhas acções? Quando? Depois da minha morte. Que bonito sonho! Depois de eu morrer hão-de pegar-me nas botas! Falemos franco, nós que somos iniciados e que erguemos a túnica de Isis. Não há bem nem mal, há apenas vegetação. Procuremos a realidade, cavemos até ao fundo, que diabo! É necessário encontrar a verdade, cavemos até encontrá-la e tenhamos a certeza de que ela nos dará os mais requintados prazeres e que fará com que nos riamos do resto. Bem vê que sou quadrado na base. Senhor bispo, a imortalidade da alma não passa de um mito, uma promessa encantadora e mais nada! Que felicidade ser filho de Adão! Ser alma, ser anjo, ver-se a gente com asas azuis nas omoplatas, que deslumbrante perspectiva! Vamos, senhor bispo, ajude-me a memória, não foi Tertuliano quem disse que os bem-aventurados andarão de astro em astro? Ora aí tem! Seremos os gafanhotos das estrelas e ainda por cima gozaremos da presença de Deus. Que patarata é toda esta colecção de paraísos! Deus não passa de uma frioleira monstruosa! Por certo que eu não ia agora pôr-me a dizer isto nas colunas do Monitor, mas aqui entre amigos inter pocula r- posso dizê-lo. Sacrificar a terra pelo paraíso é largar a presa pela sombra! É extremamente estúpido ser logrado pelo infinito. O que sou eu senão uma porção do nada? Existia porventura antes de nascer? Não. Continuarei a existir depois de morto? Não. O que sou então? Um pouco de pó agregado por um organismo. Que devo fazer na terra? Posso escolher: sofrer ou gozar. Aonde me conduzirá o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Aonde me levará o gozo? Ao nada. Mas terei gozado. Assim, pois, a minha escolha está feita. É indispensável dominar ou ser dominado. Prefiro dominar! É preferível ser martelo a ser bigorna. É esta a minha teoria. No fim de tudo isto está o coveiro, que é para nós o Pantheon e está tudo arrumado. Finis. Liquidação total. Some-se tudo para nunca mais aparecer. Creia-me, a morte é a morte e, por mais que me digam, não posso deixar de rir quando penso nela. É uma invenção de amas de crianças; para estas é o papão, para os homens é Jeová! Além do túmulo, há a igualdade do nada. Sardanapalo ou Vicente de Paula, quem quer que tenhais sido, o mesmo nada vos caberá em sorte. Aqui está a verdade! Portanto, vivamos, dê por onde der. Façamos uso do nosso eu, enquanto o possuímos. Repito-lhe, senhor bispo, tenho a minha filosofia e os meus filósofos e não me deixo engrinaldar com patranhas. Todavia, alguma coisa hão-de ter os que rastejam na lama, os pés-descalços, os miseráveis. Dão-se-lhe a engolir as lendas, as quimeras, a alma, a imortalidade, o paraíso, as estrelas. E eles lá vão mastigando tudo. Quem não tem nada, tem Deus. Pouco é, mas valha-nos isso. Da minha parte não lhe ponho obstáculos, mas guardo Naigeon para mim. Quanto a Deus, deixo-o ao povo. ”- Ora isso é que se chama falar! exclamou o bispo, batendo as palmas. Excelente! É realmente maravilhoso o seu materialismo, senhor conde! Quem o professa está livre de cair em logros; não se deixa desterrar estupidamente como Catão, nem apedrejar como Santo Estêvão, nem queimar vivo como Joana d’Arc! Quem consegue chegar a possuir tão admirável materialismo tem o prazer de conseguir a irresponsabilidade e adquirir a convicção de que tudo pode devorar sem susto, empregos, sinecuras, dignidades, palinodias lucrativas, traições úteis, saborosas capitulações de consciência e que descerá ao túmulo, depois de bem feita a digestão. Que agradável coisa! Eu não digo isto por V. Ex.ª, senhor senador. Todavia, não posso deixar de lhe dar os parabéns! Os fidalgos, como V. Ex.ª disse, têm uma filosofia própria, subtil, requintada, unicamente acessivel aos ricos, óptimo condimento para guisar com todas as voluptuosidades da vida! É uma filosofia desenterrada das profundidades por investigadores especiais. Porém, magnates de bom coração, não levam a mal que a crença em Deus seja a filosofia do povo, do mesmo modo, por assim dizer, como a açorda é o peru do pobre. _sec+Rom:9_ IX O carácter do irmão descrito pela irmã Para dar ideia mais perfeita da vida íntima do bispo de Digne e do modo como as duas mulheres subordinavam os hábitos e intenções do prelado as suas acções, pensamentos e até instintos de mulheres assustadiças, sem que ele tivesse sequer o trabalho de falar para as exprimir, nada melhor do que transcrever uma carta escrita por Baptistina à viscondessa de Boischevron, sua amiga de infância. Digne, 16 de Dezembro de 18... Minha querida amiga: Não se passa um só dia em que não falemos a seu respeito. Isto é um hábito antigo, mas, além disso, há ainda outra razão. Imagine que a Magloire andando a lavar e a limpar os tectos e as paredes da casa, fez uma grande descoberta; agora os nossos quartos forrados de papel antigo e caiado por cima, não fariam má figura num palácio do género do seu. Magloire rasgou todo o papel e encontrou por baixo uma infinidade de coisas. A minha sala, que não tem móveis, e de que nós nos servimos para estender roupa, tem quinze pés de altura e dezoito de largura. Vê-se agora que o tecto foi forrado de lona, no tempo em que isto era hospital, antigamente era pintado e dourado e tinha até trabalho de talha, enfim, um tecto à antiga. Porém, o que é digno de se ver é o meu quarto. Por baixo de uma camada muito densa de papéis colados, Magloire descobriu várias pinturas, as quais, sem serem boas, são muito suportáveis. Uma representa Telemaco a ser armado cavaleiro por Minerva; outra representa-o nos jardins não sei de que... onde as damas romanas só iam uma vez. Como lhe hei-de dizer tudo? Tenho romanos e romanas (nesta passagem da carta há uma palavra ilegível) e toda a sua comitiva. Magloire limpou e lavou tudo e este Verão, reparadas algumas pequenas avarias, o meu quarto ficou um verdadeiro museu. Encontrou também num canto do sótão, duas consolas muito antigas. Pediram doze francos para as restaurar, mas é preferível dar este dinheiro aos pobres, porque, afinal de contas, são dois objectos muito feios, que eu de boa vontade trocaria por uma mesa redonda de acajú. Eu continuo a ser muito feliz pela bondade de meu irmão. Dá tudo quanto tem aos pobres e enfermos. Os Invernos aqui são muito rigorosos, de maneira que é indispensável fazer alguma coisa pelos infelizes. Nós vivemos muito apoquentados, mas, graças a Deus, não temos falta de lenha nem de luz. Bem vê que estas coisas não são dadas a todos Meu irmão está habituado a certas coisas e diz sempre que um bispo deve ser como ele. Imagine que a porta da nossa casa nunca se fecha a chave. Meu irmão não tem medo de nada, nem mesmo de noite. Segundo ele diz, um sacerdote não deve ter medo. Não quer que eu nem Magloire nos preocupemos por causa dele. Expõe-se aos maiores perigos e não podemos sequer demonstrar que isso nos assusta. É necessário saber compreendê-lo. A chuva não o impede nunca de sair, chegando no Inverno a fazer longas jornadas a pé, debaixo de água, sem temer as estradas nem recear qualquer mau encontro. O ano passado fez uma das suas excursões a A um lugar infestado de salteadores e não quis que nós o acompanhássemos, demorando-se por lá quinze dias. Quando chegou a casa, sem que tivesse sofrido o menor incómodo e quando todos já o julgavam morto, disse-me: «Aqui está como me roubaram!». E abriu uma grande mala onde se encontravam todas as jóias da catedral de Embrun e que os ladrões lhe tinham dado. Desta vez, mas de modo que ninguém ouvisse, não pude deixar de ralhar com ele. Ao princípio, assustava-me muito por ver como ele se metia aos perigos sem tomar qualquer medida de precaução, mas depois fui-me habituando. Recomendo sempre a Magloire que o não contrarie e que o deixe proceder como muito bem lhe apraz. Nestas ocasiões, retiro-me para o meu quarto, peço a Deus por ele e durmo descansada. Sinto-me tranquila, porque sei que não resistiria se lhe sucedesse alguma desgraça, iria reunir-me com meu irmão e meu bispo na presença de Deus. Magloire teve mais dificuldade do que euv em habituar-se ao que ela chamava «imprudência do senhor bispo», mas, por fim, também se habituou. Oramos ambas, assustadas às vezes, mas concluídas as nossas orações deitamo-nos e adormecemos. Na nossa casa podia entrar o próprio diabo sem que ninguém se lhe opusesse. Mas no fim de tudo, que podemos nós recear? Temos sempre connosco o mais forte. O diabo pode passar por ela, mas não entrará porque é habitada por Deus! E é quanto me basta para viver sossegada. Meu irmão agora nem precisa de dizer-me a menor palavra. Sei o que ele quer, e entregamo-nos nas mãos da Providência. Creio que não devo proceder de outro modo com um homem de inteligência tão sublime. Obtive de meu irmão as informações que a minha amiga pretendia relativamente à família de Taux, porque bem sabe que ele ainda não perdeu os bons sentimentos realistas que sempre teve, lembrando-se ainda de tudo. Efectivamente, é uma antiquíssima família da Bretanha. Há quinhentos anos, já existiam um Raul de Faux, um João de Faux e um Thomaz de Faux, todos fidalgos e um deles senhor de Rocheforí. O último foi Guy Estêvão Alexandre, mestre de campo e não sei o quê na cavalaria ligeira da Bretanha. Sua filha, Maria Lutsa, casou com Adriano Carlos de Grãmoní, filho do duque de Gramoní, par de França, coronel das guardas francesas e tenente-general do exército. O nome desta família tem aparecido escrito de três modos: Faux, Fauq e Faouq. Minha boa amiga, peço-lhe que nos recomende nas orações do seu santo parente o senhor cardeal. Quanto à sua querida Silvana, tem feito muito bem em não perder os curtos momentos que passa na sua companhia, para me escrever. Uma vez que ela tem saúde, trabalha segundo os desejos da minha amiga e me conserva a antiga afeição, é quanto desejo. Eu não passo mal, todavia, não sei porquê, estou cada vez mais magra. Adeus. Está a acabar o papel, e por isso concluo, desejando-lhe todas as venturas. Baptistina. P. S. O seu sobrinho está lindo como os anjos. Sabe que em breve vai fazer cinco anos? Ontem, vendo passar um cavalo com umas Coelheiras, perguntou: «O que tem aquele cavalo nos joelhos?». É uma criança muito interessante. O irmão mais novo, passa horas seguidas a brincar, arrastando um cestinho velho, a que chama a sua carruagem. Como se vê por esta carta, as duas mulheres sabiam afeiçoar-se ao modo de viver do bispo, com o talento particular da mulher que melhor compreende o homem do que ele próprio se compreende a si. O bispo de Digne sob o seu ar prazenteiro e cândido, que nada era capaz de alterar, praticava às vezes coisas sublimes, arrojadas e magníficas, com o modo mais natural e simples. As duas mulheres tremiam de susto, mas não lhe opunham resistência. Magloire arriscava às vezes uma observação, mas antes ou depois, nunca na mesma ocasião. Nunca o perturbavam na prática de qualquer acção por uma palavra ou sequer por um gesto. Em certos momentos, sem lhe ser necessário a ele dizê-lo nem se lembrar talvez de o fazer, tão completa era a sua simplicidade, conheciam elas vagamente que ele procedia como bispo e então eram apenas como que duas sombras, divagando pela casa. Serviam-no passivamente e, se para obedecer fosse necessário desaparecer, desapareciam. Por uma admirável delicadeza de instinto, conheciam que há solicitudes que incomodam. Assim, ainda que o suposessem em perigo, compreendiam-lhe, se não a intenção, pelo menos o génio, a ponto de não exercerem a menor vigilância sobre ele. Deixavam-no entregue a Deus. Contudo, como acaba de ler-se, Baptistina dizia que a morte do irmão seria a morte dela, e Magloire, posto não o dissesse, também o sabia. _sec+Rom:10_ X O bispo em presença de uma luz desconhecida Em época pouco posterior à data transcrita nas páginas precedentes, o prelado fez uma coisa mais arriscada ainda, na opinião de toda a gente da cidade, do que a jornada pela montanha infestada de salteadores. Havia nos arrabaldes de Digne um homem que vivia inteiramente isolado da sociedade. Esse homem, de nome G..., pronunciemos sem a menor hesitação a pala- ,« vra terrível, era um antigo membro da Convenção VI Nacional Entre o povo de Digne, falava-se no convencional G..., com uma espécie de terror. Um convencional! Alguém faz ideia exacta do que é essa coisa que existia no tempo em que todos se tratavam por tu e se chamavam uns aos outros cidadãos? Esse homem era quase um monstro. Não votara a morte do rei, mas pouco menos. Era um meio-regicida, que fora herói do terror. Como fora possível que no estabelecimento dos príncipes legítimos, semelhante homem escapasse ao justo castigo dos seus crimes? Não queriam manchar as mãos no sangue dele? Muito bem. Mas deviam tê-lo expulso, desterrado para toda a vida, dando assim um exemplo, finalmente, etc., etc. Grasnar de gansos acerca do abutre. E seria realmente um abutre o convencional G...? Decerto, a julgá-lo pela feroz solidão em que vivia. Não compreendido nos decretos de desterro, por não ter votado a morte do rei, fora-lhe concedido residir em França. Ali habitava, pois, a três quartos de légua da cidade, fora do povoado, longe da estrada, no meio de um vale agreste, onde possuía, segundo diziam, um esconderijo. Não tinha vizinhos e ninguém passava por ali. O carreiro que, em tempo, conduzia ao vale, desaparecera coberto pela erva, depois que ele para ali fora residir. Falava-se daquele sítio como da mansão do carrasco. Todavia, o bispo lembrava-se dele, e de tempos a tempos, olhando para o horizonte, na direcção em que uma moita indicava o vale do antigo convencional, dizia para consigo: «Há ali uma alma que vive isolada». E, no fundo do seu pensamento, acrescentava: «O meu dever é ir visitá-la». Todavia, cumpre confessá-lo, tal ideia, à primeira vista muito natural, após um momento de reflexão, apresentava-se-lhe como estranha, impossível e quase repulsiva, pois no seu íntimo participava da impressão geral, inspirando-lhe o homem, sem ele mesmo ter perfeita consciência disso, esse sentimento que defronta com o ódio, tão bem expresso pela palavra repulsão. Contudo, deve o pastor fugir da ovelha sarnenta? Não. Mas que ovelha era aquela! O bondoso bispo sentia-se perplexo. Algumas vezes foi até meio do caminho e voltou sempre para trás. Um dia, espalhou-se na cidade a notícia de que um rapazinho que estava como criado do convencional, viera à cidade em busca de um médico para ir ver o celerado ao seu covil, o qual acometido por um ataque apoplético, estava moribundo, a tal ponto que se receava não passasse daquela noite Graças a Deus! . exclamaram alguns. O bispo pegou na bengala, cobriu-se com o capote, não só por causa do mau estado da batina, como também pela aragem fresca da noite, que não tardaria a levantar-se e saiu. Declinava o sol, quase a ponto de esconder-se, quando o bispo chegou ao lugar excomungado. Ao ver-se próximo do covil, o coração bateu-lhe em sobressalto. Saltou um valado, transpôs uma sebe, deu alguns passos resolutamente e, de repente, descobriu o esconderijo oculto por um matagal, no fundo do baldio. Era uma pequena cabana, de aspecto pobre, mas aprazível e asseada, com toda a parte da frente coberta por uma ramada. A entrada da porta, numa velha cadeira de rodas, estava sentado um homem de cabelos brancos e que parecia sorrir-se para os últimos raios de sol. Junto do velho sentado, encontrava-se de pé um rapazito, tipo de pastor, apresentando-lhe uma tigela de leite. Estava ainda o bispo a contemplar este quadro, quando ouviu a voz do velho que dizia: Obrigado, já não preciso de nada! E desfitou os olhos do sol para os fixar, sorrindo, no rapazinho. O bispo adiantou-se. Ao ruído dos seus passos, o velho voltou a cabeça, exprimindo na fisionomia a surpresa que se pode experimentar depois de tão prolongada existência. Desde que aqui estou é esta a primeira vez que alguém vem a minha casa disse ele. . Quem é o senhor? Chamo-me Bemvindo Myriel respondeu o bispo. Bemvindo Myriel... Já ouvi esse nome. Não é ao senhor que o povo chama Monsenhor Bemvindo? Exactamente. O velho prosseguiu com ligeiro sorriso: Visto isso, é o meu bispo. Creio que sim Tenha a bondade de entrar O convencional estendeu a mão ao prelado, mas este fingiu não perceber e limitou-se a dizer: Vejo com prazer que me enganaram, visto realmente não parecer muito doente. Espero dentro em pouco ficar restabelecido respondeu o velho. E, após uma curta pausa, acrescentou: Não viverei mais de três horas. O bispo fitou-o, admirado, e ele continuou: Tenho alguns conhecimentos de medicina, por isso conheço os sintomas da morte. Ontem tinha apenas os pés frios; hoje tenho também os joelhos e sinto que o frio me vai subindo para o meio do corpo; quando chegar ao coração, deixarei o mundo A vista do sol é um belo espectáculo, não acha? Pedi que me trouxessem cá para fora porque queria vê-lo pela última vez. O senhor pode conversar, não me incomoda. Fez muito bem em vir assistir à morte de um homem. É bom que esse momento tenha testemunhas. Cada qual tem a sua mania, desejava viver até ao romper da aurora, mas sei que só me restam três horas para viver Morrerei de noite, mas, no fim, que importa isso? Acabar é uma coisa simples. Não se necessita de dia para morrer. Paciência, morrerei à luz das estrelas E, voltando-se para o rapazinho, disse-lhe: Vai descansar Passaste a noite em claro, deves estar fatigado. O rapazinho retirou-se e o velho, seguindo-o com a vista, acrescentou, como falando consigo mesmo: Quando eu morrer, estará ele a dormir. São dois sonos que não se estorvarão. O bispo não estava comovido, como parece que deveria estar. Não julgava pressentir a presença de Deus naquele modo de morrer; digamos tudo porque as pequenas contradições das grandes almas devem ser apontadas como tudo o mais, ele que, sempre que se oferecia ocasião, ria jovialmente quando lhe davam o tratamento de Vossa Grandeza, sentiu-se um tanto ressentido de não ser tratado por Monsenhor, e esteve quase tentado a replicar: cidadão! Acometera-o uma veleidade de caprichosa familiaridade, muito vulgar nos médicos e nos padres, mas que nele não era natural. Pela primeira vez na sua vida, talvez, o bispo sentiu-se com severa disposição de espírito contra aquele homem que, apesar de convencional, de representante do povo, tinha sido um poderoso na terra. Ao mesmo tempo que o convencional o contemplava com ar de modesta cordialidade, a que talvez não era de todo estranha a humildade própria do homem que sente aproximar-se o fim. O bispo, posto que fosse habitualmente pouco curioso, porque, no seu entender, a curiosidade vive paredes meias com a ofensa, não se podia coibir de o examinar atentamente porque, por não provir de um sentimento de simpatia, a sua consciência lhe haveria decerto exprobrado, se tivesse lugar para com outro qualquer homem No seu entender, porém, um convencional estava fora de todas as leis, mesmo da lei da caridade. G..., com o seu aspecto sereno e firme, a voz vibrante e grave, era um octogenário dos que causam admiração ao fisiologista. A revolução foi fértil nesses homens proporcionados à época. Conhecia-se naquele velho o homem de acção, que tão próximo da morte, conservava ainda todos os movimentos de saúde. Na sua vista segura, na voz firme, no robusto movimento dos ombros, parecia haver ainda energia de sobejo para repelir a morte. Azrael, o aajo maometano do sepulcro, teria retrocedido, julgando-se enganado na porta. Aquele homem parecia morrer voluntariamente. A sua agonia parecia um acto espontâneo. Só as pernas tinham perdido o movimento, como se fosse por elas que a morte o tivesse agarrado. Os pés jaziam-lhe mortos e frios, mas a cabeça respirava-lhe toda a seiva da vida e parecia em perfeita lucidez. Naquele grave momento, G... assemelhava-se ao rei do conto oriental, cuja parte superior do corpo era de carne e a inferior de mármore O bispo sentou-se numa pedra que viu próxima de si e principiou. O seu exórdio foi um ex-ábrupto. < Felicito-o disse ele em tom de exprobração. Creio que nem sempre votou a morte do rei. O convencional pareceu não reparar no sentido oculto da palavra sempre e respondeu com a maior seriedade: Não me felicite, porque o que eu votei foi o fim do tirano. Era a voz austera em presença da severidade. Não percebo o que quer dizer tornou o bispo. Quero dizer que o tirano do homem é a ignorância, e que foi a sua morte o que eu votei. Foi esse tirano o autor da realeza, que é a autoridade tomada de ideias falsas, enquanto a ciência é a autoridade tomada da verdade das coisas, O homem só pela ciência deve ser governado. E pela consciência acrescentou o bispo. . É a mesma coisa. A consciência não é mais do que a quantidade de ciência inata que possuímos. O bispo escutava, tomado de admiração, aquela linguagem inteiramente nova para ele. O convencional prosseguiu: - Quanto a Luís XVI, votei contra a morte dele. Não me julgo com direito de matar um homem, mas tenho o dever de exterminar o mal. Por isso votei o fim do tirano, isto é, o fim da prostituição para a mulher, o da escravidão para o homem, o das trevas para a criança. Votei isto, votando a república. Votei a fraternidade, a concórdia, a aurora. Trabalhei na queda dos erros e dos preconceitos, de cujo desmoronamento resulta sempre a luz. Fizemos cair a sociedade velha, vaso de misérias, que, ao derramar-se sobre o género humano, se converteu em uma de felicidade! Felicidade amarga! retorquiu o bispo. Pode dizer felicidade perturbada; e hoje, depois desse fatal restabelecimento do passado chamado 1814, felicidade desaparecida. Desgraçadamente, reconheço, a obra ficou incompleta; demolimos o antigo regime nos factos, mas não pudemos exterminá-lo inteiramente nas ideias Não basta destruir os abusos, é necessário modificar os costumes. Destruiu-se o moinho, mas ainda ficou o vento. Demolir pode ser que seja útil, mas desconfio sempre de demolições em que entra a cólera. O direito tem também a sua cólera, senhor bispo, e a cólera do direito é um elemento do progresso Assim, digam o que disserem, a revolução francesa foi o maior passo que a humanidade tem dado depois do aparecimento de Cristo. Incompleta, concordo, mas sublime. Resolveu todas as incógnitas sociais, suavisou os espíritos, acalmou, pacificou, esclareceu; inundou a terra das ondas da civilização Foi portanto boa! A revolução francesa foi a santificação da humanidade O bispo não pôde conter-se e retorquiu: - Sim? e 93? O convencional endireitou-se na cadeira com solenidade quase lúgubre e exclamou com toda a energia possível a um moribundo: Aí vem com 93! Já estava à espera disso! Há mil e quinhentos anos principiou a formar-se uma nuvem. que, ao cabo de quinze séculos, rebentou. E o senhor vem acusar o raio! Apesar de tentar encobri-lo a si próprio, o bispo sentiu-se ferido, porém, respondeu, aparentando indiferença: O juiz fala em nome da justiça e o sacerdote em nome da religião, que é uma justiça mais elevada. O raio não deve enganar-se. E olhando fixamente para o convencional, acrescentou: E Luís XVII? Luís XVII? Ora vejamos. Quem é que o senhor lastima? É a criança inocente? Nesse caso, estamos de acordo, porque choro com o senhor. É a criança real? Peço que me deixe reflectir. Para mim, o irmão de Cartouche, menino inocente, atado à força por baixo dos braços e suspenso até o fazerem morrer, só pelo crime de ser irmão de Cartouche, não é facto menos doloroso do que o martírio porque passou o neto de Luís XV na torre do Templo, só pelo facto de ser neto de Luís XV. Eu é que não posso aceitar a aproximação de semelhantes nomes disse o bispo. Mas, por qual dos dois reclama? Por Cartouche ou por Luís XVII? Seguiu-se um momento de silêncio. O bispo quase se arrependia de ter ido ali, porque se sentia estranhamente impressionado. O convencional prosseguiu: Vejo que não gosta do rigor da verdade, senhor padre! Gostava Cristo, que pegava numa vara e varria o templo. O seu azorrague cheio de relâmpagos dizia bem rudes verdades. Quando exclamava: Sinite, párvulas, não fazia distinção entre as crianças. Não teria escrúpulo de juntar o filho de Barrabás com o filho de Herodes. O tratamento de Alteza não serve de nada à ino’ cència, porque tão augusta é coberta de andrajos como quando adornada de arminhos! É exacto disse o bispo em voz baixa. Insisto, pois, na minha opinião continuou o comvencional. Falou-se em Luís XVII, entendamo-nos, portanto. Devemos chorar sobre todos os inocentes, sobre todos os mártires, sobre todas as crianças, sejam filhos do povo, sejam filhos do rei? De acordo. Mas então, repito, é necessário retroceder muito além de 93, porque é antes de Luís XVII que as lágrimas devem começar a ser derramadas. Estou pronto a chorar com o senhor os filhos dos reis, contando que o senhor chore comigo, os filhos do povo! Eu choro por todos disse o bispo. . Igualmente! exclamou G... Mas se a balança deve inclinar para alguma parte, que seja antes para o lado dos filhos do povo, porque há mais tempo que sofrem! Seguiu-se nova pausa, a qual foi interrompida pelo convencional. Firmou-se num dos cotovelos, apertou entre o polegar e o índice dobrado a pele da cara, com o gesto maquinal de quem interroga ou reflecte, e fitou no bispo um olhar perscrutador, que respirava toda a energia da agonia. Foi quase uma explosão. Sim, senhor bispo, há muito que o povo sofre! Mas faça o favor de dizer-me O que pretendia ao vir interrogar-me e falar-me sobre Luís XVII, o senhor, a quem eu nem sequer conheço? Desde que resido nesta terra, tenho vivido sempre aqui encerrado, sem companhia, sem ver ninguém, além desse rapazinho que me tem servido. O seu nome, é verdade que o ouvi por duas ou três vezes e, devo dizê-lo, pronunciado com respeito, mas isso nada quer dizer; os homens astuciosos sabem perfeitamente como se lança poeira nos olhos do povo. É verdade, eu não ouvi o ruído da sua carruagem; deixou-a decerto oculta no arvoredo, à entrada do caminho que conduz aqui? Repito-lhe, não o conheço, disse-me que era o bispo, mas isso nada me adianta no conhecimento das suas qualidades morais. Em suma, o senhor é um bispo, quer dizer, um príncipe da Igreja, um desses homens que se cobrem de oiro e arminhos, vivem no fausto e nos regalos, cobram boas rendas, dísfrutam bispados: por exemplo, o de Digne que tem de renda fixa quinze mil francos e dez mil de emolumentos, soma vinte e cinco mil francos: é um desses homens que têm lacaios, mesa lauta, onde à sexta-feira se serve o melhor peixe; que rodeados de criados se pavoneiam em coches de gala e habitam palácios, tudo em nome de Jesus Cristo, que andava descalço! O senhor é um prelado, quer dizer, um homem com rendimentos, palácios, cavalos, lacaios, boa mesa, todas as sensualidades da vida, enfim, que possui como os outros e das quais como qualquer outro gosa. Está muito bem, mas isso diz mais ou menos que o suficiente; não me esclarece sobre o seu valor intrínseco, essencial para quem, como o senhor, talvez, vem aqui com o intuito de me dar sabedoria e luz? com quem estou a falar? Quem é o senhor? O bispo inclinou a cabeça e respondeu: Vermin sum. Um verme de carruagem! murmurou o convencional. Chegara a sua vez de se mostrar altivo e o bispo humilde. Pois seja assim! replicou o bispo suavemente. Mas explique-me de que modo prova a minha carruagem, que deixei oculta entre o arvoredo, a minha boa mesa, o peixe que nela se serve à sexta-feira, o meu rendimento de vinte e cinco mil francos, o meu palácio e os meus lacaios, como é que tudo isto prova não ser a piedade uma virtude, a clemência um dever e que 93 não foi inexorável? O convencional passou a mão pela fronte como que para afastar um pensamento e em seguida disse: Antes de lhe responder, peço-lhe que me perdoe a falta que cometi. O senhor está em minha casa, é meu hóspede, devo tratá-lo com cortesia. Discute as minhas ideias, devo limitar-me a combater os seus raciocínios. As suas riquezas, os seus gozos são outras tantas vantagens que eu tenho a meu favor no debate, mas de que parece mal servir-me Prometo, portanto, não o tornar a fazer. Agradeço-lhe a intenção disse o bispo. G... continuou: Voltemos à explicação que me pediu. Em que ponto estávamos? Dizia-me, se bem me lembro, que 93 foi inexorável. Inexorável, isso mesmo! repetiu o bispo. Que ideia faz de Marat batendo as palmas em frente da guilhotina? Que ideia faz de Bossuet entoando um Te~Deum, depois das dragonadas? A resposta era cruel, mas foi direita ao alvo com a rigidez de uma ponta de aço. O bispo estremeceu e emudeceu, mas sentiu-se ofendido ao ouvir citar Bossuet de semelhante modo. Os espíritos mais esclarecidos têm os seus ídolos e às vezes como que se agastam com os desacatos da lógica. O convencional principiava a respirar com dificuldade, a asma da agonia entrecortava-lhe já a voz; todavia, notava-se-lhe ainda nos olhos perfeita lucidez da alma e prosseguiu: . Digamos ainda algumas palavras sobre o assunto, que desejo imenso Tirando a revolução, que, tomada em geral, foi uma grande afirmativa humana, 93 é uma réplica. O senhor acha-a inexorável, mas que tem sido a monarquia? Carrier é um facínora, mas que nome dá a Montrevel? Fouquier-Finville é um miserável, mas que conceito forma de Lamoignon Bãville? Maillard é uma criatura repugnante, mas que diz de Saulx Tavannes? O padre Duchesne é um homem feroz, mas que epíteto acha o senhor que merece o padre Letellier? Jourdan-Coup-Tête é um monstro, mas muito menos hediondo do que o marquês de Louroisbisp. Lamento Maria Antonieta, arquiduquesa e rainha, mas lamento também aquela pobre mulher huguenote, que em 1685, no reinado de Luís o Grande, foi atada a um poste, nua até à cintura, com o filhinho que amamentava abandonado a alguma distância; o seio transbordava-lhe de leite e o coração de angústia; a infeliz criancinha, esfomeada e pálida, agonizava e gritava, sem poder colar os lábios naquele seio, e o algoz dizia à infeliz mãe: «Abjura!», dando-lhe a escolher entre a morte do filho e a da consciência. Que lhe parece este suplício de Tântalo acomodado a uma pobre mãe? Creia, senhor bispo, a revolução francesa teve as suas razões. A sua ira há-de encontrar absolvição no futuro. O resultado dela será um mundo melhor. Os seus golpes mais terríveis escondem um afago ao género humano. Mas não posso mais... fiz o meu... dever... a morte avizinha-se. E, desfitando os olhos do bispo, concluiu o seu pensamento nestas poucas palavras: As brutalidades do progresso chamam-se revoluções! Depois delas terminadas todos reconhecem que o género humano foi severamente maltratado, mas que deu alguns passos em frente! Mal suspeitava o convencional que, uns após outros, acabava de derrubar todos os redutos do espírito do bispo. Todavia, ainda um ficava de pé, e dele, supremo recurso da resistência de Monsenhor Bemvindo, saíram estas palavras, que deixava de novo transparecer toda a severidade de há pouco: O progresso deve crer em Deus. O bem não pode ter por servidora a impiedade. Mal vai ao género humano, se o ateísmo é seu guia! O antigo representante do povo não respondeu. Sentiu um estremecimento, fitou os olhos no céu e duas lágrimas lhe deslizaram pelas faces lívidas. Depois, lentamente, em voz baixa, como que falando consigo mesmo, murmurou: - Só tu, ó ideal, só tu existes! O bispo sentiu uma inexplicável comoção. Depois de alguns instantes de silêncio, o convencional ergueu um dedo para o céu, dizendo: O infinito existe, está bem! Se o infinito não tivesse um eu, o eu seria o seu limite e, portanto, não seria infinito, ou, por outras palavras, não existiria. Ora ele existe. Logo tem um eu. O eu do infinito é Deus! Estas palavras foram proferidas em voz alta pelo moribundo, com o estremecimento do êxtase, como se estivesse vendo alguma coisa extraordinária. Apenas acabou de falar, fechou os olhos. O esforço que fizera extenuara-o. Era evidente que aquele homem acabava de viver num minuto as poucas horas que lhe restavam de vida. Chegara, enfim, o momento supremo. O bispo compreendeu-o, compreendeu toda a urgência da ocasião e que fora ali como sacerdote. Passando então gradualmente do extremo da frieza à extrema comoção, contemplou aqueles olhos fechados, pegou na mão inerte e gelada do moribundo, dizendo-lhe: . Esta hora pertence a Deus! Não acha que seria para lamentar que o nosso encontro não tivesse resultado? A estas palavras, o convencional reabriu os olhos com aspecto de sombria gravidade. Senhor bispo disse ele com lentidão, procedida talvez mais da dignidade de alma do que da falta de forças tenho passado a minha vida na meditação, no estudo e na contemplação Tinha sessenta anos quando fui chamado pelo meu país, para tomar parte na direcção dos seus negócios. Obedeci Combati os abusos que nele se davam; havia tiranias, destruí-as; havia direitos e princípios, proclamei-os e professei-os. O território estava invadido, defendi-o; a França estava ameaçada, ofereci-lhe o meu sangue. Não era rico e fiquei pobre. Fui um dos senhores do Estado; os subterrâneos do Banco encontravam-se atulhados de dinheiro, a ponto de ser preciso escorar as paredes para não abaterem com o peso do oiro e da prata, e eu ia comer todos os dias a uma hospedaria da rua de l’Abre-Sec, onde se jantava por vinte e dois sous. Socorri os oprimidos, protegi os que sofriam. Rasguei as toalhas dos altares, é verdade, mas foi para ligar as feridas da pátria. Sustentei sempre o progresso da humanidade para a luz e opus-me algumas vezes ao progresso inexorável. Protegi sempre que me foi possível os meus próprios adversários; haja em vista o convento de urbanistas chamado de Santa Clara, situado no lugar de Petegben, na Flandres, exactamente onde os reis merovíngios possuíam o seu palácio de Verão, que eu salvei em 1793. Cumpri com o meu dever até onde pude e fiz o bem que me foi possível. No fim de tudo isto, fui expulso, perseguido, escarnecido, conspurcado, amaldiçoado, proscrito. Passados já tantos anos e apesar dos meus cabelos brancos, muita gente se julga ainda com direito de me desprezar; para a multidão ignorante tenho rosto de condenado e eu resigno-me sem ódio ao isolamento do ódio. Agora, com oitenta e seis anos, vou morrer. Que pretende o senhor de mim? A sua bênção disse o bispo, ajoelhando. Quando o prelado ergueu a cabeça, sentiu-se impressionado pela augusta expressão do convencional. Aquele homem sublime havia expirado. O bispo regressou a casa profundamente absorto nos seus pensamentos. Aquela noite passou-a a orar. No dia seguinte, alguns curiosos tentaram falar-lhe no convencional G...; o bispo, por única resposta, limitou-se a apontar-lhes para o céu. De então em diante, o prelado redobrou de afecto e comiseração para com os pequenos e os desvalidos. A menor alusão ao «velho celerado G...», fazia-oo cair em profunda meditação. Ninguém podia negar que a passagem daquele espírito pela frente do seu e que o reflexo daquela grande consciência sobre a sua, tinham contribuído para o aproximar da perfeição. Como era de esperar, a «visita pastoral» ao antigo membro da Convenção, deu que falar durante algum tempo aos ociosos da terra. É porventura à cabeceira de tal moribundo o lugar de um bispo? Era evidente não haver ali a esperança de conversão; todos os revolucionários são relapsos. Para que foi lá o bispo? Que tinha a fazer em semelhante lugar? Sempre era preciso estar com muita vontade de ver como o diabo levava uma alma! Certa ocasião, uma senhora já idosa, pertencente à classe que se julga espirituosa, disse-lhe: Andam todos ansiosos por saber quando recebe Vossa Grandeza o barrete vermelho. É uma cor muito viva respondeu o bispo. . Felizmente, os que a desprezam nos barretes, veneram-na nos chapéus. _sec+Rom:11_ XI Restrição Seria erro concluir do que temos dito, que Monsenhor Bemvindo fosse um bispo filósofo ou sacerdote patriota. O seu encontro, a que se poderia chamar aliança, com o convencional G..., deixara-lhe apenas certo respeito pelas desgraças alheias, respeito que o tornara mais afectuoso ainda. Apesar de Monsenhor Bemvindo não se ter dado nunca à política, vem a propósito indicar aqui, ainda que resumidamente, qual a sua atitude nos acontecimentos daquela época, se é que pelo espírito do bispo passou algum dia a lembrança de tomar tal atitude. Voltemos, pois, alguns anos atrás. Pouco tempo depois da elevação de Myriel ao episcopado, nomeou-o o imperador barão do império, bem como a vários outros bispos. Por ocasião da prisão do Papa, na noite de 5 para 6 de Julho de 1809, Myriel foi convidado por Napoleão a tomar parte no sínodo dos bispos de França e de Itália convocado em Paris. O sínodo efectuou-se na igreja de Nossa Senhora, reunindo-se a primeira vez a 15 de Junho de 1811, sob a presidência do cardeal Fesch. Myriel foi um dos noventa e cinco bispos que concorreram, porém, não assistiu senão a uma sessão e a três ou quatro conferências particulares. Bispo de uma diocese montanhesa, vivendo pobre e rústicamente no meio da natureza agreste, parece que levara ao centro daqueles eminentes personagens ideias que alteravam a temperatura da assembleia. Regressou, pois, a Digne, onde, sendo interrogado sobre o motivo do seu breve regresso, respondeu: Eu incomodava-os lá A minha presença era para eles, por assim dizer, uma porta aberta pela qual lhes entrava o ar exterior. Noutra ocasião, disse ainda: Então que querem? Aqueles senhores são príncipes e eu não passo de um pobre bispo aldeão. O facto é que Myriel não fora bem recebido. Entre outras coisas singulares parece que, certo dia, encontrando-se em casa de um dos seus colegas mais qualificados, dissera irreflectidamente: Que lindos relógios! Que lindos tapetes! Que vistosas librés! Isto deve ser tudo muito importuno! Nunca consentiria que tais superfluidades me estivessem constantemente a ofender a vista, quando há tanta gente a morrer de fome e de frio. O ódio ao luxo, seja dito de passagem, não seria ódio inteligente, porque traria consigo a decadência das artes Todavia, entre os ministros da igreja, o luxo, a não ser em casos de representação ou ocasião de cerimónias, não deve ter cabimento, porque parece revelar hábitos na realidade pouco caritativos. Um sacerdote opulento é um contra-senso O dever do padre é velar junto dos pobres. Será possível que o sacerdote possa estar em contínuo contacto com toda a espécie de privações, de infortúnios e indigências, sem ter sobre si próprio à semelhança do pó do trabalho, uma porção diminuta dessa santa miséria? Pode conceber-se que um homem colocado junto de um fogareiro não tenha calor? É crível que um operário que lida continuamente com uma fornalha não tenha nem um só cabelo crestado, nem uma unha enegrecida, nem uma baga de suor na testa, nem uma farrusca de carvão no rosto? A prova mais concludente de caridade no padre e sobretudo no bispo, é a pobreza. Era isto, sem dúvida, o que pensava o bispo de Digne. Não se creia, porém, que Myriel sobre certos pontos delicados participasse do que nós chamamos «ideias do século». Intrometia-se pouco nas questões teológicas da época e não emitia opinião sobre as questões vitais da Igreja e do Estado; mas, se o apertassem muito, veriam que tinha mais de ultramontano do que de galicano. Visto que fazemos um retrato e nada desejamos ocultar, somos obrigados a acrescentar que a decadência de Napoleão foi totalmente indiferente para o bispo. Desde 1813 por diante, aderiu ou aplaudiu todas as manifestações hostis contra o imperador, levando o extremo a não querer ir visitá-lo na ocasião do seu regresso da ilha de Elba e abstendo-se de ordenar na sua diocese preces públicas a favor dele por ocasião dos Cem Dias. Além de sua irmã Baptistina, o bispo tinha dois irmãos, um general e outro prefeito, aos quais escrevia com frequência. Durante algum tempo mostrou-se severo para com o primeiro, porque, tendo o general um comando na Provença, na ocasião do desembarque em Cannas, se colocara à frente de mil e duzentos homens e perseguira o imperador mais como quem queria deixá-lo fugir do que alcançá-lo. Monsenhor Bemvindo, teve, pois, também, a sua hora de espírito de partido, a sua nuvem, a sua hora de animosidade, em que a sombra das paixões da época perpassou por aquele grande e sereno espírito ocupado das coisas eternas. Tal homem, merecia, decerto, ser isento de opiniões políticas. Mas é necessário não se interpretar mal o nosso pensamento: não confundimos aquilo a que chamam opiniões políticas, com a grande aspiração ao progresso, com a sublime fé patriótica, democrática e humanitária, que hoje em dia deve constituir a essência de qualquer inteligência generosa. Sem aprofundar as questões que só indirectamente se ligam com o assunto deste livro, diremos apenas: seria para desejar que o bondoso bispo nunca fosse realista nem que o seu olhar jamais se desviasse um só instante da serena contemplação em que, acima das ficções e dos ódios deste mundo, acima deste tempestuoso vai-vem das coisas humanas, se vê distintamente fulgurar a luz da verdade, da justiça e da caridade Embora reconheçamos que não foi para uma missão política que Deus criara o bispo Myriel, compreenderíamos e admiraríamos o seu proceder, se ele em nome do direito e da liberdade, protestasse e opusesse firme, vigorosa e justa resistência contra Napoleão no tempo da sua omnipotência. Todavia, o que nos agradava ver praticar contra os que sobem, desagrada-nos vê-lo praticar contra os que descem, porque não gostamos de combate senão quando nele há perigo, e porque, para nós, seja no que for, os combatentes no princípio, são os únicos com direito de serem exterminadores no fim. Quem não foi acusador acérrimo enquanto durou a prosperidade, deve calar-se na presença da decadência O denunciante da vitória, é o único justiceiro legítimo da derrota. Quanto a nós, quando vemos que a obra é da Providência não nos intrometemos. Em 1812 principiámos a sentir-nos desarmados Em 1813, o cobarde rompimento do silêncio desse taciturno corpo legislativo que criou ânimo com as catástrofes, só merecia indignação; aplaudir seria um erro; em 1814, na presença desses marechais traidores, desse senado que caía de um para outro lado, insultando agora o que tinha divinizado, na presença da idolatria que abandonara o templo cuspindo no ídolo, era dever desviar a vista; em 1815, quando se preparavam grandes catástrofes, a cuja aproximação a França já estremecia; quando já vagamente começava a distinguir-se Waterloo desenrolado ante Napoleão, a dolorosa aclamação com que o exército e o povo saudava o condenado do destino nada tinha de risível e, salva qualquer reserva quanto ao déspota, um coração como o do bispo de Digne não devia talvez desconhecer quanto havia de augusto e de enternecedor no estreito abraço de uma grande nação e de um grande homem, à beira do abismo. Exceptuando isto, o bispo Myriel era e foi em todas as circunstâncias, justo, verdadeiro, equitativo, inteligente, humano e digno; benéfico e benevolente, o que é ainda outra espécie de beneficência. Era um sacerdote, um sábio e um homem. Até mesmo, devemos confessá-lo, na opinião política que acabamos de exprobar-lhe e que estamos dispostos a julgar quase severamente, era tolerante e condescendente, talvez mais do que nós. Havia na câmara um porteiro, ali colocado por Napoleão. Fora sargento da antiga guarda, legionário de Austerlitz, tão bonapartista como a águia do estandarte imperial. As vezes, irreflectidamente, o pobre homem proferia palavras que a lei, naquela época, qualificava de «sediciosas»: Desde que o perfil imperial desaparecera da cruz da Legião de Honra, nunca mais se vestira à ordenança, como ele dizia, para não se ver obrigado a pôr a sua condecoração. Tirara devotadamente a efígie imperial da cruz que Napoleão lhe dera, não querendo pôr coisa alguma no lugar dela. Antes morrer dizia ele do que trazer três sapos no coração! Frequentes vezes e em voz alta costumava motejar de Luís XVIII. Velho gotoso com polainas de inglês! É melhor que volte para a Prússia com as suas barbas de bode! dizia ele, reunindo com grande prazer na mesma imprecação as duas coisas que mais odiava, a Prússia e a Inglaterra. Tantas coisas deste género proferiu que perdeu o emprego. Achou-se de repente desempregado, sem pão para si, para a mulher e para os filhos. O bispo, sabendo isto, mandou-o chamar e, repreendendo-o brandamente, nomeou-o porteiro da catedral. Em nove anos, a poder de acções piedosas e maneiras afáveis, o bispo Myriel granjeara na cidade de Digne uma espécie de afectuosa e filial veneração. O seu procedimento para com o imperador foi-lhe como que tacitamente perdoado pelo povo, bom e fraco rebanho que, se idolatrava o seu imperador, também amava o seu bispo. _sec+Rom:12_ XII Solidão de Monsenhor Bemvindo Há quase sempre em torno de um bispo tão grande quantidade de clérigos como de oficiais em volta de um general. Todas as carreiras têm seus aspirantes, que fazem a corte aos que se encontram colocados nos lugares superiores. Não há potência que não tenha seu séquito, nem fortuna que não tenha seu cortejo. Em torno do presente esplêndido volteiam os especuladores do futuro. Toda a metrópole tem o seu estado-maior. Todo o bispo influente é cercado por um esquadrão de querubins seminaristas, que guarda e mantém a boa ordem no paço episcopal e faz sentinela em torno do prelado. Possuir as suas boa’s graças é meio caminho andado para um sub-diaconato. Cada um faz o que pode para adiantar-se e o apostolado não desdenha o canonicato. Do mesmo modo que há grandes influentes na política, assim há grandes influentes na igreja. São os bispos bem aceites no mundo social, ricos, disfrutadores de boas rendas, hábeis, que decerto sabem rezar, mas que também sabem solicitar, pouco escrupulosos em fazer esperar na sua antecâmara uma diocese inteira, traços de união entre a sacristia e a diplomacia, mais abades do que padres, mais prelados do que bispos. Felizes dos que se lhes aproximam! Homens de valimento incontroverso, fazem chover em torno de si, sobre os pretendentes seus apaniguados e sobre toda essa multidão de jovens que lhes sabem agradar os benefícios rendosos, as prebendas, as capelanias e as funções nas catedrais, enquanto esperam as dignidades episcopais. À proporção que eles avançam, adiantam-se também os seus satélites; é um completo sistema solar em movimento. com o seu próprio esplendor purpureiam os que lhe ficam atrás. A sua prosperidade traduz-se, para os que os rodeiam, em proporções de pequeno vulto, porém ainda importantes. Quanto mais rendosa for a diocese para o patrono, tanto melhor será a abadia para o valido. E, depois, lá está Roma. Um bispo que sabe fazer-se arcebispo, um arcebispo que sabe chegar a cardeal, leva consigo o valido como conclavista, mete-o a caminho, e em pouco tempo ei-lo auditor, ei-lo camareiro, ei-lo monsenhor; da Grandeza à Eminência dista apenas um passo e entre a Eminência e a Santidade há somente o fumo de um escrutínio. Não há solidéu que não sonhe com a tiara. Hoje em dia o padre é o único homem que regularmente pode chegar a rei; e que rei!, rei supremo. Por isso, que viveiro de aspirações não é um seminário! Quantos meninos de coro, quantos seminaristas não trazem à cabeça a bilha de leite de Perrette! com que facilidade a ambição se intitula vocação! E quem sabe? Talvez por ser tão beata se intitule assim de boa fé, enganando-se a si própria! Humilde, pobre, pouco conhecido, Monsenhor Bemvindo não pertencia ao número dos bispos influentes, o que se notava pela completa ausência de pretendentes à sua volta. Como se viu, fora mal recebido em Paris e, por consequência, longe andara sempre do pensamento de qualquer futuro pensar em consolidar-se junto do solitário ancião, uma só nascente ambição que tivesse a loucura de pretender medrar à sua sombra. Os seus cónegos e vigários gerais eram em geral pobres criaturas, tão do povo como ele, como ele entaipados naquela diocese sem saída para o cardinalato e muito parecidos com o seu bispo. Tão geralmente reconhecida era a impossibilidade de medrar à sombra de Monsenhor Bemvindo, que os ordenandos apenas saíam do seminário, tratavam de arranjar recomendação para os arcebispos de Aix ou de Auch, retirando-se logo, porque, enfim, cada qual o que deseja é adiantar-se, e um santo que vive no meio de uma excessiva abnegação é perigosa vizinhança, pode tornar-se contagiosa a sua pobreza incurável, paralisar as articulações do adiantamento aos que se lhe aproximam, exigir-lhes, em suma, maior desapego de si mesmos, do que aquele para que se acham dispostos. Por conseguinte, todos fogem de tão incomodativa virtude, e por isso se encontrava Monsenhor Bemvindo no maior isolamento. Vivemos numa sociedade extremamente sombria. Conseguir obter bom êxito, é o único título valioso no seio da corrupção. Abominável coisa é o bom êxito, seja dito de passagem. A sua falsa parecença com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom êxito equivale a supremacia. O bom êxito ilude a história. Só Tácito e Juvenal se lhe não submetem. Existe na época presente uma filosofia quase oficial, que envergou a libré do bom êxito e lhe faz o serviço da antecâmara. Fazei por serdes bem sucedidos, é a teoria. A prosperidade supre a capacidade. Ganhai na lotaria e sereis um homem hábil. A veneração é para quem triunfa. Nascei bem fadado, não queirais mais nada. Tende fortuna que o resto virá por si; sede feliz e julgar-vos-ão grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excepções imensas que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea é apenas miopia. A doiradura também é oiro. Pouco importa que não sejais ninguém, contanto que consigais alguma coisa. O vulgo é um Narciso velho, que se idolatra a si próprio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Moisés, Esquilo, Dante, Miguel Angelo ou Napoleão, concede-a a multidão indistintamente e por unanimidade a quem atinge o fim a que se propôs, seja no que for. Transforme-se um tabelião em deputado, escreva um suposto Corneille Tiridates, possua qualquer eunuco um harém, ganhe um Prudhomme militar acidentalmente a batalha decisiva de uma época, invente um boticário solas de papelão para o exército do Sambre-et-Meuse e, vendendo-as por coiro, consiga arranjar um rendimento de quatrocentos mil francos, despose qualquer pobretão a usura e obtenha desse consórcio sete ou oito milhões, torne-se bispo um pregador fazendo citações que não percebe, seja o mordomo de uma casa opulenta tão rico ao deixar o seu lugar que o façam ministro das finanças, a tudo isto os homens chamarão expressões de génio, do mesmo modo que denominam belo o rosto de Mousqueton e majestoso o aspecto de Cláudio, confundindo com as constelações do abismo as estrelas que os gansos imprimem com as patas na superfície mole do lodaçal _sec+Rom:13_ XIII Quais eram as crenças do bispo Debaixo do ponto de vista da ortodoxia, é inútil sondar o bispo de Digne Almas como a dele inspiram-nos todo o respeito. Deve acreditar-se na consciência do justo pelo que ela própria afirma. Ainda quando não fora senão porque nós, a respeito de certas naturezas, admitimos o desenvolvimento possível de todas as belezas da virtude humana numa crença diferente da nossa. Quais eram os seus sentimentos a respeito de tal ou tal dogma, a respeito de tal ou tal mistério? Esses segredos do foro íntimo apenas o túmulo os conhece. Do que estamos certos é de que nunca as dificuldades da fé foram para ele transformadas em hipocrisia. Não há coisa alguma que faça apodrecer o diamante. «Credo in Patrem», costumava ele repetir. Afora isto, as suas boas obras davam-lhe a satisfação que basta à consciência e que nos segreda: «Deus é contigo». O que julgamos dever notar é que afora e, por assim dizer, acima da sua fé, o bispo possuía um excesso de amor. Era por isso, quia multum amavií, que o julgavam vulnerável os «homens sérios», as «pessoas sisudas», a «gente sensata», locuções predilectas do nosso mesquinho mundo em que o egoísmo recebe o santo e a senha do pedantismo. Que excesso de amor era esse? Era uma benevolência serena, que abarcava todos os homens e às vezes chegava a estender-se até às coisas. Era afável para com todos e indulgente com as criaturas de Deus. Todo o homem, mesmo o mais bondoso, é dotado de uma dureza irreflectida, que se expande contra os animais. O bispo de Digne não era dotado dessa dureza, aliás, peculiar a muitos sacerdotes. Não atingia o exagero do brâmane, mas parecia ter meditado naquelas palavras do Eclesiastes: «Quem sabe para onde vão as almas dos animais?». As fealdades do aspecto, as disformidades do instinto, não o perturbavam nem indigitavam; pelo contrário, comoviam-no e quase o enterneciam. Parecia que, pensativo, procurava nelas, além da vida aparente, a causa, a explicação ou a desculpa; havia momentos em que parecia pedir a Deus comutações. Examinava sem cólera e com a atenção do linguista que decifra um palimpsesto, o caos que ainda existe na natureza. Este profundo meditar dava lugar a que ele às vezes proferisse ditos singulares. Uma manhã, andando a passear no jardim e supondo-se a sós, por isso que não via a irmã, que caminhava atrás dele, parou de súbito e, fitando um objecto que jazia no chão, o qual era nada menos que uma enorme aranha, negra, peluda, horrenda, murmurou, de modo que a irmã ouviu: Pobre animal! Que culpa tem ele de ser assim? Porque razão havíamos de ocultar estas quase divinais criancices da bondade? São talvez puerilidades, mas puerilidades sublimes como as de S. Francisco de Assis e Marco Aurélio. Uma ocasião, torceu um pé só para não pisar uma formiga. Assim vivia aquele homem justo. As vezes adormecia no jardim, e então nada mais venerando do que a figura do bom bispo. Se dermos crédito às notícias que temos dos precedentes da sua vida, Monsenhor Bemvindo, na sua juventude e ainda mesmo no tempo da sua virilidade, foi homem de génio áspero e até violento. A sua mansidão universal era mais resultado de uma grande convicção, que por entre os sucessos da vida se lhe fora lentamente infiltrando no coração e caindo na alma pensamento por pensamento, do que instinto da natureza A índole do homem pode como o rochedo, ser cavada por gotas de água, e essas concavidades nunca mais se desfazem, nunca mais se destroem Em 1815, como nos parece já ter dito, contava ele setenta e cinco anos, mas parecia não ter mais de sessenta. Era baixo e um tanto gordo, gordura que combatia dando longos passeios a pé: tinha o andar firme e pouco se curvava, pormenor do qual nada pretendemos inferir; Gregório XVI, era desempenado e risonho aos oitenta anos, o que não obstava que fosse um mau bispo Monsenhor Bemvindo possuía o que o povo chama «um bonito rosto», porém, tão amável que fazia esquecer a beleza. Quando conversava com aquela infantil alegria que constituía uma das suas graças, parecia que a sua jovialidade se comunicava a quem se encontrava com ele e que todo ele respirava alegria. A frescura e rosado da tez, a alvura dos dentes, que ainda conservava todos e que mostrava quando ria, davam-lhe esse aspecto de franqueza e afabilidade, que faz com que se diga de um homem: «É um bom rapaz», e de um velho: «É um bom homem». Foi essa a impressão que ele produziu em Napoleão No primeiro momento e para quem o via pela primeira vez, não passava, efectivamente, de um bom homem, porém, decorridas algumas horas de permanência junto dele, por pouco expansivo que estivesse, via-o transfigurar-se lentamente, assumindo uma expressão veneranda; a sua fronte elevada e séria, que as cãs tornavam augusta, era também augusta pela meditação; a majestade sobressaía-lhe da bondade sem que a bondade cessasse de resplandecer: a sua vista produzia a impressão que se sentiria ao ver um anjo, sorrindo, abrir lentamente as asas, sem deixar de sorrir. Um inexplicável respeito se apossava gradualmente do coração de quem o contemplava. Parecia a quem o via que tinha diante dos olhos uma dessas almas fortes, indulgentes e ricas de provações em que o pensamento é tão sublime, que não pode deixar de ser suave. A oração, a celebração dos ofícios religiosos, a esmola, a consolação dos aflitos, a cultura de um canteiro, a fraternidade, a frugalidade, a hospitalidade, o desapego, a confiança, o estudo, o trabalho, ocupavam-lhe todos os momentos da existência «Ocupavam» é o termo próprio, porque, efectivamente, cada dia de existência do bispo não tinha um momento vago de bons pensamentos, de boas palavras e de boas obras. Deixava, porém, de ser completo, se a chuva ou o frio o impedia de ir passear ao jardim uma ou duas horas antes de se deitar, depois de as duas mulheres se terem acomodado. Parecia ser para ele uma espécie de rito o preparar-se para o sono da meditação, na presença do grandioso espectáculo da noite. As vezes, a hora bastante adiantada da noite, as duas mulheres, se acaso estavam acordadas, ouviam ainda o ruído dos seus vagarosos passos no jardim. Ali permanecia a sós consigo, em plácido recolhimento e adoração, comparando a serenidade do seu coração com a do éter, impressionado no meio das trevas pelos esplendores visíveis das constelações e pelos invisíveis esplendores de Deus, abrindo a alma aos pensamentos que descem do infinito. Em tais momentos, oferecendo o coração à hora em que as flores nocturnas oferecem o seu perfume, aceso como uma lâmpada no meio da noite estrelada, enlevado no meio do cintilar universal da criação, nem ele mesmo saberia dizer o que se passava no seu espírito; sentia evaporar-se dele e descer sobre ele o que quer que fosse. Misteriosas permutações entre os abismos da alma e os abismos do universo! Meditava sobre a grandeza e presença de Deus; sobre a eternidade futura: mistério extraordinário; sobre a eternidade passada: mistério mais extraordinário ainda; em todos os infinitos que se lhe apresentavam ao espírito e que ele contemplava, sem pretender compreender o incompreensível. Não estudava Deus, admirava-o Reflectia sobre esses magníficos encontros de átomos que produzem o aspecto da matéria, revelam as forças provando-as, criam as individualidades na unidade, as proporções na extensão, o inumerável no infinito; que, por meio da luz, produzem a beleza, e de cujo acabamento e constante renovação resulta a vida e a morte. Sentava-se num banco de madeira, encostado a uma latada decrépita, e daí contemplava os outros através das sombras acanhadas e raquíticas das suas árvores de fruto. Aquele palmo de terra tão pobremente plantado, era-lhe caro e suficiente. Que mais necessitava o pobre velho, que dividia os ócios da sua existência, que tão curtos eram, entre a jardinagem de dia e a contemplação de noite? Aquele estreito recinto, com o céu por tecto, não lhe era bastante para poder adorar a Deus simultaneamente nas suas obras mais amenas e nas suas obras mais sublimes? Não era isto mais que suficiente? Um pequeno jardim para passear e a imensidade para meditar. Que mais podia ele querer? A seus pés, o que podia ser cultivado e dar fruto; por cima da cabeça, o que se podia estudar, o que era assunto de profunda meditação; algumas flores na terra e todas as estrelas do céu. _sec+Rom:14_ XIV O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo Mais uma palavra. Como os pormenores desta natureza, especialmente na época actual, poderiam, para nos servirmos duma expressão actualmente em voga, dar ao bispo de Digne certa fisionomia «panteísta» e fazer acreditar, em seu desabono ou em seu elogio, que ele possuía alguma dessas filosofias pessoais, peculiares ao nosso século, que às vezes germinam nos espíritos solitários e vão gradualmente tomando vulto até fazer desaparecer as crenças religiosas, repetimos que ninguém, de entre as pessoas que conheceram Monsenhor Bemvindo, se julgou nunca autorizado a crer semelhante coisa. O que iluminava aquele homem era o coração. A sua sabedoria dava-lhe a luz que dele nasce. Poucos sistemas e muitas obras. Não há indício de que ele aventurasse o espírito na averiguação de apocalipses, O apóstolo pode ser ousado, mas o bispo deve ser tímido. É natural que tivesse escrúpulo de sondar muito profundamente certos problemas, de algum modo reservados aos grandes e terríveis espíritos. Os pórticos do enigma inspiram terror religioso. Vemos aquelas sombrias portas abertas de par em par, porém, uma voz desconhecida nos diz, a nós, caminheiros desta vida, que não entremos. Desgraçado de quem lá entrar! Os génios, nas profundezas incomensuráveis da abstracção e da especulação pura, situados, por assim dizer, acima dos dogmas, expõem as suas ideias a Deus. O seu orar é uma audaciosa proposta de discussão. A sua oração interroga. Eis o que é a religião directa, cheia de ansiedade e responsabilidade para quem se aventura às suas escabrosidades. A meditação humana não tem limites. Por sua conta e risco analisa e esquadrinha o seu próprio deslumbramento. Quase poderíamos dizer que, por uma espécie de fulgurante reacção, ela deslumbra também a natureza; o misterioso mundo que nos cerca, restitui o que recebe; é provável que os contempladores sejam contemplados. Seja como for, na terra há homens serão homens? que no fundo dos horizontes da meditação descobrem distintamente as alturas do absoluto e avistam a terrível montanha infinita. Monsenhor Bemvindo não pertencia ao número desses homens; não era um génio. Para ele, seriam objecto de temor essas sublimidades, do cimo das quais alguns, como Swedenborg e Pascal, resvalaram na demência. Não há dúvida que essas loucuras têm sua utilidade moral e que por esses árduos caminhos é que o homem se aproxima da perfeição ideal, porém, o bispo seguia o caminho mais curto, o do Evangelho. Ninguém dirá que ele tentava dar à sua murça as dobras do manto de Elias, que projectava algum raio do futuro sobre o tenebroso redemoinho dos acontecimentos ou que procurava transformar em chama o clarão das coisas; nada tinha de profeta nem de mago. Era uma alma amante, e nada mais. É provável que dilatasse a oração até à aspiração sobrenatural, mas tão-pouco pode haver excesso em orar como em amar; e, se fosse heresia rezar sem ser pelos textos, herejes seriam Santa Teresa e S. Jerónimo. Não recusava o seu auxílio nem aos que gemem nem aos que expiam. O Universo apresentava-se-lhe como que imensa enfermidade; por toda a parte sentia febre, por toda a parte auscultava sofrimento, e, sem pretender decifrar o enigma, diligenciava curar a ferida. O grandioso espectáculo das coisas criadas tornava-lhe mais intensamente compassiva a índole benfazeja. A sua constante ocupação era procurar para si próprio e inspirar aos outros o melhor modo de consolar e suavizar infortúnios alheios. Para o virtuoso sacerdote, era quanto existe um motivo permanente de tristeza, mas tristeza que se desvelava em consolações para com todos os infelizes. Há homens que se ocupam na extracção do oiro; ele ocupava-se em extrair piedade. As suas minas eram a miséria universal, e o sofrimento tornava-se uma ocasião para ele mostrar sempre a sua natural bondade. Amai-vos uns aos outros eis toda a sua doutrina que ele plenamente executava e que fora seu mais ardente desejo ver geralmente posta em prática. Um dia, o homem que se julgava «filósofo», o tal senador que já conhecemos, disse-lhe: Ora veja o espectáculo que o mundo apresenta: a guerra de todos contra todos; o mais forte é o que tem razão. O tal amai-vos uns aos outros, é um absurdo! Pois seja . respondeu o bispo, sem discutir mas, nesse caso, a alma deve encerrar-se nela como a pérola dentro da concha! E ele assim fazia. Vivia satisfeito, plenamente satisfeito com isso, sem se intrometer nessas maravilhosas questões que atraem e amedrontam, nas perspectivas insondáveis da abstracção, nos princípios da metafísica, em nenhuma dessas profundezas convergentes, aos olhos do apóstolo, para Deus, aos olhos do ateu para o nada; o destino, o bem e o mal, a guerra da criatura contra a criatura, a consciência do homem, o sonambulismo melancólico do animal, a transformação da morte, a recapitulação de existências encerradas num túmulo, a incompreensível filiação dos amores sucessivos do eu persistente, a essência, a substância, a alma, a natureza, a liberdade e a necessidade; problemas indecifráveis, densidades sinistras, sobre as quais se debruçam os arcanjos do espírito humano; abismos temerosos que Lucrécio, S Paulo e Dante, contemplam com esse olhar fulgurante que parece despontar estrelas no infinito em que se fixa. O bispo era apenas um homem que observava exteriormente as questões misteriosas, sem as perscrutar nem debater, nem se cansar a averiguá-las, um homem que respeitava os mistérios do incompreensível. _sec+O:liv=2_ LIVRO SEGUNDO A QUEDA No fim de um dia de marcha Num dos primeiros dias do mês de Outubro de 1815, uma hora antes do pôr-do-Sol, entrou na cidade de Digne um homem que viajava a pé. Os raros habitantes que a essa hora se encontravam às janelas ou às portas de suas casas, observavam o viajante com uma espécie de inquietação. Seria, na verdade, difícil encontrar viandante de aspecto mais miserável. Era um homem ainda no vigor da idade, de estatura mediana e robusto. Poderia ter, quando muito, quarenta e seis ou quarenta e oito anos. Escondia-lhe parte do rosto, crestado pelo sol e a escorrer em suor, um boné de pala de couro A camisa, de linho grosseiro e amarelado, apertada no pescoço por uma pequena âncora de prata, deixava-lhe a descoberto o peito cabeludo; trajava calças de cotim azul, muito velhas, coçadas, brancas num joelho e rotas no outro, uma esfarrapada blusa parda, tendo num dos cotovelos um remendo de pano verde, cosido com cordel. Servia-lhe de gravata um lenço torcido, enrolado em volta do pescoço. Calçava sapatos forrados, sem meias, e trazia às costas uma volumosa mochila de soldado, em bom estado e muito apertada, e na mão um enorme cajado nodoso. Afora isto, trazia a barba crescida, os cabelos eram raros e eriçados, mas parecia não terem sido cortados havia muito tempo. O suor, o calor, a poeira, a viagem a pé, acrescentavam ainda uma estranha sordidez a este conjunto de andrajos. Ninguém o conhecia. Era evidentemente um forasteiro. De onde viria? Do Meio Dia; talvez da beira-mar, pois entrava em Digne pela mesma rua onde, sete meses antes, tinham visto passar Napoleão, ao ir de Cannes para Paris. A julgar pelo cansaço de que dava mostras, aquele homem devia ter caminhado todo o dia. Algumas mulheres do antigo bairro situado à entrada da cidade tinham-no visto parar ao pé das árvores do boulevard Gassendi e beber água na fonte que fica na extremidade do passeio. Grande devia ser a sua sede, pois que, dali a cem passos, alguns rapazes, que foram atrás dele, viram-no beber novamente na fonte da praça do Mercado. Chegando à esquina da rua de Poichevert, tomou à esquerda e principiou a caminhar em direcção à mairie, para onde entrou. Um quarto de hora depois, tornou a sair. À porta estava sentado um gendarme, no mesmo banco de pedra a que o general Dronot subira no dia 4 de Março, para ler à multidão assustada de Digne a proclamação datada do golfo Juan. O desconhecido tirou o boné e cumprimentou humildemente o gendarme. Em vez de corresponder ao cumprimento, o soldado examinou-o com atenção e, depois de o seguir algum tempo com a vista, entrou na mairie. Havia então em Digne uma excelente estalagem, intitulada A Cruz de Coíbas, cujo proprietário era um tal Jacquin Labarre, homem de muita consideração na cidade, devido ao seu parentesco com outro Labarre, antigo soldado do regimento dos Guias e dono da estalagem dos Três Delfins, em Grenoble, a respeito da qual, por ocasião do desembarque do imperador, tinham corrido na terra numerosos boatos. Contava-se que, em Janeiro desse ano, o general Bertrand, disfarçado em carreteiro, fora ali repetidas vezes, distribuindo, por essa ocasião, a soldados e civis, a uns a condecoração da Legião de Honra, a outros dinheiro às mãos cheias. A realidade é que, na sua chegada a Grenoble, o imperador recusara ir para o palácio da prefeitura e agradecera ao maire, dizendo: vou para casa de um honrado camarada meu conhecido. E foi hospedar-se na estalagem dos Três Delfins. Esta glória do Labarre dos Três Delfins reflectia-se a vinte e cinco léguas de distância sobre o Labarre da Cruz de Coíbas. Costumavam dizer na cidade, quando falavam dele: O primo do de Grenoble. O desconhecido dirigiu-se, pois, para a estalagem que era a melhor da localidade, e entrou na cozinha, que dava imediatamente para a rua. Os fogões estavam todos acesos. No meio da cozinha, destacava-se a figura do estalajadeiro, que, exercendo conjuntamente as funções de cozinheiro, corria de um lado para o outro, atarefado nos aprestos de excelente jantar destinado aos carreteiros, que se ouviam conversar e rir com grande estrépito na sala próxima. Além dos coelhos e perdizes, cozinhados de diferentes maneiras, estavam também a ser preparadas duas grandes carpas da lagoa de Lauzet e uma truta da lagoa de Alloz. O dono da estalagem sentindo abrir a porta e entrar mais um freguês, perguntou, sem tirar os olhos do que estava a fazer: Que deseja o senhor? Comer e dormir . respondeu o desconhecido. Nada mais fácil tornou o estalajadeiro. E, voltando-se para o recém-chegado, examinou-o dos pés à cabeça e acrescentou: Pagando! O homem tirou da algibeira da blusa uma bolsa e respondeu: Eu tenho dinheiro. . Nesse caso, estou às suas ordens. O homem tornou a guardar a bolsa, tirou a mochila, encostou-a à porta e foi sentar-se num mocho, junto ao lume, sem largar da mão o cajado. As noites de Outubro em Digne são muito frias. Entretanto, o estalajadeiro, andando de um lado para o outro, não deixava de observar o recém-chegado. A que horas se janta? Daqui a pouco respondeu o estalajadeiro. Enquanto o desconhecido se aquecia, de costas voltadas para o digno estalajadeiro Jacquin Labarre, este tirou um lápis da algibeira, rasgou um bocado de um jornal, já antigo, que estava em cima de uma mesa ao pé da janela, escreveu uma ou duas linhas, dobrou-o e, sem o fechar, entregou-o a um rapazinho, que parecia servir-lhe, ao mesmo tempo, de ajudante de cozinha e moço de recados, disse-lhe algumas palavras ao ouvido e o rapaz partiu a correr em direcção à mairie. O desconhecido, que não reparara em nada disto, tornou a perguntar: O jantar ainda levará muito tempo? ~ Não tarda respondeu o estalajadeiro. Decorridos alguns minutos, voltou o rapazito. O estalajadeiro desdobrou rapidamente um papel que ele lhe trouxe, como quem esperava uma resposta, pareceu ler com atenção, em seguida abanou a cabeça e ficou um momento pensativo. Por fim, encaminhou-se para o viajante, que parecia embrenhado em fundas reflexões e disse-lhe: Senhor, não posso recolhê-lo. Porquê? . perguntou o homem, levantando-se. Tem receio de que eu não pague? Se quer, pago adiantado. Já viu que tenho dinheiro. Não se trata disso. Mas então de que se trata? O senhor tem dinheiro. Tenho, bem viu. E eu não tenho quarto para lhe dar. ~ vou para a cavalariça replicou tranquilamente o desconhecido. -> Não pode ser. Porquê? Porque é pequena para os cavalos que lá estão. Então dê-me qualquer canto do palheiro; basta-me um feixe de palha. Veremos isso depois de jantar. Mas eu não lhe posso dar de jantar. Esta declaração, feita em tom comedido, mas com firmeza, pareceu muito grave ao desconhecido, que exclamou: Então não quer dar-me de comer? Caminhei desde o nascer do sol, estou morto de fome e de cansaço, depois de uma jornada de doze léguas; prontifico-me a pagar e não hei-de comer? Não tenho nada para lhe dar respondeu o estalajadeiro. O homem soltou uma gargalhada e, voltando-se para o lado dos fogões, exclamou: Não tem nada? E aquilo que ali está? Está tudo reservado. Para quem? Para os senhores carreteiros. Quantos são eles? Doze. Mas a comida que ali está chega para vinte. Eles querem tudo e já o pagaram adiantadamente. O desconhecido tornou a sentar-se e disse, sem erguer a voz: Estou numa estalagem e tenho fome, portanto não saio daqui! O estalajadeiro aproximou-se dele e disse-lhe num tom de voz que o fez estremecer: O melhor que tem a fazer é ir-se embora! O forasteiro, que estava inclinado para o lume a aconchegar as brasas com a ponta do cajado, voltou-se de repente; porém, o estalajadeiro, sem lhe dar tempo a falar, olhou-o fixamente e disse-lhe em voz baixa: Vamos, nada de gastar palavras sem necessidade. Quer que lhe diga quem é? Chama-se João Valjean. Quando o vi entrar, desconfiei e mandei perguntar à mairie quem era você. Aqui está a resposta que me deram. Sabe ler? Ao mesmo tempo que dizia isto, o estalajadeiro apresentou ao desconhecido o papel que o rapaz lhe trouxera. O homem percorreu-o rapidamente com a vista e o estalajadeiro, após uma pausa, continuou: Eu tenho por costume ser delicado para toda a gente. Por isso, peço-lhe novamente que se vá embora! O forasteiro curvou a cabeça, pegou na mochila que tinha posto no chão e saiu da estalagem. Encontrando-se na rua, caminhou ao acaso, cosendo-se com as casas, como um homem humilhado e triste. Não olhou para trás uma só vez. Se o tivesse feito, teria visto o estalajadeiro da Cruz de Coíbas no limiar da porta, rodeado por todos os hóspedes que se encontravam na estalagem e das pessoas que passavam na rua naquele momento, falando com vivacidade e apontando-o com o dedo; e, pelos olhares de desconfiança e susto daquele grupo, adivinharia que dentro de pouco tempo a sua chegada seria o assunto de todas as conversas na cidade. Porém, ele não viu nada disto. Quem vai profundamente alheado na sua dor, não olha para trás, porque tem a certeza de ser acompanhado pela má sorte que o persegue. Caminhou assim durante algum tempo, embrenhando-se em ruas que não conhecia, esquecendo a própria fadiga, como sucede sempre àqueles a quem a tristeza domina. De repente, sentiu o aguilhão da fome. Como a noite se aproximasse, circunvagou a vista em torno de si a ver se descobria um albergue onde encontrasse pousada. A melhor estalagem estava-lhe vedada; o que procurava agora era uma humilde taberna ou algum pobre casebre. Divisou então uma luz ao fim da rua, e à claridade incerta do crepúsculo, notou vagamente um ramo de pinheiro pendurado de uma vara de ferro. Encaminhou-se para lá. Era, com efeito, uma taberna, na rua de Chaffaut. O forasteiro parou um momento à porta, examinou pela vidraça o interior da taberna, alumiada por um candeeiro colocado em cima da mesa e por uma grande fogueira que ardia na chaminé, e viu alguns homens a beber e o taberneiro a aquecer-se ao lume, cuja chama fazia ferver uma panela de ferro pendurada num gancho. Duas portas dão entrada para esta taberna, que é ao mesmo tempo uma espécie de estalagem. Uma deita para a rua, outra para um pequeno pátio que serve de estrumeira. O viajante não ousou entrar pela porta da rua. Entrou para o pátio, tornou a parar, e, levantando timidamente o fecho, abriu a porta e entrou na taberna. Quem está aí? perguntou o dono da casa. Um homem que quer comer e dormir. com efeito, aqui há comida e dormida. O homem entrou. Todos os que se encontravam a beber se voltaram. De um lado iluminava-o o clarão do candeeiro, do outro o reflexo da fogueira. Enquanto ele se deteve a desatar a mochila, os outros puseram-se a examiná-lo. Temos aqui lume, camarada disse-lhe o taberneiro venha aquecer-se. A ceia, como vê, já ferve. O homem obedeceu. Foi sentar-se junto da chaminé, estendendo para a fogueira os pés magoados de andar e respirando o apetitoso cheiro que se exalava da panela. O seu rosto, oculto em parte pela pala do boné, tomou uma vaga aparência de satisfação, a par do pungente aspecto que dá o hábito do sofrimento. Tinha, contudo, um perfil firme, enérgico e triste, A sua fisionomia era singularmente composta; à primeira vista parecia humilde, mas analisada detidamente parecia severa. Os olhos brilhavam-lhe sob as sobrancelhas como o fogo sob a cinza. Um dos homens que estavam sentados à mesa era um peixeiro, o qual, antes-de vir para a taberna da rua de Chaffaut, tinha ido deixar o cavalo na estalagem de Labarre. Quisera o acaso que ele, nesse mesmo dia pela manhã, encontrasse um desconhecido de mau aspecto, caminhando entre Brás d’Asse e... (Não nos lembra o nome. Creio que Escoublon). Ora, encontrando-o, o homem, que parecia vir já muito cansado, pedira-lhe que o deixasse ir um bocado a cavalo, ao que o peixeiro não respondeu, apressando o passo. O mesmo peixeiro fazia parte, meia hora antes, do grupo que rodeava Jacquin Labarre, e ele próprio contara o desagradável encontro que tivera pela manhã, a quantos se encontravam na Cruz de Coíbas. Assim, pois, mesmo do lugar em que estava, fez um sinal imperceptível ao taberneiro, que se acercou dele, trocando ambos algumas palavras em voz baixa. Entretanto, o forasteiro parecia mergulhado nas suas reflexões. O taberneiro voltou para junto da chaminé, pôs subitamente a mão no ombro do desconhecido e disse-lhe: Trata de sair já daqui. O homem voltou-se e respondeu com brandura: Também sabe?... Sei. Já na outra estalagem me não quiseram recolher. E nesta põem-te fora. Para onde quer que eu vá? ~- Para onde quiseres! O desconhecido pegou no cajado e na mochila e saiu. Quando ele saiu, vários rapazes que o tinham seguido desde a Cruz de Coíbas e que pareciam estar à sua espera, começaram a atirar-lhe pedradas. Ele voltou-se para trás e ameaçou-os com o cajado; os rapazes dispersaram logo como um bando de estorninhos. Continuando a caminhar passou em frente da cadeia. Da porta pendia uma corrente de ferro presa a uma sineta, puxou por ela. Quase no mesmo instante, abriu-se um postigo. Senhor carcereiro disse ele, tirando respeitosamente o boné faz-me o favor de me recolher por esta noite? A cadeia não é estalagem! respondeu uma voz. Faça com que o prendam e para cá virá! E acto contínuo fechou o postigo. O desconhecido continuou a caminhar e entrou numa rua, orlada de jardins em quase toda a sua extensão, fechados apenas por sebes, o que a tornava mais alegre. Entre os jardins e as sebes avistou uma casinha branca de um só andar, através de cuja janela se via luz. Espreitou pela vidraça como fizera na taberna. Era uma sala grande caiada de branco, com uma cama coberta por uma colcha de chita e um berço a um canto, algumas cadeiras de palhinha e uma espingarda de dois canos pendurada na parede. No meio da casa uma mesa com comida. Um candeeiro de latão alumiava a toalha de grosseiro linho branco, um cangirão de estanho, luzente como prata e cheio de vinho, uma terrina de barro escuro, que fumegava. A mesa estava sentado um homem de meia idade, rosto franco e alegre, brincando com uma criancinha que tinha nos joelhos. A curta distância via-se uma mulher, ainda nova, a amamentar outra criança. O pai e a criança riam muito, a mãe sorria. O desconhecido quedou-se um instante a contemplar este sereno e risonho espectáculo. O que lhe iria no espírito? Só ele o poderia dizer. É natural que pensasse que uma casa onde havia alegria, devia ser hospitaleira e que onde via tanta felicidade talvez encontrasse alguma compaixão. Bateu ao de leve na vidraça com os dedos. Vendo que não fora ouvido, bateu segunda vez e ouviu então a mulher dizer: Parece-me que bateram. Eu não ouvi respondeu o marido. O homem tornou a bater. O marido levantou-se, pegou no candeeiro, dirigiu-se para a porta e abriu-a. Era um homem de elevada estatura, meio camponês, meio operário. Trazia um largo avental de couro que lhe subia até ao ombro esquerdo e sobre o qual lhe pendia à cintura, tão seguros como se estivessem num cabide, um martelo, um lenço vermelho e um polvorinho. A camisa, desapertada, deixava-lhe a descoberto o alvo e entroncado pescoço. Tinha sobrancelhas espessas, barba comprida, os olhos à flor do rosto e, além de tudo isto, esse ar de quem está em sua casa, que é uma coisa inexprimível Peço-lhe que me desculpe de o ter incomodado disse o desconhecido mas poderia o senhor, pagando eu, dar-me um prato de sopa e um canto para dormir na barraca que está no jardim? Quem é você? - perguntou o dono da casa. O homem respondeu: . Venho de Puy Moisson. Caminhei todo o dia para vencer as doze léguas até aqui. Poderia fazer-me o que lhe pedi, pagando? Eu não tinha dúvida em recolher um homem de bem que me pagasse disse o camponês. Mas porque não vai para a estalagem? ~~ Não têm lugar. Não é possível! Hoje não é dia de mercado. Já foi à estalagem do Labarre? Já, sim, senhor. E então? O desconhecido respondeu com dificuldade: . Não sei, não me quis receber. E já foi a uma estalagem que há na rua de Chaffaut? Esta segunda pergunta aumentou extraordinariamente o embaraço do forasteiro, que balbuciou: Aí também não me quiseram dar pousada. O rosto do dono da casa assumiu então uma expressão de desconfiança. Mirou novamente o desconhecido dos pés à cabeça e de repente exclamou com uma espécie de estremecimento: . Será você o tal homem? Dizendo isto, relanceou outro olhar para o desconhecido, deu três passos para trás, pousou o candeeiro em cima da mesa e lançou mão da espingarda, que se encontrava pendurada na parede. As palavras do camponês: «Será você o tal homem?», a mulher levantara-se, pegara nas criancinhas ao colo e refugiara-se precipitadamente atrás do marido, olhando aterrada o desconhecido, com o peito descoberto, o olhar desvairado, murmurando em voz baixa: É decerto um ladrão! Tudo isto tivera lugar em menos tempo do que é necessário para o imaginar. Depois de examinar algum tempo o homem como quem examina uma víbora, o dono da casa voltou para a porta e disse: Vai-te daqui! Por caridade disse o homem dê-me ao menos um prato de sopa! Dou-te é um tiro . disse o camponês. E em seguida fechou violentamente a porta. O desconhecido ouviu correr os ferrolhos e, decorrido um momento, fechou-se também a janela e ouviu ainda o ruído de uma tranca de ferro, com que a segurava. A noite continuava a descer e a aragem fria dos Alpes aumentava de força. Ao clarão do dia expirante, o desconhecido avistou, num dos jardins que orlam a rua, uma espécie de cabana que lhe pareceu ser feita de feixes de feno. Saltou resolutamente uma grade de madeira e achou-se no jardim. Aproximou-se da cabana, que tinha por porta uma abertura estreita e pouco elevada, assemelhando-se aos abrigos que os cantoneiros constróem na beira das estradas. Supôs ser, efectivamente, a cabana de um cantoneiro; tinha frio e fome; não poderia matar a fome, mas ao menos tinha ali um abrigo contra o frio. De ordinário, estas cabanas não são ocupadas de noite. Deitou-se de bruços e entrou para a cabana, onde encontrou calor e uma cama de palha. Conservou-se algum tempo deitado, sem poder fazer o menor movimento, tão fatigado ele estava, e em seguida, como a mochila que trazia às costas o incomodava, e era, além disso, um óptimo travesseiro, principiou a desatar uma das correias. Neste momento ouviu um rosnar feroz. Olhou. À entrada da cabana desenhava-se, no meio das trevas, a cabeça dum enorme mastim. Abrigara-se na casinhota de um cão. Dotado de prodigiosa força, o homem lançou mão do cajado, fez da mochila escudo contra a sanha do cão e saiu da casinhota como pôde, não sem ver aumentar os rasgões dos seus andrajos. Saiu igualmente do jardim, mas recuando e obrigado, para conservar o mastim em respeito, a empregar o manejo do cajado que os mestres deste género de esgrima chamam «sarilho». Quando conseguiu, não sem custo, sair do jardim e se encontrou outra vez na rua, só, sem abrigo, expulso até da miserável cabana, deixou-se cair sobre uma pedra, exclamando: Sou ainda menos que um cão! Decorridos instantes, levantou-se e pôs-se de novo a caminho para fora da cidade, esperando encontrar nos campos alguma árvore ou algum moinho abandonado onde se abrigasse. Caminhou assim durante algum tempo, com a cabeça pendida para o peito. Quando se viu longe de toda a espécie de habitação humana, ergueu a vista e olhou em torno de si. Estava no meio duma planície e diante dele erguia-se uma dessas pequenas colinas cobertas de palha cortada rente, as quais, depois da ceifa, parecem cabeças rapadas. O horizonte estava escuro; não o escureciam somente as sombras da noite, mas as nuvens muito baixas, que pareciam apoiar-se na própria colina e que se elevavam vagarosamente, cobrindo o céu em toda a sua extensão. Todavia, como nesse momento a Lua estava quase a surgir do horizonte e no zénite flutuava ainda um resto de clarão crepuscular, essas nuvens formavam, no meio da atmosfera, uma espécie de abóbada esbranquiçada, da qual descia sobre a terra uma tal ou qual claridade. A terra, por conseguinte, achava-se mais clara do que o céu, fenómeno essencialmente sinistro; e a colina, de acanhadas dimensões, desenhava-se vaga e esbranquiçada no tenebroso horizonte. Todo este conjunto era medonho, mesquinho, lúgubre e limitado. Quer na planície, quer na colina, não se via mais do que uma corpulenta árvore, agitando-se e ramalhando a pequena distância do viajante. Este homem estava, evidentemente, muito longe de possuir os delicados hábitos de inteligência e espírito que nos tornam sensíveis aos aspectos misteriosos das coisas que nos cercam; todavia, aquele céu, aquela colina, aquela planície e aquela árvore respiravam tão profunda tristeza que, após um momento de imobilidade e meditação, o homem partiu subitamente pelo caminho que tinha trazido. Há ocasiões em que a natureza parece hostil. Voltou para a cidade. As portas de Digne estavam fechadas. Digne, que no tempo das guerras da religião resistiu a vários cercos, em 1815 era cercada por velhas muralhas flanqueadas de bastiões, que depois foram demolidas. Passou por uma brecha e entrou na cidade. Seriam oito horas, pouco mais ou menos. Como não conhecia as ruas, principiou outra vez a vaguear ao acaso. Chegou assim à prefeitura, depois ao seminário. Ao passar pelo largo da catedral, ameaçou a igreja com o punho cerrado. A esquina do largo fica a oficina de tipografia onde foram impressas as proclamações do imperador e da guarda imperial ao exército, trazidas da ilha de Elba e ditadas pelo próprio imperador. Exausto de fadiga e perdida já a esperança de encontrar pousada, deitou-se no banco de pedra que fica à porta da tipografia. Neste momento, uma senhora já idosa que vinha a sair da igreja, ao ver aquele homem deitado ali, perguntou-lhe: Que faz você aí, pobre homem? Bem vê que estou deitado respondeu ele secamente A bondosa senhora, por certo bem digna de tal nome, era a marquesa de R. . Neste banco? tornou ela. Quem dezanove anos teve por cama uma tábua disse o homem pode muito bem passar a noite num colchão de pedra! Então foi soldado? É verdade, minha senhora, fui soldado Porque não vai para a estalagem? Porque não tenho dinheiro. ~ Valha-me Deus’ Também não tenho comigo Senão quatro soldos! Então dê-mos, sempre é alguma coisa! O homem pegou no dinheiro e a marquesa continuou: Isso não chega para ir para a estalagem. Já lá foi pedir hospedagem? É impossível que possa ficar aqui toda a noite. Você por força há-de estar com frio e vontade de comer. Pode ser que o recolham por caridade. Já bati a todas as portas! E então? De toda a parte me repeliram’ A marquesa tocou-lhe então no braço e indicou-lhe do outro lado do largo, uma casinha branca pegada ao paço Já bateu a todas as portas? perguntou ela. A todas respondeu o homem. E àquela também? Àquela não. Pois então vá lá. _sec+Rom:2_ II A prudência aconselha a sabedoria Nessa mesma noite, o bispo de Digne, depois do seu passeio pela cidade, recolhera-se e conservara-se fechado no seu quarto até muito tarde, ocupado com um grande estudo sobre os Deveres, que, infelizmente, ficou incompleto. Neste trabalho estudava ele quanto os santos padres e os doutores da igreja têm dito sobre tão importante matéria. O seu livro dividia-se em duas partes: a primeira tratava dos deveres de todos, a segunda dos deveres de cada um, segundo a classe a que pertence. Os deveres de todos são os principais. Há quatro que são os indicados por S. Mateus: deveres para com Deus (Math, VI), deveres para consigo próprio (Math., V, 29,30), deveres para com o próximo (Math., VII, 12), deveres para com as criaturas (Math., VI, 20, 25). Quanto aos outros deveres, achara-os o bispo indicados e prescritos em diversas partes; aos soberanos e aos súbditos, na Epístola aos Romanos; aos magistrados, às esposas, às mães e aos mancebos, em S. Pedro; aos maridos, aos pais, aos filhos e aos criados, na Epístola aos Efesos; aos fiéis, na Epístola aos Hebreus; às virgens, na Epístola aos Coríntios. De todas estas prescrições formavam, à força de trabalho, um todo harmónico, que tencionava oferecer às almas. As oito horas estava ainda a trabalhar, escrevendo incòmodamente em quartos de papel, com um volumoso livro aberto sobre os joelhos, quando Magloire entrou, segundo o costume, para tirar a prata do armário junto do leito. Um momento depois, calculando que a mesa estaria posta e que talvez a irmã estivesse à espera dele, fechou o livro, levantou-se e encaminhou-se para a sala de jantar. A sala de jantar era uma sala oblonga, com fogão, uma porta para a rua, como já dissemos, e uma janela para o jardim. Efectivamente, Magloire acabava de pôr a mesa. Ao mesmo tempo que andava neste serviço, conversava com Baptistina. Sobre a mesa que ficava próxima do fogão estava colocado um candeeiro. NO fogão crepitava uma boa fogueira. Facilmente se pode imaginar o aspecto daquelas duas mulheres, ambas com mais de sessenta anos. Magloire, baixa, gorda e ágil; Baptistina, magra, débil, meiga, um pouco mais alta do que o irmão, trajando um vestido de seda cor de castanha, que era a cor da moda em 1806, o qual ela comprara em Paris nesse ano e que ainda lhe durava. Para nos servirmos de uma dessas locuções vulgares que têm o mérito de exprimir numa só frase uma ideia que mal se desenvolveria numa página, Magloire parecia uma campónia e Baptistina uma fidalga, Magloire trazia uma touca branca de rufos na cabeça, um cordãozinho de oiro ao pescoço, único adereço feminino que havia em casa, um lenço preto posto por baixo de um vestido de lã preto, com mangas largas e curtas, um avental de chita de quadrados verdes e vermelhos, atado à cintura por uma fita verde, nos pés, sapatos grossos e meias amarelas, como as mulheres de Marselha. O vestido de Baptistina era talhado pelos moldes de 1806: cinta curta, saia de pouca roda, mangas de dragonas com abas e botões. Uma touca especial ocultava-lhe os cabelos brancos. Magloire tinha ar de inteligência, bondade e agilidade; os cantos da boca desigualmente contraídos, e o lábio superior mais grosso do que o inferior, davam-lhe uma expressão de orgulhosamente imperial. Enquanto o bispo não exprimia a sua vontade, ela falava resolutamente, com certa liberdade misturada de respeito, mas apenas ele a manifestava, obedecia-lhe tão submissamente como Baptistina. Quanto a Baptistina, esta nem sequer abria a boca. Limitava-se a obedecer e a condescender. Ainda mesmo em nova, não fora bonita; tinha olhos grandes e azuis à flor do rosto, nariz comprido acavaletado; mas o seu aspecto indicava inefável bondade, fora predestinada para a mansidão. Mas a fé, a caridade e a esperança, estas três virtudes que reanimam a alma, foram gradualmente elevando essa mansidão a santidade. A natureza fizera-a ovelha, a religião fê-la anjo. Pobre santa! Doce recordação desvanecida! Baptistina referiu tantas vezes, no decorrer do tempo, o que naquela noite se passou no paço, que muitas pessoas, que ainda hoje vivem, se recordam de todos os pormenores da narração. Na ocasião em que o bispo entrou, Magloire falava com certa vivacidade. Conversava com Baptistina sobre um assunto que lhe era familiar e ao qual o bispo estava acostumado. Tratava-se da porta da rua. Parece que, na ocasião em que saíra a fazer compras para a ceia, Magloire ouvira dizer certas coisas em diversos lugares. Falava-se de um homem de má catadura, de um vagabundo suspeito, que nesse dia tinha chegado à cidade, onde decerto ainda permanecia; dizia-se que era provável que nessa noite quem se recolhesse tarde, tivesse algum mau encontro. Que a polícia era a culpada. Mas como não havia de ser assim, se o prefeito e o maire, por causa da sua inimizade, do que tratavam era de comprometer-se mutuamente, deixando andar tudo ao Deus dará? Que pertencia à gente prudente incumbir-se da polícia e guardar-se a si mesma, tendo o cuidado de fechar e aferrolhar bem as portas. Magloire acentuou muito estas últimas palavras, mas o bispo que vinha do seu quarto, onde sentira frio, sentou-se em frente do fogão a aquecer-se, com o pensamento, ao que parecia, distraído noutras coisas. Por consequência, passava desapercebida para ele a frase que Magloire acentuava de propósito. Repetiu-a. Então, Baptistina, querendo satisfazer Magloire, sem desgostar o irmão, aventurou-se a dizer timidamente: O mano ouviu o que disse Magloire? Vagamente respondeu o bispo. Depois, voltando um pouco a cadeira, descansou as mãos nos joelhos e, erguendo para a velha criada o rosto cordial e risonho, a que o clarão da fogueira punha um tom insinuante, acrescentou: Então, o que há? Que sucedeu? Magloire repetiu a história desde o princípio, exagerando-a até sem dar por isso. Era o caso que, àquela hora, se encontrava na cidade um vagabundo esfarrapado, uma espécie de mendigo, perigoso, o qual se apresentara a pedir pousada em casa de Jacquim Labarre, que não quisera recolhê-lo, e a quem tinham visto no boulevard Gassendi e andar a vaguear pelas ruas próximas ao anoitecer. Era uma espécie de malandrim com uma cara de meter medo. Sim? disse o bispo. A condescendência do prelado em interrogá-la, animou Magloire, a quem, no seu entender, esta circunstância indicava que o bispo não estava longe de se assustar; portanto, prosseguiu com ar triunfante: É como lhe digo, Monsenhor. Tenho o pressentimento de que esta noite acontece alguma desgraça na cidade! E ainda para mais, a polícia deixa correr tudo sem tomar providências (repetição inútil). Viver numa terra montanhosa e nem sequer haver à noite lampeões pelas ruas! Se alguém sai, arrisca-se a uma desgraça na escuridão! A menina também é da minha opinião. Monsenhor. Eu? atalhou Baptistina. Eu não digo nada. O que o mano fizer é sempre bem feito. Magloire continuou, como se não tivesse ouvido o protesto: - Dizíamos há pouco que esta casa está muito mal segura e que se Monsenhor o permitisse, eu iria ainda hoje chamar o serralheiro Paulino Musebois para vir pôr os antigos fechos que a porta tinha; estão ali, é um instante. E digo que são precisos os fechos, ainda que não seja senão por esta noite, porque uma porta que para se abrir de fora basta levantar uma aldraba é de fazer a gente andar sempre em sobressalto; e, ainda para mais, Monsenhor tem o costume de mandar logo entrar, e lá pela noite morta nem é preciso pedir lincença... Neste momento bateram à porta com força. Entre quem é disse o bispo. _sec+Rom:3_ III Heroísmo da obediência passiva A porta abriu-se. Abriu-se de par em par, como se alguém a empurrasse com energia e resolução. Entrou um homem. Este homem já nós conhecemos. Era o forasteiro que vimos há pouco a divagar em busca de pousada Depois de entrar, deu um passo e parou, deixando atrás de si a porta aberta. Trazia a mochila às costas, o cajado na mão. A expressão do seu olhar era rude, atrevida, fatigada e violenta. Era uma aparição sinistra. Magloire nem força teve para gritar. Estremeceu e ficou boquiaberta. Baptistina voltou-se e, avistando o homem no momento em que ele entrava, fez menção de erguer-se, aterrada por semelhante visita. Depois, lentamente, voltou-se para o lado do fogão, fitou os olhos no irmão e a expressão do seu rosto tornou-se completamente serena. O bispo fitava o desconhecido com aspecto tranquilo. No momento em que ele abria a boca para perguntar sem dúvida ao recém-chegado o que desejava, o homem encostou-se ao cajado com ambas as mãos, olhou para o velho e para as duas mulheres e, sem esperar que o bispo falasse, disse em voz alta: Chamo-me João Valjean. Sou um forçado das galés, onde estive dezanove anos. Há quatro dias que fui posto em liberdade e vou a caminho de Pontarlier, que é o meu destino. Ainda não parei desde que saí de Toulon. Hoje andei doze léguas a pé. Cheguei aqui quase à noite e fui a uma estalagem onde não me quiseram recolher por causa do meu passaporte amarelo, que tinha apresentado na mairie, por não ter outro remédio. Fui a outra estalagem e disseram-me: «Põe-te daqui para fora!». Assim tenho andado de um lado para outro, sem ninguém me querer recolher. Bati à porta da cadeia e o carcereiro não ma quis abrir. Recolhi-me na casinhota dum cão, mas o cão mordeu-me e expulsou-me como o faria um homem. Pareceu-me que também sabia quem eu era Parti em direcção ao campo, com intenção de dormir ao relento. O céu estava encoberto, e eu, lembrando-me que poderia chover e que Deus não estaria para obstar a que a chuva caísse, voltei para a cidade a fim de me abrigar no vão de alguma porta. Estava eu ali no largo, deitado em cima de um banco de pedra, quando uma senhora já idosa que ia a passar me indicou a sua casa e me disse: «Bata além!». Assim fiz. Agora, diga-me, o que é isto aqui? Se é uma estalagem, tenho dinheiro para pagar. Cento e nove francos e quinze soldos, que ganhei nas galés em dezanove anos com o meu trabalho. Que tem lá isso? Para que serve o dinheiro? Andei doze léguas a pé, estou estafado e tenho fome. Posso ficar? Magloire ~ disse o bispo ponha mais um talher na mesa. O homem deu três passos e continuou, aproximando-se da mesa em que estava o candeeiro e como se não tivesse percebido bem: Perdão, parece que não perceberam. Eu sou um forçado saído há pouco tempo das galés! E, tirando do bolso uma grande folha de papel, abriu-a e prosseguiu: Aqui está o meu passaporte. Amarelo como vêem, e que serve para me fazer expulsar de toda a parte aonde chego. Quer ler? Eu também sei ler, aprendi na prisão. Há lá uma escola para os que querem aprender. Oiça o que diz o passaporte: «João Valjean, forçado, natural de...» isto não interessa. «É posto em liberdade por ter concluído o tempo de galés, onde esteve dezanove anos. Cinco por crime de roubo com arrombamento, catorze por tentar evadir-se quatro vezes. É um homem perigosíssimo». Ora aqui está. Toda a gente me repeliu! O senhor faz-me o favor de me recolher? Se isto é uma estalagem, quer dar-me de comer e deixar-me dormir aí em qualquer canto, na estrebaria, por exemplo? Magloire disse o bispo ~ ponha lençóis lavados na cama da alcova. Magloire saiu imediatamente a pôr em execução as ordens do bispo. Este voltou-se para o desconhecido e disse-lhe: Sente-se, senhor, e aqueça-se. A ceia não tarda e, enquanto o senhor se demora a comer, a criada faz-lhe a cama. Desta vez, o homem avaliou a situação em que se encontrava. A expressão do seu rosto, até então sombria e dura, transformou-se em estupefacção, dúvida e alegria, principiando a balbuciar como louco: Pois quê! O senhor não me põe fora, apesar de eu ser um forçado? Trata-me por senhor quando todos me tratam por tu, quando me tratam pior do que a um cão? Eu pensava que o senhor me expulsaria, por isso disse logo quem era. Oh, abençoada seja a santa mulher que me indicou a sua casa! vou cear, vou dormir numa cama com colchão e lençóis, como toda a gente! Uma cama! Há dezanove anos que não sei o que é dormir numa cama! com que então não me manda pôr fora daqui? Abençoados sejam, já que tanta bondade têm com os desgraçados! Mas eu tenho dinheiro, hei-de recompensá-los bem. Queira desculpar, senhor estalajadeiro, mas como se chama? Olhe que não ficarei a dever nada. É estalajadeiro, não é? Eu sou um padre que mora aqui disse o bispo. Padre! replicou o homem. Mas é um bom padre! Então não me leva dinheiro? É o cura desta grande igreja que está aqui ao pé? Que grande bruto eu sou! Ainda não tinha reparado no seu barrete. Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, o homem arrumava a um canto o cajado e a mochila, tornara a meter o passaporte no bolso e sentara-se. Após uma pequena pausa, continuou: O senhor cura tem bom coração, não me tratou com desprezo! Então não quer que eu lhe pague? Não disse o bispo guarde o seu dinheiro. Quanto tem? Parece que disse cento e nove francos? E quinze soldos acrescentou o homem. Cento e nove francos e quinze soldos. E quanto tempo lhe levou a ganhar ,essa quantia? Dezanove anos. Dezanove anos! O bispo suspirou profundamente. O homem prosseguiu: Ainda não encetei o meu dinheiro. Em quatro dias só gastei vinte e cinco soldos, que ganhei a descarregar uns carros em Grasse. Uma vez que o senhor é padre, vou então contar-lhe. Lá nas galés tínhamos um capelão. E um dia vi um bispo ou um Monsenhor, como lhe chamam. Era o bispo de Majore, em Marselha. É o abade que governa em todos os abades. Perdão, o senhor é que sabe, eu disso não entendo. Disse missa num altar no meio da prisão, com uma coisa aguçada na cabeça, que parecia de oiro, e que reluzia à luz do sol. A ele mal o víamos. Como estava muito longe de nós, não percebemos o que ele disse. Então é que eu vi o que era um bispo. Enquanto ele falava, o bispo levantara-se e fora fechar a porta, que tinha ficado aberta de par em par. Magloire regressou, trazendo um talher que pôs sobre a mesa. Magloire disse o bispo ponha esse talher perto do lume. E, voltando-se para o hóspede, acrescentou: A aragem da noite nestas terras parece que corta. O senhor deve estar com frio? Cada vez que o bispo pronunciava a palavra «senhor», com a sua voz de suave gravidade e o seu modo atencioso, o rosto do homem iluminava-se. O tratamento de «senhor» a um forçado é como que um copo de água a um náufrago da Medusa. A ignomínia tem sede de consideração. Este candeeiro dá tão pouca luz! disse o bispo. Magloire compreendeu e foi buscar acima do fogão do quarto do bispo os dois castiçais de prata, que acendeu e colocou em cima da mesa. Senhor cura disse o homem ~ o senhor é cheio de bondade e por isso não me despreza. Recolhe-me em sua casa, manda acender os seus castiçais por meu respeito. Porém, eu já lhe disse donde venho e contei-lhe a minha desgraça. O bispo, que se encontrava sentado junto dele, tocou-lhe brandamente na mão e disse: O senhor não precisava de dizer-me quem era. Esta casa não é minha, é de Jesus Cristo. Aquela porta não pergunta a quem entra se tem nome, mas sim se tem algum infortúnio. O senhor sofre, tem fome e sede, bem-vindo seja! Não me agradeça por isso, não diga que o recebo em minha casa. O dono desta casa não sou eu, é todo aquele que carece de asilo. Tudo quanto há nesta casa lhe pertence. Que necessidade tenho eu de saber o seu nome? Além disso, antes de mo dizer, já eu sabia o nome que lhe havia de dar, O homem mostrou-se muito admirado. Na verdade? Pois já sabia como me chamava? Sabia respondeu o bispo chama-se meu irmão. Olhe, senhor cura! exclamou o homem. Quando entrei nesta casa, vinha a morrer de fome; porém, o senhor tem tanta bondade, que eu já não sei o que sinto, passou-me tudo! O bispo encarou-o, dizendo-lhe: Tem sofrido muito? Ora! A vestimenta vermelha, a grilheta ao pé, uma tábua por cama, calor, frio, trabalho, pancadas, corrente dobrada pela menor falta, calabouço por uma palavra, sempre acorrentado, ainda que estivesse doente e de cama! Os cães, senhor, ainda são mais felizes! Dezanove anos! E tenho quarenta e seis! Por fim, o passaporte amarelo. Aqui tem o que tenho sofrido! Sim replicou o bispo - o senhor saiu de um lugar de tristeza. Mas lembre-se que haverá mais alegria no céu pelo rosto debulhado em lágrimas de um pecador arrependido, do que pela túnica branca de cem justos. Se saiu dessa mansão de dores com pensamentos de ódio e de cólera contra os homens, é digno de compaixão; se saiu com pensamentos de benevolência, de doçura e de paz, vale mais que qualquer de nós. Entretanto, Magloire tinha posto a ceia na mesa; uma sopa feita de água, azeite, pão e sal, um bocado de toucinho, um pedaço de carne de carneiro, alguns figos, um pouco de queijo fresco e pão de centeio. A criada, de seu motu-próprio, acrescentara uma garrafa de vinho velho de Mauves. O rosto do bispo tomou repentinamente essa expressão jovial peculiar aos génios hospedeiros. ~- Vamos para a mesa disse ele com vivacidade, como tinha por costume, quando algum estranho ceava na sua companhia. Fez sentar o homem à sua direita, e Baptistina, de todo tranquilizada e restabelecida do seu receio, tomou lugar à esquerda. O bispo disse o benedicite e em seguida, como costumava, serviu ele mesmo a sopa. O homem principiou a comer avidamente. De repente, o bispo exclamou: Parece-me que falta qualquer coisa na mesa! Efectivamente, Magloire só tinha posto os três talheres necessários. Ora, era costume antigo, todas as vezes que o bispo tinha hóspedes, pôr na mesa os seis talheres de prata. Ostentação inocente, graciosa aparência de luxo, naquela casa agradável e severa, que elevava a pobreza até à dignidade, era uma espécie de criancice encantadora. Magloire, compreendendo a observação, saiu sem dizer palavra e ao cabo de um momento, os três talheres reclamados pelo bispo brilhavam sobre a toalha, simetricamente colocados diante de cada um dos três convivas. _sec+Rom:4_ IV Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier Chegados a este ponto, não podemos dar melhor ideia do que se passou naquela noite à mesa do bispo do que transcrevendo aqui a passagem de uma carta de Baptistina à condessa de Boischevron, na qual a conversa entre o forçado e o bispo é relatada com ingénua minuciosidade: «. .Este homem não prestava atenção a ninguém. Comia com voracidade de esfaimado. No fim da ceia, porém, disse a meu irmão: «< Senhor cura, isto é tudo bom de mais para mim, mas sempre lhe digo que os carreteiros que não quiseram deixar-me comer com eles, passam melhor do que o senhor! «Aqui para nós, a observação do homem quase me escandalizou. Meu irmão respondeu: « Não admira, trabalham mais do que eu. « Não é por isso replicou o homem é porque têm mais dinheiro. O senhor é pobre, bem vejo; talvez nem mesmo seja cura. Pois olhe, se Deus fosse justo, devia fazê-lo mais do que cura! «~ Deus é mais do que justo! disse meu irmão. E, passado um instante, acrescentou: Então o senhor João Valjean vai para Pontarlier? « com itinerário obrigado. «Creio que foi assim que o homem disse. Em seguida continuou: « Amanhã de madrugada, infalivelmente, tenho de pôr-me a caminho. Mal se pode andar agora. Se as noites estão frias, de dia não se pára com calor. « Pois vai para uma excelente terra prosseguiu meu irmão. No tempo da revolução, ficando a minha família arruinada, refugiei-me primeiro em Franche-Conté, onde vivi algum tempo do meu trabalho. Tinha boa vontade, por isso achei sem dificuldade em que me ocupar. Há ali por onde escolher: fábricas de papel, de distilação, lagares de azeite, relojoarias, fábricas de aço, de cobre, e não menos de vinte oficinas de ferreiro, quatro das quais, as de Lods, Châttilon, Audincourt e Buere, são muito consideráveis. . «Parece-me não me enganar e que são estes os nomes que meu irmão citou. Depois, interrompendo-se, dirigiu-me a palavra: « Ó mana, não temos lá ainda alguns parentes? «. Tínhamos respondi eu. Entre outros, o senhor Lucenet, que era capitão dos guardas barreiras, no tempo do antigo regime «. É verdade continuou meu irmão mas em 93 l não havia parentes; ninguém podia contar senão com os seus braços, portanto lancei-me ao trabalho. Há em Pontarlier, para onde o senhor Valjean vai, uma indústria especial e muito agradável para quem a exerce. São as fábricas de queijos, a que lá chamam queijeiras. «Então meu irmão, sem deixar de instar com o homem para que comesse, passou a explicar-lhe minuciosamente o que são as queijeiras de Pontarlier, que se dividem em duas espécies: as grandes granjas, que pertencem a pessoas abastadas, e onde há quarenta ou cinquenta vacas, as quais produzem sete ou oito mil queijos cada Verão e as queijeiras de associação, que pertencem a montanheses pobres, que sustentam as suas vacas em comum e dividem depois os produtos. Estes últimos têm assoldadado um queijeiro, ao qual chamam grurin, que recebe o leite das vacas dos associados três vezes ao dia, tomando nota exacta da porção que pertence a cada um dos sócios. Por fins de Abril principia o trabalho das queijeiras e em meados de Junho é que os queijeiros conduzem as vacas à montanha. «O homem ia-se reanimando, à proporção que comia. Meu irmão fazia-lhe beber o excelente vinho de Mauves, que ele mesmo não bebe, porque diz que é vinho caro. Explicava-lhe estes pormenores com aquele ar prazenteiro que a minha amiga lhe conhece, entremeando as suas palavras de graciosas atenções para comigo. Quando falou no bom ofício de grurin, como se desejasse que o seu hóspede entendesse, sem que lho aconselhasse directamente, que seria bom recurso para ele. «Uma circunstância se deu que me fez impressão. O homem era o que já lhe disse. Pois meu irmão, não só durante a ceia, mas em todo o tempo que estiveram juntos antes de se recolherem, exceptuando algumas palavras a respeito de Jesus, quando ele entrou, não proferiu uma única palavra que pudesse recordar ao homem o que tinha sido, nem o que ele próprio era Fora, na aparência, excelente ocasião de pregar um pouco e de fazer sentir ao forçado o predomínio do bispo, imprimindo-lhe assim a marca da passagem pela sua sede. Para qualquer outro que assim tivesse na mão aquele desgraçado, era bem cabida a ocasião de lhe dar, ao mesmo tempo, o alimento do corpo e do espírito, fazendo-lhe alguma admoestação com grande cabedal de moral e bons conselhos, ou de mostrar comiseração, exortando-o a comportar-se melhor para o futuro. Meu irmão nem sequer lhe perguntou de que terra era, nem a história da sua vida, pois nela se dera uma falta e meu irmão parecia que evitava quanto pudesse recordar-lha. A tal extremo levava isto, que uma vez, falando dos montanheses de Pontarlier, que têm um suave trabalho perto do céu e que acrescentava ele são felizes porque são inocentes, calou-se de repente, receando que esta palavra, a seu pesar proferida, ofendesse o homem em alguma coisa. «A força de reflexão, parece-me ter compreendido o que se passava no coração de meu irmão. Ele entendia, sem dúvida, que o homem chamado João Valjean, tinha em demasia presente no espírito a sua miséria, que o melhor seria distraí-lo dela e fazê-lo persuadir, embora por um só instante, que era uma pessoa como outra qualquer, tratando-o a ele como tratava a toda a gente. «Não acha, minha amiga, um não sei quê de evangélico nesta delicadeza que se abstém de práticas, de moral, de alusões, e não lhe parece que a melhor compaixão para com o homem que tem uma ferida é não lhe tocar nela? Pareceu-me ser este o motivo secreto por que meu irmão assim procedia. «Em todo o caso, o que posso assegurar, é que se ele teve todas estas ideias, nem a mim as deu a conhecer; conservou-se desde o princípio ao fim, segundo o seu costume, ceando com o tal João Valjean com o mesmo ar e as mesmas atenções que teria, se se achasse presente o senhor Gedeão Preboste ou o prior da freguesia. «No fim, quando já estávamos na sobremesa, bateram à porta. Era a tia Gerbaud com o filhinho nos braços. Meu irmão beijou a criancinha na testa e pediu-me quinze soldos para os dar à tia Gerbaud. O homem quase não dava atenção ao que se passava. Não proferia uma só palavra e dava indícios de estar muito cansado. Apenas a pobre Gerbaud saiu, meu irmão deu graças e voltou-se depois para o homem, dizendo-lhe: «~ Agora trate de descansar, que lhe há-de ser necessário. «Magloire levantou a mesa num instante e, entendendo que devíamos retirar-nos para deixar o hóspede à sua vontade, subimos ambas para os nossos quartos. Todavia, um instante depois, mandei Magloire ir deitar sobre a cama do pobre homem uma pele de cabrito montês da Floresta Negra, que eu tinha no meu quarto. As noites vão frias e a pele aquece muito. Pena é que ela esteja tão velha, tem-lhe caído o pêlo quase todo. Foi comprada por meu irmão no tempo em que ele esteve na Alemanha, em Tottlingen, próximo à nascente do Danúbio, assim como a faquinha de cabo de marfim de que me sirvo à mesa. «Magloire voltou logo a seguir e fomos ambas rezar na sala onde estendemos a roupa e depois recolhemo-nos aos nossos quartos sem proferir mais uma palavra. _sec+Rom:5_ V Tranquilidade Monsenhor Bemvindo, depois de se ter despedido da irmã, pegou num dos castiçais de prata que estavam em cima da mesa e entregou o outro ao seu hóspede, dizendo-lhe ao mesmo tempo: vou conduzi-lo ao seu quarto. O homem seguiu-o. Como acima dissemos, a casa era dividida de tal modo que para se passar para o oratório, em que ficava a alcova, ou sair dele, era necessário atravessar o quarto do bispo. Na ocasião em que ambos o atravessavam, Magloire guardava os talheres de prata no armário que ficava à cabeceira da cama. Era o último serviço que fazia todas as noites antes de se ir deitar. O bispo conduziu o hóspede à alcova, onde se via uma cama preparada com toda a limpeza e uma mesinha, sobre a qual o homem pousou o castiçal. Ora vamos disse-lhe o bispo -~ durma bem e pela manhã não se vá sem primeiro tomar uma chávena de leite quente das nossas vacas. Muito obrigado, senhor cura respondeu o homem. Mal proferira, porém, estas palavras cheias de serenidade, teve de repente e sem transição um movimento impetuoso, que gelaria de susto as duas boas mulheres, se dele fossem testemunhas. Ainda mesmo hoje é para nós difícil fixar a causa que, naquele momento, operava sobre ele. Seria acaso sua intenção fazer uma advertência ou uma ameaça? Teria obedecido a uma espécie de impulso instintivo e para ele mesmo obscuro? A verdade é que se voltou de repente para o velho, cruzou os braços e, fitando-o com um olhar selvagem, exclamou com voz rouca: . Então recolhe-me em sua casa e dá-me um quarto assim tão próximo do seu? E, interrompendo-se, acrescentou com um sorriso em que havia o que quer que fosse de monstruoso: Já pensou bem? Quem lhe assegura que eu não seja um assassino? Isso só pertence a Deus! respondeu o bispo. Depois, com a maior gravidade, elevou os dois dedos da mão direita e, mexendo os lábios como quem reza ou fala consigo mesmo, abençoou o homem, que não se. inclinou. Em seguida, e sem voltar a cabeça, dirigiu-se para o seu quarto. Sempre que na alcova ficava alguém, Magloire tinha o cuidado de correr uma cortina que havia no oratório, ocultando assim inteiramente o altar. O bispo, ao passar por diante da cortina, ajoelhou e fez uma breve oração. Um momento depois, encontrava-se a passear no quintal, meditando, contemplando, com a alma e o pensamento alheados nessas sublimes e misteriosas coisas que Deus mostra de noite aos olhos que velam. Quanto ao hóspede, estava realmente tão cansado, que nem se aproveitou dos lençóis lavados. Apagou a luz com um sopro das ventas, segundo o uso dos forçados e atirou-se vestido para cima da cama, adormecendo logo profundamente. Batia meia-noite quando o bispo, interrompendo o seu costumado passeio no jardim, entrou no seu quarto. Decorridos mais alguns minutos, a casa jazia no mais profundo silêncio. _sec+Rom:6_ VI João Valjean O hóspede do bispo acordou alta noite. João Valjean era oriundo de uma pobre família de camponeses de Brie. Na sua infância não aprendera a ler. Depois de homem fizera-se podador em Taverolles. Sua mãe chamava-se Joana Mateus e seu pai João Valjean ou Vlajean, alcunha talvez formada pela contracção de voilà Jean. João Valjean era dotado de carácter pensativo, sem ser triste, circunstância particular às naturezas afectuosas. No fim de tudo, porém, não passava de uma criatura dorminhoca e destituída de interesse, ao menos aparentemente. Perdera os pais ainda de tenra idade. A mãe morrera vítima de uma febre de leite mal tratada; o pai, que fora também podador, morrera em consequência de uma queda, caindo de uma árvore Não ficara a João Valjean senão uma irmã, mais velha do que ele, viúva, com sete filhos, entre rapazes e raparigas. A irmã tomou conta de Valjean, e enquanto o marido foi vivo conservou o irmão na sua companhia e sustentou-o. Mas o marido morreu A mais velha das sete criancinhas tinha oito anos, a mais nova doze meses João Valjean tinha completado vinte e cinco anos. Para as criancinhas substituiu o pai que lhes faltara, e por sua vez passou a amparar a irmã que o amparara a ele. Esta mudança operou-se com a maior simplicidade, como se fora um dever, e até com certo orgulho da parte de João. Assim consumira a mocidade num trabalho rude e mal retribuído. Nunca lhe tinham conhecido afeição amorosa, nunca tivera tempo para se preocupar com o amor. A noite recolhia a casa fatigado e comia a sua sopa sem proferir uma só palavra. Às vezes, sua irmã, quando ele estava a comer, tirava-lhe da tigela o melhor da ceia, isto é, o bocado de carne, de toucinho, ou o olho de couve, para dar a algum dos filhos; ele não deixava de comer, curvado sobre a mesa e com a cabeça quase metida na tigela, os compridos cabelos caídos para diante dos olhos, nem opunha resistência, parecendo não dar por coisa alguma. Havia em Taverolles, próximo da habitação dos Valjeans, do outro lado do lugar, uma caseira chamada Maria Cláudia; às vezes, os filhos de Joana, quase sempre esfaimados, iam pedir em nome da mãe, uma porção de leite a Maria Cláudia e bebiam-no atrás de algum valado ou na volta de qualquer caminho, arrancando-se tão sofregamente a bilha uns aos outros, que às vezes as rapariguinhas entornavam-no pelas roupas que traziam. Se a mãe tivesse conhecimento destes pequenos abusos de confiança, castigaria severamente os delinquentes. João Valjean, apesar dos seus modos bruscos, pagava o leite a Maria Cláudia às escondidas da mãe e as criancinhas não eram castigadas. No tempo das podas, ganhava vinte e quatro soldos por dia; terminadas elas, ajustava-se como ceifeiro, como cavador, como moço de gado, como jornaleiro, enfim, fazia tudo o que podia. A irmã, pela sua parte, também não ficava ociosa. Mas que valia o trabalho de dois para sustentar um rancho de sete criancinhas? Era um triste grupo, que a miséria pouco a pouco foi abraçando e apertando no seu círculo de ferro. Chegou um Inverno muito rigoroso, em que João Valjean não encontrou que fazer. Ficou sem trabalho e a família sem pão. Sete criancinhas sem pão! Num domingo à noite, preparava-se Maubert Isabeau, padeiro com estabelecimento no largo da igreja, em Taverolles, para se deitar, quando ouviu uma violenta pancada na vidraça gradeada da sua loja. Correu imediatamente para ali e chegou a tempo de ver um braço passando por uma abertura feita no vidro com um murro, pegar num pão e levá-lo. Isabeau saiu apressadamente e correu atrás do ladrão, que fugia como lhe permitiam as pernas, conseguindo alcançá-lo. O ladrão largara o pão no caminho durante a corrida, mas tinha ainda o braço ensanguentado. Era João Valjean. Passava-se isto em 1795. João Valjean foi levado aos tribunais daquele tempo «pelo crime de roubo nocturno com arrombamento, praticado numa casa habitada». Possuía uma espingarda de que se servia como o melhor atirador e exercia às vezes o mister de caçador furtivo. Tudo isto lhe foi prejudicial. Há contra os caçadores furtivos um preconceito legítimo. O caçador furtivo e o contrabandista vizinham paredes meias com o salteador. Contudo, seja dito de passagem, entre estas raças de homens e o medonho assassino das cidades há ainda um profundo abismo. O caçador furtivo vive na floresta, o contrabandista na montanha ou no mar. As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos. A montanha, o mar e a floresta, produzem homens selvagens: desenvolvem a parte feroz, porém muitas vezes sem destruir a parte humana. João Valjean foi considerado criminoso. Os termos do código eram formais. Existem na nossa civilização momentos terríveis: os momentos em que a penalidade é descarregada sobre um culpado. Que lúgubre momento aquele em que a sociedade se desvia e consuma o irreparável desamparo de uma criatura racional! João Valjean foi condenado a cinco anos de galés. A 22 de Abril de 1796, proclamava-se em Paris a vitória de Montennotte, alcançada pelo general em chefe do exército de Itália, que a mensagem do Directório de Quinhentos, chama Buonaparte, e nesse mesmo dia saía de Bicêtre uma numerosa leva de forçados. João Valjean fazia parte dessa leva. Um antigo carcereiro daquela prisão, que conta hoje perto de oitenta anos, lembra-se ainda perfeitamente desse infeliz que foi acorrentado na extremidade do quarto cordão, no ângulo norte do pátio. Jazia sentado no chão como todos os outros e parecia não compreender mais nada além do horror da sua situação. É provável que por entre as vagas ideias da sua lamentável ignorância se lhe afigurasse excessivo o tormento que os homens lhe infligiam. Todo o tempo que lhe estiveram a soldar a argola da gotilha, pelo lado de trás, o que se fazia descarregando sobre o ferro grandes marteladas, o infeliz chorou sempre e, sufocado pelas lágrimas que lhe embargavam a voz, apenas de quando em quando se lhe ouvia dizer: «Eu era um pobre podador em Taverolles!» Ao dizer isto, no meio de contínuos soluços, levantava e baixava gradualmente a mão direita sete vezes, como se tocasse sucessivamente em sete cabeças desiguais, e por este gesto depreendia-se que o crime que cometera, fora para alimentar sete crianças. Partiu para Toulon, onde chegou ao cabo de uma viagem de vinte e sete dias, num carro e com a corrente de forçado ao pescoço. Em Toulon vestiram-lhe a jaqueta vermelha, que constitui o trajo dos sentenciados às galés. Desde então, tudo o que constituíra a sua existência até aí se desvaneceu, incluindo o nome; deixou de ser João Valjean para ser apenas um número, o 24.601. E sua irmã? Que destino levou? Que destino levaram aquelas sete criancinhas? Quem se ocupa de semelhantes coisas? Perguntai ao tufão que passa para onde arremessou as folhas secas da pequena árvore serrada pelo pé. É sempre a mesma história. Aquelas pobres criaturas de Deus, agora sem apoio, sem guia nem asilo, partiram ao acaso, talvez mesmo que cada qual pelo seu lado, e pouco a pouco se foram embrenhando nessa névoa frígida em que se perdem os destinos solitários, trevas espessas no meio das quais sucessivamente desaparecem tantas frontes assinaladas com o estigma do infortúnio, durante a triste peregrinação da humanidade. Abandonaram a terra que os viu nascer; o campanário da sua aldeia esqueceu-os; esqueceu-os o marco do campo que fora seu; no fim de alguns anos passados nas galés, até o próprio João Valjean os esqueceu. Naquele coração, onde existira uma ferida, ficara uma cicatriz. Eis tudo. Durante todo o tempo que esteve em Toulon, uma só vez ouviu falar da irmã. Foi pelos fins do seu quarto ano de cativeiro. Alguém que os ’ conhecera na terra tinha visto a irmã. Residia em Paris, ] onde morava numa rua pobre das proximidades de S. Sulpício, chamada a rua de Geindre. Apenas tinha na sua ’ companhia um filho, o mais novo de todos. Onde esta- , vam os outros seis? Nem ela mesmo o saberia dizer. Todas as manhãs ia trabalhar para uma tipografia na rua do Sabot, n.º 3, onde exercia o mister de encadernadora, e onde tinha de estar às seis horas da manhã, hora que de Inverno ainda nem se conhece o dia. No mesmo edifício havia uma escola, para onde ela levava o filho, que tinha sete anos. Como ela, porém, entrava às seis horas, e a escola não se abria senão às sete, a pobre criança, a quem não consentiam entrada na tipografia, tinha de esperar uma hora cá fora, no Inverno, ao relento da noite, antes de principiar a aula. Todas as manhãs, os operários que passavam, viam a infeliz criança sentada no chão, pendendo com sono, e muitas vezes a dormir nalgum canto, acocorado e encostado ao seu cestinho. Quando chovia, a porteira, compadecida do rapazinho, recolhia-o no seu cubículo, onde havia apenas uma enxerga, uma roda de fiar e duas cadeiras de pau; o pequeno deitava-se a um canto e adormecia abraçado ao gato para não ter tanto frio. Às sete horas abria-se a escola e ele lá se apresentava. Eis o que disseram a João Valjean. Contaram-lhe isto um dia, foi um momento, um relâmpago, como uma janela repentinamente aberta sobre os destinos dos entes que ele tanto amava e que logo após se fechou. Depois disto não tornou a ouvir falar deles, foi aquela a última vez. Nada mais soube a seu respeito, nunca os tornou a ver, nem no decurso desta dolorosa história se tornará a fazer menção a eles. Nos fins do quarto ano, chegou a João Valjean a vez de se evadir, no que foi auxiliado pelos seus camaradas, comoé costume de tão triste lugar. Evadiu-se e andou dois dias errante pelos campos, usufruindo a liberdade, se é ser livre ver-se perseguido, voltar a cabeça a todo o instante, estremecer ao menor ruído, ter medo de tudo, da chaminé que fumega, do homem que passa, do cão que ladra, do cavalo que galopa, da hora que bate, do dia porque se vê, da noite porque se não vê, da estrada, do atalho, do arvoredo, do sono. Na noite do segundo dia, João Valjean era recapturado. Havia trinta e seis horas que não tinha comido nem bebido. Em virtude deste novo delito, foi condenado pelo tribunal marítimo a uma prolongação de três anos, o que perfez oito anos. Ao fim do sexto ano, chegou-lhe novamente ocasião de se evadir; aproveitou-se dela, mas não chegou a consumar a fuga. Apenas deram pela sua falta na ocasião da chamada, dispararam o tiro de peça do costume, e, apesar da escuridão da noite, deram com ele escondido debaixo da quilha de um navio em construção. Resistiu aos guardas que o prenderam. Crime de evasão e rebelião Este novo delito, previsto pelo código especial, foi punido com um agravo de cinco anos, sendo dois de dupla grilheta. Treze anos. No décimo ano, tentou a fuga novamente, porém, não foi mais feliz do que das outras vezes. Mais três anos por esta nova tentativa. Dezasseis anos. Finalmente, no décimo terceiro ano, tentou mais uma vez evadir-se e foi novamente preso depois de quatro horas de liberdade. Três anos por estas quatro horas. Em Outubro de 1815 foi posto em liberdade, tendo entrado em 1796, por ter quebrado um vidro e furtado um pão. Permitam-nos aqui um parêntesis. É a segunda vez, nos seus estudos sobre a penalidade e sobre a condenação pela lei, que o autor deste livro encontra o roubo de um pão, como origem da catástrofe de um destino Cláudio Gueux roubara um pão; João Valjean tinha roubado um pão; segundo uma estatística inglesa, está provado que em Londres de cinco roubos quatro têm por causa imediata a fome. João Valjean entrara para as galés soluçante e trémulo; saiu de lá impassível. Entrara angustiado, saiu sombrio. Que se passara naquela alma? _sec+Rom:7_ VII O interior do desespero Vamos tentar descrevê-lo. É indispensável que a sociedade olhe para estas coisas, visto serem obra sua. João Valjean era ignorante, mas não imbecil. Ardia ainda naquele homem a luz natural. O infortúnio, que traz consigo um tal ou qual clarão, aumentou a pouca claridade que havia naquele espírito. Não obstante o azorrague, a grilheta, o calaboiço, o trabalho incessante, o sol ardente das galés, a tarimba dos forçados, João Valjean concentrou-se na sua consciência e reflectiu. Constituíra-se em tribunal e principiou por julgar-se a si próprio. Reconheceu então que não era um inocente injustamente punido. Confessou a sós consigo que cometera uma acção violenta e repreensível; que talvez lhe não recusassem aquele pão, se o tivesse pedido; que, em todo o caso, sempre lhe fora melhor esperá-lo, ou da compaixão ou do trabalho; que não era, em suma, razão definitiva e sem réplica dizer-se: não é possível a espera quando se morre de fome. Primeiro, porque é raríssimo que alguém morra literalmente à fome; segundo, porque, feliz ou infelizmente, o homem é conformado de tal modo, que pode padecer muito e por espaço de muito tempo, sem morrer, quer física, quer moralmente; que devia, portanto, ter sofrido com resignação, o que mesmo teria sido melhor para aquelas pobres criancinhas; que fora por certo um acto de loucura nele, mesquinha criatura impdtente, querer arcar com a sociedade a peito descoberto e imaginar que o roubo o podia tirar da miséria; que, finalmente, era má porta para sair da miséria aquela por onde se entra na infâmia e concluiu que procedera mal. Depois fez a si próprio as seguintes perguntas: Fora ele o único que procedera mal na sua fatal história? Antes de tudo, não era uma coisa grave que um trabalhador como ele não tivesse em que se ocupar; que um homem laborioso como ele não tivesse que comer? Em segundo lugar, . confessada a culpa cometida, não fora bárbaro e desmesurado o castigo infligido? Não houvera maior abuso da parte da lei na pena do que da parte do criminoso na culpa? Não houvera excesso de peso no prato da balança que contém a expiação? O excesso do castigo não seria a aniquilação do delito e não daria em resultado inverter as situações, substituindo a culpa do delinquente pela culpa da repressão, fazendo do criminoso a vítima e do devedor credor e pondo definitivamente o direito da parte daquele mesmo que o violara? Aquele castigo, complicado com sucessivos agravos por tentativas de evasão, não viria a ser, por último, um atentado do mais forte contra o mais fraco, um crime da sociedade contra o indivíduo, crime que recomeçara todos os dias, crime que durara dezanove anos? Perguntou a si próprio se a sociedade humana podia ter o direito de fazer sofrer igualmente a todos os seus membros, num caso a sua desarrazoada imprevidência, noutro a sua previdente inexorabilidade, e de sequestrar para sempre a liberdade a um infeliz entre uma falta e um excesso . falta de trabalho, excesso de castigo. Se não era exorbitante que a sociedade assim tratasse injustamente os seus membros mais mal contemplados na repartição dos bens que dá o acaso, e, por conseguinte, mais dignos de consideração. Propostas e resolvidas estas questões, julgou a sociedade e condenou-a. Condenou-a ao seu ódio. Tornou-a responsável pela sorte que experimentava e pareceu-lhe que talvez não hesitasse em pedir-lhe contas algum dia, A si próprio afirmou que não havia equilíbrio entre o dano que causara e o dano que lhe causavam; concluiu, por fim, que o seu castigo não era, na verdade, uma injustiça, mas uma incontestável iniquidade. A cólera pode ser louca e absurda; pode o homem sentir-se irritado sem forte motivo para isso, mas a indignação tem sempre por base uma razão poderosa. João Valjean sentia-se indignado. Além disso, a sociedade humana nunca lhe fizera senão mal; nunca lhe conhecera senão o aspecto irado, chamado por ela a sua justiça, que mostra àqueles a quem fere. Nunca homem algum se achegara a ele senão para o maltratar. O contacto com eles fora-lhe sempre motivo de alguma dor. Nunca mais, depois da sua infância, morta sua mãe, perdida sua irmã, nunca mais encontrara uma palavra amiga, um olhar benévolo De sofrimento em sofrimento, chegara a pouco e pouco à convicção de que a vida é uma guerra, guerra em que o vencido era ele. A única arma que possuía era o seu ódio. Resolveu afiá-la nas galés e levá-la consigo quando dali saísse. Havia em Toulon uma escola para os forçados, na qual se ensinava o essencial a alguns daqueles desgraçados que tinham boa vontade. João Valjean foi do número desses homens Frequentou a escola tendo quarenta anos e aprendeu a ler, a escrever e a contar. Sentiu que desenvolvendo a inteligência, fortificava o seu ódio. Em certos casos, a instrução e a luz podem servir para desenvolver a maldade. Triste é dizê-lo, mas depois de ter julgado a sociedade que o fizera desgraçado, julgou a Providência, que estabelecera a sociedade e condenou-a também. Assim, durante aqueles dezanove anos de tormentos e escravidão, aquela alma elevara-se e precipitara-se ao mesmo tempo. Por um lado recebera luz, pelo outro as trevas João Valjean não era dotado de maus instintos. Quando entrou para as galés, ainda não tinha perdido a natural bondade. Lá condenou a sociedade e conheceu que se tornara mau; condenou a Providência e tornava-se ímpio. Não podemos continuar sem reflectir um momento. Em verdade, a natureza humana transforma-se assim tão completamente? O homem que saiu bom das mãos de Deus pode tornar-se mau entre as mãos do homem? A alma pode ser integralmente transformada pelo destino e tornar-se má, sendo mau esse destino? O coração pode tornar-se disforme e contrair enfermidades incuráveis sobre a pressão de um desproporcionado infortúnio, como a coluna vertebral debaixo de uma abóbada extremamente baixa? Acaso não existe na alma de qualquer homem, acaso não existia na alma de João Valjean em particular, uma centelha primitiva, um elemento divino, incorruptível neste mundo, imortal no outro, que pode desenvolver o bem, acender e fazer fulgurar esplendorosamente e que jamais o mal pode ’extinguir inteiramente? Graves e obscuras perguntas, à última das quais qualquer fisiologista talvez respondesse negativamente e sem hesitação, se tivesse visto em Toulon, nas horas de repouso, que para João Valjean eram horas de melancólica meditação, sentado, de braços cruzados, em cima de algum dos poiais que servem para a amarração dos navios, com a extremidade inferior da grilheta suspensa da abertura do bolso, para não andar com ela de rastos, aquele forçado taciturno, grave, silencioso e pensativo, pária das leis que contemplava os homens com aspecto irado, condenado pela civilização, que contemplava o céu com severidade. Por certo que o fisiologista teria visto naquele homem uma miséria irremediável; teria lamentado aquele enfermo produzido pela lei, mas nem sequer tentaria um tratamento; desviaria os olhos das cavernas que entrevisse naquela alma, e, como Dante fez da porta do inferno, riscaria daquela existência a palavra que o dedo de Deus, apesar de tudo, escreveu na fronte de todo o homem: «Esperança!» Seria este estado da alma de João Valjean, tão perfeitamente claro para ele, como nós diligenciámos que o fosse para quem nos lê? João Valjean veria acaso distintamente após a sua formação e veria distinta. mente à medida que se tinham ido formando, todos os elementos de que se compunha a sua miséria moral? Teria esse homem rude e ignorante claro conhecimento da sucessão de ideias, mediante a qual gradualmente subira e descera até aos lúgubres aspectos que eram, havia já tantos anos, o interior horizonte do seu espírito? Teria perfeita consciência de quanto se passara nele e todas as suas sensações? É o que não ousaremos dizer; é até o que não acreditamos. João Valjean era demasiadamente ignorante para que, mesmo após tão grandes infortúnios, se não desse na sua alma um grande vácuo Havia ocasiões em que nem ele próprio sabia ao certo o que experimentava. João Valjean jazia no meio das trevas, sofria no meio das trevas, odiava no meio das trevas. Vivia por hábito no meio desta escuridão, às apalpadelas como um cego ou como um homem que sonha. De tempos a tempos, originado nele ou produzido por uma causa exterior, era de súbito acometido por um acesso de cólera e que era como um requinte de sofrimento, um pálido e rápido fulgor que lhe iluminava todas as sinuosidades da alma, fazendo repentinamente despontar em torno dele para qualquer parte que lançasse a vista, os pavorosos precipícios e sombrias perspectivas do seu destino, ao clarão de uma medonha luz. Extinto esse fulgor, envolvia-o de novo a escuridão e nem ele próprio sabia onde se encontrava. O característico das punições desta natureza, nas quais domina o inexorável, isto é, o elemento embrutecedor, é transformarem gradualmente, por uma espécie de estúpida transfiguração, um homem num animal perigoso. Algumas vezes num animal feroz. Bastariam para provar esta singular acção exercida pela lei sobre a alma humana, as necessárias e pertinazes tentativas de evasão levadas a efeito por João Valjean Ele renovaria essas tentativas, tão completamente ineficazes e tolas, tantas vezes quantas se lhe oferecesse ensejo para as realizar, sem reflectir, por um só instante, nem no resultado nem nas experiências já feitas. Irrompia impetuoso, como o lobo que avista a janela aberta. Dizia-lhe o instinto: «Foge’» O raciocínio ter-lhe-ia decerto dito: «Não fujas!» Porém, diante de tão forte tentação, a razão desaparecia e ficava só o instinto. A besta era quem agia. Depois agarravam-no outra vez e as novas severidades que lhe infligiam apenas conseguiam torná-lo ainda mais bravio. Uma particularidade se dava nele que não devemos omitir. João Valjean era dotado de uma força física, a respeito da qual nenhum dos seus companheiros das galés o igualava. No trabalho de alar um cabo ou de puxar um cabrestante, valia por quatro homens. Levantava e conduzia muitas vezes às costas enormes pesos, substituindo quando era preciso o instrumento chamado «crie», que outrora tinha o nome de «orgueil», donde, seja dito de passagem, tomou nome a rua de Montorgueil. Em razão disto, os seus camaradas alcunharam-no de João-le-Cric. Uma ocasião, andando a fazer-se alguns reparos na varanda da casa da câmara de Toulon, uma das admiráveis cariatides de Puget que sustentam a varanda deslocou-se e esteve quase a vir a terra. João Valjean, que se encontrava próximo, deitou os ombros à cariatide e sustentou-a sozinho enquanto os outros operários não acudiram. A sua destreza ultrapassava ainda o vigor de que era dotado. Certos forçados, perpétuos sonhadores de evasões, chegam a fazer da força e da destreza combinadas, verdadeira ciência. É a ciência dos músculos. Uma completa e misteriosa estatística é quotidianamente posta em prática pelos presos, eternos invejosos dos pássaros e das moscas. Trepar por uma vertical e achar pontos de apoio onde apenas se via uma saliência, era um brinquedo para João Valjean. Dado o ângulo de uma parede, com a tensão das costas e das curvas das pernas, com os cotovelos e os calcanhares fincados nas asperezas da pedra, içava-se como por magia à altura de um terceiro andar. As vezes subia deste modo até ao telhado da prisão. João Valjean falava pouco e nunca se ria. Era necessário uma comoção extraordinária para lhe arrancar, uma ou duas vezes por ano, aquele lúgubre riso do forçado, que é como que o eco de um rir infernal. Ao ver a expressão habitual do seu rosto, dir-se-ia que aquele homem trazia de contínuo os olhos fitos em alguma pavorosa visão. Andava, com efeito, absorto. Por entre as confusas percepções de uma natureza incompleta e de uma inteligência atrofiada, João Valjean conhecia vagamente que pesava sobre ele o que quer que fosse de monstruoso. No meio da obscura e desmaiada penumbra em que se arrastava, de cada vez que voltava a cabeça e tentava elevar os olhos, via com terror misturado de raiva, surgir, erguer-se, elevar-se em alturas incomensuráveis, com horríveis escarpamentos, uma espécie de pavoroso montão de coisas, leis, preconceitos, homens e factos, cujos contornos mal distinguia, cuja aglomeração o amedrontava, e que não era nada mais do que essa maravilhosa pirâmide a que nós chamamos civilização. No meio desse conjunto desigual e disforme, divisava aqui e além, ora próximo a ele, ora longe e em alturas inacessíveis, algum grupo, alguma saliência iluminada por um clarão mais vivo; aqui, por exemplo, o guarda-chusma com o seu azorrague, além o gendarme com o seu sabre, mais ao longe o arcebispo mitrado, mais acima ainda e no meio de uma como auréola resplandecente, o imperador coroado e coruscante. Parecia-lhe que esses longínquos esplendores, em vez de dissipar as trevas que o circundavam, as tornavam mais carregadas e fúnebres Tudo isso, leis, preconceitos, factos, homens, cruzava-se numa região superior, consoante o misterioso e complicado movimento que Deus imprime à civilização, caminhando por cima dele e esmagando-o com o que quer que era de serena crueldade e inexorável indiferença. Almas despenhadas no abismo do mais intenso infortúnio, homens infelizes perdidos no mais fundo desses limbos, para os quais ninguém deita os olhos, os réprobos da lei sentem sobre si todo o peso da sociedade humana, tão horrível para os que se acham de fora, tão terrível para os que se acham por baixo. Vítima desta situação, João Valjean meditava. De que natureza poderiam ser as suas cogitações? Se o grão de milho debaixo da mó pensasse, pensaria, sem dúvida, o que João Valjean pensava. Todas estas coisas, realidades cheias de espectros, fantasmagorias cheias de realidade, tinham, por último, criado nele certo estado interior quase inexplicável As vezes, no meio da sua tarefa de forçado, parava e punha-se a meditar. E então, a sua razão, conjuntamente mais aperfeiçoada e mais desorientada do que noutro tempo, revoltava-se contra o destino. Parecia-lhe absurdo quanto lhe tinha acontecido, afigurava-se-lhe impossível quanto o rodeava. Dizia no recôndito do seu pensamento: «Isto é um sonho». E olhava para o guarda-chusma que estacionava de pé a pequena distância dele; o guarda-chusma afigurava-se-lhe um fantasma; e, de repente, o fantasma descarregava-lhe uma chicotada. Para ele mal existia a natureza visível. Não se ficaria muito longe da verdade, dizendo-se que para João Valjean não havia sol, nem amenos dias de Estio, nem céu límpido, nem frescas madrugadas de Abril. A única luz que, de ordinário, lhe iluminava a alma era um como clarão baço coado por ferros. Resumindo, finalmente, o que pode ser resumido e traduzido por resultados positivos quanto acabamos de expor, limitar-nos-emos a dizer, que em dezanove anos, João Valjean, o inofensivo podador de Taverolles, o temível forçado de Toulon, tornara-se capaz, graças ao modo como as galés o tinham amoldado, de duas espécies de más acções: primeiro de uma má acção, rápida, irreflectida, filha do primeiro movimento, inteiramente instintiva, espécie de represálias pelo mal sofrido; segundo, de uma má acção, grave, considerada pesada em consciência e meditada com as falsas ideias que pode dar tão grande infortúnio. As suas premeditações passavam pelas três fases sucessivas, que só as naturezas de certa têmpera são capazes de percorrer: raciocínio, vontade, obstinação Tinha por instigadores a habitual indignação, a amargura da alma, o profundo conhecimento das iniquidades sofridas, a reacção mesmo contra os bons, contra os inocentes e os justos, se é que os havia. A origem e o alvo de todos os seus pensamentos era o ódio contra a lei humana, ódio que, não sendo sustado no seu desenvolvimento por algum acaso providencial, se transforma, chegado certo tempo, em ódio contra a sociedade, depois em ódio contra a humanidade, em seguida em ódio contra a criação, e se traduz por um vago, incessante e brutal desejo de fazer mal, seja a quem for, a um ser ’animado qualquer. A vista disto, não era, pois, sem razão, que o passaporte classificava João Valjean de «homem perigosíssimo» De ano para ano, aquela alma fora-se dissecando cada vez mais, lenta mas fatalmente. Para corações insensíveis, olhos enxutos Quando saiu das galés, havia dezanove anos que João Valjean não vertera uma lágrima. _sec+Rom:8_ VIII A onda e a sombra Homem ao mar! Que importa? O navio não pára. O vento é fresco e o navio tem um rumo que é obrigado a seguir. Não pode deter-se. Segue sempre. O homem que caiu ao mar desaparece, torna a aparecer, mergulha, sobe à superfície, estende os braços, chama. Ninguém o ouve. O navio, balouçado pelas vagas, obedece ao impulso da manobra de quem o dirige; equipagem e passageiros nem sequer divisam já o homem submergido; a cabeça do infeliz é apenas um ponto escuro na imensidade do mar. No espaço retumbam os seus gritos desesperados ao ver o espectro daquela vela que lhe foge. Contempla-a, crava nela os olhos com frenesi. E ela afasta-se, vai decrescendo, vai-se esfumando, confundida no ambiente nebuloso do horizonte. Há pouco ainda que ele ia dentro desse navio, que fazia parte da sua equipagem, que passeava no convés com os outros, que tinha a sua parte de respiração e de sol, que era um vivo. Agora, que foi que sucedeu? Escorregou, caiu, acabou-se. Ei-lo em luta com a voracidade da água. Tenta firmar os pés e não encontra um ponto de apoio; estende os braços e não encontra a que se apegar. As ondas revoltas e retalhadas pelo vento rodeiam-no medonhas. As vagas envolvem-no, sacudidas ’pelo vento em pavorosos escaracéus; as ondulações impetuosas e desencontradas do abismo fazem dele seu ludíbrio; a espuma das ondas fustiga-lhe a cara, como se fora a lava deste vulcão líquido, como se fora um escarro de pungente ironia atirado às faces do infeliz por aquele povoléu de vagas indómitas; a cada passo o dragão imenso abre as fauces de chofre e subverte-o, devora-o; e ele, de cada vez que mergulha, avista precipícios de trevas cerradas; medonhas vegetações desconhecidas o enleiam, emaranham-se-lhe nos pés, o atraem para si; sente que se torna abismo, faz parte da espuma, as vagas trazem-no aos repelões, bebe a amargura, o oceano porfia cobardemente no intento de o afogar, a imensidade zomba da sua agonia. Parece que toda aquela água lhe tem ódio E ele luta sempre! O infeliz tenta defender-se, tenta suster-se, esbraceja, emprega todos os esforços, consegue nadar Ele, pobre força de repente exausta, combate a que é inexaurível Onde está o navio? Muito longe. Mal se avista nas lívidas sombras do horizonte. O vento continua em rajadas; a espuma das ondas vence-o Ergue os olhos e vê apenas a lividez das nuvens Presenceia agonizante o imenso delírio do mar e a vítima dessa demência é ele. No meio da sua angústia, ouve ruídos estranhos ao homem, que parecem provir não sei de que terrível região de além da terra. Por entre aquelas nuvens pairam aves, como os anjos por cima dos infortúnios humanos Mas que podem fazer por ele? Voam, cantam, fendem os ares e ele agoniza Vê-se sepultado por dois infinitos ao mesmo tempo: o oceano e o céu; um é o sepulcro, o outro a mortalha. Desce a noite Já as forças lhe escasseiam, porque há umas poucas de horas que nada; o navio, esse vulto longínquo em que havia homens, desapareceu: o infeliz está só na medonha voragem crepuscular; mergulha, debate-se, sente por debaixo de si monstruosas e invisíveis vagas, chama e pede que lhe acudam. Não há um só homem que o oiça Onde está Deus? Chama ainda, brada por socorro’ Nada no horizonte, nada no céu! Implora à imensidade, às vagas, à alga marinha, ao escolho; é tudo surdo. Suplica à tempestade; a tempestade, imperturbável, só obedece ao infinito. Em torno dele a escuridão, o nevoeiro, a solidão, tumulto tempestuoso e inconsciente, o redemoinho infinito das águas enfurecidas. Nele o horror e a fadiga. A seus pés o abismo incomensurável e nem um só ponto de apoio. Lembra-se das tenebrosas aventuras do cadáver no meio da escuridão ilimitada. Paralisado o frio sem fim. Crispam-se-lhe as mãos, fecha-as e apanha o nada. Ventos, nuvens, turbilhões, lufadas, estrelas inúteis! Que fazer? Desesperado, cansado de lutar, entrega-se sem esperança, deixa-se arrastar, deixa-se despedaçar, adopta a resolução de morrer, e ei-lo que desaparece para sempre nas lúgubres profundidades do abismo. Ó impiedosa marcha das sociedades humanas, em que se não dá atenção aos homens e às almas que se vão perdendo! Oceano que absorve sem remédio quanto a lei deixa cair! Sinistra desaparição do socorro! Ó morte moral! O mar é a inexorável escuridão social a que a penalidade arremessa os seus condenados. O mar é a imensa miséria! A alma que cai a este golfão pode tornar-se cadáver. Quem a ressuscitará? _sec+Rom:9_ IX Novos agravos Ao soar para João Valjean a hora da liberdade, em que ouviu ressoar esta frase extraordinária: «Estás livre!», foi para ele um momento inverosímil, um raio de fulgurante luz, um clarão da Verdadeira luz dos vivos, que subitamente o iluminou por dentro. Mas esse clarão em breve empalideceu. A ideia da liberdade deslumbrara-o; acreditara na possibilidade de uma vida nova, mas bem depressa teve ocasião de avaliar o que era a liberdade acompanhada de um passaporte amarelo Quantas amarguras ainda o esperavam! Calculara que o seu pecúlio, durante o tempo de permanência nas galés, deveria elevar-se a cento e sessenta francos. Deve contudo acrescentar-se, que se esquecera de fazer entrar nos seus cálculos o descanso forçado dos domingos e dias santos, o que, ao cabo de dezanove anos, produziam uma diminuição de vinte e quatro francos aproximadamente. Fosse como fosse, a verdade é que, depois de diversas retenções locais, o seu pecúlio ficara reduzido a cento e nove francos e quinze soldos. Nada tendo compreendido das contas que lhe haviam feito, julgou-se lesado, ou melhor dizendo, roubado No dia seguinte ao que foi posto em liberdade, vendo em Grasse, à porta de uma fábrica de destilação de flores de laranjeira, alguns homens a descarregar fardos de um carro, ofereceu também os seus serviços. Como o trabalho era urgente, admitiram-no imediatamente. Deitou mãos à obra. Era inteligente, robusto e desembaraçado; empregava tamanha diligência no trabalho, que o patrão se sentia satisfeito por o ter contratado. Andava ele na sua nova ocupação, quando um gendarme que passava nesse momento, olhando-o atentamente, se lhe dirigiu, perguntando-lhe pelos papéis. João Valjean mostrou-lhe o passaporte amarelo e continuou a trabalhar. Pouco tempo antes havia indagado de um dos companheiros quanto ganhavam por aquele trabalho, ao que ele respondeu: «Trinta soldos». Quando anoiteceu e como no dia seguinte tinha de partir, apresentou-se ao dono da fábrica, pedindo que lhe pagasse. Este, sem lhe dirigir uma única palavra, deu-lhe vinte soldos. João Valjean reclamou, mas o dono da fábrica respondeu: Põe-te a andar, para ti é quanto basta! João Valjean objectou ainda, mas o homem encarou-o fixamente, dizendo-lhe: Nas galés não ganhavas tanto! Ainda desta vez se considerou roubado. A sociedade, o estado, roubara-o em grande escala, desfalcando-lhe os seus haveres. Agora chegara a vez ao indivíduo de o roubar em escala menor. Liberdade não é alforria; o forçado sai das galés, mas é perseguido pela condenação. Eis o que lhe sucedera em Grasse. Já se viu o modo como foi recebido em Digne _sec+Rom:10_ X O hóspede acordado Soavam duas horas da manhã no relógio da catedral, quando João Valjean acordou. O que o acordou foi justamente a boa cama que a bondade do bispo lhe dera. Havia quase vinte anos que ele não dormia numa cama e, ’conquanto não se tivesse despido, a sensação de semelhante contraste fora em extremo nova para que deixasse de lhe perturbar o sono. Dormira mais de quatro horas. Fora o necessário para se recompor da fadiga, além de que estava habituado a descansar poucas horas. Abriu os olhos, olhou um momento a escuridão que fazia em volta dele e fechou-os novamente para tornar a adormecer, Quando muitas sensações diversas nos agitam durante o dia, quando o espírito se encontra a braços com nume.’ rosos motivos de preocupações, podemos adormecer, mas uma vez acordados, impossível será tornar a conciliar o sono, que vem com mais facilidade do que volta. Foi o que sucedeu a João Valjean. Como não pudesse tornar a adormecer, pôs--se a meditar João Valjean encontrava-se num desses momentos em que as ideias se nos amontoam confusamente no espírito. Sentia no cérebro uma espécie de vai-vém tumultuoso. As recordações do passado, as lembranças do presente, flutuavam-lhe em tropel, cruzavam-se confusamente nele, perdendo as formas, tomando vulto descomunal, para em seguida desaparecerem de súbito como que numa pouca de água lodacenta e agitada. Numerosos pensamentos lhe ocorriam ao espírito, porém havia um que o assaltava de contínuo e expelia todos os outros. Esse pensamento, digamo-lo já, era o dos seis talheres de prata e da colher de sopa que Magloire pusera na mesa e que lhe havia prendido a atenção. Aqueles seis talheres de prata obcecavam-no Encontravam-se ali, a dois passos. Na ocasião em que ele passara pelo quarto imediato para vir para aquele em que se encontrava, vira a criada a arrumá-los num armário que ficava à cabeceira da cama do bispo. Os talheres era’m de prata maciça, juntamente com a colher de sopa, dariam, pelo menos, duzentos francos. O dobro do que ele tinha ganho em dezanove anos. É verdade que teria ganho mais, se a administração o não tivesse «roubado». O seu espírito oscilou mais de uma hora em reflexões incessantes, entremeadas de certo esforço renitente. Neste momento, soaram três horas João Valjean reabriu os olhos, ergueu-se de chofre, estendeu o braço, procurou às apalpadelas a mochila, a qual tinha arrumado perto da cama, deixou pender as pernas, pousou os pés no chão e achou-se, quase sem saber como, sentado na beira da cama Após haver permanecido durante algum tempo nesta atitude, com ar pensativo, que teria parecido sinistra a quem assim o visse, acordado no meio da escuridão, numa casa em que todos dormiam, agachou-se de súbito, descalçou os sapatos, pô-los cautelosamente no capacho ao pé da cama, voltou à primitiva posição pensativa e ficou imóvel. No meio das suas pavorosas meditações, as ideias que acima indicamos tumultuavam-lhe de contínuo no cérebro, entravam, saíam, tornavam a entrar, oprimiam-no como se carregasse um peso sobre ele, no meio de tudo isto, ocorria-lhe maquinalmente ao espírito, com singular pertinácia, a lembrança de um forçado chamado Brevet que ele conhecera nas galés, que usava as calças seguras apenas por um suspensório de algodão trabalhado a agulha de meia. Não se lhe afastava do espírito o desenho em xadrez daquele suspensório. Conservava-se, pois, nesta posição e permaneceria nela indefinidamente até amanhecer, se não ouvisse o som do relógio, dando um quarto ou meia hora. Dir-se-ia que aquela badalada lhe dissera: «Vamos!», porque se pôs logo de pé, hesitou ainda um instante, escutou, e, sentindo o mais completo silêncio em casa, encaminhou-se cautelosamente para a janela, que apenas entrevia A noite não estava muito escura, mas no céu corriam algumas nuvens impelidas pelo vento. Este estado do firmamento produzia, fora, alternativas de sombra e claridade, eclipses, por assim dizer, totais, e em seguida momentos do mais límpido luar; dentro de casa havia uma espécie de crepúsculo. Este crepúsculo, intermitente em virtude das nuvens, mas suficiente para distinguir os objectos, assemelhava-se à baça claridade que penetra pelo respiradouro de um subterrâneo, no meio da qual se reflectem as sombras dos que passam. João Valjean aproximou-se da janela e examinou-a Não tinha grades, deitava para o jardim e, segundo o uso da terra, era apenas fechada por uma simples aldraba. Abriu-a, mas como no quarto penetrasse repentinamente uma rajada de vento frio, tornou logo a fechá-la, tendo previamente olhado para o jardim com olhar mais de investigação e estudo, do que de simples observação. Viu neste exame que o jardim era cercado por um muro caiado, extremamente baixo e fácil de escalar. Além do muro, distinguiu a copa de algumas árvores igualmente espaçadas, o que indicava haver ali uma avenida ou rua arborizada. Depois deste exame, fez um movimento como de quem tomou a sua resolução, dirigiu-se para a cama, pegou na mochila, abriu-a, revolveu-a, tirou de dentro qualquer coisa, que pôs em cima da cama, meteu os sapatos num bolso, atou o saco, deitou-o ao ombro, pôs o boné na cabeça, descendo a pala para os olhos, procurou o cajado às apalpadelas, foi pô-lo ao canto da janela, voltou outra vez para junto da cama e pegou resolutamente no objecto que tinha poisado sobre ela, e que parecia uma barra de ferro curta, aguçada como um chuço numa das extremidades. Seria difícil perceber na escuridão o fim para que fora assim preparado aquele pedaço de ferro. Seria para servir de alavanca? Seria para servir de maça? Visto à claridade, reconhecer-se-ia que não era mais do que um instrumento de caboqueiro. Como então empregavam às vezes os forçados em extrair pedras das altas colinas que circundavam Toulon, não era raro que tivessem à sua disposição ferramentas daquele género. Pegou no ferro com a mão direita e encaminhou-se para a porta do quarto imediato que era o do bispo, contendo a respiração e abafando os passos para não ser pressentido. Chegado à porta, encontrou-a entreaberta. O bispo não a tinha fechado _sec+Rom:11_ XI O que ele faz João Valjean escutou. Nem o mais leve ruído. Empurrou a porta. Empurrou-a com a ponta dos dedos, ligeiramente, com a furtiva e inquieta delicadeza do gato que quer entrar. A porta cedeu à pressão e fez um movimento imperceptível e silencioso, que alargou pouco mais a abertura. Deteve-se um momento, depois empurrou de novo a porta, desta vez com mais força. A porta continuou a ceder silenciosa. A abertura era já suficientemente grande para que ele pudesse passar, mas uma mesa pequena, que formava com ela um ângulo, obstruía a entrada João Valjean reconheceu o obstáculo. Era necessário, custasse o que custasse, que a abertura se alargasse mais. Decidiu-se e empurrou a porta pela terceira vez, mais energicamente do que das duas antecedentes, Desta vez, um dos gonzos, decerto enferrujado, soltou um grito rouco e prolongado no meio do silêncio. João Valjean estremeceu. O ruído do gonzo soou-lhe aos ouvidos, estrondoso e tremendo, como a trombeta do juízo final. Na fantástica exageração do primeiro momento, quase se lhe afigurou que aquele gonzo acabava de animar-se e assumir de repente vida terrível, latindo como um cão para avisar toda a gente e despertar os adormecidos. Estacou, trémulo e desorientado, deixando-se cair das pontas dos pés sobre os calcanhares As artérias temporais pulsavam-lhe com tal força, que as ouvia bater como dois martelos numa bigorna, afigurava-se-lhe que a respiração lhe saía do peito sussurrante, como uma rajada de vento saída de uma caverna. Parecia-lhe impossível que o horrível clamor daquele gonzo irritado não abalasse toda a casa, como medonho repelão de um terramoto; a porta empurrada por ele assustara-se e clamara; o velho não tardaria a levantar-se, as duas mulheres não tardariam a gritar, não tardaria a acudir gente em socorro; antes de um quarto de hora, a cidade estaria em movimento e a gendarmaria a postos. Por um instante considerou-se perdido. Deixou-se pois ficar onde estava, petrificado como a estátua de sal e sem se atrever a fazer o menor movimento. Decorreram alguns minutos. A porta abrira-se de par em par. João Valjean espreitou para dentro do quarto. O mais completo sossego. O rangido do gonzo enferrujado não despertara ninguém. Estava passado este primeiro perigo, mas nem por isso era menos terrível o tumulto que ainda se agitava dentro dele. João Valjean, porém, não recuou Não recuara nem mesmo na ocasião em que se considerara perdido. Do que tratava agora era de operar com presteza Avançou um passo e entrou no quarto. Este jazia no mais profundo silêncio. Aqui e além divisavam-se algumas formas vagamente confusas, que, vistas à claridade, eram papéis espalhados por cima de uma mesa, in-folios abertos, muitos volumes amontoados sobre um banco, uma poltrona carregada de roupa, um genuflexório, objectos que, àquela hora, eram apenas vultos informes, branquejando por entre as trevas. João Valjean continuou a caminhar com a maior precaução, para não esbarrar com os móveis Do lado oposto do quarto, ouvia a igual e serena respiração do bispo adormecido De súbito, parou, porque se encontrava junto da cama, onde tinha chegado mais depressa do que pensara. A natureza, às vezes, nos seus efeitos e espectáculos, estabelece com as nossas acções uma espécie de correlação tão sombria e inteligente, que parece querer, por meio dela, fazer-nos reflectir e sondar-nos a nós próprios. Havia perto de meia hora que uma espessa nuvem cobria o céu No momento em que João Valjean parou, em frente do leito, a nuvem rasgou-se, como se o fizesse de propósito, e um raio de luar, coando-se por entre a janela rasgada do quarto do bispo, veio subitamente iluminar o pálido rosto do prelado, que dormia serenamente. Resguardava-o do frio da noite, que nos Baixos Alpes se faz sentir com especial intensidade, uma camisola de lã escura, que lhe cobria os braços até aos pulsos. A cabeça debruçava-se-lhe sobre o travesseiro na atitude indolente do repouso; a mão, aquela mão de onde tinham saído tão boas e santas acções, pendia-lhe fora da roupa, ornada com o anel pastoral. O rosto iluminava-se-lhe de uma vaga expressão de satisfação, esperança e beatitude. Era mais do que sorriso, era quase irradiação. Respirava daquela fronte a inexprimível reverberação de uma luz que contempla um céu misterioso. No momento em que o raio de luz se sobrepôs, por assim dizer, àquela claridade interior, o vulto do bispo adormecido destacou-se como no meio de uma auréola, ficando, todavia, este espectáculo suave velado por uma luz mal distinta, mas inefável. A Lua no céu, o repouso da natureza, o jardim em perfeita quietação, a casa em completo sossego, a hora, a ocasião, o silêncio, tudo acrescentava um não sei quê de solene e indizível ao venerável repouso daquele homem, envolvendo, numa majestosa e serena auréola, aqueles cabelos brancos e os olhos fechados, a fronte em que tudo era esperança e confiança, a cabeça de ancião e o sono infantil. Havia naquele homem, sem que ele o suspeitasse, o Que quer que fosse quase divino. João Valjean conservou-se na sombra, de pé, imóvel, com a barra de ferro na mão, a braços com a mais estranha impressão. O aspecto daquele ancião coruscante apavorava-o. Nunca na sua vida vira coisa semelhante. O seu grande destemor amedrontava-o. O mundo moral não possui mais grandioso espectáculo do que o de uma consciência perturbada e inquieta chegada à beira de uma má acção e contemplando o sono de um justo. Esse sono, naquele isolamento e com um vizinho de semelhante estofo, tinha o que quer que fosse de sublime, que ele próprio sentia, vaga mas imperiosamente. Ninguém, nem ele mesmo, pudera dizer o que dentro dele se passava. Para tentar avaliá-lo é necessário imaginar o que há de mais violento em presença do que há de mais suave. Nem no rosto se lhe pudera distinguir coisa alguma com certeza. Sentia uma espécie de assombro desvairado. Contemplava aquele vulto. Nada mais. Qual era o seu pensamento? Seria impossível adivinhá-lo. O que era evidente é que ele se achava impressionado e profundamente abalado. Mas de que natureza era esta comoção? O seu olhar não se afastava do ancião. A única coisa que claramente deixara transparecer a atitude e a fisionomia dele era uma singular perplexidade. Dir-se-ia que hesitava entre dois abismos: entre o da perdição e o da salvação. Parecia prestes a esmagar aquela cabeça ou a beijar aquela mão Ao cabo de alguns instantes, levantou vagarosamente o braço esquerdo à altura da testa, tirou o boné, tornou a deixar cair o braço com a mesma lentidão e voltou à sua primitiva postura de contemplação, com o boné na mão esquerda, a barra de ferro na direita, os cabelos eriçados, a expressão do rosto selvática. O bispo continuava a dormir com a maior serenidade sob aquele temeroso olhar. ’ O reflexo do luar tornava confusamente visível por cima do fogão o vulto do crucifixo, que parecia abrir os braços a ambos, com uma bênção para um e o perdão para o outro. , De repente, João Valjean pôs o boné na cabeça, caminhou rapidamente ao longo da cama, sem olhar para o bispo, direito ao armário, que ele entrevia junto aà cabeceira. Feito isto, levantou a barra de ferro como para forçar a fechadura, mas viu nela a chave. Apenas abriu a portinhola, deparou-se-lhe logo o açafate em que estava a prata; pegou nele, atravessou o quarto a largas passadas, sem a menor precaução, indiferente ao ruído que poderia produzir, chegou à porta, entrou no oratório, abriu a janela, pegou no cajado, saltou para o 141 « jardim, meteu a prata na mochila, atirou para longe de si o açafate, transpôs o muro como o faria um tigre e fugiu. _sec+Rom:12_ XII O bispo trabalha No dia seguinte, ao nascer do sol, andando Monsenhor Bemvindo a passear no jardim, viu Magloire vir a correr na sua direcção com ar transtornado. Monsenhor! Monsenhor! gritou ela. Sabe onde está o açafate da prata? Sei respondeu o bispo. Ora graças a Deus! tornou ela. ~ Já não sabia o que pensar! O bispo que naquele instante levantava o açafate de um alegrete, apresentou-o à senhora Magloire. Está aqui. Mas não tem nada dentro. E a prata? Ah! replicou o bispo. Era a prata que procurava? Não sei onde está. . Jesus! Roubaram-na! Foi decerto o homem que cá ficou! Num abrir e fechar de olhos, com a vivacidade própria de velha sagaz e bem conservada, Magloire correu ao oratório, entrou na alcova e voltou logo para junto do bispo. Este agachara-se havia um instante e contemplava com a maior tristeza um pé de cochlearia de Guillons, que o açafate tinha quebrado, ao cair no meio do alegrete; ao ouvir, porém, os gritos de Magloire, ergueu-se, Ai, Monsenhor! O homem roubou a prata e fugiu! Ao mesmo tempo que soltava esta exclamação, dirigiu o olhar para o muro, onde se viam os vestígios da escalada. . Olhe, foi por ali que ele fugiu! Saltou para a travessa de Cachefilet. Que crueldade! Roubar-nos a prata! O bispo conservou-se por momentos silencioso; por fim, disse com a maior serenidade, erguendo os olhos para Magloire: Aquela prata pertencia-nos porventura? Magloire ficou sem saber o que havia de responder. Seguiu-se outra pausa, após a qual o bispo prosseguiu: . Magloire, há muito tempo que eu era ilícito possuidor daquela prata, que pertencia de direito aos pobres. E quem era aquele homem? Não era, sem a menor dúvida, um pobre? Valha-me Nossa Senhora! replicou Magloire. Não falo por mim, nem pela senhora Baptistina, a nós não nos faz falta, mas com Monsenhor já não sucede o mesmo. com que talher há-de comer agora? O bispo encarou-a com ar de espanto e respondeu: Essa agora! Pois não há colheres de estanho? Magloire encolheu os ombros. O estanho tem mau cheiro. Nesse caso, há os de ferro. A criada fez uma careta expressiva, dizendo: . O ferro tem muito mau sabor. Pois então, colheres de pau. Daí por alguns instantes, o bispo estava a almoçar naquela mesma mesa em que João Valjean, no dia antecedente, estivera sentado. No decurso do almoço, Monsenhor Bemvindo notou, gracejando, a sua irmã, que não proferira palavra, e a Magloire, que resmungava surdamente, não ser preciso garfo nem colher, mesmo de pau, para molhar um pedaço de pão numa chávena de leite. Nunca se viu uma coisa assim! dizia Magloire, andando de um para outro lado. Recolher um homem daqueles e deitá-lo quase ao pé de si! Ainda devemos dar graças a Deus, por só nos ter roubado! Parece-me que ainda sinto um estremecimento quando me lembro de semelhante coisa! No instante em que o bispo e a irmã se levantaram da mesa, bateram à porta. Entre disse o bispo. A porta abriu-se e um estranho e violento grupo assomou no limiar. Três homens traziam um quarto agarrado no meio deles. Os três eram gendarmes, o quarto era João Valjean. Apenas em presença do bispo, o gendarme que parecia ser o comandante do grupo, adiantou-se para ele, fazendo a continência militar e disse: Monsenhor... Ouvindo este tratamento, João Valjean, que se mostrava sombrio e abatido, ergueu a cabeça com ar de estupefacção e murmurou: Monsenhor?! Pensei que era o cura... Silêncio! ordenou um dos gendarmes. É o senhor bispo. Entretanto, Monsenhor Bemvindo aproximara-se dos homens com a presteza que ’lhe permitia a sua avançada idade e exclamou, com os olhos fitos em João Valjean: Ah, então voltou?! Estimo muito tornar a vê-lo Mas agora me lembro: eu também lhe dei os castiçais, que são de prata, como o resto, e que lhe podem render duzentos francos ou mais. Porque não os levou? João Valjean abriu os olhos e encarou o venerável bispo com uma expressão que nenhuma linguagem poderia traduzir. Então é verdade o que este homem disse, Monsenhor? perguntou o cabo que comandava os gendarmes. Nós encontrámo-lo como quem ia a fugir e prendemo-lo como suspeito. Levava consigo esta prata... E disse-lhes atalhou o bispo, sorrindo que um pobre padre em casa de quem passara a noite, lhos tinha dado? Os senhores não acreditaram e trouxeram-no aqui. Pois disse-lhes a verdade. Sendo assim, podemos deixá-lo ir? perguntou o cabo. Sem dúvida respondeu o bispo. Os gendarmes largaram João Valjean, que recuou estupefacto. - Então, estou livre?! exclamou ele em voz quase inarticulada e como se falasse a dormir. - Pois não ouviste? disse um dos gendarmes. , Meu amigo tornou o bispo não se vá embora sem levar os castiçais. Aqui os tem. E, dirigindo-se ao fogão, pegou nos dois castiçais de prata e entregou-os a João Valjean. As duas mulheres olhavam para tudo aquilo, sem fazerem o menor gesto, nem proferirem uma só palavra que pudesse contrariar o prelado. João Valjean, que tremia como varas verdes, pegou maquinalmente nos dois castiçais, com ar desvairado. . Agora disse o bispo - vá em paz. É verdade, meu amigo, se voltar, é escusado passar pelo jardim. Pode entrar e sair sempre pela porta da rua, que está fechada apenas por uma simples aldraba, seja de dia ou de noite. E, Em seguida, voltando-se para os gendarmes, acrescentou: . Os senhores podem retirar-se. Os gendarmes saíram. João Valjean sentiu-se como que prestes a desfalecer. O bispo aproximou-se dele e disse-lhe em voz baixa: ~~ Não se esqueça nunca de que me prometeu empregar o dinheiro desta prata em tornar-se homem de bem. João Valjean, que não se recordava de lhe ter prometido coisa alguma, ficou sem saber o que havia de dizer. O bispo, que acentuara muito as suas palavras, acrescentou: João Valjean, meu irmão, lembre-se que já não pertence ao mal, mas sim ao bem. Resgatei a sua alma. Libertei-a dos maus pensamentos e do espírito de perdição, para a dar a Deus. _sec+Rom:13_ XIII O pequeno Gervásio João Valjean saiu da cidade como se se soubesse perseguido. Principiou a caminhar apressadamente pelo meio dos campos, seguindo todos os caminhos e atalhos que se lhe ofereciam, sem reparar que a cada instante voltava aos mesmos lugares por onde já tinha passado. Assim andou vagueando toda a manhã, sem comer nem ter fome. Um sem número de sensações desconhecidas o agitavam. Sentia uma espécie de ira, mas nem sabia contra quem. Impossível lhe seria dizer se as sensações que o agitavam eram de arrependimento ou humilhação. As vezes sentia-se acometido por um singular enternecimento, que repelia, opondo-lhe o endurecimento dos seus últimos vinte anos. Semelhante estado afligia-o. Assustava-se ao ver como dentro dele se abalava essa espécie de pavorosa serenidade que a injustiça do seu infortúnio lhe havia dado. A si mesmo perguntava o que é que viria substituir isso. Preferia ter ido entre os gendarmes para a cadeia ao desfecho que as coisas haviam tido, porque não se veria tão agitado. Posto que a estação fosse bastante adiantada, viam-se, todavia, aqui e além, por entre as sebes, algumas flores extemporâneas, cujo cheiro, ao passar, lhe suscitava recordações da infância, que se lhe tornavam insuportáveis, porque havia muito que elas o não tinham acometido. Inexprimíveis pensamentos se amontoaram assim nele durante o dia todo. Ao declinar do sol no ocidente, a essa hora em que a sombra do mais pequeno seixo se estende desmesuradamente no chão, encontrava-se João Valjean sentado atrás de uma moita, numa extensa e escalvada planície, absolutamente deserta. No horizonte apenas se avistavam os Alpes. Nem o vulto de um só campanário de alguma aldeia longínqua. João Valjean achava-se a três léguas de Digne, pouco mais ou menos. A poucos passos distante da moita, passava um carreiro que cortava a planície. No meio da sua meditação, que não pouco contribuiria para tornar os seus andrajos mais medonhos a qualquer pessoa que o encontrasse, ouviu um rumor alegre. Voltou a cabeça e viu, caminhando pelo carreiro, um rapazinho saboiano, de dez anos, pouco mais ou menos, cantando com a sua sanfona ao lado. Era um desses rapazinhos simplórios e alegres, que andam de terra em terra, com as calcinhas rotas e os joelhos à mostra. O saboiano interrompia de vez em quando a cantiga e parava para atirar ao ar algumas moedas que trazia na mão e que constituíam talvez toda a sua fortuna. Entre elas havia uma moeda de quarenta soldos. Chegando ao pé da moita, o pequeno parou sem ver João Valjean e atirou ao ar o punhado de soldos que, até então, tinha aparado nas costas da mão com toda a destreza. Desta feita, porém, escapou-lhe a moeda de quarenta soldos, que rolou por entre o mato até onde estava João Valjean. Este viu-- Os Thenardier ficaram deslumbrados. - com a fortuna! exclamou o estalajadeiro, dirigindo-se à mulher. Não devemos entregar a pequena, parece-me que vai ser uma mina. Eu já sei o que isto é: foi algum papalvo que se agradou da mãe. A sua resposta foi uma conta de quinhentos e tantos francos. Nesta conta figuravam, deitando a mais de trezentos francos, duas verbas incontestáveis: uma de um médico e outra de um boticário, os quais tinham sido, respectivamente, assistente e fornecedor dos remédios em duas longas doenças de Azelma e Eponine. Cosette nunca estivera doente. Bastava portanto uma substituição de nomes para o negócio ser perfeito. Thenardier escreveu no fim da carta: Recebi por conta trezentos francos. Madelaine enviou imediatamente mais trezentos francos, recomendando que não se demorassem em mandar Cosette. Pois sim! Agora é que não a devemos largar! Entretanto, Fantine não melhorava e continuava a permanecer na enfermaria. As irmãs de caridade só com repugnância é que a princípio aceitaram e trataram «daquela mulher perdida». Quem tem visto os baixos-relevos de Reims, lembra-se da intumescência do lábio inferior das virgens castas olhando para as mulheres impúdicas. Este antigo desprezo das vestais pelas mulheres da Vida fácil é um dos mais profundos instintos da dignidade feminina; sentiram-no as irmãs, com o acréscimo de intensidade que lhes dá a religião. Fantine desarmou-as, porém, em poucos dias, com as suas palavras cheias de doçura e humildade e com aquele enternecimento a que se não pode vedar o coração em presença de uma mulher que é mãe. Um dia, as irmãs ouviram-na dizer, no meio do delírio da febre: Tenho sido uma pecadora, mas se chegar a ter comigo a minha filha, é porque Deus me perdoou. Enquanto estive na má vida, não quis Cosette na minha companhia, porque não poderia suportar o espanto triste dos seus belos olhos. Contudo, foi por ela que eu me fiz má, e é talvez por isso que Deus me perdoou. Sentirei a bênção do Senhor quando ela aqui estiver Vendo a sua inocência, sentir-me-ei melhor. Ela não sabe nada. É um anjo, minhas irmãs. Naquela idade, ainda se conservam as asas. Madelaine ia vê-la duas vezes por dia, e ela perguntava-lhe sempre: - Quando verei a minha Cosette? Talvez amanhã respondia-lhe ele. Deve chegar de um momento para o outro. E o rosto pálido da mãe resplandecia. Que felicidade eu vou ter! dizia ela. Fantine não se restabelecia, pelo contrário, o seu estado agravava-se de semana para semana. Aquele punhado de neve aplicado sobre a pele nua, entre as duas omoplatas, determinara uma súbita supressão de transpiração, em virtude da qual veio a declarar-se-lhe com a maior violência a doença que ela havia muitos anos como que chocava dentro de si. Começavam então a seguir-se as belas indicações de Laeinnec no estudo e tratamento das doenças de peito. O médico observou Fantine e abanara a cabeça. Madelaine perguntou ao clínico: Então? Ela não tem uma filha a quem deseja ver? inquiriu o médico. Tem. . Nesse caso apresse-se em a mandar buscar. Madelaine sentiu um estremecimento. O que disse o médico? perguntou-lhe Fantine Madelaine respondeu, esforçando-se por sorrir: Disse que lhe mandasse buscar a sua filha, porque bastaria isso para lhe dar saúde. . E tem razão! ~- replicou ela. . Mas que interesse têm os Thenardier para se demorarem tanto em ma trazer? Não pode tardar. Vejo finalmente a felicidade perto de mim. Entretanto, os Thenardier: não largavam a pequena, dando para isso uma série de péssimas razões. Cosette andava um pouco adoentada, para se expor ao risco de fazer a jornada no Inverno. E, além disso, havia ainda umas dividazitas importunas na terra, cujas contas andava a ajuntar, etc., etc. -- Mandarei alguém buscar Cosette disse Madelaine e se for preciso, irei eu mesmo. Sob a indicação de Fantine, escreveu a seguinte carta, fazendo-a depois assinar: Senhor Thenardier: Queira ter a bondade de entregar Cosette ao portador desta carta. As pequenas dívidas de que fala ser-lhe-ão todas pagas. Sou com a maior consideração Fantine. Entretanto, sobreveio um grave incidente. Por mais que lidemos para modelar com a perfeição que nos é possível essa misteriosa massa de granito de que a nossa vida é feita, jamais chegamos a fazer-lhe desaparecer o véu negro, nela impresso pela mão do destino. _sec+Rom:2_ II Como Jean se pode tornar Champ Uma manhã, estando Madelaine no seu gabinete ocupado a pôr em ordem alguns negócios urgentes, relativos ao seu cargo, para os deixar prontos caso se tornasse necessária a sua ida a Montfermeil, vieram dizer-lhe que o inspector Javert pretendia falar-lhe. Madelaine, ouvindo este nome, não pôde furtar-se a uma impressão desagradável. Javert, desde a ocorrência da -repartição de polícia, evitava-o mais do que nunca, de modo que Madelaine não o tornara a ver. . Mandem-no entrar disse ele. Javert entrou. Madelaine ficara sentado ao pé do fogão, com uma pena na mão e os olhos postos num maço de papéis, que folheava e anotava e que continha autos de contravenções de posturas. Não se mexeu, pois, de onde estava, em respeito de Javert. Não podia deixar de lembrar-se da pobre Fantine e convinha-lhe mostrar-se glacial. Javert cumprimentou respeitosamente o maire, que estava de costas para ele, continuando a fazer as suas anotações, sem sequer o encarar. O inspector de polícia deu -«dois ou três passos no gabinete e parou, sem quebrar o silêncio. Um fisionomista que fosse familiar com a natureza de Javert, que tivesse estudado aturadamente aquele selvagem servidor da civilização, aquele extravagante composto do romano, do espartano, do frade e do caporal, aquele espião incapaz de uma mentira, aquele esbirro virgem, um fisionomista que tivesse conhecimento da secreta e antiga aversão que ele professava a Madelaine, o seu conflito com o maire, e que naquele momento o observasse, teria dito consigo: «O que terá acontecido?» Era evidente, para quem conhecesse aquela consciência recta, clara, sincera, proba, austera e feroz, que Javert conseguira resolver algum problema íntimo. Javert não sentia nada na alma, que o não deixasse transluzir no rosto. Era, como as pessoas de génio violento, sujeito a mudanças repentinas. Nunca a sua fisionomia denotara mais estranha e inesperada expressão. Ao entrar, inclinou-se ante Madelaine, com um olhar em que não havia nem rancor, nem cólera, nem desconfiança; parara a alguns passos de distância por trás da cadeira de braços em que o maire se achava sentado e ali se conservava ainda, de pé, numa atitude quase disciplinar, com a rudeza ingénua e fria de um homem que nunca soube o que era a afabilidade e foi sempre paciente; esperava sem proferir uma palavra, sem fazer um movimento, numa humildade verdadeira e numa resignação tranquila, que aprouvesse ao maire voltar-se; sereno, sério, de chapéu na mão e olhos baixos, com uma expressão que marcava o meio termo entre o soldado diante do superior e o réu na presença do juiz Todos os sentimentos, assim como todas as recordações que se lhe poderiam ter suposto, haviam desaparecido. Naquele rosto, simples e impenetrável como o granito, havia apenas a expressão de uma tristeza profunda. Todo o seu aspecto respirava submissão, firmeza e uma espécie de corajoso esmorecimento Finalmente, o maire pousou a pena e voltou-se um pouco: Então que é? O que há de novo, Javert? Javert conservou-se por um instante silencioso, como se estivesse a reunir as ideias, dizendo depois com uma espécie de solenidade triste, que não excluía contudo a simplicidade: O que há, senhor maire, é que foi cometido um acto criminoso. Que acto? ~ Um agente inferior da autoridade faltou ao respeito a um magistrado do modo mais grave. Venho, pois, como é meu dever, dar-lhe notícia do facto. Quem é esse agente? perguntou Madelaine. Eu disse Javert O senhor? ~ Eu mesmo E quem é o magistrado que tem motivo para se queixar do agente? É o senhor maire. Madelaine endireitou-se na cadeira e Javert prosseguiu com ar sereno e de olhos baixos como até ali ~ Senhor maire, venho pedir-lhe que solicite a minha exoneração da autoridade competente. Madelaine, estupefacto, ia para responder, mas Javert interrompeu-o: O senhor dirá talvez que posso pedir a minha demissão, mas isso não é suficiente. Dar a demissão não comporta descrédito. Eu, porém, delinquí, devo ser punido. É necessário que seja expulso. Após breve pausa, acrescentou: Senhor maire, outro dia foi injustamente severo para comigo; seja-o hoje justamente Mas porquê? exclamou Madelaine. Que quer dizer esse arranzel? Qual é a acção culpável que o senhor cometeu contra mim? O que foi que fez? Em que me ofendeu? Acusa-se, quer ser demitido... Expulso disse Javert. Ou expulso, como quiser; afianço-lhe que não o percebo. Vai já perceber, senhor maire. Javert soltou um profundo suspiro e continuou, sempre frio e tristemente: Senhor maire, faz agora seis semanas, ficando furioso depois do que sucedeu por causa daquela rapariga, que o denunciei. Denunciou-me!? A (prefeitura da polícia de Paris. Madelaine, que não Costumava rir-se muito mais do que Javert, desta vez pôs-se a rir. Por ter invadido as atribuições da polícia, sendo maire? Não, senhor, denunciei-o como antigo forçado das galés. O maire tornou-se lívido Javert, que não tinha erguido os olhos, continuou: Assim o julgava. Há muito que eu andava com isto na ideia, Uma grande semelhança, as indagações a que o senhor mandou proceder em Faverolles, a sua grande força, o que aconteceu com o velho Fauchelevent, a sua perícia em atirar, o modo como arrasta um pouco uma das pernas, em suma, que sei eu? Tolices! Mas, enfim, tudo isto fizera com que eu o tomasse por um tal João Valjean. Um tal?... Como foi que lhe chamou? João Valjean. É um forçado que eu conheci há vinte anos, quando era guarda-ajudante da chusma de Toulon. Esse tal João Valjean, segundo consta, depois que saiu das galés, roubou um bispo, depois cometeu outro roubo à mão armada numa estrada, do qual foi vítima um rapazinho saboiano Havia oito anos que se escondera, escapando, sem se saber como, a todas as diligências empregadas para se dar com ele. A mim afigurou-se-me... Enfim, fiz o que disse. A cólera decidiu-me a denunciá-lo à prefeitura de Paris. Madelaine, que tornara a pegar no maço de processos havia alguns instantes, retorquiu em tom de indiferença: E que lhe responderam? Que eu tinha endoidecido. E então? Tinham toda a razão para o supor. Ainda bem que o reconhece! Não podia deixar de ser, pois o verdadeiro João Valjean foi encontrado. A folha de papel que Madelaine segurava escapou-se-lhe da mão e ele, levantando a cabeça, olhou fixamente para Javert, exclamando com inexprimível acento: -Ah! Javert prosseguiu: Aqui está o que sucedeu. Parece que havia para os lados de Ailly-le-Haut-Clacher um pobre homem, chamado Champmathieu, que vivia em extrema miséria. A gente dessa classe ninguém sabe de que ela vive. Ultimamente, neste Outono, Champmathieu foi preso por um roubo de umas maçãs, feito a um tal... pouco importa o nome! Houve roubo, escalamento e ramos de árvores quebrados. O caso é que prenderam Champmathieu, que ainda tinha na mão um ramo da fruteira, e ferram-me com o maroto na cadeia. Até aqui a coisa pouco passa de um processo correccional. Mas o que é a Providência! Como o cárcere estava em mau estado, o senhor juiz julgou acertado mandar transferir Champmathieu para Arras, onde é a prisão distrital. Ora, encontra-se ali um antigo forçado, chamado Brevet, que está preso não sei porquê, e a quem, por ter bom comportamento, fizeram porteiro. Ainda bem, senhor maire, o Champmathieu não tinha posto o pé dentro da prisão, Brevet exclamou: «Olá! Eu conheço este homem! Também é cá da malta! Olhe cá para mim, você é o João Valjean!» Champmathieu, mostrando-se muito admirado, exclamou também: «João Valjean! Quem é João Valjean?». «Não te faças pacóvio», tornou Brevet, «tu és o João Valjean, estiveste nas galés de Toulon, há uns vinte anos; estivemos lá ambos». Champmathieu negou Depois disto, o senhor maire bem compreende, aprofundou-se o assunto, e eis o que veio a saber-se. Há coisa de trinta anos, era este tal Champmathieu podador de árvores em diferentes terras, mas principalmente em Faverolles, onde se lhe perdeu o rasto. Passado muito tempo tornou a ser visto em Auvergne, depois em Paris, onde ele diz ter sido carpinteiro de carros e ter estado com uma rapariga lavadeira, mas isso parece não estar bem provado. Ora, o que era João Valjean antes de ter ido para as galés pelo crime de roubo qualificado? Podador. Aonde? Em Faverolles. Ainda outra prova: o nome de baptismo desse tal Valjean era João e o apelido da mãe, Mathieu. Não há nada mais natural do que julgar-se que ao sair da prisão tivesse adoptado o nome de sua mãe, para se esquivar a indagações, e passasse a chamar-se João Mathieu. Depois foi para Auvergne, de Jean a pronúncia da terra faz chan, e começam a tratá-lo por Champmathieu. O homem não se importou com esta mudança, e ei-lo transformado em Champmathieu O senhor maire tem seguido o meu raciocínio, não é verdade? Bem. Fizeram-se indagações em ”Tiverolles A família de João Valjean tinha desaparecido, sem que ninguém desse notícias dela. Como o senhor maire bem sabe, nesta classe há frequentes vezes destes desaparecimentos completos de famílias. Procura por aqui, procura por ali, mas nada. A gente desta qualidade quando não é lama, é (poeira. E depois, como o princípio desta história data de há trinta anos, já não há ninguém em Faverolles que se lembre de João Valjean. Indaga-se em Toulon. Além de Brevet, há apenas mais dois forçados que conheceram João Valjean. São os condenados a prisão perpétua, Cochepaille e Chenildieu. Mandaram-nos buscar para os confrontar com o suposto Champmathieu. Para eles, como para Brevet, é João Valjean. A mesma idade, cinquenta e quatro anos, a mesma estatura, o mesmo modo de andar, o mesmo homem, enfim, era ele. Foi nesta ocasião que eu mandei a minha denúncia à prefeitura de Paris. Responderam-me que tinha perdido o juízo e que João Valjean estava em Arras em poder da justiça. Avalia decerto a admiração que isto me causou, quando julgava ter aqui o próprio João Valjean! Escrevi logo ao senhor juiz, que me mandou ir a Arras, fazendo conduzir Champmathieu à minha presença. E então? interrompeu Madelaine. Javert respondeu com o seu ar incorruptível e triste: Senhor maire, a verdade é a verdade. Fiquei contristado, mas ele é João Valjean. Reconheci-o também. Madelaine disse em voz muito baixa: Está bem certo de não se ter enganado? Javert riu com esse riso doloroso em que se expande às vezes uma profunda Convicção e respondeu: Mais do que certo. Em seguida, conservou-se um instante pensativo, pegando maquinalmente em pitadas de areia ”do areeiro que estava sobre a mesa e acrescentou: E agora que eu vi o verdadeiro João Valjean, não posso até entender como cheguei a julgar outra coisa. Peço-lhe, portanto, que me perdoe, senhor maire. Ao dirigir estas palavras suplicantes e graves àquele que seis semanas antes o havia humilhado no departamento de polícia, dizendo-lhe: «Saia daqui!», Javert, o homem altivo, apresentava, sem que o suspeitasse, o aspecto da mais simples dignidade. Madelaine respondeu à sua súplica com esta repentina pergunta: E o que disse esse homem? Ah, senhor maire, o caso é péssimo! Se é João Valjean, há reincidência. Escalar um muro, partir os ramos de uma árvore, furtar uma pouca de fruta, para uma criança é uma diabrura; para um homem é um delito; mas para um forçado é um crime. Ora, no facto de que se trata houve escalamento e roubo. Já não pertence portanto à polícia correccional, pertence ao tribunal do júri, não são alguns dias de cadeia, são as galés por toda a vida. E depois, há ainda a história do rapaz saboiano, que estou certo não deixará de ser apresentada. com os diabos! Qualquer outro que não fosse João Valjean tinha com que se entreter. Mas João Valjean é um grande manhoso Até nisso o reconheci. Se fosse outro, sentir-se-ia quente com o caso; inquietar-se-ia, daria por paus e por pedras . a caldeira canta sempre ao pé do lume e não quereria ser João Valjean. Ele, pelo contrário, finge não perceber o que lhe dizem: «Sou Champmathieu, ninguém me tira disto!». Mostra-se muito admirado e finge-se estúpido, porque lhe parece melhor assim O maroto é esperto, mas não lhe serve de nada a esperteza, porque há todas as provas. Sendo, como é, reconhecido por quatro pessoas, é por força condenado. Vai ser conduzido perante o júri de Arras, para onde estou citado como testemunha. Madelaine aproximara-se novamente da mesa, lançando mão do maço de papéis e continuando a folheá-lo tranquilamente, lendo e escrevendo como que deveras ocupado com o que estava fazendo. De repente, voltou-se para Javert e disse-lhe: Está bem, Javert. Afinal de contas, interessam-me muito pouco todos esses pormenores. Estamos a perder tempo quando há tanto que fazer. Vá imediatamente a casa daquela pobre mulher chamada Buseaupied, que vende hortaliça à esquina da rua de Saint-Saulve, e diga-lhe que apresente a sua queixa Contra o carroceiro Pedro Chesnelong. Este homem é um bruto que ia esmagando a pobre mulher e seu filho, por isso deve ser punido Em seguida vá a casa do senhor Charcellay, na rua Montre-de-Chamipigny, que se queixou de que uma goteira da casa vizinha lhe deita a água da chuva para a sua, deteriorando-lhe os alicerces. Verifique depois se são exactas as contravenções das posturas, que me participaram, na rua Guibourg, em casa da viúva Doris, e na rua do Garraud-Blanc, em casa da senhora Renée lê Bossé, lavrando o competente auto no caso de o serem. Mas parece-me que isto é trabalho demais. Não tem de se ausentar? Não me disse que ia a Arras, daqui a oito ou dez dias, por causa do tal julgamento? Antes disso, senhor maire. Então quando? Parece-me ter dito ao senhor maire que o julgamento tinha lugar amanhã e que por isso partia esta noite na diligência. Madelaine fez um movimento imperceptível e tornou: E quanto tempo durará o julgamento? Um dia, quando muito. A sentença será proferida o mais tardar amanhã à noite. Mas eu não esperarei pela sentença, que é infalível; assim que acabar o meu depoimento, voltarei imediatamente. Está bem! disse Madelaine. E despediu Javert com um gesto. Este, porém, não se moveu. Perdão, senhor maire disse ele. Quer mais alguma coisa? perguntou Madelaine. Senhor maire, resta-me recordar-lhe... O quê? Que devo ser demitido. Madelaine levantou-se. Javert, o senhor é um homem honrado, por isso merece a minha estima. Exagera a falta que cometeu, e demais, é uma ofensa que só a mim diz respeito O senhor é digno de subir e não de descer. Espero que continue no exercício das suas funções. Javert fitou Madelaine com o seu olhar cândido, no fundo do qual parecia ver-se-lhe a consciência pouco esclarecida, mas rígida e casta, e retorquiu com voz tranquila: Não lhe posso conceder isso, senhor maire. Repito-lhe que é uma coisa que só a mim diz respeito . replicou Madelaine. Porém, Javert, sem se afastar do seu pensamento, continuou: Quanto a exagerar o que fiz, não é tanto assim Eis aqui o meu raciocínio Suspeitei do senhor injustamente. Isto não valia nada. Temos o direito de suspeitar, conquanto seja abuso suspeitar dos que nos são superiores. Mas é que eu denunciei-o como forçado, sem provas, num acesso de cólera, e com o fim de me vingar, ao senhor, um homem respeitável, um maire, um magistrado! Isto é grave quanto pode ser. Eu, agente da autoridade, ofendi a autoridade na pessoa do senhor maire! Se algum dos meus subordinados tivesse feito o que eu fiz, declará-lo-ia indigno do serviço e tê-lo-ia expulso. Mais uma palavra, senhor maire. Tenho sido frequentes vezes, durante a minha vida, severo para com os outros; era justo que assim fizesse. Agora, se não fosse severo para comigo, tudo que tenho feito de justo, tornar-se-ia injusto. Acaso devo eu poupar-me mais do que poupei aos outros? Não, decerto. Se só servisse para castigar os outros e não a mim, seria um miserável e teriam razão os que me chamam velhaco e mau! Senhor maire, não desejo que me trate com bondade; a sua bondade azedou-me o sangue manifestando-se para com os outros, portanto não a quero para mim. Bondade má chamo eu à que consiste em dar razão à mulher pública contra o burguês, ao agente de polícia contra o maire, ao que está num lugar inferior contra o que ocupa uma posição superior. com essa bondade desorganiza-se a sociedade. Meu Deus, ser bom é fácil, o que custa é ser justo! Esteja certo, senhor maire, que se o senhor fosse o que eu julguei que era, não me acharia, com certeza, bondoso! Senhor maire, eu devo tratar-me, consoante trataria qualquer outro. Quando reprimia os malfeitores, quando procedia contra os tratantes, dizia muitas vezes a mim mesmo: «Se tu algum dia tropeças, se chegas a cair em alguma falta, fica descansado que não me escapas!». Ora eu tropecei, caí numa falta, tanto pior! Devo ser demitido, expulso, humilhado É apenas o que deve ser Tenho bons braços, pouco se me dá ir pegar numa enxada. Senhor maire, o bem do serviço exige um exemplo. Peço, pois, a demissão do inspector Javert. Tudo isto fora pronunciado em tom humilde, mas altivo, desesperado e convicto, que dava não sei que estranha grandeza àquele homem, por quem as leis da honra eram tão desusadamente interpretadas. Pois veremos disse Madelaine, estendendo-lhe a mão. Javert recuou e disse com ar feroz: Desculpe-me, senhor maire, mas isto não deve ser. Um maire não aperta a mão a um beleguim. E acrescentou por entre dentes: . Sim, beleguim; desde o momento que servi mal a polícia, não sou mais do que um beleguim! Depois fez uma profunda cortesia e dirigiu-se para a porta. Antes de sair, porém, voltou-se e disse: Senhor maire, continuarei no serviço até ser substituído. E saiu. Madelaine ficou pensativo, escutando o eco. daqueles passos firmes e seguros que se afastavam pelo corredor. _sec+O:liv=7_ LIVRO SÉTIMO O PROCESSO DE CHAMPMATHIEU _sec+Rom:1_ I A Irmã Simplícia Em Montreuil-sur-mer não foram conhecidos todos os incidentes que vão ler-se, porém, o pouco que transpirou deixou tal recordação nesta cidade, que seria grave lacuna neste livro, deixarmos de dar deles circunstanciada notícia. Nestes pormenores encontrará o leitor duas ou três circunstâncias inverosímeis, que conservamos em respeito à verdade. Na tarde que se seguiu à visita de Javert, Madelaine foi visitar Fantine. Como de costume, porém, antes de ir ter com ela mandou chamar a irmã Simplícia. As duas religiosas, que faziam o serviço da enfermaria, lazaristas como todas as irmãs de Caridade, chamavam-se irmã Perpétua e irmã Simplícia A irmã Perpétua era o tipo de qualquer campónia que se encontra, grosseiramente irmã de caridade, que entrara para o serviço de Deus como uma criada para qualquer casa. Era religiosa como teria sido cozinheira, tipo que não é raro As ordens monásticas aceitam de braços abertos esta pesada e grosseira loiça aldeã, facilmente modelada em capuchinho ou ursulina, e de ordinário tais rusticidades são utilizadas para as tarefas menos suaves da devoção. Não tem nada de estranho a transição de um vaqueiro para um carmelita; um transforma-se no outro sem grande trabalho; o fundo comum da ignorância da aldeia e do claustro é uma preparação completa e que coloca rapidamente o camponês no mesmo nível do frade. Dando-se mais alguma roda ao gabão tem-se logo a roupeta. A irmã Perpétua era uma robusta religiosa, natural de Marines, nas imediações de Pontoise, falando à moda da sua terra, salmodiando, resmungando, adoçando a tisana segundo a beatice ou hipocrisia do enfermo, tratando com rudeza os doentes, com modo enfadado os moribundos, atirando-lhes quase com Deus ao rosto, apedrejando a agonia com orações em cólera, ousada, honesta e rubicunda. A irmã Simplícia era branca, de uma brancura de cera. Ao lado da irmã Perpétua, era um círio ao pé duma vela de sebo. S. Vicente de Paulo fixou divinamente a figura da irmã de caridade nestas admiráveis palavras, em que mistura tanta liberdade com tamanha servidão: «As irmãs de caridade terão por mosteiro a casa dos doentes, por cela um quarto de aluguer, por capela a igreja da paróquia, por claustro as ruas da cidade ou as salas dos hospitais, por clausura a obediência, o temor de Deus por grade, a modéstia por véu». Via-se realizado este ideal na irmã Simplícia. Ninguém lhe poderia assinalar a idade; nunca fora jovem e parecia nunca ter de vir a ser velha Era uma pessoa não ousamos dizer uma mulher doce, austera, de boa companhia, fria, e que nunca dissera uma mentira. Era tão bondosa que parecia frágil; todavia, era mais sólida do que o granito, tocando nos desgraçados com dedos puros, finos e encantadores. Havia, para assim dizer, silêncio no seu falar, falando somente o necessário, e possuindo um som de >voz que teria simultaneamente edificado um confessionário e encantado um salão. Ataviava-se esta delicadeza com o vestido de burel, achando neste contacto uma contínua lembrança do céu e de Deus. Insistimos num pormenor: não ter nunca mentido, não haver nunca dito, sob qualquer pretexto de interesse, mesmo indiferentemente, uma coisa que não fosse verdade, a santa verdade, era a feição característica da irmã Simplícia, a base da sua virtude. A sua veracidade imperturbável tornara-a quase célebre na congregação. O abade Sicard, numa carta ao surdo-mudo Massieu, fala da irmã Simplícia. Por mais puros e sinceros que sejamos, andamos todos, apesar da nossa candura, mais ou menos eivados de pequenas e inocentes mentiras. Ela não Existe acaso pequena mentira, ou mentira inocente? Mentir é maldade absoluta. Não é possível mentir pouco ou muito, quem mente, mente. A mentira é a própria face do demónio; Satanás, além deste nome, chama-se também mentira Era assim que ela pensava, e as suas acções harmonizavam-se com o seu modo de pensar. Daí resultava aquela brancura de que falámos, brancura que se lhe irradiava nos lábios e nos olhos. Era branco o seu sorriso, branco o seu olhar. Não havia uma teia de aranha, um grão de poeira, no espelhado daquela consciência. Entrando na obediência de S. Vicente de Paulo, adoptara o nome de Simplícia, por escolha especial. Simplícia da Sicília, como se sabe, foi a santa que preferiu deixar que lhe arrancassem os dois peitos, a responder que nascera em Segesto, tendo nascido em Siracusa, mentira que a salvaria. A uma tal alma era a padroeira que convinha. Quando a irmã Simplícia entrou para a Ordem, tinha dois defeitos de que a pouco e pouco se foi corrigindo; gostava de gulodices e de receber cartas. Depois, porém, não lia senão num livro de orações, de caracteres grandes e em latim. Ela não entendia o latim, mas compreendia o livro. A piedosa religiosa afeiçoara-se a Fantine, por sentir nela talvez virtude latente, e consagrara-se quase exclusivamente a tratá-la. Madelaine chamou de parte a irmã Simplícia e recomendou-lhe Fantine, com um tom de voz singular, de que mais tarde ela se recordou. Depois que deixou a irmã, aproximou-se de Fantine, a qual esperava todos os dias a aparição de Madelaine, como se espera um raio de calor e de alegria. Dizia ela às irmãs: «Eu não vivo senão quando vejo o senhor maire». Nesse dia estava ela com um grande acesso de febre. Apenas viu Madelaine, perguntou-lhe: E Cosette? Ele respondeu-lhe, sorrindo: Não tarda. Madelaine conversou com Fantine como de costume. Somente, em vez de meia hora, demorou-se uma, com grande contentamento da infeliz. Fez mil recomendações a todos para que nada faltasse à enferma. Houve um momento em que a fisionomia se lhe tornou demasiadamente sombria, o que foi notado pelas pessoas presentes. Mas isso ficou explicado, quando se soube que o médico lhe dissera ao ouvido: «Tem piorado muito» Voltou depois para a administração, e um funcionário viu-o examinar com toda a atenção um mapa das estradas de França, que se achava suspenso na parede do seu gabinete e tomar depois alguns apontamentos a lápis num bocado de papel. _sec+Rom:2_ II Perspicácia de mestre Scaufflaire Em seguida, Madelaine saiu da administração e dirigiu-se ao extremo da cidade, a casa de um flamengo chamado Scaufflaire, nome que depois de afrancesado ficou sendo Scaufflaire, que alugava cavalos e carruagens O caminho mais curto para ir a casa deste Scaufflaire, era tomar por uma rua pouco frequentada, onde ficava o presbitério da freguesia em que Madelaine habitava, e cujo abade, segundo se dizia, era um homem digno, (respeitável e de bom conselho. No momento em que Madelaine chegou em frente do (presbitério, ia a passar na rua uma única pessoa, a qual reparou no seguinte: O maire, depois de ter passado para lá da residência paroquial, parou, esteve imóvel durante algum tempo, voltou depois para trás e caminhou de novo até ao presbitério; em seguida, levando a mão à argola de ferro que havia na porta, levantou-a, suspendendo logo o movimento, permaneceu por um instante pensativo e, passados alguns segundos, em vez de deixar cair de repente a argola, pô-la brandamente em descanso e continuou o seu caminho, com uma certa pressa que antes não parecia levar. Madelaine encontrou em casa mestre Scaufflaire, ocupado em consertar uns arreios. Mestre Scaufflaire perguntou ele tem algum cavalo que seja bom? Senhor maire disse o flamengo todos os meus cavalos são bons. O que entende o senhor por um bom cavalo? Entendo que é um bom cavalo o que pode andar vinte léguas num dia. Diabo! Vinte léguas! Sim. Atrelado a um cabriolet? Sim. E quanto tempo descansará ele depois? Em caso de necessidade, deve poder continuar no outro dia. Para fazer outra vez a mesma caminhada? Sim Diabo! Diabo! E são vinte léguas? Madelaine tirou do bolso o papel em que tomara os apontamentos e mostrou-os ao flamengo. Eram os números 5, 6, 8 1/2. Bem vê disse ele. Soma dezanove e meia, que é o mesmo que dizer vinte léguas. Senhor maire tornou o flamengo tenho com que o servir. Já deve ter visto passar algumas vezes o meu cavalo branco; é um animal pequeno, do Bas-Bolognais, mas muito fogoso. Quiseram primeiro fazê-lo cavalo de sela, mas ninguém foi capaz de o montar que não fosse para o chão. Julgaram-no vicioso e não sabiam o que haviam de fazer dele Foi então que o comprei e meti-o logo ao cabriolet Era o que ele queria, tornou-se manso como um cordeiro e ligeiro como o vento. Cada um tem a sua ambição. Lá para sela é que ele não estava disposto. Puxar a um carro, quanto quiserem; levar alguém em cima, isso é que não. » E será capaz de fazer a jornada? Andará as Vinte léguas, sempre a galope e em menos de oito horas. Mas vou dizer-lhe as condições Queira dizer. Em primeiro lugar, dar-lhe-á uma hora de descanso a meio caminho; comerá a ração, mas estará alguém ao pé dele, para evitar que o moço da estalagem lhe roube a aveia, porque tenho notado muitas vezes que nas estalagens é quase sempre a aveia mais bebida pelos moços do que comida pelos cavalos. Tomar-se-á sentido nisso. Em segundo lugar, o... cabriolet é para o senhor maire? É O senhor maire sabe guiá-lo? -Sei Nesse caso, o senhor maire viajará só e sem bagagem, para não sobrecarregar o cavalo, Está combinado. - Mas não levando ninguém consigo, será obrigado a dar-se ao incómodo de vigiar por si mesmo a ração. ~ Não tenho dúvida nisso. Dar-me-á trinta francos por dia, incluindo os de descanso, nem menos um real, ficando o sustento do animal por conta do senhor maire. Madelaine tirou três napoleões da bolsa e pô-los sobre a mesa. » Aqui estão dois dias adiantados. Além do que já disse, um cabriolet seria demasiadamente pesado e fatigaria o cavalo em (tão grande extensão. Era preciso que o senhor maire acedesse a fazer a jornada num pequeno tilbury que aí tenho. Não vejo nisso inconveniente. É muito ligeiro, mas descoberto. Isso para mim é indiferente. . Mas o senhor maire já reflectiu que estamos no Inverno? Madelaine não respondeu e o flamengo continuou: Que faz muito frio? Que pode chover? Madelaine ergueu a cabeça e disse: O cavalo e o tilbury que estejam amanhã, às quatro horas e meia da madrugada, à porta da minha casa. Está combinado, senhor maire respondeu Scaufflaire. Depois, raspando com a unha do polegar uma nódoa que havia na mesa, continuou com o ar de indiferença que os flamengos sabem tão bem aliar à finura de que são dotados: Mas, agora me lembro O senhor maire não me disse qual é o seu destino. Aonde vai? Mestre Scaufflaire desde o principio da conversa que não pensava noutra coisa, mas não sabia porque não ousara ainda fazer esta pergunta. O cavalo tem as pernas dianteiras boas? perguntou Madelaine. Tem, sim, senhor maire, mas sempre é bom sofreá-lo alguma coisa nas descidas. Há muitas descidas até aonde vai? . Não se esqueça de que deve estar à minha porta às quatro horas e meia em ponto respondeu Madelaine, saindo logo em seguida O flamengo ficou com «cara de asno», como ele próprio disse algum tempo depois. O maire tinha saído havia dois ou três minutos, quando a porta se tornou a abrir, dando-lhe entrada novamente Tinha ainda o mesmo ar impassível e preocupado. Senhor Scaufflaire , disse ele, em quanto avalia o cavalo e o tilbury que me aluga, conduzindo um ao outro? Um arrastando o outro, senhor maire? disse o flamengo, soltando uma gargalhada. - Pois seja assim. E então? O senhor maire quer comprar-mos? Não, mas quero garantir-lhos para o que possa acontecer. Quando eu voltar restituir-me-á o dinheiro. Vamos, em quanto avalia o tilbury e o cavalo? Em quinhentos francos Aqui os tem. Madelaine pousou uma nota em cima da mesa e saiu, mas desta vez não tornou a entrar. Mestre Scaufflaire lastimou profundamente não ter pedido mil francos, porque cavalo e tilbury não valiam juntos, cem escudos O flamengo chamou a mulher, contou-lhe o facto e logo ambos celebraram conselho. Aonde irá o senhor maire? Vai a Paris disse a mulher. Não creio respondeu o marido, O flamengo pegou no papel em que Madelaine traçara os algarismos e que ele por esquecimento deixara em cima do fogão e pôs-se a estudá-lo. Cinco, seis, oito e meia? Isto deve marcar as mudas da posta. Em seguida voltou-se para a mulher: Já sei. ~ O quê? - Olha: daqui a Hesdin são cinco léguas, de Hesdin a Saint-Pol, são seis, e dali a Arras oito e meia. Vai a Arras. Madelaine, entretanto, tinha ido para casa. Voltando da de Scaufflaire, tomara pelo caminho mais comprido, como se a porta do presbitério fosse uma tentação que ele quisesse evitar. Subira para o seu quarto e fechara a porta, o que não tinha nada de extraordinário, porque gostava de se deitar cedo Todavia, a porteira da fábrica, que era ao mesmo tempo a única criada de Madelaine, observou que a luz que ele tinha acesa se apagara às oito horas e meia e disse-o ao caixeiro quando este entrou, acrescentando: O senhor maire está doente? Pareceu-me notar-lhe um ar tão esquisito! O caixeiro, que habitava um quarto situado exactamente por baixo do de Madelaine, não prestando atenção às palavras da porteira, deitou-se e adormeceu. Seria porém, meia-noite, quando acordou sobressaltado; ouvira através do sono um ruído por cima da sua cabeça e pôs-se à escuta. Era um som de passos que iam e vinham, como se alguém andasse a passear no quarto de cima. Escutou mais atentamente e reconheceu o andar de Madelaine. Isto pareceu-lhe estranho, porque de ordinário não se ouvia ruído de espécie alguma no quarto do maire, antes da hora em que ele costumava levantar-se. Um momento depois, o caixeiro ouviu o quer que fosse que se parecia com o abrir e fechar de um armário; em seguida, o arrastar de um móvel e, após alguns instantes de silêncio, recomeçarem os passos. Completamente desperto, sentou-se na cama, olhou para a janela e viu através das vidraças, na parede fronteira, o revérbero avermelhado de uma janela alumiada. Pela direcção do reflexo, não podia ser senão a janela do quarto de Madelaine. O reflexo era trémulo como se proviesse de uma fogueira e não de uma luz. A sombra dos caixilhos envidraçados não se desenhava na parede, o que era sinal de que a janela estava aberta de par em par. com o frio que fazia era de causar admiração aquela janela aberta. O caixeiro tornou a adormecer, mas daí a uma ou duas horas acordou novamente. Por cima da sua cabeça continuavam a ouvir-se os mesmos passos, lentos e regulares, e na parede fronteira desenhava-se ainda o reflexo da luz, agora porém mais pálida e serena como o reflexo de uma lâmpada ou de uma vela. A janela conservava-se do mesmo modo aberta. Eis o que se passava no quarto de Madelaine. _sec+Rom:3_ III Tempestade num crânio Sem dúvida o leitor já adivinhou que Madelaine não era outro senão João Valjean. Já deitámos um olhar (para as profundidades desta consciência; é, todavia, chegada nova ocasião de lançar-lhes outro olhar. Não o fazemos, porém, sem emoção e estremecimento, porque não há nada mais aterrador do que esta espécie de contemplação. Os olhos do espírito não podem encontrar em parte alguma mais deslumbramentos nem mais trevas do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espectáculo mais grandioso ainda do que o céu, é o íntimo da alma. Fazer o poema da consciência humana, ainda que não fosse senão em relação a um só homem, mesmo ao mais ínfimo dos homens, seria fundir todas as epopeias em uma só epopeia superior e definitiva. A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentativas, é a fornalha dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: é o pandemónio dos sofismas, o campo de batalha das paixões. Penetrai, em certos momentos, através da face lívida de um ente humano absorvido pela reflexão e olhai para além, observai-lhe a alma, contemplai-lhe a escuridão. Há ali, sob a superfície límpida do silêncio exterior, combates de gigantes como em Homero, brigas de dragões, de hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais visionárias como em Dante. Sombria coisa é o infinito que todo o homem contém em si e pelo qual ele regula desesperado as vontades do seu cérebro e as acções da sua vida! Alighieri encontrou um dia uma porta sinistra, em frente da qual estacou vacilante. Eis-nos também em frente de uma, em cujo limiar do mesmo modo hesitamos. Contudo, entremos. Pouco temos que acrescentar ao que o leitor já conhece do que sucedera a João Valjean, após o seu encontro com o pequenito Gervásio. Desde esse momento, tornara-se outro homem. Executou cabalmente os desejos do bispo. Foi mais do que uma transformação, foi uma transfiguração. Conseguiu desaparecer, vendeu as pratas do bispo, conservando apenas os castiçais como recordação, andou de cidade em cidade, atravessou a França, veio para Montreuil-sur-mer, concebeu e efectuou a ideia que já conhecemos, chegou a tornar-se inacessível a qualquer perseguição, e depois de tudo isto, estabelecido em Montreuil-sur-mer, feliz por sentir a consciência contristada pela recordação do seu passado e a primeira parte da sua vida desmentida pela segunda, passou a viver tranquilo, pacífico e cheio de esperanças, dominado apenas por dois pensamentos: ocultar o seu nome e santificar a vida; escapar aos homens e restituir-se a Deus Estes dois pensamentos tinha-os ele tão estreitamente ligados no espírito, que quase formavam um só; ambos igualmente absorventes e imperiosos, dominavam-lhe as mínimas acções. De ordinário, achavam-se sempre de acordo para regular os procedimentos da sua vida; faziam-no encarar incessantemente as sombras, tornavam-no benévolo e simples, davam-lhe ambos os mesmos conselhos Todavia, davam-se algumas vezes conflitos entre eles Em tais circunstâncias, todos se recordam, o homem a que toda a gente de Montreuil-sur-mer, chamava o tio Madelaine, não hesitava nunca em sacrificar o primeiro ao segundo; a segurança à virtude. Deste modo, a despeito de toda a reserva e prudência, conservara os castiçais do bispo, cobrira-se de luto pela sua morte, chamava e interrogava todos os rapazinhos saboianos que passavam pela cidade, diligenciava obter informações sobre as famílias de Faverolles e salvara a vida ao velho Fauchelevent, apesar das inquietadoras insinuações de Javert, Parecia julgar, como já notámos, a exemplo de todos os que têm sido sábios, santos e justos, que os seus primeiros cuidados não deviam ser nunca em proveito próprio. Contudo, é necessário dizê-lo, ainda se não tinha apresentado nada de semelhante como o presente caso. Jamais as duas ideias que governavam o homem infeliz, cujos sofrimentos aqui narramos, haviam travado tão séria luta. Compreendeu-o ele confusa, mas profundamente, às primeiras palavras que Javert pronunciara quando entrou no seu gabinete. No momento em que, de modo tão abrupto, ouviu articular aquele nome, que ocultava sob tão grandes espessuras, sentiu-se atacado de paralisia, embriagado pelo sinistro capricho do seu destino, invadido pelo estremecimento que precede os grandes abalos; curvou-se como o carvalho à aproximação da tormenta, como o soldado chegado o momento do assalto; sentiu descerem-lhe sobre a cabeça terríveis sombras, pejadas de raios e de relâmpagos sinistros. Ao escutar Javert, o primeiro pensamento que o assaltara, fora correr a denunciar-se, livrar Champmathieu da prisão e colocar-se em seu lugar; esta ideia, porém, foi-lhe tão dolorosa e pungente como uma incisão na carne viva; depois passou e ele disse consigo: «Veremos! Veremos». Reprimindo o primeiro impulso generoso e recuando ante o heroísmo. Seria belo, sem dúvida, depois das santas palavras do bispo, ao cabo de tantos anos de arrependimento e abnegação, no meio de uma penitência tão admiravelmente principiada, que este homem, mesmo em presença de tão terrível conjuntura, não tivesse hesitado um instante e continuasse a caminhar com o mesmo passo para o precipício aberto diante de si, no fundo do qual estava o céu; teria sido belo, mas não foi assim. Devemos dar conta das coisas que se passavam naquela alma e não podemos dizer senão o que lá se encontrava. O que primeiro o dominou foi o instinto da conservação; reatou à pressa o fio das suas ideias, sufocou as emoções que sentia, considerou a presença de Javert, perigo enorme, desviou, com a firmeza do terror, qualquer resolução que pudesse tomar, fez por olvidar o que devia fazer e tomou de novo o seu ar sossegado, como um lutador levantando o escudo Passou o resto do dia neste estado um turbilhão lá dentro, uma tranquilidade profunda cá fora, tomando apenas o que se poderia chamar «medidas de conservação». No cérebro tudo se lhe debatia ainda em confusão; a perturbação ali era tal, que não lhe deixava ver distintamente a forma de nenhuma ideia; ele próprio não poderia dizer de si mesmo senão que recebera um grande golpe. Transportou-se, como de costume, para junto do leito de Fantine, e prolongou a sua visita, por um instinto de bondade, dizendo a si mesmo que era necessário proceder assim e recomendá-la bem às irmãs, para o caso em que acontecesse ele ter de ausentar-se. Conhecia vagamente que teria talvez de ir a Arras; e sem de nenhum modo se haver resolvido a semelhante Viagem, disse consigo que, estando ao abrigo de qualquer suspeita, como ele o estava, não havia inconveniente em ser testemunha do que se passasse; e alugou o tilbury a Scaufflaire, a fim de estar preparado para o que pudesse acontecer. Jantou com bastante apetite, e apenas entrou para o quarto, pôs-se a meditar. Examinou a situação e achou-a inaudita; de tal modo inaudita, que no meio das suas cogitações, levado por um impulso de ansiedade, quase inexplicável, ergueu-se da cadeira em que estava sentado e foi correr os ferrolhos da porta. Receou que entrasse ainda mais alguma coisa. Fortificou-se contra o possível. Pouco depois apagou a vela. A luz incomodava-o. Parecia-lhe que podiam vê-lo. Mas quem? Quem ele queria evitar que entrasse, entrara já; quem ele queria cegar, fitava-o. Era a sua consciência. A sua consciência, isto é, Deus. Todavia, no primeiro momento, chegou a iludir-se; teve certo sentimento de segurança e de solidão; corridos os fechos da porta, tornou-se inexpugnável; extinta a luz sentiu-se invisível. Tornou-se então senhor de si, fincou os cotovelos na mesa, apoiou a cabeça nas mãos e pôs-se a meditar nas trevas. , «Onde estou eu? Não será tudo -”isto um sonho? O que foi que me disseram? É realmente verdade que vi o Javert e que ele me falou daquele modo? Quem será esse Champmathieu? Será possível que se pareça comigo a tal ponto? Quando me lembro de que ainda ontem estava tão tranquilo e longe de suspeitar semelhantes coisas! Que fazia eu ontem a esta hora? O que há, pois, em todo este incidente? Qual será o seu destino? Que hei-de fazer?» Eis a tormenta que o agitava. As ideias passavam-lhe como ondas pelo cérebro, que perdera a força de as reter; e ele para o conseguir apertava a fronte entre as mãos. Deste tumulto que lhe abalava a vontade e a razão, e do qual ele procurava tirar uma evidência e uma resolução, saía apenas livre a angústia. A cabeça escaldava-lhe. Dirigiu-se para a janela e abriu-a de par em par. No céu não havia uma só estrela. Em seguida foi novamente sentar-se junto da mesa. Decorreu deste modo a primeira hora. Entretanto, a pouco e pouco, começaram a formar-se-lhe no meio da meditação uns vagos delineamentos e pôde entrever com a exactidão da realidade, não o conjunto da situação, mas alguns pormenores. Principiou por reconhecer que por mais extraordinária e crítica que fosse a sua situação, estava completamente senhor dela. O seu espanto tornou-se ainda mais intenso. Independentemente do severo e religioso fim a que visavam as suas acções, tudo quanto fizera até àquele dia não fora mais do que aprofundar a cova em que enterrara o seu nome. Era o seu nome o que ele sempre mais temera ouvir pronunciar nas suas horas de insónia dizia consigo próprio que seria esse o fim de tudo para ele; no dia em que esse nome tornasse a aparecer, o seu desaparecimento faria desvanecer em torno de si a sua vida nova, e quem sabe se talvez no interior dele a sua nova alma? Estremecia só com a lembrança da possibilidade de semelhante pensamento. com efeito, se alguém naquelas ocasiões lhe houvesse dito que chegaria uma hora em que esse nome lhe soaria aos ouvidos, em que esse medonho nome João Valjean sairia subitamente da prófunda obscuridade em que jazia e se ergueria diante dele, em que essa luz temível, feita para dissipar o mistério em que ele se envolvia, resplandeceria de improviso a seus olhos, e que esse nome o não ameaçaria, que essa luz só produziria uma obscuridade mais espessa, que o rasgar desse véu aumentaria mais o mistério, que aquele tremor de terra consolidaria o seu edifício, que esse prodigioso incidente não teria outro resultado, se a ele lhe aprouvesse, senão tornar-lhe a existência juntamente mais límpida e mais impenetrável, e que do seu confronto com o fantasma de João Valjean sairia o bom e digno burguês Madelaine, mais honrado, mais tranquilo e mais respeitado do que nunca; se alguém lhe tivesse dito tudo isto, encolheria os ombros e julgaria insensatas tais palavras. Pois bem! Fora precisamente o que lhe sucedera; tão grande montão de impossíveis era um facto e Deus permitira que tamanhas loucuras se tornassem realidades! As suas visões continuavam a esclarecer-se; cada vez ia adquirindo mais profundo conhecimento da sua posição Parecia-lhe que acabava de acordar de um estranho sono e que no meio da noite, de pé, à beira de um abismo, diligenciando em vão recuar, resvalava para ele num declive rápido e inevitável. No mais denso das sombras entrevia um desconhecido que o destino se comprazia em tornar seu substituto e que o impelia em seu lugar para o medonho abismo. Era necessário que um ou outro caísse no precipício, para que ele se fechasse. Não havia mais do que deixar correr as coisas. A luz chegou à sua maior intensidade, e ele confessou a si próprio que o seu lugar nas galés estava vago; que, por mais que fizesse, elas lá o esperavam; que o roubo ao pequenito Gervásio ali o conduziria outra vez que esse lugar vazio o aguardava e atrairia até que o fosse preencher, o que era inevitável e fatal. Em seguida disse ainda para consigo que naquele momento tinha um substituto, porque parecia que um tal Champmathieu tomava essa crítica posição e que quanto a ele, presente nas galés na pessoa desse Champmathieu, presente na sociedade debaixo do nome de Madelaine, já nada tinha a temer, contanto que não obstasse a que os homens selassem sobre a cabeça desse Champmathieu, essa pedra de infâmia que, semelhante à pedra do sepulcro, uma só vez cai, para nunca mais se erguer. Isto tudo era tão violento e extraordinário que subitamente se operou nele o movimento indescritível que nenhum homem experimenta mais de duas ou três vezes na vida, espécie de convulsão da consciência, que revolve quanto o coração contém de duvidoso, que se compõe de ironia, de alegria e desespero, e que bem poderia chamar-se uma gargalhada íntima. De repente acendeu precipitadamente a vela e disse consigo: «Mas que devo eu temer? Para que hei-de pensar nestas coisas? Estou salvo! Acabou-se tudo! Não havia senão uma porta entreaberta pela qual o passado poderia irromper na minha vida, e essa porta está para sempre fechada! Esse Javert que há tanto tempo me perturba, esse temível instinto que parecia ter-me adivinhado, que me adivinhou e que por toda a parte me seguia; esse medonho rafeiro que me não perdia a pista, ei-lo fora do rasto, atento para outra parte, absolutamente desnorteado! Agora está satisfeito, encontrou o seu João Valjean; deixar-me-á, portanto, tranquilo! Quem sabe? Talvez até queira sair da cidade! Fez-se tudo sem que eu desse um passo! Não entrei com coisa alguma em tudo isto! Mas, de facto, o que pode haver de desgraça neste acontecimento? Palavra de honra que quem me visse havia de julgar que me sucedeu alguma catástrofe! Afinal de contas, se isto acarreta prejuízo a alguém, não é minha a culpa. É tudo devido à Providência, que aparentemente assim o quer! Tenho eu porventura direito de contrariar os seus desígnios? O que exijo eu presentemente? Em que me vou envolver? Sou estranho a tudo! De que é que preciso? O fim a que tenho aspirado por tantos anos, o sonho de todas as minhas noites, o objecto das minhas súplicas ao céu, a segurança, alcancei-a definitivamente! E para que o quer Deus? Para que eu continue o que comecei, para que pratique o bem, para que possa ser um dia grande e animador exemplo, para que chegue a dizer que houve enfim alguma felicidade ligada à penitência que tenho cumprido e à virtude a que voltei! Realmente não compreendo porque tive medo de entrar em casa do excelente cura, de lhe contar tudo como a um confessor e de lhe pedir conselho; ter-me-ia evidentemente dito o mesmo que tenho pensado. Está decidido, deixemos caminhar as coisas! Deixemos completar a obra de Deus!» Assim raciocinava ele no mais íntimo da consciência, debruçado sobre o que poderia chamar-se o seu próprio abismo. Levantou-se por fim da cadeira e pôs-se a passear no quarto. «Vamos», disse ele, falando consigo próprio, «não pensemos mais nisto. Estou resolvido!» Não sentiu, porém, a mínima alegria. Pelo contrário. Pretender obstar a que o pensamento volte a ocupar-se de uma ideia, seria o mesmo que querer impedir o mar de voltar a humedecer a areia da praia. Para o marinheiro, chama-se isto a maré; para o criminoso, chama-se remorso. Deus agita a alma, como agita o oceano. Passados instantes e por mais que fizesse, continuou o sombrio diálogo, em que era de que falava e quem escutava, dizendo o que desejaria calar, escutando o que desejaria não ouvir, cedendo a essa potência misteriosa que lhe dizia: Pensa! Como há dois mil anos dizia a outro condenado: Caminha! Antes de nos adiantarmos mais e para sermos completamente compreendidos, insistamos numa observação necessária. É certo que o homem fala a si mesmo; não há um único ser racional que o não tenha experimentado. Pode mesmo dizer-se que o mistério do Verbo nunca é mais magnífico do que quando, no interior do homem, vai do pensamento à consciência e volta da consciência ao [pensamento. É somente neste sentido que devem ser entendidas até palavras, frequentemente empregadas neste capítulo: disse, exclamou: diz, fala, exclama, cada um consigo mesmo, sem que seja quebrado o silêncio exterior. Há um grande tumulto; tudo fala em nós, excepto a boca. As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, nem por isso deixam de ser também realidades. Aquele homem perguntou, pois, a si próprio em que ponto estava. Interrogou-se sobre aquela «resolução tomada». Confessou a si mesmo que tudo o que ele acabava de dispor no seu espírito era monstruoso, que «deixar correr as coisas e não se opor à vontade de Deus», era nem mais nem menos do que uma coisa horrível. Consentir que se consumasse aquele engano do destino e dos homens, não o impedir, antes favorecê-lo com o seu silêncio, nada fazer enfim, era fazer tudo, era o último grau da indignidade hipócrita, era um crime baixo, cobarde, dissimulado, hediondo, abjecto! Pela primeira vez, ao cabo de oito anos, o desgraçado sentia o amargo sabor de um mau pensamento e de uma má acção. Cheio de desgosto cuspiu-a de si e continuou a interrogar-se. Perguntou a si mesmo severamente o que entendera por: «Alcancei o meu fim!» Declarou que tinha, com efeito, um fim na vida. Mas qual era esse fim? Ocultar o seu nome? Iludir a polícia? Era por uma coisa tão pequena, que fizera quanto tinha feito? Porventura não tinha outro fim, que fosse o grande, o verdadeiro fim? Salvar, não a sua pessoa, mas a sua alma, tornar a ser honrado e bom, ser um justo! Não era isto o que ele sobretudo, o que ele unicamente desejara sempre e o que o bispo lhe ordenara: Fechar a porta ao seu passado? Mas é que ele não a fechava, grande Deus, abria-a, praticando uma acção infame; tornava-se um ladrão e o mais odioso dos ladrões: roubava a outro a sua existência, a vida, a paz, o seu lugar ao sol que nos alumia; tornava-se um assassino, matava moralmente um mísero homem, infligindo-lhe a medonha morte lenta, a morte a céu descoberto, que se chama galés! Pelo contrário, salvar esse homem, vítima de um erro tão lúgubre, tornar a ser por dever o forçado João Valjean, era completar verdadeiramente a sua ressurreição e fechar para sempre o inferno de onde saíra! Tornando a cair nele aparentemente, deixava-o na realidade! Era necessário fazer isto! Se o não fizesse, perderia quanto já fizera! Toda a sua vida teria sido estéril, toda a sua penitência se tornaria inútil! Bastava que dissesse: Para que fim? Sentia que o bispo estava ali, que se encontrava muito mais presente por já não existir, que não afastava dele os olhos, que dali em diante o maire Madelaine, mesmo com todas as suas virtudes, lhe parecia abominável e acharia puro e admirável o forçado João Valjean; que os homens só lhe viam a máscara, mas que o bispo lhe via o rosto; que os homens lhe viam a vida, mas que o bispo lhe via a consciência. Era indispensável, pois, ir a Arras libertar o suposto João Valjean e denunciar o verdadeiro! Ah, era este o maior dos sacrifícios, a mais pungente vitória, o último passo a dar, mas era indispensável! Doloroso destino! Não seria justo aos olhos de Deus sem tornar a ser infame aos olhos dos homens! «Bem», disse ele, «adaptemos esta resolução, façamos o nosso dever, salvemos o homem» Pronunciou estas palavras em voz alta, sem dar por tal. Pegou nos livros, verificou-os e pô-los em ordem. Em seguida deitou fogo a um maço de obrigações de dívidas de que lhe eram devedores alguns comerciantes em más circunstâncias. Escreveu e fechou uma carta em cujo sobrescrito teria podido ler-se, se no quarto estivesse mais alguém naquela ocasião: «Ao senhor Laffite, banqueiro, rua d’Artois, Paris». Em seguida tirou da secretária uma carteira que continha algumas notas de Banco e o passaporte de que naquele mesmo ano se servira para ir às eleições. Quem o tivesse visto procedendo àquelas diversas operações a que ligava tão grande meditação, nem mesmo suspeitaria o que lhe ia na alma. O que fazia por vezes era mover os lábios, noutros momentos erguia a cabeça e fitava os olhos num ponto qualquer da parede, como se ali estivesse precisamente o que ele necessitava esclarecer ou interrogar. Terminada a carta para Laffite, metera-a no bolso, assim como a carteira e continuou a passear no quarto. A preocupação que o dominava não tivera o mínimo desvio. Continuava a distinguir claramente o seu dever, escrito em letras luminosas, que lhe fulguravam diante dos olhos e que via sempre para onde quer que olhasse: «Dize quem és! Denuncia-te!” Via mesmo, e como se acaso se movessem diante dele Com formas sensíveis, as duas ideias que tinham constituído até então a dupla regra da sua vida: ocultar o nome e santificar a alma. Pela primeira vez se lhe mostravam absolutamente distintas, podendo apreciar a diferença que as separava. Reconhecia que uma daquelas ideias era necessariamente boa, enquanto a outra podia tornar-se má; que aquela representava a dedicação e esta a personalidade; que uma dizia: o próximo, e a outra: eu:; que uma brotava da luz e a outra provinha das trevas. Estas duas ideias combatiam-se e ele assistia ao combate. À proporção que meditava, iam-se-lhe elas tornando grandes aos olhos do espírito; atingiam já estaturas colossais; parecia-lhe que via lucrar em si mesmo, no infinito de que há pouco falámos, no meio de sombras e relâmpagos, uma deusa e um gigante. Achava-se Cheio de espanto, mas parecia-lhe que sentia vencer o pensamento bom. Conhecia que chegara a outro momento decisivo para a sua consciência e para o seu destino; que o bispo marcara a primeira fase da sua nova vida e que aquele Champmathieu lhe marcava a segunda. Após a grande crise, a grande prova. Entretanto, a febre, por um momento acalmada, foi-lhe voltando a pouco e pouco. Mil pensamentos lhe atravessavam o cérebro, mas todos continuavam a fortificar-lhe a resolução. Por um momento dissera para consigo que tomara o caso talvez muito a sério porque, afinal de contas, esse Champmathieu era um ladrão, e por isso não merecia que se interessasse por ele. Mas a este pensamento retorquiu ele: se este homem ; roubou, com efeito, alguma fruta, sofrerá apenas um mês de prisão. Daqui às galés vai muita distância. E quem sabe se roubou? Está isso porventura provado? O nome de João Valjean pesando sobre ele parece dispensar as provas. Não é deste modo que costumam proceder os procuradores-régios? Julgam-no ladrão, porque o supõem forçado. De outra veio-lhe à lembrança que lhe perdoariam, quando ele se denunciasse a si próprio, tomando em consideração o heroísmo do seu acto, a sua vida limpa de máculas há sete anos para cá .e os serviços que prestara àquela terra. Mas esta suposição desvaneceu-se logo, e ele sorriu-se amargamente, lembrando-se de que o roubo dos quarenta soldos feito ao rapazinho Gervásio o fazia reincidente, que esse processo reapareceria sem dúvida e que, nos termos da lei, o tornava réu de trabalhos forçados por toda a vida. Afastou-se de toda a ilusão possível, desligou-se cada vez mais da terra, procurando consolação e força noutra parte, dizendo que era preciso cumprir o seu dever; que talvez depois de o ter cumprido não fosse mais desgraçado do que depois de o ter iludido; que se deixasse correr as coisas, se ficasse em Montreuil-sur-mer, a consideração de que gozava, a sua boa reputação, as suas boas obras, a deferência e veneração com que o tratavam, a sua riqueza, popularidade e virtude, seriam temperadas com um crime. Que sabor poderiam ter estas coisas tão santas, ligadas a tal hediondez? Enquanto que se ele preenchesse o seu sacrifício, na prisão, no pelourinho, na golilha, no barrete verde, no trabalho incessante, na vergonha sem piedade, haveria em tudo aquilo um como sabor celeste! Finalmente disse que havia necessidade disto, que assim estava decretado o seu destino, que não tinha direito de contrariar o que Deus dispunha, que em todo o caso era preciso escolher: ou a virtude fora e a abominação dentro, ou a santidade dentro e a infâmia fora. Não lhe desfalecia o ânimo a revolver ideias tão lúgubres, mas fatigava-se-lhe o cérebro, de modo que já principiava, mau grado seu, a pensar em outras coisas, em coisas indiferentes. Batiam-lhe violentas as artérias nas fontes, e ele ia e vinha sempre Soou meia-noite, primeiro no relógio da freguesia, depois na casa da câmara. Contou as doze badaladas, nos dois relógios, comparando o som dos dois sinos >e lembrou-se nesta ocasião que alguns dias antes tinha visto em casa de um negociante de ferros velhos um sino que ali estava à venda, no qual se via gravado este nome: António Albino de Romainville. Sentiu frio. Acendeu o fogão, mas não se lembrou de fechar a janela. Em seguida tornou a cair em meditação. Foi-lhe necessário grande esforço para se recordar do que estava passando antes de ouvir bater a meia-noite. Por fim, sempre o conseguiu. «Ah, sim!», murmurou ele. «Tinha resolvido denunciar-me». De repente, lembrou-se de Fantine. «É verdade! E esta pobre mulher?» Aqui declarou-se nova crise. Fantine, surgindo inopinadamente no meio da sua meditação, causava nele o efeito de inesperado raio de luz. Pareceu-lhe que tudo em volta de si mudava de aspecto e continuou a falar consigo próprio: «Ainda não pensei senão em mim, não atendi senão a minha conveniência! Calar-me ou denunciar-me, ocultar a minha pessoa ou salvar a minha alma, ser um magistrado venerável e respeitado, ou um forçado infame e desprezível, são coisas que só a mim respeitam; é o eu, unicamente o eu! Mas, meu Deus! Isto é ser egoísta! São expressões diversas do egoísmo, mas sempre é egoísmo! Se eu pensasse um pouco nos outros? Ó primeiro dos mais santos deveres é pensar no próximo. Vejamos, examinemos! Posto eu de parte, desaparecendo, sendo esquecido, o que poderá suceder? Se me denuncio, prendem-me, soltam Champmathieu e tornam a mandar-me para as galés; muito bem e depois? O que se passa aqui? Aqui há um distrito inteiro, uma cidade cheia de fábricas, uma indústria, operários, homens, mulheres, velhos e crianças, uma multidão de pobre gente! Criei tudo isto, dei vida a tudo, em tudo, em todas as chaminés que deitam fumo foi o lume aceso por mim, fui eu quem meti na panela a carne para o jantar da família; produzi o bem-estar, estabeleci a circulação e o crédito; antes de mim não havia nada disto; animei, verifiquei, fecundei, estimulei e enriqueci todo o país, separando-me dele tiro-lhe a alma. Ausentando-me daqui, morre tudo. E esta mulher que tem padecido tanto, em cuja perdição há tantos motivos de estima e de quem eu, involuntariamente, ocasionei a última desgraça! E a criança que eu queria ir buscar, que prometi a sua mãe! Porventura não devo alguma coisa a essa mulher, em (compensação do mal que lhe fiz? Se eu desapareço, que sucede? A mãe morre, a criança perde-se. Eis o que acontece se me denuncio. E se o não faço? Vejamos, se não me denuncio?» Depois de ter dirigido a si mesmo esta pergunta, parou; teve um momento de hesitação e de abalo, mas este momento foi rápido e respondeu com severidade: «Esse homem vai para as galés, é verdade, mas que diabo! Para que roubou? Por mais que repita a mim mesmo o contrário, é um facto que roubou! Eu fico aqui, continuo como até agora. Em dez anos terei ganho dez milhões, espalho-os pelo país, não terei nada de meu, mas que me importa? Não é por mim que faço tudo isto! A prosperidade geral vai crescendo, as indústrias nascem e excitam-se mutuamente, a manufactura aumenta, as fábricas multiplicam-se e as famílias, cem mil famílias, vivem felizes; o território povoa-se; nascem aldeias onde não havia senão herdades, e nascem herdades onde não havia nada; a miséria desaparece e com ela os maus costumes, a prostituição, o roubo, o assassínio, todos os vícios, todos os crimes Essa pobre mãe educa sua filha, e a par disto tudo, o país rico e honesto! Estava louco! Que absurdo, pensar em denunciar-me! Realmente, é preciso meditar muito e não ser precipitado O quê! Porque me agradaria representar de magnânimo a generoso; no fim de tudo era um melodrama! porque não pensara senão em mim; porque quis salvar de uma punição, talvez um tanto exagerada, mas afinal justa, não sei quem, um ladrão, evidentemente um velhaco, deve perecer uma população inteira; deve uma pobre mulher morrer no hospital e uma infeliz criança ficar abandonada no meio da rua, como se fosse um cão? É abominável! Sem que mesmo a mãe tenha tornado a ver sua filha, sem que a criancinha quase conheça sua mãe E tudo isto por causa de um sórdido ladrão de fruta que, com certeza, se não merece as galés por este roubo, merece-as sem a mínima dúvida, por outra coisa Belos escrúpulos que salvam um culpado sacrificando muitos inocentes: que salvam o velho vagabundo, que poucos anos poderá viver, que no fim de contas não será mais infeliz nas galés do que no seu casebre, e que sacrificam uma população inteira, homens, mulheres e crianças! E a pobre pequenita Cosette, que só me tem a mim neste mundo e que está a estas horas roxa de frio, na pocilga dos tais Thenardier que são também uns canalhas! Pois hei-de faltar aos meus deveres para com toda esta pobre gente? Hei-de ir denunciar-me? Hei-de cometer semelhante inépcia? Calculemos tudo pelo pior. Suponhamos que há em tudo isto mau procedimento da minha parte e que mais para diante a consciência mo exprobra; no aceitar em proveito dos outros essas exprobrações que só a mim respeitam, essa má acção que não prejudica senão a minha alma, é que consiste a dedicação, é nisto que está a virtude». Em seguida levantou-se e continuou a passear. Desta vez pareceu-lhe que se sentia mais satisfeito. Não se encontram os diamantes senão nas tenebrosas entranhas da terra; só se encontram as verdades nas profundidades do pensamento. Pareceu-lhe que depois de ter descido a estas profundidades, depois de ter andado às apalpadelas na maior densidade destas trevas, achara um desses diamantes, uma dessas verdades, que a tinha enfim na mão; contemplava-a portanto como deslumbrado. «Sim, é isto mesmo! Cheguei à verdade, encontrei a solução. É necessário concluir alguma coisa. A minha resolução está tomada, deixemos caminhar as coisas! Não vacilemos, não recuemos. É o interesse de todos e não meu. Sou Madelaine, ficarei Madelaine. Desgraçado do que é João Valjean! Não sou eu, não conheço esse homem, não sei de quem se trata; se sucede haver neste momento alguém que seja João Valjean, avenha-se como puder! Não tenho nada com isso. É um nome fatal que paira no meio das sombras; se poisou sobre alguma cabeça, o mal é para ela» » E, olhando para um espelho que estava sobre o fogão, acrescentou: «E então! Como alivia assentar numa resolução! Sinto-me outro». Deu ainda alguns passos e parou de repente. «Vamos!», disse ele. «É necessário não hesitar ante nenhuma das consequências do que resolvi. Há ainda alguns fios que me ligam a esse tal João Valjean! É necessário quebrá-los. Neste mesmo quarto há objectos que me acusam, objectos mudos que serviriam de testemunha; está decidido, é necessário que desapareça tudo». E, tirando a bolsa da algibeira, abriu-a e procurou nela uma chavinha. Em seguida introduziu-a numa fechadura, cujo pequeno buraco mal se distinguia, perdida nas sombras mais carregadas da pintura do papel com que eram forradas as paredes e abriu um esconderijo, espécie de armário praticado entre o ângulo da parede e o pano da chaminé. Não havia neste esconderijo senão alguns farrapos; uma camisola de algodão azul, umas calças, uma mochila, tudo muito velho, e um cajado de espinheiro, emponteirado em ambas as extremidades. Os que tinham visto João Valjean na época em que atravessara Digne em Outubro de 1815, teriam facilmente reconhecido todas as peças daquele miserável vestuário. Conservara-as como conservara as castiçais de prata, para se recordar sempre do seu ponto de partida. Só ocultava os andrajos que provinham das galés; os castiçais, que provinham do bispo, conservava-os patentes. Olhou depois furtivamente para a porta, como se receasse que ela se abrisse apesar do ferrolho que a fechava; em seguida, com um movimento rápido, inesperado, e de uma só braçada, sem mesmo olhar uma única vez para os objectos que tinha tão religiosa e perigosamente guardado durante tantos anos, pegou nos farrapos, no cajado, na mochila, e lançou tudo no fogão. Feito isto tornou a fechar o esconderijo; e redobrando as precauções, já inúteis, por isso que já estava vazio, ocultou a porta encostando-lhe um grande móvel. Passados instantes, estavam o quarto e a parede fronteira iluminados com um clarão avermelhado e trémulo. Tudo ardia; o cajado de espinheiro estalava e arrojava faíscas até ao meio do quarto. A mochila, consumindo-se com os hediondos farrapos que continha, deixara a descoberto o que quer que era que brilhava no meio da cinza. Quem se curvasse um pouco teria facilmente reconhecido uma moeda de prata. Eram sem dúvida os quarenta soldos roubados ao pequeno saboiano. Madelaine não olhava para o lume e continuava a passear de um para o outro lado, sempre no mesmo passo. De repente, os olhos fixaram-se-lhe nos dois castiçais de prata, que o reflexo da chama fazia reluzir vagamente sobre o fogão. «Ainda reside ali um João Valjean completo», disse ele para consigo. «É necessário destruir aquilo». E pegou nos dois castiçais. O fogão tinha bastante lume para que pudessem ser rapidamente desfigurados e transformados numa espécie de barra, impossível de reconhecer. Curvou-se sobre o lume e aqueceu-se por um instante, sentindo verdadeiro bem-estar. «Que excelente calor!» com um dos castiçais remexeu o braseiro. Um minuto mais e estariam ambos no fogo. Neste momento, porém, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe gritava de dentro de si mesmo: «João Valjean! João Valjean!» Os cabelos eriçaram-se-lhe e apresentou ao mesmo tempo o aspecto de um bom homem que está ouvindo uma coisa Horrível. «Isso, acaba com tudo!», dizia a voz. «Completa o que estás fazendo! Destrói esses castiçais! . Apaga essa recordação! Esquece-te de tudo! Deita a perder esse Champmathieu! Não hesites! Muito bem. Aplaude-te! Assim mesmo: está combinado, está dito e resolvido: reduz-se tudo a haver um homem, um velho que não sabe o que lhe querem, que não fez talvez coisa alguma, um inocente de quem o teu nome constitui toda a desgraça, sobre quem ele pesa como um crime, que vai ser julgado em teu lugar, que vai ser condenado e terminar os seus dias na abjecção e no horror! Muito bem. Sê tu homem honesto. Continua a ser o senhor maire, conserva-te honrado e respeitado, enriquece a cidade, alimenta os indigentes, educa os órfãos, vive feliz, virtuoso e admirado; e durante esse tempo, enquanto estiveres aqui rodeado de esplendor e alegria, haverá alguém que vestirá a tua camisola vermelha, que ignorado usará o teu nome, e que arrastará a tua grilheta pelas galés! Sim, está tudo assim bem combinado! Ah, miserável!» O suor corria-lhe pela fronte e os olhos espantados não se lhe afastavam dos castiçais. Entretanto, o que lhe falava no íntimo, não terminara ainda. A voz continuava: «João Valjean! Ouvir-se-ão em roda de ti inúmeras vozes que falarão muito alto, que farão grande ruído, abençoando-te; mas haverá uma, que ninguém ouvirá e que te amaldiçoará nas trevas. Escuta, pois, infame! Essas bênçãos tornarão a cair todas antes de chegarem ao céu, e só a maldição subirá até Deus!» Esta voz, em princípio fraca, e que se lhe elevara do mais recôndito da consciência, tornara-se gradualmente estrondosa e medonha, ouvindo-a depois junto do ouvido. Parecia-lhe que saíra de si mesmo e que passara a falar-lhe exteriormente. Julgou ouvir tão claras as suas últimas palavras, que correu a vista pelo quarto com uma espécie de terror. . Está aí alguém?! . perguntou ele em voz alta e como desorientado. Depois acrescentou, soltando uma risada semelhante à de um idiota: «Que estúpido que eu sou! Não pode estar aqui ninguém». Estava ali alguém com efeito, mas esse alguém era dos que os olhos humanos não podem ver. Tornou a pôr os castiçais sobre o fogão. Depois continuou o seu passeio monótono e lúgubre, o qual perturbava os seus sonhos e despertava em sobressalto o homem que dormia no quarto que ficava por baixo. Este passeio aliviava-o e embriagava-o ao mesmo tempo. Parece muitas vezes que o homem, nas ocasiões supremas, se agita para pedir conselhos a tudo que pode encontrar, nas sucessivas mudanças do lugar. Passados segundos já nem sabia onde estava. Agora recuava ante as duas resoluções que adoptara simultaneamente. As duas ideias que o aconselhavam pareciam-lhe igualmente funestas, «Que fatalidade! Que encontro o daquele Champmathieu, que julgavam ser ele! Ser precipitado justamente pelo meio que a Providência parecia ter em princípio empregado para o fortalecer e consolidar!» Por um momento encarou o futuro. Denunciar-se, grande Deus!, entregar-se! Encarou com grande desespero tudo o que tinha de abandonar e tudo a que teria de voltar; teria de dizer adeus àquela existência tão boa, tão pura, tão radiante, ao respeito que todos lhe tributavam, à honra, à liberdade! Não tornaria a passear pelos campos, não ouviria mais cantar os passarinhos, no mês de Maio, não daria mais esmolas às criancinhas! Não -sentiria mais a doçura dos olhos de reconhecimento e de amor, que costumam fitá-lo! Deixaria aquela casa, que tinha construído, aquele quartozinho! Tudo naquele momento lhe parecia encantador. Não tornaria a ler aqueles livros, nem a escrever sobre aquela mesa de pinho! A velha porteira, a única criada que tinha tido, não voltaria a levar-lhe o café pela manhã! Grande Deus!, em vez de tudo isto a golilha, a vestimenta vermelha, a grilheta ao pé, a fadiga, o cárcere, a tarimba, todos os horrores conhecidos! Na sua idade e depois de ter sido o que fora! Ainda se fosse novo! Mas velho, receber o tu de toda a gente,, ser revistado pelo guarda-chusma e receber bastonadas do comitre! Trazer os pés nus em sapatos ferrados! Apresentar pela manhã e à tarde a perna ao martelo do vigia que verifica a segurança das manilhas! Sofrer a curiosidade dos visitantes, aos quais diriam: Aquele é o famoso João Valjean, que foi maire em Montreuil-sur-mer! A noite, gotejando suor, acabrunhado pela fadiga, Com o barrete verde caído sobre os olhos, tornar a subir a escada de mão da prisão flutuante ligado a outra criatura, sob a chibata do esbirro! Oh, que miséria! Pode porventura o destino ter tanta maldade como qualquer ente inteligente, e tornar-se monstruoso como o coração humano! E por mais que fizesse, recaía sempre no mais pungente dilema que lhe ocupava o fundo da meditação: «Conservar-se no paraíso e tornar-se aí mesmo demónio! Voltar para o inferno e tornar-se nele anjo! O que havia de fazer, grande Deus, o que havia de fazer?!» A tempestade de que se livrara com tanto trabalho, desencadeava-lhe novamente no cérebro. As ideias recomeçavam a confundir-se-lhe e apresentavam-se-lhe com a maquinal estupefacção própria do desespero. O nome de Romainville ocorria-lhe sem cessar ao espírito, com dois versos duma cantiga que ouvira noutro tempo. Recordava-se de que Romainville era um bosquezinho nas imediações de Paris, onde os jovens namorados iam colher lilases no mês de Abril. Vacilava tanto por dentro como por fora. Caminhava como uma criancinha a quem se larga a mão. Em certos momentos, lutando com a fadiga, esforçava-se em recobrar a inteligência. Diligenciava formular pela última vez e definitivamente, o problema sob o qual tinha de certo modo caído exausto. Deveria denunciar-se? Deveria calar-se? Não conseguia ver coisa alguma distintamente. Os vagos aspectos de todos os raciocínios esboçados pela sua meditação, oscilavam e dissipavam-se sucessivamente como o fumo. O que ele sentia era que, qualquer que fosse a sua última resolução, necessariamente e sem que fosse possível escapar-lhe, morreria nele alguma coisa; que entraria para um sepulcro, tanto pela direita como pela esquerda; que passaria, de todos os modos, por uma agonia, a agonia da sua felicidade, ou da sua virtude. Todas estas resoluções o tinham de novo assaltado. Não estava mais adiantado do que no princípio. Assim se debatia no meio da angústia aquela desventurada alma. Mil e oitocentos anos antes deste homem desafortunado, tinha também o ente misterioso em que se reúnem todas as santidades e sofrimentos da humanidade desviado com a mão, ao sussurrar das oliveiras agitadas pelo vento feroz do infinito, o cálix terrível, que lhe aparecia envolto em sombras e transbordando de trevas nas alturas recamadas de estrelas. _sec+Rom:4_ IV Formas de sofrimento durante o sono Três horas da manhã acabavam de soar, havendo cinco que daquele modo passeava quase sem interrupção, quando se deixou cair numa cadeira. Adormeceu e teve um sonho, sonho que, como a maior parte deles, não tinha ligação com a situação em que ele se encontrava, senão pelo que quer que era de funesto e pungente, que lhe causou grande impressão. De tal modo o feriu aquele pesadelo, que escreveu mais tarde, e é esta uma das coisas que deixou escritas por sua própria mão. Julgamo-nos no dever de o transcrever aqui textualmente. Qualquer que ele seja, seria incompleta a história desta noite se o omitíssemos. É a sombria aventura de uma alma doente, Ei-lo, pois. No sobrescrito, achamos escritas estas palavras: O sonho que eu tive naquela noite, «Encontrava-me numa grande e triste campina, sem erva nem vegetação, parecendo-me que não era nem dia nem noite. «Andava a passear com meu irmão, o irmão dos meus anos da infância, esse irmão, em quem, devo dizê-lo, nunca penso, e do qual já quase me não lembro. «Conversávamos, interrompidos às vezes por uma outra pessoa que passava, falando de uma vizinha que tivemos noutro tempo, a qual trabalhava sempre com a janela aberta, desde que morava na rua, e, ao mesmo tempo que conversávamos, sentíamos frio proveniente daquela janela aberta. «Não se via uma só árvore em toda a extensão da campina. «Nisto passou perto de nós um homem, cor de cinza, completamente nu, montado num cavalo cor de terra. Este homem não tinha cabelos; ,via-se-lhe o crânio, e nele as ramificações azuladas das veias. Trazia na mão uma varinha flexível como um vime e pesada como ferro. Este cavaleiro passou por nós e não nos disse nada. «Meu irmão disse-me: «Tomemos pelo carreiro». «Havia ali um carreiro em que se não via um pé de tojo, nem um bocado de musgo. Era tudo cor de terra, mesmo o céu. «Ao cabo de alguns passos dados, como ninguém me respondia, quando eu falava, olhei e vi que meu irmão já não ia a meu lado. «Entrei então numa aldeia que avistei, lembrando-me que devia ser ali Romainville (porque havia de ser Romainville (1)?) «A primeira rua em que entrei estava deserta. Entrei noutra. Por detrás do ângulo formado pelas duas ruas estava um homem de pé, encostado à parede. (1) Este parêntesis é do próprio punho de João Valjean. «Perguntei a este homem: «Que terra é esta? Onde estou eu?» O homem não me respondeu. Vi a porta duma casa aberta e entrei. «O primeiro quarto estava deserto: entrei no segundo. Por detrás da porta deste quarto, estava outro homem em pé, encostado à parede. Perguntei ao homem: «De quem é esta casa? Onde estou eu?» O homem não deu resposta. A casa tinha um jardim. «Passei para o jardim, que também estava deserto. Por detrás da primeira árvore encontrei ainda um homem em pé. Perguntei-lhe: «Que jardim é este? Onde estou eu?» O homem não respondeu. «Percorri a aldeia e conheci que era uma cidade. Todas as ruas estavam desertas e todas as portas aber- tas. Não passava pelas ruas, não se encontrava nas casas, não passeava no jardim, um único vivente; mas atrás de cada ângulo do muro, atrás de cada porta e de cada árvore estava um homem, de pé, e que não falava. Não se via senão um por cada vez, mas todos eles me viam passar. «Saí da cidade e comecei a percorrer os campos. «Passado algum tempo, voltei-me, e vi atrás de mim grande multidão. Reconheci todos os homens que tinha visto na cidade. Tinham umas cabeças extraordinárias; pareciam não se apressar, e contudo andavam mais do que eu. Os seus passos não produziam o mínimo ruído. Num momento fui alcançado e rodeado por aquela mul- tidão. Os rostos dos homens que a compunham eram cor de terra. «Então, o primeiro que vira quando entrei na cidade e a quem fizera a primeira pergunta, dirigiu-me a pala vra, dizendo-me: «Aonde vai? Porventura não sabe que está morto há muito tempo?» Abri a boca para responder e VI que não tinha ninguém ao pé de mim.» . Madelaine acordou. Estava gelado. As vidraças da sacada aberta volteavam nos gonzos ao sabor de um vento frio como a aragem da manhã. Apagara-se o lume e a vela estava quase toda gasta. Era ainda noite fechada. Levantou-se e encaminhou-se para a janela. No céu continuava a não se ver uma só estrela. Ao chegar à janela, de onde se avistava o pátio da casa e a rua, ressoou-lhe de súbito aos ouvidos um ruído seco e duro, que lhe fez baixar os olhos para o chão, e viu em baixo duas estrelas vermelhas, cujos raios se alongavam e encolhiam extravagantemente no meio das sombras. Como tivesse ainda o pensamento meio submerso na neblina dos sonhos, disse consigo: «Não as há no céu porque estão agora na terra». Entretanto, dissipou-se esta perturbação, e um segundo ruído semelhante ao primeiro acabou de o despertar; olhou e reconheceu que as duas estrelas eram as lanternas dum veículo. Era um tilbury puxado por um cavalo branco e pequeno. O ruído que ouvira era produzido pelas ferraduras do cavalo batendo na calçada. «Que carruagem é esta?» pensou ele. «Quem será, tão cedo?» Neste momento bateram brandamente à porta do quarto. Madelaine estremeceu dos pés à cabeça e gritou com voz terrível: Quem está aí? Sou eu, senhor maire responderam de fora. Madelaine reconheceu a voz da velha porteira. Que deseja? tornou ele. Senhor maire, são quase cinco horas da manhã. Que tenho eu com isso? É que já ali está o cabriolet. Qual cabriolet? O tilbury. Qual tilbury? O senhor maire não mandou vir um tilbury? Não disse ele. O cocheiro diz que vem procurar o senhor maire. Qual cocheiro? <. O do mestre Scaufflaire. Scaufflaire Este nome produziu-lhe um estremecimento, como o que lhe produziria o cair dum raio. Se a velhota o visse naquele momento ficaria espantada. Seguiu-se prolongado silêncio. Madelaine examinava Com ar estúpido a chama da vela, tirando do pavio bocadinhos de cera derretida, e rolando-os entre os dedos A porteira continuava a esperar. Ouvindo tudo tão silencioso, a riscou-se a erguer a voz: Senhor maire, o que hei-de dizer ao cocheiro? Diga-lhe que já desço. _sec+Rom:5_ V Concerto nas rodas Naquela época, o serviço do correio entre Arras e Montreuil-sur-mer, era feito ainda por meio de pequenas mala-postas do tempo do império, que consistiam nuns cabriolets de duas rodas, forrados por dentro de couro branco, suspensas em molas de bomba e só com dois lugares, um para o condutor da mala, outro para o viajante. As rodas eram armadas desses longos cubos ofensivos, que conservam as outras carruagens a distância, e que ainda se vêem nas estradas da Alemanha. Por trás do cabriolet ficava colocada a mala, imensa caixa oblonga, que fazia corpo com ele. A caixa era pintada de negro e o cabriolet de amarelo. (Essas carruagens, com as quais não há hoje nada que se pareça, tinham qualquer coisa de disforme e, quando se avistavam ao longe, rastejando por alguma estrada no extremo horizonte, assemelhavam-se a esses insectos que, creio eu, se chamam térmites (1), os quais com uma cinta de diminutas proporções arrastam a parte posterior do corpo, excessivamente mais grossa. Todavia a velocidade destes veículos era grande. A mala-posta, que partia de Arras todas as noites à uma hora, depois da chegada do correio de Paris, chegava a Montreuil-sur-mer pouco antes das cinco horas da manhã. Naquela noite, a mala-posta que se dirigia para Montreuil-sur-mer, pela estrada de Hesdin, ao dobrar a esquina de uma rua, na ocasião em que ia a entrar na cidade, embaraçou-se num tilbury pequeno, puxado por um cavalo branco, que vinha em sentido inverso, e no qual apenas havia uma única pessoa, um homem embrulhado numa manta. A roda do tilbury recebeu um choque bastante violento; o condutor da mala gritou ao homem que ia dentro, que parasse, mas ele não fez caso e continuou o seu caminho a galope> Irra! Aquele homem vai com uma pressa dos diabos! disse o condutor O homem que levava tamanha pressa, é o que nós ainda há pouco vimos debatendo-se em convulsões dignas por” certo de compaixão. Aonde ia ele? Não o poderia dizer. Porque levava tanta pressa? Não o sabia. Caminhava ao acaso, pelo caminho que via diante de si. Mas para onde? Sem dúvida para Arras; mas ia talvez também a outra parte. Sentia-o por momentos e estremecia. Penetrava na escuridão da noite como num pego Havia alguma coisa que o impelia e que o atraía. O que nele se passava ninguém o poderia dizer, e todos o compreenderão. Qual é o homem que não tem entrado, ao menos uma vez na vida, na escura caverna do inesperado e imprevisto? No fim de tudo não tinha resolvido, decidido, assen- (1) Formiga branca. tado, nem feito coisa alguma. Nenhum dos actos da sua consciência fora definitivo. Estava, mais do que nunca, como no primeiro momento. Que motivo o levava a Arras? Madelaine repetia o que já a si mesmo dissera, alugando o cabriolet de Scaufflaire: que qualquer que fosse o resultado, não havia o mínimo inconveniente em ver com os próprios olhos, em julgar por si mesmo as coisas; que isto era prudente, porque precisava de saber o que ocorria; que nunca lhe seria possível decidir coisa alguma sem ter observado e escutado; que de «longe os outeiros parecem montanhas; que no fim de contas quando tivesse visto o tal Champmathieu, com certeza um miserável sentiria provavelmente a consciência mais aliviada de o deixar ir para as galés em seu lugar; que na verdade ali encontraria o tal Javert, o tal Brevet, o tal Cheneldieu e Cochepaille, ex-forçados que o tinham conhecido, mas que incontestavelmente, o não reconheceriam. Ora, que ideia! Javert estava a cem léguas da verdade: que todas as conjecturas e suposições convergiam sobre Champmathieu, e que coisa nenhuma é tão -irascivelmente teimosa como as conjecturas e suposições; e que, finalmente, não corria o menor perigo. Que, sem dúvida, era um passo bem intrincado da sua vida, mas que havia de sair dele; que no fim de tudo, por pior que o seu destino quisesse ser, tinha-o seguro, dominava-o. Era a este pensamento que ele se agarrava com todas as forças. Mas, afinal, para dizermos tudo; estimaria não ir a Arras. Contudo, ia. Sem deixar de pensar chicoteava o cavalo, o qual trotava com o trote regular e seguro que vence duas léguas e meia por hora. A maneira que o cabriolet avançava, sentia ele em si o que quer que era de reanimador. Ao nascer do dia estava numa campina; a cidade de Montreuil-sur-mer ficava-lhe já muito longe. Olhou para o horizonte que começava a alvorecer e encarou, sem as ver, todas as feias figuras duma aurora de Inverno, que lhe passavam por diante dos olhos. O começo do dia tem os seus espectros como o fim dele. Não os via, mas a seu pesar, e por uma espécie de penetração quase física, os negros vultos das árvores e das colinas juntavam-lhe ao estado violento da alma o que quer que era de taciturno e sinistro. Cada vez que passava por uma casa das que orlam muitas vezes as estradas, dizia consigo: Contudo há ali gente que ainda está dormindo!» O trotar do cavalo, o ranger dos arreios e o rodar do carro, produziam um ruído suave e monótono. Estas coisas são todas encantadoras quando se está alegre; mas quando se está triste são lúgubres. Era já dia claro quando chegou a Hesdin. Parou à porta de uma estalagem, para deixar descansar o cavalo e mandar-lhe dar a ração. O cavalo, como dissera Scaufflaire, era dos da raça pequena do Boulonnais, de cabeça, pescoço e ventre muito grandes, mas de amplo peitoral, anca larga, jarrete delgado e seco e o casco sólido; raça feia mas robusta e sã O excelente animal andara cinco léguas em duas horas e não lhe escorria das ancas uma só gota de suor. Madelaine não se apeara. O moço da cavalariça que trazia a aveia, baixou-se de repente e começou a examinar a roda esquerda. O senhor tem muito que andar? perguntou ele. O viajante respondeu, quase maquinalmente, e sem sair da sua preocupação: Porquê? Vem de muito longe? De cinco léguas distante daqui. Ora esta! Porque se admira? O moço curvou-se novamente, permaneceu por um momento silencioso com os olhos fitos na roda e depois endireitou-se, dizendo: É porque está aqui uma roda que, segundo o senhor diz, rodou cinco léguas, mas que, com toda a certeza, não rodará nem mais um quarto de légua. Madelaine apeou-se. Que me diz? » Digo-lhe que é um milagre que o senhor tenha percorrido cinco léguas, sem que caísse com o seu cavalo para dentro de algum barranco da estrada. Ora veja. A roda estava com efeito muito danificada. O embate da mala-posta deslocara-lhe dois raios e fizera-lhe saltar a porca que no cubo segurava o eixo. ~ Diga-me perguntou ele ao rapaz há aqui algum carpinteiro de carros? Há, sim, senhor. Faz-me favor de o ir chamar? É aqui ao pé. Olá! Ó mestre Bourgaillard! Mestre Bourgaillard, carpinteiro de carros, que estava no limiar da sua porta, foi logo examinar a roda, e fez a careta dum cirurgião ao contemplar uma perna quebrada. Poderá vossemecê concertar esta roda imediatamente? ~ Posso, sim, senhor. E quando poderei continuar a minha jornada? Amanhã. Amanhã! Isso leva um dia inteiro de trabalho. O senhor tem muita pressa? Muita! Não me posso demorar mais duma hora. Isso é que não pode ser. Pagarei o que quiser. É impossível. E se me demorar duas horas? Hoje é impossível. É preciso fazer-lhe dois raios novos e o cubo. Antes de amanhã não poderá partir. Mas o negócio que me obriga a partir, não pode esperar para amanhã. E se em lugar de se concertar a roda, ela fosse substituída por outra? Substituída como? Vossemecê não é carpinteiro de carros? Sou, sim, senhor. Então não tem uma roda que me venda? Deste modo poderei continuar a minha jornada imediatamente. Uma roda de sobresselente? Sim. O que eu não tenho é uma roda feita de propósito para o seu cabriolet. Duas rodas fazem um par: não se igualam assim à toa. Nesse caso venda-me um par de rodas. Mas, senhor, nem todas as rodas servem em todos os eixos. Experimente sempre. É inútil, senhor. Não tenho para vender senão rodas para carroças. Estamos aqui numa terra muito pequena. Tem vossemecê um cabriolet que me queira alugar? O mestre carpinteiro, que logo à primeira vista conhecera que o tilbury era de aluguer, encolheu os ombros e disse: O senhor arranja bem os cabriolets que lhe alugam! Ainda que eu tivesse algum não lho alugava. Pois sim; e para me vender? Não tenho nenhum. O quê! Pois não há ao menos uma carroça qualquer? Bem vê que não sou difícil de contentar. Já lhe disse que isto aqui é uma terra muito pequena. Tenho aí a guardar uma carruagem muito velha, dum burguês da cidade, que só se serve dela uma vez cada mês. Eu alugava-lha de boa vontade; que me importava isso? Mas era preciso que o dono o não visse passar; e depois é uma caleche: seriam precisos dois cavalos. Alugarei cavalos de posta. Aonde é que o senhor vai? A Arras. E quer lá chegar hoje? Por força. com cavalos de posta? Por que não? E não lhe faz diferença chegar a Arras às quatro horas da manhã? Isso de modo nenhum. É que deve lembrar-se de uma coisa: alugando cavalos de posta... O senhor tem passaporte? Tenho. É que o senhor alugando cavalos de posta, não chega a Arras senão amanhã. Isto aqui não é estrada real. As mudas são mal servidas e os cavalos estão nas pastagens. Estamos no tempo das lavouras, todo o gado é pouco e por isso alugam-se cavalos em toda a parte: nem os da posta escapam. O senhor verá. Tem de esperar três ou quatro horas em cada muda; e depois terá de ir a passo, porque tem muito que subir. Sendo assim, irei a cavalo. Hei-de encontrar por aí alguém que me venda um selim. E este cavalo aguenta o selim? É verdade que não me lembrava disso. Não consente selim. Então... Pois não haverá na aldeia quem me alugue um cavalo? Um cavalo para ir a Arras, de uma assentada? Sem parar. Para isso seria preciso um cavalo como não há nenhum em todo este sítio. E depois, como ninguém conhece o senhor, tinha de o comprar. Mas é que não há nem para alugar nem para vender: ainda que o senhor desse quinhentos ou mesmo mil francos, não o encontraria. ~ Como há-de ser então? O que lhe digo, como homem de bem, o melhor é eu concertar a roda e o senhor continuar a sua jornada amanhã. Amanhã é tarde. Diabo! Não há uma mala-posta que vai a Arras? Quando passa ela? Na noite de amanhã. As duas mala-postas fazem todo o serviço de noite, tanto a que vai, como a que vem. Mas então é preciso um dia inteiro para concertar a roda? E há-de ser bem aproveitado. E metendo mais dois operários? Ainda que metesse dez! E ligando-se os raios com uma corda? Os raios podiam amarrar-se, mas o cubo é que não. E depois a camba também está em muito mau estado. Na cidade não há carruagens de aluguer? Não, senhor. E outro carpinteiro de carros não haverá? Nada responderam ao mesmo tempo o mestre carpinteiro e o moço da estalagem, abanando a cabeça. Madelaine sentiu infinita alegria. Era evidente que a Providência se opunha à sua jornada. Fora ela quem lhe quebrara a roda do tilbury obrigando-o a parar no meio do caminho. Contudo não tinha cedido àquela espécie de primeira intimação; acabava de empregar todos os esforços possíveis para continuar a jornada; tinha leal e escrupulosamente esgotado todos os meios; não recuara, não tinha nada de que se arrepender. Se não ia mais longe, não era por falta de esforço! Já não era sua a culpa; não era obra da sua consciência, mas sim da Providência. Respirou, pois. Respirou livremente e com toda a força dos pulmões, pela primeira vez depois da visita de Javert. Parecia-lhe que o pulso de ferro que lhe comprimia o coração havia vinte e quatro horas o largara enfim. Parecia-lhe que Deus era por ele e que acabava de lho patentear. Repetiu consigo que fizera tudo o que estava ao seu alcance, e que então só lhe restava voltar tranquilamente para trás. Se o seu diálogo com o carpinteiro de carros se tivesse passado num quarto da estalagem não teria testemunhas, ninguém o teria ouvido, as coisas teriam ficado assim, e é provável que não tivéssemos de contar nenhum dos acontecimentos que se lhe seguiram; mas o diálogo passou-se na rua. Não há conversação na rua que não atraia um círculo de curiosos: há gente que não perde ocasião de saber o que lhes não diz respeito. Enquanto Madelaine fazia perguntas ao carpinteiro, tinham parado em volta deles algumas pessoas que iam passando. Um rapazito em que ninguém tinha reparado, depois de ter por um instante escutado, saiu do grupo a correr. No momento em que o viajante, depois da deliberação interior que registamos, tomara a resolução de voltar para trás, tornou a aparecer o tal rapazito, acompanhado duma mulher já idosa, que se lhe dirigiu, dizendo: É verdade o que o meu rapaz me disse? O senhor deseja alugar um cabriolet? Esta simples pergunta, feita por uma velha conduzida por uma criança, fê-lo cobrir de suor. Julgou ver a mão que o largara tornar a aparecer na sombra, por detrás dele, pronta a agarrá-lo de novo. É verdade respondeu ele «desejo alugar um cabriolet. E apressou-se em acrescentar: Mas não há por aqui nenhum. Há, sim, senhor respondeu a velha. Onde? perguntou o carpinteiro. Em minha casa respondeu a velha. Madelaine estremeceu. A mão fatal apossara-se dele outra vez, apertando-lhe o coração naquele comprimir doloroso, de que por momentos se sentira livre. A velha tinha, com efeito, debaixo dum alpendre, uma espécie de carro de mato; mas o carpinteiro e o moço, desesperados por verem o viajante escapar-lhes das mãos, intervieram: Isso é uma caranguejola que mete medo e assente em cima do eixo, sem mais mola, nem mais nada; é verdade que os bancos que tem dentro são suspensos com correias, mas entra-lhe a água quando chove, e a ferragem está toda comida de ferrugem. Não é capaz de aguentar mais do que o tilbury; este senhor faz muito mal se acaso se meter nela. Tudo isto era verdade, mas a caranguejola, fosse como fosse, tinha duas rodas e podia ir a Arras. Madelaine pagou o que lhe pediram, deixou o tilbury entregue ao carpinteiro para o concertar e encontrá-lo pronto quando voltasse, mandou atrelar o cavalo branco ao carro que alugara à velha e continuou o caminho que desde pela manhã seguia. No momento em que o carro se moveu, confessou a si mesmo que um momento antes sentira certo prazer em pensar que o não levaria ao seu destino. Examinou esse prazer, de certo modo encolerizado e achou-o absurdo. Porque se havia de alegrar voltando para trás? No fim de contas fazia aquela jornada voluntariamente. Ninguém o obrigara a fazê-la. E decerto, não sucederia senão o que ele quisesse que sucedesse. À saída de Hesdin ouviu uma voz que lhe gritava: Pare! Pare! Madelaine fez parar o carro com um movimento em que havia o que quer que era de febril e convulsivo, que se assemelhava à esperança. Era o rapazito que fora chamar a velha. Eu é que fui arranjar a carroça disse ele. E então? Então o senhor não me deu nada. Ele que a todos dava tão facilmente, achou esta pretensão exorbitante e quase odiosa. Ah, foste tu, velhaco? disse ele. Pois não hás-de ter nada! E fustigando o cavalo tornou a partir a galope. Perdera muito tempo em Hesdin, portanto queria recuperá-lo. O cavalo era vigoroso e puxava por dois; mas estava-se em Fevereiro, tinha chovido, e as estradas achavam-se em péssimo estado. E depois já não tinha o tilbury; o carro era pesado e difícil de mover. Além disso, a maior parte do caminho era sempre em subida. Gastou perto de quatro horas para ir de Hesdin a Saint-Pol. Em Saint-Pol parou na primeira estalagem que encontrou, mandou desaparelhar e levar o cavalo para a cavalariça. Como tinha prometido a Scaufflaire, conservou-se ao pé da manjedoira enquanto o cavalo comeu, sempre com o pensamento em coisas tristes e confusas. A mulher do estalajadeiro entrou na cavalariça. O senhor não quer almoçar? perguntou ela. É verdade disse ele ~- sinto-me até com grande apetite. E seguiu a estalajadeira que tinha uma fisionomia fresca e prazenteira, a qual o conduziu para uma sala situada no rés-do-chão, em que havia algumas mesas cobertas de encerados à falta de toalhas. Sirva-me depressa disse ele preciso de partir imediatamente. Não posso demorar-me. Logo em seguida apareceu uma robusta criada flamenga Trazendo-lhe o talher. Madelaine contemplava a rapariga com um certo sentimento ..de bem-estar. algum ganho inesperado mais palpável do que as notas de Banco do diabo, cujo segredo o cantoneiro teria naturalmente surpreendido até certo ponto. Os mais «encarniçados» eram o mestre-escola e o taberneiro Thenardier, o qual, sendo amigo de toda a gente, não desdenhava a amizade de Boulatruelle. Já esteve nas galés dizia Thenardier e a gente não sabe para que está neste mundo. Uma tarde, o mestre-escola afirmou que se fosse noutro tempo, já a justiça teria indagado o que Boulatruelle ia fazer ao bosque, que o obrigaria a confessar tudo, aplicando-lhe sendo preciso a tortura, e que Boulatruelle não resistiria, por exemplo, à tortura da água. Apliquemos-lhe então a do vinho disse Thenardier. Foi um momento enquanto se pôs o plano em execução e se deu de beber até fartar ao velho cantoneiro. Boulatruelle, porém, bebeu extraordinariamente, mas falou pouco, combinando com admirável artifício e em proporções magistrais a sede de um bebedor de fama com a discrição de um juiz. A força, porém, de voltar à carga e de confrontar e revirar as poucas e obscuras frases que ele deixou escapar, Thenardier e o mestre-escola julgaram compreender o seguinte: Boulatruelle, ao dirigir-se um dia ao amanhecer para o trabalho, ficou decerto maravilhado de ver, para assim dizer escondidos, debaixo de uma moita, num lugar escuso do bosque, uma pá e um alvião; mas, cuidando que talvez fosse a pá e o alvião do tio Six-Fours, aguadeiro, nem de tal coisa se tornou a lembrar. Na tarde, porém, desse mesmo dia, Boulatruelle viu, sem poder ser visto, por se achar encoberto com o tronco de uma árvore gigantesca ,dirigir-se da estrada para o mais cerrado do bosque «um sujeito que não era daqueles sítios, mas que ele conhecia perfeitamente», e cujo nome Boulatruelle obstinadamente se recusara a declarar.’ Este sujeito, que, segundo a tradição de Thenardier, era um companheiro das galés de Boulatruelle, trazia um embrulho, um objecto quadrado parecido com uma boceta grande ou com um caixão pequeno. Boulatruelle, ao ver aquilo, ficou estupefacto, de modo que só passados sete ou oito minutos foi que lhe ocorreu a ideia de seguir «o sujeito». Mas já era demasiado tarde; o sujeito entranhara-se no mais emaranhado da floresta, e como já era noite fechada, Boulatruelle não pôde dar com o lugar para onde ele deitou e tomou então a resolução de percorrer o bosque todo, «pois fazia luar». Daí por duas ou três horas, Boulatruelle viu o sujeito tornar a sair da espessura do bosque, trazendo desta feita não o tal caixãozinho, mas um alvião e uma pá. Boulatruelle deixara-o passar sem tomar logo a resolução de se acercar dele, porque se lembrou que, sendo o outro três vezes mais forte, e achando-se de mais a mais armado de um alvião, daria decerto cabo dele, conhecendo-o e vendo-se conhecido. Tocante efusão de dois antigos camaradas que se tornam a ver! O alvião e a pá foram, porém, um raio de luz para Boulatruelle, que correu ao sítio onde pela manhã vira dois objectos semelhantes escondidos entre o mato e não encontrou nem uma coisa nem outra. Daqui concluiu ele que o tal sujeito que vira entrar para o bosque abrira algures uma cova com o alvião para enterrar o caixão e que depois a tapara com a pá. Ora, o caixão era pequeno de mais para conter um cadáver; logo continha dinheiro, e daí as suas pesquisas. Boulatruelle explorou, sondou, vasculhou, remexeu todos os lugares onde a terra lhe pareceu revolvida de fresco, mas debalde. Por mais que fizesse, não «desencantou» coisa nenhuma, de modo que ninguém em Montfermeil se tornara mais a lembrar de tal. Apenas algumas honradas vizinhas disseram umas para as outras nos seus conciliábulos: «Tenham por certo que o cantoneiro de Gagny não andava com todos aqueles escavadouros se não pressentisse isca; certo é que o diabo sempre apareceu». _sec+Rom:3_ III De como era preciso que a grilheta tivesse passado por alguma operação preparatória para assim se quebrar com uma só martelada Pelos fins de Outubro de 1823, os habitantes de Toulon viram entrar no seu porto, para reparar algumas avarias que lhe causara uma tempestade, a nau Orion, que depois foi empregada em Brest, como vaso de escola naval, mas que então fazia parte da esquadra do Mediterrâneo. A entrada deste navio no porto, apesar de escalavrado com os estragos que lhe havia causado o temporal, foi aparatosa. O pavilhão que trazia hasteado valeu-lhe uma salva regulamentar de onze tiros de peça, aos quais respondeu com outros onze, total de vinte e dois tiros. Tem-se calculado que em salvas, cumprimentos reais e militares, troca de estrondosas cortesias, sinais de etiqueta, formalidades de portos e cidadelas salvas ao nascer e pôr do sol, ao abrir e fechar dos portos, dadas quotidianamente por todas as fortalezas e navios de guerra, etc., etc., dispara o mundo civilizado todas as vinte e quatro horas, cento e cinquenta mil tiros de peças inúteis na terra toda. Ora, a seis francos cada tiro, perfaz tudo novecentos mil francos (1) por dia, ou trezentos milhões por ano, que se vão em fumo. Isto é apenas um pormenor. Neste meio tempo, os pobres morrem de fome. O ano de 1823 foi aquele a que a Restauração chamou a época da guerra de Espanha. Esta guerra encerrava num só muitos acontecimentos e grande força de singularidades. Uma importante questão de família concernente à casa de Bourbon; o socorro e protecção que o ramo de França dispensava ao ramo de Espanha, isto é, o esforço que aquele fazia para provar os seus direitos de primogenitura; um aparente retrocesso às nossas tradições nacionais, de envolta com a sujeição e a escravidão aos gabinetes do norte; a compreensão que o duque de Angoulême, apelidado pelas gazetas liberais herói de Andujar, exercia numa atitude triunfal, algum tanto contrariada pelo seu gesto pacífico, sobre o velho terrorismo, mais que real, do santo ofício, em luta com o terrorismo quimérico dos liberais; a ressurreição dos sem calções, com grande horror das matronas nobres, debaixo do nome de descamisados; os obstáculos que o monarquismo fazia ao progresso alcunhado de anarquia; a repentina interrupção das teorias de 89 na sapa; um basta intimado pela Europa à ideia francesa, realizando a volta ao mundo; ao lado do filho de França generalíssimo, o príncipe de Carignan, depois Carlos Alberto, envolvido como voluntário nesta cruzada dos reis contra os povos, com as suas dragonas de granadeiro de lã vermelha; nova entrada em campanha de soldados do império, porém após oito anos de repouso, envelhecidos, tristes e com o laço branco ao peito; a bandeira tricolor agitada no estrangeiro por um heróico punhado de franceses, como trinta anos antes o fora a bandeira branca em Coblentz; os frades à mistura com os soldados dos nossos bata- (1) Ao câmbio antigo. lhões; o espírito de liberdade e de novidade feito entrar na razão pelas baionetas; os princípios hasteados a tiros de peça; a França desfazendo pelas armas o que tinha feito pelo espírito; por último a venda dos chefes inimigos, a hesitação dos soldados, as cidades cercadas por milhões; a ausência de perigos militares, e, todavia, a possibilidade de diferentes explosões, como numa mina invadida de surpresa; o pouco sangue derramado, a pouca honra conquistada; a vergonha para alguns, para nenhum a glória eis no que consistiu esta guerra feita por príncipes que descendiam de Luís XVI e comandada por generais que tinham servido Napoleão, luta que teve a triste sorte de não fazer recordar a grande guerra nem a grande política. Alguns feitos de armas, porém, foram importantes; entre outros, a tomada do Trocadero foi uma bela acção militar; mas, em suma, repetimos, as trombetas desta guerra produzem um som fanhoso, o todo foi suspeito e a história aprova a França na dificuldade com que aceita este falso triunfo. Pareceu coisa evidente que alguns oficiais espanhóis encarregados da resistência cediam com demasiada facilidade, da vitória desprendeu-se a ideia de corrupção, afigurou-se a muitos que o que fora ganho mais haviam sido os generais do que as batalhas e o soldado vencedor recolheu-se humilhado. Guerra que diminuía de efeito, porque nas dobras da bandeira pareciam ler-se as palavras Banco de França em caracteres distintos. Soldados houve da guerra de 1808 sobre quem, com estampido assustador, desabaram as muralhas de Saragoça, que em 1823 franziam o sobrolho ao ver a facilidade com que se lhes abriam as cidadelas e que tinham saudades de Palafox. É o génio da França: gostar ainda mais de ter na sua frente Rostopchine do que Ballesteros. Sob um ponto de vista ainda mais grave, sobre o qual convém também insistir, esta guerra, que dava ansa ao enfraquecimento do espírito militar em França, causava a indignação do espírito democrático. Era uma tentativa de servidão. O alvo a que nesta campanha tendiam os esforços do soldado francês, filho da democracia, era a conquista de um jugo para outrem. Disforme contra-senso! A França é feita para despertar a alma dos povos, não para a sufocar. Desde 1792 para cá, todas as revoluções da Europa são a revolução francesa; é de França que irradia a liberdade para todos os outros povos. É um facto solar este. Cego quem o não vê! Assim o disse Bonaparte. A guerra de 1823 era, pois, juntamente um atentado contra a generosa nação espanhola e um atentado contra a revolução francesa. Quem cometia essa via de facto monstruosa era a França, mas à força, que à força é quanto os exércitos praticam, não tendo a liberdade por alvo. Indica-o a frase obediência passiva. Um exército é um estranho primor de combinação, em que a força resulta de uma grande soma de impotências. Deste modo explica-se a guerra feita pela humanidade contra a humanidade, contra a vontade da humanidade. Pelo que respeita aos Bourbons, foi-lhes fatal a guerra de 1823, conquanto a tivessem tomado por um sucesso. É que não viram o perigo que resulta de querer matar uma ideia com uma senha, iludindo-se a tal ponto na sua simplicidade, que introduziram como elemento de força no seu estabelecimento a acção imensamente debilitante de um crime. De modo que a sua política tornou-se insidiosa, deitaram à terra em 1823, o gérmen de 1830 e a campanha de Espanha serviu de argumento para as violências e azares do direito divino. Como a França restabelecera el-rei neto em Espanha, entenderam, que também podia muito bem restabelecer dentro de si o rei absoluto, e desse modo vieram a cair no terrível erro de tomar a obediência do soldado pelo consentimento da nação. Esta confiança é que deita os tronos a perder. Não convém adormecer nem à sombra da mancenilheira, nem a sombra de um exército. Voltemos, porém, à Orion. Enquanto duravam as operações do exército comandado pelo príncipe generalíssimo, cruzava no Mediterrâneo uma esquadra, e, como atrás dissemos, a Orion pertencia a essa esquadra e dera entrada no porto de Toulon obrigada pelas avarias que lhe causara uma tempestade no mar. A presença de um navio de guerra num porto tem certo atractivo que chama e prende as atenções da multidão. É que há nisto certa grandeza, e a multidão ama tudo o que é grande. Uma nau de linha é um dos encontros mais magníficos entre o génio do homem e o imenso poder da natureza. Uma nau de linha é composta simultaneamente das coisas mais pesadas e mais leves que há, porque ao mesmo tempo tem de lidar com as três formas da substância, sólido, líquido e fluído, e contra todas três lutar. Tem onze garras de ferro para cravar no granito que forra o fundo do mar, e mais asas e antenas que os insectos voláteis para subirem às nuvens a recolher o hálito dos ventos. Cento e vinte canhões dão livre saída à sua respiração estrondosa, como outras tantas enormes trombetas, e respondem altivamente ao raio. Forceja o Oceano pela desvairar na imensidade das suas vagas, todas entre si terrivelmente semelhantes, porém o navio tem uma alma, a bússola, e a bússola aconselha-o apontando-lhe sempre o norte. Nas noites escuras, quando a vista do anil do céu é vedada aos olhos dos peregrinos do mar, os faróis que acende suprem as estrelas, que encobrem a serração. Assim, pois, contra o vento tem ela as cordas e os panos, contra a água a madeira, contra a rocha o ferro, o cobre, o chumbo, contra a sombra a luz, contra a imensidade uma agulha. Quem quiser formar ideia de todas as proporções gigantescas, cujo conjunto constitui a nau de linha, não tem mais do que entrar nos estaleiros cobertos, de seis andares, dos portos de Brest ou Toulon, onde os navios em construção se encontram, para assim dizer, como que debaixo de uma campânula. Aquela trave colossal é uma verga; aquela grossa coluna de madeira, que jaz no chão, é o mastro grande, o qual desde a ponta da raiz até ao cimo, que se perde nas nuvens, tem sessenta toezas de comprimento e três pés de diâmetro na base, O mastro grande inglês eleva-se a duzentos e dezassete pés acima da linha de flutuação. A marinha dos nossos antepassados empregava cabos, nós empregamos correntes. O simples montão de correntes, que traz em si uma nau de cem peças, tem quatro pés de altura, vinte de largura e oito de profundidade. E para construir um navio assim que quantidade de madeira não é precisa? Três mil esteres ou metros cúbicos. É uma floresta flutuante. E note-se que só se trata aqui da embarcação militar de há quarenta anos, do simples navio de vela; o vapor, então na sua infância, acrescentou depois novos milagres ao prodígio chamado navio de guerra. Presentemente, o navio misto de hélice, por exemplo, é uma máquina maravilhosa, impelida por um velame que tem três mil metros quadrados de superfície e por uma caldeira da força de dois mil e quinhentos cavalos. Sem falar dessas novas maravilhas, o antigo navio de Cristóvão Colombo e de Ruyter é uma das grandes obras-primas do homem. Inesgotável em força, como o infinito em sopros, aloja o vento nas suas velas, flutua e reina, sem se extraviar da esteira que segue, na imensa difusão das vagas. Chega, porém, uma hora em que o sopro da tempestade parte, como uma haste de palha, aquela trave de sessenta pés de comprimento; em que o vento rijo do furacão verga como um vime aquele mastro de quatrocentos pés de altura; em que aquela âncora que pesa trezentas arrobas se torce nas goelas da vaga, como o anzol do pescador nas guelras de um peixe, em que aqueles canhões monstruosos soltam rugidos lamentosos e inúteis, que o furacão arrebata pela amplidão do espaço e por entre a serração da procela; em que, finalmente, todo aquele poder e majestade se abisma e se sente à mercê de um poder superior, de uma majestade mais alta. Todas as vezes que uma força imensa se expande para chegar a uma imensa fraqueza, o homem involuntariamente é levado a meditar. Daqui provém, portanto, a multidão de curiosos que pejam os cais de qualquer porto, e que, sem bem saberem porquê, rodeiam essas maravilhosas máquinas de guerra e de navegação. Todos os dias, pois, desde pela manhã até à noite, estavam os cais, parapeitos e molhes do porto de Toulon sempre cobertos de ociosos e basbaques, como em Paris se diz, que vinham ali e se demoravam só para ver a Orion. A Orion era um navio doente, cujos achaques havia muito duravam. Nas suas viagens anteriores haviam-se-lhe amontoado na quilha e adjacências tão espessa camada de conchas e lixo, que a sua velocidade ficava reduzida a metade, o que fez com que no ano antecedente o tivessem posto em seco para lhe rasparem o lixo e as conchas, depois do que o lançaram de novo ao mar. Esta operação, porém, alterou-lhe o cavilhame da quilha, de modo que na altura das Baleares, as juntas abriram, e como então as embarcações não eram forradas de folha de ferro, o navio fez água. Além disto, sobreveio um temporal equinocial que lhe quebrou o talha-mar pelo lado de bombordo, metendo-lhe dentro uma canhoneira e danificando-lhe o joanete de proa e a cevadeira. Em virtude, pois, destas avarias, a Orion recolheu-se a Toulon, onde estava fundeado junto do Arsenal, sofrendo os concertos de que carecia e aprestando-se para voltar de novo ao tráfego da navegação. O casco pelo lado de estibordo não sofrera dano; porém, segundo o costume, estavam despregadas algumas cintas do costado aqui e ali para deixar penetrar o ar no cavername. Um dia, pela manhã, a multidão que ali se aglomerava a contemplá-lo foi testemunha de um desastre. Estando a tripulação a tratar de ferrar o velame, o gajeiro, que se ocupava a cozer a vela da mezena de estibordo, para a riçar, perdeu o equilíbrio, ameaçando despenhar-se da grande altura a que estava. Ao vê-lo cambalear pela falta de apoio, a multidão que se aglomerava no cais do Arsenal soltou unânime um grito de pavor. A cabeça pesou-lhe mais que o resto do corpo e o homem deu uma volta em roda da verga com as mãos estendidas para o abismo; no ímpeto da queda, porém, em que se ia a despenhar, lançou uma das mãos aos ovens, em seguida a outra e ficou dependurado no ar, com o mar por baixo a uma profundidade que causava vertigens. O abalo da queda, porém, imprimira aos ovens um violento movimento de vaivém, de modo que o homem ficou baloiçando na ponta daquela corda como a pedra de uma funda. Ir em socorro dele era correr um risco terrível. Nenhum dos marinheiros, todos pescadores da costa, havia pouco recrutados para o serviço da armada, a tal ousava aventurar-se. Entretanto, o infeliz gajeiro ia perdendo as forças, pois bem que se lhe não visse a angústia do rosto, conhecia-se-lhe em todos os membros que eles iam a cansar-se-lhe. Os braços repuxavam-se-lhe em sacudidelas horríveis. A cada esforço que ele fazia para tentar subir à altura do apoio que lhe faltara, aumentavam as oscilações do cabo a que se agarrara na queda; mas, apesar de serem dolorosos os impulsos que o balanço da corda lhe causavam, não gritava com medo de perder forças. A cada instante se esperava o momento em que ele largaria a corda e todas as cabeças se voltavam por vezes para o lado, a fim de o não verem despenhar-se. Há ocasiões em que a ponta de uma corda, uma vara, o esgalho de uma árvore são a própria vida, e é uma coisa horrorosa ver despegar-se e cair delas um ser animado, como se fora um fruto maduro. De súbito, os olhos de toda aquela multidão ansiosa avistaram um homem trepando pelo cordame com a agilidade de um símio. Esse homem era um forçado, pois estava vestido de vermelho, e um forçado por toda a vida, porque trazia um barrete verde. Ao chegar ao cesto da gávea, uma rajada de vento arrebatou-lhe o barrete, deixando a descoberto uma cabeça toda branca; aquele homem pois, não era um rapaz. Efectivamente, apenas o homem ficara desastrosamente dependurado, um forçado, que fazia parte de uma chusma empregada a bordo da Orion, correu à presença do oficial de quarto, no meio da perturbação e hesitação da equipagem, e enquanto todos os marinheiros tremiam e recuavam, ele pediu licença para ir arriscar a sua vida pela salvação do gajeiro. A um sinal afirmativo do oficial, quebrara com uma martelada o gancho da grilheta que lhe prendia o pé, e depois de ter pegado numa corda, atirou-se aos ovens. Ninguém naquela ocasião fez reparo na facilidade com que ele quebrou a cadeia. Só mais tarde é que tal circunstância foi lembrada. O forçado chegou à verga num abrir e fechar de olhos e parou alguns segundos como que a medi-la com a vista. Estes segundos, porém, durante os quais o vento baloiçava o gajeiro na extremidade de uma corda, pareceram séculos aos que estavam a ver. Por fim, o forçado elevou os olhos ao céu e deu um passo para diante. A multidão respirou. Viram-no ir a correr pela verga adiante. Chegado à extremidade dela, atou uma ponta da corda que trouxera, deitou abaixo a outra e principiou a descer com as mãos ao longo da corda que deixara pendente. Tornou-se então inexprimível a angústia que oprimiu o peito dos espectadores; em lugar de um homem suspenso sobre o abismo eram agora dois. Dir-se-ia que aquele homem era uma aranha aprestando-se para se apossar de uma mosca, com a diferença, porém, de que a aranha ali levava a vida e não a morte. Dez mil olhares estavam fixos naquele grupo. Nem um grito, nem uma palavra só, o mesmo tremor enrugava a fronte de todos. No meio daquela multidão nem uma só boca deixava de comprimir a respiração, como que temendo juntar o mais ligeiro hálito ao vento que sacudia os dois desgraçados. Neste meio tempo, o forçado tinha conseguido chegar ao pé do marinheiro em perigo. Era tempo: um minuto mais e o homem, exausto de forças e desesperado de socorro, deixar-se-ia cair no abismo. O forçado amarrou-o solidamente com a corda, à qual se segurava com uma das mãos enquanto com a outra trabalhava, e a multidão viu-o enfim tornar a guindar-se para a verga e içar o marinheiro para aquele lugar, no qual o susteve um instante para o deixar recuperar forças, e, agarrando-o em seguida nos braços, trazê-lo neles até ao cepo, caminhando pela verga adiante e dali até ao cesto da gávea, onde o deixou nas mãos dos companheiros. Neste momento a multidão rompeu em aplausos; dos olhos de alguns velhos guardas das galés rebentaram involuntárias as lágrimas, no cais, as mulheres abraçaram-se e todas aquelas vozes gritaram com uma espécie de enternecido furor: «Perdão para esse homem!» Neste meio tempo preparava-se ele para descer imediatamente a fim de tomar o seu lugar entre os outros forçados da chusma. Para chegar mais depressa deixou-se escorregar pelo cordame e principiou a correr por uma verga inferior adiante. Todos o seguiam com os olhos. Houve um momento em que o susto foi geral; ou porque lhe escasseassem de súbito as forças ou porque lhe desse alguma vertigem, afigurou-se aos espectadores vê-lo hesitar e cambalear. De repente, a multidão soltou um grito pavoroso; o forçado acabava de cair ao mar. A queda era perigosa. Junto à Orion estava fundeada a fragata Algesiras, e o pobre forçado tinha caído entre os dois navios. Era portanto de recear que ele, no ímpeto do mergulho, viesse sair exactamente debaixo da quilha de um ou outro. Quatro homens se arrojaram a toda a pressa ao mar num barco, animados pela multidão, em cujas almas se abrigava de novo a ansiedade. O homem, porém, não voltara à superfície da água, desaparecendo no mar sem deixar uma esteira de espuma, sem levantar um borbotão de água, como se tivera caído numa pipa de azeite. Sondaram, mergulharam, mas foi tudo baldado. Andou-se à procura até à noite, mas nem o cadáver apareceu. No dia seguinte, 18 de Novembro de 1823, o jornal de Toulon publicava as seguintes linhas: Ontem, um forçado que fazia parte da chusma da Orion, ao voltar de socorrer um marinheiro, caiu ao mar e afogou-se. Não foi possível encontrar-se o cadáver. Presume-Se que tenha ficado preso na estacaria da linqueta do Arsenal. O infeliz cuja desastrada morte noticiamos, estava inscrito na prisão com o n.º 9.430 e chamava-se João Valjean. _sec+O:liv=3_ LIVRO TERCEIRO CUMPRIMENTO DA PROMESSA FEITA À MORIBUNDA A falta de água em Montfermeil Montfermeil, que fica situado entre Livry e Chelles, na aba meridional da elevada colina que separa o Ourcq do Marne, é hoje uma aldeia importante, ornada todo o ano de casas de campo agradavelmente caiadas e aos domingos de prazenteiros burgueses. Em 1823, porém, não havia em Montfermeil nem tantas casas alvejantes, nem tantos burgueses satisfeitos; era apenas uma aldeia perdida nos bosques. Encontravam-se aqui e ali, é verdade, algumas casas de recreio do século passado, reconhecíveis pelo seu ar de grandeza, pelas suas varandas de ferro torneado e por essas janelas rasgadas, cujos vidros reflectem sobre as brancas portadas interiores todos os cambiantes da cor verde. Montfermeil, porém, nem por isso deixava de ser uma aldeia. É que nem os mercadores de pano retirados do negócio, nem os correctores aposentados a tinham descoberto ainda. Era um lugar pacífico e bonito, que não ficava à beira de estrada nenhuma, e onde se vivia nesse abundante e fácil aconchego da vida do campo. Somente havia a notar a grande escassez de água por causa da elevação da colina, pelo que era necessário ir buscá-la a considerável distância. Os que moravam no fim da aldeia, para a parte de Gagny, abasteciam-se dela nos magníficos lagos que por ali há pelos bosques; os da outra extremidade situada em volta da igreja, para o lado de Chelles, não tinham água potável senão numa fonte que ficava a meia encosta junto à estrada de Chelles, quase a um quarto de hora distante de Montfermeil. Como, pois, para todos se tornava difícil e incómodo o abastecimento de água, as casas grandes, a aristocracia, e no número delas se contava a taberna de Thenardier, pagavam um liard por cada balde de água a um pobre homem que fazia disto o seu modo de vida e que com este negócio da água em Montfermeil ganhava perto de oito soldos por dia; porém, como este homem não trabalhava senão até às sete horas da tarde, de Verão, e de Inverno até às cinco, chegada a noite, fechadas as portas da rua, quem não tinha em casa água para beber ia buscá-la por seu pé ou ficava sem ela. Era esta a maior causa de terror para a pobre criancinha de quem o leitor decerto se não esqueceu: a pequenita Cosette. A pobre criança tornava-se útil por duas maneiras aos Thenardier, os quais recebiam o dinheiro da mãe e aproveitavam o trabalho da filha. Assim, quando a mãe cessou completamente de lhes pagar, pelos motivos que se leram nos capítulos precedentes, nem por isso os Thenardier deixaram de continuar a ter Cosette consigo, visto ela lhes fazer as vezes de criada, e como tal era ela quem ia buscar a água quando se tornava necessário. A pobre criança, porém, a quem em extremo assustava a ideia de ter de ir à fonte de noite, tinha sempre todo o cuidado que não faltasse nunca a água em casa. No ano de 1823, o Natal em Montfermeil foi sobremodo brilhante. Fora temperado o princípio do Inverno; ainda não caía geada nem neve. Alguns pelotiqueiros vindos de Paris obtiveram licença do maire para levantar as barracas na rua principal da aldeia, e um bando de vendedores ambulantes, conseguida igual tolerância, construíram também as suas tendas no largo da igreja, até ao beco do Boulanger, onde, como de certo estão lembrados, fica a taberna dos Thenardier. Isto fazia com que as tabernas e as estalagens estivessem cheias, e dava àquela pequena aldeia, habitualmente tranquila, uma existência ruidosa e alegre. Devemos até dizer, para sermos historiador fiel, que entre as curiosidades expostas no largo da igreja figurava um barracão de animais, no qual uns abjectos e maltrapilhos palhaços, vindos não se sabia de onde, mostravam em 1823 aos aldeões de Montfermeil um desses abutres terríveis do Brasil que o nosso Museu Real só possui desde 1845 para cá, e cujos olhos se parecem com um laço tricolor. Os naturalistas chamam a esta ave, creio eu, Caracará Polyborus, e pertence à ordem dos apicidos e à família dos abutres. Alguns velhos soldados que viviam na aldeia retirados do serviço iam ver devotamente o animal, cujo laço tricolor os pelotiqueiros inculcavam como um fenómeno único operado de propósito pela bondade de Deus para a sua colecção de animais raros. Na noite do próprio dia de Natal, achavam-se sentados a uma mesa iluminada por quatro ou cinco luzes no andar térreo da taberna de Thenardier grande número de homens, dos quais uns eram vendilhões, outros carreiros. Este andar térreo parecia-se com o andar térreo de todas as tabernas; mesas, canjirões de estanho, garrafas, bebedores, fumadores, pouca luz e muito barulho. Todavia, a data do ano de 1823 era indicada pelos dois objectos então em moda entre a classe burguesa e que estavam em cima de uma mesa: um caleidoscópio e um candeeiro de folha ondeada. A mulher de Thenardier vigiava pela preparação da ceia, que estava cozinhando a uma fogueira; o estalajadeiro bebia com os fregueses e falava de política. Além das conversas políticas, que tinham por objectos principais a guerra de Espanha e o duque de Angoulême, ouviam-se no meio daquele alarido uma série de parêntesis todos locais como estes: Para as bandas de Nanterre e Suresne houve muito vinho este ano. Quem contava ter dez pipas, teve doze e assim em proporção. Era uma enchente em todos os lagares. Ora adeus! Mas a uva não devia ainda estar madura? Naqueles sítios não precisa vindimar-se madura; o vinho chega sempre à conta com a Primavera. É tudo vinho fraco. Ainda mais que os daqui! É preciso fazer a vindima em verde, se se querem remediar esses males. Ou então era um moleiro que exclamava: Nós somos por acaso responsáveis pelo que está nos sacos? Achamos neles, misturados com o trigo, grande quantidade de grãos, que nós não podemos divertir-nos a separar e que não há remédio senão deixar passar pela mó; é joio, alfarra, ervilhaca, linhaça, rabos de raposa e outras pestes ainda, sem falar na pedra, que vem sempre em certos trigos, principalmente nos bretões. Eu cá desejo tanto moer trigo bretão como os serradores serrar um madeiro em que haja pregos. Façam ideia do mau resultado que tudo isto dá. Depois queixam-se da farinha, como se a culpa fosse nossa. Sentado a uma mesa, situada no vão de uma janela, um ceifeiro dizia a um lavrador que tratava com ele do ajuste de certo trabalho no campo que se devia executar na Primavera: Olhe, senhor, o estar a erva molhada não lhe faz mal nenhum, antes é melhor de segar. O orvalho é-lhe bom. Mas cá para o nosso caso... eu vou dizer-lhe uma coisa; sim, a erva que diz está ainda muito tenra e não é boa de cortar. Como está muito mole, embaraça-se a foucínha nela e não se faz coisa com jeito. Cosette estava no seu canto do costume; sentada na travessa da banca da cozinha, ao pé da lareira, maltrapilha, de tamancos nos pés e trabalhando numas meias de lã para as filhas do estalajadeiro, ao clarão projectado pela fogueira que ardia no lar. Debaixo das cadeiras brincava e pulava um gatinho novo, e na sala próxima ouviam-se as frescas vozes de duas crianças tagarelando e rindo: eram Eponine e Azelma. A um dos lados do lar viam-se umas disciplinas penduradas num prego. De espaço a espaço, no meio do alarido de vozes e de ruidosa algazarra que levantavam os joviais convivas da taberna, ouviam-se os gritos de uma criancinha que estava algures dentro de casa. Era um menino que a mulher do estalajadeiro havia dado à luz num dos; Invernos antecedentes «sem saber como, dizia ela; efeitos do frio», e que pouco mais contava do que três anos. Fora a mãe que o amamentara, mas nem por isso lhe consagrava demasiado afecto. Quando o pequerrucho, à força de gritar, se tornava importuno demais, o marido dizia-lhe: Olha o teu filho que está a chiar, vai ver o que ele quer. Ora! respondia a mãe. O rapaz já me aborrece. E a pobre criança continuava a gritar nas trevas, abandonada e sozinha, sem que à mãe desse grande cuidado ir indagar a causa dos seus lamentosos choros. _sec+Rom:2_ II Dois retratos completos Ainda não se viu senão de perfil os estalajadeiros de Montfermeil, que nesta história figuram debaixo do nome de Thenardier. Chegada é, porém, a ocasião de circunvagar em roda daquele par para o observar por todas as faces. Thenardier completara, havia pouco, cinquenta anos de existência; a consorte estava a tocar os quarenta, que são para a mulher o mesmo que os cinquenta para o homem; de modo que entre a mulher e o marido havia equilíbrio de idades. A Thenardier, alta, loura, vermelha, encorpada, fornida de carnes, quadrada, enorme e ágil, pertencia, como já dissemos, a essa raça de colossos selvagens que andam em exposição pelas feiras, sustentando pedras nos cabelos. Era ela quem tudo fazia em casa, que arrumava os quartos, que fazia as camas, a barrela, a comida, a chuva, o bom tempo, o diabo. A sua única criada era Cosette; um rato servindo um elefante. Tudo tremia ao som da sua áspera voz, vidraças, trastes e pessoas. A sua cara larga, crivada de sardas, apresentava o aspecto de uma escumadeira. Para que a coisa ficasse completa, tinha barba também. Era o ideal do mais alentado regatão vestido de mulher, soltando pragas como ninguém, gabando-se de quebrar uma noz com um murro. Se não fossem os romances que lera e que às vezes faziam reaparecer a mulher-dengue por baixo da mulher-papão, nunca ninguém se lembraria de dizer dela: «É uma mulher». A Thenardier era como que o produto do enxerto de uma donzela numa peixeira. Ao ouvi-la falar, dir-se-ia: «É um gendarme»; ao vê-la beber, diriam: «É um carreteiro»; ao presenciar finalmente o modo como ela tratava Cosette exclamariam: «É o carrasco». Quando dormia, saía-lhe da boca um dente. O marido era um homem baixo, magro, pálido, anguloso, ossudo, fraco, com aspecto de doente, mas gozando de uma saúde de ferro. A sua velhacaria principiava por isto. Era-lhe habitual o sorriso nos lábios e tratava com polidez quase toda a gente, mesmo o mendigo a quem recusava uma esmola. Tinha olhar de fuinha e gesto de literato. Parecia-se muito com os retratos do abade Delile. O seu maior gosto consistia em beber com os carreteiros, e nunca ninguém fora capaz de o embebedar. Além disto fumava num grande cachimbo, trajava uma blusa e por baixo da blusa uma velha casaca preta. Thenardier tinha pretensões a literato e materialista, costumando pronunciar frequentes vezes certos nomes para apoiar o que dizia, como Voltaire, Raynal, Parny, e, extravagante coisa, Santo Agostinho. Afirmava ele ter um «sistema». Quanto ao resto, velhaco a não poder mais. Há destas combinações no mundo. Devem lembrar-se de que pretendia ter sido militar; contava com certo orgulho que em Waterloo, sendo sargento de um regimento, 6.º ou 9.º de infantaria ligeira, tinha sozinho contra um esquadrão de hussardos da Morte, coberto com o seu corpo, e salvo através da metralha «um general gravemente ferido». Era daqui que lhe proviera, para a porta, a flamante tabuleta, e para a sua estalagem, em todo aquele sítio, o nome de «taberna do sargento de Waterloo». Era liberal, clássico e bonapartista. Subscrevera para o campo de Asilo; e dizia-se na aldeia que estudara para padre. Quanto a nós, julgamos que tinha simplesmente estudado na Holanda para estalajadeiro. Este tratante de ordem compósita, era, segundo todas as probabilidades, um flamengo de Lille em Flandres, francês em Paris, belga em Bruxelas, comandante a cavalo em duas fronteiras. A sua proeza em Waterloo já nós conhecemos; como se vê exagerava-a um tanto. O fluxo e refluxo, a aventura, o intricado, eram os elementos da sua existência; da consciência rasgada resulta a vida descosida; e, como era verosímil, na tempestuosa época de 18 de Junho de 1815, Thenardier pertencia à variedade de vivandeiros ratoneiros de que falámos, que percorriam a estrada, vendendo a estes, roubando àqueles, e que rodavam com toda a família, mulher e crianças, e em qualquer carroça desconjuntada, atrás da tropa em marcha, e com o instinto de se chegarem sempre para o exército vitorioso. Terminada esta campanha e tendo como ele dizia, cumquibus, fora estabelecer-se em Montfermeil. Este cumquibus, composto de bolsas e de relógios, de anéis de oiro e de cruzes de prata, colhidos no tempo da ceifa nas leiras semeadas de cadáveres, não montava a um grande total e não acompanhara até muito longe o vivandeiro transformado em taberneiro. Thenardier tinha nos gestos qualquer coisa de rectilíneo, que com uma praga recordava a caserna, e quando se benzia, o seminário. Falava bem e deixava-se passar por erudito. Não obstante, o mestre-escola tinha-lhe notado algumas silabadas. Escrevia a conta dos seus hóspedes com certa superioridade, mas os olhos exercitados encontravam-lhe muitas vezes erros de ortografia. Thenardier era um velhaco, guloso e mandrião, mas hábil. Não desprezava as criadas, o que fazia com que sua mulher as não tivesse. A gigante era ciosa; parecia-lhe que aquele homenzinho magro e amarelo devia ser objecto de cobiça universal. Thenardier principalmente homem de astúcia e equilíbrio, era um velhaco de género temperado. Esta espécie é a pior de todas: baseia-se na hipocrisia. Isto não quer dizer que Thenardier não fosse susceptível de se encolerizar, chegada a ocasião própria, tanto como sua mulher; mas essas ocasiões eram muito raras; em tais momentos, porém, como ele odiava todo o género humano, como tinha em si profunda fornada de ódio, como era dos que se vingam perpetuamente, que acusam quanto lhes passa pela frente, tudo o que se sentem cair-lhes em cima, e que estão sempre prontos a lançar ao primeiro que lhes aparece, como legítima desforra, a totalidade das decepções, das bancarrotas e das calamidades da sua vida; como todo este fermento se lhe levantava no íntimo, e por assim dizer lhe fervia na boca e nos olhos, tornava-se medonho. Desgraçado daquele que então lhe caía nas mãos. Alem de todas estas qualidades, era Thenardier atento e penetrado, silencioso ou falador, segundo a ocasião, e sempre com alta inteligência. Tinha o que quer que era do olhar dos marinheiros, habituados a aplicar os olhos aos óculos de alcance. Thenardier era um homem de estado. Todo o recém-chegado que entrava na baiuca dizia, vendo a estalajadeira: Eis ali o dono da casa. Era um erro, nem mesmo era a dona. Dono e dona era o marido: a mulher executava o que ele concebia. O marido dirigia tudo por uma espécie de acção magnética invisível e contínua. Bastava-lhe uma palavra, muitas vezes um gesto; o mastodonte obedecia. Thenardier era para sua mulher, sem que ela desse por isso uma espécie de ente particular e soberano. A Thenardier tinha as virtudes do seu modo de ser; nunca divergia, sobre qualquer pormenor, da opinião de Thenardier, hipótese completamente inadmissível; e nunca contradizia publicamente o marido sobre o que quer que fosse. Nunca teria cometido em presença de estranhos, a falta cometida muitas vezes pelas mulheres, e a que se chama em linguagem parlamentar: descobrir a coroa. Ainda que o seu inalterável acordo não tivesse nunca em resultado senão o mal, havia contemplação na submissão da Thenardier a seu marido. Aquela montanha de ruído e carne movia-se sob o pequeno dedo do frágil déspota. Era isto, encarado pelo seu lado anão e grotesco, uma coisa grande e universal: a adoração do espírito pela matéria; porque certas fealdades têm a sua razão de ser nas próprias profundezas da beleza eterna. Em Thenardier havia o que quer que era de desconhecido, donde provinha o império absoluto sobre sua mulher, a quem, em certos momentos, se afigurava uma luz, noutros sentia-o como uma garra. Esta mulher era uma criatura medonha, que não amava senão os filhos e que não temia senão o marido. Era mãe por ser mamífera, Mas ainda assim, a sua maternidade concentrava-se nas filhas; e, como se verá, não se estendia até aos rapazes. O marido, esse só pensava em enriquecer. Contudo, não o conseguia. Faltava àquele grande talento um teatro condigno. Thenardier em Montfermeil perdia tudo, se a perda é possível em zero; na Suíça ou nos Pirinéus, aquele pobretão tornar-se-ia milionário. Mas o estalajadeiro tem forçosamente de pastar no sítio em que a sorte o prende. É necessário entender-se que a palavra estalajadeiro é aqui empregada num sentido restrito e que não se estende a uma classe inteira. Neste mesmo ano de 1823, achava-se Thenardier endividado em perto de mil e quinhentos francos, e com credores inexoráveis, o que lhe causava grande inquietação. Qualquer que fosse para com ele a injustiça teimosa do destino, Thenardier era um dos homens que compreendiam do modo mais profundo e da maneira mais moderna, uma coisa que é virtude entre os povos bárbaros e mercadoria entre os civilizados: a hospitalidade. Quanto ao mais, admirável caçador nas matas defesas, citado pela infalível pontaria e possuidor de um certo riso frio e pacífico, que era muito particularmente perigoso. As suas teorias de estalajadeiro brotavam dele, por vezes, como relâmpagos. Tinha aforismos profissionais que sem cessar inseria no espírito de sua mulher. «O primeiro dever do estalajadeiro, lhe dizia ele um dia violentamente e em voz baixa, é vender ao primeiro que aparece, má comida, descanso, luz, fogo, lençóis sujos, pulgas e sorrisos; de fazer parar os transeuntes, de esvaziar as bolsas magras e de aliviar honestamente as gordas, de abrigar respeitosamente as famílias que vão em jornada, de esfolar o homem, de depenar a mulher e de limpar a criança; de meter em conta a janela aberta, a janela fechada, o calor do fogão, a poltrona, a cadeira, o banco, o moxo, o colchão de penas, a enxerga e o feixe de palha; de conhecer quanto a sombra gasta o espelho e de avaliar este gasto; e com quinhentos mil diabos, obrigar o hóspede a pagar tudo, inclusive as moscas comidas pelo seu cão!» Este homem e esta mulher representavam a aliança da astúcia e da raiva, medonha e terrível parelha. Enquanto Thenardier ruminava e combinava, a mulher não se lembrava dos credores ausentes, não pensava no dia presente nem no futuro, e vivia arrebatadamente dentro do minuto presente. Tais eram estes dois entes. Entre eles estava Cosette, sofrendo-lhes a dupla pressão, como uma criatura que fosse ao mesmo tempo triturada por uma mó e despedaçada por uma tenaz. O marido e a mulher tinham cada um seu modo diferente de a atormentar: a estalajadeira moía-a com pancadas, o estalajadeiro fazia-a andar descalça no Inverno. Cosette subia, descia, lavava, esfregava, varria, corria, azafamava-se, suava, carregava com objectos pesados, e pequena como era, fazia toda a espécie de trabalho grosseiro. Para ela não havia piedade; uma ama feroz e um amo malévolo. A baiuca de Thenardier era uma espécie de teia em que Cosette estava presa e tremia. Esta domesticidade sinistra realizava o ideal da opressão. Era uma espécie de mosca servindo aranhas. A pobre criança, acostumada a sofrer, calava-se. O que é que se passa nestas almas que há pouco saíram do seio de Deus, quando se vêem assim, desde a aurora, entre os homens, tão pequenas e nuas? _sec+Rom:3_ III Vinho para os homens e água para os cavalos Tinham chegado à estalagem quatro novos viajantes. Cosette meditava tristemente, pois se bem que ela tivesse apenas oito anos, havia já sofrido tanto, que às vezes punha-se a reflectir com o ar lúgubre de uma velha. A pobre criança tinha uma das pálpebras negra, de um murro que lhe dera a Thenardier, o que dava lugar a que a ama dissesse de vez em quando: «Está horrenda com o remendo preto no olho!» Cosette, pois, meditava em que era noite, noite fechada, que fora necessário encher de repente as garrafas e os jarros nos quartos dos passageiros recém-chegados e que já não havia água na tina. O que a tranquilizava alguma coisa era que em casa dos estalajadeiros não se bebia muita água. Não faltava nela gente com sede, mas era dessa sede que se dirige com mais gosto à pipa do que à tina. Pareceria um selvagem a todos aqueles homens o que pedisse um copo de água entre aqueles copos de vinho. Em certa ocasião, porém, a criança estremeceu; a estalajadeira tirou a tampa de uma caçarola que estava fervendo ao lume, depois pegou num copo e aproximou-se com desembaraço da tina, à qual desandou a torneira. A criança levantara a cabeça, e seguia-lhe todos os movimentos. Da torneira apenas correu um delgado fio, que encheu o copo até meio. Oh, já não há água! disse ela, e fez uma pequena pausa. A criança não respirava. É o que eu digo tornou a Thenardier, examinando o copo meio cheio o mais que haverá é tanta como esta. Cosette continuou outra vez no seu trabalho, mas durante mais de um quarto de hora sentiu saltar-lhe o coração no peito com terrível violência. Contava os minutos que decorriam; desejara estar já no dia seguinte. De tempos a tempos, algum dos bebedores exclamava, olhando para a rua: «Irra! Está escuro como um prego!» ou: «Só quem for gato é que poderá andar a esta hora pela rua sem lanterna!» E Cosette estremecia. De repente, um dos feirantes ambulantes alojados na estalagem entrou e disse com voz dura: Ainda não deram de beber ao meu cavalo. Sim, senhor, deu-se-lhe de beber disse a Thenardier. E eu digo-lhe que não tornou o feirante. Cosette saiu então de debaixo da mesa e disse: Oh, senhor! Olhe que o cavalo bebeu, bebeu no balde, um balde cheio; até fui eu que lhe dei de beber e falei-lhe. Isto não era verdade. Cosette mentia. Ora vejam como esta sirigaita tão pequena já sabe pregar petas como torres! exclamou o homem. Já te disse que não bebeu, minha velhaquinha! Quando não bebe, sopra cá de certo modo que eu sei. Cosette insistiu, acrescentando com voz abafada pela angústia e que mal se ouvia: E até bebeu bastante! Vamos tornou o feirante encolerizado deixem-se de histórias, dêem de beber ao cavalo e acabemos com isto! Cosette foi-se meter outra vez debaixo da mesa. Lá isso é justo disse a Thenardier se o cavalo não bebeu, é preciso dar-lhe de beber. Depois acrescentou, olhando em volta de si: Então? Onde está este estafermo? E, como se baixasse, descobriu Cosette acocorada na outra extremidade da mesa, quase debaixo dos pés dos bebedores. Vens daí? exclamou a Thenardier. Cosette saiu da espécie de buraco onde se tinha ido esconder e a Thenardier tornou: Senhora cadela sem nome, vá dar de beber ao cavalo. Senhora, mas é que não há água nenhuma em casa disse Cosette com voz enfraquecida. A estalajadeira abriu a porta da rua de par em par e acrescentou: Pois vai buscá-la! Cosette curvou a cabeça e foi pegar num balde vazio que estava ao pé da chaminé e que era maior do que ela. A criança podia sentar-se e mover-se dentro dele à vontade. A Thenardier voltou para a chaminé e provou com uma colher de pau o que estava na caçarola, murmurando ao mesmo tempo: Na fonte há muita. Se já se viu uma coisa assim! O que ela precisava sei eu. Depois meteu a mão numa gaveta onde havia algum dinheiro em cobre, pimenta e alhos. Aqui tens, minha lesma, acrescentou ela quando voltares passa pelo padeiro e traze um pão dos grandes. Aqui tens quinze soldos. Cosette pegou na moeda sem dizer uma palavra e meteu-a numa algibeira que tinha no> avental. Em seguida ficou imóvel, com o balde na mão, diante da porta aberta. Parecia estar à espera que viesse alguém em seu socorro. Então, avias-te? gritou a Thenardier. Cosette saiu e a porta tornou a fechar-se. _sec+Rom:4_ IV Entra em cena uma boneca Como estarão lembrados, a fileira de barracas que partia da igreja estendia-se até à estalagem de Thenardier, e como dali a pouco havia de passar a gente da aldeia para a missa do galo, estavam todas iluminadas com velas metidas em cartuchos de papel, o que, como dizia o mestre-escola de Montfermeil, naquela ocasião sentado a uma das mesas da taberna de Thenardier, fazia «um efeito mágico». Em compensação, não se via uma estrela no céu. A última destas barracas, situada exactamente em frente da porta da taberna, era uma loja de quinquilharias, resplandecente de ouropéis, avelórios e magníficas coisas de lata. Na primeira estante da frente, colocara o dono da loja, num fundo de pratos de folha, uma imensa boneca de dois pés de altura, vestida com um vestido de crepe cor-de-rosa, com espigas de ouro na cabeça, cabelos naturais e olhos de esmalte. Estivera aquela maravilha exposta todo o dia ao deslumbramento dos admiradores de dez anos para baixo, sem que em Montfermeil se tivesse encontrado uma mãe suficientemente rica ou assaz pródiga que a comprasse para dar a uma filha. Eponina e Azelma haviam passado horas a contemplá-la, e até a própria Cosette, furtivamente, é verdade, ousara observá-la. Na ocasião em que Cosette saiu com o seu balde na mão, apesar de excessivamente triste e acabrunhada, não pôde ter-se que não levantasse os olhos para aquela maravilhosa boneca, para a senhora, como ela lhe chamava. A pobre criança, porém, parou petrificada, pois ainda a não tinha visto de perto. A loja parecia-lhe um palácio, a boneca para ela não era uma boneca, era uma visão. Era a alegria, o esplendor, a riqueza, a ventura, que apareciam numa espécie de irradiação quimérica, àquele infeliz entezinho, tão profundamente sepultado numa fúnebre e fria miséria. Cosette media com essa ingénua e triste sagacidade da infância o abismo que a separava daquela boneca, dizendo consigo mesma que era necessário ser rainha, ou, pelo menos, princesa, para possuir uma «coisa assim». Ela contemplava aquele belo vestido cor-de-rosa, aqueles belos cabelos tão lustrosos e dizia consigo: «Aquela boneca sempre há-de ser muito feliz!». A pobre criança não podia tirar os olhos daquela fantástica loja. Quanto mais olhava, mais deslumbrada se sentia. Julgava ver o paraíso. Por trás da boneca grande havia outras que lhe pareciam fadas e génios. O negociante, que passeava na loja de um lado para o outro, como se lhe figurava o Padre Eterno. A pobre criança esquecia tudo naquela adoração, mesmo o recado a que fora mandada. De repente, porém, a voz rude da estalajadeira chamou-a à realidade: Pois tu ainda aí estás, minha sirigaita! Espera que eu te arranjo! Sempre quero saber o que estás aí a fazer. Gira! A Thenardier havia chegado à porta a ver o que se passava e avistara Cosette em êxtase. Esta, ao ouvir a voz da estalajadeira, deitou a fugir com o balde, caminhando o mais apressadamente que podia. _sec+Rom:5_ V A pequena sozinha Como a estalagem dos Thenardier ficava na parte da aldeia próxima à igreja, era à fonte do bosque situada para o lado de Chelles que Cosette tinha de ir buscar a água. A pobre rapariguinha não tornou a olhar para nenhuma outra barraca. Enquanto não passou o beco do Boulanger nem os arredores da igreja, a iluminação das lojas alumiava-lhe o caminho; bem depressa, porém, desapareceu o último clarão da última barraca, e Cosette achou-se na obscuridade, mas continuou a caminhar no meio dela. Somente, como se ia apossando dela certa comoção, agitava o mais que podia a asa do balde. Isto produzia um ruído que lhe servia de companhia. Quanto mais caminhava, porém, mais espessas se tornavam as trevas. Pelas ruas já se não via ninguém. Todavia, Cosette encontrou uma mulher, que se voltou ao vê-la passar e que parou, murmurando por entre dentes: Onde irá esta criança? Será um lobisomem? Depois, a mulher, reconhecendo Cosette, exclamou: Olha, é a Cotovia! Cosette atravessou assim o labirinto de ruas tortuosas e desertas onde termina a aldeia de Montfermeil, para a parte de Chelles. Enquanto se viu no meio de casas e mesmo só de paredes, caminhou afoita. De vez em quando via o clarão de uma vela, pelas fendas de alguma janela, e isto para ela era luz e vida. É porque ali havia gente, e esta ideia tranquilizava-a. Todavia, à medida que caminhava, o seu passo afrouxava, como que maquinalmente. Depois de passar a esquina da última casa, parou. Passar adiante da última loja fora difícil; passar além da última casa tornava-se impossível. Cosette, pois, pousou o balde no chão, meteu a mão por entre os cabelos e pôs-se a coçar a cabeça lentamente, gesto particular às crianças atemorizadas e indecisas. Já não era Montfermeil, eram os campos. Diante de si tinha o espaço, negro e deserto. Cosette olhou com angústia para aquela obscuridade, em que não havia ninguém, em que só havia lobos ou talvez almas do outro mundo. Esbugalhou mais os olhos e ouviu os lobos a caminhar por cima da erva, e viu distintamente as almas do outro mundo agitando-se nos ramos das árvores. Cosette, a quem o medo dava audácia, pegou então outra vez no balde e disse: Ora! Digo-lhe que não havia água! E tornou a entrar resolutamente em Montfermeil, Apenas, porém, andou cem passos, parou de novo e pôs-se a coçar a cabeça. Agora era a Thenardier que lhe aparecia; a Thenardier medonha com a sua boca de hiena e a cólera a chamejar-lhe nos olhos. A criança deitou um olhar lamentoso para diante e para trás. Que fazer? Que expediente tomar? Para que lado caminhar? Na sua frente o espectro da Thenardier; por detrás todos os fantasmas da noite e dos bosques. Recuou, pois, diante da Thenardier. A assustada criança tornou a tomar o caminho da fonte, deitando a correr. E assim transpôs as casas da aldeia e entrou no bosque, sem olhar para coisa nenhuma, sem nada escutar, cessando apenas de correr quando lhe faltou a respiração, mas não deixando nunca de andar. Caminhava como se fora um autómato e quase sem a certeza de que vivia. Ao passo, porém, que ia andando, sentia vontade de chorar. Apossava-se dela o estremecimento nocturno da floresta. Nem já pensava, nem via. Aquele entezinho fazia frente a imensidade das trevas. De um lado a sombra toda, do outro um átomo. Da extremidade do bosque à fonte havia apenas sete ou oito minutos de caminho, que Cosette conhecia perfeitamente por o ter passado muitas vezes de dia. Estranha coisa! Aquela criança não se perdeu, e, contudo, não deitava os olhos nem para a direita nem para a esquerda, com receio de ver alguma coisa nos ramos das árvores ou na erva que cobria o chão. Conduzia-a vagamente um resto de instinto: assim chegou à fonte, que era uma espécie de tanque natural, cavado pela água num terreno argiloso, de uma profundidade de perto de dois pés, cercada de musgo e dessas ervas a que pelos seus rendilhados se dá o nome de golinhas de Henrique IV, e forrada com algumas grandes pedras. Da fonte deslizava um regatozinho, sussurrando mansamente. Cosette nem sequer parou para tomar o fôlego. Estava escuríssima a noite; porém, acostumada a vir àquela fonte, procurou com a mão esquerda na escuridão um carvalho novo que se debruçava sobre a nascente e que lhe servia ordinariamente de ponto de apoio; encontrou um ramo, agarrou-se a ele, baixou-se e meteu o balde na água. A emoção daquele momento fora tão violenta que lhe triplicara as forças. Ao curvar-se, porém, não reparou que naquela posição lhe ficava voltado para baixo o bolso do avental e caiu-lhe na água a moeda de quinze soldos. Cosette não a viu, nem a ouviu cair. Tirou para fora o balde quase cheio e pousou-o em cima da erva. Feito isto, conheceu então que estava extenuada de cansaço. Bem quisera tornar a partir imediatamente, mas fora tal o esforço de encher o balde., que lhe foi impossível dar um passo e viu-se obrigada a sentar-se. Deixou-se, pois, cair sobre a relva e ali ficou acocorada. Fechou os olhos, depois tornou a abri-los, sem saber porquê, mas sem poder esquivar-se a este movimento. Junto dela a água, agitada no balde, formava círculos, que pareciam serpentes de fogo branco. Por cima da sua cabeça mal se divisava o céu coberto de vastas nuvens negras, que eram como paredes de fumo. Sobre aquela criança parecia inclinar-se vagamente a máscara trágica das sombras, no meio das quais deslizava Júpiter radiante. A criança olhava desvairada para aquela grande estrela que não conhecia e que lhe metia medo. Efectivamente, o planeta achava-se naquele momento muito perto do horizonte e atravessava uma névoa espessa, que a corava de uma vermelhidão horrível. A névoa lugubremente purpureada tornava maior o âmbito do astro. Dir-se-ia uma chaga luminosa. Da planície soprava uma aragem fria. Espessas trevas envolviam o bosque, onde se não ouvia nenhum rumor de folhas, nem se via um só desses vagos e frescos clarões do estio. Os ramos levantados para o ar pareciam espectros terríveis. Nas clareiras zunia o vento por entre os silvados defecados e disformes, e aos assobios das rajadas formigavam como enguias as ervas crescidas, torciam-se as silvas como compridos braços armados de garras, tentando cravar-se em alguma presa. De espaço a espaço passavam rapidamente, impelidas pelo vento, algumas urzes secas, que pareciam fugir assustadas a qualquer coisa que as perseguia. De todos os lados havia amplidões lúgubres. A escuridão causa vertigens. O homem precisa de luz. O que se embrenha no contrário do dia sente apertar-se-lhe o coração. Onde os olhos vêem negrura, vê o coração perturbação. O eclipse, a noite, a opacidade fuliginosa causa ansiedade, ainda aos mais fortes. Não há ninguém que caminhe sozinho de noite por uma floresta sem tremer. Sombras e árvores são duas serrações temíveis. Na profundeza indistinta afigura-se ao espírito uma realidade quimérica. Debuxa-se o inconcebível a alguns passos de vós, com uma limpidez de espectro. Vêem-se flutuar no espaço, ou no próprio cérebro, umas coisas vagas e impalpáveis como os sonhos das flores adormecidas. Toma atitudes ferozes o horizonte. Aspiram-se os eflúvios da grande e negra amplidão do espaço. Tem a gente medo e vontade de olhar para trás. Sente-se indefesa contra as cavidades da noite, contra os objectos que se tornam medonhos, contra os perfis taciturnos que se dissipam ao aproximar-se, contra os vultos desgrenhados que se desenham nas trevas, contra as montanhas irritadas, contra os charcos lívidos, contra o lúgubre reflectido no fúnebre, contra a imensidade sepulcral do silêncio, contra os seres incógnitos possíveis, contra o misterioso debruçar dos ramos, contra o terrível torcer das árvores, contra os extensos punhados de ervas que se agitam rumorejando. Não há ousadia que não estremeça e que não sinta a aproximação da angústia. Experimenta-se o que quer que seja de pavoroso, como se a alma se amalgamasse com a sombra. Esta penetração das trevas, porém, numa criança é inexprimivelmente sinistra. As florestas são apocalipses e o sacudir de asas de uma alma pequenina produz um ruído de agonia sob a abóbada monstruosa que as cobre. Cosette, sem ter consciência do que experimentava, sentia-se penetrada por esta grandeza obscura da natureza. Não era simplesmente terror o que se apossava dela; era alguma coisa mais terrível ainda do que o terror. A rapariguinha estremecia. Falecem-nos as expressões para dizer o que tinha de estranho esse estremecimento que a gelava até ao fundo do coração. O seu olhar tinha-se tornado desvairado. Julgava sentir que talvez não pudesse deixar de voltar ali no outro dia à mesma hora. Cosette, então, por uma espécie de instinto, para sair deste singular estado, que não compreendia, mas que a aterrava, principiou a contar em voz alta um, dois, três, quatro, até dez, e, chegando ao fim, tornou a começar. Restituiu-lhe isto a verdadeira percepção das coisas que a rodeavam. Sentiu frio nas mãos, que havia molhado ao meter o balde na água, e levantou-se. Voltara-lhe o medo, mas um medo natural e invencível. Não lhe ocorreu mais do que um só pensamento fugir; fugir a toda a pressa pelo meio dos bosques, pelo meio dos campos, até às casas, até às janelas, até às velas acesas. O seu olhar, porém, fixou-se no balde que tinha diante de si, e tal era o susto que a Thenardier lhe inspirava, que não se atreveu a fugir sem o balde. Pegou-lhe, pois, pela asa com as duas mãos, custando-lhe a levantá-lo do chão. Assim andou uns doze passos, porém o balde estava cheio, era pesado, e a pobre criança viu-se obrigada a pousá-lo no chão outra vez. Respirou um instante, depois pegou novamente na asa e continuou a caminhar, desta vez por mais algum tempo. Foi-lhe necessário, porém, tornar a parar, e, após alguns segundos de descanso, partiu de novo. Cosette caminhava vergada para diante, com a cabeça curvada como uma velha; o peso do balde distendia e inteiriçava-lhe os magros braços. A asa de ferro acabava de lhe entorpecer e gelar as mãozinhas molhadas; de espaço a espaço via-se obrigada a parar, e todas as vezes que parava caía-lhe pelas pernas nuas a água fria que extravasava do balde. Passava-se isto no fundo de um bosque, de noite, no Inverno, longe de todas as vistas humanas; era uma criança de oito anos a que ali estava; só Deus naquela ocasião é que via aquele triste espectáculo. E talvez também sua mãe. Há coisas que fazem abrir os olhos aos mortos nos seus túmulos! A sua respiração parecia uma espécie de estertor doloroso; os soluços apertavam-lhe a garganta, mas ela não ousava chorar, tal era o medo que tinha da Thenardier, mesmo na sua ausência. Era sempre o seu costume afigurar-se que estava na presença de Thenardier. Cosette, porém, daquele modo não podia andar muito, e por isso ia vagarosamente. Debalde diminuía a duração das estações, caminhando entre uma e outra o maior espaço de tempo que podia; lembrava-se com angústia que levaria mais de uma hora a chegar assim a Montfermeil, e que a Thenardier, portanto, lhe bateria, e esta angústia misturava-se com o susto de se ver sozinha de noite no meio do bosque. A pobre Cosette estava extenuada de cansaço e ainda não tinha saído da floresta. Chegada ao pé de um velho castanheiro que conhecia, fez uma última paragem, mais demorada que as outras, para se refazer bem de forças, e depois reuniu quantas tinha, tornou a pegar no balde e pôs-se de novo a caminho corajosamente. A pobre criança, porém, não pôde sufocar tanto a sua angústia que não exclamasse: Oh, meu Deus! Meu Deus! Neste momento, Cosette sentiu que o balde já não lhe pesava, pois acabava de o agarrar pela asa, levantando-o vigorosamente, uma mão que lhe pareceu enorme. A criança levantou a cabeça e viu caminhando ao lado dela, na escuridão, um vulto negro direito e de pé. Era um homem que viera por trás, mas que a criança não sentiu vir, e que, sem lhe dirigir uma palavra, travara da asa do balde que ela levava. Há instintos para todos os encontros da vida. A criança não se assustou. _sec+Rom:6_ VI O que prova talvez a inteligência de Boulatruelle Na tarde daquele mesmo dia de Natal de 1823, um homem passeou durante muito tempo na parte mais deserta do boulevard do Hospital, em Paris. Este homem tinha o ar de quem procura um alojamento e parecia parar de preferência em frente das casas mais modestas, situadas na extremidade arruinada do arrabalde Saint-Marceau. Mais adiante se verá que este homem tinha, efectivamente, alugado um quarto neste bairro isolado. O homem de quem nos ocupamos, tanto no seu vestuário como em toda a sua pessoa, realizava o tipo do que pode chamar-se o mendigo de boa feição; a extrema miséria combinada com a extrema limpeza. É uma mistura bastante rara, que inspira aos corações inteligentes esse duplo respeito pelo que é pobre e ao mesmo tempo digno. Este homem trazia um chapéu redondo muito velho e sem pêlo, um casacão de pano cor de ocre, cor que nada tinha de extravagante naquele tempo, tão rapado que se lhe via o fio, um grande colete com bolsos de forma secular, calções que de negros se tornaram russos, meias de lã pretas e sapatos grossos com fivelas de cobre. Dir-se-ia um antigo preceptor de alguma casa nobre, de volta de emigração. Os cabelos completamente brancos, a fronte enrugada, os lábios lívidos, o acabrunhamento e o cansaço da vida que respirava todo o seu rosto, faziam supor que tinha muito mais de sessenta anos. Ao ver-lhe, porém, a firmeza do andar, ainda que vagaroso, ao ver o vigor singular de todos os seus movimentos, dar-se-lhe-iam apenas cinquenta. As rugas da fronte estavam bem colocadas e teriam prevenido em seu favor quem o observasse com atenção. Os lábios contraíam-se-lhe com uma estranha ruga, que parecia severa e que era humilde. No fundo do seu olhar havia certa serenidade lúgubre. Na mão esquerda trazia um embrulho escuro atado num lenço e com a direita apoiava-se numa espécie de cajado cortado numa sebe. Este cajado havia sido trabalhado com algum cuidado e não tinha muito mau aspecto; o artífice que o fizera tirara partido dos nós, coroando-o com um castão de lacre vermelho, a fingir coral: era um cajado, mas parecia uma bengala. É pequeno o trânsito naquele passeio, mormente de Inverno; contudo, o homem cujo retrato fizemos, mais parecia evitar, bem que sem afectação, do que procurar os poucos transeuntes que por ali passavam. Naquela época ia o rei Luís XVIII quase todos os dias a Choisy-le-Roi. Era um dos seus passeios favoritos. As duas horas, quase invariavelmente, via-se passar a toda a brida pelo boulevard do Hospital a carruagem e a cavalgada real. Isto servia de relógio aos pobres do sítio, que diziam: «São duas horas. Aí vai o rei outra vez para as Tulherias.» E corriam uns e perfilavam-se os outros, porque a passagem de um rei é sempre um tumulto. com efeito, o aparecimento e desaparecimento de Luís XVIII, produzia certo efeito nas ruas de Paris. Era uma coisa rápida, mas majestosa. Aquele rei impotente e estropiado gostava de galopar; como não podia andar, queria correr, e de bom grado se deixaria arrastar pelo relâmpago. Passava severo e pacífico pelo meio dos sabres desembainhados, na sua berlinda maciça, toda dourada e com grandes ramos de lis pintados nas portinholas. Mal havia tempo de deitar um rápido olhar para aquele veículo rodando com estrondo. No ângulo do fundo, à direita, sobre almofadas acolchoadas de cetim branco, via-se uma cara larga, firme e vermelha, uma fronte viçosa empoada à ave real, uns olhos cheios de altivez, dureza e finura, um sorriso de letrado, duas grandes dragonas de cordões de retrós, flutuando por cima de uma casaca burguesa, o Tosão de Ouro, a cruz de S. Luís, a cruz da Legião de Honra, a chapa de prata do Espírito Santo, uma grande barriga e um largo cordão azul; era o rei. Fora de Paris conservava o seu chapéu de plumas sobre os joelhos, cobertos de altas polainas inglesas; ao entrar, porém, na cidade, punha-o na cabeça, cumprimentando pouco. Luís XVIII olhava com frieza para o povo, que lhe pagava na mesma moeda. Quando ele apareceu a primeira vez no bairro de Saint-Marceau, consistiu todo o seu sucesso nesta frase dirigida por um morador do sítio a um seu vizinho: «Aquele gordo que ali vai é que é o governo.» Esta infalível passagem do rei à mesma hora era, pois, o sucesso quotidiano do boulevard do Hospital. Evidentemente, o passeante de casacão amarelo não era do bairro, nem talvez de Paris, pois ignorava esta circunstância. Quando às duas horas, depois de ter dobrado a Salpêtrière, desembocou no boulevard a carruagem real, cercada por um esquadrão de guardas do corpo, agaloados de prata, aquele homem pareceu ficar maravilhado e quase aterrado. Apenas ele se achava na álea lateral; perfilou-se, pois, com ligeireza por trás de uma esquina da parede de circunvalação, o que não obstou a que o duque de Havre o visse, o qual, como capitão dos guardas de serviço naquele dia, estava sentado na carruagem defronte do rei. Está ali um homem disse ele a Sua Majestade que não tem lá muito boa cara. Alguns agentes de polícia que abriam passagem ao rei, fizeram igualmente reparo nele e um deles recebeu ordem para o seguir, O homem, porém, embrenhou-se pelos becos solitários daquele sítio, e, como principiava a declinar o dia, o agente perdeu-lhe o rasto, como o prova um relatório dirigido nessa mesma noite ao conde de Angles, ministro de Estado, que era então o prefeito da polícia. Apenas o agente perdeu de vista o homem do casacão amarelo, este apressou o passo, não sem se virar muitas vezes para trás para se assegurar se era seguido Às quatro horas e um quarto, isto é, ao cair da noite, passava em frente do teatro da porta de S. Martin onde nesse dia se representavam Os dois forçados Impressionou-o o cartaz, iluminado pelos lampiões do teatro, pois, posto que caminhasse depressa, parou para o ler. Um instante depois, estava no beco de La Planchette e entrava no Prato de estanho, onde ficava o escritório da diligência de Lagny, que partia às quatro horas e meia da tarde. Quando ele chegou já os cavalos estavam atrelados e os> viajantes, chamados pelo cocheiro, trepavam a toda a pressa a escada de ferro que dava serventia para os assentos. Há algum lugar vago? perguntou o homem - Há um único, aqui ao meu lado, neste assento. disse o cocheiro. Desejo ocupá-lo. Suba. O cocheiro, porém, antes de partir, deitou um olhar para o medíocre vestuário do viajante e para a pequenez do seu embrulho e exigiu o dinheiro adiantado. Vai até Lagny? Vou disse o homem. O viajante pagou, portanto, até Lagny e a diligência partiu. Passada a barreira, o cocheiro tentou travar conversa com o viajante, mas como este apenas respondia por monossílabos, o cocheiro tomou o expediente de assobiar e praguejar aos cavalos e embuçar-se no seu capote por causa do frio que fazia. Parecia, porém, que o viajante nem de tal coisa se lembrava. Assim se passou Guarnay e Neuilly-sur-Marne. Por volta das seis horas da tarde estava a diligência em Chelles. O cocheiro parou, para deixar resfolegar os cavalos, à porta da estalagem de carreteiros instalada nos antigos edifícios da abadia real. Eu desço aqui disse o homem. Pegou no embrulho e na bengala e saltou abaixo da diligência. Daí a um instante havia desaparecido, mas não tinha entrado para a estalagem. Quando ao cabo de alguns minutos a diligência seguiu para Lagny, não o encontrou na estrada real de Chelles. O cocheiro voltou-se então para os viajantes de dentro e disse: Este homem não é daqui, eu não o conheço. A julgar pela figura, parece um pobretão, mas não tem amor ao dinheiro; paga para Lagny e não vem senão até Chelles. É noite, as casas estão todas fechadas, ele não entrou para a estalagem nem o tornámos a encontrar na estrada; o diabo do homem meteu-se, decerto, pela terra dentro! O homem não se tinha metido pela terra dentro, mas tinha percorrido velozmente no meio da escuridão a estrada que atravessava Chelles, e depois tomara à esquerda, antes de chegar à igreja, o caminho vicinal que conduz a Montfermeil, como quem já conhecia a terra e tinha ido a ela. Seguiu, pois, este caminho rapidamente, e, como no sítio onde ele é cortado pela antiga estrada orlada de árvores que vai de Gagny para Lagny ouvisse passos que se aproximavam, escondeu-se precipitadamente num valado à espera que se afastassem as pessoas que iam a passar. A precaução era aliás quase supérflua, pois, como já dissemos, fazia uma escuríssima noite de Dezembro. Apenas no céu se viam duas ou três estrelas. É naquele lugar que começa a encosta da montanha. O homem não se meteu no caminho de Montfermeil; tomou à direita, pelo meio dos campos, e principiou a caminhar com ligeireza na direcção do bosque. Chegado ali, afrouxou o passo e pôs-se a olhar com cuidado para todas as árvores, avançando passo a passo como se procurasse e seguisse um caminho misterioso só dele conhecido. Em certa ocasião pareceu que se perdera, a julgar pelo modo como parou indeciso. Por fim. de apalpadela em apalpadela, chegou a uma clareira, onde havia um montão de grandes pedras esbranquiçadas, e, depois de se dirigir com presteza para elas, examinou-as com atenção por entre a neblina da noite, como se as quisesse passar em revista. Depois foi direito a uma árvore coberta dessas excrescências que são as verrugas dos vegetais, que estava a alguns passos dele, e correu-lhe a mão pela casca do tronco, como se pretendesse conhecer e contar todas as verrugas. Defronte desta árvore, que era um freixo, havia um castanheiro com um bocado descascado, o qual por aparelho desta ferida tinha pregada uma faixa de zinco, que o homem tocou, depois de se pôr em bicos de pés. Em seguida pôs-se a bater com o pé no chão durante algum tempo, no espaço compreendido entre a árvore e as pedras, como que assegurando-se se a terra não teria sido movida de fresco. Feito isto, orientou-se e tornou a seguir o seu caminho pelo meio do bosque. Era este o homem que acabava de se encontrar com Cosette. Ao caminhar por entre o mato em direcção a Montfermeil, avistara aquela sombra pequenina que se movia com um gemido, que pousava um objecto pesado no chão, e que depois tornava a pegar nele e continuava o seu caminho. Aproximara-se, pois, e reconhecera que era uma tenra criancinha carregada com um enorme balde de água e encaminhando-se para ela pegou silenciosamente na asa do balde. _sec+Rom:7_ VII Cosette no meio da escuridão ao lado dum desconhecido Como já dissemos, Cosette não se assustara. O homem dirigiu-lhe a palavra: falava com voz grave e quase baixa: Minha filha, o que aí levas é pesado de mais para ti. Cosette ergueu a cabeça e respondeu: Isso é, meu senhor. Dá-mo cá então tornou o homem que eu levo-o. Cosette largou o balde e o homem principiou a caminhar ao lado dela. com efeito, é muito pesado! disse ele por entre dentes, e depois acrescentou: - Que idade tens tu, pequena? Oito anos, meu senhor. E vens assim de muito longe? Ali da fonte do bosque. E é muito distante o lugar para onde vais? A um bom quarto de hora daqui. O homem esteve um momento sem falar e depois disse precipitadamente: Então tu não tens mãe? Não sei respondeu a criança. E acrescentou antes do homem ter tempo de retomar a palavra: Julgo que não. As outras têm, mas eu não. após uma pausa, continuou: Eu julgo que nunca a tive. O homem parou, pousou o balde no chão, baixou-se e pôs as mãos nos ombros da criança, forcejando por a examinar e ver-lhe o rosto no meio da escuridão. Ao lívido clarão do céu desenhava-se vagamente a figura magra e doente de Cosette. Como te chamas? disse o homem. Cosette. O homem teve como que um choque eléctrico. Contemplou-a outra vez, tirou as mãos de cima dos ombros de Cosette, pegou no balde e continuou a caminhar. Ao cabo de um instante, perguntou: Onde moras tu, pequena? Em Montfermeil, não sei se o senhor sabe onde é. E é para lá que nós vamos? É, sim, senhor. O homem fez ainda outra pausa e depois continuou: Quem foi que te mandou à água ao bosque a semelhante hora? Foi a senhora Thenardier. O homem replicou com um tom de voz que forcejava por tornar indiferente, mas em que, não obstante, havia um tremor singular: Quem é essa senhora Thenardier? É a minha patroa disse a criança a dona da estalagem. Da estalagem? disse o homem. Então vou lá pernoitar hoje. Ensina-me o caminho. Nós para lá vamos disse a criança. O homem caminhava bastante depressa, Cosette, porém, seguia-o sem custo e sem sentir cansaço. De espaço a espaço levantava os olhos para este homem com uma espécie de tranquilidade e abandono inexprimível. Nunca ninguém a ensinara a voltar-se para a Providência e a orar, porém ela sentia em si o que quer que fosse que se parecia com a esperança e com a alegria, e que se dirigia para o céu. Decorridos alguns minutos, o homem tornou: Então a senhora Thenardier não tem criada? Não, senhor. Então és tu só? Sou, sim, senhor. Houve ainda outra interrupção, depois da qual Cosette elevou a voz: Isto é, lá em casa há duas meninas. Que meninas são essas? Ponina e Zelma. Era assim que a criança simplificava estes romanescos nomes tão caros à estalajadeira. Que vem a ser isso de Ponina e Zelma? São as filhas da senhora Thenardier. E que fazem elas? Oh! disse a criança. Têm lindas bonecas, coisas de ouro, nem sabem para onde se hão-de voltar! Jogam, brincam, fazem o que querem. Todo o dia? Sim, senhor. E tu? Eu cá trabalho. Todo o dia? A criança ergueu os seus grandes olhos, nos quais havia uma lágrima, que por causa da escuridão não se via e respondeu com doçura: Sim, meu senhor. E, após um intervalo de silêncio, prosseguiu: Às vezes também brinco, quando acabo o serviço e me deixam. E com que brincas? com o que posso. Ninguém se importa. Mas eu não tenho muitos brinquedos, e Ponina e Zelma não querem que eu brinque com as bonecas delas. Não tenho senão uma espadita de chumbo, que não é maior do que isto. E a criança mostrava o dedo mínimo. E que não corta? Ai, corta, sim, senhor; corta salada e cabeças de moscas. Nisto chegaram à aldeia e Cosette guiou o viajante pelas ruas. Passaram pela padaria, porém, Cosette não se lembrou de que lhe tinham mandado levar um pão. O homem havia cessado de fazer-lhe perguntas e guardava um silêncio triste. Depois que passaram a igreja, o homem, vendo todas aquelas barracas ao ar livre, perguntou a Cosette: Isto aqui é alguma feira? Não, senhor, é o Natal. Ao aproximarem-se da estalagem, Cosette disse-lhe, tocando-lhe o braço timidamente: Ó senhor... Que é, minha filha? Estamos ao pé de casa. E então? Faz favor de me dar agora o balde? Porquê? É porque, se a patroa vê que não fui eu que o trouxe, bate-me. O homem deu-lhe o balde e um instante depois estavam à porta da taberna. _sec+Rom:8_ VIII Desgosto de recolher em casa um pobre que é talvez rico Cosette não pôde deixar, de olhar para a grande boneca ainda garbosamente exposta na loja do quinquilheiro, após o que bateu à porta. Esta abriu-se e apareceu a Thenardier com uma vela na mão. Ah, és tu, minha sonsa! Ora graças a Deus, custou-te! A sonsa pôs-se por lá a brincar, decerto! Senhora disse Cosette, tremendo está aqui um senhor que quer cá ficar. A Thenardier substituiu logo o seu gesto de enfado pela sua careta amável, mudança visível particular aos estalajadeiros, e procurou avidamente com os olhos o recém-chegado. É o senhor? perguntou ela. Sim, senhora respondeu o homem, levando a mão ao chapéu. Não são tão polidos os viajantes ricos. Este gesto e a inspecção do vestuário e da bagagem do novo hóspede, que a Thenardier passou em revista num relancear de olhos, fizeram desvanecer a careta amável e reaparecer o aspecto carrancudo. A estalajadeira disse secamente: Entre, bom homem. O «bom homem» entrou. A Thenardier deitou-lhe segundo relancear de olhos, examinou com particularidade o seu casacão, que não tinha pêlo absolutamente nenhum, e o chapéu, que estava alguma coisa amassado, e consultou com um abanar de cabeça, com um franzir de nariz e um piscar de olhos, o marido que continuava a beber com os carreteiros. O marido respondeu por essa imperceptível agitação do índex, que apoiada pelo estender dos beiços, significava em tal caso: «miséria completa». Em virtude disto, a Thenardier exclamou: Ai, é verdade, honrado homem! Sinto muito, mas já não tenho lugar. Seja onde for disse o homem no alpendre ou na cavalariça. Pagarei como se dormisse num quarto. Quarenta soldos. Seja por quarenta soldos. Pois então está servido. Quarenta soldos! disse um carreteiro em voz baixa à Thenardier o costume são só vinte. Mas para ele são quarenta replicou a Thenardier no mesmo tom. Não dou hospedagem a pobres por menos. É verdade acrescentou o marido também em voz baixa não acredita nada uma casa receber desta casta de gente. Neste meio tempo tinha-se o homem, depois de haver deixado em cima de um banco o embrulho e o cajado, sentado a uma mesa, na qual Cosette pusera com presteza uma garrafa de vinho e um copo. O homem que pedira o balde de água fora levá-lo ao cavalo. Quanto a Cosette tornara a pegar na meia e fora para o seu lugar debaixo da mesa. O homem, que havia apenas molhado os lábios no copo de vinho que despejara da garrafa, contemplava a criança com estranha atenção. Cosette era feia. Feliz, talvez tivesse sido bonita. Nós já esboçámos esta figurazinha escura. Cosette tinha perto de oito anos. Ao ver, porém, a sua palidez e magreza, dar-se-lhe-iam apenas seis. A força de chorar tinha-se-lhe quase que extinto o brilho dos seus grandes olhos, envoltos numa espécie de sombra. Nos cantos da boca tinha essa curva de angústia habitual que se observa nos sentenciados e nos doentes sem esperança de cura. As mãos dela estavam como o adivinhara sua mãe, «comidas de frieiras». O clarão da fogueira, que naquela ocasião a iluminava, fazia-lhe sobressair os ângulos dos ossos., tornando terrivelmente visível a sua magreza. Como andava sempre a tiritar com frio, contraíra o hábito de apertar os joelhos um contra o outro. O seu vestuário era todo um farrapo, que de Verão faria lástima e no Inverno causava horror. A pobre criança não trazia sobre o corpo senão um pano esburacado; nem um único trapo de lã. Aqui e além via-se-lhe a pele e distinguiam-se-lhe por toda a parte umas manchas azuis ou negras que indicavam os sítios em que a Thenardier a havia espancado. As suas delgadas perninhas andavam de contínuo expostas ao frio, o que as tornava excessivamente vermelhas. A cavidade que se lhe formava nas clavículas fazia chorar. O seu andar, a sua atitude, o som da sua voz, os seus intervalos entre uma e outra palavra, o seu olhar, o seu silêncio, o seu menor gesto, toda a sua pessoa, enfim, exprimia e traduzia uma só ideia: «o receio». O receio estava espalhado por ela toda; ela estava, para assim dizer, coberta dele; o receio ligava-lhe os cotovelos aos quadris, escondia-lhe os calcanhares debaixo das saias, fazia-lhe ocupar o menor espaço possível, deixava-lhe apenas tomar a respiração necessária, e tornara-se-lhe o que se podia chamar o hábito do seu corpo, sem variação possível, senão para aumentar. No fundo das pupilas dos seus olhos havia um espaço espantado, onde existia o terror. Era tal o receio, que Cosette, ao chegar, apesar de toda molhada como estava, não ousara ir enxugar-se ao lume, pondo-se de novo silenciosamente a trabalhar. A expressão do olhar daquela criança de oito anos era habitualmente tão triste e às vezes tão trágica, que em certas ocasiões parecia que ela estava próxima a tornar-se uma idiota ou um demónio. Cosette jamais soubera o que era rezar, jamais pusera o pé numa igreja: Eu tenho lá tempo para essas coisas? dizia a Thenardier. O homem do casacão amarelo não despegava os olhos de Cosette. De súbito, a Thenardier exclamou: É verdade! E o pão? Cosette, segundo o costume, todas as vezes que a Thenardier elevava a voz, saía apressadamente de debaixo da mesa. A infeliz criança esquecera-se completamente do pão. Recorreu, portanto, ao expediente das crianças a quem nunca larga o medo: mentiu. Senhora, o padeiro estava fechado. Batesses. Eu bati, senhora. E então? Ninguém veio abrir. Amanhã hei-de saber se isso é verdade disse a Thenardier e, se mentiste, conta que te farei dançar! Mas dá cá os quinze soldos que te dei para o trazeres. Cosette meteu a mão na algibeira do seu avental e tornou-se verde. A moeda de quinze soldos não estava lá. Então? tornou a Thenardier. Ouviste o que eu te disse? Cosette virou a algibeira, mas esta nada tinha. De que modo teria desaparecido aquele dinheiro? A infeliz criança não achou uma palavra. Estava petrificada. Querem vocês ver que os perdeu? grunhiu a Thenardier. Ou quererás tu roubar-mos? E ao mesmo tempo estendeu o braço para a palmatória pendurada ao pé da chaminé. Este gesto temível deu a Cosette força para gritar: Perdão, senhora! Senhora, eu não torno a fazer outra! A Thenardier, porém, tirou a palmatória. Neste momento o homem do casacão amarelo metera a mão no bolso do colete sem que ninguém reparasse neste movimento, pois que os outros viajantes bebiam ou jogavam sem prestar atenção a mais nada. Cosette enovelava-se com angústia ao canto da chaminé, procurando juntar e esquivar os pobres membros meio nus ao castigo terrível que a ameaçava. Perdão, senhora disse o homem ao ver a Thenardier erguer o braço há pouco vi cair do bolso do avental dessa pequena, não sei o quê para o chão, e o que foi rolou. Talvez seja isso. Ao mesmo tempo baixou-se e pareceu procurar no chão um instante. Justamente, cá está tornou ele, erguendo-se. E estendeu a mão para a Thenardier com uma moeda de prata. É verdade, é isso disse ela. Não era aquilo, pois era uma moeda de vinte soldos, e a que ela dera a Cosette era de quinze. A Thenardier, porém, que lucrava, meteu o dinheiro na algibeira e limitou-se a lançar um olhar feroz à pobre criança, dizendo: Ora, não te torne a acontecer outra! Cosette recolheu-se ao que a Thenardier chamava o «nicho» dela e os seus grandes olhos fixos no viajante desconhecido principiaram a tomar uma expressão que nunca dantes tiveram. Não era ainda mais do que um espanto ingénuo, porém de envolta com uma espécie de confiança estupefacta. É verdade, você quer cear? perguntou a Thenardier ao viajante. Este, porém, não respondeu. Parecia abismado numa meditação profunda. Que diabo de homem será este? murmurou ela por entre dentes. É algum pobretão, que não tem um real de seu para cear. Pagar-me-á ele ao menos a noitada? Assim mesmo, foi uma fortuna não lhe ocorrer a lembrança de pegar no dinheiro que estava no chão e guardá-lo. A este tempo abriu-se uma porta e Eponina e Azelma entraram. Eram, realmente, duas lindas rapariguinhas, mais burguesas do que camponesas, sobremodo engraçadas, uma com as suas tranças cor de castanha muito luzidias, a outra com os seus compridos cabelos negros deitados pelas costas abaixo, ambas vivas, asseadas, gordas, frescas e sadias, que era um gosto vê-las. Vestiam roupas de agasalho, porém com tal arte maternal, que a grossura das fazendas nada tirava à garridice do vestuário. Provera-se às exigências do Inverno, sem desflorar as graças da Primavera. Parecia que irradiavam luz aquelas duas crianças. Além disto tinham maneiras de rainhas. No seu vestuário, na sua alegria, no barulho que faziam havia certo aspecto de soberania. Quando elas entraram, a Thenardier disse, num tom de quem ralha, mas que era cheio de meiguice: Aí vêm vocês agora! Depois exclamou, puxando-as para os joelhos uma após outra, alisando-lhes os cabelos, atando-lhes as tranças e largando-as em seguida com essa maneira doce de sacudir própria das mães: Olhem, têm o fato todo amarrotado. As duas crianças foram sentar-se ao pé do lume dando mil voltas a uma boneca que tinham no regaço e acompanhando o seu infantil folguedo com toda a espécie de alegres gorjeios. De vez em quando, Cosette levantava os olhos da meia em que trabalhava e punha-se a vê-las brincar com ar lúgubre. Porém, Eponina e Azelma não olhavam para Cosette, a quem consideravam como um cão. Aquelas três crianças não tinham vinte e quatro anos entre todas e já representavam toda a sociedade humana: de uma parte a inveja, da outra o desdém. A boneca com que as filhas da estalajadeira brincavam, apesar de velha e quebrada, nem por isso parecia menos admirável a Cosette, que nunca na sua vida tivera uma boneca, uma verdadeira boneca, para nos servirmos de uma expressão que todas as crianças compreenderão. De repente, a Thenardier, que continuava a passear pela casa de um lado para o outro, deu fé de que Cosette estava distraída e que em vez de trabalhar se ocupava a olhar como as pequenas brincavam. Ah, espera que eu já te digo! gritou ela. Eu quero saber se assim é que se trabalha! Deixa que eu vou fazer-te trabalhar com a palmatória. O desconhecido voltou-se então para a Thenardier, sem se levantar da cadeira, e disse-lhe, sorrindo, quase com ar de receio: Ora adeus, senhora, deixe-a também brincar! Da parte de qualquer hóspede, que tivesse ceado convenientemente e bebesse duas garrafas de vinho e que não tivesse o aspecto de um mendigo, seria uma ordem a manifestação de semelhante desejo. Mas que um homem com semelhante chapéu tivesse a ousadia de ter um desejo, que um semelhante casacão tivesse a ousadia de ter uma vontade, era o que a Thenardier julgava não dever tolerar, e por isso replicou com azedume: Já que come, que trabalhe. Eu não a tenho em casa para ela estar com as mãos debaixo dos braços. Mas que é que ela faz? tornou o recém-chegado com uma voz doce, que tão estranhamente contrastava com os seus trajes de mendigo e com os seus ombros de moço de fretes. A Thenardier dignou-se responder: Faz meia para minhas filhas, que estão sem elas, quase, e que não tardarão a andar descalças. O homem olhou para os pobres pés vermelhos de Cosette e continuou: Quanto tempo levará ela a fazer aquele par de meias? Da maneira como é preguiçosa, ainda tem para três ou quatro dias puxados. E quanto valerão depois de feitas? A Thenardier deitou-lhe um olhar desdenhoso. Trinta soldos pelo menos. - Quer a senhora dá-las por cinco francos? tornou o homem. Caramba! exclamou com um sorriso alvar um carreteiro que escutava a conversa. Cinco francos? Repare bem! Olhe que são cinco rodinhas]... O estalajadeiro julgou do seu dever tomar a palavra. Pois não, senhor; se tem esse desejo, dão-se-lhe as meias pelos cinco francos. Nós cá não sabemos recusar nada aos viajantes. Mas é no caso de pagar já disse a mulher com o seu modo breve e peremptório. Fico com as meias respondeu o homem, e acrescentou, tirando do bolso uma moeda de cinco francos que pôs em cima da mesa e pago-as já. Em seguida voltou-se para Cosette: Brinca, minha filha, que o teu trabalho agora pertence-me. Aquela moeda de cinco francos impressionou tanto o carreteiro, que este largou o copo e veio ver a correr. E é verdade! gritou ele, examinando-a. Uma verdadeira roda traseira! E não é das falsas! O Thenardier aproximou-se então e meteu silenciosamente a moeda de cinco francos na algibeira. Aquilo não tinha a mulher que replicar. Apenas mordeu os beiços, tomando-lhe o rosto uma expressão de ódio. Cosette, porém, tremia, e aventurou-se a perguntar: Senhora, é verdade? Eu posso brincar? Brinca! disse-lhe a Thenardier com uma voz terrível. Muito obrigada disse Cosette. E enquanto com a boca agradecia à Thenardier, agradecia com o seu coraçãozinho ao viajante. O estalajadeiro foi pôr-se outra vez a beber e a mulher disse-lhe ao ouvido: Quem será este homem de amarelo? Tenho visto milionários com casacões assim respondeu ele com gesto soberano. Cosette pousou a meia e, sem sair do seu lugar, pois a pobre criança bulia-se o menos que lhe era possível, tirou de uma caixa que lhe ficava por trás, alguns farrapos velhos e a sua espadazinha de chumbo. Eponina e Azelma não prestavam atenção nenhuma ao que se passava. Acabavam de executar uma operação importante; tinham agarrado o gato sem lhes importar a boneca, que atiraram ao chão, e Eponina, a mais velha, enfaixava-o, apesar das suas contorções e dos seus estrídulos miaus, com uma infinidade de panos e farrapos vermelhos e azuis. Ao mesmo tempo, porém, que se ocupava neste grave e difícil trabalho, dizia sua irmã nessa doce e adorável linguagem infantil, cuja graça desaparece quando a pretendem fixar, semelhante ao esplendor das asas das borboletas: Olha, Zelma, vês como esta boneca é mais divertida do que a outra? Olha como ela grita, como está quente e desinquieta. Brinquemos, sim? Eu sou uma senhora, e depois isto há-de ser a minha filha, e eu hei-de vir visitar-te e tu pões-te a examiná-la. Pois sim? Tu depois começas a ver-lhe pouco a pouco as barbas e ficas muito admirada; depois as orelhas e o rabo, e cada vez te espanta isto mais. E hás-de dizer-me: «Ai, meu Deus!» e eu digo-te: «Sim, minha senhora, aqui lhe trago a minha menina. Agora as meninas usam-se assim». Azelma escutava Eponina com admiração. Ao mesmo tempo, porém, que entre as duas crianças tinha lugar esta cena, os fregueses da taberna puseram-se a cantar uma cantiga obscena que os fazia rir tão estrondosamente, que parecia que tremia o tecto. O estalajadeiro animava-os e acompanhava-os na ruidosa manifestação da sua alegria. Do mesmo modo que as aves. com qualquer coisa fazem um ninho, assim as crianças de qualquer coisa arranjam uma boneca. Enquanto Eponina e Azelma enfaixavam o gato, Cosette, pela sua parte, enfaixara a espada. Feito isto, deitou-a nos braços e pôs-se a embalá-la neles, cantando para a fazer adormecer. A boneca é uma das mais imperiosas necessidades e juntamente um dos mais engraçados instintos da infância feminina. Preparar, enfeitar, vestir, despir, tornar a vestir, ensinar, ralhar, embalar, afagar, adormecer, figurar de qualquer coisa uma pessoa, todo o futuro da mulher consiste nisto. A cismar e a tagarelar, a fazer enxovaizinhos e vestidinhos, corpinhos e roupõezinhos, a criança torna-se adolescente, a adolescente donzela, e a donzela mulher. A primeira criança continua a última boneca. Uma criança sem boneca é quase tão infeliz e tão completamente impossível como uma mulher sem filhos. Cosette, pois, tinha feito da espada uma boneca. Quanto à Thenardier, chegara-se para o pé do homem de amarelo e dizia consigo: «Meu marido tem razão, talvez este homem seja Laffite. Há ricos tão pantomineiros!» E após isto foi encostar-se à mesa a que ele estava sentado. Senhor... disse ela. A esta palavra senhor, o homem voltou-se, pois, a Thenardier ainda o não havia tratado senão por honrado homem, ou bom homem. Olhe, senhor prosseguiu ela, tomando o seu ar adocicado, que ainda era mais desagradável à vista do que o seu gesto feroz eu não levo a mal que a pequena brinque, nem me oponho a isso, mas é por esta vez só, porque o senhor é generoso. Ela não tem nada de seu, portanto precisa de trabalhar. Visto isto, não é sua a pequena? perguntou o homem. Oh, meu Deus! Não, senhor! É uma pobrezita que nós recolhemos assim por caridade. Uma espécie de tolinha; aquilo tem água na cabeça por força; o senhor bem vê como ela tem a cabeça grande. Não somos ricos, mas, enfim, fazemos-lhe o bem que podemos. Por mais que tenhamos escrito para a terra dela, vai há seis meses que não nos respondem. Enquanto a mim, é porque a mãe morreu. Ah! disse o homem, recaindo na sua meditação. Também fraca mãe era acrescentou a Thenardier uma mãe que não quer saber da filha!... Durante toda esta conversação, Cosette, como se um instinto a avisasse de que falavam dela, não despregava os olhos da Thenardier, escutando, porém, ouvindo apenas vagamente aqui e ali algumas palavras. No entanto, repetiam os bebedores, já quase a cair de bêbados, a sua imunda cantiga com maior alegria. Era um agregado de facécias infames, em que figurava a Virgem e o Menino Jesus, de envolta com as maiores desonestidades. A Thenardier fora tomar parte na alegria dos comensais, que se manifestava por estrondosas gargalhadas. Cosette olhava debaixo da mesa para a fogueira, cujo clarão se lhe reverberava nos olhos fixos e pusera-se de novo a embalar a trouxazinha que fizera, cantando em voz baixa, ao passo que a embalava: «Minha mãe já morreu! Minha mãe já morreu! Minha mãe já morreu!» Em virtude de novas insistências da estalajadeira, o homem de amarelo, «o milionário», anuiu, enfim, a cear. Que há-de querer o senhor? Pão e queijo respondeu o homem. «Decididamente é um farroupilha», disse consigo a Thenardier. Os bêbados continuavam a cantar a sua obscena cantiga e Cosette debaixo da mesa continuava também a sua. De repente, Cosette interrompeu-se. Acabara de se voltar e avistar a boneca das filhas da estalajadeira, a qual haviam deixado pelo gato e atirado ao chão a alguns passos da mesa da cozinha. A criança deixou então cair a espada feita boneca que mal preenchia o seu fim e circunvagou a vista por toda a casa. A Thenardier falava baixo ao marido e contava dinheiro; Ponina e Zelma brincavam com o gato; os viajantes comiam ou bebiam ou cantavam; ninguém a via, ninguém fixava os seus olhares sobre ela. Não havia, pois, um momento a perder. Saiu de debaixo da mesa, arrastando-se nos joelhos e nas mãos, certificou-se outra vez de que a não observavam e em seguida dirigiu-se com ligeireza para a boneca e pegou nela. Daí a um instante estava outra vez sentada no seu lugar e imóvel, porém, com as costas voltadas de modo a fazer sombra à boneca que tinha no regaço. Era tão rara para ela aquela ventura de brincar com uma boneca, que essa ventura tinha toda a violência de uma voluptuosidade. Ninguém a vira, excepto o viajante do casacão, que comia pausadamente a sua frugal ceia. Durou cerca de um quarto de hora aquela alegria. Porém, por maiores precauções que Cosette tomasse, não deu fé que um dos pés da boneca estava à mostra e que a fogueira a iluminava com um clarão demasiado vivo. Aquele pé cor-de-rosa e luminoso, que se destacava na sombra, feriu de súbito o olhar de Azelma, que disse para Eponina: Ó mana, olha! As duas crianças estacaram, estupefactas. Cosette tivera a ousadia de lhes pegar na boneca! Eponina ergueu-se e, sem largar o gato, dirigiu-se para sua mãe e pôs-se-lhe a puxar pela saia. Deixa-me! disse a mãe. Que queres? Ó mãe disse a criança ora olhe! E Eponina apontava para Cosette. Esta, porém, toda embevecida no êxtase da posse, não via nem ouvia nada. O rosto da Thenardier tomou então essa expressão particular, que se compõe do terrível aplicado às ninharias da vida, e que é causa de que a esta casta de mulheres se dê o nome de megeras. Desta feita, a soberba ofendida ainda mais exasperava a sua cólera. Cosette transpusera todas as barreiras, atentando contra a boneca «daquelas meninas». A figura de uma czarina, ao ver pôr a um moujick o grande cordão azul de seu imperial filho, teria a mesma expressão. A estalajadeira gritou em voz enrouquecida pela indignação: Cosette! A criança estremeceu como se o chão se lhe abrisse debaixo dos pés e voltou-se. Cosette! repetiu a Thenardier. Cosette pegou na boneca e pô-la cautelosamente no chão com uma espécie de veneração misturada de angústia. Então, sem despegar os olhos dela, apertou as mãos, e, coisa terrível de dizer numa criança de tal idade, torceu-as; depois, o que não pudera arrancar-lhe nenhuma das impressões daquele dia, nem a ida ao bosque, nem o peso do balde, nem a perda do dinheiro, nem a vista da palmatória, nem mesmo a sombria palavra que ouvira proferir à Thenardier Cosette desatou a chorar. Então que é isto? perguntou o viajante, que se levantara da mesa. Pois não vê? respondeu a Thenardier, apontando para o corpo do delito que jazia aos pés de Cosette. - Mas que foi? tornou o homem. Que foi? - respondeu a Thenardier. Pois esta esfarrapada não teve o atrevimento de tocar na boneca das pequenas? Ora! E para isso é preciso tanto barulho? disse o homem. E então que tinha que ela brincasse com a boneca? Tocar-lhe com aquelas mãos sujas! prosseguiu a Thenardier. com aquelas mãos que metem nojo! Cosette redobrou os soluços. Tu calas-te?! gritou-lhe a Thenardier. O homem foi direito à porta da rua, abriu-a e saiu. Mal ele saíra, a Thenardier aproveitou a sua ausência para dar a Cosette, por baixo da mesa, um grande pontapé, que a fez soltar descompassados gritos. A porta tornou a abrir-se e o homem do casacão apareceu de novo, trazendo nas mãos a fabulosa boneca de que falámos, e que todas as crianças da aldeia contemplavam desde pela manhã, com os mais visíveis sinais de admiração. Toma, isto é para ti disse para Cosette, pondo a boneca de pé diante dela. Devemos crer que havia mais de uma hora, tempo em que ali se encontrava, que ele tinha, no meio do seu cogitar, notado confusamente aquela loja de quinquilharias tão esplendidamente esclarecida por velas e lampiões, que se avistava como uma verdadeira iluminação por entre as vidraças da taberna. Cosette, que o vira dirigir-se para ela com aquela boneca, como veria ir o Sol; que lhe ouviu aquelas palavras inauditas: Isto é para ti, olhou para ele e para a boneca, depois recuou lentamente e foi-se esconder debaixo da mesa no sítio mais retirado, ao pé do recanto da parede. Cosette já não chorava, nem gritava, nem mesmo ousava tomar a respiração livremente, ao que parecia. Thenardier, Eponina e Zelma, eram outras tantas estátuas. Até os bebedores tinham estacado no meio das suas estrepitosas libações. Operara-se um silêncio solene em toda a sala da baiuca. A Thenardier, após o primeiro sobressalto que a deixara petrificada e muda, voltou de novo às suas conjecturas. «Quem diabo será este velho? Será algum pobre ou algum milionário? Talvez seja ambas as coisas, isto é, um ladrão». Quanto ao estalajadeiro, a sua fronte encrespou-se-lhe nessa ruga expressiva que acentua o rosto humano todas as vezes que a ele acode o instinto predominante com todo o seu bestial poder. O taberneiro contemplava alternadamente a boneca e o viajante, parecendo farejar aquele homem, como farejaria um saco de dinheiro. Porém, isto durou apenas o tempo de um relâmpago. O estalajadeiro acercou-se da mulher e disse-lhe em voz baixa: Olha que a boneca não custou menos de trinta francos; nada de asneiras, pois; de cabeça baixa diante do homem. Entre as naturezas grosseiras e as naturezas ingénuas há de comum o não terem transições. Então, Cosette disse a Thenardier, com uma voz que queria tornar doce, mas que se compunha porém desse mel agro das mulheres más não pegas na tua boneca? Cosette aventurou-se a sair do seu esconderijo. Anda cá, filha tornou a Thenardier, com ar carinhoso este senhor dá-te uma boneca, por consequência pega nela, que é tua. A criança, porém, contemplava a maravilhosa boneca com uma espécie de terror. O seu rosto estava ainda inundado de lágrimas, mas os seus olhos principiavam a encher-se, como o céu ao crepúsculo da manhã, dos clarões de uma estranha alegria. O que ela naquela ocasião experimentava era alguma coisa semelhante ao que sentiria, se repentinamente lhe dissessem: «Pequena, tu és a rainha de França». Parecia-lhe que se tocasse na boneca sairiam dela trovões, o que, até certo ponto, era verdadeiro, por isso que esperava que a Thenardier ralhasse e lhe batesse. Não obstante, a atracção venceu-a. Aproximou-se por fim da boneca e murmurou, olhando timidamente para a Thenardier: Posso pegar-lhe, senhora? Não há expressão que pudesse representar o seu aspecto, ao mesmo tempo desesperado, cheio de espanto e arrebatamento. Já te disse que é tua! exclamou a Thenardier. - Uma vez que este senhor ta ofereceu. Deveras, senhor? tornou Cosette. É verdade? Aquela senhora é para mim? O desconhecido parecia ter os olhos cheios de lágrimas; parecia achar-se nesse estado de comoção em que se não fala para não se chorar. Portanto, limitou-se a fazer àquela criança um aceno afirmativo com a cabeça, colocando sobre a dela a mão da senhora. Cosette retirou a mão com presteza, como se a da boneca a escaldasse, e pôs-se a olhar para o chão. Somos obrigados a acrescentar que ela, naquela ocasião, estendia uma língua desmesuradamente grande. De repente voltou-se e pegou na boneca com arrebatamento. Hei-de pôr-lhe o nome de Catarina disse ela. Foi um espectáculo momentâneo, porém sobremodo estranho, quando os andrajos de Cosette encontraram e abraçaram as fitas e as frescas cassas, cor-de-rosa daquela boneca. A senhora deixa-me pô-la em cima de uma cadeira? tornou ela. Põe, filha, põem-na onde quiseres respondeu a Thenardier. Agora eram Eponina e Azelma que olhavam com inveja para Cosette. Cosette pôs a boneca, a quem dera o nome de Catarina, em cima de uma cadeira, depois sentou-se no chão diante dela, e ficou imóvel, sem dizer uma palavra, em atitude contemplativa. Então, Cosette, não brincas? disse-lhe o generoso hóspede. Oh, eu estou a brincar! respondeu a criança. Aquele desconhecido, que parecia uma visita que a Providência fazia a Cosette, era naquela ocasião a coisa que a Thenardier mais odiava no mundo. Todavia, não havia remédio senão constranger-se, conquanto as comoções porque passava fossem mais que as; que ela podia suportar, por mais habituada que estivesse à dissimulação pela cópia que procurava fazer de seu marido em todas as suas acções. Apressou-se, pois, a mandar deitar as filhas, pedindo depois ao desconhecido licença para mandar deitar também Cosette que devia estar cansadinha de todo, acrescentou ela com ar maternal. Cosette foi deitar-se, portanto, levando Catarina nos braços. De vez em quando, a Thenardier ia até à outra extremidade da sala, onde estava o marido, para aliviar a alma, dizia, e trocava com ele algumas palavras, tanto mais furiosas, por isso que não ousava dizê-las em voz alta: Maldito estafermo! Vir aqui dar-nos ordens! Quer agora ver brincar o mostrengo da rapariga e dar-lhe a boneca! Dar bonecas de quarenta francos a uma cadela que eu daria por quarenta soldos! Se se demora mais um instante, tratava-se por majestade como à duquesa de Berry. Isto tem lá pés, nem cabeça? Este velho misterioso está doido! Porquê? Ora, é uma coisa muito simples replicava o marido. Se faz gosto disso.,. Tu gostas que a pequena trabalhe, ele gosta de a ver brincar. Está no seu direito. Um passageiro pode fazer o que quiser, uma vez que pague. Se o velho é algum filantropo, que te importa a ti isso? Se é um pateta, isso não é contigo. Que te importam essas coisas, uma vez que ele tem dinheiro? Linguagem e raciocínio de estalajadeiro, duas coisas, das quais nenhuma admitia réplica. ( O homem encostara-se à mesa e retomara a sua atitude meditativa. Os outros viajantes, dos quais uns, eram bufarinheiros, outros carreteiros, tinham-se afastado todos e já não cantavam. Contemplavam-no a distância com uma espécie de temor respeitoso. Aquele sujeito tão pobremente vestido, que tirava do bolso rodas traseiras com tanta facilidade; e que prodigalizava bonecas gigantescas a sujas raparigas de tamancos, era decerto um velho magnânimo, mas temível. Decorreram algumas horas. A missa do galo acabara, a ceia terminara, os bebedores haviam saído, a estalagem estava fechada, a sala inferior ficara deserta, a fogueira apagara-se, mas o hóspede permanecia ainda no mesmo lugar e na mesma postura. De tempos a tempos, mudava o cotovelo sobre que se apoiava, eis tudo; quanto a falar, porém, desde que Cosette saíra, não tornara a dizer uma palavra, Na sala apenas se achavam os estalajadeiros, que tinham ficado por conveniência e por curiosidade. Queres tu ver que o homem quer passar aqui a noite? murmurou a Thenardier por entre dentes. Ao darem, porém, duas horas da manhã, declarou-se vencida e disse para o marido: Eu vou deitar-me. Tu faz o que quiseres. O marido sentou-se à esquina de uma mesa, acendeu uma vela e pôs-se a ler o Correio Francês. Passou assim uma boa hora. O digno estalajadeiro tinha já lido o Correio Francês pelo menos três vezes, desde a data do número até ao nome da tipografia, porém o viajante não se mexia. Thenardier moveu-se, tossiu, escarrou, assoou-se, fez barulho com a cadeira, porém nenhum movimento da parte do homem. «Estará a dormir?» disse ele consigo. O homem não dormia, mas nada o podia despertar. Por fim, Thenardier tirou o seu barrete, aproximou-se cautelosamente e aventurou-se a dizer: O senhor não quer ir descansar? Não quer ir deitar-se parecera-lhe excessivo e familiar. Descansar cheirava a luxo e era uma frase respeitosa. Aquelas palavras tinham a misteriosa e admirável propriedade de alargar ao outro dia pela manhã a cifra do rol das despesas. Um quarto onde o passageiro se deita custa vinte soldos; um quarto onde repousa vinte francos. Ah, é verdade! disse o desconhecido. Tem razão. Onde é a cavalariça? Ora, senhor! disse Thenardier, sorrindo. Eu vou conduzi-lo. Pegou em seguida no castiçal, enquanto o hóspede pegava na bengala e na trouxa, e conduziu-o ao primeiro andar, que apresentava certo esplendor, todo mobilado de acaju e ornado com uma bela cama e cortinas vermelhas de algodão. - O que vem a ser isto? perguntou o viajante. É o nosso quarto de noivado respondeu o estalajadeiro mas eu e minha mulher dormimos noutro. Não se entra aqui senão três ou quatro vezes por ano. Antes queria ir para a cavalariça disse o homem secamente. Thenardier fingiu não ter ouvido a pouco obsequiosa reflexão. Em seguida acendeu duas velas de cera que, ainda por encetar, estavam sobre o fogão, onde depois acendeu também excelente lume. Sobre o fogão e debaixo de uma redoma, estava uma grinalda de fio de prata e flores de laranjeira. E isto, o que é? tornou o desconhecido. É a grinalda do noivado de minha mulher. O hóspede lançou para a grinalda uns olhos que pareciam dizer: «Houve tempo em que um tal monstro foi virgem!» E, no fim de tudo, Thenardier mentira. Quando arrendara a casinhota para estabelecer a baiuca, achara aquele quarto assim guarnecido, comprara a mobília e fizera um alborque com a grinalda de flor de laranjeira, julgando que um tal objecto produziria em sua esposa certa sombra graciosa, dando à casa aquilo a que os ingleses chamam respeitabilidade. Quando o hóspede se voltou, o estalajadeiro tinha desaparecido. Thenardier eclipsara-se discretamente, sem ousar dar as boas noites, não querendo tratar com cordialidade pouco respeitosa um homem a quem tencionava, no dia seguinte, esfolar soberanamente. O estalajadeiro foi para o seu quarto. Sua mulher estava deitada, mas não dormia. Quando ouviu os passos do marido, voltou-se e disse-lhe: Já sabes que amanhã pespego com a Cosette no andar da rua. Thenardier respondeu friamente: Como andas depressa! O hóspede, pela sua parte, pusera a um canto a bengala e a trouxa. Depois do estalajadeiro se retirar, sentou-se numa cadeira e conservou-se por algum tempo pensativo. Em seguida descalçou os sapatos, pegou numa das luzes, apagou a outra e abriu a porta do quarto, olhando em volta de si como quem procura alguma coisa. Atravessou um corredor e chegou à escada. Ali ouviu um ligeiro ruído que se assemelhava à respiração de uma criança. Deixou-se conduzir por este ruído e chegou a uma espécie de concavidade triangular praticada sob a escada, ou, para melhor dizer, formada por ela. Esta barraca não era mais do que o vão da escada. Neste lugar, entre toda a espécie de cacos e de cestos velhos, no meio de lixo e de enormes teias de aranha, havia uma cama, se se pode chamar cama a uma enxerga toda esburacada, deixando cair a palha por todos os lados, e uma manta por cujos buracos se via a enxerga. Lençóis não tinha e estava estendida no sobrado. Nesta cama dormia Cosette. O homem aproximou-se e contemplou-a. Cosette dormia profundamente e estava toda vestida. De Inverno não se despia para sentir menos frio. Estava abraçada com a boneca, cujos olhos abertos brilhavam na escuridão. A pobre criança soltava de vez em quando um grande suspiro, como se estivesse para acordar, e apertava a boneca contra si, quase convulsivamente. Ao lado da cama não estava senão um dos seus tamancos. Por detrás do cubículo de Cosette havia uma porta aberta, deixando ver um quarto bastante grande, mas sem luz. O hóspede entrou nele. Ao fundo, além duma porta de vidraça, viam-se duas caminhas iguais, muito bem arranjadas e com roupa muito branca. Eram as de Eponine e Azelma. Por detrás delas mal se via um berço muito ordinário, sem cortinas, onde dormia o pequenito que tanto chorara toda a noite. O desconhecido conjecturou que aquele quarto devia comunicar com o dos Thenardier. Dispunha-se já a retirar-se quando se lhe deparou a chaminé; uma destas vastas chaminés de estalagem onde há sempre algum brasido, mas que fazem frio a quem as vê. Naquela não havia lume nem mesmo cinza. O que atraiu a atenção do desconhecido foram dois sapatinhos de criança, de feitio elegante, e desiguais em tamanho. O homem recordou-se do gracioso e imemorial costume das crianças deixarem na chaminé o sapatinho, na noite de Natal, para ali receber nas trevas algum brilhante presente da sua boa fada. Eponine e Azelma não tinham faltado ao costume e haviam posto cada uma um sapato na chaminé. O hóspede curvou-se sobre os sapatos. A fada, isto é, a mãe, tinha já feito a sua visita, de sorte que se via luzir em cada um dos sapatos uma moeda de dez soldos completamente nova. O homem endireitou-se e ia já retirar-se, quando descobriu no fundo, e como escondido, um outro objecto. Aproximou-se novamente e viu que era um tamanco grosseiro, muito velho, todo coberto de cinza e lama seca. Era o tamanco de Cosette. Esta com a enternecedora confiança das crianças que pode ser sempre iludida, sem nunca desanimar, pusera também na chaminé o seu tamanco. É sublime e suave coisa a esperança de uma criança que não conheceu nunca senão a desesperação. Dentro do tamanco não havia coisa alguma. O desconhecido meteu os dedos no bolso do colete, curvou-se, e deitou no tamanco de Cosette um luís de oiro. Em seguida dirigiu-se para o seu quarto nos bicos dos pés. _sec+Rom:11_ XI Thenardier em exercício De madrugada, duas horas antes de romper o dia, Thenardier, sentado a uma mesa da sala de baixo da estalagem, com uma pena na mão, confeccionava, à luz de uma vela, a conta do viajante do casacão amarelo. A mulher, de pé, meio curvada sobre ele, seguia com os olhos o que o marido escrevia. Não trocavam uma palavra. De um lado era a meditação profunda, do outro a admiração religiosa com que se vê nascer e desabrochar uma maravilha do espírito. Este silêncio era apenas interrompido pelo ruído da Cotovia a varrer a escada. Após um bom quarto de hora e de algumas raspaduras, Thenardier produziu a seguinte obra-prima: CONTA DO HÓSPEDE DO N.º 9 Ceia 3 francos Quarto 10 » Luz 5 » Lume 4 » Serviço 1 » Total ... 23 Serviço estava escrito servisso. Vinte e três francos! exclamou a mulher com um entusiasmo misturado de alguma hesitação. Thenardier, porém, como todos os grandes artistas, não estava satisfeito da sua obra. Ora! disse ele. Era o mesmo acento de Castlereagh no congresso de Viena, redigindo a conta que a França devia pagar. Tu tens razão, Thenardier, por certo que só se lhe pede o que ele deve murmurou a mulher, que se lembrava da boneca dada a Cosette em presença das filhas, isso é justo, mas é de mais. Decerto o homem não há-de querer pagar. Thenardier sorriu com o seu sorriso frio e disse para a mulher: Deixa, que ele pagará. Aquele seu riso era a suprema significação da autoridade e da confiança em si mesmo. O que assim era dito, assim devia ser; por isso a mulher não insistiu. Pôs-se a arrumar as mesas enquanto o marido passeava na sala de um lado para o outro. Após um instante, este acrescentou: O pior é eu dever mil e quinhentos francos! E, depois de dizer isto, foi sentar-se próximo da chaminé com os pés nas cinzas quentes. É verdade! replicou a mulher. Não sei se te lembras que eu ponho hoje Cosette no andar da rua. Monstro! Faz-me arder em febre por causa da tal boneca! Antes queria casar com Luís XVIII do que tê-la mais um só dia das portas para dentro! Thenardier acendeu o cachimbo e respondeu entre duas baforadas: Entrega a conta ao homem. E dizendo isto saiu. Mal ele, porém, saíra a porta da sala, entrou nela o viajante. Thenardier tornou logo atrás dele e ficou parado à porta, por entre a qual, como estava entreaberta, só a mulher o podia ver. O homem do casaco amarelo trazia na mão o seu cajado e a trouxa. A pé tão cedo! disse a Thenardier. Então o senhor já nos deixa? E, ao falar assim, virava a conta nas mãos com ar de embaraço, fazendo-lhe dobras com as unhas. Aquele rosto duro oferecia uma expressão que não lhe era habitual o da timidez e o do escrúpulo. Apresentar semelhante conta a um homem que parecia realmente «um pobre» era para ela uma coisa difícil. O viajante, que parecia preocupado e distraído, respondeu: É verdade, senhora, vou-me embora. Então o senhor não veio a Montfermeil para tratar de algum negócio? Nada, foi só de passagem, simplesmente. Quanto é que lhe devo, senhora? acrescentou ele em seguida. A Thenardier, em vez de responder, apresentou-lhe a conta dobrada. O homem desdobrou o papel e correu-o com a vista, porém, a sua atenção estava visivelmente noutra parte. Então faz muito negócio aqui em Montfermeil? tornou ele. Nem por isso, senhor! respondeu a Thenardier estupefacta de não ver outra explosão da parte do viajante. Depois prosseguiu, com acento lamentosamente elegíaco: Oh, senhor, os tempos correm tão desgraçados. Está tudo por tal forma! E depois há tão pouca gente de teres pelos nossos sítios! Como o senhor havia de reparar, são tudo fregueses que pouco gasto podem fazer. O que nos vale, assim mesmo, é algum passageiro generoso como o senhor, que vem lá de tempos a tempos. Se não fosse isso, não sei o que havia de ser de nós, às despesas que temos! Só a pequena fica-nos pelos olhos da cara... Que pequena? Ora! A pequena que o senhor sabe, Cosette! A Cotovia, como cá na terra lhe chamam. Ah! disse o homem. Ela continuou: Esta gente daqui é uma súcia de parvos com as tais alcunhas. Ela tem mais parecenças com um morcego do que com uma cotovia. Olhe, senhor, nós não vamos bater à porta de ninguém, mas... sabe Deus o que por cá vai. Não estamos em circunstâncias de fazer esmolas. O que ganhamos vai-se tudo para os credores; e se fora só para esses, mas os tributos? Tanto para estradas, tanto pela licença, tantos por cento por isto, mais tantos por cento para aquilo; o senhor bem sabe o horror de dinheiro que se vai para o governo! E no fim de tudo isto, ainda tenho as filhas para sustentar, tenho de sustentar-me a mim. Parece-me que não tenho necessidade nenhuma de estar a dar de comer a estranhos. O homem replicou com aquela voz que ele tentava com esforço tornar indiferente, mas em que se denotava certo tremor: E se houvesse quem a livrasse dela? De quem, da Cosette? Sim. A fronte vermelha e violenta da taberneira iluminou-se de um fulgor medonho, que se expandiu por toda ela. Ah, senhor, meu bom senhor! Pegue nela, leve-a, tire-a, ensope-a, frite-a, beba-a, coma-a, e que a Virgem Santíssima e todos os santos do céu o guardem de perigos! Está dito. Deveras? Leva-a? Levo. -Já? Já. Chame por ela. Cosette! gritou a Thenardier. Entretanto prosseguiu o homem deixe-me pagar-lhe a minha conta. Quanto é? O viajante deitou então um olhar para o papel e não pôde reprimir um movimento de surpresa: Vinte e três francos?! E olhou para a taberneira, repetindo: Vinte e três francos? No tom com que estas palavras foram repetidas, havia o acento que separava o ponto de admiração do de interrogação. A Thenardier, que tivera tempo de se preparar para o choque, respondeu com desassombro: Vinte e três francos, sim, senhor, pois então? O hóspede pôs cinco moedas de cinco francos em cima da mesa e disse à taberneira: Então vá buscar a pequena. Neste momento, porém, o marido avançou para o meio da sala e disse ao homem do casacão: O senhor deve vinte e seis soldos. Vinte e seis soldos! exclamou a mulher. Vinte soldos pela cama continuou o taberneiro friamente e seis pela ceia. Quanto à pequena, preciso de conversar um bocado com o senhor. E acrescentou, voltando-se para a mulher: Deixa-nos sós. A Thenardier sentia um desses deslumbramentos que causam os imprevistos clarões do talento. Conheceu que entrava em cena o grande actor, e por isso saiu sem dizer uma palavra. Apenas ficaram a sós, Thenardier ofereceu uma cadeira ao viajante. Este sentou-se e Thenardier ficou de pé, com uma singular expressão de bondade simples gravada no rosto. Olhe, senhor, vou dizer-lhe uma coisa: sou doido por esta criança. O hóspede olhou fixamente para o estalajadeiro e perguntou: Qual criança? Thenardier continuou: É uma tolice a gente tomar amizade às pessoas. Que me importa a mim este dinheiro? Pode guardar as suas moedas de cem soldos. O que eu adoro é aquela criança. Mas quem é? perguntou o homem. Ora! É a nossa Cosette! Não é essa que o senhor nos quer levar? Pois digo-lhe com toda a franqueza dum homem honrado, que não posso consentir em semelhante coisa. É uma criança que me há-de fazer muita falta: vejo-a desde muito pequenita. É verdade que nos custa dinheiro e que tem defeitos, é verdade que não somos ricos e pagámos mais de quatrocentos francos em dro- gas, só numa doença que ela teve! Mas a gente sempre há-de fazer alguma coisa pelo amor de Deus. É uma desgraçadinha que não tem pai nem mãe; criámo-la nós. Para mim e para ela sempre hei-de ter pão; e depois não posso separar-me da pequena. O senhor bem percebe o que é a gente ter afeição a uma pessoa; eu sou um pobre diabo, que não tenho raciocínio, mas que sou amigo desta criança; minha mulher tem mau génio, mas também a estima. Bem vê, é como se fosse nossa filha. Não posso passar sem a sentir em casa. O desconhecido continuou a olhar para o estalajadeiro, que continuou: O senhor há-de desculpar-me, mas bem vê que não se deve entregar assim uma criança a uma pessoa que se não conhece. Não é verdade que tenho razão? Ao mesmo tempo não digo que não; o senhor é rico, parece muito boa pessoa, e talvez seja para seu bem; mas assim mesmo é preciso vermos. O senhor bem percebe. Supondo que eu me sacrificasse e a deixasse ir, queria saber para onde ia, desejaria não a perder de vista e saber para casa de quem ia morar, para ir vê-la de vez em quando; era preciso que ela soubesse que seu pai adoptivo não deixava de a ter na lembrança. Enfim, há coisas que não são possíveis. Eu não sei como o senhor se chama. O senhor levava-a, e depois, onde está a Cotovia? Para quem foi ela? Era preciso, ao menos, ver um bocado de papel qualquer; que diabo! A ponta de um passaporte, por exemplo... O desconhecido, sem afastar do estalajadeiro o olhar que, por assim dizer, vai até ao fundo da consciência, respondeu-lhe com voz grave e firme. Senhor Thenardier, não se tira passaporte para vir a cinco léguas de Paris. Se levar Cosette, levá-la-ei e nada mais. O senhor nem saberá o meu nome, nem a minha morada, nem onde ela estará; a minha intenção é que ela não torne mais a vê-lo. Quebrando-lhe o fio que a prende pelo pé, desaparecerá para sempre. Convém-lhe isto? Sim ou não. Pelo mesmo modo que os demónios e os génios reconheciam, por certos sinais, a presença de um deus superior, reconheceu Thenardier que tratava com quem quer que era muito poderoso. Foi uma como intuição; compreendeu-o com toda a nitidez e sagacidade da sua percepção. Na véspera, bebendo, fumando e cantando com os fregueses, passara a noite a observar o desconhecido, espreitando-o como um gato e estudando-o como um matemático. Espionara-o por sua conta, por gosto e instinto, e igualmente como se para isso fora pago. Nem um gesto ou um só movimento do homem do casacão amarelo lhe escapara. Antes mesmo do desconhecido manifestar o seu interesse por Cosette, já Thenardier o tinha adivinhado, surpreendendo os detidos olhares que o velho incessantemente deitava à criança. Em que se fundava tal interesse? Que homem era aquele? Porque trajava ele tão miseravelmente, com tanto dinheiro de seu? Questões eram estas que ele a si mesmo propunha e que o irritavam, sem que conseguisse resolvê-las. Toda a noite meditara sobre este objecto. Não podia ser o pai de Cosette. Seria avô? Mas então porque razão se não dera logo a conhecer? Quem tem direitos, mostra-os. Era evidente: aquele homem não tinha direitos nenhuns sobre Cosette. Então quem era? Thenardier perdia-se em suposições, porém não atinava com a saída do labirinto de dúvidas em que se lhe embrenhava o espírito. Entrevia tudo e não via nada. Fosse, porém, o que fosse, certo de que nisto havia algum segredo de que o homem tinha interesse em não desvendar o véu em que se envolvia, sentira-se forte ao encetar a conversa com ele; ao ouvir, porém, a clara e firme resposta do desconhecido, ao ver que aquele personagem misterioso era tão simplesmente misterioso, sentiu-se fraco. Não esperava por semelhante coisa. Foi a derrota das suas conjecturas. Reuniu, pois, todas as suas ideias, pesou tudo aquilo no espaço de um segundo. Thenardier era desses homens a quem basta um relancear de olhos para ajuizarem de uma situação. Viu que era chegada a ocasião de caminhar depressa e direito ao alvo. Fez como os grandes capitães no instante decisivo que só eles sabem conhecer deixou repentinamente a descoberto a sua bateria. Senhor disse ele, a pequena é sua, uma vez que me dê mil e quinhentos francos. O desconhecido tirou de um dos bolsos, que tinha ao lado, uma carteira velha de couro preto, abriu-a e pegou em três notas que pôs em cima da mesa. Depois apoiou sobre elas o largo polegar e disse para o taberneiro: Mande chamar Cosette. Que fazia ela enquanto se passava isto? Apenas acordou, Cosette correu ao fogão e achara dentro do soco aí depositado a moeda em ouro, que o desconhecido lá deixara. Não era um Napoleão, era uma moeda de vinte francos, nova, da restauração, em cuja efígie, como nas de todas as outras do mesmo cunho, a coroa de louro se achava substituída pela caudazinha prussiana. Cosette ficou deslumbrada. Principiava a embriagá-la o seu destino. A pobre criança não sabia o que era uma moeda em ouro, nunca vira nenhuma, e escondeu-a com a maior presteza no bolso, como se a tivera roubado. Conquanto conhecesse que aquilo lhe pertencia realmente e adivinhasse de onde lhe vinha aquele dom, sentia uma espécie de alegria entremeada de medo. Estava satisfeita, e, mais que tudo, estupefacta; não lhe pareciam reais aquelas coisas tão magníficas e bonitas. Assustava-a a boneca, assustava-a a moeda em ouro, tremendo vagamente diante daquelas magnificências. Só o desconhecido é que não a assustava, antes pelo contrário, a tranquilizava. Desde a véspera, que ela por entre os seus espantos, por entre as sombras vagas do seu sonho, tinha o seu espíritozinho de criança constantemente ocupado com a lembrança daquele velho de aspecto tão mesquinho e triste, mas tão rico e cheio de bondade. Cosette, menos feliz que a menor andorinha do céu, nunca soubera o que era o refugiar-se uma criatura à sombra e sob as asas de uma mãe. Havia cinco anos, isto é, até onde podiam remontar as suas reminiscências, que a pobre criança tremia de medo e tiritava de frio. Nua sempre ao ventar agudo da desgraça, parecia-lhe agora que já se achava vestida. A sua alma outrora sentira frio, agora sentia calor. Cosette já não temia tanto a Thenardier, porque não se achava só; havia mais alguém a seu lado, e esse alguém dava-lhe coragem para se defrontar menos receosa com os aspectos medonhos do seu infortúnio. Após o seu precioso achado, principiara imediatamente a sua tarefa de todas as manhãs. Porém, aquele luís, que trazia consigo naquele mesmo bolso do avental de onde tão desastradamente lhe caíra na noite antecedente a moeda de quinze soldos, fazia-a andar distraída e como que fora de si. Ela não se atrevia a tocar-lhe, mas passava às vezes cinco minutos a contemplá-lo, de boca aberta. Ao varrer a escada, parava e assim ficava, imóvel, esquecida de tudo, alheada da sua vassoura e do universo inteiro, e ocupada a ver brilhar aquela estrela no fundo do bolso do seu roto avental. Foi quando ela se achava numa dessas contemplações que a Thenardier, que por ordem do marido a vinha buscar, se acercou dela, e, coisa inaudita, sem lhe dar uma bofetada ou lhe atirar uma injúria, lhe disse quase | com doçura: Anda daí já, Cosette. Um instante depois, Cosette entrava na sala do andar de baixo da estalagem. | O desconhecido pegou na trouxa que tinha trazido e desatou-a. A trouxa continha um vestido de lã, um avental, um roupão de fustão, um saiote, um lenço para ! o pescoço, umas meias de lã, uns sapatos, um vestuário completo para uma rapariguinha de oito anos. Todos estes objectos eram pretos. Minha filha disse o homem leva isto e veste-te depressa. Despontava o dia quando os habitantes de Montfermeil, que principiavam a abrir as portas das suas casas, viram passar pela rua de Paris um velho pobremente vestido, dando a mão a uma pequenina toda de luto, que levava nos braços uma boneca cor-de-rosa. Os dois viandantes dirigiam-se para a parte de Livry. Era Cosette e o homem de casacão amarelo. Ninguém o conhecia a ele, e quanto a Cosette, como já não ia coberta de andrajos, também muitos não a conheceram. Cosette partia. Mas com quem? Ignorava-o. Para onde? Não o sabia. O mais que ela compreendia era que se ausentava da taberna de Thenardier e de sua mulher. Ninguém se lembrara de lhe dizer adeus nem ela de o dizer a ninguém. Saía daquela casa odiada e odiando. Pobre e meiga criatura, cujo coração até ali só fora oprimido! Cosette caminhava gravemente, abrindo os seus rasgados olhos e contemplando o céu. De vez em quando curvava a cabeça e deitava um olhar para dentro do bolso do seu avental novo, onde metera o luís, olhando depois para o velho. A pobre criança sentia-se como que na presença de Deus, tão entranhadamente celestial era a felicidade que lhe transbordava da alma! _sec+Rom:10_ X Quem procura o melhor, às vezes encontra o pior Segundo o seu costume, a Thenardier deixara o marido, sem se intrometer naquele negócio, de que aguardava sucessos de estrondo. Quando Cosette e o homem partiram, Thenardier deixou passar um grande quarto de hora, após o qual chamou a mulher de parte e mostrou-lhe os mil e quinhentos francos. Ora! Que grande coisa! Era a primeira vez, desde o dia em que principiaram a viver juntos, que ela ousava criticar um acto do marido. O tiro acertou no alvo. Realmente, tens razão! disse ele. Sou um imbecil! Deixa-me cá ver o chapéu. E, dobrando as três notas, meteu-as no bolso e saiu a toda a pressa, mas enganou-se e tomou primeiro pela direita. Como, porém, alguns vizinhos, a quem perguntou, o orientassem sobre o caminho que levava a Cotovia e o homem do casacão, dizendo-lhe que os tinham visto caminhar na direcção de Livry, Thenardier seguiu a indicação que eles lhe deram, caminhando com ligeireza e falando consigo próprio. «Aquele homem é um milhão vestido de amarelo e eu sou um grande animal! Ele primeiro deu vinte soldos depois cinco francos, depois cinquenta francos, depois mil e quinhentos, e sempre com a mesma facilidade. Por consequência, daria quinze mil, se lhos pedissem, mas eu vou já pilhá-lo». E depois aquela trouxa de roupa, já de antemão préparada para a pequena, tudo isto era singular; aqui anda grande mistério. Ora quem tem seguro um mistério e o deixa fugir. Os segredos dos ricos são esponjas cheias de ouro, que se devem espremer o mais que for possível, porque sempre deitam alguma coisa. Todos estes pensamentos lhe redemoinhavam no cérebro e ele concluía sempre, dizendo: «Sempre sou muito burro!» Quando se sai de Montfermeil e se transpõe o cotovelo formado pela estrada que vai para Livry, vê-se estender esta até muito longe pela planície. Thenardier pois, ao chegar aí, calculou que devia avistar o homem e a pequena, e por isso olhou até onde lhe alcançava a vista, mas não viu nada. Perguntou outra vez; pois tudo isto lhe fazia perder tempo. Disseram-lhe algumas pessoas que o homem e a criança em cuja busca andava se tinham encaminhado para o bosque para o lado de Gagny. Os dois viandantes levavam-lhe alguma dianteira, porém uma criança anda devagar e ele caminhava depressa, e, além disso, conhecia aqueles sítios aos palmos. De repente, Thenardier parou e pôs-se a bater na testa, como quem esqueceu o essencial e está disposto a voltar atrás. «E eu que não trouxe a espingarda!» disse ele consigo. Thenardier era dessas naturezas duplas que às vezes passam pelo meio de nós sem darmos fé delas e que desaparecem sem ser conhecidas, porque o destino não as mostrou senão por uma face. A sorte de muitos homens é viver assim meio submergidos. Numa situação serena e simples, Thenardier possuía tudo o que era necessário para fazer não diremos para ser do que está convencionado chamar-se um negociante honrado, um homem capaz. Ao mesmo tempo, porém, dadas certas circunstâncias, revolvendo-lhe certos abalos o fundo da natureza, ele possuía tudo o que era necessário para ser um celerado. Era um lojista com laivos de monstro. Satanás devia às vezes ir acocorar-se ao canto da espelunca em que ele vivia e pôr-se a meditar em presença daquela obra-prima de medonha disformidade. Após uma hesitação de alguns instantes, o estalajadeiro disse consigo: «Ora! Estava bem servido. Enquanto eu ia e vinha, punham-se-me eles ao fresco». E continuou o seu caminho com presteza, quase com ar de confiança e com a sagacidade da raposa que fareja um bando de perdizes. com efeito, depois que transpôs os lagos e atravessou obliquamente a grande clareira que fica à direita - da alameda de Bellevue, ao chegar ao estendal de verdura que quase circunda a colina, cobrindo a abóbada do antigo aqueduto da abadia de Chelles, avistou por cima de um silvado um chapéu, sobre o qual já tantas conjecturas levantara. Era o chapéu do homem. Como o silvado era baixo, Thenardier conheceu que o homem e Cosette estavam ali sentados. Não se via a criança por causa da sua pequenez, mas descobria-se a cabeça da boneca. Thenardier não se enganava. O homem sentara-se ali para deixar Cosette descansar um bocado. O taberneiro afastou as silvas e apareceu subitamente aos olhos dos viandantes em cuja procura vinha. Mil perdões e desculpas, senhor disse ele todo esbaforido mas aqui tem o seu dinheiro. E, ao dizer isto, apresentava ao desconhecido as três notas. O homem olhou para ele e disse-lhe: Que quer dizer isso? Thenardier respondeu respeitosamente: Senhor, o que quer dizer é que torno a levar Cosette comigo. A criança estremeceu e cingiu-se muito ao seu protector. Quanto a este respondeu, cravando os seus nos olhos de Thenardier: Tornar a levar Cosette? Sim, senhor, torno-a a levar. Eu lhe conto; reflecti e vi que não tinha feito bem em fazer o que fiz, por que, enfim, eu não tenho direito para lhe ceder a criança. Senhor, saiba que eu sou um homem de bem. Ora a pequena não me pertence, pertence à mãe. Quem ma confiou foi a mãe e por isso não a posso entregar a mais ninguém senão à mãe. O senhor dirá: «Mas a mãe morreu». Bem, nesse caso não posso dar a criança senão a uma pessoa que me trouxesse um escrito assinado por ela em como eu devo entregar a criança a essa tal pessoa Isto é claro. O homem, em vez de responder, meteu a mão no bolso e Thenardier, ao ver tornar a aparecer a carteira das notas, sentiu um estremecimento de alegria. «Bem!» disse ele consigo. «Sentido, que o homem vai-me querer corromper!» Antes de abrir a carteira, o viajante circunvagou a vista para todos os lados, como se receasse ser visto naquela operação. O lugar estava completamente deserto. Não havia vivalma nem no bosque, nem em toda a extensão do vale. O homem abriu pois a carteira e tirou dela não o punhado de notas que Thenardier esperava, mas um simples papelinho, que desembrulhou e apresentou aberto ao estalajadeiro, acrescentando: Tem muita razão. Leia. Thenardier pegou no papel e leu: Montreuil-sur-mer 25 de Março de 1823 Senhor Thenardier Fará favor de entregar Cosette ao portador desta. A importância de que fala ser-lhe-á integral’ mente paga. Sou com a maior consideração, etc. Fantine. Conhece essa assinatura? tornou o homem. A assinatura era efectivamente de Fantine e Thenardier conheceu-a. Não havia que replicar. O estalajadeiro sentiu dois violentos despeitos o de renunciar à corrupção que esperava e o de ser derrotado. O homem acrescentou Pode guardar esse papel para sua defesa. Thenardier submeteu-se em boa ordem, porém não sem resmungar por entre dentes: A assinatura está bem imitada. Mas, enfim, vá lá. Depois tentou um esforço desesperado. Está bem, senhor disse ele - uma vez que o senhor é o portador. Mas quero que me paguem o que ainda falta, o que não é assim tão pouco. O homem pôs-se de pé e disse, sacudindo aos piparotes o pó que lhe cobria a manga do casacão: Senhor Thenardier, a mãe desta criança julgava dever-lhe, em Janeiro, cento e vinte francos, porém em Fevereiro você mandou-lhe uma conta de quinhentos, dos quais recebeu trezentos em fins de Fevereiro e no princípio de Março recebeu mais outros trezentos. Desde então até agora têm decorrido nove meses, que, a quinze francos por mês, como se ajustou, perfaz cento e trinta e cinco francos. Ora, tinha recebido cem francos de mais; restam, por consequência, trinta e cinco, que é quanto se lhe deve, e eu dei-lhe há pouco mil e quinhentos. Thenardier experimentou o que experimentam os lobos, quando se sentem mordidos e agarrados pelos dentes de ferro da armadilha em que caíram. «Que diabo de homem este!» disse ele consigo. Fez então o que faz o lobo deu uma sacudidela à ratoeira para se desprender. A audácia já uma vez lhe tinha produzido bom resultado. Senhor de quem não sei o nome disse ele resolutamente e pondo desta feita os modos respeitosos de parte ou me dá mil escudos ou eu torno a levar a pequena comigo. O desconhecido, porém, disse tranquilamente para a criança: Vamos embora, Cosette. Em seguida deu-lhe a mão esquerda e com a direita apanhou o cajado do chão. Thenardier notou a grossura do pau e a solidão do lugar e julgou conveniente não pôr embargos à partida dos dois. O homem meteu-se pelo bosque com a pequena, deixando o taberneiro imóvel e aturdido, e enquanto se afastavam, ele contemplava-lhe a largura dos ombros, um tanto arqueados e a desmesurada grandeza dos punhos. Depois, voltando os olhos para si mesmo, via os seus braços débeis e as suas magras mãos. «Sempre é preciso ser muito bruto», dizia ele consigo, «para não ter trazido a espingarda, sabendo eu que vinha à caça». O estalajadeiro, porém, nem assim julgou dever abandonar a presa. «Espera, que eu também agora vou ver para onde ele vai!» E principiou a segui-los a distância. Ficavam-lhe nas mãos duas coisas uma ironia, o sujo bocado de papel com a assinatura de Fantine, e uma consolação, os mil e quinhentos francos. O homem conduzia Cosette na direcção de Livry e Bondy, caminhando lentamente, com a cabeça curvada, numa atitude de reflexão e tristeza. Auxiliado pela luz do sol, que penetrava livremente no bosque por entre as árvores, que o Inverno despojava da folha, Thenardier não os perdia de vista, conquanto lhes fosse de longe no encalço. De vez em quando, o homem voltava-se, a ver se alguém o seguia. De súbito, avistou Thenardier e embrenhou-se com Cosette numa moita cerrada de árvores, por entre a qual podiam desaparecer ambos aos olhos de Thenardier. «Diacho!» disse este e apertou mais o passo. Como a espessura da moita o obrigara a aproximar-se mais deles, Thenardier, vendo que o homem, ao chegar ao mais fechado da moita, se voltava para trás, tentou esconder-se entre os ramos, porém, apesar dos esforços, não pôde conseguir que o homem o não avistasse. Este, porém, depois de olhar para ele com ar inquieto, abanou a cabeça e continuou o seu caminho. O estalajadeiro tornou de novo a segui-los por espaço de duzentos ou trezentos passos. De súbito, o homem voltou-se outra vez e avistou o estalajadeiro. Desta feita, porém, olhou para ele com tão sombria expressão no olhar, que Thenardier julgou «inútil» ir mais adiante e voltou para trás. _sec+Rom:11_ XI Reaparece o número 9.430 e como Cosette o ganha na lotaria João Valjean não morrera. Ao cair ao mar, ou antes, ao atirar-se a ele, livre, como já dissemos, da cadeia de ferro que trazem os forçados e que lhe podia servir de embaraço, nadou por baixo de água até ao ancoradouro em que estava amarrada uma embarcação, dentro da qual achou meio de estar escondido. À noite deitou-se outra vez a nado e arribou à costa a pouca distância do cabo Brun, onde, como não era o dinheiro o que lhe faltava, pôde arranjar roupa. Era então uma tasca nos arredores de Balaguier o guarda-roupa dos forçados evadidos, especialidade lucrativa. Após isto, João Valjean, como todos esses tristes fugitivos que procuram fazer perder o rasto à vigia da lei e à fatalidade social, seguiu um itinerário obscuro e ondulante. O primeiro asilo que encontrou foi em Pradeaux, nas imediações de Beausset. Em seguida dirigiu-se para Grand-Villard, junto a Briançon, nos Altos-Alpes. Fugida receosa e às apalpadelas, caminho de toupeira, cujas ramificações ninguém conhece. Conseguiu-se mais tarde achar alguns vestígios da sua passagem, por Aí, no território de Civrieux, pelos Pirinéus em Accons, no sítio chamado a Granja de Doumecq, pelas imediações do lugarejo de Chavailles e pelos arredores de Perigueux, em Brunies, cantão da Capella Gonaguet, até que chegou a Paris. O seu primeiro cuidado, apenas chegara a Paris, fora comprar roupa de luto para uma pequena de sete a oito anos e depois arranjar um domicílio. Feito isto, dirigira-se a Montfermeil. Como hão-de estar lembrados, João Valjean fizera, por ocasião da sua precedente evasão, uma viagem misteriosa a Montfermeil ou aos seus arredores, da qual a justiça tivera alguma luz. Todavia, como o julgavam morto, tornava-se mais espessa a obscuridade que sobre ele se formara. Em Paris chegou-lhe às mãos um dos jornais, que registavam o facto da sua morte e sentiu-se tranquilizado e quase em paz, como se realmente tivesse morrido. No fim do mesmo dia em que João Valjean arrancara Cosette das garras dos Thenardier, voltou para Paris. Ao cair da noite, transpunha a barreira de Monceaux, acompanhado pela criança, com a qual se meteu num cabriole que os conduziu à esplanada do Observatório. Chegado aí, João Valjean apeou-se, pagou ao cocheiro, pegou na mão de Cosette e dirigiram-se ambos, no meio da cerrada escuridão da noite, para o boulevard do Hospital pelas desertas ruas que ficam próximas à Ourcine e à Glacière. Estranho e cheio de sensações variadas fora para Cosette aquele dia; tinham comido atrás das sebes pão e queijo comprado em tabernas isoladas, tinham vastas vezes mudado de carruagem, tinham andado alguns bocados de caminho a pé; e conquanto ela se não queixasse, estava contudo fatigada, o que João Valjean conheceu, porque lhe puxava mais pela mão ao andar. João Valjean pegou então nela ao colo e Cosette, sem largar a boneca, pousou a cabeça no ombro dele e adormeceu. _sec+O:liv=4_ LIVRO QUARTO O CASEBRE DE GORBEAU Mestre Gorbeau O passeante solitário que há quarenta anos se aventurava a embrenhar-se pelas remotas regiões da Salpêtrière, e que subia pelo boulevard até à barreira de Itália, chegava a alguns sítios em que se podia dizer que Paris desaparecia. Não era um ermo, pois passava por ali gente; não era campo, pois havia casas e ruas; não era uma cidade, pois que se viam as ruas sulcadas pelas rodeiras, como as estradas reais, e crescia a erva pelo meio delas; não era uma aldeia, pois que as casas eram demasiado altas. Então que era? Era um lugar habitado em que não havia ninguém; era um lugar deserto onde havia habitantes; era um arrabalde da grande cidade, uma rua de Paris, de noite mais solitária do que uma floresta, de dia mais pesadamente triste do que um cemitério. Era o velho bairro do Mercado dos Cavalos. O mesmo passeante, se se arriscasse a transpor as quatro caducas paredes do Mercado dos Cavalos, se se resolvesse a passar além da rua do Petit-Banquier, depois de haver deixado à direita uma horta fechada por elevadas paredes, em seguida um prado, onde se erguiam montes de casca de carvalho semelhantes a casinholas de castores gigantescos, depois um cerrado atulhado de madeira e de montes de raízes, serragem e cavacos, em cima dos quais latia um grande cão, em seguida uma comprida parede baixa, toda em ruínas, com uma portinha negra, cheia de musgo, que na Primavera se enchia de flores, depois no sítio mais deserto um decrépito casebre, no qual se lia em grandes letras: É PROIBIDO PREGAR AQUI CARTAZES o ousado passeante chegava à esquina da rua das Vinhas de S. Marcai, latitudes pouco conhecidas. Neste sítio via-se naquele tempo ao pé de uma fábrica e entre as paredes de dois jardins, um casebre, que à primeira vista parecia pequeno como uma choupana, mas que na realidade era grande como uma catedral. A sua aparente pequenez provinha de ficar de lado para o caminho, de modo que só era visto pela empena. A casa ficava quase toda escondida, descobrindo-se apenas uma porta e uma janela. O casebre constava de um só andar. A circunstância que primeiro impressionava a quem o examinasse era que a porta nunca teria podido ser senão a porta de uma espelunca, ao passo que a janela, se fosse aberta em pedra de cantaria, em vez de o ser em alvenaria, poderia passar pela janela de um palácio. A porta era apenas um conjunto de tábuas carunchosas, grosseiramente unidas com travessas semelhantes a achas mal esquadradas. Abria logo para uma íngreme escada, de degraus altos, enlameados, cheios de barro e pó, da mesma largura da porta que se via da rua subir direita como uma escada de mão e desaparecer na sombra entre duas paredes. O cimo da informe cobertura formada pela porta era tapado por uma estreita e delgada tábua, na qual haviam rasgado um postigo triangular, que quando a porta estava fechada era juntamente trapeira e corrediça. Pelo lado de dentro, um pincel molhado em tinta de escrever, havia traçado duas pinceladas o número 52, e por cima do dois garatujara o mesmo pincel o número 50, de sorte que se hesitava. Qual é o que regula? O cimo da porta diz número 50; a parte de dentro replica 52. Da corrediça triangular pendiam, em guisa de cortinado, uns farrapos cobertos de pó. A janela era larga, suficientemente elevada, guarnecida de persianas e de vidraças de grandes caixilhos porém estes tinham variadas feridas, ao mesmo tempo ocultas e descobertas por uma engenhosa ’faixa de papel e as persianas desconjuntadas e fora do seu lugar, mais ameaçavam os transeuntes, do que guardavam os moradores. Nas persianas via-se aqui e ali, a falta de alguma das tabuinhas, que era singelamente substituída por tábuas, pregadas perpendicularmente, de modo que a coisa principiava como persiana e acabava como postigo. A porta, que tinha um aspecto imundo, e a janela posto que escalavrada, tinha um ar de nobreza, assim vistas na mesma casa, produziam o efeito de dois mendigos desemparelhados, que fossem juntos, caminhando a par, com dois aspectos diferentes, debaixo dos mêsmos andrajos, e dos quais um tivesse sido sempre gatuno e o outro um fidalgo. Conduzia a escada a um edifício destacado, mas vastíssimo, que se assemelhava a um alpendre, transformado em casa. Tinha este edifício por tubo intestinal um comprido corredor, para o qual se abria, à direita e à esquerda, uma espécie de repartimentos variados em rigor habitáveis, e mais parecidos com sótãos que com celas. Davam para os terrenos vagos dos arredores. Tudo isto era escuro, fastidioso, baço, melancólico, sepulcral; atravessado, consoante as fendas eram no telhado ou na porta, por clarões frios ou rajadas geladas. Uma particularidade interessante e pitoresca deste género de habitação é a desmesurada grandeza das aranhas. A esquerda da porta de entrada, do lado do boulevard, havia à altura de um homem uma trapeira tapada, formando um nicho quadrado, que os rapazes que passavam tinham enchido de pedras. Ultimamente foi demolida uma parte deste edifício, mas, pelo que ainda resta, pode julgar-se do que aquilo foi. O conjunto do edifício não tem mais de cem anos de existência. Cem anos é a juventude de uma igreja e a velhice de uma casa. Parece que a morada do homem participa da sua brevidade e a de Deus da sua eternidade. Os carteiros chamavam àquele casebre o número 50-52, porém ele era conhecido no sítio pelo nome do casebre de Gorbeau. Digamos de onde lhe vinha esta denominação. Os curiosos de històriazinhas, que coligem anedotas como um botânico plantas para um ervário, e que gravam na memória com um alfinete as datas fugazes, sabem que no século passado, pelo ano de 1770, existiam em Paris dois procuradores do Chatelet, chamados, um, Corbeau (corvo), outro Renard (raposa), dois nomes previstos por Lafontaine. Demasiado bela era a ocasião para que os más línguas não dessem expansão aos seus chascos motejadores, e por isso a seguinte paródia, em versos de pé quebrado, correu logo de boca em boca: Estava mestre Corvo de uma vez Empoleirado em cima de uma cadeira, Sustentando voraz, no adunco bico, Lucrativa sentença executaria: Mestre Raposa, em tretas rico, Cheirando-lhe de longe a chuchadeira, Acode com presteza, e esta história A mestre Corvo impinge, ora escutai-a; Olá, bom dia, amigo, etc., Os dois honrados procuradores perseguidos pelos dichotes e perturbados no empertigado da postura pelas gargalhadas que os seguiam, decidiram desfazer-se dos nomes que tinham, e para isso resolveram dirigir-se ao rei. O requerimento foi apresentado a Luís XV, no mesmo dia em que, de um lado o núncio do Papa, do outro o cardeal de Roche-Aymon, ambos devotamente ajoelhados, ajudaram a calçar as chinelinhas a Madame Dubarry em presença de Sua Majestade, quando aquela se levantou. O rei, que estava a rir, continuou a rir, passou alegremente dos dois bispos para os dois procuradores e concedeu aos dois becas a graça pedida ou pouco menos. A mestre Corbeau foi-lhe permitido pelo rei acrescentar uma cauda à sua inicial e chamar-se Gorbeau; mestre Renard, porém, foi menos feliz; apenas pôde obter pôr um P antes do R e chamar-se Prenard, de modo que o segundo nome pouco diferia do primeiro. Ora, segundo a tradição local, este mestre Gorbeau tinha sido dono do casebre número 50-52, situado no boulevard do Hospital, e era ele até o autor da janela monumental. Daqui provinha, pois, ao casebre de que nos ocupamos, o nome de casa de Gorbeau. Defronte do número 50-52 eleva-se, entre as plantações do boulevard, um olmo meio seco; quase em frente abre-se a barreira dos Gobelins, rua sem casas então, por calçar, plantada de árvores enfezadas, verde ou lamacenta, consoante a estação, que ia terminar em ângulo recto no muro de circunvalação de Paris. Dos telhados de uma fábrica próxima saem baforadas com um pronunciado cheiro a caparrosa. A barreira ficava ao pé e em 1823 ainda existia o muro de circunvalação. Só a barreira de per si lançava no espírito figuras funestas. Era aquele o caminho de Bicêtre. Era por ela que no tempo do império e no da restauração entravam os sentenciados no dia da execução. Foi ali que se cometeu o misterioso assassínio chamado «da barreira de Fontainebleau», cujos autores nunca a justiça pôde descobrir, problema fúnebre jamais resolvido, enigma horroroso jamais decifrado. Andai mais alguns passos e encontrareis essa rua fatal de Croulebarbe, onde Ulbach apunhalou a cabreira de Yvry, ao ribombar do trovão, como num melodrama. Mais alguns passos ainda, e chegarás aos abomináveis olmos decotados da barreira de S. Tiago, esse expediente dos filantropos para esconder o cadafalso, essa mesquinha e vergonhosa praça de Greve de uma sociedade de lojistas e burgueses, que recuou diante da pena de morte, sem ousar aboli-la com grandeza, nem conservá-la com autoridade. Há trinta e sete anos, pondo de parte a praça de S. Tiago, que era um como lugar predestinado e que foi sempre horrível, o ponto mais tristonho talvez daquele tristonho boulevard era o sítio, ainda hoje tão aprazível, onde ficava o casebre número 50-52. As casas burguesas só dali a vinte e cinco anos é que principiaram a despontar. Era triste aquele lugar. Além das ideias fúnebres, que se vos apossavam do espírito, sentíeis-vos entre a Salpêtrière, cujo zimbório se entrevia, e Bicêtre, cuja barreira se tocava, quer dizer, entre a loucura da mulher e a loucura do homem. Por mais longe que se estendesse a vista, só se avistavam os matadouros, o muro de circunvalação e as várias fachadas de algumas fábricas, que pareciam quartéis ou mosteiros; por toda a parte barracas e entulho, paredes velhas, negras como mortalhas, paredes novas, brancas como lençóis; por toda a parte fileiras de árvores paralelas, casebres alinhados, construções chatas, compridas linhas frias e a tristeza lúgubre dos ângulos rectos. Nem um bocado de terreno acidentado, nem um capricho de arquitectura, nem uma ruga. Era um conjunto glacial, regular, medonho. Não há coisa que mais confranja o coração do que a simetria. É que a simetria é o aborrecimento e o aborrecimento é exactamente a essência da tristeza. A desesperação boceja. Pode sonhar-se uma coisa mais terrível do que o inferno em que se sofre é o inferno em que estivéssemos condenados ao aborrecimento. Se tal inferno existisse, aquele pedaço de boulevard do Hospital podia ser a sua entrada. Todavia, ao cair da noite, na ocasião em que do horizonte foge a claridade, principalmente de Inverno, à hora em que a brisa crepuscular arranca aos olmos as suas últimas folhas amareladas, quando é profunda a noite e se não vê no céu uma estrela, quando o vento, rasgando as nuvens, deixa passagem ao clarão mortiço daquela grande lâmpada funerária, chamada a lua, aquele boulevard tornava-se de repente medonho. As linhas negras entranhavam-se e perdiam-se nas trevas, como traços, de infinito, e o que por ali passava não podia deixar de pensar nas inumeráveis tradições patibulares do sítio. A solidão daquele local, em que se haviam cometido tantos crimes, tinha alguma coisa de terrível. Julgava-se pressentir algum laço naquela escuridão, pareciam suspeitas todas as formas confusas da sombra, e os amplos espaços quadrados entre árvore e árvore figuravam-se covas. De dia era um espectáculo feio, de tarde lúgubre, de noite sinistro. De Verão via-se à luz do crepúsculo algumas velhas, quase sempre mendigando, sentadas no sopé dos olmos, em bancos cobertos pela chuva de uma crusta esverdeada. Este bairro, porém, cujo aspecto mais era de soberania do que de velhice, tendia então a transformar-se. Nessa época devia-se apressar quem o quisesse ver, pois cada dia desaparecia alguma circunstância daquele conjunto. Há vinte anos que o embarcadouro do caminho de ferro de Orleãs actua no antigo arrabalde e todos sabem que onde quer que se coloque, na extrema de uma capital, o embarcadouro de um caminho de ferro é a morte de um arrabalde e o nascimento de uma cidade. Parece que em roda desses centros do movimento dos povos, ao rodar dessas poderosas máquinas, ao resfolegar desses monstruosos cavalos da civilização que comem carvão e vomitam fogo, treme a terra cheia de germens e se abre para tragar as antigas moradas dos homens e deixar sair as novas. Desabam as casas velhas e as novas sobem. Desde que a estação do railway de Orleãs invadiu os terrenos de Salpêtrière, as antigas ruas estreitas próximas aos fossos de S. Vítor e ao Jardim das Plantas abalam-se violentamente, atravessadas três ou quatro vezes cada dia por essa torrente de diligências, coches e ónibus, que a um tempo dado apertam as casas para a esquerda ou para a direita; pois há a enunciar coisas extravagantes, que rigorosamente são exactas, e do mesmo modo que é verdadeiro dizer-se que o sol nas grandes cidades faz vegetar e crescer as fachadas das casas, ao meio-dia, é também certo que a passagem frequente das carruagens alarga as ruas. São evidentes os sintomas de uma vida nova. Naquele antigo bairro provincial, nos recantos mais selvagens, mostra-se a calçada, os passeios principiam a rastejar e a alongar-se, mesmo por onde ainda não passa gente. Numa manhã de Julho de 1845, manhã memorável, viram-se de repente fumegar ali os caldeirões negros do betume; naquele dia podia-se dizer que a civilização tinha chegado à rua da Ourcine e que Paris entrara no arrabalde de S. Marcai. _sec+Rom:2_ II Ninho de um mocho e de uma cotovia Foi em frente daquele casebre de Gorbeau que João Valjean parou. Como as aves noctívagas, tinha escolhido aquele lugar deserto para nele fazer o seu ninho. João Valjean meteu a mão no bolso do colete, tirou uma espécie de gazua, abriu a porta, entrou, depois fechou-a com cuidado e subiu a escada ainda com Cosette ao colo. No cimo da escada tirou do bolso nova chave e abriu outra porta, que tornou imediatamente a fechar. O quarto para que entrou era uma espécie de sótão, bastante espaçoso, cuja mobília consistia num colchão deitado no chão, numa mesa e algumas cadeiras. A um canto ficava um fogão, que se via aceso na ocasião em que falamos. Toda esta pobre mansão era vagamente alumiada pelo clarão do lampião do boulevard. Ao fundo havia um gabinete com uma cama de lona, para a qual João Valjean levou a criança, deitando-a nela sem que Cosette acordasse. Depois feriu lume e acendeu uma vela; tudo isto estava preparado de antemão em cima da mesa, e, como na véspera fizera, pôs-se a contemplar Cosette com um olhar extasiado, em que a expressão da bondade e do enternecimento tocava as raias do desvairamento. A pequenina, com essa extrema confiança tranquila, adormecera sem saber com quem estava e continuava a dormir sem saber onde estava. João Valjean curvou-se então e beijou a mão da criança. Nove meses havia que ele beijara a mão da mãe, no momento também em que ela adormecera. O mesmo sentimento doloroso, religioso e pungente de então lhe enchia o coração. Após aquele beijo, João Valjean ajoelhou junto ao leito de Cosette. Era dia claro e Cosette ainda dormia. Um pálido raio do Sol de Dezembro penetrava pela janela do sótão, arrastando pelo tecto compridos filamentos de sombra e luz. De repente, uma carreta de cabouqueiro, pesadamente carregada, que passava pela calçada do boulevard, abalou as paredes do casebre, como o rugir de uma tempestade, fazendo-o estremecer de cima até baixo, e Cosette, acordada de chofre, gritou sobressaltada: Senhora! Eu já aqui vou, eu já aqui vou! E deitou-se abaixo da cama com as pálpebras meio fechadas pelo peso do sono, estendendo o braço para o recanto da parede. Ai! Jesus Senhor, que não encontro a vassoura! disse ela. Porém, abrindo de todo os olhos, viu o rosto risonho de João Valjean e disse: Ai, é verdade! Muito bons dias, meu senhor. As crianças aceitam logo, e familiarmente, a alegria e a ventura, porque elas mesmo são ventura e alegria. Mal Cosette avistou a boneca aos pés da cama, pegou nela, fazendo, ao mesmo tempo que brincava, mil perguntas a João Valjean. Perguntou-lhe onde estava; se Paris era grande; se estava bem longe da Thenardier; se ela voltaria; etc., etc. De súbito, exclamou: Como isto aqui é bonito. Era uma suja pocilga, mas Cosette sentia-se livre. Quer que eu varra? tornou ela por fim. Não, brinca disse João Valjean. Assim se passou o decurso do dia. Cosette, sem lhe dar cuidado saber coisa nenhuma, era inexprimivelmente feliz entre aquela boneca e aquele velho. _sec+Rom:3_ III Duas desgraças juntas fazem uma ventura No dia seguinte, quando amanheceu, ainda João Valjean estava junto da cama de Cosette, esperando imóvel que ela acordasse. > João Valjean sentia penetrar-lhe na alma um sentimento desconhecido. Aquele homem nunca tinha amado. Havia vinte e cinco anos que se via só no mundo, sem nunca ter sido pai, amante, marido ou amigo. Nas galés era mau, sombrio, casto, ignorante e insociável. Estava cheio de virgindades o coração daquele velho forçado. Sua irmã e os filhos de sua irmã haviam-lhe deixado apenas uma recordação vaga e longínqua, que viera por fim a desvanecer-se quase completamente. Fizera todos os esforços para dar com eles, porém, como nunca o pôde conseguir, esqueceu-os. É assim feita a natureza humana. As outras impressões ternas da sua mocidade, se é que as tivera, haviam caído num abismo. Quando viu Cosette, quando a tomou, arrebatou e libertou, sentiu revolverem-se-lhe as entranhas. Todo o fogo de que era susceptível o seu coração, toda a intensidade do afecto que podia votar a um ser humano, se lhe despertou, precipitando-se para aquela criança. Acercava-se da cama em que ela dormia e tremia de alegria, experimentava emoções maternas. É uma coisa bem obscura e agradável esse grande e estranho movimento de um coração que principia a amar. Pobre coração aquele, que pulsava como novo num peito de velho Como ele, porém, tinha cinquenta e cinco anos e Cosette oito, todo o amor que poderia ter em toda a sua vida fundiu-se numa espécie de clarão inevitável. Era aquela a segunda aparição branca que ele encontrava. O bispo fizera-lhe nascer no seu horizonte a aurora da virtude; Cosette fazia-lhe nascer nele a aurora do amor. Neste deslumbramento decorreram os primeiros dias. Pela sua parte, Cosette tornava-se outra também, sem disso dar fé, pobre entezinho! Quando sua mãe a deixou, era tão pequena que já não se lembrava dela. Como todas as crianças semelhantes aos rebentos da vinha que a tudo se agarram, Cosette tentara amar, porém não pôde chegar a consegui-lo. Todos a haviam repelido, os Thenardier, os filhos e as outras crianças. Amara o cão, mas este morrera, e após isto, nem pessoas nem coisas se importaram com ela. Lúgubre coisa por nós já indicada, aquela criança aos oito anos tinha o coração frio. Não era por culpa dela, nem porque lhe faltasse a faculdade de amar; ai, era a possibilidade. De modo que, desde o primeiro dia, tudo o que nela pensava e sonhava, principiou a amar aquele velho. Experimentava o que nunca sentira uma sensação semelhante à da flor quando desabrocha. O próprio João Valjean não lhe produzia o efeito de um velho ou de um pobre. Achava-o belo, do mesmo modo que achava bonito o albergue miserável em que estava. São efeitos estes produzidos pela aurora, pela infância, pela juventude, pela alegria. Concorre para eles a novidade da terra e a da vida. Não há coisa mais encantadora do que o colorido reflexo da ventura sobre as águas-furtadas. Todos nós assim temos no nosso passado uma mansarda azul. A natureza, cinquenta anos de intervalo, haviam posto uma separação profunda entre João Valjean e Cosette, separação que o destino preencheu. O destino uniu repentinamente e desposou com o irresistível poder aquelas duas existências sem raízes, diferentes pela idade, só pelo luto semelhantes. Efectivamente uma completava a outra. O instinto de Cosette procurava um pai como o instinto de João Valjean procurava um filho. Encontrarem-se foi acharem-se. Soldaram-se-lhes as mãos no momento misterioso em que se tocaram. Quando aquelas duas almas se avistaram, reconheceram-se como sendo a necessidade uma da outra e abraçaram-se estreitamente. Podia-se dizer, tomando as palavras no sentido mais compreensivo e absoluto, que separados de tudo pela, barreira de um túmulo, João Valjean era o viúvo como > Cosette era a órfã. Esta situação fez com que João Valjean se tornasse de um modo celeste o pai de Cosette. E, em verdade, a misteriosa impressão produzida em Cosette, no meio do bosque de Chelles, pela mão de João Valjean, ao travar-lhe da dela, por entre a escuridão da noite, não era uma ilusão, mas uma realidade. A entrada daquele homem no destino daquela criança fora a chegada de Deus. Por último, acrescentaremos que João Valjean escolhera bem o seu asilo, pois estava nele numa segurança que podia parecer completa. O quarto com alcova que ele ocupava com Cosette era o que tinha a janela que dava para o boulevard, e como esta era a única que havia na casa, não tinha ele a recear os olhares dos vizinhos, tanto dos lados como da frente. . O rés-do-chão da casa número 50-52, espécie de telheiro, em ruínas, servia de guarida a hortelãos e não tinha comunicação com o primeiro andar, pois ficava separado deste pelo soalho, em que não havia alçapão nem escada, sendo como que o diafragma do edifício. O primeiro andar continha como dissemos, muitos quartos e mansardas, só um dos quais era ocupado por uma velha que era quem tratava da casa de João Valjean. O resto estava todo por habitar. Fora essa velha, ornada com o título de principal locatária, e na realidade encarregada das funções de porteira, quem lhe alugara aquele domicílio em dia de Natal, inculcando-se-lhe ele como um rendeiro arruinado pelos vales de Espanha, que pretendia ir para ali morar com uma filhinha. João Valjean pagara seis meses adiantados, encarregando a velha de mobilar o quarto e o gabinete do modo que se viu. Fora esta boa mulher quem acendera o fogão e preparara tudo na noite da sua chegada. Sucederam-se as semanas. Aqueles dois entes passavam uma existência feliz naquele miserável aposento. Cosette logo pela manhã começava a rir, a brincar e a cantar. As crianças têm o seu canto de manhã como as aves. João Valjean, às vezes travava-lhe da vermelha e engelhada mãozinha e beijava-lha, porém, a pobre criança, afeita a ser espancada, não sabia o que isto queria dizer e retirava-a toda envergonhada. As vezes tornava-se séria e punha-se a contemplar o seu vestido preto. Cosette já não andava coberta de andrajos, andava de luto; saía da miséria e entrava na vida. João Valjean começava a ensinar-lhe a ler. Às vezes, quando estava a fazê-la soletrar, lembrava-se de que fora com a ideia de praticar o mal que aprendera a ler nas galés, ideia que aproveitava para ensinar a ler a uma criança, e então o velho forçado sorria com esse sorriso pensativo dos anjos. Sentia nisto uma premeditação superior, uma vontade de alguém sem ser o homem, e perdia-se em fundas cogitações. Os bons pensamentos têm seus abismos como os maus. A vida de João Valjean quase se cifrava em ensinar Cosette a ler e deixá-la brincar, e, além disto, em lhe falar da mãe e fazê-la rezar. A pobre criança chamava-lhe pai e não lhe sabia outro nome. João Valjean passava horas inteiras a vê-la vestir e despir a boneca, a ouvi-la chilrear. Parecia-lhe agora cheia de interesse a vida, afiguravam-se-lhe bons e justos os homens, já não descobria razão nenhuma para não poder chegar a muito velho, agora que aquela criança o amava. Via diante de si um futuro iluminado por Cosette como por uma luz encantadora. Os melhores homens não são isentos de um pensamento egoísta. João Valjean lembrava-se às vezes com uma espécie de alegria que talvez ela viesse a ser feia. Isto é apenas uma opinião pessoal, mas para dizermos todo o nosso pensamento, no ponto em que se achava João Valjean, quando principiou a amar Cosette, não nos parece bem provado que ele não tivesse necessidade desta revivificação para perseverar no bem. Ele acabava de ver sob novos aspectos a maldade dos homens e a miséria da sociedade, aspectos incompletos, que não mostravam fatalmente senão um lado da verdade, a sorte da mulher resumida em Fantine, a autoridade pública personificada em Javert; voltara às galés, desta vez por haver praticado o bem; tinham-lhe torturado o coração novas amarguras; apossava-se dele outra vez o tédio e o cansaço; até a mesma recordação do bispo tinha talvez um momento de eclipse, para aparecer mais tarde luminosa e triunfante; mas, enfim, esta recordação sagrada ia enfraquecendo. Quem sabe se João Valjean estaria em vésperas de perder a coragem e cair de novo? Amou, tornou-se forte. Ah! Porém não estava de novo menos vacilante do que Cosette. Ele protegeu-a e ela fortaleceu-o. Por influência dele, ela pôde caminhar pela senda da vida; por influência dela, ele pôde continuar na virtude. Ele foi o sustentáculo daquela criança e aquela criança foi o seu ponto de apoio. Ó insondável e divino mistério dos equilíbrios do destino! _sec+Rom:4_ IV No que repara a principal inquilina João Valjean tinha a prudência de nunca sair de dia. Todos os dias, porém, ao descer do crepúsculo, passeava uma ou duas horas, às vezes só, muitas vezes com Cosette, procurando as áleas laterais dos boulevards mais solitários e entrando nas igrejas ao cair da noite. João Valjean gostava de ir a S. Médard, que é a igreja mais próxima. Quando não levava Cosette consigo, esta ficava com a velha, mas o maior prazer da criança era sair com o velho, preferindo até uma hora com ele aos deliciosos diálogos com Catarina, a preciosa boneca. Quando João Valjean saía com ela conduzia-a pela mão, dizendo-lhe coisas agradáveis. Era então que Cosette estava no auge da alegria. A velha tratava do arranjo doméstico, cozinhava e ia às compras. Viviam sobriamente, tendo sempre o fogão aceso, mas como pessoas pouco abastadas. João Valjean em nada alterara a mobília do primeiro dia; só mandara substituir por uma porta a vidraça do quarto em que Cosette dormia. O seu trajo consistia ainda no mesmo casacão amarelo, nos mesmos calções pretos e no mesmo chapéu velho. Na rua tomavam-no por um pobre, acontecendo às vezes voltarem-se algumas boas mulheres e darem-lhe um soldo. João Valjean recebia o soldo e saudava profundamente. Sucedia também outras vezes ele encontrar algum miserável implorando a caridade, e então olhava para trás a ver se alguém o via, acercava-se furtivamente do infeliz e metia-lhe na mão uma moeda de cobre, e às vezes de prata, e afastava-se rapidamente. Isto, porém, tinha os seus inconvenientes. João Valjean principiava a ser conhecido no bairro pelo nome do pobre que dá esmolas. A velha, principal locatária, criatura rabugenta e invejosamente curiosa das vidas alheias, examinava muito João Valjean, sem ele dar fé. Era um tanto surda, e isto tornava-a tagarela. Restavam-lhe do seu passado dois dentes, um de baixo outro de cima, que de contínuo batia um contra o outro. A velha fizera minuciosas perguntas a Cosette, porém como esta não sabia nada, nada lhe pôde dizer, senão que vinha de Montfermeil. Um dia, pela manhã, vendo a curiosa velha entrar João Valjean para um dos compartimentos desabitados do casebre, com um ar que lhe pareceu particular, seguiu-o com o passo de uma gata matreira e pôde observá-lo, sem ser vista, pela fenda da porta, em frente da qual ele se achava de costas voltadas, sem dúvida para maior precaução. Viu-o meter a mão no bolso e tirar um agulheiro, umas tesouras e linhas, pôr-se depois a descoser a costura de uma das abas do casacão e tirar da abertura um bocado de papel amarelado, que desdobrou, A velha reconheceu espantada que era uma nota de mil francos, a segunda ou terceira que via em dias de sua vida e deitou a fugir aterrada. Um momento depois, João Valjean chegou ao pé dela e pediu-lhe que lhe fosse trocar a nota de mil francos, acrescentando que era o semestre da sua renda, o qual tinha recebido na véspera. «Onde», disse consigo a velha, «se ele não saiu senão às seis horas da tarde? A essa hora já a pagadoria não está de certo aberta». A velha foi trocar a nota, fazendo pelo caminho as suas conjecturas. Esta nota de mil francos, comentada e multiplicada, produziu muitas e animadas conversas entre as senhoras vizinhas da rua das Vinhas de S. Marcai. Num dos seguintes dias, João Valjean pôs-se a serrar um pau no corredor, em mangas de camisa. A velha andava a arrumar o quarto e achava-se só, porque Cosette estava entretida a vê-lo serrar. Como avistasse o casacão dependurado de um prego, aproveitou o ensejo e revistou-o. A costura tornara a ser cosida. A boa mulher apalpou-a com atenção e julgou sentir nas abas e nas cavas grossura de papel. Mais notas de mil francos decerto! Notou mais a velha que os bolsos continham uma variedade de objectos. Não só as agulhas, as tesouras e as linhas, que ela vira, mas uma grande carteira, uma enorme navalha, e circunstância suspeita, grande número de cabeleiras de variadas cores. Cada bolso daquele casacão parecia um como depósito de recursos para acontecimentos imprevistos. Assim chegaram aos últimos dias de Inverno os moradores do casebre. _sec+Rom:5_ V Barulho que faz uma moeda de cinco francos caindo no chão Próximo de S. Médard, sentado, à beira de um poço público abandonado, estava um pobre a quem João Valjean gostava de dar esmola. Vez nenhuma passava por junto dele sem lhe dar algum soldo. As vezes punha-se a falar com ele. Diziam os seus invejosos que aquele mendigo pertencia à polícia. Era um velho bedel de setenta e cinco anos, que não fazia senão rosnar orações. Uma noite, João Valjean, que não tinha levado Cosette consigo, ia a passar por aquele sítio e avistou o mendigo no seu costumado pouso, ao reflexo de um lampião que acabavam de acender. O homem, segundo o seu costume, parecia rezar e estava curvado. João Valjean foi direito a ele e deitou-lhe na mão a costumada esmola. O mendigo ergueu repentinamente os olhos, olhou para João Valjean com fixidez e baixou rapidamente a cabeça. Este movimento, que foi um como relâmpago, produziu um estremecimento em João Valjean. Pareceu-lhe que acabava de entrever ao clarão do lampião, não o plácido e devotado rosto do velho, mas uma figura assustadora e conhecida, e sentiu a impressão que experimentaria quem se achasse de repente frente a frente com um tigre na escuridão das sombras. Recuou, pois, terrificado e petrificado, sem ousar respirar nem falar, sem se atrever a ficar nem a fugir, contemplando o mendigo, que baixara a cabeça coberta com um farrapo e que parecia não saber que ele ainda ali estava. Naquela estranha ocasião, um instinto, talvez o instinto misterioso da conservação, fez com que João Valjean não pronunciasse uma palavra. O mendigo tinha o mesmo talhe, os mesmos andrajos, a mesma aparência de todos os dias. «Ora!...» disse João Valjean. «Estou doido ou a sonhar! É impossível!» E recolheu a casa profundamente perturbado. Quase que nem a si mesmo ousava confessar que era o rosto de Javert o que ele julgara ver. De noite, ao reflectir nisto, sentia não ter interrogado o homem para o obrigar a levantar a cabeça outra vez. No dia seguinte, ao cair da noite, voltou ao mesmo sítio. Lá estava o mendigo no seu lugar. Boas tardes, bom homem disse-lhe resolutamente João Valjean, dando-lhe um soldo. O mendigo levantou a cabeça e respondeu com voz lastimosa: Muito obrigado, meu bom senhor. Era efectivamente o velho bedel. João Valjean sentiu-se plenamente tranquilizado e pôs-se a rir. «Como diabo imaginei eu que este homem era Javert?» disse ele consigo. «Querem ver que eu me tornei visionário?» Alguns dias depois, seriam oito horas da noite, estando ele no seu quarto, a fazer Cosette soletrar em voz alta, ouviu abrir e depois fechar a porta do casebre. Pareceu-lhe singular isto. A velha, que era a única pessoa que habitava a casa, além dele, deitava-se sempre apenas anoitecia, para não gastar vela. Fez sinal a Cosette para que se calasse e ouviu alguém subir pela escada acima. Podia muito bem ser a velha, que, havendo-se achado incomodada, tivesse ido à botica. João Valjean pôs-se à escuta. Eram pesados os passos e soavam como os de um homem, mas a velha andava de sapatos grossos e não há nada mais parecido com o passo de um homem do que o passo de uma velha. Todavia, João Valjean apagou a luz. Mandou deitar Cosette, dizendo-lhe em voz baixa: Deita-te devagarinho. Quando, porém, estava a beijá-la na testa, os passos pararam, João Valjean ficou em silêncio, imóvel, com as costas voltadas para a porta, sentado numa cadeira, no meio da escuridão, sem ousar mexer-se, nem dar livre saída à respiração. Ao cabo de bastante tempo, como não ouvisse mais nada, voltou-se sem fazer barulho, e, ao lançar o olhar para a porta do quarto, viu uma luz pelo buraco da fechadura, a qual desenhava uma espécie de estrela sinistra no escuro da porta e da parede. Evidentemente estava ali alguém escutando e com uma luz na mão. Decorridos alguns minutos, a luz desapareceu. João Valjean, porém, não ouviu barulho de passos, o que parecia indicar que quem tinha vindo escutar à porta havia tirado os sapatos. João Valjean deitou-se completamente vestido para cima da cama, mas não pôde pregar olho em toda a noite. Ao romper do dia, quando ia a adormecer de cansaço, foi acordado pelo ranger de uma porta, que se abria em alguma mansarda do fundo do corredor, e ouviu os mesmos passos de homem que no dia antecedente haviam subido a escada. Os passos aproximavam-se. Levantou-se rapidamente e aplicou o olho pelo buraco da fechadura, que era bastante grande, esperando ver, ao passar, a pessoa que de noite entrara no casebre e lhe fora escutar à porta. Efectivamente era um homem, que desta vez passou sem parar pelo quarto de João Valjean. O corredor, porém, estava demasiado escuro para se lhe poder distinguir o rosto; porém, ao chegar ao corredor, um raio de luz exterior tornou-o saliente como um perfil e João Valjean viu-o completamente pelas costas. O homem era de estatura elevada e trazia um casacão comprido e uma grossa bengala debaixo do braço. Era o mesmo talho formidável de Javert. João Valjean podia vê-lo mais à vontade pela janela do seu quarto, que deitava para o boulevard, porém era preciso abri-la, e João Valjean não se atreveu. Era evidente que aquele homem tinha entrado com uma chave e como que em sua casa. Quem lhe havia dado a chave? Que queria aquilo dizer? Às sete horas da manhã, quando a velha veio arrumar o quarto, João Valjean deitou-lhe um olhar penetrante, mas não a interrogou. A mulher apresentou-se como de costume. A noite passada o senhor não ouviu entrar ninguém? disse ela por fim continuando a varrer. Naquele tempo e naquele boulevard, às oito horas é noite fechada. É verdade, agora me lembro respondeu ele com o acento mais natural quem era? É um novo inquilino que há cá em casa disse a velha. E como se chama? Nem por isso o sei já muito bem. É Dumont ou Daumont, uma coisa assim. E o que faz esse senhor Dumont? A velha encarou-o com os seus olhinhos de fuinha e respondeu: Um rendeiro, como o senhor. A velha não teria talvez nenhuma intenção; porém, João Valjean, julgou entrever-lhe uma. Apenas a velha saiu, João Valjean embrulhou num papel cem francos que tinha num armário e meteu-os no bolso. Por mais precauções, porém, que tomasse nesta operação, para que não o ouvissem mexer em dinheiro, escapou-lhe das mãos uma moeda de cem soldos que rolou pelo soalho. Ao escurecer, desceu à porta da rua e olhou com atenção para todos os lados do boulevard, porém não viu ninguém. O boulevard parecia absolutamente deserto. Verdade é que podia estar alguém escondido atrás das árvores. Depois tornou a subir e disse para Cosette: Anda daí. Pegou-lhe na mão e acto contínuo saíram de casa. _sec+O:liv=5_ LIVRO QUINTO PARA CAÇADA TENEBROSA MATILHA SILENCIOSA Ziguezagues estratégicos Necessária se torna aqui uma observação para inteligência do que vai ler-se e do que mais adiante se verá. Bastantes anos há já que o autor deste livro, com pesar obrigado a falar de si, vive ausente de Paris. Depois que ele de lá saiu, Paris transformou-se; surgiu uma nova cidade, que de certo modo lhe é desconhecida. Escusado é dizer que ama Paris, porque Paris é a cidade natal do seu espírito. Em virtude, porém, das demolições e reconstruções, o Paris da sua juventude, esse Paris que ele religiosamente tem trazido sempre gravado na memória, é a esta hora um Paris de outro tempo. Permitam-lhe falar desse Paris, como se ele ainda existisse. Possível é que onde o autor conduzir os leitores, dizendo-lhes: «Em tal rua há tal casa», já hoje não exista nem casa nem rua. Eles que verifiquem, se se quiserem dar a esse trabalho, que, pelo que lhe respeita, ignora o Paris novo e escreve com o Paris antigo à vista duma ilusão para ele preciosa. É-lhe doce a lembrança de que atrás dele ficou alguma coisa do que viu quando estava na sua terra, e que nem tudo se desvaneceu. Enquanto a gente pisa o solo da pátria, imagina que lhe são indiferentes aquelas ruas; sem valor aquelas janelas, aqueles tectos e aquelas portas; estranhas aquelas paredes; como quaisquer outras aquelas árvores com que deparamos no nosso caminho; inúteis as casas em que entramos, simples pedras o pavimento em que pousamos os pés. Mais tarde, quando um súbito esforço da desgraça nos quebra os laços que nos prendiam ao país natal, vemos então que aquelas ruas nos são caras; que nos faltam aqueles tectos, aquelas janelas e aquelas portas; que nos são necessárias aquelas paredes; nossas bem amadas aquelas árvores; que naquelas casas, em que não entrávamos, todos os dias entrávamos; e que pegado àquele solo, que já não pisamos, deixamos parte das nossas entranhas, do nosso sangue e do nosso coração. Todos esses lugares, que já não vemos, que talvez não tornaremos a ver, tomam para nós um doloroso encanto, vem-nos à lembrança com a melancolia de uma aparição, tornam-nos visível a terra santa, e são, para assim dizer, a própria forma da França; e amamo-los e evocamo-los tais quais eles são, tais quais eles eram, e obstinamo-nos neles e não os queremos alterar em nada, porque nos afeiçoamos à figura da pátria como ao rosto de uma mãe. Seja-nos lícito falar do passado no presente. Dito isto, pedimos ao leitor que o tome em nota e continuamos. João Valjean deixara logo o boulevard e embrenhara-se pelas ruas, dando o maior número de voltas que podia e voltando às vezes atrás a ver se alguém o seguia. É manobra própria do veado perseguido pela matilha. Nos terrenos em que podem ficar impressas as pegadas, tem esta manobra, entre outras vantagens, a de enganar no rasto os caçadores e os cães. Chama-se a isto na arte venatória retirada falsa. Era uma noite de Lua cheia, com o que João Valjean bem pouco se dava. A Lua, ainda muito próxima do horizonte, projectava nas ruas grandes lanços de sombra e luz. João Valjean podia, pois, deslizar ao longo das casas e das paredes, observando do lado escuro a parte clara. Talvez ele, porém, não reflectisse bem que lhe ficava por sondar convenientemente o lado escuro; todavia, em todos os becos desertos próximos à rua de Poliveau, julgou com toda a certeza que ninguém ia atrás dele. Cosette caminhava sem fazer perguntas. Os sofrimentos dos seis primeiros anos da sua vida tinham introduzido alguma coisa de passivo na sua natureza. Além disso e é este um reparo do qual mais do que uma vez teremos ocasião de nos ocuparmos estava acostumada, sem bem ter consciência disso, às singularidades do velho e às extravagâncias do destino. Finalmente, sentia-se em segurança, estando com ele. João Valjean não sabia melhor do que Cosette para onde ia. Confiava-se a Deus, como ela se confiava a ele. Parecia-lhe que também um ser maior do que ele lhe travava da mão e julgava sentir que um ente invisível o conduzia. Finalmente, não tinha nenhum propósito deliberado, nenhum plano, nenhum projecto. Nem mesmo tinha a certeza de que aquele homem fosse Javert, e quanto mais, podia ser Javert, sem que Javert soubesse que ele era João Valjean, Pois não andava disfarçado? Não o supunham morto? Contudo, passavam-se coisas, havia alguns dias, que se tornavam singulares. Não lhe era preciso mais. Estava determinado a não tornar a pôr os pés na casa de Gorbeau. Como um animal expulso do covil, procurava uma cova para se esconder até encontrar outra onde se alojasse. João Valjean descobriu grande número de variados labirintos no bairro de Mouffetard, já adormecido como se ainda tivesse a disciplina da idade média e o jugo do toque a recolher, combinando de diversos modos, em sábias estratégias, a rua de Censier com a rua de Copeau, a rua do Passeio de S. Vítor com a do Poço do Ermitão. Não falta por estes sítios quem alugue quartos mobilados, João Valjean, porém, nem neles entrou, porque não achou o que lhe convinha. Uma coisa que ele tinha como fora de dúvida era que, ainda quando por acaso lhe tivessem andado em busca do rasto, lho tinham perdido. Ao dar onze horas em Santo Estêvão do Monte, atravessava ele a rua de Pontoise, em frente do comissariado da polícia, que fica na casa número 11. Alguns instantes depois, o instinto obrigou-o a voltar-se e à luz do lampião do comissariado, que os punha a descoberto, viu distintamente passarem por baixo do dito lampião do lado da rua que estava em trevas três homens que o seguiam de muito perto. Um dos três homens entrou no corredor da casa do comissário. O que caminhava na frente pareceu-lhe com toda a certeza suspeito. Anda, filha disse ele para Cosette, deixando com presteza a rua de Pontoise. Para isso fez um rodeio, contornou a passagem dos Patriarcas, que estava fechada pelo adiantado da hora, percorreu com ligeireza a rua da Espada de Pau e a do Aríete e meteu-se pela das Postas, onde há um beco, em que hoje está o colégio Rollin, e ao qual vem sair a rua Nova de Santa Genoveva. (Convém dizer que a rua Nova de Santa Genoveva é uma rua antiga e que pela rua das Postas nem de dez em dez anos passa uma sege de posta. Esta rua das Postas, no século XIII, era habitada por oleiros e o seu verdadeiro nome é o de rua dos Potes). A Lua lançava neste beco uma luz viva. João Valjean escondeu-se numa porta, calculando que, se os homens ainda o seguissem, não podia deixar de os ver, ao passarem por aquela claridade. Efectivamente, não eram decorridos três minutos, quando os homens apareceram. Agora, porém, eram quatro, todos de estatura elevada, vestidos com compridos casacões pardos, de chapéus redondos e grossas bengalas nas mãos. Não era menos assustadora a sua marcha sinistra nas trevas do que a sua grande estatura e a desmesurada grandeza dos seus punhos. Dir-se-ia quatro espectros disfarçados em burgueses. No meio do beco pararam e juntaram-se em grupo como que a consultar-se. Tinham ar indeciso. O que parecia guiá-los voltou-se e apontou acaloradamente com a mão direita na direcção do lugar onde João Valjean estava escondido; outro parecia indicar com obstinação a direcção contrária. No instante em que o primeiro se voltou, a Lua bateu-lhe em cheio no rosto e João Valjean reconheceu perfeitamente Javert. _sec+Rom:2_ II É uma felicidade passarem veículos pela ponte de Austerlitz A incerteza cessou para João Valjean; mas felizmente durava ainda para os homens misteriosos. Aquele aproveitou-se da hesitação destes; tempo perdido para uns, e ganho pelo outro. João Valjean saiu da porta em que se ocultara e meteu-se pela rua das Postas na direcção do Jardim das Plantas. Cosette começava a sentir-se fatigada; João Valjean tomou-a nos braços e continuou a caminhar. Não encontrou vivalma e os candeeiros, por haver luar, não tinham sido acesos. João Valjean apertou o passo. Em poucos minutos chegou à fábrica de loiça de Goblet, em cuja fachada o luar tornava distintamente legível a sua velha inscrição: Ao grande fabricante Goblet filho Correi, vinde comprar: tubos de grés. Tijolos, bilhas, vasos, bom ladrilho, A preços de espantar qualquer freguês. Deixou atrás de si a rua da Chave, depois a fonte de S. Vítor, caminhou ao longo do Jardim das Plantas e chegou ao cais. Ali olhou para trás. O cais e as ruas estavam desertas. Não vendo ninguém atrás de si respirou fundo e dirigiu-se por fim à ponte de Austerlitz. Naquela época existia ali o direito de portagem, portanto entrou na casa do empregado encarregado de o cobrar e deu-lhe um soldo. São dois soldos disse o inválido da ponte. Leva consigo uma criança que pode andar, por conseguinte há-de pagar por ela. João Valjean pagou, mas sentiu-se contrariado de que a sua passagem pela ponte desse lugar a uma observação. Toda a espécie de fuga deve evitar incidentes. Ao mesmo tempo que ele, uma grande carroça passava o Sena para a margem direita. Esta coincidência foi muito útil: pôde atravessar toda a ponte abrigado pela sombra da carroça. Quase no meio da ponte, Cosette, que tinha os pés dormentes, manifestou desejos de andar; ele pô-la no chão e travou-lhe da mão outra vez. Transposta a ponte, avistou à direita umas estâncias de madeira e encaminhou-se para elas. Para chegar, porém, ao sítio em que elas ficavam era preciso aventurar-se por um espaço bastante largo, que estava a descoberto e completamente alumiado. Não hesitou. Evidentemente os que o perseguiam tinham-lhe perdido o rasto, e por isso, João Valjean julgava-se livre de perigo. Procurado, sim; seguido, não. Entre duas estâncias de madeira, cercadas por uma parede, abria-se uma ruazinha, a rua do Caminho Verde de Santo António, estreita, escura e como que feita de propósito para fácil; João Valjean achava-se numa dessas boas horas. De ordinário sucedem às más, como o dia à noite, em virtude dessa lei de sucessão e de contraste, que constitui o fundo da natureza; e que os espíritos superficiais denominam antítese. Nesta pacífica rua, em que se havia refugiado, João Valjean desembaraçava-se de tudo o que há pouco o perturbava. Por isso mesmo que tinha visto sempre trevas, é que principiava a entrever um fragmento de céu. Sair da rua Plumet sem complicação nem incidente era já um bom passo dado. Talvez a prudência aconselhasse uma mudança de terra, para Londres por exemplo, ainda que não fosse senão por alguns meses. E porque não! Tanto valia estar em França como em Inglaterra, uma vez que tivesse Cosetta a seu lado. Cosetta era a sua pátria; era-lhe bastante a donzela para que ele se julgasse completamente feliz. A lembrança de que ele não bastaria a torná-la feliz, lembrança que, noutro tempo, o torturava a ponto de lhe causar febre e tirar o sono, essa nem ao espírito se lhe apresentava. Estava no colapso de todas as suas dores passadas em pleno otimismo. O ver Cosetta sempre ao pé de si fazia-lhe parecer que a donzela lhe pertencia, efeito Ótico que toda a gente experimenta. Deste modo, portanto, planeava a sós consigo, com todas as facilidades imagináveis, a sua partida para Inglaterra em companhia de Cosetta, parecendo-lhe, no seu devanear, ver reconstruído o edifício da sua ventura, onde nem ele bem o sabia. Ao tempo que assim passeava de uma para outra parte, embebido em toda a espécie de pensamentos agradáveis, o seu olhar fixou-se, de repente, num estranho objeto. Em frente de si, no espelho inclinado sobre o bufete, acabava de avistar as linhas que em seguida reproduzimos: “— Meu querido. Infelizmente, meu pai quer que partamos já. Esta noite estaremos na rua do Homem Armado, número 7, e dentro de oito dias em Londres. — Cosetta — 4 de Junho.” João Valjean estacou, desvairado. Fora o caso que Cosetta, quando chegara, pusera a pasta sobre o bufete, e, absorta na sua dolorosa angústia, ali a deixara ficar, sem sequer reparar que a deixava aberta, e aberta justamente na página sobre a qual havia enxugado as cinco linhas por ela escritas a Mário, “de que fora portador o moço operário que avistara na rua Plumet. Deste modo, pois, as letras ficaram reproduzidas no papel da pasta e daqui se refletiam no espelho. Resultava disto o que em geometria se denomina imagem simétrica, isto é, as letras, que no papel estavam às avessas, reproduziam-se direitas no espelho, apresentando assim o seu natural sentido. João Valjean, portanto, estava vendo a carta escrita no dia antecedente por Cosetta a Mário. Aproximou-se do espelho e leu outra vez as cinco linhas, mas nem, ainda assim, acreditou o que via. Parecia-lhe isto um sonho. Não podia ser. Era alucinação. Era impossível semelhante coisa. Pouco a pouco, foi-se-lhe tornando cada vez mais clara a percepção do que lhe parecia um sonho, até que, fitando os olhos na pasta que a donzela esquecera, voltou de todo ao sentimento da realidade. Pegou na pasta e disse: — Ah! provém daqui! — Examinou com gesto febril as cinco linhas impressas na pasta, porém a inclinação das letras produzia uma tal confusão, que não lhe pôde ligar sentido. Avista disto, disse consigo: — Ora sempre! isto não significa coisa nenhuma! — E respirou livremente com inexplicável alívio. Quem há que não tenha tido destas estúpidas alegrias no meio de lances terríveis? A alma só depois de esgotadas todas as ilusões se deixa confranger pela angústia. João Valjean, pois, contemplava a pasta que tinha na mão, estupidamente alegre e quase disposto a rir-se da alucinação de que fora ludibrio. De súbito, tornou, por acaso, a deitar os olhos para o espelho e viu a mesma visão de há pouco. As cinco linhas desenhavam-se no espelho com inexorável nitidez. Desta feita, não era uma miragem; a repetição de uma visão é uma realidade. João Valjean reconheceu o que era e a si mesmo explicou o fato, até então incompreensível para ele. Torturado por semelhante descoberta, cambaleou, largou a pasta das mãos e caiu para cima da carunchosa poltrona que ficava ao lado do bufete, com a cabeça pendida para o peito, o olhar embaciado, desvairado, dizendo consigo que não havia dúvida, que a luz do mundo ficaria agora para sempre eclipsada, que Cosetta escrevera aquilo a alguém. E então ouviu um surdo rugido, saído de entre as trevas da sua alma, outra vez terrível. Vão lá tirar ao leão o cão que ele tem na sua jaula! Triste e extravagante coisa! Mário, naquela ocasião, ainda se não achava de posse da carta de Cosetta; por uma traição do acaso caíra esta nas mãos de João Valjean, antes de chegar às de Mário. Até àquela data, João Valjean nunca sucumbira a provação nenhuma. Vira-se submetido a provas terríveis, a fortuna não lhe poupara violências; armada de todas as vindictas e ludíbrios sociais, a ferocidade da sorte tomara-o entre dentes e nem um instante o largara. E ele não recuara nem sucumbira a coisa nenhuma. Aceitara todas as extremidades, quanto lhe fora mister fazê-lo; sacrificara a sua inviolabilidade de homem reconquistada, entregara a sua liberdade, arriscara a vida, perdera tudo, tudo sofrera, e ficara desinteressado e estóico, a ponto de poderem, por vezes, supô-lo alheado de si mesmo como um mártir. A consciência daquele homem, aguerrido para todos os possíveis assaltos da adversidade, podia julgar-se para sempre inexpugnável. E, todavia, quem pudesse devassar-lhe o foro íntimo, ver-se-ia na necessidade de dar testemunho da sua fraqueza naquela hora. É que de todas as torturas que ele havia sofrido, de todas as amarguras com que o destino o havia flagelado, a mais temerosa era aquela. Nunca o seu sofrimento chegara àquele ponto. João Valjean sentiu a misteriosa agitação de todas as sensibilidades latentes. Sentiu. o confrangimento da fibra desconhecida. Oh! a suprema provação, a provação única, melhor diremos, é a perda do ser amado. O amor do pobre velho João Valjean por Cosetta, por certo que era um afeto puramente paternal; porém, como já acima notamos, nesta paternidade a própria viuvez da sua vida introduzira todas as espécies de amor; amava Cosetta como filha, amava-a como mãe, amava-a como irmã; e, como nunca tivera nem amante nem esposa, como a natureza é um credor que não aceita protesto de qualidade nenhuma, esse sentimento, de todos o mais difícil de perder, se confundira com os outros, vago, ignorante, puro da pureza de cegueira, inconsciente, angélico, celeste, divino, menos como sentimento do que como instinto; menos como instinto do que como atrativo; imperceptível e invisível, mas real; e o seu amor propriamente dito estava na sua descomunal afeição para com Cosetta, como o veio de oiro na montanha, tenebroso e virgem. Recordem os leitores esta situação de coração que já indicamos. Entre eles era impossível um casamento, mesmo o das almas, e todavia é certo que os seus destinos se haviam esposado. Se excetuarmos Cosetta, isto é, uma criança, nunca João Valjean em toda a sua longa vida conhecera nada do que pode amar-se. As paixões e os amores que se sucedem, não tinham produzido nele esses verdes sucessivos, verde-escuro, verde-desmaiado, que se observa nas folhas que passam o Inverno e nos homens que excedem cinqüenta anos. Em suma, como por mais de uma vez temos repetido, toda aquela fusão interior, todo aquele conjunto, cuja resultante era uma sublime virtude, concluíam por fazer de João Valjean um pai para Cosetta. Pai singular, forjado do avô, do filho, do irmão e do marido, que tudo isto se continha em João Valjean; pai em que mesmo se encerrava uma mãe; pai que amava Cosetta, que a idolatrava, que via naquela criança a sua luz, a sua morada, a sua família, a sua pátria, o seu paraíso. Deste modo, pois, quando viu que tudo acabava por uma vez, que ela se lhe escapava, que lhe escorregava por entre as mãos, que se lhe escondia, que era uma nuvem, que era água; quando avistou em frente de si esta dilacerante evidência: — Outro é o alvo do seu coração, outro constitui a aspiração da sua vida; há um querido e eu sou apenas pai; é como se já não existisse —; quando a dúvida se lhe tornou impossível, quando se compenetrou bem da idéia de que Cosetta o ia deixar, a dor que o alcançou excedeu as raias do possível. Fazer o que havia feito para vir a cabo de semelhante resultado! Não valer nada! Então sentiu, como ao princípio dissemos, um estremecimento de revolta que lhe percorreu todo o corpo. Sentiu até às raízes do cabelo o despertar imenso do egoísmo e o eu uivou no abismo deste homem. Há escavações íntimas. A penetração de uma certeza lancinante no homem não se produz sem se romperem certos elementos profundos, que são às vezes o próprio homem. A dor que chega a este ponto é uma debandada de todas as forças da consciência. São crises fatais estas. Poucos de entre nós delas saem semelhantes a si mesmos e firmes no dever. Quando o sofrimento trasborda por fora de todos os limites, nem a virtude mais imperturbável deixa de ficar abalada. João Valjean tornou a pegar na pasta e convenceu-se outra vez; ficou curvado e como petrificado sobre as cinco linhas irrecusáveis, com o olhar fixo e uma tal nuvem na alma, que diríeis estar-se-lhe preparando para um completo desabamento. Examinou aquela revolução, por entre as desmarcadas proporções que lhe dava a sua abstração, com aparente e terrível serenidade, pois é temerosa a serenidade do homem, quando chega à frieza da estátua. Mediu o pavoroso passo que o seu destino havia dado, sem ele o suspeitar, acudiram-lhe à lembrança os temores do passado Verão tão loucamente dissipados e reconheceu o precipício, que ainda era o mesmo, com a diferença de que agora achava-se no fundo dele e não no limiar. Coisa em extremo singular e pungente! Ele caíra a esse abismo sem dar fé. Fora-se-lhe toda a luz da sua alma e ele ficara crendo sempre que via o Sol. O seu instinto não hesitou. Confrontou certas circunstâncias, certas datas, o rubor e a palidez de Cosetta em certas conjunturas, e disse consigo: — É ele! — A intuição da angústia é um como misterioso arco que jamais falha. A sua primeira conjetura acertara logo em Mário. Não sabia o nome, mas descobriu imediatamente o homem. No fundo da sua evocação ao passado, distintamente avistou o desconhecido passeador do Luxemburgo, esse miserável namorador, esse brejeiro de romance, esse imbecil, esse cobarde, pois é cobardia andar a desinquietar com namoricos as filhas que seus pais, que as amam, trazem na sua companhia. Bem convencido da realidade das suas conjeturas, João Valjean, o homem regenerado, o homem que tanto lutara em favor da sua alma, o homem que fizera tão numerosos esforços para converter tudo em amor, deitou os olhos sobre si mesmo e viu em si o espetro do ódio. Após as grandes dores vem o desalento. O homem em quem elas entram sente fugir-lhe o quer que seja. Quando moços, a sua visita é lúgubre; mais tarde é sinistra. Se a desesperação é uma coisa terrível, quando nos ferve o sangue nas veias, quando os nossos cabelos ainda são pretos, quando a cabeça assenta com firmeza sobre o corpo, como a chama sobre o facho, quando o rolo do destino se acha em toda a sua espessura, quando o coração, cheio de um invejável amor, sente ainda pulsações que podem ser correspondidas, quando diante de nós temos aberto um largo horizonte, quando nos achamos ,em todo o vigor, se então a desesperação é uma medonha coisa, que fará na velhice, quando os anos se sucedem rápidos e cada vez mais descorados, nessa hora crepuscular em que se principiam a divisar as estrelas do túmulo? Ao tempo que João Valjean se achava abismado nas suas cogitações, entrou Toussaint. João Valjean ergueu-se e perguntou-lhe: — Para que lado é, sabe? Toussaint, maravilhada da pergunta, retorquiu: — O quê, senhor? — Pois não me disse há pouco que havia barulho na cidade? — tornou João Valjean. — Ah! sim, senhor — respondeu Toussaint. — É para o lado de Saint-Merry. Há certos movimentos maquinais que, sem que nós o suspeitemos, procedem do nosso pensamento mais profundo. Foi, sem dúvida, em virtude do impulso dado por um movimento deste gênero, e de que ele mal tinha consciência, que João Valjean, daí por cinco minutos, se achava na rua em cabelo, sentado no limiar da porta, em atitude de quem escuta. A este tempo era já noite fechada. _sec+Rom:2_ II O gaiato inimigo das luzes Que tempo permaneceu ele assim? Quais foram os fluxos e refluxos do seu melancólico meditar? Ergueu-se? curvou-se? Poderia ainda endireitar-se e tomar pé em algum ponto sólido da sua consciência? Nem ele mesmo talvez o soubesse dizer. Estava deserta a rua. Alguns burgueses assustados, que se recolhiam apressadamente para suas casas, mal deram por ele. Em ocasiões de perigo, cada qual por si. Veio o lampianista, acendeu como de costume o lampião, que ficava justamente defronte da casa número 7, e continuou o seu caminho. João Valjean, se alguém, naquela ocasião, o observasse, não pareceria um homem vivo. Imóvel no limiar da porta, quase o diríeis uma larva de gelo, tão certo ê que a desesperação congela. Ao longe ouvia-se o toque a rebate e alguns vagos e tempestuosos rumores. No meio de todas estas convulsões do sino fazendo parte da revolta, soaram onze horas no relógio de S. Paulo, graves e compassadas, porque o toque a rebate é o homem, a hora é Deus. Esta circunstância nenhum efeito produziu sobre João Valjean, que continuou imóvel. Mal o relógio, porém, acabara de bater as onze badaladas, ouviu-se para o lado dos Mercados uma repentina detonação, seguida de outra ainda mais violenta j era talvez o ataque da barricada da rua da Chanvrerie, ataque que acabamos de ver repelido por Mário. A esta dupla descarga, cuja fúria aumentava na solidão da noite, João Valjean estremeceu; levantou-se, aplicando o ouvido para o lado de onde viera aquele estrondo, e tornou a deixar-se cair no limiar da porta, cruzando os braços e pendendo a cabeça para o peito. Nesta posição continuou o tenebroso diálogo consigo mesmo. De repente, ao ouvir passos de alguém que vinha pela rua, relanceou os olhos, e, ao clarão do lampião, avistou junto aos Arquivos um rosto lívido, juvenil e alegre. Era Gavroche olhando para o ar, como quem procura alguma coisa, e vendo perfeitamente João Valjean, mas sem ter consciência de que o via. Depois de ter olhado para cima, Gavroche olhou para baixo, pondo-se em bicos de pés para apalpar as portas e janelas do rés-do-chão, que todas estavam fechadas e aferrolhadas. Corridas assim, cinco ou seis portas, nenhuma das quais encontrou aberta, o gaiato encolheu os ombros e entrou em matéria consigo mesmo nestes termos: — Ora, sebo! Em seguida a isto, pôs-se de novo a olhar para o ar. João Valjean, que um momento antes, na situação de alma em que jazia, não teria falado nem mesmo respondido a ninguém, agora sentia-se irresistivelmente impelido a dirigir a palavra àquela criança. — Tu que tens, pequeno? — perguntou-lhe ele. — Tenho fome! — respondeu Gavroche, desembaraçadamente. E acrescentou: — Também você é pequeno. João Valjean meteu a mão ao bolso e tirou uma moeda de cinco francos. Gavroche, porém, que era uma espécie de borboleta, passando rapidamente de um gesto a outro, ao reparar no lampião, pegara numa pedra e exclamava: — Olé! pois vocês ainda aqui consentem disto! Nada, meus amigos, isto não está nos termos, e, portanto, a terra com a lamparina! E atirou a pedra ao lampião, cujos vidros caíram com tal estrondo, que alguns burgueses emboscados atrás das cortinas da casa fronteira exclamaram: — Isto nem em 93! O lampião oscilou violentamente e apagou-se, ficando a rua repentinamente às escuras. — Gosto disto! — acudiu Gavroche. — Pois não, senhora rua velha; ponha o seu barrete de dormir! E, voltando-se para João Valjean, acrescentou: — Como se chama aquele monumento grande que acolá está à entrada da rua? São os Arquivos, não são? Quem me pilhara aquelas colunas para uma barricada! — Pobre criança! — disse João Valjean, a meia voz, aproximando-se de Gavroche, e como se falasse consigo mesmo. — Sabe Deus a fome que ele terá! E meteu-lhe os cinco francos na mão. Gavroche fitou o seu olhar penetrante no rosto do velho, maravilhado da grandeza da dádiva. Examinou por entre a escuridão a moeda, que ao princípio tomava por um soldo, e ficou encantado por se ver senhor de uma moeda de cinco francos, as quais só conhecia de tradição. Pôs-se a mirar algum tempo o dinheiro, dizendo: — Contemplemos o tigre—; depois voltou-se para João Valjean e disse-lhe com gesto majestoso, entregando-lhe os cinco francos: — Burguês, prefiro quebrar os lampiões. Tome lá o seu animal feroz. Eu não me deixo subornar. O tal bicho tem cinco garras, mas a mim não me arranha! — Tens mãe? —perguntou-lhe João Valjean. — Mais talvez do que você. — Pois então — tornou João Valjean — guarda esse dinheiro e dá-o a tua mãe. Gavroche sentiu-se comovido. Afora isto, acabava de reparar que o homem estava em cabelo, o que lhe inspirava confiança. — Mas diga-me, não é para eu não quebrar os lampiões, pois não? — Quebra lá o que quiseres. — Isso é que se chama falar! — disse Gavroche, metendo no bolso a moeda de cinco francos. Em vista da sua crescente confiança, acrescentou: — O senhor mora nesta rua? — Moro, porquê? — Então faz favor de me dizer onde é o número 7? — O número 7, para quê? Neste ponto, o gaiato emudeceu, como se receara ter dito de mais, e limitou-se a responder, correndo com força a mão pelos cabelos: — Para que sim! Uma súbita idéia perpassara pelo espírito de João Valjean. A angústia tem destes clarões. — Tu é que trazes a carta que eu espero? — Você? —respondeu Gavroche. — Você não é mulher. — A carta é para a menina Cosetta, não é? — Cosetta? — disse Gavroche por entre dentes. — Espere, parece-me que é assim um nome ratão. — Pois quem lhe há de entregar a carta sou eu. Dá-ma. — Nesse caso, deve saber que venho da barricada? — Pois não sei! — disse João Valjean. Gavroche meteu a mão a um dos bolsos e tirou um papel dobrado em quarto. Depois fez uma continência militar e acrescentou: — Respeito ao despacho, que vem do governo provisório. — Dá cá — disse João Valjean. Gavroche, porém, conservava o papel levantado acima da cabeça. — Não cuide que ê alguma carta de namoro. É para uma mulher, mas a favor do povo. Cá nós batemo-nos, porém respeitamos o sexo! Não somos como a alta sociedade, onde há leões misturados com camelos! — Dá cá. — Se quer que lhe diga, — continuou Gavroche — o senhor parece ser pessoa de bem. — Dá cá depressa! — Pegue. E entregou o papel a João Valjean. — A resposta deve ser levada a Saint-Merry? — tornou João Valjean. — Era uma tolice chapada que vossemecê fazia! — Essa carta vem da barricada da rua da Chanvrerie, para onde volto. Boas-noites, cidadão! Dito isto, partiu Gavroche, ou, para melhor dizer, retomou para o sítio de onde viera o seu vôo de pássaro fugido, fendendo a escuridão com a rigidez rápida de um projétil. Um instante depois que aquela criança se sumira na escuridão, como um pouco de fumo nas trevas, a estreita rua do Homem Armado, orlada de duas extensas fileiras de casas escuras, tornou-se silenciosa e solitária como antes. Dir-se-ia que o gaiato tinha desaparecido em alguma oculta região superior, se, alguns minutos depois da sua desaparição, não viesse despertar outra vez os burgueses indignados um súbito tinido de vidros e o estrondo de um lampião caindo. Era Gavroche, que, naquela ocasião, ia a passar pela rua do Chaume. _sec+Rom:3_ III Enquanto Cosetta e Toussaint dormem Apenas o gaiato partiu, recolheu-se João Valjean a casa, com a carta de Mário na mão. Subiu a escada às apalpadelas, satisfeito das trevas, corno o mocho que se vê senhor da presa, abriu e fechou de manso a porta, aplicou o ouvido a ver se ouvia algum rumor, e inteirado de que, segundo todas as aparências, Cosetta e Toussaint dormiam, acendeu luz, com a mão trêmula, como o ladrão que se introduz furtivamente numa casa, sentou-se à mesa, abriu o papel e leu-o. O homem dominado por alguma emoção violenta não lê, devora, para assim dizer, o papel que segura na mão, aperta-o como uma vítima, amarrota-o, crava-lhe as unhas da sua cólera ou da sua alegria; corre ao fim, salta ao princípio, com atenção febril, prestando sentido apenas ao essencial, passando por alto quanto ao demais. Na carta de Mário a Cosetta, João Valjean só viu isto: “... Morro! Quando leres isto, estará a minha alma a teu lado!” Em presença destas duas linhas, João Valjean sentiu um deslumbramento horrível; ficou um momento como que esmagado pela mudança de emoção que nele se operava, fitando a carta de Mário com uma espécie de pasmo ébrio; tinha diante dos olhos um esplêndido clarão — a morte do homem que odiava. A esta idéia, João Valjean soltou um medonho grito interior. Deste modo, acabava tudo. Tinha lugar o desfecho mais depressa do que ele o ousaria esperar. Desapareceria o ente que lhe entulhava o destino. Partia espontânea, livremente, de boa vontade. “Aquele homem”, pois, ia morrer, sem que ele, João Valjean, para isso concorresse, nem levemente. Quem sabia mesmo se ele já estaria morto? Neste ponto, a febre de João Valjean principiou com os seus cálculos. — Nada. Por ora, ainda não morreu. Esta carta foi visivelmente escrita para ser lida por Cosetta amanhã pela manhã, e depois daquelas duas descargas, que se ouviram entre as onze horas e a meia-noite, não se tornou a ouvir mais nada; a barricada não será atacada seriamente senão de madrugada, mas é o mesmo. Desde o momento em que “esse homem” se envolveu em semelhante guerra, ficou perdido! E esta idéia aliviava profundamente João Valjean, porque ia achar-se só com Cosetta, porque ia cessar a concorrência, porque ia recomeçar o futuro para ele. Bastava que ele guardasse no bolso aquela carta e Cosetta ficaria ignorando sempre o que fora feito de “semelhante homem”. — E deixar correr as coisas. Esse homem não pode escapar. Se ainda não morreu, não tardará que morra. Que ventura! Apenas, porém, acabou este monólogo, João Valjean tornou-se sombrio. Depois tornou a descer a escada e acordou o porteiro. Quase daí por uma hora, João Valjean saía armado e fardado de guarda nacional. O porteiro arranjara-lhe com pouco custo na vizinhança o resto do seu equipamento. Transposto o limiar da porta, em que, pouco antes, estivera sentado, encaminhou-se para o lado dos Mercados com a sua espingarda carregada e a patrona cheia de cartuchos. _sec+Rom:4_ IV Zelo excessivo de Gavroche Ao mesmo tempo, acabava Gavroche de passar por uma aventura. Depois de conscienciosamente ter apedrejado o lampião da rua do Chaume, Gavroche chegou à rua das Vieilles Haudriettes, e não “vendo bóia”, achou que era ocasião oportuna para cantar com todas as forças dos seus pulmões. Esta circunstância, longe de lhe retardar o passo, acelerava-lho. O gaiato, pois, principiou a semear ao longo das casas adormecidas ou apavoradas algumas coplas incendiárias. Ao mesmo tempo que cantava, Gavroche gesticulava com força. O gesto é o ponto de apoio do estribilho. O seu rosto, inexaurível reportório de máscaras, fazia caretas mais convulsivas e extravagantes do que um pano roto estendido ao vento. Infelizmente, como era de noite e ele ia só, nada disto era visto nem visível. Não faltam por aí destas riquezas perdidas. De súbito, o gaiato calou-se. — Interrompamos a música — disse ele. Seus olhos felinos acabavam de avistar a um portão o que em pintura se denomina um “todo”, isto é, um ente e uma coisa; a coisa era um carro de mão, o ente um aldeão de Auvergne, deitado sobre ele. Descansavam no chão as varas do carro e a cabeça do aldeão apoiava-se na traseira do carro. Assim jazia naquele plano inclinado, de modo que com os pés tocava o chão. Gavroche, com a sua experiência das coisas deste mundo, conheceu imediatamente que se achava em presença de um bêbado. Era algum moço de fretes que bebera de mais, e por isso dormia também de mais. — Ora aí está para que servem as noites de Verão! — disse Gavroche. — Para um auvergnês dormir no seu carro! — Pois toma-se o carro para a república e deixa-se o auvergnês à monarquia. O seu espírito acabava de ser iluminado pelo seguinte clarão: — Este carro faria um maravilhoso arranjo para a nossa barricada. O auvergnês ressonava. Gavroche puxou devagarinho o carro pela parte de trás e o auvergnês por diante, isto é, pelos pés, e, ao cabo de um minuto, o auvergnês jazia no chão, sem ter dado rumor de nada, e o carro completamente desembaraçado. Gavroche, preparado para todas as eventualidades possíveis, trazia sempre consigo tudo o que lhe podia ser mister. Deste modo, pois, meteu a mão ao bolso, tirou um bocado de papel e um pedaço de lápis vermelho, bifado talvez a algum carpinteiro, e escreveu: “República Francesa”. “Recebi o teu carro”. E assinou: “Gavroche”. Feito isto, meteu o papel no bolso do colete de cotim do auvergnês, que continuava a ressonar, pegou no carro e partiu em direção aos Mercados, levando-o adiante de si a galope, com glorioso e triunfal estrondo. Isto, porém, era perigoso. Na Imprensa Régia havia um posto de guarda, o que nem pela lembrança lhe passara. Este posto era ocupado por guardas nacionais do termo, que principiavam a mover-se com certa agitação. Dois lampiões quebrados, um após outro, a canção, cantada com toda a força, tudo isto era muito para ruas tão medrosas, que, ao pôr do Sol, já têm sono, e que apagam as luzes tão cedo. Havia uma hora que o gaiato, naquela pacífica região, fazia o estrondo de um besouro dentro de uma garrafa. O sargento da guarda aplicava o ouvido e esperava, o que denotava um homem prudente. O insólito estrondo do carro rodando fez extravasar a medida da expectativa possível e determinou o sargento a tentar um reconhecimento. — É algum bando deles; — disse o soldado — por isso nada de precipitação! Era evidente que a hidra da anarquia saíra do seu antro e só andava à solta pelo bairro, fazendo das suas. O sargento, portanto, aventurou-se a sair fora da casa da guarda em bicos de pés. De repente, Gavroche, ao desembocar com o seu carro da rua das Vieilles Haudriettes, achou-se em frente de uma farda, de uma barretina, de um penacho e de uma espingarda. A esta vista, Gavroche pela segunda vez parou. — Olé! — disse ele. — É vossemecê, sra. Ordem Pública? Estimo que tenha passado sem novidade! Os espantos de Gavroche findavam depressa. — Para onde vais, vadio? — gritou o sargento. — Cidadão, — disse Gavroche — se eu ainda lhe não chamei burguês, por que me insulta? — Para onde vais, maroto? — Senhor, vossemecê ontem talvez fosse um homem de espírito, mas hoje está de todo! — Pergunto-te para onde vais, brejeiro? Gavroche respondeu: — Isso é que é falar! Realmente, ninguém há de dizer a idade que vossemecê tem! Se fosse a si, vendia os cabelos a cem francos cada um! Fazia quinhentos francos! — Para onde vais? para onde vais? para onde vais, ladrão? Gavroche replicou: — Isso não são coisas que se digam! Para outra vez, quando lhe derem de mamar, que lhe limpem melhor a boca! O sargento cruzou a baioneta. — Tu dizes-me para onde vais ou não, miserável? — Meu general, — disse Gavroche — vou chamar o médico para minha mulher, que está de parto! — Às armas! — gritou o sargento. A sublimidade dos homens esforçados consiste em salvarem-se por meio daquilo mesmo que os deitou a perder; Gavroche com um só olhar mediu o perigo da situação em que se achava. Fora o carro que o perdera, era o carro que o devia salvar. No instante em que o sargento se preparava para arremeter contra Gavroche, este impelia o carro para cima dele com toda a força dos seus braços, à maneira de projétil, e o sargento, apanhado pelo ventre, caía de costas no chão, disparando a arma para o ar. Ao grito do sargento, saíram os soldados de tropel de dentro da casa da guarda; o tiro do sargento determinou uma descarga geral dada ao acaso, após a qual carregaram de novo as armas e deram outra. Este tiroteio à cabra-cega durou um bom quarto de hora, matando apenas alguns vidros. Ao mesmo tempo, Gavroche, que tinha retrocedido apressadamente, parava a grande distância daquele ponto, sentando-se, arquejante, no poial que faz esquina para a rua dos Enfants Rouges. Chegado ai, aplicou o ouvido. Depois de, por alguns instantes, haver arquejado, voltou-se para o lado onde continuava o furioso tiroteio, elevou a mão esquerda à altura do nariz, ao mesmo tempo que com a direita batia na nuca; gesto soberano, em que os gaiatos de Paris condensam a ironia francesa, e que é evidentemente eficaz, visto que há meio século que ele dura. Esta alegria foi perturbada por uma reflexão amarga. — Não há dúvida — disse ele—o divertimento vai bom, mas o pior é que tenho de dar uma volta, é tempo que perco para chegar à barricada. Se a tomavam sem eu lá estar. Dito isto, deitou de novo a correr e acrescentou, sem deixar o passo apressado que levava: — É verdade, em que ponto ia eu? E principiou a cantar com a sua voz juvenil, que gradualmente se ia perdendo nas trevas, o resto da sua canção. O tiroteio, porém, de alguma coisa serviu. Foi conquistado o carro e feito prisioneiro o bêbado. O primeiro foi posto em depósito e o segundo teve de se haver com a justiça. O Ministério Público de então deu, nesta conjuntura, clara prova do seu incansável zelo na defesa da sociedade. A aventura de Gavroche ficou fazendo parte das tradições do Templo e é uma das recordações mais terríveis dos velhos burgueses do Marais. Dela falam ainda hoje, apelidando-a Ataque noturno da guarda da Imprensa Régia. FIM DO QUARTO VOLUME