O crescente número de mulheres a entrar nas faculdades de Medicina está a causar apreensão entre alguns sectores da classe médica e das próprias instituições de ensino. Há mesmo quem defenda a criação de quotas para homens, numa tentativa de travar a presença maioritária das universitárias nestes cursos. António Sousa Pereira, médico e presidente do conselho directivo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto, é taxativo: se o modelo de ingresso nos cursos de Medicina não for alterado, "terão de ser criadas quotas para os homens nestas faculdades". A ideia, garante, é partilhada por outros colegas. "Toda a gente fala disto à boca pequena; como é um assunto polémico, há um certo receio de discuti-lo", explica. Segundo números fornecidos pelo Ministério da Ciência e do Ensino Superior, existem mais 1500 mulheres que homens a frequentar, neste ano lectivo, os diversos cursos de Medicina existentes em Portugal. Esta maioritária presença feminina nas turmas vai originar, nos próximos anos, um aumento do já de si elevado número de mulheres a exercer Medicina. "É indiscutível que é necessário haver um maior equilíbrio de sexos", defende também o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Germano de Sousa. O bastonário diz mesmo que, se a situação não se alterar, prevê "muitos problemas" para os próximos anos. O facto de haver áreas da Medicina pouco escolhidas pelas mulheres (como a Urologia e a Ortopedia) não quer dizer que elas não sejam maioritárias em quase todos os colégios de especialidades médicas. A questão da introdução de quotas começou a ser discutida em força, em Setembro do ano passado, numa reunião anual da Associação de Educação Médica Europeia realizada em Berna, na Suíça. Com o número das mulheres médicas a aumentar em toda a Europa, as faculdades de Medicina discutem já oficialmente a preocupação inerente à mudança de "hábitos e normas" em áreas até agora quase exclusivamente masculinas. Em Portugal, a revista "Nortemédico", pertencente à secção regional do Norte da Ordem dos Médicos, fala também no assunto na sua última edição. Em entrevista, António Sousa Pereira explana a sua posição em relação a esta questão. "Maternidade afasta as mulheres do serviço" O bastonário sabe que, "com o actual sistema de acesso aos cursos de Medicina, entram mais mulheres do que homens" nas faculdades. Para isso conta muito, em seu entender, o facto "de as estudantes terem mais juízo e estudarem mais do que os rapazes". E que modelo de acesso preferia Germano de Sousa? "Defendo que a nota de candidatura aos cursos de Medicina deve ser de 14 valores e que às notas deve juntar-se outro tipo de provas capazes de evitar que um aluno com notas excelentes e uma má formação geral possa ser um mau médico", esclarece. Em relação à criação de quotas para os estudantes de Medicina, "no abstracto", o bastonário mostra-se "contra, porque as quotas parece sempre que são para defender um ser inferior". Mas admite que, "oficiosamente, o assunto vai surgindo". Até porque, considera, para além de homens e mulheres terem formas diferentes de trabalhar, "a maternidade afasta as mulheres do serviço e tira-lhes alguma da capacidade de doação à profissão". Mesmo assim, as mulheres são maioritárias em todas as escolas médicas existentes em Portugal: nas universidade da Beira Interior, de Coimbra, da capital (Universidade de Lisboa e Nova de Lisboa), do Minho e do Porto (Faculdade de Medicina e ICBAS). Uma Medicina "cada vez mais no feminino", sobre a qual Germano de Sousa diz que é preciso "reflectir". "É necessário rever todo o sistema e é fundamental que o Ministério da Ciência e Ensino Superior, bem como o da Saúde, aceitem entrar na discussão", finaliza.