Foi mais um festival de José Mourinho, que confirmou a sua veia poliglota (respondeu em português, espanhol e inglês e ficou-se por aí porque os jornalistas franceses não fizeram perguntas), mas que mostrou principalmente perícia na forma como lidou com as perguntas que vinham do lado direito da sala, o "sector Chelsea", onde estavam sentados os repórteres ingleses. De resto, Mourinho anunciou um jogo entre equipas iguais e não assumiu o favoritismo. Pediu desculpa aos jogadores que vai deixar de fora hoje frente aos franceses do Mónaco e disse querer abraçar todo o plantel após a final da Liga dos Campeões. A final de Gelsenkirchen terá de ser, na sua opinião, "um grande espectáculo" porque as duas equipas devem isso "aos amantes de futebol. O primeiro jornalista inglês quis saber como se sentia antes do seu último jogo à frente do FC Porto. Mourinho ladeou a questão: "Não sei se é o último; sei que é o mais importante da minha carreira e para o qual trabalhámos dois anos e meio. Não somos melhores jogadores ou treinadores por ganharmos esta competição, mas, já que chegámos aqui, queremos levar a taça para casa". O segundo foi mais agressivo e perguntou-lhe se já tinha assinado pelo Chelsea. "Isso é uma questão privada e só tem a ver comigo e com o presidente do FC Porto, com quem tenho mais dois anos de contrato". O terceiro insistiu, questionando se as notícias da ida para o Chelsea não podiam distrair a equipa portuguesa. "Não. Há algumas semanas atrás disse que não queria saber de clubes, presidentes e agentes. Isso é muito claro para mim. E se vocês falarem com os jogadores eles dirão que eu sou o mesmo. O nosso futuro pode ser na quinta-feira, mas esta taça [e apontou para ela] merece cem por cento da nossa concentração". O quarto perguntou-lhe o que achava do facto de, pela primeira vez na história da Liga dos Campeões, os dois treinadores finalistas irem mudar de clube. "Em todas as profissões se procuram os que têm êxito. Se se contratassem presidentes estariam atrás dos do FC Porto e do Mónaco. E o mesmo para os roupeiros". A armadilha Não foi preciso que lhe pedissem explicações para a noticiada zanga com Pinto da Costa. Mourinho como que pareceu antecipar-se e enalterceu a importância de uma boa relação e convivência entre um treinador e a administração do respectivo clube. "Não me passa pela cabeça ser treinador num clube em que não tenha boa relação com o presidente. Aconteceu-me no Benfica e eu saí". Mais um sinal, como o PÚBLICO noticiou ontem, de que as pazes estão feitas e tudo está normalizado entre o treinador e o presidente. Aliás, contaram ao PÚBLICO, para isso terá contribuído uma armadilha que nos últimos dias terá sido montada a Mourinho e que visava desacreditá-lo e criar-lhe problemas a vários níveis. Mas o efeito terá sido exactamente o contrário, com os autores da história falsa (empresários sedentos de negócios e que se sentiram ultrapassados na decisão do futuro do treinador) a serem desmascarados. Pinto da Costa soube de tudo e aquela (falsa) história serviu não só para que a relação entre os dois voltasse a ser o que era antes, mas também para compreender alguns contornos das histórias que foram contadas sobre o Chelsea. No mais, Mourinho também foi igual a si próprio. Disse que a final será "entre duas equipas muito iguais" e que chegaram à final "pelas mesmas razões": "Porque não têm cinco, seis ou sete dos melhores jogadores do mundo, mas jogam como equipa". Preparados todos os condicionantes do jogo, revelou ter pedido apenas mais uma coisa, que "os jogadores actuem com a sua identidade própria". O técnico portista prevê um jogo muito equilibrado entre duas equipas que se conhecem. "Vai ter um resultado curto (não digo que não haja vários golos, mas não haverá diferenças como, por exemplo, um 4-1)". Tudo, na sua opinião, pode apenas depender de "um erro individual ou de uma jogada fantástica". Mais importante, acrescentou, será os jogadores "saberem controlar as suas emoções", uma capacidade fundamental na "prova entre clubes mais importante do mundo". Deschamps destacou Deco e Mourinho contrapôs: "Ele sabe que o Deco é um grande jogaador e eu sei ainda melhor porque trabalho com ele há dois anos e meio. Vai tentar controlá-lo e eu vou tentar criar-lhe condições para que ele jogue bem". Quando alguém lhe perguntou se tinha treinado os penaltis, parecia ter a resposta na ponta da língua. "Quinta treinei a organização defensiva; sexta treinei a organização atacante; sábado treinei a transição defesa-ataque; domingo treinei a transição ataque-defesa. Segunda treinei os penaltis. Hoje [ontem] não vou treinar nada, haverá apenas um pouco de movimentação, adaptação à relva e ao estádio e relaxamento e gozo". O relvado? "Não está mau. Em comparação com o de Sevilha é luxuoso". Mourinho deve ter gostado da relva curtinha, que dá mais velocidade ao jogo, mas lá de cima viam-se algumas "peladas". "51 contra 49" para o médico dormir "Não somos favoritos e ninguém aqui nesta sala poderia esperar uma final entre o FC Porto e o Mónaco. Por isso, quero que a minha equipa seja feliz; por isso queremos ser campeões. Mas, se não formos, teremos razões para continuarmos a estarmos satisfeitos com o que fizemos", disse ainda Mourinho, para quem o futebol portista "tem de ter a bola e, quando não a tem, tem de recuperá-la o mais rápido possível". Até porque quer "ver o jogo e poder dizer que este é o FC Porto" que viu nos últimos dois anos e meio. Em sua opinião, a final de Sevilha foi "das melhores dos últimos tempos", porque teve duas equipas "que queriam ganhar". E quer que isso se repita, até porque "os jogos tácticos", como previu Deschamps, "também podem ser espectaculares". "Devemos isso ao futebol e àqueles quem o amam. Não quero que a minha equipa jogue para o 0-0 e para os penaltis. Quero que jogue bom futebol e que mostre ao mundo que os "outsiders" também podem vencer". Deixou ainda algo que soou a despedida. "Quero sair deste jogo e abraçar os meus jogadores, ganhando ou perdendo, porque o que fizemos nestes dois anos foi extraordinário". Acabou por fazer um cedência: "Só um dos meus médicos, Nélson Puga, me obrigou a dizer que temos 51 contra 49 por cento de ganharmos. Fi-lo porque me disse que não conseguia dormir se eu não lhe dissesse pelo menos isso...". Mas a sua verdadeira opinião é mais repartida: "Nós passamos barreiras enormes, mas eles não passaram mais pequenas". Por isso, a decisão do jogo passará por detalhes: "Morientes na cara do Baía atira dentro ou fora... num livre nosso a bola vai à trave ou entra...". Carlos Alberto de início Mourinho recusou-se a divulgar a equipa, porque também não sabia como ia jogar o Mónaco ("Se conseguirem que o Deschamps diga a dele, eu digo a minha...), garantindo apenas que será exactamente a mesma que "tinha na cabeça" há uma semana. Mas, apurou o PÚBLICO, o mais provável é que dê a titularidade a Carlos Alberto e deixe McCarthy no banco de suplentes, mantendo o 4x4x2. "Temos dois sistemas diferentes, mas o modelo e a forma de abordar o jogo são os mesmos", referiu apenas Mourinho, antes de garantir que a equipa "está muito bem do ponto de vista físico", como ficou provado na final da Taça de Portugal. Disse também Mourinho que viveu uma das "piores e mais dolorosas situações" da sua carreira quando teve de fazer a convocatória para a Alemanha, pedindo "desculpa" aos jogadores que tanto trabalharam e não irão ser titulares ou, pior, irão ver o jogo da bancada.