O processo de investigação ao "saco azul" da Câmara de Águeda e ao deputado do PSD António Cruz Silva lança suspeitas sobre financiamento partidário local e nacional. Parte das verbas alegadamente desviadas da Câmara de Águeda foram depositadas numa conta bancária de um empresário local que admitiu ter adiantado cerca de 150 mil euros para a campanha local do PSD. Noutra conta da estrutura nacional do PSD no BPI, que tem como titulares José Luís Arnaut, ex-secretário-geral do PSD, José Matos Rosa, secretário-adjunto com o pelouro financeiro e Pedro Nuno Torres Xavier, director financeiro do partido, foi depositado pelo menos um cheque de Cruz Silva. Este último movimento bancário, cujo montante o PÚBLICO não apurou, foi detectado nas contas do deputado social-democrata Cruz Silva, um dos envolvidos no processo do "saco azul" de Águeda, que tem também como arguido o presidente deste município, Castro Azevedo. A informação sobre os movimentos destas contas já é conhecida em círculos restritos do meio político de Águeda e do PSD a nível nacional. José Luís Arnaut, na qualidade de primeiro titular da conta e ex-responsável pela vida financeira do PSD, pode vir a ser notificado para prestar declarações como testemunha no âmbito do processo de peculato e corrupção em que estão envolvidos Castro Azevedo e o deputado Cruz Silva. Segundo apurou o PÚBLICO, este é um passo quase incontornável neste inquérito que dura há mais de um ano e meio e que teve o seu momento alto em Janeiro de 2003, quando o presidente da Câmara de Águeda, Castro Azevedo, foi constituído arguido num processo judicial por suspeita da prática dos crimes de corrupção e peculato. Depois de um interrogatório no Tribunal de Águeda, o autarca saiu em liberdade mediante o pagamento de uma caução de 100 mil euros, ficando inibido de entrar nos Paços do Concelho de Águeda enquanto durar a investigação. Já depois de o autarca ter pedido a suspensão de mandato, foi constituído arguido, no âmbito do mesmo processo, o empresário Joaquim Mateus, que é também presidente da Junta de Freguesia de São João da Madeira, a quem foi aplicada como medida de coacção o pagamento de uma caução de 150 mil euros. O deputado António Cruz Silva refugiou-se durante meses na imunidade parlamentar, e só acabou por ser ouvido por um magistrado em Outubro de 2003, no Departamento de Investigação e Acção Penal de Coimbra, tendo sido constituído arguido e sujeito a termo de identidade e residência. Detectados outros depósitos para pagar campanha local do PSD Nos últimos meses, as investigações foram dirigidas para tentar apurar o destino do dinheiro que, supostamente, terá sido desviado da autarquia aguedense através do recurso a facturas e vendas a dinheiro alegadamente falsas. O dinheiro entregue a Cruz Silva terá passado pela conta de uma familiar, sendo depois usado para efectuar pagamentos e depósitos em diversas contas. Mais de dez mil euros por mês terão sido depositados durante um largo período de tempo na conta de um empresário de Águeda com interesses na comunicação social local. Depois de alguma hesitação inicial, o empresário terá explicado no âmbito da investigação que os depósitos serviam como o pagamento do dinheiro, aproximadamente 150 mil euros, que avançou para custear a última campanha autárquica do PSD em Águeda. Este episódio vem reforçar a convicção, expressa em voz alta por dirigentes do PS local, de que na génese deste caso estão eventuais situações de financiamento ilegal partidário. Durante os quase 20 anos em que dirigiu a concelhia de Águeda do PSD, o deputado Cruz Silva ficou famoso pelos seus contactos privilegiados com os dirigentes nacionais do partido (em especial durante o "cavaquismo", em que era presença constante nos gabinetes ministeriais, fazendo-se anunciar como "o Silva de Travassô") , e ainda pela capacidade em obter resultados eleitorais. A câmara está na posse do PSD desde as primeiras eleições autárquicas e partido "laranja" continua a ser a principal força política do concelho apesar de todos os incidentes, o último dos quais ocorrido em finais de Março, quando Elói Correia, vice-presidente, que dirigia interinamente a autarquia, renunciou ao cargo, alegadamente por não querer pactuar com eventuais pressões de Castro Azevedo. As suspeitas de que algo estaria a correr mal na autarquia surgiram através de uma denúncia feita por autarcas do PS, que chamaram a atenção para o facto de a câmara ter comprado à empresa de Cruz Silva, a Unicola, uma "quantidade exorbitante" de colas e tintas, num total aproximado de 55 mil euros. As ordens de pagamento das vendas a dinheiro foram assinadas por Castro Azevedo, mas a suspeita é a de que as vendas terão sido fictícias, uma vez que as entregas decorreram aos sábados, domingos e feriados, sem a presença de funcionários municipais, não havendo qualquer registo fidedigno da entrada dos materiais ou da sua utilização. Já a empresa Arsol, de Joaquim Mateus, terá recebido cerca de 50 mil euros da autarquia por ordem directa de Castro Azevedo, para pagamento de tubos de água adquiridos sem qualquer concurso ou consulta prévia. Os tubos deveriam ter sido usados em fontenários de três lugares de Águeda, mas a suspeita, confirmada por investigações posteriores, é a de que nunca terão existido.