Fundado em 1919, o Mónaco está a um passo de fazer história, tendo a possibilidade de escrever a letras de ouro uma página ímpar no contexto do futebol europeu. Curiosamente, tudo pode acontecer numa época que começou muito mal, com o clube a sofrer a ameaça de ser relegado para a segunda divisão por dívidas fiscais - mais tarde sanadas, o que possibilitou manter-se na principal divisão francesa. Didier Deschamps parece ser o elemento mais consciente disso mesmo e utilizou uma táctica de dispersão na conversa com os jornalistas. Numa conferência de Imprensa que durou um pouco mais de vinte minutos, o treinador que muitos clubes perseguem - a Juventus continua bem colocada para assegurar os seus serviços - quis deixar bem claro que o Mónaco não é o favorito. Podia fazer como Mourinho, que dá iguais percentagens de êxito para cada lado, mas não. Passou a mensagem de que o FC Porto é que o favorito e com isso pretende retirar a pressão que recai sobre o Mónaco, ao mesmo tempo que a desloca para o adversário. É que o único inconveniente de eliminar o Real Madrid é passar a ser apontado como um favorito. Deschamps sabe disso e recordou os últimos feitos do FC Porto para sustentar a tese de que o Mónaco está em Gelsenkirchen para jogar aquilo que José Mourinho deixar. A expressão não é exactamente assim, mas a ideia é esta. A tese de Deschamps já foi utilizada por Mourinho, porque é mais fácil jogar se os holofotes estiverem concentrados na outra equipa. Aos 35 anos, Didier Deschamps arrisca tornar-se no mais jovem treinador campeão europeu. O FC Porto é o único que pode impedi-lo. PERGUNTA| O Mónaco escolheu um local recatado para preparar o jogo mais importante da história do clube. Como está a equipa? DESCHAMPS| A equipa está muito bem. Encontrámos a tranquilidade necessária para preparar o jogo, evitando perturbações do exterior. A equipa está o mais tranquila possível. P| Não seria mais motivador para o Mónaco defrontar uma equipa mais poderosa e com mais prestígio do que o FC Porto? R| Mesmo que o FC Porto não tenha o prestígio de um clube como o Real Madrid ou o Milan, por exemplo, não deixa de ser uma grande equipa. Para mim são favoritos. Isto porque o FC Porto venceu a Taça UEFA na época passada. O Mónaco não é favorito e estamos numa posição de defrontar um adversário que no papel é mais forte do que nós. P| A abordagem táctica deste jogo será diferente da realizada contra o Real Madrid. Será mais difícil? R| O FC Porto é uma equipa muito sólida. Tem jogadores bons, como o Deco, Carlos Alberto, Derlei, Jankauskas e McCarthy. São jogadores que fazem a diferença. Para além disso têm um bloco sólido, funcionam como equipa, são agressivos. Os jogos com o Manchester, o Lyon e o Corunha são exemplos disso mesmo. O FC Porto é uma equipa que impede o adversário de jogar, não dá espaços, é muito boa a fazer pressing. Sabendo disto, temos que encontrar soluções. P| Qual a importância do Morientes no Mónaco? R| O Fernando [Morientes] é um jogador muito importante, de nível internacional. Basta ver que ganhou três vezes a Liga dos Campeões [sempre pelo Real Madrid, em 1998, 2000 e 2002]. Apesar disso, é um jogador humilde, que se integrou bem no Mónaco. Trouxe experiência à equipa e sem ele o Mónaco não estaria na final. A sua presença dá-nos segurança. Nos grandes jogos são os grandes jogadores que brilham. P| O FC Porto e o Mónaco têm parecenças, tal como o Deschamps e o Mourinho. O pode decidir o jogo? R| Pormenores. Não podemos cometer erros na defesa e tentaremos marcar golos. Estamos a tentar prever tudo o que possa acontecer, mas dependerá do que o FC Porto nos deixar fazer. As duas equipas têm hipóteses. P| Esta é uma final entre o Mourinho e o Deschamps para se decidir quem será o treinador do Chelsea? R| Não respondo a isso. Só falo da Liga dos Campeões. "Influência de Deco é enorme" P| O Deco vai merecer uma marcação especial? R| É difícil responder. O Deco é um jogador muito importante, decisivo, que individualmente faz a diferença. Joga em todos os lados do campo, sem zonas fixas, e a influência dele na equipa é enorme, estendendo-se a várias zonas... P| O FC Porto acabou mais cedo a época do que o Mónaco. Isso poderá pesar no rendimento das equipas? R| Não. É melhor continuar a jogar para manter o ritmo de competição. Mas a verdade só se saberá amanhã [hoje]. Um jogo por semana não cria problemas a uma equipa. P| O FC Porto faz muitas faltas. O que vai dizer aos jogadores sobre isto? R| As faltas fazem parte do seu jogo, apesar de a equipa ter outras características. Temos de manter a defesa sólida, com agressividade. P| Espera uma final divertida ou, nem por isso, talvez mais táctica? R| Vamos jogar para ganhar, sabendo que muita coisa importante está em jogo. Temos de correr riscos e acho que o FC Porto também actuará assim. Será um jogo muito táctico e a diferença será nos pormenores. É cada vez mais raro uma final espectacular, porque há muita coisa em jogo. Por isso, não se podem cometer erros. P| Acha que Mourinho vai jogar com Carlos Alberto ou McCarthy? R| Acho que sei com quem vai jogar mas não lhes digo...