O FC Porto é campeão europeu, um ano e poucos dias depois de ter ganho a Taça UEFA. Só quem for capaz de recordar exactamente o que pensou nessa altura poderá fazer uma ideia ténue de como a meta ontem alcançada parecia impossível. Lentamente passou a improvável - talvez em Manchester -, depois avançou para verosímil e acabou assim, como se viu, magnífica, num estádio à altura da data, encharcado de portistas como não esteve o Prater, há 17 anos. É essa a medida do crescimento do FC Porto, que ontem perdeu o contributo de um treinador extraordinário. Não custa nada agradecer-lhe os títulos, o bom futebol e a noção de que há sempre maneira de viajar para além dos limites. Ou de perceber que eles não existem. O jogo foi simples? Não, mas pareceu. Emotivo? Pelos arrepios que o Mónaco provocou nos dois terços azuis do estádio, com certeza. Concludente? Sem a mínima dúvida. Deschamps pensou muito bem no adversário, comparou estratégias e escolheu uma, mas a dele não resultou e a do FC Porto sim, a vários tempos, apesar do começo difícil, muito parecido até com o da recente final da Taça de Portugal. O francês procurou aproveitar a defesa alta - não confundir com pressão alta -, arrastando os centrais para o meio-campo a fim de os "desonrar" em seguida, jogando entre eles ou nas costas. Baía esperou dois minutos para a intervenção mais importante que teve em todo o jogo, matando fora da área um "flash" de Morientes e com ele, provavelmente, também as hipóteses de êxito do Mónaco, porque o modelo morreu de síncope, pouco depois, com a saída de Giuly, que acompanhava o espanhol no ataque e era o mais rápido dos dois. Como sempre, e este "sempre" tem muita importância na história europeia do FC Porto, o campeão português ganhou a bola. Precisou de algum tempo, mas jogava uma final, não era? A circulação melhorou devagar, a recuperação também, as situações apareceram e com elas veio um golo, ainda no lusco-fusco, naquela fase em que a partida chegava em definitivo às mãos da equipa de Mourinho, depois de ter parecido perigosamente caída para o lado do Mónaco. Havia a velocidade, as incursões de Rothen, pela esquerda, e Cissé, pela direita. Na aparência, muito perigo; na realidade, um remate até ao intervalo. O FC Porto fez dois e marcou um golo, espremido - sem grande margem de erro, é verdade - da superioridade técnica dos seus avançados, Carlos Alberto e Derlei. Normalmente, os jogos grandes ganham-se com atacantes potentes, eficazes e são as equipas com maior poder de fogo que levam os troféus para casa; no FC Porto, as vitórias começam mais atrás, precisam da mesma soma de talento superior, mas outro tipo de talento, menos marcial. Carlos Alberto, Deco e Alenitchev, três jogadores "iguais", fizeram os golos da final. É uma metáfora incrível do caminho singular que Mourinho traçou para Gelsenkirchen. Substituído Giuly pelo pesado Prso, o FC Porto seguiu o seu rumo, somando frequentemente Deco aos dois brasileiros, insistindo nos dribles dele e dando-lhe o tempo que quisesse para experimentar. Segurando-lhe as costas estavam como sempre, Maniche e Pedro Mendes, este último gradualmente mais brilhante e eficiente a cada minuto que passava. O golo simplificou tudo. Deschamps perdeu depressa a paciência. Aos 63', acrescentava um ponta-de-lança à equação (Nonda), subtraindo Cissé, um médio importante, quando já havia Alenitchev em campo; aos 70', sofreu o segundo golo por acção directa do russo, em contra-ataque. Jogo resolvido na calculadora: menos médios no relvado contra um dos melhores meios-campos do Mundo, ainda por cima reforçado, era o que se esperava de um treinador jovem, mas pronto, alguma coisa tinha de fazer para escapar ao jogo sossegado que o FC Porto ia manobrando, não era? Esgotado o arsenal, os portugueses ganharam com calma o que faltava, completando um 3-0 raro em finais europeias, embora natural na situação de desequilíbrio que a partida gerou. Por via das dúvidas, Pedro Emanuel fez a perninha do costume, nos últimos onze minutos, e acabou em tranquilidade absoluta, a história de uma Liga dos Campeões inesperada, por falta de visão da nossa parte, e até de Mourinho que chegou a afastar a hipótese quando afirmou que aquela taça não era para equipas portuguesas. Não era. Pretérito.