Dois violentos atentados marcaram a escolha do novo presidente iraquiano e o anúncio da composição do Executivo que, no próximo dia 30, deverá passar a governar até às eleições de 2005. Por entre manifestações de regozijo em quase todo o Mundo, ficaram pelo menos mais 36 mortos, a recordar que a transferência de poderes não será unanimemente bem acolhida. Ghazi al-Yawer, um poderoso chefe tribal sunita, foi escolhido pelo Conselho de Governo Provisório, que também decidiu cessar de imediato funções, para ser o novo presidente do Iraque. Al-Yawer é um moderado, mas resta saber até que ponto se encontra ao lado dos EUA. Na verdade, tem criticado a ocupação e foi designado como que em segunda escolha. Por entre críticas de que os Estados Unidos estavam a influenciar o Conselho Provisório no sentido de optar por Adnan Pachachi, um homem considerado próximo de Washington, responsáveis da coligação deram conta, anteontem ,de que ele estava fora da corrida, tal como al-Yawer. Mas, ontem, o Conselho de Governo começou por escolher Pachachi e só a recusa deste, meia hora após ter sido divulgado o seu nome, abriu a porta para que al-Yawer pudesse garantir o cargo. Nos EUA, George W. Bush fez questão de salientar o distanciamento entre Washington e o novo presidente, cujos poderes são limitados, e congratulou-se com a nomeação do Governo. Bush destacou que esse foi um passo importante para a liberdade e a democracia iraquianas, mas lembrou que "subsistem numerosos desafios". De facto, mal foi conhecida a escolha do novo presidente, um violento atentado matou 25 pessoas, muito próximo da "zona verde", onde os norte-americanos têm o seu quartel-general e estava instalado o Conselho Provisório. O alvo do ataque foi a União Patriótica do Curdistão (UPK), cujos escritórios foram destruídos por uma violenta explosão, atribuída a um carro armadilhado. Pouco antes, tinham-se registado outras explosões na zona, menos violentas, e foram ouvidos disparos. No Norte, a cerca de 200 quilómetros de Bagdade, verificou-se outro atentado violento, em Baiji, contra as instalações do Exército norte-americano. São vários os testemunhos desse ataque, deixando claro que se tratou de um carro armadilhado conduzido por um suicida, que o fez explodir mas imediações da base, matando 11 iraquianos ferindo mais de 20. Registaram-se outros incidentes por todo o país, com destaque para um ataque contra dois camiões a sul de Kirkuk, no qual morreram três iraquianos. Só nas áreas controladas pelos xiitas, se verificou alguma acalmia. Os partidários do líder rebelde Moqtada Sadr assinaram uma trégua de 72 horas com os norte-americanos, em Najaf. Ghazi al-Yawer é sobrinho do chefe dos Chammar, uma das maiores tribos do país, e um hábil homem de negócios. Com 46 anos, cara redonda e um sorriso sempre pronto, vestido com uma comprida "jelaba" branca e um "kefié" com dois anéis de tecido negro, Ghazi al-Yawer alia a cultura oriental e ocidental. Depois de ter estudado engenharia na universidade George Washington instalou-se na Arábia Saudita onde abriu uma próspera empresa. A queda de Saddam alterou-lhe os projectos: "Deixei tudo, a família, a minha mulher, os meus quatro filhos, os meus negócios para regressar ao Iraque", afirmou há um ano. A tribo dos Chammar, que integra três milhões de sunitas e xiitas, está espalhada desde o norte da Síria ao sul da Arábia Saudita passando pelo Iraque e o Kuwait.