Em Ripanso, Proença-a-Nova, o candeio das oliveiras, a horta do casal Ribeiro e a casa nova da Maria do Rosário mostram que, quase um ano depois do incêndio que ia destruindo a aldeia, a vida volta ao normal. No dia em que o Governo apresentou a estratégia de combate aos incêndios para este ano, a Agência Lusa foi ver como recuperou uma das zonas do país mais fustigadas pelos fogos de Agosto passado, que destruíram 420 mil hectares de floresta. Em 2 de Agosto de 2003, Ripanso, um lugar da freguesia de Sobreira Formosa onde vivem 30 pessoas, esteve cercado pelas chamas, que destruíram culturas, quintas, materiais de rega, animais e a casa de Maria do Rosário. Foi a única casa totalmente destruída pelo fogo no concelho, confirmou o presidente da Câmara, Diamantino André, o mesmo que, a 3 de Agosto passado, garantia também à Lusa que no concelho já tinham sido destruídas "mais de duas dezenas de habitações". Agora emenda: arderam parcialmente seiscasas e totalmente uma, mas "tudo já foi arranjado". Ao todo arderam 13.900 hectares, mas já foram feitos repovoamentos e "o concelho conseguiu aliviar o luto", disse o autarca. Maria do Rosário, 52 anos, vai estrear a casa nova para a semana, mas faz questão de ir, simbolicamente, entregar a chave a Diamantino André, a quem não poupa elogios. Está contente, mas, ainda assim, preferia "a outra, a velha", e tudo o que tinhalá dentro e perdeu. Já tem, ainda encaixotados, um fogão, um esquentador, uma máquina de lavar loiça, um frigorífico e uma televisão, oferecidos, e lamenta não poder comprar uma mesa e cadeiras, pelo menos. Com a morte do marido, 45 dias depois da destruição da casa, tem passado os dias por ali, a comer em casa do filho e a dormir em casa de um cunhado. "Quando isto aconteceu pedi ao meu médico de família, ao padre... pedir não é vergonha". Maria do Rosário lembra o pavor da noite de Agosto, dos minutos que o fogo demorou a queimar uma vida toda, dos gritos dos vizinhos... e um ano depois diz: "Aqui prometeram e cumpriram". Uma frase pouco consensual. Ermelinda Delgado, 73 anos, diz: "As minhas oliveiras arderam todas, os pinheiros arderam todos, ficámos sem nada. Ainda ninguém veio ver, ainda ninguém veio perguntar se eu precisava de alguma coisa". Perdeu a carroça, os motores de rega e as culturas mas não a casa. E não teve apoios. À volta de Ripanso ardeu tudo. O fogo começou em Fróia, desceu dos lados de Montes da Senhora, e as colinas em redor, que, até Agosto passado eram verdes dos pinheiros, hoje são quase só cinzentas. Bernardino e Maria do Carmo Ribeiro perderam a quinta em minutos, mas a família e amigos reconstruiram-na em três semanas. Que Maria do Carmo se lembre, arderam batatas, o palheiro, cerejeiras, oliveiras, coelhos, galinhas, motores de rega... "Não me deram nada, nada, nada. Veio cá um senhor para preenchermos um papel com o que nos tinha ardido, mas até agora não soube mais nada", diz.