Uma interpretação de "Biko", amparada por cortes percussivos marciais, canção a doer até à medula, adensou a certeza de que Peter Gabriel fez do seu concerto o melhor dos primeiros dois dias do Rock in Rio Lisboa. Apesar de não merecer a assistência mais numerosa; essa foi para a actuação de Ben Harper, fenómeno estranhíssimo de popularidade em chão nacional. O ex-Genesis construiu, anteontem, na Quinta da Bela Vista, um teatro austero, de um futurismo com olhos no homem-máquina. Nesse sentido, o conceito cénico foi de oportunidade cirúrgica. Gabriel veste-se de negro, enquadrado por pilares envoltos em luz e um ecrã de vídeo ameaçador (as imagens são inquietas, interrogam e intrigam); a banda, na qual sobressai o magistral baixista Tony Levin e o guitarrista David Rhodes, vigia-o e acompanha a vertigem. O álbum "oVo" é visitado. E, de repente, cai chuva vermelha. Um tema antigo, infelizmente actual. Tristemente bonito. Agradece em português, tenta articular frases no idioma. Corre pelo palco. Como sempre, não sabe para onde. A discografia é o mapa , em aberto. "Games without frontiers" capta-o a olhar o Mundo a bordo de uma espécie de trotinete. A canção é um dos poucos exemplos de pop inteligente com êxito de vendas. A espaços, emerge um rock digital duríssimo. Peter canta dentro de uma bolha transparente, mais uma vez, com a indecisão do destino como alimento. Teclados, guitarra, bateria, baixo, tudo... Outro clássico: "Salsbury Hill", falsamente feliz. O autor de "Us" encabeça uma corrida, seguido pelos cúmplices. O momento, efémero, MTV. "Sledgehammer" vestiu-o com o fato em que surge na obra-prima videográfica dos anos 80. O concerto evocaria ainda a silenciada voz do magnífico Nusrah Fateh Ali Khan e a participação de Daby Touré, músico africano, que actuou na Tenda Raízes no primeiro dia do festival. Depois, "Biko"... O ministro da Cultura do Brasil também tornou o fim de tarde de alguns dos seus eleitores e de mais alguns milhares - segundo dados da produção, anteontem, o festival acolheu 52 mil pessoas - em potencial candidato ao álbum de recordações. Não arriscou, é verdade, contudo, temas como "Chuck Berry fields forever", "Cambalachi", "Aquele abraço" e "Maracatu atómico" ou releituras iconoclastas de Bob Marley são um prazer aural sólido. Forró, rock, samba, tango. Ben Harper e Rui Veloso vendem muitos discos, têm imenso público. Esteticamente, são de uma pobreza assinalável. Mas são honestos no que fazem. Merecem a consagração, essencialmente, por essa circunstância. O americano deixou uma canção com aromas de Otis Redding - "Where can I go?", gravada com os Blind Boys From Alabama, a incluir no próximo disco. De resto, as mesmas sombras gastas de rock/soul dos anos 70. Os australianos Jet são péssimos. Pior, fazem parecer os AC/DC (que plagiam até quase à ilegalidade) os maiores expoentes da música com inteligência dentro.