Minuto 39. Cruzamento de Paulo Ferreira para a área, onde Carlos Alberto e Derlei fazem dois para dois com Zikos e Rodriguez. Carlos Alberto recebe com a parte de dentro do pé direito, a bola ressalta em Zikos e volta para o remate em vólei do jovem brasileiro, a bola descreve um arco, entra na baliza e o vulcão azul e branco logo por trás explode. Carlos Alberto despe a camisola, atira-a ao chão e, com cara de poucos amigos, beija Nélson Puga, o médico que não consegue dormir antes dos jogos se Mourinho não lhe diz que o Porto é favorito. Os companheiros, muito mais experimentados, abraçam-se e sorriem para o adolescente que só é dragão desde Janeiro e aos 19 anos atira a equipa para o topo do Mundo. Por trás da baliza a festa continua. São quase todos mais pobres, vieram de mais longe, mas são mais nas bancadas do Arena AufSchalke, o estádio do clube cujo hino começa "ó azul e branco como te amo" e que ontem viveu uma fantástica festa azul e branca, que começou quase duas horas antes do início do jogo e chegou a fazer pele de galinha. Culpa de quem? Culpa unicamente de um grupo de jogadores e de um treinador que há dois anos começaram a escalar a montanha do futebol e hoje já não têm mais nada para onde subir. Minuto 71. Ataque em catástrofe do Mónaco. Jorge Costa salva duas vezes o empate, Costinha falha o lançamento para o contra-ataque e Mourinho salta de irritação. Nova vaga do Mónaco e Deco sai em contra-golpe, passa o meio-campo e lança Alenitchev, o russo cruza atrasado outra vez para Deco, a quem o jogo nem estava a correr muito bem, olha para a baliza e chuta devagarinho, como que a beijar a taça. Minuto 75. novo contra-ataque de Alenitchev, Derlei cruza, a bola ressalta num adversário e cai no pé direito do russo, que chuta para a rede e cai de joelhos, braços erguidos ao céu. Mourinho salta do banco e corre em sentido contrário e festeja sozinho. Os jogadores celebram aos grupos. Nas bancadas, salta-se de alegria e canta-se, canta-se muito. Minuto 94. O árbitro Kim Nilton Nielsen apita para o fim da partida imortal do F. C. Porto. Baía cai de joelhos e grita vitória, Mourinho entra no relvado a correr, no banco do Porto jorra champanhe, os jogadores abraçam-se e o ecrã gigante do estádio mostra as lágrimas dos adeptos. Lágrimas de alegria por uma vitória que ainda há poucos meses parecia impossível, mas que hoje é uma realidade. E, acreditem, sem retirar brilho a todos que trabalharam para esta conquista, ninguém mais do que os adeptos a merecia, pela forma apaixonada e apaixonante como apoiaram a equipa durante a escalada. O F. C. Porto entrou ontem definitivamente para a galeria dos grandes clubes do futebol mundial. Ganhou a Liga dos Campeões, batendo o Mónaco por uns claríssimos 3-0, num jogo transmitido para 86 milhões de telespectadores, e conquistou o quinto troféu internacional (duas Taças dos Campeões, uma Taça Intercontinen- tal, uma Taça UEFA e uma Supertaça europeia), numa era em que isso só parecia possível aos emblemas com muito, muito dinheiro. Também por isso esta vitória é importante, porque recoloca Portugal no topo do futebol mundial a poucos dias do início do Euro 2004 e devolve a esperança a todos os clubes - afinal é possível transformar a Liga dos Campeões numa competição mais democrática. Mourinho, Ricardo Carvalho, Deco, Carlos Alberto, Alenitchev e todos os outros provaram isso ao mundo. Este F. C. Porto é capaz e competente desde o elemento mais importante ao mais anónimo adepto. Que força é essa que transforma em ouro de muitos quilates tudo o que toca? Chama-se força de vontade e nisso esta equipa já era campeã do Mundo. Obrigado.