A menos de seis meses de perfazer 82 anos, Agustina Bessa-Luís garante estar a viver a melhor época da sua vida. E nem sequer é no crescente reconhecimento crítico e popular - na semana passada foi-lhe atribuído o Prémio Camões - que radica a sua felicidade. A acumulação de experiência leva-a a tirar partido de situações que na juventude se assumiam como inultrapassáveis. "Nasci velha, mas vou morrer criança", assegura. Devota da cultura popular, que considera em risco de extinção, critica os defensores da "sabedoria engarrafada", situados em oposição à vida. [Jornal de Notícias] Na homenagem de que foi alvo na edição transacta da Feira do Livro do Porto afirmou que nasceu velha mas vai morrer criança. Os anos têm exercido uma acção benéfica sobre si? [Agustina Bessa-Luís] O Régio é que costumava dizer que eu nunca fui criança. Isso talvez até seja verdade, porque, durante muito tempo, não gostava de crianças. Achava-as mal intencionadas, o que é importante para sobrevivermos... Mas reconheço que tenho-me adaptado muito bem a esta nova condição. Com a idade aprendemos a tirar mais partido das situações e a relativizar os problemas que, na infância, assumem grandes dimensões. Aprendemos a fazer uma triagem do que é ou não importante. É a antítese do escritor desligado do Mundo e unicamente concentrado em si. Acredita que, na maioria dos casos, essa imagem cultivada por muitos autores é pura encenação? Admito que sim. As pessoas que acreditam ter acumulado muita sabedoria pensam, erradamente, poder dispensar o outro tipo de conhecimento, assente na transmissão directa e intemporal de informações. Àqueles que agem dessa maneira costumo dizer que só têm sabedoria engarrafada, pois falta-lhes o outro lado do conhecimento, que apenas adquirimos através do contacto directo com pessoas. As supostas grandes verdades dos intelectuais ou dos escritores nada me dizem. São bem conhecidas as longas conversas que mantém com gente simples e humilde. O que extrai desses diálogos? É preciso notar que vai sendo difícil encontrar herdeiros dessa sabedoria popular, porque a actual noção de cultura fez com que esse conhecimento se tivesse transformado em qualquer coisa de vergonhoso. Quanto mais sabedoria acumulamos mais nos distanciamos, então, do que realmente é essencial. Penso que sim. Nos meus livros, busco respostas para uma compreensão mais aproximada da natureza humana, explorando questões como o bem e o mal e, essencialmente, se ambos não coexistem. Devemos ter noção que a nossa civilização, bem como todo o conhecimento conquistado, pode desaparecer, tal como aconteceu no passado. Ainda hoje sente relutância em ler os seus próprios livros? Chego à conclusão que escrevo cada vez melhor, na medida em que já vou relendo os meus livros (risos). Ao ler uma tradução francesa, por exemplo, a sensação é diferente, embora também seja agradável - aí, a escrita aparece liberta de alguns obstáculos que possam ocorrer em Português. Apesar disso, afirma num recente romance que a idade não nos faz escrever melhor. Tem tudo que ver com a natureza do indivíduo. No meu caso, ainda me lembro de, aos 12 anos, ser a heroína da turma com os textos que escrevia. Mas, desde aí, houve um amadurecimento, claro: os temas são outros, tudo flui naturalmente. O maior mal da Humanidade é mesmo "o excesso de bem", como já afirmou? Sim, desde que não seja aquele bem instintivo, como quando vemos alguém indefeso ou em perigo de vida e somos tentados de imediato a prestar auxílio. Nesse caso, estamos a ser úteis, porque a sociedade só sobrevive se nos ajudarmos uns aos outros. Mas, à luz da noção tradicional, não me considero uma pessoa boa. Foi o que disse até um dos membros do júri do Prémio Camões, que me definiu como uma malvada... É preciso ver, no entanto, que quem disse isso foi um brasileiro. Lá, a palavra 'malvada' não tem a mesma conotação negativa que lhe atribuímos em Portugal. O que a distingue dos outros? Sei do que sou capaz, mas conheço as minhas resistências. É curioso que no meu próximo livro, "Antes do degelo", faço uma reflexão sobre o papel da Humanidade no universo, que continua a ser minúsculo. O que a faz emocionar-se hoje? Ganhar o Prémio Camões, porque é bastante valioso! (risos) Lembro-me de o Eugénio de Andrade ter ficado horrorizado, há uns anos, quando lhe disse que gostava de dinheiro. Mas é a verdade: o dinheiro dá-nos liberdade para tanta coisa... Concordo que ser milionário é acabrunhante, porque nos retira margem de manobra. Sermos valiosos em cifrões impede-nos de passearmos livremente e incógnitos, acto que tanto prezo. Em Portugal, consegue passear-se livremente? Vou conseguindo. Alguém disse: "Quando fores célebre, hás-de ficar surpreendido com a quantidade de pessoas que não te conhecem". É verdade e não deixa de ser tranquilizante. Tem abordado cada vez com mais frequência na sua obra este país que se faz doente. O desencanto é o sentimento que a domina quando olha hoje para Portugal? Quando comecei a escrever, o país era pobre, como hoje continua a ser. As condições de vida obrigavam a que se adoptasse um estilo disciplinado. Depois, a sociedade de consumo deu-lhes a ilusão de que podiam adquirir o que quisessem. O que me parece é que somos um povo profundamente idêntico. O positivo e o negativo estão sempre lado a lado. Enquanto que o espanhol tem um sentido prático da vida, nós não. O seu perfil encaixa-se na forma de estar lusitana? Profundamente. Apesar de ter algumas características espanholas - que remontam à família da minha mãe -, como a determinação, a rispidez e a disciplina, o meu modo de ser no dia-a-dia está entroncado na alma portuguesa. Já disse anteriormente que, para si, a escrita é uma obsessão. Nunca sentiu que essa entrega constante à actividade literária a terá afastado, por vezes, do convívio daqueles que mais ama? A escrita isolou-me muito, é verdade. Lamento que isso tenha acontecido, porque, na sua maioria, eram pessoas de família que já não estão vivas. A solução que encontro é pegar na recordação que tenho delas e transformá-las em personagens dos meus livros. Mesmo com o aparente distanciamento que possa ter sido provocado pela escrita, nunca fui uma pessoa de segredos, o que levou até que várias pessoas de família considerassem que eu dizia coisas inconvenientes. O consenso alargado que a sua obra cada vez mais atinge não é, de certo modo, estranho em quem sempre assumiu posições desassombradas e não raras vezes inconvenientes? Atribuo esse consenso a outros motivos. O principal é ter uma obra longa, que não se pode ignorar. Se estivéssemos a falar apenas de dois ou três livros, o caso seria bem diferente. Trata-se de uma vida inteira dedicada à escrita, o que confere sempre algum respeito. Quando os elogios, os prémios e as honrarias passam a ser uma constante, não existe o risco para o autor de perder o contacto com aquilo que o rodeia? Tenho uma vida muito solitária. Por isso, os tais ecos do exterior não chegam até mim com grande facilidade, excepto quando há um acontecimento incomum, como foi o caso da atribuição do Prémio Camões. Continua a reagir com cautela a essas manifestações de admiração demasiado exuberantes? Sabe porque as detesto? O percurso de um escritor deve ser acidentado, pois teremos mais prazer ao ultrapassar os obstáculos que se nos deparam. E o elogio é, de certa maneira, o nosso maior inimigo. No seu percurso não faltaram obstáculos. Sim, tive vários. Logo no meu segundo livro, vi-me envolvida numa polémica com um reputado crítico literário. Hoje, todo esse caso me parece dispensável, mas, na altura, foi importante para sentir que eu era capaz de enfrentar qualquer um. Precisava de um inimigo qualquer e a polémica aconteceu-me na altura certa. Como romancista, assume-se mais como espectadora do que narradora. É a procura da cumplicidade com o leitor que a leva a agir desse modo? Não tenho qualquer necessidade de cumplicidade com o leitor. Escrevo o que tenho a escrever no momento, porque parto sempre do princípio que a literatura é um jogo de diversão. O Henry Miller detestava o Thomas Mann, porque, segundo ele, todos os seus livros eram construídos de forma irreal. É tudo muito bonito, mas nada daquilo - como "Morte em Veneza" - tem que ver com a realidade. E tem razão. Mas há uma predisposição para a felicidade que compartilho com ele. Não lamenta o facto de, exceptuando alguns países, a sua obra não ter atingido ainda uma dimensão internacional expressiva? Em França, sou conhecida como alguém que escreve bem. Os franceses dão muito valor à elegância da prosa e ao valor do texto. Já na Alemanha é mais complicado, porque se trata de um mercado sem a mesma vitalidade editorial e menos direccionado para escritores pouco comerciais.