Foi precisamente à uma da tarde de ontem que tudo acabou: oficialmente, tinha sido vendido o último bilhete no Arena aufSchalke para a final da Liga dos Campeões. Os portugueses que acorreram às bilheteiras logo pela manhã ainda tiveram oportunidade de adquirir alguns ingressos, bastando-lhes, apenas, apresentarem o Bilhete de Identidade. Os derradeiros passaportes de entrada para o estádio foram comprados por 185 euros. Há dois dias, quem se dirigisse à bilheteira tinha oportunidade de adquirir os cartões mágicos bem mais baratos - a 69 euros. Sem surpresas, e após o encerramento dos postos de venda, começaram a brotar, tal qual coelhos saídos das tocas, alguns "candongueiros", que evitavam, porém, circular junto ao estádio, onde a segurança ficou muito mais apertada em virtude da presença física das equipas do F. C. Porto e do Mónaco no recinto. Os preços base no mercado negro rondavam, ontem à tarde, os 500 euros. Mas há quem tenha vindo de muito longe sem nenhuma garantia no bolso. É o caso de quatro emigrantes nos Estados Unidos que o JN encontrou numa das principais artérias de Gelsenkirchen. "Apenas conseguimos comprar dois bilhetes na Internet", explicou Jorge Freitas, açoriano doente pelo Porto, que reservou dez bilhetes num leilão, mas que só recebeu dois na caixa do correio (pelo preço de 800 dólares). Os ingressos teriam origem, sublinhou, em No-va Iorque e em Londres. "Marcámos a passagem na Califórnia sem sabermos se tínhamos bilhete", conta. "Estamos dispostos a dar 300 euros", entrecorta um dos amigos, sublinhando que já tinham tido a oportunidade de adquirir ingressos no mercado negro por 500 euros, mas que não o fizeram. "Eles vão baixar", vaticina. A contagem decrescente para o grande desafio também se fez sentir na vida da cidade. Gelsen-kirchen acordou um pouco mais azul e branca do que já é por natureza (influência do clube local, o Schalke 04). As várias dezenas de adeptos portistas (na sua esmagadora maioria emigrantes dentro e fora da Alemanha) que foram chegando injectaram outra alegria no dia cinzento. "Bilhetes? Tem bilhetes?", perguntavam uns aos outros. A resposta era quase sempre a mesma: "Não". Pelos cálculos das autoridades locais, devem deslocar-se a Gelsenkirchen cerca de oito mil portugueses sem ingresso. A frustração que, provavelmente, muitos vão sentir, hoje, teve, ontem, um primeiro ensaio: dezenas de deram com o nariz na porta quando tentavam entrar no estádio para assistir ao treino do F. C. Porto. Foi o homem mais feliz de ontem em Gelsenkirchen. Pedro "Jugoslavo" ("ponha assim que é como me chamam") foi a última pessoa a comprar, no Arena aufSachalke, um bilhete para a final da Liga dos Campeões. "Fui o último, fui o último", exclamava, ao JN, o entusiasmado jugoslavo natural de Montenegro, casado com uma francesa filha de emigrantes portugueses e a residir em Esposende. Complicado? "O meu clube, o Estrela Vermelha de Belgrado, está em baixo e,por influência do meu sogro, virei portista", conta, num português invejável. Vai com o Porto para todo o la-do. E não se cansava de mostrar o bilhete. "Foi o último, foi o último!"