A conferência de Imprensa de José Mourinho foi um exercício de sedução. O técnico é cada vez mais um dos portugueses com maior notoriedade internacional e sa-be como ninguém manejar uma conferência de Imprensa com centenas de jornalistas de todo o Mundo. Ao contrário de Deschamps, que até criou um pequeno problema com a Imprensa inglesa por se recusar a falar noutra língua além do francês, Mourinho respondeu sempre no idioma em que foi colocada a questão, alternando entre o português, o inglês e o espanhol. Teve também uma disponibilidade olímpica e, umas vezes de sorriso aberto, outras de ca-ra fechada, não deixou ninguém sem resposta. Ganhar a final é obviamente o sonho de Mourinho, que garantiu ter a equipa bem preparada e o adversário estudado. Garantiu também que só pensará no futuro amanhã e disse que a saída do F. C. Porto é uma questão privada, entre ele próprio e a Administração da SAD do F. C. Porto. Favorito acha que não há, mas confessou que o médico Nélson Puga não foi deitar-se, anteontem à noite, enquanto Mourinho não lhe disse que achava que os portugueses têm 51% de chances e o Mónaco apenas 49%. "Disse-me que não conseguia adormecer a pensar que era meio, meio. Tive de lhe dizer que nós temos 51% de hipóteses". Equipas parecidas Mais a sério, e como é do protocolo nestas ocasiões, afirmou que a final se vai decidir nos detalhes: "Somos duas equipas parecidas e chegámos à final pelas mesmas razões. Chegámos aqui pelo colectivo e vamos jogar a final como equipas. Aos meus jogadores só disse que, depois de tudo o que fizemos nestes dois anos, só temos de manter a nossa identidade, sermos iguais a nós próprios". Controlar o nervosismo próprio dos grandes momentos é sempre uma preocupação, mas até nisso Mourinho é um treinador descomplexado: "Não se ganham jogos grandes sem controlar as emoções. Quem não tem capacidade para manter a tranquilidade dificilmente ganha. Este é o jogo mais importante do mundo a nível de clubes". Depois de jurar que só não revela a equipa porque não sabe se Giuly vai jogar na direita ou no ataque do Mónaco (a segunda hipótese parece ser a mais provável), confessou que sentiu "as piores sensações como treinador ao fazer a convocatória para o jogo e ao escolher o onze, porque este é um jogo que todos querem jogar e todos mereciam jogar". Dizendo-se conhecedor de todos os segredos do Mónaco, Mourinho não teve problemas em revelar a preparação da equipa nos últimos dias: "Na quarta, treinámos a defesa; na quinta, o ataque; na sexta, a transição defesa-ataque; no sábado, a transição ataque-defesa; e, na segunda, os penáltis. Já não treinamos mais, não é preciso". Estava feita a introdução do jogo e a Imprensa inglesa esperava para poder "atacar" com o Chelsea. "Vai ser o seu último jogo no F. C. Porto?", perguntaram. "Não sei se é o meu último jogo, o que sei é que é o jogo mais importante da minha carreira. Trabalhámos dois anos para chegar aqui e com uma qualidade futebolística muito grande. Não seremos melhores jogadores ou treinadores por ganharmos a Liga dos Campeões, mas quero ir para casa com a taça". "Já assinou pelo Chelsea?", insistiram. "Isso é uma questão privada entre mim e o F. C. Porto. O F. C. Porto é o meu clube e a coisa mais importante neste momento é o jogo de amanhã (hoje). Na quinta-feira, podemos todos pensar no futuro, agora estamos concentrados na Liga dos Campeões". Mostrar bom futebol Com a Imprensa britânica momentaneamente calada, a antecipação do jogo voltou a concentrar as atenções. E mais uma vez Mourinho fez a diferença em relação a Deschamps, que espera um jogo feio. "Quero que a minha equipa se sinta feliz. Temos de estar felizes por estar aqui. Quem nesta sala diria no início da época que a final ia ser esta? Com certeza, só um acreditaria", disse, referindo-se certamente a si próprio. "As finais tácticas também podem ser bonitas e no ano passado tivemos uma das finais mais bonitas dos últimos anos entre o Porto e o Celtic, porque ambas as equipas queriam ganhar. Temos de ter a bola e manter o nosso modelo de sempre. O sistema pode mudar, mas o modelo não muda nunca. Não penso que para se ganhar uma final tenha de se jogar mal e queremos mostrar bom futebol para que todo o mundo veja porque chegamos até aqui", acrescentou. Sair abraçado aos jogadores Mudança de sistema e Mourinho aproveita para piscar o olho aos seus próprios atletas, ele que já antes fizera um grande elogio a Deco, em complemento às palavras de Deschamps. "Eu quero sair deste jogo abraçado aos meus jogadores, ganhando ou perdendo", afirmou, para logo a seguir dizer que os filhos lhe tinham dito "és o melhor" depois de uma derrota e que isso na vida é que é importante: "Não quero ser o melhor treinador do Mundo, quero ser o melhor pai". O ritmo das respostas subjugava o das perguntas e Mourinho voltava ao jogo para dizer que não sente os jogadores mais nervosos do que no ano passado e que "Sevilha até pode ser uma vantagem, porque já vivemos estes momentos há pouco tempo e sabemos co-mo os gerir". Os ingleses voltam a atacar e perguntam se as notícias sobre a ida de Mourinho para Inglaterra não perturbaram a preparação da final. "Se perguntar aos jogadores eles respondem-lhe que sou a mesma pessoa. Também há jogadores com propostas, mas ninguém está a trabalhar de forma diferente. O nosso futuro é quinta-feira. A equipa vai reagir bem, estamos bem preparados. Do outro lado está uma equipa parecida e nós queremos jogar com alegria". E assim terminava uma hora à Mourinho. O defesa Secretário acompanhou José Mourinho na conferência de Imprensa. Gelsenkirchen será o fim de uma carreira recheada de êxitos, pelo que vencer o Mónaco te-rá um sabor especial. "O meu pensamento passa exclusivamente por ganhar esta final. Seria maravilhoso. Os jogadores só têm de continuar a fazer aquilo que fizeram até agora. Temos de estar alheios ao ambiente. Há que jogar tranquilos, mas sempre concentrados", disse. Para Secretário, esteja no banco ou na bancada, "o importante é o F. C. Porto vencer a Liga dos Campeões".