Sobe ao palco e despe a timidez quotidiana. Sem se perder, pelo menos totalmente, desfruta do encantamento que achou na música e abandona a desilusão que conheceu no Direito. Manuela Azevedo canta palavras escritas por outros, tarefa estimulante, na medida em que lhe permite ser quem nunca será, como revelou nesta entrevista. [Jornal de Notícias] Saltar da advocacia para a música foi uma decisão difícil? [Manuela Azevedo] Não, infelizmente, porque fiquei desencantada com o mau estado da Justiça em Portugal, que é, muitas vezes, negada às pessoas pela sua morosidade, pela falta de preparação prática dos advogados-estagiários... Uma série de coisas que me deixaram muito amarga em relação ao Direito. A música não lhe oferece o risco de desencantamento? Não. Há desilusões pontuais, mas muito mais fáceis de ultrapassar. A música é uma paixão e a receita para os Clã continuarem depois de doze anos e ainda com mais entusiasmo. Será, também, o espaço de fuga para outra realidade/personagem? No palco, esqueço que sou tímida. Há alguma transfiguração na interpretação das palavras - elas obrigam a isso -, mas nunca deixo de ser eu. Nunca me perco totalmente. Enquanto mulher, que vantagens avança para a música? Na estrada ou no palco, sou mais um. Mas sei que essa qualidade pode ser uma vantagem na forma como me apercebo e transmito as coisas relativamente a alguns homens. E é pacífico assumir palavras escritas por homens? É engraçado. Neste disco, quase todas as letras foram escritas por homens, mas sempre sob uma perspectiva feminina. Por isso, foi muito fácil. O mais interessante é ver como homens tão diferentes escrevem tão bem sobre e enquanto mulheres. Um desafio, portanto... É o melhor da interpretação: neste disco, há mulheres muito mais entusiasmantes do que eu e é bom poder visitar essas peles, sabendo que nunca na vida serei assim. Quando interpretará as suas próprias palavras? Costumo dizer que não sou propriamente criativa, mas mais recriativa. Não tenho talento nenhum para compor ou inventar coisas do nada. Não tenho esse impulso e seria demasiado artificial. A experiência da maternidade propicia uma nova experiência musical? Muda tudo. O centro do Mundo deixo de ser eu e, necessariamente, sendo uma pessoa diferente, acabo por trabalhar de outra forma. Mas só nessa medida. Aliás, desde o "Lustro" que o "clã" aumentou imenso, sendo que os meus colegas, exceptuando um, foram todos pais durante este processo e tornaram-se músicos diferentes por isso mesmo. Como avalia o actual panorama fonográfico português? Já recebemos ecos de alguma crise, não só a do mercado discográfico, mas a dos espectáculos: menos dinheiro, menos salas... No que diz respeito à parte criativa, estamos num belíssimo ano: muitos discos novos com qualidade. Mesmo as soluções de vendas de discos associadas a jornais é sinal de inteligência. Não questiona a estratégia? Não. O mais importante é que as pessoas cheguem à música e é uma forma de contornar o problema dos preços dos discos. Os Clã parecem estar sempre à margem dos problemas de vendas de discos... Não é algo que nos preocupe muito, porque grande parte da nossa subsistência faz-se dos concertos. A nossa sobrevivência não está em causa. Qual a sua opinião relativamente ao volume de música nacional passada pelas rádios portuguesas? Acho lamentável que se continue a considerar que o que vem de fora é melhor. Inevitavelmente, há pessoas idiotas que dizem que se a música portuguesa não passa na rádio é porque não tem qualidade. Se não se mostra a música nacional, não há forma de os colegas se ouvirem e existir competição. O que acontece é uma falta de jeito para cuidar do que aqui se faz, com carinho e visão. A rádio é meio vital? Note-se o caso de França, que aumentou o volume de música nacional na rádio e, hoje, essa é a mais consumida no país e é internacionalizada. Neste momento, é uma das suas principais receitas. Não sei que melhor exemplo haverá para o Governo regulamentar uma lei que já existe. Um repto final seria... Que se abandone essa mentalidade estranha de que o que é nacional e exportável é só fado.