O nosso País atravessa, como por todos é reconhecido, uma profunda crise. Dizem uns que ela é económica outros referem-na como financeira. Todos são, portanto, bastante optimistas. Enquanto se digladiam os nossos dirigentes por descobrir a paternidade do caos, os portugueses anónimos, alheios a tais exercícios folclóricos, vão pagando a conta que com generosidade, uns ou outros foram fazendo crescer. Ao mesmo tempo que este espectáculo se desenrola, entre caviar e champanhota, os revolucionários da nouvelle vielle gauche vão gritando as suas boutades. Da profundeza das suas reflexões, sempre excruciantes, emerge o também pungente diagnóstico de que há sinais inquietantes sobre a evolução do regime republicano-democrático em Portugal. De acordo. É, desde logo, muito saudável adjectivar-se o regime republicano, já a que a maior parte do tempo o vivemos na barafunda jacobina ou na experiência de a tentar domar, sob a força de uma regime autoritário. Pena é que se evitem as decorrências desta mesma inquietude. A república, mais do que ter problemas, pode, ela própria, ser um problema. Problema potenciado pela lacrimejante personalidade e populista formação do mais alto magistrado da Nação. Entre agraciamentos duvidosos e lastimosos nacionais porreirismos, anda a representação do Estado a um nível muito raso. Não me esquecerei das palavras do Dr. Medeiros Ferreira a propósito da então anunciada candidatura à presidência da república do Eng.º Joaquim Ferreira do Amaral. Num exercício genealógico de que nem os monárquicos são capazes, o ilustre pensador discorria sobre a ascendência do candidato, para concluir que seria uma «situação insustentável» a eleição de alguém que procede de uma família «honesta e monárquica». Iguais óbices, como se pode intuir, não existiriam, nem existem, para os que descendem de famílias desonestas e republicanas. Nem tão pouco para os que sejam, eles próprios, sem a ajuda dos seus maiores, desonestos... mas republicanos. Acrescentava então o ilustre universitário que «o cargo de Presidente da República conquista-se pela disposição em lutar por convicções». Nesta súmula se concentra a essência do que me queixo. O PR não é mais do que um cargo. Parece ser um mero pretexto de lutas e conquistas e, consequentemente, de divisões entre os Portugueses. Este foi dos mais elucidativos contributos para o preenchimento dos conceitos vagos e indeterminados de «doutrina» e «ética» republicanas. Esta a razão pela qual os monárquicos continuarão a apelar à abstenção...