Dois meses depois da ditadura trágica do luto, Madrid prepara-se para a epopeia do glamour próprio do mundo cor-de-rosa. A história do sangue e das lágrimas ficou para trás e sobe ao palco o inevitável conto de fadas. O futuro rei de Espanha -- será mesmo desta Espanha tal e qual a conhecemos? -- e uma ex-jornalista casam no sábado na capital espanhola. Não fosse a tensão criada pelo receio de ataques de terroristas ou de lunáticos anti-sistema, o casamento real seria uma cerimónia clássica de reencontro do povo com a realeza. Uma certa vassalagem democrática passará sempre por este tipo de cerimónias. O mundo cor-de-rosa prepara-se então para tomar as primeiras páginas, as primeiras imagens, os pormenores, abrilhantar o primeiro beijo oficial e tomar conta, até à exaustão, da agenda mediática. Um ataque mais violento no Iraque ou noutra parte do mundo atribuível ao terrorismo poderá desviar as atenções do casamento real, mas o assunto acabará por ser a principal notícia do dia. Quem define o quê nas televisões pensa que bem lá no fundo todos temos uma atracção irresistível pelo mundo cor-de-rosa e por isso é obrigatório mostrar tudo, expor o necessário e o supérfluo. Quem decide o quê já decidiu e não há escapatória possível. Não é que o mundo não precise de tons cor-de-rosa. À insanidade de todos os dias, somam-se os extremismos cada vez mais letais, os profetas que prometem cenários obscuros para quem não mate ou morra em nome de Deus, os discursos caterpillar de quem quer civilizar aquilo que designa como desordem, a promessa do tal homem bom alinhada a uma lógica de cedências de uma só parte, a selvajaria das limpezas étnicas, o temível mundo subterrâneo da escravidão, da pobreza, do tráfico de menores. Por isso quem decide o quê decidiu que, por um dia, basta de horrores. Vamos todos festejar o mundo cor-de-rosa e observar como vai linda a noiva, garboso o noivo, elas irrepreensivelmente esbeltas, eles impecavelmente soberbos. A high society no palco central, a low society no asfalto, nos passeios, diante das televisões. Cor-de-rosa ou negro o mundo é sempre assim: há os protagonistas e os figurantes. No sábado, em Madrid, todos parecerão felizes.