O mais conhecido árbitro de futebol do planeta também tem as suas fraquezas, como por exemplo uma moeda da sorte que usa antes dos jogos cruciais. É um dos segredos revelados no livro de Pierluigi Collina, ?As Minhas Regras do Jogo?, que a Domingo Magazine apresenta em exclusivo. Reuters/Darren Staples Pierluigi Collina é notado em qualquer estádio de futebol. Da bancada central aos topos, não há quem ignore o árbitro italiano, careca e de olhos esbugalhados, que se transformou em poucos anos numa estrela no meio de outras estrelas. Hoje, a sua fama é tal que ele chega a rivalizar em popularidade com alguns dos mais conhecidos jogadores do mundo. Aparições nos mais variados programas de televisão e milionários contratos publicitários fazem parte do quotidiano deste homem que edita agora ?As Minhas Regras do Jogo?. O livro revela o lado menos visível de Collina, com o árbitro a fazer algumas viagens ao passado para lembrar momentos cruciais da carreira, como aquela dramática final da Liga dos Campeões, quando o Manchester derrotou o Bayern Munique no tempo de compensação, ou o derradeiro encontro do Campeonato do Mundo de 2002, em que o Brasil alcançou o penta e fez a festa na terra do sol nascente. Mas Pierluigi Collina não vive só do futebol e escreve ainda sobre a infância, a falta de cabelo, os erros, o tempo livre, a família e o amor pelo basquetebol. São 160 páginas para ficar a saber (quase) tudo sobre um dos ?cromos da bola? mais carismáticos da actualidade. LIVRO Título: ?As Minhas Regras do Jogo ? O que o Futebol me Ensinou Sobre a Vida? Autor: Pierluigi Collina Editorial Presença / 160 Páginas O JOGO DE FUTEBOL Um final de jogo que jamais esquecerei, e julgo que o mesmo se passará com os adeptos das duas equipas, é o da final da Champions League de 1999, entre o Manchester United e o Bayern de Munique. O jogo disputava-se no Campo Nou de Barcelona. Nas bancadas havia mais de 90 000 espectadores, numa atmosfera fantástica. O Bayern tinha marcado o 1 a 0 por Mario Basler logo no início do jogo e o desafio tinha decorrido sem problemas de maior, com os alemães a controlar o jogo e os ingleses a não conseguir criar ocasiões de golo. Aliás, tinham sido precisamente os alemães do Bayern a mostrar-se mais perigosos, mandando uma bola à trave e outra ao poste, e obrigando o guarda-redes dos Red Devils, Schmeichel, a efectuar defesas decisivas. Nas bancadas, os adeptos alemães, em número inferior aos adeptos ingleses, já começavam a festejar sentindo o resultado na mão. A poucos segundos do fim do jogo comunico ao árbitro de reserva, Fiorenzo Treossi, que tenciono conceder três minutos de tempo suplementar. A contagem do tempo suplementar é feita com base no número de substituições efectuadas, normalmente trinta segundos para cada uma delas, dos jogadores que se magoaram, obrigando por isso à entrada em campo da maca, habitualmente um minuto para cada um, e de mais algumas perdas de tempo ocorridas no desenrolar da partida. Ao 45.o minuto de cada parte, o quarto homem, utilizando um painel automático, mostra a todos a duração do tempo suplementar. Naquela circunstância, e que eu me lembre, começaram os três minutos mais incríveis da história do futebol. Passados cerca de vinte segundos, um cruzamento da esquerda é desviado para canto por Effenberg e, na execução do pontapé de canto que se seguiu, Schemeichel veio à grande área adversária para também participar na desesperada busca do golo do empate. A bola é rechaçada de maneira algo atabalhoada para fora da grande área por um defensor alemão e é recolhida por Giggs, que do limite tenta um remate pelo ar que se transforma numa assistência para Sheringam, o qual marca golo desviando perfeitamente a bola para um canto indefensável da baliza de Khan. Enquanto os jogadores ingleses exultam, eu regresso ao meio-campo pensando para comigo: ? era só o que me faltava queres ver que ainda acontece alguma coisa e o jogo se transforma numa confusão que azar!? De facto, aquele empate não era o máximo a que aspirávamos. Explico-me melhor: no que nos diz respeito, o jogo tinha corrido muito bem, não ocorrera nenhum episódio duvidoso, nenhum protesto, o resultado parecia justo e, portanto, nenhum problema para nós, o máximo a que um árbitro aspira em qualquer jogo. Com o empate, o jogo tinha de ir a prolongamento e, portanto, era tudo posto novamente em discussão, porque se nos trinta minutos que se seguissem acontecesse algum episódio discutível, se tomássemos uma decisão errada, tudo aquilo que tínhamos feito de bom durante o tempo regulamentar não teria valido de nada. Mas o golo do empate já estava feito e, por isso, era preciso ir em frente. O jogo recomeça e a bola fica quase imediatamente na posse do Manchester e, com um pontapé de cinquenta metros, é lançada na direcção de Solskjaer, enfrentado por Koffour que lhe desvia a bola novamente para canto. A execução do pontapé fica a cargo de Beckham quando já estamos no minuto 47 e 15 segundos, ou seja, quando já só faltam 45 segundos para o fim do jogo. A bola é lançada alta para o centro da área, toque de cabeça de Sheringam e desvio para golo de Solskjaer, a cerca de dois metros da baliza. Tenho a certeza de que nenhum dos presentes nessa noite no Campo Nou poderá esquecer o estampido explosivo dos adeptos ingleses, um rugido tremendo. E, depois, as caras dos jogadores: os do Manchester United loucos de alegria e a festejar abraçando-se, os alemães como que estupidificados, de olhos perdidos no vazio, incrédulos de terem visto fugir-lhes da mão a vitória em apenas dois minutos. Muitos deles deitados no chão, como que esvaziados de todas as energias físicas e psicológicas. Mas ainda havia uma dezena de segundos de jogo e, como cantava Freddie Mercury, ?the show must go on?, o espectáculo tinha de continuar. E então aproximo-me de Effenberg, que estava deitado no relvado, e com uma mão bato-lhe no peito, depois procuro levantar em peso Koffour, desfeito em lágrimas e, por fim, o jogo recomeça. Passam poucos segundos e apito para o fim do jogo. E de novo as mesmas cenas: os ingleses a exultar correndo como loucos e os alemães em lágrimas, uns de joelhos, outros de cara metida no relvado. Quem poderia pensar num epílogo do género, apenas alguns minutos antes? Mas o futebol também é isto: é capaz de fazer passar da alegria ao desespero num brevíssimo espaço de tempo, de transformar um jogo quase normal naquela que bem pode ser considerada a final do século. Para muitas pessoas, a relação que mantêm com os próprios cabelos é muito sentida e importante. Enquanto os têm prestam-lhes muita atenção, tornando-os quase uma modalidade de expressão da própria personalidade, do próprio estado de espírito. EU E OS MEUS LINDOS CABELOS Quando, pelo contrário, se começa a perder os cabelos, faz-se de tudo para limitar os danos, recorrendo a tratamentos e a curas que por vezes produzem benefícios apenas a quem vende determinados produtos que de milagroso não têm mesmo nada. E, por fim, quando a situação se torna irreversível, alguém recorre ao transplante ou à peruca. Embora respeite a opinião e as escolhas de cada um, acho muito interessante que desde há alguns anos a esta parte haja cada vez mais pessoas que, perante uma calvície pronunciada, recorrem simplesmente ao barbeiro para raparem a cabeça por completo. De facto, considero muito mais bonita e fascinante uma cabeça tipo 'bola de bilhar' do que certos fingimentos que não conseguem camuflar mesmo nada. Já disse que, do ponto de vista da vida do dia-a-dia, perder os cabelos não representou para mim um problema e, neste sentido, garanto que me sinto realmente muito feliz. Comecei com os primeiros sinais de alopecia aos vinte e quatro anos de idade, quando o meu carácter e a minha personalidade já estavam formados. Teria sido, talvez, mais difícil se me tivesse acontecido antes, eventualmente quando era um rapazito. É difícil explicar a uma criança por que razão não é igual aos colegas da mesma idade, e infelizmente ninguém é mais 'cruel' do que as crianças quando sublinham as diferenças ou as imperfeições físicas. De modo que, a figura de alguém que, apesar da falta de cabelos, conseguiu ter 'sucesso', pode representar um ponto de referência para um pai cujo filho sofra de alopecia. Pode ser um exemplo muito útil para convencer uma criança que não quer sair de casa sem chapéu na cabeça, para esconder aquilo de que se envergonha. Demonstra que, pelo contrário, não há nada de estranho no facto de não se ter cabelo e que é possível estar de cabeça erguida sob o olhar de milhões de pessoas. São muitos os progenitores, em particular as mães, que me escrevem para me falarem dos problemas dos seus filhos e me agradecem pela ajuda que, indirecta e involuntariamente, lhes consigo dar. Sem a ter experimentado na primeira pessoa, não se consegue compreender o quanto a alopecia pode condicionar a vida das pessoas. Ser considerado um ponto de referência para muitas dessas pessoas é algo que muito me apraz e consola por todas aquelas vezes que ouvi chamarem-me 'careca'. Por outro lado, é evidente que também se torna complicado explicar a tais crianças por que razão muita gente troça tão facilmente de uma doença que está muito mais espalhada do que parece. Talvez valesse a pena reflectir um pouco mais e, porventura, renunciar a eventuais gargalhadas fáceis e ridículas, fruto de piadas banais, e ter mesmo a coragem de pedir desculpa quando, irreflectidamente, se ofendeu alguém. Mas um árbitro calvo será mesmo capaz de desempenhar a sua função? Pode entrar em campo normalmente ou, pelo contrário, o facto de não ter cabelos representa algo de inultrapassável que o limita ou mesmo impede de realizar a sua actividade? Actualmente, a resposta a esta pergunta é mais do que óbvia, mas não o era em 1984, ano em que os meus cabelos me disseram adeus para sempre. No meu caso, de facto, a solução não foi assim tão simples e imediata. Aliás, inicialmente chegou mesmo a ser-me concedida uma espécie de 'período de descanso', para ver se, entretanto, os cabelos voltariam a crescer, mas depois, visto o carácter irreversível da minha situação, decidiu-se que eu iria ser posto à prova. E a prova foi mandar-me arbitrar um desafio na cidade de Latina, onde o público era particularmente numeroso, 4000-5000 pessoas, considerando que se tratava de um jogo do campeonato inter-regional, o actual Campeonato Nazionale Dilettanti, e que, portanto, representava um bom teste. Provavelmente, havia alguém que temia que o meu aspecto pudesse suscitar hilaridade. Mas, pelo contrário, a reacção do público foi normalíssima. Os espectadores estavam ali para ver um jogo de futebol e foi o que fizeram, sem se preocuparem com o comprimento dos cabelos do árbitro. E desde então, felizmente, tenho tomado inúmeros duches sem usar champô.